Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Carlos Drummond de Andrade
Lorena
Lorena, contemplado com malícia,
deixa-se estar, languidamente efebo.
Bailam, sob a atração de luz ambígua,
em seu redor, mutucas de desejo.
E Lorena sorri, sua cabeça
responde não aos gestos insistentes.
Que matéria excitante para o arpejo
noturno, antes-depois da penitência!
Dormir sonham os Grandes com Lorena,
mas onde? quando? se este ano letivo
dura uma eternidade, pelo menos,
e depois vem o tempo, o tempo livre
de viajar na coxa das mulheres,
e Lorena se esgarça na lembrança?
deixa-se estar, languidamente efebo.
Bailam, sob a atração de luz ambígua,
em seu redor, mutucas de desejo.
E Lorena sorri, sua cabeça
responde não aos gestos insistentes.
Que matéria excitante para o arpejo
noturno, antes-depois da penitência!
Dormir sonham os Grandes com Lorena,
mas onde? quando? se este ano letivo
dura uma eternidade, pelo menos,
e depois vem o tempo, o tempo livre
de viajar na coxa das mulheres,
e Lorena se esgarça na lembrança?
775
Carlos Drummond de Andrade
A Decadência do Ocidente
No ano de 18,
plangem veteranos;
“Nosso jornalzinho
não é mais aquele.
Foi-se a Academia
de jovens talentos.
Os restantes árcades
jogam futebol.
Agora, estilistas,
só na arte do pé.
Somem os poetas,
vão-se os prosadores.
Não há mais cultura
e, se depender
dessa geração
de racha-piões,
que irá restar
do nosso idioma
e nossa tradição?
Ah, nos velhos tempos
isso aqui andava
cheio dos Camões,
dos Ruis, dos Bilacs
e dos Castros Lopes...”
plangem veteranos;
“Nosso jornalzinho
não é mais aquele.
Foi-se a Academia
de jovens talentos.
Os restantes árcades
jogam futebol.
Agora, estilistas,
só na arte do pé.
Somem os poetas,
vão-se os prosadores.
Não há mais cultura
e, se depender
dessa geração
de racha-piões,
que irá restar
do nosso idioma
e nossa tradição?
Ah, nos velhos tempos
isso aqui andava
cheio dos Camões,
dos Ruis, dos Bilacs
e dos Castros Lopes...”
1 068
Carlos Drummond de Andrade
Ombro
Se triste é ir para o colégio distante,
fica mais triste ainda
ao ver Sebastião Ramos chorando no ombro de meu pai:
“Estou perdido! Nunca mais levanto!
A quebra dessa casa é a minha morte”.
O fragor do trem martela seu desespero,
ou seu desespero rilha nos trilhos
e, na caldeira, queima?
Ei, Sebastião Ramos, faz assim não na minha frente!
Também estou perdido: morte no internato.
Morrer vivo o ano inteiro é mais morrer
embora ninguém perceba
e ficarei sem ombro
para acalentar a minha morte.
Ó Sebastião Ramos, você roubou meu ombro.
fica mais triste ainda
ao ver Sebastião Ramos chorando no ombro de meu pai:
“Estou perdido! Nunca mais levanto!
A quebra dessa casa é a minha morte”.
O fragor do trem martela seu desespero,
ou seu desespero rilha nos trilhos
e, na caldeira, queima?
Ei, Sebastião Ramos, faz assim não na minha frente!
Também estou perdido: morte no internato.
Morrer vivo o ano inteiro é mais morrer
embora ninguém perceba
e ficarei sem ombro
para acalentar a minha morte.
Ó Sebastião Ramos, você roubou meu ombro.
1 263
Carlos Drummond de Andrade
Ombro
Se triste é ir para o colégio distante,
fica mais triste ainda
ao ver Sebastião Ramos chorando no ombro de meu pai:
“Estou perdido! Nunca mais levanto!
A quebra dessa casa é a minha morte”.
O fragor do trem martela seu desespero,
ou seu desespero rilha nos trilhos
e, na caldeira, queima?
Ei, Sebastião Ramos, faz assim não na minha frente!
Também estou perdido: morte no internato.
Morrer vivo o ano inteiro é mais morrer
embora ninguém perceba
e ficarei sem ombro
para acalentar a minha morte.
Ó Sebastião Ramos, você roubou meu ombro.
fica mais triste ainda
ao ver Sebastião Ramos chorando no ombro de meu pai:
“Estou perdido! Nunca mais levanto!
A quebra dessa casa é a minha morte”.
O fragor do trem martela seu desespero,
ou seu desespero rilha nos trilhos
e, na caldeira, queima?
Ei, Sebastião Ramos, faz assim não na minha frente!
Também estou perdido: morte no internato.
Morrer vivo o ano inteiro é mais morrer
embora ninguém perceba
e ficarei sem ombro
para acalentar a minha morte.
Ó Sebastião Ramos, você roubou meu ombro.
1 263
Carlos Drummond de Andrade
Mestre
Arduíno Bolivar, o teu latim
não foi, não foi perdido para mim.
Muito aprendi contigo: a vida é um verso
sem sentido talvez, mas com que música!
não foi, não foi perdido para mim.
Muito aprendi contigo: a vida é um verso
sem sentido talvez, mas com que música!
1 448
Carlos Drummond de Andrade
Abrãozinho
Largou a venda, largou o dinheiro,
largou a amante sem se despedir.
Foi para o Rio fazer o quê?
Sentar no banco em frente ao Supremo
Tribunal Federal,
estourar a tiro a própria cabeça,
fazendo justiça
a si mesmo, crime
ignorado até de si mesmo.
A carta de suicida
— “Me firmo Abraão Elias” —
nada esclarece.
largou a amante sem se despedir.
Foi para o Rio fazer o quê?
Sentar no banco em frente ao Supremo
Tribunal Federal,
estourar a tiro a própria cabeça,
fazendo justiça
a si mesmo, crime
ignorado até de si mesmo.
A carta de suicida
— “Me firmo Abraão Elias” —
nada esclarece.
910
Carlos Drummond de Andrade
Começar Bem o Dia
A missa matinal, obrigação
de fervor maquinal.
Em fila religiosa penetramos
na haendeliana atmosfera do órgão,
no incenso do recinto.
Cada um de nós pensa em outra coisa
diferente de Deus.
Ai, nosso Deus compulsório!
Proibido olhar o fundo da capela
onde rezam as moças de Friburgo,
as inacessíveis, castelanárias
moças friorentas de Friburgo.
Alguma delas me vê, sabe que existo?
Um dia notará que penso nela,
sem que eu saiba sequer em qual eu penso?
Se acaso, prosternado,
eu virasse o pescoço e vislumbrasse
entre rostos o rosto que me espera
e ele me sorrisse,
a vida era de súbito radiante,
o colégio era a Grécia, a Pérsia, o Não Narrável.
Baixo, entanto, a cabeça,
ouço a voz do oficiante, monocórdia.
Convida-me a pastar arrependimento
de faltas nem de longe cometidas,
obscuros crimes em ser.
Moça alguma verei no só relance
de entrada e saída, em fila cega.
de fervor maquinal.
Em fila religiosa penetramos
na haendeliana atmosfera do órgão,
no incenso do recinto.
Cada um de nós pensa em outra coisa
diferente de Deus.
Ai, nosso Deus compulsório!
Proibido olhar o fundo da capela
onde rezam as moças de Friburgo,
as inacessíveis, castelanárias
moças friorentas de Friburgo.
Alguma delas me vê, sabe que existo?
Um dia notará que penso nela,
sem que eu saiba sequer em qual eu penso?
Se acaso, prosternado,
eu virasse o pescoço e vislumbrasse
entre rostos o rosto que me espera
e ele me sorrisse,
a vida era de súbito radiante,
o colégio era a Grécia, a Pérsia, o Não Narrável.
Baixo, entanto, a cabeça,
ouço a voz do oficiante, monocórdia.
Convida-me a pastar arrependimento
de faltas nem de longe cometidas,
obscuros crimes em ser.
Moça alguma verei no só relance
de entrada e saída, em fila cega.
1 121
Carlos Drummond de Andrade
Verso Proibido
Há os que assobiam Meu Boi Morreu,
os que cantarolam Luar do Sertão.
O 48, da Divisão dos Médios,
embala o pensamento repetindo:
Santo Inácio de Loiola,
fundador desta gaiola
Vai distraído pelo pátio.
Escutam-no, levam-no à cafua.
Em vão tenta explicar
que o verso não é seu,
é de todo mundo,
é de ninguém.
Fica em solidão o tempo necessário
para aprender, contrito,
que com Santo Inácio não se brinca
nesta gaiola.
os que cantarolam Luar do Sertão.
O 48, da Divisão dos Médios,
embala o pensamento repetindo:
Santo Inácio de Loiola,
fundador desta gaiola
Vai distraído pelo pátio.
Escutam-no, levam-no à cafua.
Em vão tenta explicar
que o verso não é seu,
é de todo mundo,
é de ninguém.
Fica em solidão o tempo necessário
para aprender, contrito,
que com Santo Inácio não se brinca
nesta gaiola.
1 160
Carlos Drummond de Andrade
Verso Proibido
Há os que assobiam Meu Boi Morreu,
os que cantarolam Luar do Sertão.
O 48, da Divisão dos Médios,
embala o pensamento repetindo:
Santo Inácio de Loiola,
fundador desta gaiola
Vai distraído pelo pátio.
Escutam-no, levam-no à cafua.
Em vão tenta explicar
que o verso não é seu,
é de todo mundo,
é de ninguém.
Fica em solidão o tempo necessário
para aprender, contrito,
que com Santo Inácio não se brinca
nesta gaiola.
os que cantarolam Luar do Sertão.
O 48, da Divisão dos Médios,
embala o pensamento repetindo:
Santo Inácio de Loiola,
fundador desta gaiola
Vai distraído pelo pátio.
Escutam-no, levam-no à cafua.
Em vão tenta explicar
que o verso não é seu,
é de todo mundo,
é de ninguém.
Fica em solidão o tempo necessário
para aprender, contrito,
que com Santo Inácio não se brinca
nesta gaiola.
1 160
Carlos Drummond de Andrade
Artistas Adolescentes
O piano de Mário,
o violoncelo de Luís Eduardo,
o violino de Clibas,
quem, entre Grandes, Médios e Menores,
suplantará?
O piano, talvez, de Luís Cintra?
O violoncelo de Henrique?
O violino de Vítor Saraiva?
Alguém, ainda, que vai nascer?
Empate. Empate. Empate. O jeito
é fazer com que toquem sempre aos pares,
imbatíveis.
o violoncelo de Luís Eduardo,
o violino de Clibas,
quem, entre Grandes, Médios e Menores,
suplantará?
O piano, talvez, de Luís Cintra?
O violoncelo de Henrique?
O violino de Vítor Saraiva?
Alguém, ainda, que vai nascer?
Empate. Empate. Empate. O jeito
é fazer com que toquem sempre aos pares,
imbatíveis.
1 128
Carlos Drummond de Andrade
A Moça Ferrada
Falam tanto dessa moça. Ninguém viu,
todos juram.
Cada qual conta coisa diferente,
e todas concordantes.
Dizem que à noite, ela. Ela o quê?
E com quem? Com viajantes
que somem sem rastro
gabando no caminho
os espasmos secretos (tão públicos) da moça.
Sobe a moça
a ladeira da igreja
para a reza de todas as tardes.
De branco perfeitíssimo,
alta, superior, inabordável
(luxúria de mil-folhas sob o véu,
murmura alguém).
À noite é que acontecem coisas
no quarto escuro. Ganidos de prazer,
escutados por quem? se ninguém passa
na rua de altas horas-muro?
Pouco importa, a moça está marcada,
marca de rês na anca, ferro em brasa
de língua popular.
todos juram.
Cada qual conta coisa diferente,
e todas concordantes.
Dizem que à noite, ela. Ela o quê?
E com quem? Com viajantes
que somem sem rastro
gabando no caminho
os espasmos secretos (tão públicos) da moça.
Sobe a moça
a ladeira da igreja
para a reza de todas as tardes.
De branco perfeitíssimo,
alta, superior, inabordável
(luxúria de mil-folhas sob o véu,
murmura alguém).
À noite é que acontecem coisas
no quarto escuro. Ganidos de prazer,
escutados por quem? se ninguém passa
na rua de altas horas-muro?
Pouco importa, a moça está marcada,
marca de rês na anca, ferro em brasa
de língua popular.
1 298
Carlos Drummond de Andrade
A Condenada
Impossível casar a moça
bela branca rica
na terra onde príncipes não saltam
do armorial para pedir-lhe a mão
jamais.
Passam cometas de olhar astuto,
canastras sortidas.
Irão comprar a moça, mercadoria
sem preço na Terra?
Jamais.
Passam fazendeiros, botas esculpidas
no estrume, riso ruidoso
de dentes de ouro.
Cuidam levar a moça para saldar
suas hipotecas?
Jamais.
Passam mulatos de fina lábia
e mil apólices federais.
Como deixar que o sangue cruze
na alva barriga de alvas origens?
Jamais.
Condena-se a moça ao casamento
consigo mesma
na noite alvíssima
eternalmente.
bela branca rica
na terra onde príncipes não saltam
do armorial para pedir-lhe a mão
jamais.
Passam cometas de olhar astuto,
canastras sortidas.
Irão comprar a moça, mercadoria
sem preço na Terra?
Jamais.
Passam fazendeiros, botas esculpidas
no estrume, riso ruidoso
de dentes de ouro.
Cuidam levar a moça para saldar
suas hipotecas?
Jamais.
Passam mulatos de fina lábia
e mil apólices federais.
Como deixar que o sangue cruze
na alva barriga de alvas origens?
Jamais.
Condena-se a moça ao casamento
consigo mesma
na noite alvíssima
eternalmente.
1 185
Carlos Drummond de Andrade
O Doutor Ausente
Nosso delegado
não é de prender.
Prefere, sossegado,
ler.
Clássicos latinos,
velhos portugueses.
A vida ficou sendo
estante.
Entre Virgílio e Fernão Lopes
a garrafa clara
cheia vazia cheia
contém o mundo retificado.
Nosso delegado
nasceu para outros fins
ausentes do viável.
Não escuta o cabo
dizer que na Rua de Baixo
acontece o diabo.
A estante, a garrafa semioculta,
a cavalgada dos possíveis impossíveis.
Matou! Roubou! Defloramento…
Deixa pra lá.
Deixa bem pra lá de Ovídio,
enquanto a bela (ou bela foi um dia) Elzira
lhe afaga os bigodes desenganados.
O delegado não prende.
O delegado está preso
à estante repetida, à sempre garrafa,
ao colo, à coleira
de Elzirardente consolatória.
não é de prender.
Prefere, sossegado,
ler.
Clássicos latinos,
velhos portugueses.
A vida ficou sendo
estante.
Entre Virgílio e Fernão Lopes
a garrafa clara
cheia vazia cheia
contém o mundo retificado.
Nosso delegado
nasceu para outros fins
ausentes do viável.
Não escuta o cabo
dizer que na Rua de Baixo
acontece o diabo.
A estante, a garrafa semioculta,
a cavalgada dos possíveis impossíveis.
Matou! Roubou! Defloramento…
Deixa pra lá.
Deixa bem pra lá de Ovídio,
enquanto a bela (ou bela foi um dia) Elzira
lhe afaga os bigodes desenganados.
O delegado não prende.
O delegado está preso
à estante repetida, à sempre garrafa,
ao colo, à coleira
de Elzirardente consolatória.
1 098
Carlos Drummond de Andrade
Ordem
Quando a folhinha de Mariana
exata informativa santificada
regulava o tempo, as colheitas,
os casamentos e até a hora de morrer,
o mundo era mais inteligível,
pairava certa graça ao viver.
Hoje quem é que pode?
exata informativa santificada
regulava o tempo, as colheitas,
os casamentos e até a hora de morrer,
o mundo era mais inteligível,
pairava certa graça ao viver.
Hoje quem é que pode?
677
Carlos Drummond de Andrade
A Alfredo Duval
Meu santeiro anarquista na varanda
da casinha do Bongue, maquinando
revoluções ao tempo em que modelas
o Menino Jesus, a Santa Virgem
e burrinhos de todas as lapinhas;
aventureiro em roupa de operário,
que me levas à Ponte dos Suspiros
e ao Pátio dos Milagres, no farrancho
de Michel Zevaco, dos Pardaillan,
Buridan, Triboulet (e de Nick Carter),
ouço-te a rouca voz chamar Eurico
de nazarena barba caprichada
e retê-lo a posar horas e horas
para a imagem de Cristo em que se afirme
tua ânsia artesanal de perdurar.
Perdura, no frontispício do Teatro,
a águia que lá fixaste sobre o globo
azul da fama, no total desmaio
do teu, do nosso tempo itabirano?
Quem sabe de teus santos e teus bichos,
de tua capa e espada imaginária,
quando vagões e caminhões desterram
mais que nosso minério, nossa alma?
Eu menino, tu homem: uma aliança
faz-se, no tempo, à custa de gravuras
de semanais fascículos românticos…
da casinha do Bongue, maquinando
revoluções ao tempo em que modelas
o Menino Jesus, a Santa Virgem
e burrinhos de todas as lapinhas;
aventureiro em roupa de operário,
que me levas à Ponte dos Suspiros
e ao Pátio dos Milagres, no farrancho
de Michel Zevaco, dos Pardaillan,
Buridan, Triboulet (e de Nick Carter),
ouço-te a rouca voz chamar Eurico
de nazarena barba caprichada
e retê-lo a posar horas e horas
para a imagem de Cristo em que se afirme
tua ânsia artesanal de perdurar.
Perdura, no frontispício do Teatro,
a águia que lá fixaste sobre o globo
azul da fama, no total desmaio
do teu, do nosso tempo itabirano?
Quem sabe de teus santos e teus bichos,
de tua capa e espada imaginária,
quando vagões e caminhões desterram
mais que nosso minério, nossa alma?
Eu menino, tu homem: uma aliança
faz-se, no tempo, à custa de gravuras
de semanais fascículos românticos…
1 640
Carlos Drummond de Andrade
Conclusão
Que cerros mais altos,
vista mais calmante,
sítios mais benignos,
nuvens mais de sonho,
fontes mais pacíficas,
gente mais cordata,
bichos mais tranquilos,
noites mais sossego,
sempiternamente
vida mais redonda…
vida mais difícil.
vista mais calmante,
sítios mais benignos,
nuvens mais de sonho,
fontes mais pacíficas,
gente mais cordata,
bichos mais tranquilos,
noites mais sossego,
sempiternamente
vida mais redonda…
vida mais difícil.
1 140
Carlos Drummond de Andrade
Conclusão
Que cerros mais altos,
vista mais calmante,
sítios mais benignos,
nuvens mais de sonho,
fontes mais pacíficas,
gente mais cordata,
bichos mais tranquilos,
noites mais sossego,
sempiternamente
vida mais redonda…
vida mais difícil.
vista mais calmante,
sítios mais benignos,
nuvens mais de sonho,
fontes mais pacíficas,
gente mais cordata,
bichos mais tranquilos,
noites mais sossego,
sempiternamente
vida mais redonda…
vida mais difícil.
1 140
Carlos Drummond de Andrade
Procissão do Encontro
Lá vai a procissão da igreja do Rosário.
Lá vem a procissão da igreja da Saúde.
O encontro é em frente à casa de João Rosa.
Encontro de Mãe e Filho
trágicos, imóveis nos andores.
Ao ar livre
o púlpito de púrpura drapeja
no entardecer da serra fria.
A voz censura ternamente o Homem
que se deixa imolar por muito amor
e do amor materno se desprende.
Não há nada a fazer para impedi-lo?
A terra abre mão de seu resgate
para salvar o Deus que quis salvá-la.
O ferro da cidade se comove,
não o peito de Cristo.
E o roxo manto, as lágrimas de sangue,
a cruz, as sete espadas
vão navegando sobre ombros
pela rua-teatro, lentamente.
Lá vem a procissão da igreja da Saúde.
O encontro é em frente à casa de João Rosa.
Encontro de Mãe e Filho
trágicos, imóveis nos andores.
Ao ar livre
o púlpito de púrpura drapeja
no entardecer da serra fria.
A voz censura ternamente o Homem
que se deixa imolar por muito amor
e do amor materno se desprende.
Não há nada a fazer para impedi-lo?
A terra abre mão de seu resgate
para salvar o Deus que quis salvá-la.
O ferro da cidade se comove,
não o peito de Cristo.
E o roxo manto, as lágrimas de sangue,
a cruz, as sete espadas
vão navegando sobre ombros
pela rua-teatro, lentamente.
1 042
Carlos Drummond de Andrade
O Melhor Dos Tempos
Bailes bailes bailes
em nossa belle époque.
Em casa de João Torres
há saraus constantes.
Na de Chico Cândido,
na de Emílio Novais,
na de Zé Carvalho,
a valsa espirala
suas curvas lentas.
Sempre a serenata
prateia o silêncio
dos casarões altivos.
A flauta flautíssima
de Mário Terceiro
faz terremotos líricos.
Vavá, Clínton, Astolfo,
mais Totoque e Lilingue
rogam suavemente
que Stela abra a janela
e abrigue corações
transidos de frio,
desfeitos em música.
Quem ousa, noturno,
furtar jabuticabas
em quintais caninos,
é para deixá-las,
votivas,
no peitoril das deusas
de boa família,
anonimamente.
Já de madrugada
os meigos ladrões
e magos cantores
lá vão degustar
os pastéis de queijo
de João Bicudo,
o licor discutível
de Zé Pereira.
Manhã rósea, passa
o batalhão infantil
(Minervino comanda)
e bate continência
às gentis moçoilas.
Tudo é mimo, graça.
Belle époque é fato
da história mineira.
em nossa belle époque.
Em casa de João Torres
há saraus constantes.
Na de Chico Cândido,
na de Emílio Novais,
na de Zé Carvalho,
a valsa espirala
suas curvas lentas.
Sempre a serenata
prateia o silêncio
dos casarões altivos.
A flauta flautíssima
de Mário Terceiro
faz terremotos líricos.
Vavá, Clínton, Astolfo,
mais Totoque e Lilingue
rogam suavemente
que Stela abra a janela
e abrigue corações
transidos de frio,
desfeitos em música.
Quem ousa, noturno,
furtar jabuticabas
em quintais caninos,
é para deixá-las,
votivas,
no peitoril das deusas
de boa família,
anonimamente.
Já de madrugada
os meigos ladrões
e magos cantores
lá vão degustar
os pastéis de queijo
de João Bicudo,
o licor discutível
de Zé Pereira.
Manhã rósea, passa
o batalhão infantil
(Minervino comanda)
e bate continência
às gentis moçoilas.
Tudo é mimo, graça.
Belle époque é fato
da história mineira.
585
Carlos Drummond de Andrade
Velhaco
Zico Tanajura está um pavão de orgulho
no dólmã de brim cáqui.
Vendeu sua terra sem plantação,
sem criação, aguada, benfeitoria,
terra só de ferro, aridez
que o verde não consola.
E não vendeu a qualquer um:
vendeu a Mr. Jones,
distinto representante de Mr. Hays Hammond,
embaixador de Tio Sam em Londres-belle-époque.
Zico Tanajura passou a manta em Suas Excelências.
De alegria,
vai até fazer a barba no domingo.
no dólmã de brim cáqui.
Vendeu sua terra sem plantação,
sem criação, aguada, benfeitoria,
terra só de ferro, aridez
que o verde não consola.
E não vendeu a qualquer um:
vendeu a Mr. Jones,
distinto representante de Mr. Hays Hammond,
embaixador de Tio Sam em Londres-belle-époque.
Zico Tanajura passou a manta em Suas Excelências.
De alegria,
vai até fazer a barba no domingo.
1 209
Carlos Drummond de Andrade
Visita À Casa de Tatá
A casa de Tatá é um silêncio perto da igreja.
Silêncio de lençóis engomados
para sua única pessoa.
A viuvez tão antiga que virou de nascença
derrama brancura em tudo.
O presépio de Tatá emerge de Belém como flor
cheirando a cânfora e alfazema.
Na ordem dos anjos e animais, a ordem estrita
de Deus.
O melhor da casa é a arca,
o melhor da arca, suspiros
feitos da brancura mesma de Tatá,
brancura surda.
Silêncio de lençóis engomados
para sua única pessoa.
A viuvez tão antiga que virou de nascença
derrama brancura em tudo.
O presépio de Tatá emerge de Belém como flor
cheirando a cânfora e alfazema.
Na ordem dos anjos e animais, a ordem estrita
de Deus.
O melhor da casa é a arca,
o melhor da arca, suspiros
feitos da brancura mesma de Tatá,
brancura surda.
1 358
Carlos Drummond de Andrade
Hortênsia
A professora me ensina
que Hortênsia é saxifragácea.
Mas no moreno de Hortênsia,
na cabeleira de Hortênsia,
no busto e buço de Hortênsia,
o que eu diviso é uma graça
mais estranha que a palavra
saxifragácea.
Hortênsia, jardim trancado,
onde sei que o namorado
percorre umbrosos canteiros,
contando depois pra gente.
Oi namorada dos outros,
oi outros que não se calam,
fazem só para contar!
O namorado de Hortênsia
me ensina coisas diversas
do ensino da escola pública.
Eu sei, eu percebo, eu sinto
que Hortênsia (existe a palavra?)
é sexifragrância.
que Hortênsia é saxifragácea.
Mas no moreno de Hortênsia,
na cabeleira de Hortênsia,
no busto e buço de Hortênsia,
o que eu diviso é uma graça
mais estranha que a palavra
saxifragácea.
Hortênsia, jardim trancado,
onde sei que o namorado
percorre umbrosos canteiros,
contando depois pra gente.
Oi namorada dos outros,
oi outros que não se calam,
fazem só para contar!
O namorado de Hortênsia
me ensina coisas diversas
do ensino da escola pública.
Eu sei, eu percebo, eu sinto
que Hortênsia (existe a palavra?)
é sexifragrância.
1 420
Carlos Drummond de Andrade
Imprensa
Nossos jornais sorriem para a vida.
Trescalam doçura nos cabeçalhos:
A Primavera. O Jasmim.
Mas surgem humoristas no jardim:
O Tira-Prosa.
E pasquineiros violentíssimos:
O Raio.
O Raio irrompe antes da missa de domingo
por baixo de todas as portas.
E sidera. A manhã
ia ser de porcelana-rosa, ficou
paisagem de cacos
e dores revoltadas.
Onde estão Artur e Teófilo,
onde está Francisco Guilherme?
Estes fundaram a grande imprensa
na rua pequena.
The Times de Londres?
Le Temps de Paris?
O Tempo da vila pobre,
onde só havia tempo, não havia notícias,
morreu de falta de assunto.
Trescalam doçura nos cabeçalhos:
A Primavera. O Jasmim.
Mas surgem humoristas no jardim:
O Tira-Prosa.
E pasquineiros violentíssimos:
O Raio.
O Raio irrompe antes da missa de domingo
por baixo de todas as portas.
E sidera. A manhã
ia ser de porcelana-rosa, ficou
paisagem de cacos
e dores revoltadas.
Onde estão Artur e Teófilo,
onde está Francisco Guilherme?
Estes fundaram a grande imprensa
na rua pequena.
The Times de Londres?
Le Temps de Paris?
O Tempo da vila pobre,
onde só havia tempo, não havia notícias,
morreu de falta de assunto.
1 170
Carlos Drummond de Andrade
Cultura Francesa
Com mestre Emílio aprendi
esse pouco de francês
que deu para ler Jarry.
Murilo, diabo na aula,
tinha gestos impossíveis,
que nem macaco na jaula.
Mestre Emílio, tão severo
não via no último banco
o aluno de moral zero.
Os verbos irregulares
saltavam do meu Halbout,
perdiam-se pelos ares.
Nunca mais os encontrei…
Talvez Brigitte Bardot
me ensinasse o que não sei.
esse pouco de francês
que deu para ler Jarry.
Murilo, diabo na aula,
tinha gestos impossíveis,
que nem macaco na jaula.
Mestre Emílio, tão severo
não via no último banco
o aluno de moral zero.
Os verbos irregulares
saltavam do meu Halbout,
perdiam-se pelos ares.
Nunca mais os encontrei…
Talvez Brigitte Bardot
me ensinasse o que não sei.
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