Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Carlos Drummond de Andrade
O Correio de Amigos É Doçura
A Joaquim-Francisco Coelho, para informá-lo de um carinhoso silêncio
O correio de amigos é doçura
que eu cultivo de forma negativa.
As cartas vão chegando, e uma festiva
sensação de amizade mais se apura.
Mas eis que, ao responder, a tentativa
de exprimir esse gosto se afigura
empenho vão, pois que toda a finura
do sentimento escapa à letra viva.
Joaquim-Francisco, ideal correspondente
que ao belo Van de Velde acrescentaste
a mensagem postal mais excelente,
perdoa a quem confessa (pois não mente):
o que a pena emudece por desgaste
no coração floresce plenamente.
O correio de amigos é doçura
que eu cultivo de forma negativa.
As cartas vão chegando, e uma festiva
sensação de amizade mais se apura.
Mas eis que, ao responder, a tentativa
de exprimir esse gosto se afigura
empenho vão, pois que toda a finura
do sentimento escapa à letra viva.
Joaquim-Francisco, ideal correspondente
que ao belo Van de Velde acrescentaste
a mensagem postal mais excelente,
perdoa a quem confessa (pois não mente):
o que a pena emudece por desgaste
no coração floresce plenamente.
866
António Ramos Rosa
Um No Outro
Não aceito o que ainda não tem nome. Escuto
a noite de uma árvore, um ventre sem umbigo.
Nada desejo e desejo o imóvel fundo.
Quero conhecer a pele nua e o sol da vulva.
Que a palavra respire e seja planície.
Viver é o teu ventre na frescura do começo.
Cada parcela do teu corpo expande o sangue solar.
Do fundo de mim tu caminhas para mim.
Que delícia estender-me até ao teu nome cego!
No triângulo perfeito somos um no outro.
Inundo-te como uma lava como um vento de vertigem.
Em ti penetro até ao fundo, até à perda,
ó corpo incandescente!
a noite de uma árvore, um ventre sem umbigo.
Nada desejo e desejo o imóvel fundo.
Quero conhecer a pele nua e o sol da vulva.
Que a palavra respire e seja planície.
Viver é o teu ventre na frescura do começo.
Cada parcela do teu corpo expande o sangue solar.
Do fundo de mim tu caminhas para mim.
Que delícia estender-me até ao teu nome cego!
No triângulo perfeito somos um no outro.
Inundo-te como uma lava como um vento de vertigem.
Em ti penetro até ao fundo, até à perda,
ó corpo incandescente!
1 113
António Ramos Rosa
Um No Outro
Não aceito o que ainda não tem nome. Escuto
a noite de uma árvore, um ventre sem umbigo.
Nada desejo e desejo o imóvel fundo.
Quero conhecer a pele nua e o sol da vulva.
Que a palavra respire e seja planície.
Viver é o teu ventre na frescura do começo.
Cada parcela do teu corpo expande o sangue solar.
Do fundo de mim tu caminhas para mim.
Que delícia estender-me até ao teu nome cego!
No triângulo perfeito somos um no outro.
Inundo-te como uma lava como um vento de vertigem.
Em ti penetro até ao fundo, até à perda,
ó corpo incandescente!
a noite de uma árvore, um ventre sem umbigo.
Nada desejo e desejo o imóvel fundo.
Quero conhecer a pele nua e o sol da vulva.
Que a palavra respire e seja planície.
Viver é o teu ventre na frescura do começo.
Cada parcela do teu corpo expande o sangue solar.
Do fundo de mim tu caminhas para mim.
Que delícia estender-me até ao teu nome cego!
No triângulo perfeito somos um no outro.
Inundo-te como uma lava como um vento de vertigem.
Em ti penetro até ao fundo, até à perda,
ó corpo incandescente!
1 113
Carlos Drummond de Andrade
Seis Manequins
Ully, Ully, lullaby,
vou contigo para a Lua,
luarando vais levando
uma luz leve de linho,
de trigal maduro e lã.
De passagem no Oriente,
Mailu surge de repente
e todos os véus da Ásia,
as arômatas do Egito,
as musicálias hindus
florescem na flor do ar.
Ó Zula, que noite azul
clareia na tua pele
um mistério que escurece
quando tento decifrá-lo?
Já se dilata a pupila
ante a passagem de Mila,
que, se para ou se desfila,
tantaliza a própria argila.
E Nice, que vem da neve
e da pelúcia mais suave,
incenso, anjinho de nave,
cantando na Lua Nova?
Que não me falte Beatriz,
jardim moreno de altura
para me fazer feliz
no meu reino de aventura!
vou contigo para a Lua,
luarando vais levando
uma luz leve de linho,
de trigal maduro e lã.
De passagem no Oriente,
Mailu surge de repente
e todos os véus da Ásia,
as arômatas do Egito,
as musicálias hindus
florescem na flor do ar.
Ó Zula, que noite azul
clareia na tua pele
um mistério que escurece
quando tento decifrá-lo?
Já se dilata a pupila
ante a passagem de Mila,
que, se para ou se desfila,
tantaliza a própria argila.
E Nice, que vem da neve
e da pelúcia mais suave,
incenso, anjinho de nave,
cantando na Lua Nova?
Que não me falte Beatriz,
jardim moreno de altura
para me fazer feliz
no meu reino de aventura!
1 378
Carlos Drummond de Andrade
Sonetos do Pássaro
I
Amar um passarinho é coisa louca.
Gira livre na longa azul gaiola
que o peito me constringe, enquanto a pouca
liberdade de amar logo se evola.
É amor meação? pecúlio? esmola?
Uma necessidade urgente e rouca
de no amor nos amarmos se desola
em cada beijo que não sai da boca.
O passarinho baixa a nosso alcance,
e na queda submissa um voo segue,
e prossegue sem asas, pura ausência,
outro romance ocluso no romance.
Por mais que amor transite ou que se negue,
é canto (não é ave) sua essência.
Amar um passarinho é coisa louca.
Gira livre na longa azul gaiola
que o peito me constringe, enquanto a pouca
liberdade de amar logo se evola.
É amor meação? pecúlio? esmola?
Uma necessidade urgente e rouca
de no amor nos amarmos se desola
em cada beijo que não sai da boca.
O passarinho baixa a nosso alcance,
e na queda submissa um voo segue,
e prossegue sem asas, pura ausência,
outro romance ocluso no romance.
Por mais que amor transite ou que se negue,
é canto (não é ave) sua essência.
1 716
Carlos Drummond de Andrade
A Goeldi
De uma cidade vulturina
vieste a nós, trazendo
o ar de suas avenidas de assombro
onde vagabundos peixes esqueletos
rodopiam ou se postam em frente a casas inabitáveis
mas entupidas de tua coleção de segredos,
ó Goeldi: pesquisador da noite moral sob a noite física.
Ainda não desembarcaste de todo
e não desembarcarás nunca.
Exílio e memória porejam das madeiras
em que inflexivelmente penetras para extrair
o vitríolo das criaturas
condenadas ao mundo.
És metade sombra ou todo sombra?
Tuas relações com a luz como se tecem?
Amarias talvez, preto no preto,
fixar um novo sol, noturno; e denuncias
as diferentes espécies de treva
em que os objetos se elaboram:
a treva do entardecer e a da manhã;
a erosão do tempo no silêncio;
a irrealidade do real.
Estás sempre inspecionando
as nuvens e a direção dos ciclones.
Céu nublado, chuva incessante, atmosfera de chumbo
são elementos de teu reino
onde a morte de guarda-chuva
comanda
poças de solidão, entre urubus.
Tão solitário, Goeldi! mas pressinto
no glauco reflexo furtivo
que lambe a canoa de teu pescador
e na tarja sanguínea a irromper, escândalo, de teus negrumes
uma dádiva de ti à vida.
Não sinistra,
mas violenta
e meiga,
destas cores compõe-se a rosa em teu louvor.
vieste a nós, trazendo
o ar de suas avenidas de assombro
onde vagabundos peixes esqueletos
rodopiam ou se postam em frente a casas inabitáveis
mas entupidas de tua coleção de segredos,
ó Goeldi: pesquisador da noite moral sob a noite física.
Ainda não desembarcaste de todo
e não desembarcarás nunca.
Exílio e memória porejam das madeiras
em que inflexivelmente penetras para extrair
o vitríolo das criaturas
condenadas ao mundo.
És metade sombra ou todo sombra?
Tuas relações com a luz como se tecem?
Amarias talvez, preto no preto,
fixar um novo sol, noturno; e denuncias
as diferentes espécies de treva
em que os objetos se elaboram:
a treva do entardecer e a da manhã;
a erosão do tempo no silêncio;
a irrealidade do real.
Estás sempre inspecionando
as nuvens e a direção dos ciclones.
Céu nublado, chuva incessante, atmosfera de chumbo
são elementos de teu reino
onde a morte de guarda-chuva
comanda
poças de solidão, entre urubus.
Tão solitário, Goeldi! mas pressinto
no glauco reflexo furtivo
que lambe a canoa de teu pescador
e na tarja sanguínea a irromper, escândalo, de teus negrumes
uma dádiva de ti à vida.
Não sinistra,
mas violenta
e meiga,
destas cores compõe-se a rosa em teu louvor.
1 121
Carlos Drummond de Andrade
Telegrama de Moscou
Pedra por pedra reconstruiremos a cidade.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia elétrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que penetrará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado.
— Stalingrado: o tempo responde.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia elétrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que penetrará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado.
— Stalingrado: o tempo responde.
1 706
António Ramos Rosa
Incesto
Querer ainda um âmbito para um peito ou um ombro
e o gozo na beleza e o descanso nas árvores.
Ser a terra com as vertentes e os túmulos
e no fundo obscuro produzir a alta delícia.
E a fome e a sede na sua forma feminina
em que se misturam substâncias brancas e negras.
E o corpo a corpo com a noite para o âmbito completo
no esquecimento e no ócio num vegetal incesto.
Quem reina sobre o meu ventre e sobre as tuas ancas?
O meu corpo é uma caverna aberta até aos astros.
Quem me aboliu maternamente até ser o sorriso
de ninguém que reconhece em si a irmã amante?
e o gozo na beleza e o descanso nas árvores.
Ser a terra com as vertentes e os túmulos
e no fundo obscuro produzir a alta delícia.
E a fome e a sede na sua forma feminina
em que se misturam substâncias brancas e negras.
E o corpo a corpo com a noite para o âmbito completo
no esquecimento e no ócio num vegetal incesto.
Quem reina sobre o meu ventre e sobre as tuas ancas?
O meu corpo é uma caverna aberta até aos astros.
Quem me aboliu maternamente até ser o sorriso
de ninguém que reconhece em si a irmã amante?
1 315
Carlos Drummond de Andrade
Ar
Nesta boca da noite,
cheira o tempo a alecrim.
Muito mais trescalava
o incorpóreo jardim.
Nesta cova da noite,
sabe o gesto a alfazema.
O que antes inebriava
era a rosa do poema.
Neste abismo da noite,
erra a sorte em lavanda.
Um perfume se amava,
colante, na varanda.
A narina presente
colhe o aroma passado.
Continuamente vibra
o tempo, embalsamado.
cheira o tempo a alecrim.
Muito mais trescalava
o incorpóreo jardim.
Nesta cova da noite,
sabe o gesto a alfazema.
O que antes inebriava
era a rosa do poema.
Neste abismo da noite,
erra a sorte em lavanda.
Um perfume se amava,
colante, na varanda.
A narina presente
colhe o aroma passado.
Continuamente vibra
o tempo, embalsamado.
1 397
Carlos Drummond de Andrade
Leão-Marinho
Suspendei um momento vossos jogos
na fímbria azul do mar, peitos morenos.
Pescadores, voltai. Silêncio, coros
de rua, no vaivém, que um movimento
diverso, uma outra forma se insinua
por entre as rochas lisas, e um mugido
se faz ouvir, soturno e diurno, em pura
exalação opressa de carinho.
É o louco leão-marinho, que pervaga,
em busca, sem saber, como da terra
(quando a vida nos dói, de tão exata)
nos lançamos a um mar que não existe.
A doçura do monstro, oclusa, à espera...
Um leão-marinho brinca em nós, e é triste.
na fímbria azul do mar, peitos morenos.
Pescadores, voltai. Silêncio, coros
de rua, no vaivém, que um movimento
diverso, uma outra forma se insinua
por entre as rochas lisas, e um mugido
se faz ouvir, soturno e diurno, em pura
exalação opressa de carinho.
É o louco leão-marinho, que pervaga,
em busca, sem saber, como da terra
(quando a vida nos dói, de tão exata)
nos lançamos a um mar que não existe.
A doçura do monstro, oclusa, à espera...
Um leão-marinho brinca em nós, e é triste.
1 165
Carlos Drummond de Andrade
Fazer 70 Anos
A José Carlos Lisboa
Fazer 70 anos não é simples.
A vida exige, para o conseguirmos,
perdas e perdas no íntimo do ser,
como, em volta do ser, mil outras perdas.
Fazer 70 anos é fazer
catálogo de esquecimentos e ruínas.
Viajar entre o já-foi e o não-será.
É, sobretudo, fazer 70 anos,
alegria pojada de tristeza.
Ó José Carlos, irmão-em-Escorpião!
Nós o conseguimos…
E sorrimos
de uma vitória comprada por que preço?
Quem jamais o saberá?
À sombra dos 70 anos, dois mineiros
em silêncio se abraçam, conferindo
a estranha felicidade da velhice.
Fazer 70 anos não é simples.
A vida exige, para o conseguirmos,
perdas e perdas no íntimo do ser,
como, em volta do ser, mil outras perdas.
Fazer 70 anos é fazer
catálogo de esquecimentos e ruínas.
Viajar entre o já-foi e o não-será.
É, sobretudo, fazer 70 anos,
alegria pojada de tristeza.
Ó José Carlos, irmão-em-Escorpião!
Nós o conseguimos…
E sorrimos
de uma vitória comprada por que preço?
Quem jamais o saberá?
À sombra dos 70 anos, dois mineiros
em silêncio se abraçam, conferindo
a estranha felicidade da velhice.
5 074
Carlos Drummond de Andrade
Fazer 70 Anos
A José Carlos Lisboa
Fazer 70 anos não é simples.
A vida exige, para o conseguirmos,
perdas e perdas no íntimo do ser,
como, em volta do ser, mil outras perdas.
Fazer 70 anos é fazer
catálogo de esquecimentos e ruínas.
Viajar entre o já-foi e o não-será.
É, sobretudo, fazer 70 anos,
alegria pojada de tristeza.
Ó José Carlos, irmão-em-Escorpião!
Nós o conseguimos…
E sorrimos
de uma vitória comprada por que preço?
Quem jamais o saberá?
À sombra dos 70 anos, dois mineiros
em silêncio se abraçam, conferindo
a estranha felicidade da velhice.
Fazer 70 anos não é simples.
A vida exige, para o conseguirmos,
perdas e perdas no íntimo do ser,
como, em volta do ser, mil outras perdas.
Fazer 70 anos é fazer
catálogo de esquecimentos e ruínas.
Viajar entre o já-foi e o não-será.
É, sobretudo, fazer 70 anos,
alegria pojada de tristeza.
Ó José Carlos, irmão-em-Escorpião!
Nós o conseguimos…
E sorrimos
de uma vitória comprada por que preço?
Quem jamais o saberá?
À sombra dos 70 anos, dois mineiros
em silêncio se abraçam, conferindo
a estranha felicidade da velhice.
5 074
António Ramos Rosa
O Losango da Pureza
Imagino na pedra o losango da pureza
e o turbilhão fixado na leveza de uns traços.
A subtil gazela detém-se numa pausa,
cúmplice de um insecto e de uma chuva florida.
Gracioso é o fogo do arbusto que cintila
e adormece entre anjos e formigas.
Ágil seda e já sopro diurno
do pleno espaço puro, na trama verde,
o corpo é língua harmoniosa e sombra nítida.
Um canto branco, mas um hálito, uma noção
nua para um destino de asa ou para um sonho
que fosse a ordem límpida de um teatro
ou a imóvel geometria de um relâmpago.
e o turbilhão fixado na leveza de uns traços.
A subtil gazela detém-se numa pausa,
cúmplice de um insecto e de uma chuva florida.
Gracioso é o fogo do arbusto que cintila
e adormece entre anjos e formigas.
Ágil seda e já sopro diurno
do pleno espaço puro, na trama verde,
o corpo é língua harmoniosa e sombra nítida.
Um canto branco, mas um hálito, uma noção
nua para um destino de asa ou para um sonho
que fosse a ordem límpida de um teatro
ou a imóvel geometria de um relâmpago.
1 009
Carlos Drummond de Andrade
Sequestro de Guilhermino César
Ao completar setent’anos
Um dia convoco Cyro dos Anjos e planejo com ele um sequestro.
Voamos (perucas e bigodes despistadores) para Porto Alegre.
Lá ficaremos à espreita na Avenida Independência.
Quando sair de certo edifício um incauto senhor de óculos,
nosso carro lhe embargará os passos
e ele será convidado a seguir conosco
rumo a lugar que bem sabe.
Assim roubaremos Guilhermino César ao País do Rio Grande
e o transportaremos ao País da Memória,
país de cafés-sentados e redações não eletrônicas de jornais,
de repartições públicas onde se cumpria o destino de literatos sem pecúnia,
autores de discursos que jamais pronunciaríamos,
pois os concebíamos para outros os pronunciarem
no majestático palanque do Poder,
enquanto refocilávamos em orgias
com a ninfa de coxas de espuma e seios-orquídea
chamada Literatura,
nosso maior amor e perdição.
Levaremos Guilhermino para livrarias
que não existem mais,
cinemas, bailes estudantis, piqueniques serranos
que não existem mais,
debates flamívomos, cambalhotas de vanguarda
que não existem mais,
tudo que não existe mais e continua,
anulado, existindo.
Nesse país que foi o nosso
na neblinosa companhia de Emílio Moura,
João Alphonsus, outros, outros
de que já não há notícia terrestre,
reflorescemos
ao som indelével da valsa e do fox-trot
brindados pela orquestra do Maestro Vespasiano.
Refloresceremos todos. O tempo, acidente.
Outro, mudanças. Guilhermino
acaba de chegar de Cataguases,
estudante de medicina e ritmo,
nosso mais moço companheiro para sempre.
Nunca sairá daqui, não sairemos.
Ninguém fará de nós os septuagenários que somos,
dispersos, divididos no mapa das circunstâncias.
Este, o nosso eterno, etéreo território.
Aqui assistimos, somos. O resto, aparência.
Este mesmo escrito: aparência,
não a realidade que se refere.
No único país real encontramo-nos em Guilhermino,
o que, menino, pediu ao pai uma bicicleta
e o velho deu-lhe as poesias de Bilac.
Que não nos procurem, não nos importunem. Deixem-nos
fruir o néctar absoluto.
Um dia convoco Cyro dos Anjos e planejo com ele um sequestro.
Voamos (perucas e bigodes despistadores) para Porto Alegre.
Lá ficaremos à espreita na Avenida Independência.
Quando sair de certo edifício um incauto senhor de óculos,
nosso carro lhe embargará os passos
e ele será convidado a seguir conosco
rumo a lugar que bem sabe.
Assim roubaremos Guilhermino César ao País do Rio Grande
e o transportaremos ao País da Memória,
país de cafés-sentados e redações não eletrônicas de jornais,
de repartições públicas onde se cumpria o destino de literatos sem pecúnia,
autores de discursos que jamais pronunciaríamos,
pois os concebíamos para outros os pronunciarem
no majestático palanque do Poder,
enquanto refocilávamos em orgias
com a ninfa de coxas de espuma e seios-orquídea
chamada Literatura,
nosso maior amor e perdição.
Levaremos Guilhermino para livrarias
que não existem mais,
cinemas, bailes estudantis, piqueniques serranos
que não existem mais,
debates flamívomos, cambalhotas de vanguarda
que não existem mais,
tudo que não existe mais e continua,
anulado, existindo.
Nesse país que foi o nosso
na neblinosa companhia de Emílio Moura,
João Alphonsus, outros, outros
de que já não há notícia terrestre,
reflorescemos
ao som indelével da valsa e do fox-trot
brindados pela orquestra do Maestro Vespasiano.
Refloresceremos todos. O tempo, acidente.
Outro, mudanças. Guilhermino
acaba de chegar de Cataguases,
estudante de medicina e ritmo,
nosso mais moço companheiro para sempre.
Nunca sairá daqui, não sairemos.
Ninguém fará de nós os septuagenários que somos,
dispersos, divididos no mapa das circunstâncias.
Este, o nosso eterno, etéreo território.
Aqui assistimos, somos. O resto, aparência.
Este mesmo escrito: aparência,
não a realidade que se refere.
No único país real encontramo-nos em Guilhermino,
o que, menino, pediu ao pai uma bicicleta
e o velho deu-lhe as poesias de Bilac.
Que não nos procurem, não nos importunem. Deixem-nos
fruir o néctar absoluto.
741
Carlos Drummond de Andrade
Sequestro de Guilhermino César
Ao completar setent’anos
Um dia convoco Cyro dos Anjos e planejo com ele um sequestro.
Voamos (perucas e bigodes despistadores) para Porto Alegre.
Lá ficaremos à espreita na Avenida Independência.
Quando sair de certo edifício um incauto senhor de óculos,
nosso carro lhe embargará os passos
e ele será convidado a seguir conosco
rumo a lugar que bem sabe.
Assim roubaremos Guilhermino César ao País do Rio Grande
e o transportaremos ao País da Memória,
país de cafés-sentados e redações não eletrônicas de jornais,
de repartições públicas onde se cumpria o destino de literatos sem pecúnia,
autores de discursos que jamais pronunciaríamos,
pois os concebíamos para outros os pronunciarem
no majestático palanque do Poder,
enquanto refocilávamos em orgias
com a ninfa de coxas de espuma e seios-orquídea
chamada Literatura,
nosso maior amor e perdição.
Levaremos Guilhermino para livrarias
que não existem mais,
cinemas, bailes estudantis, piqueniques serranos
que não existem mais,
debates flamívomos, cambalhotas de vanguarda
que não existem mais,
tudo que não existe mais e continua,
anulado, existindo.
Nesse país que foi o nosso
na neblinosa companhia de Emílio Moura,
João Alphonsus, outros, outros
de que já não há notícia terrestre,
reflorescemos
ao som indelével da valsa e do fox-trot
brindados pela orquestra do Maestro Vespasiano.
Refloresceremos todos. O tempo, acidente.
Outro, mudanças. Guilhermino
acaba de chegar de Cataguases,
estudante de medicina e ritmo,
nosso mais moço companheiro para sempre.
Nunca sairá daqui, não sairemos.
Ninguém fará de nós os septuagenários que somos,
dispersos, divididos no mapa das circunstâncias.
Este, o nosso eterno, etéreo território.
Aqui assistimos, somos. O resto, aparência.
Este mesmo escrito: aparência,
não a realidade que se refere.
No único país real encontramo-nos em Guilhermino,
o que, menino, pediu ao pai uma bicicleta
e o velho deu-lhe as poesias de Bilac.
Que não nos procurem, não nos importunem. Deixem-nos
fruir o néctar absoluto.
Um dia convoco Cyro dos Anjos e planejo com ele um sequestro.
Voamos (perucas e bigodes despistadores) para Porto Alegre.
Lá ficaremos à espreita na Avenida Independência.
Quando sair de certo edifício um incauto senhor de óculos,
nosso carro lhe embargará os passos
e ele será convidado a seguir conosco
rumo a lugar que bem sabe.
Assim roubaremos Guilhermino César ao País do Rio Grande
e o transportaremos ao País da Memória,
país de cafés-sentados e redações não eletrônicas de jornais,
de repartições públicas onde se cumpria o destino de literatos sem pecúnia,
autores de discursos que jamais pronunciaríamos,
pois os concebíamos para outros os pronunciarem
no majestático palanque do Poder,
enquanto refocilávamos em orgias
com a ninfa de coxas de espuma e seios-orquídea
chamada Literatura,
nosso maior amor e perdição.
Levaremos Guilhermino para livrarias
que não existem mais,
cinemas, bailes estudantis, piqueniques serranos
que não existem mais,
debates flamívomos, cambalhotas de vanguarda
que não existem mais,
tudo que não existe mais e continua,
anulado, existindo.
Nesse país que foi o nosso
na neblinosa companhia de Emílio Moura,
João Alphonsus, outros, outros
de que já não há notícia terrestre,
reflorescemos
ao som indelével da valsa e do fox-trot
brindados pela orquestra do Maestro Vespasiano.
Refloresceremos todos. O tempo, acidente.
Outro, mudanças. Guilhermino
acaba de chegar de Cataguases,
estudante de medicina e ritmo,
nosso mais moço companheiro para sempre.
Nunca sairá daqui, não sairemos.
Ninguém fará de nós os septuagenários que somos,
dispersos, divididos no mapa das circunstâncias.
Este, o nosso eterno, etéreo território.
Aqui assistimos, somos. O resto, aparência.
Este mesmo escrito: aparência,
não a realidade que se refere.
No único país real encontramo-nos em Guilhermino,
o que, menino, pediu ao pai uma bicicleta
e o velho deu-lhe as poesias de Bilac.
Que não nos procurem, não nos importunem. Deixem-nos
fruir o néctar absoluto.
741
António Ramos Rosa
Onde o Vagar Se Inclina
A minha casa é onde o ócio se insinua
em limpa lentidão e em si repousa
até rodear a solidão e ser a concha
em que o vagar se inclina e é uma aura.
E tudo é intimidade silenciosa
em que há um ritmo de equivalências puras.
A atenção flui numa vigília imponderável.
O espaço se alarga em íntimas planícies
por onde ver acende abismos leves
que nos dão a luz mais recôndita do espírito.
E uma nuvem branca passa e o mundo se abre
em torno do anel onde estarmos é ser.
em limpa lentidão e em si repousa
até rodear a solidão e ser a concha
em que o vagar se inclina e é uma aura.
E tudo é intimidade silenciosa
em que há um ritmo de equivalências puras.
A atenção flui numa vigília imponderável.
O espaço se alarga em íntimas planícies
por onde ver acende abismos leves
que nos dão a luz mais recôndita do espírito.
E uma nuvem branca passa e o mundo se abre
em torno do anel onde estarmos é ser.
1 029
Carlos Drummond de Andrade
Véspera
Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.
Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.
Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?
Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.
Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!
Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.
E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.
E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.
Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.
Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.
Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.
Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!
Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.
Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.
Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?
Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.
Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!
Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.
E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.
E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.
Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.
Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.
Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.
Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!
Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
1 124
Carlos Drummond de Andrade
Véspera
Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.
Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.
Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?
Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.
Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!
Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.
E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.
E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.
Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.
Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.
Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.
Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!
Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.
Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.
Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?
Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.
Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!
Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.
E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.
E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.
Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.
Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.
Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.
Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!
Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
1 124
Carlos Drummond de Andrade
A Um Morto Na Índia
Meu caro Santa Rosa, que cenário
diferente de quantos compuseste,
a teu fim reservou a sorte vária,
unindo Paraíba e Índias de leste!
Tudo é teatro, suspeito que me dizes,
ou sonhas? ou sorris? e teu cigarro
vai compondo um desenho, entre indivisos
traços de morte e vida e amor e barro.
Amavas tanto o amor que as musas todas
ao celebrar-te (são mulheres) choram,
e não pressentem que um de teus engodos
é não morrer, se as parcas te devoram.
Retifico: são simples tecedeiras,
são mulheres do povo. E teu destino,
uma tapeçaria onde as surpresas
de linha e cor renovam seu ensino.
Que retrato de ti legas ao mundo?
Se são tantos retratos, repartidos
na verlainiana máscara, profunda
mina de intelecções e de sentidos?
Meus livros são teus livros, nessa rubra
capa com que os vestiste, e que entrelaça
um desespero aberto ao sol de outubro
à aérea flor das letras, ritmo e graça.
Os negros, nos murais, cumprem o rito
litúrgico do samba: estão contando
a alegria das formas, trismegisto
princípio de arte, a um teu aceno brando.
Essa alegria de criar, que é tua
explanação maior e mais tocante,
fica girando no ar, enquanto avulta,
em sensação de perda, teu semblante.
Cortês amigo, a fala baixa, o manso
modo de conviver, e a dura crítica,
e o mais de ti que em fantasia dança,
pois a face do artista é sempre mítica,
em movimento rápido se fecha
na rosa de teu nome, claro véu,
ó Tomás Santa Rosa... E em Nova Delhi,
o convite de Deus: pintar o céu.
diferente de quantos compuseste,
a teu fim reservou a sorte vária,
unindo Paraíba e Índias de leste!
Tudo é teatro, suspeito que me dizes,
ou sonhas? ou sorris? e teu cigarro
vai compondo um desenho, entre indivisos
traços de morte e vida e amor e barro.
Amavas tanto o amor que as musas todas
ao celebrar-te (são mulheres) choram,
e não pressentem que um de teus engodos
é não morrer, se as parcas te devoram.
Retifico: são simples tecedeiras,
são mulheres do povo. E teu destino,
uma tapeçaria onde as surpresas
de linha e cor renovam seu ensino.
Que retrato de ti legas ao mundo?
Se são tantos retratos, repartidos
na verlainiana máscara, profunda
mina de intelecções e de sentidos?
Meus livros são teus livros, nessa rubra
capa com que os vestiste, e que entrelaça
um desespero aberto ao sol de outubro
à aérea flor das letras, ritmo e graça.
Os negros, nos murais, cumprem o rito
litúrgico do samba: estão contando
a alegria das formas, trismegisto
princípio de arte, a um teu aceno brando.
Essa alegria de criar, que é tua
explanação maior e mais tocante,
fica girando no ar, enquanto avulta,
em sensação de perda, teu semblante.
Cortês amigo, a fala baixa, o manso
modo de conviver, e a dura crítica,
e o mais de ti que em fantasia dança,
pois a face do artista é sempre mítica,
em movimento rápido se fecha
na rosa de teu nome, claro véu,
ó Tomás Santa Rosa... E em Nova Delhi,
o convite de Deus: pintar o céu.
1 152
Carlos Drummond de Andrade
O Combate da Luz
A Alphonsus de Guimaraens Filho
O combate da luz
contra os monstros da sombra:
assim tua poesia
é alvorada e angústia.
Pousa a morte nos ramos
do tronco apendoado.
Mas da seiva rebentam
novos, florentes cânticos.
Não pode o céu noturno
desfazer os berilos,
os íntimos diamantes
do verso teu ao mundo,
inefável presente
não de matéria vã:
do que melhor define
o fluido sentimento,
o lancinante anseio,
a sublimada essência
do amor, cativo e livre
— teu lírico segredo.
Pois pelo amor resgatas
o pensamento lúgubre,
a dor de antigas fontes,
as perdidas paragens,
e na era absurda crias
a ligação perene
da saudade dos anjos
na chama da poesia.
O combate da luz
contra os monstros da sombra:
assim tua poesia
é alvorada e angústia.
Pousa a morte nos ramos
do tronco apendoado.
Mas da seiva rebentam
novos, florentes cânticos.
Não pode o céu noturno
desfazer os berilos,
os íntimos diamantes
do verso teu ao mundo,
inefável presente
não de matéria vã:
do que melhor define
o fluido sentimento,
o lancinante anseio,
a sublimada essência
do amor, cativo e livre
— teu lírico segredo.
Pois pelo amor resgatas
o pensamento lúgubre,
a dor de antigas fontes,
as perdidas paragens,
e na era absurda crias
a ligação perene
da saudade dos anjos
na chama da poesia.
1 205
António Ramos Rosa
Palavras
São apenas palavras que procuram
a sombra da língua, o seu pudor
de arbusto, as suas pétalas perdidas.
São palavras que se erguem para o início
onde o anel se abre, onde o jardim
que foi sonhado alvorece junto ao rosto.
São palavras que se dilaceram como vestes
e a noite se entreabre e a matéria
acende-se quando o tempo recomeça.
A espuma amadurece a luz, e as palavras
dizem sombra na sombra e o sono do caminho.
a sombra da língua, o seu pudor
de arbusto, as suas pétalas perdidas.
São palavras que se erguem para o início
onde o anel se abre, onde o jardim
que foi sonhado alvorece junto ao rosto.
São palavras que se dilaceram como vestes
e a noite se entreabre e a matéria
acende-se quando o tempo recomeça.
A espuma amadurece a luz, e as palavras
dizem sombra na sombra e o sono do caminho.
1 093
António Ramos Rosa
Dentro da Árvore
Por entre os ramos e as sombras sem tristeza
em claro e sonâmbulo vagar
mais baixo do que o dia com suas lâmpadas de espuma
em abóbadas de sombra entre o verde e a cinza.
Era a terra do sono e da solidão e da partilha
e a respiração da ausência. O destino
era próximo da mesa da folhagem, a sede
calma. E o sentido era um sonho
que se encarnava num flanco aberto.
Porque nascíamos em núpcias transparentes
com o ar adormecido num meio-dia completo.
Porque no fundo escuro amávamos a altura verde
e recebíamos a frescura de uns dedos ignorados.
em claro e sonâmbulo vagar
mais baixo do que o dia com suas lâmpadas de espuma
em abóbadas de sombra entre o verde e a cinza.
Era a terra do sono e da solidão e da partilha
e a respiração da ausência. O destino
era próximo da mesa da folhagem, a sede
calma. E o sentido era um sonho
que se encarnava num flanco aberto.
Porque nascíamos em núpcias transparentes
com o ar adormecido num meio-dia completo.
Porque no fundo escuro amávamos a altura verde
e recebíamos a frescura de uns dedos ignorados.
721
António Ramos Rosa
Dentro da Árvore
Por entre os ramos e as sombras sem tristeza
em claro e sonâmbulo vagar
mais baixo do que o dia com suas lâmpadas de espuma
em abóbadas de sombra entre o verde e a cinza.
Era a terra do sono e da solidão e da partilha
e a respiração da ausência. O destino
era próximo da mesa da folhagem, a sede
calma. E o sentido era um sonho
que se encarnava num flanco aberto.
Porque nascíamos em núpcias transparentes
com o ar adormecido num meio-dia completo.
Porque no fundo escuro amávamos a altura verde
e recebíamos a frescura de uns dedos ignorados.
em claro e sonâmbulo vagar
mais baixo do que o dia com suas lâmpadas de espuma
em abóbadas de sombra entre o verde e a cinza.
Era a terra do sono e da solidão e da partilha
e a respiração da ausência. O destino
era próximo da mesa da folhagem, a sede
calma. E o sentido era um sonho
que se encarnava num flanco aberto.
Porque nascíamos em núpcias transparentes
com o ar adormecido num meio-dia completo.
Porque no fundo escuro amávamos a altura verde
e recebíamos a frescura de uns dedos ignorados.
721
António Ramos Rosa
A Casa
Um sossegado alento na penumbra de madeira.
A casa adormeceu e está viva numa tranquila pulsação.
Oiço um leve martelar de teclas de sombra.
Um prato de cobre brilha verticalmente na obscuridade.
A mesa é redonda e limpa como um círculo de harmonia.
Numa parede flutuam arabescos cintilantes.
O tempo segrega sílabas de argila e espuma.
A casa adormeceu e está viva numa tranquila pulsação.
Oiço um leve martelar de teclas de sombra.
Um prato de cobre brilha verticalmente na obscuridade.
A mesa é redonda e limpa como um círculo de harmonia.
Numa parede flutuam arabescos cintilantes.
O tempo segrega sílabas de argila e espuma.
1 100