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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Palavra No Deserto

à Lia
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?

Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.

A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.

Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?

Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?

Será este o sinal? As palavras nascem?

Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.

O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
635
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Palavra No Deserto

à Lia
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?

Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.

A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.

Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?

Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?

Será este o sinal? As palavras nascem?

Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.

O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
635
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Palavra No Deserto

à Lia
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?

Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.

A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.

Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?

Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?

Será este o sinal? As palavras nascem?

Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.

O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
635
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Corpo Sob As Palavras

à Maria Eduarda
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore

Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra

Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha     Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa

Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia

Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho

Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio

O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha

Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra     azul

Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?

Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio

Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.

O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?

Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?

O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva

Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido

Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra

Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra

As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio

Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca

Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda

Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez

Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono

Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra

e fria

O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca

Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra

O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca

Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas

E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)

Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
1 065
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Impossível Grito

à Mila
Se eu pudesse caminhar com palavras lentas sóbrias
e se eu pudesse falar-te ou gritar
como um vento selvagem
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
— aqui onde escrevo e nada principia
aqui onde o embate é nulo contra o bloco
onde se cerra o muro onde a ferida não fala

Nenhum impulso emerge do ilimite vazio
nenhum punho se ergue entre as pregas do abismo

Se escrevo ou falo ainda é o mutismo que fala
se olho é através de um não olhar
se prossigo sei que a minha sede é vã
onde estou é aquém de toda a origem
onde estás é além de todo o encontro

E todavia escrevo terminando onde escrevo
sem o gérmen que abriria o diálogo da água
sem a dissonância viva de quem está ainda algures
emparedado
e crê que um grito alguém ainda o ouviria

E todavia se escrevo é porque talvez espere
avançar entre os muros para uma praia secreta
que um sinal ilumine este deserto de cinza
que uma pergunta abale este bloco inamovível

Se eu pudesse falar-te através desta espessura
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
oh quem pudera gritar como o vento selvagem
quem pudera desatar o nó oculto sempre
o nome oculto sempre!

Fui eu que enterrei o meu nome sob a pedra
Fui eu que me enterrei para sempre sob o nome
Tudo em mim é ausência ou um contacto vão

Por isso tu não me vês e eu não te vejo a ti
Mas se eu te escrevo ainda estas palavras nuas
estas palavras mais pobres do que a sombra vazia!

Não será este um caminho uma forma do grito?

Aqui onde escrevo algo principia
aqui o embate contra um bloco negro
aqui se abre um muro aqui a ferida fala
aqui designo a pedra da asfixia

A forma desgarrada de um grito flutua
1 021
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Impossível Grito

à Mila
Se eu pudesse caminhar com palavras lentas sóbrias
e se eu pudesse falar-te ou gritar
como um vento selvagem
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
— aqui onde escrevo e nada principia
aqui onde o embate é nulo contra o bloco
onde se cerra o muro onde a ferida não fala

Nenhum impulso emerge do ilimite vazio
nenhum punho se ergue entre as pregas do abismo

Se escrevo ou falo ainda é o mutismo que fala
se olho é através de um não olhar
se prossigo sei que a minha sede é vã
onde estou é aquém de toda a origem
onde estás é além de todo o encontro

E todavia escrevo terminando onde escrevo
sem o gérmen que abriria o diálogo da água
sem a dissonância viva de quem está ainda algures
emparedado
e crê que um grito alguém ainda o ouviria

E todavia se escrevo é porque talvez espere
avançar entre os muros para uma praia secreta
que um sinal ilumine este deserto de cinza
que uma pergunta abale este bloco inamovível

Se eu pudesse falar-te através desta espessura
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
oh quem pudera gritar como o vento selvagem
quem pudera desatar o nó oculto sempre
o nome oculto sempre!

Fui eu que enterrei o meu nome sob a pedra
Fui eu que me enterrei para sempre sob o nome
Tudo em mim é ausência ou um contacto vão

Por isso tu não me vês e eu não te vejo a ti
Mas se eu te escrevo ainda estas palavras nuas
estas palavras mais pobres do que a sombra vazia!

Não será este um caminho uma forma do grito?

Aqui onde escrevo algo principia
aqui o embate contra um bloco negro
aqui se abre um muro aqui a ferida fala
aqui designo a pedra da asfixia

A forma desgarrada de um grito flutua
1 021
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Impossível Grito

à Mila
Se eu pudesse caminhar com palavras lentas sóbrias
e se eu pudesse falar-te ou gritar
como um vento selvagem
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
— aqui onde escrevo e nada principia
aqui onde o embate é nulo contra o bloco
onde se cerra o muro onde a ferida não fala

Nenhum impulso emerge do ilimite vazio
nenhum punho se ergue entre as pregas do abismo

Se escrevo ou falo ainda é o mutismo que fala
se olho é através de um não olhar
se prossigo sei que a minha sede é vã
onde estou é aquém de toda a origem
onde estás é além de todo o encontro

E todavia escrevo terminando onde escrevo
sem o gérmen que abriria o diálogo da água
sem a dissonância viva de quem está ainda algures
emparedado
e crê que um grito alguém ainda o ouviria

E todavia se escrevo é porque talvez espere
avançar entre os muros para uma praia secreta
que um sinal ilumine este deserto de cinza
que uma pergunta abale este bloco inamovível

Se eu pudesse falar-te através desta espessura
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
oh quem pudera gritar como o vento selvagem
quem pudera desatar o nó oculto sempre
o nome oculto sempre!

Fui eu que enterrei o meu nome sob a pedra
Fui eu que me enterrei para sempre sob o nome
Tudo em mim é ausência ou um contacto vão

Por isso tu não me vês e eu não te vejo a ti
Mas se eu te escrevo ainda estas palavras nuas
estas palavras mais pobres do que a sombra vazia!

Não será este um caminho uma forma do grito?

Aqui onde escrevo algo principia
aqui o embate contra um bloco negro
aqui se abre um muro aqui a ferida fala
aqui designo a pedra da asfixia

A forma desgarrada de um grito flutua
1 021
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nascer Com a Palavra

à Eugénia Maria
e à Kitty
Nascer começa com o desejo? Com a sede do nome?
Que todo o sinal seja ao mesmo tempo carne
Se alguma coisa tu dizes acende-se na página

É um nome que eu quero dizer mas
o que eu desejo não tem nome porque
é anterior a todas as palavras
e é por ele que cada coisa ganha um nome

Aqui é o lugar onde se forma a face
visível e silenciosa das palavras
Neste instante desapareço
As palavras começam a ter cor
e um equilíbrio alto
um rio de formas surge
Neste momento vejo um verde ígneo e um cinzento suave

Escrever é como beber por um copo de barro
a água de um corpo em que sombras se movem
e as sombras iluminam-se e iluminam as coisas
e o secreto nome brilha na parede alta

Posso abrir um parêntesis e incluir nele o muro
Esqueço tudo para poder respirar o princípio de tudo
em que de súbito uma folhagem estremece e as palavras surgem
trémulas ainda de silêncio e de desejo

Ouço um rumor ou não A lâmpada que empunho é obscura
mas busco seguir devagar um ritmo do conjunto branco
em que todas as palavras se aniquilam e a abertura se abre.
…………………………………………………………..

Nascer começa aqui onde se inaugura um incessante acto
em que se reúne o resto do que se produz continuamente
mas que é invisível deste lado do real
e é aí o centro líquido onde o corpo se refaz
a cada palavra que pronuncia a boca ferida

As palavras chamam as coisas e multiplicam-nas
sobre um fundo obscuro onde ressoam claras
Não é preciso saber não é preciso olhar
O contacto com o fundo produz a sequência feliz que principia

Um corpo desenha-se fora de nós habita o espaço
e é como se atingisse o solo onde se respira
Uma corrente única atravessa as coisas e as palavras
O mundo nasce a cada palavra e é a palavra que nasce
1 043
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Caminho Na Ausência

à Ângela Maria
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue

Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome

Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?

A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo

A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?

A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel

Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?

O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?

O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa

O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas

Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja

Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome

Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro

A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo

O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho

E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
1 098
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Caminho Na Ausência

à Ângela Maria
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue

Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome

Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?

A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo

A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?

A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel

Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?

O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?

O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa

O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas

Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja

Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome

Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro

A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo

O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho

E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
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