Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
António Ramos Rosa
A Teoria do Cavalo — o Friso Das Mulheres.
A teoria do cavalo — o friso das mulheres.
Os animais que auscultam o silêncio da noite,
a mulher enleada numa teia de aranha,
um grito que morreu no silêncio mais frio.
A explosão dos ombros, o punho desse olhar,
a torsão desse corpo na fúria do amor,
a explosão das palavras como o sémen na vulva,
a suavidade sedosa no seio de uma lâmpada.
A noite amorosa até ao fim da noite.
Não existe espectáculo para a visão mais íntima.
Os corpos mais suaves arrancam-se da fúria
e banham-se no óleo feliz do absoluto.
Os animais que auscultam o silêncio da noite,
a mulher enleada numa teia de aranha,
um grito que morreu no silêncio mais frio.
A explosão dos ombros, o punho desse olhar,
a torsão desse corpo na fúria do amor,
a explosão das palavras como o sémen na vulva,
a suavidade sedosa no seio de uma lâmpada.
A noite amorosa até ao fim da noite.
Não existe espectáculo para a visão mais íntima.
Os corpos mais suaves arrancam-se da fúria
e banham-se no óleo feliz do absoluto.
1 106
António Ramos Rosa
À Sombra do Cavalo, o Ócio Retempera-Se.
À sombra do cavalo, o ócio retempera-se.
O prazer de olhar a liberdade do campo
onde cada árvore e cada sombra dizem
o sossego de estar à sombra do cavalo.
O sossego do sol, a terra igual à terra,
e toda a luz firmando os volumes e as cores.
Tudo ressalta em força,
em pureza de estar em paz sob o cavalo.
À sombra do cavalo, o ócio aprende a ser
aquilo mesmo que é, um estar feito de luz,
uma razão de ser sem se saber mais nada
do que a razão das pedras, do que a visão das árvores.
A sombra do cavalo engloba tudo o mais.
O prazer de olhar a liberdade do campo
onde cada árvore e cada sombra dizem
o sossego de estar à sombra do cavalo.
O sossego do sol, a terra igual à terra,
e toda a luz firmando os volumes e as cores.
Tudo ressalta em força,
em pureza de estar em paz sob o cavalo.
À sombra do cavalo, o ócio aprende a ser
aquilo mesmo que é, um estar feito de luz,
uma razão de ser sem se saber mais nada
do que a razão das pedras, do que a visão das árvores.
A sombra do cavalo engloba tudo o mais.
1 268
António Ramos Rosa
Na Biblioteca Entre Pedras, Livros, Sombras
Na biblioteca entre pedras, livros, sombras
e a estrela a que está presa a mulher e o cavalo.
A paciência dilacera um último reduto.
Abertas as janelas, dilata-se o desejo
de igualar a altura e a firmeza à sombra.
Preso o cavalo à estrela, dimensão bem clara,
renova-se o ar e a luz penetra a sombra.
Biblioteca de pedras e o mar roendo as rochas.
Pode o cavalo soltar-se sem a mulher e a sombra,
pode o céu afirmar-se na tranquilidade da cena.
Uma luta suave e negra entrega aos ombros
a liberdade oculta e fortalece os ossos.
Um caminho de pedras na biblioteca acesa
e o cavalo pastando entre flores e livros.
e a estrela a que está presa a mulher e o cavalo.
A paciência dilacera um último reduto.
Abertas as janelas, dilata-se o desejo
de igualar a altura e a firmeza à sombra.
Preso o cavalo à estrela, dimensão bem clara,
renova-se o ar e a luz penetra a sombra.
Biblioteca de pedras e o mar roendo as rochas.
Pode o cavalo soltar-se sem a mulher e a sombra,
pode o céu afirmar-se na tranquilidade da cena.
Uma luta suave e negra entrega aos ombros
a liberdade oculta e fortalece os ossos.
Um caminho de pedras na biblioteca acesa
e o cavalo pastando entre flores e livros.
976
António Ramos Rosa
Um Ponto
Um ponto — talvez um centro
em permanência de tranquilidade
para a noite inteira. Um ponto
extremo, interno. Um pequeníssimo ponto
invulnerável
de estabilidade total
— nascido como? — fruto do espaço limpo,
de aberta aderência nua ao ar,
de constância livre, desocupada,
do descanso de ser até ao fundo simples,
de completa entrega?
Um ponto nu inabitado branco
de intocável serenidade,
fixo como um nervo e imponderável,
de fim inicial,
ponto de respiração,
clareira de estar,
abertura central viva,
praia de ser e nada
— mas apenas um ponto, um puro ponto
contra a noite inteira,
contra o frio,
contra a destruição.
Ponto de união
de paz coextensa à noite,
opaco e diáfano nó
do desenlace perfeito.
Nó de água
da água mais nua.
Ninho interno do espaço.
Pequena lua essencial
num horizonte de segura paz.
Ponto, em ti descanso,
certeza do mundo e de mim
em ti, dentro da noite,
atinjo o equilíbrio actual e puro.
Ponto, antes do início,
de ti a ti, em mim,
pulsação lisa e leve,
suave motor da terra,
a pacífica respiração do oásis.
Ponto
de universo fixado
onde atingi a consistência dócil
de permanecer entregue,
plenitude abrigada
na navegação nocturna.
Um ponto vazio,
plenamente vazio.
em permanência de tranquilidade
para a noite inteira. Um ponto
extremo, interno. Um pequeníssimo ponto
invulnerável
de estabilidade total
— nascido como? — fruto do espaço limpo,
de aberta aderência nua ao ar,
de constância livre, desocupada,
do descanso de ser até ao fundo simples,
de completa entrega?
Um ponto nu inabitado branco
de intocável serenidade,
fixo como um nervo e imponderável,
de fim inicial,
ponto de respiração,
clareira de estar,
abertura central viva,
praia de ser e nada
— mas apenas um ponto, um puro ponto
contra a noite inteira,
contra o frio,
contra a destruição.
Ponto de união
de paz coextensa à noite,
opaco e diáfano nó
do desenlace perfeito.
Nó de água
da água mais nua.
Ninho interno do espaço.
Pequena lua essencial
num horizonte de segura paz.
Ponto, em ti descanso,
certeza do mundo e de mim
em ti, dentro da noite,
atinjo o equilíbrio actual e puro.
Ponto, antes do início,
de ti a ti, em mim,
pulsação lisa e leve,
suave motor da terra,
a pacífica respiração do oásis.
Ponto
de universo fixado
onde atingi a consistência dócil
de permanecer entregue,
plenitude abrigada
na navegação nocturna.
Um ponto vazio,
plenamente vazio.
1 043
António Ramos Rosa
O Desejado Chegado
He llegado a una tierra de llegada.
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.
A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.
O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.
No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar.
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.
A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.
O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.
No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar.
1 010
António Ramos Rosa
Onde a Boca Cai Cai o Sol do Cavalo
Onde a boca cai cai o sol do cavalo.
Ó boca exasperada nas raízes, nas pedras,
ó boca envenenada pelo verde da treva.
Onde o sol do cavalo? Água subterrânea.
Lâmpadas submersas, visões, negros punhais,
atravessar o cavalo, dominar a esperança,
a paciência é nova, mas as luzes já ferem
os olhos sem as pálpebras, e o acaso começa,
a perturbar a ordem que amadurece os frutos,
a conturbar a vista dos campos e da paz.
Onde a boca cai cai o cavalo e caio.
Ó boca exasperada nas raízes, nas pedras,
ó boca envenenada pelo verde da treva.
Onde o sol do cavalo? Água subterrânea.
Lâmpadas submersas, visões, negros punhais,
atravessar o cavalo, dominar a esperança,
a paciência é nova, mas as luzes já ferem
os olhos sem as pálpebras, e o acaso começa,
a perturbar a ordem que amadurece os frutos,
a conturbar a vista dos campos e da paz.
Onde a boca cai cai o cavalo e caio.
1 205
António Ramos Rosa
Onde a Boca Cai Cai o Sol do Cavalo
Onde a boca cai cai o sol do cavalo.
Ó boca exasperada nas raízes, nas pedras,
ó boca envenenada pelo verde da treva.
Onde o sol do cavalo? Água subterrânea.
Lâmpadas submersas, visões, negros punhais,
atravessar o cavalo, dominar a esperança,
a paciência é nova, mas as luzes já ferem
os olhos sem as pálpebras, e o acaso começa,
a perturbar a ordem que amadurece os frutos,
a conturbar a vista dos campos e da paz.
Onde a boca cai cai o cavalo e caio.
Ó boca exasperada nas raízes, nas pedras,
ó boca envenenada pelo verde da treva.
Onde o sol do cavalo? Água subterrânea.
Lâmpadas submersas, visões, negros punhais,
atravessar o cavalo, dominar a esperança,
a paciência é nova, mas as luzes já ferem
os olhos sem as pálpebras, e o acaso começa,
a perturbar a ordem que amadurece os frutos,
a conturbar a vista dos campos e da paz.
Onde a boca cai cai o cavalo e caio.
1 205
António Ramos Rosa
Sem Eu As Pressentir
Sem eu as pressentir,
mas já na febre e no desejo,
sinuosos sinais, frechas intermitentes,
interrompem a sombra, negam o meu silêncio.
Afluem, mas são lâminas e traços
que a mão inscreve. Não o liso
curso que amanhece. Um intervalo
na luz. Em sucessivos
arranques, os membros se reúnem
ou dispersam.
Mas se noite e luz reúnem
ferindo de surpresa
negam o muro que erguem
o próprio muro que são
e que atravessam.
Nada se dilui, pois tudo recomeça.
mas já na febre e no desejo,
sinuosos sinais, frechas intermitentes,
interrompem a sombra, negam o meu silêncio.
Afluem, mas são lâminas e traços
que a mão inscreve. Não o liso
curso que amanhece. Um intervalo
na luz. Em sucessivos
arranques, os membros se reúnem
ou dispersam.
Mas se noite e luz reúnem
ferindo de surpresa
negam o muro que erguem
o próprio muro que são
e que atravessam.
Nada se dilui, pois tudo recomeça.
1 049
António Ramos Rosa
Quem Bate a Uma Porta de Folhas
Quem bate a uma porta de folhas na noite
uma porta de folhas na noite
Quem toca a dura casca do teu nome na noite
a uma porta de folhas
Uma porta de folhas uma porta
Quem bate a essa porta de folhas
Quem bate a essa porta de folhas na noite
Quem bate a essa porta sou eu
uma porta de folhas na noite
Quem toca a dura casca do teu nome na noite
a uma porta de folhas
Uma porta de folhas uma porta
Quem bate a essa porta de folhas
Quem bate a essa porta de folhas na noite
Quem bate a essa porta sou eu
1 190
António Ramos Rosa
Não Acaba o Cavalo de Ser Cavalo
Não acaba o cavalo de ser cavalo
pelo nome e pelo corpo,
pela argila vermelha e o verde bosque,
o princípio da forma do seu ser.
Tão rasteiro me faço para o ver
na glória do seu campo raso
a respirar o ar do seu ar
e o barro que é bafo parado.
O dia pardo como um pão de terra
e a sede dessas virilhas fortalece
o martelo com que bato a paz do campo.
pelo nome e pelo corpo,
pela argila vermelha e o verde bosque,
o princípio da forma do seu ser.
Tão rasteiro me faço para o ver
na glória do seu campo raso
a respirar o ar do seu ar
e o barro que é bafo parado.
O dia pardo como um pão de terra
e a sede dessas virilhas fortalece
o martelo com que bato a paz do campo.
1 075
António Ramos Rosa
Desmancha-Se o Cavalo? Jamais.
Desmancha-se o cavalo? Jamais.
A resposta vem da força dele.
Corre por cima dos desastres.
É fogo e pedra alta bem talhada.
Impossível quebrar-lhe a linha aérea
que tem a terra toda nos seus cascos.
Pesa por si e pelo campo em torno.
E o tácito apelo do risco em frente.
Vive, portanto, mais alto do que o tempo.
Ele próprio é bandeira sem bandeira,
o cavalo que nunca o é para si mesmo.
A resposta vem da força dele.
Corre por cima dos desastres.
É fogo e pedra alta bem talhada.
Impossível quebrar-lhe a linha aérea
que tem a terra toda nos seus cascos.
Pesa por si e pelo campo em torno.
E o tácito apelo do risco em frente.
Vive, portanto, mais alto do que o tempo.
Ele próprio é bandeira sem bandeira,
o cavalo que nunca o é para si mesmo.
1 108
António Ramos Rosa
O Arco, E Logo, a Folha Alta
O arco, e logo, a folha alta,
o dia. O espaço,
o silêncio, um bloco transparente.
A casa vive o que eu escrevo,
e a margem branca (intransponível)
é o corpo que eu não sei,
vivo na claridade.
Um corpo, digo, não um cristal.
Que permanece, ainda que eu hesite
ou falhe, ou recomece. E longamente
se abre, no dia, o arco, e a mão que o perde.
Só uma distância, ou o desejo, o quer.
Mas onde e quando, enquanto existe?
A vulnerada folha não o rasga.
O corpo, no horizonte, dura, intacto.
o dia. O espaço,
o silêncio, um bloco transparente.
A casa vive o que eu escrevo,
e a margem branca (intransponível)
é o corpo que eu não sei,
vivo na claridade.
Um corpo, digo, não um cristal.
Que permanece, ainda que eu hesite
ou falhe, ou recomece. E longamente
se abre, no dia, o arco, e a mão que o perde.
Só uma distância, ou o desejo, o quer.
Mas onde e quando, enquanto existe?
A vulnerada folha não o rasga.
O corpo, no horizonte, dura, intacto.
1 060
António Ramos Rosa
O Calor Dos Campos E da Cor Em Ti, Cavalo,
O calor dos campos e da cor em ti, cavalo,
e em mim o muro quente e a força do teu nome.
Não espero mas aceito a tua marcha
como quem navega no campo dessas cores.
Tua abrasada língua, teus olhos sem antolhos,
correm a liberdade dos campos sem a névoa,
relinchas do prazer de ser cavalo
(e não o sabes)
e aqui me tens numa linguagem árida
e tensa. Para que me arrebates ainda mais que nunca
sempre com a paz do teu campo de cores
e a grande paz da força, tua boca descoberta,
sempre a alertar-me em palavras que são brasas
ou cinza ainda cálida do papel, destas formas
do meu amor da liberdade e do vigor
da vontade inteira em mim, cavalo.
e em mim o muro quente e a força do teu nome.
Não espero mas aceito a tua marcha
como quem navega no campo dessas cores.
Tua abrasada língua, teus olhos sem antolhos,
correm a liberdade dos campos sem a névoa,
relinchas do prazer de ser cavalo
(e não o sabes)
e aqui me tens numa linguagem árida
e tensa. Para que me arrebates ainda mais que nunca
sempre com a paz do teu campo de cores
e a grande paz da força, tua boca descoberta,
sempre a alertar-me em palavras que são brasas
ou cinza ainda cálida do papel, destas formas
do meu amor da liberdade e do vigor
da vontade inteira em mim, cavalo.
1 054
António Ramos Rosa
Contra o Silêncio
Ardem os braços, ardem contra
o silêncio. Não grito.
Doem os ossos contra a porta.
Abrem-se ao abraço. Estalam? Querem?
Suporto frente à porta.
Não é o silêncio do silêncio.
Não a terra da casa nem o tronco da terra.
Não a face no espelho onde nulo me vejo.
Rosto pregado ao solo, às pregas mínimas,
contacto a pura força dos ossos masculinos.
Dói. Dói-me a força que sustento.
A parede do silêncio mais espessa.
As escuras veias que se engrossam.
Rasgarei uma nuvem? Abrirei uma pedra?
Contenho o tronco, a força contra o tempo?
Uma janela? Não. Não antecipo.
No meu corpo ainda não se fez silêncio.
Abro, abro a porta deste tronco ou fecho-a?
Estendo os braços que estalam. Uma ponte?
Atravesso as veias de madeira ou de pedra.
Silva algum astro na seiva ou as raízes rangem?
Sou compactamente. Nada ainda sou.
Sobrevivo ainda. Resisto ainda. Forço ainda. Quero.
O silêncio ainda é uma bandeira de febre.
Um país de insectos dissemina-se.
Vibro no saibro ardente. Vibro e ardo.
Se atingir os ombros, desaguar as espáduas,
deixarei a onda mais branca do silêncio
abrir-me a porta, descerrar-me o tronco?
Estou aqui. Aonde? Cerradamente inverso.
Por uma ferida verde, por uma porta aberta?
Estou aqui onde não é uma torre,
contra a expulsão. Por uma explosão suave.
Ah, se caísse, caísse na queda que me erguesse?
Até à folha onde escrevo, que país de mãos seria?
o silêncio. Não grito.
Doem os ossos contra a porta.
Abrem-se ao abraço. Estalam? Querem?
Suporto frente à porta.
Não é o silêncio do silêncio.
Não a terra da casa nem o tronco da terra.
Não a face no espelho onde nulo me vejo.
Rosto pregado ao solo, às pregas mínimas,
contacto a pura força dos ossos masculinos.
Dói. Dói-me a força que sustento.
A parede do silêncio mais espessa.
As escuras veias que se engrossam.
Rasgarei uma nuvem? Abrirei uma pedra?
Contenho o tronco, a força contra o tempo?
Uma janela? Não. Não antecipo.
No meu corpo ainda não se fez silêncio.
Abro, abro a porta deste tronco ou fecho-a?
Estendo os braços que estalam. Uma ponte?
Atravesso as veias de madeira ou de pedra.
Silva algum astro na seiva ou as raízes rangem?
Sou compactamente. Nada ainda sou.
Sobrevivo ainda. Resisto ainda. Forço ainda. Quero.
O silêncio ainda é uma bandeira de febre.
Um país de insectos dissemina-se.
Vibro no saibro ardente. Vibro e ardo.
Se atingir os ombros, desaguar as espáduas,
deixarei a onda mais branca do silêncio
abrir-me a porta, descerrar-me o tronco?
Estou aqui. Aonde? Cerradamente inverso.
Por uma ferida verde, por uma porta aberta?
Estou aqui onde não é uma torre,
contra a expulsão. Por uma explosão suave.
Ah, se caísse, caísse na queda que me erguesse?
Até à folha onde escrevo, que país de mãos seria?
1 217
António Ramos Rosa
Contra o Silêncio
Ardem os braços, ardem contra
o silêncio. Não grito.
Doem os ossos contra a porta.
Abrem-se ao abraço. Estalam? Querem?
Suporto frente à porta.
Não é o silêncio do silêncio.
Não a terra da casa nem o tronco da terra.
Não a face no espelho onde nulo me vejo.
Rosto pregado ao solo, às pregas mínimas,
contacto a pura força dos ossos masculinos.
Dói. Dói-me a força que sustento.
A parede do silêncio mais espessa.
As escuras veias que se engrossam.
Rasgarei uma nuvem? Abrirei uma pedra?
Contenho o tronco, a força contra o tempo?
Uma janela? Não. Não antecipo.
No meu corpo ainda não se fez silêncio.
Abro, abro a porta deste tronco ou fecho-a?
Estendo os braços que estalam. Uma ponte?
Atravesso as veias de madeira ou de pedra.
Silva algum astro na seiva ou as raízes rangem?
Sou compactamente. Nada ainda sou.
Sobrevivo ainda. Resisto ainda. Forço ainda. Quero.
O silêncio ainda é uma bandeira de febre.
Um país de insectos dissemina-se.
Vibro no saibro ardente. Vibro e ardo.
Se atingir os ombros, desaguar as espáduas,
deixarei a onda mais branca do silêncio
abrir-me a porta, descerrar-me o tronco?
Estou aqui. Aonde? Cerradamente inverso.
Por uma ferida verde, por uma porta aberta?
Estou aqui onde não é uma torre,
contra a expulsão. Por uma explosão suave.
Ah, se caísse, caísse na queda que me erguesse?
Até à folha onde escrevo, que país de mãos seria?
o silêncio. Não grito.
Doem os ossos contra a porta.
Abrem-se ao abraço. Estalam? Querem?
Suporto frente à porta.
Não é o silêncio do silêncio.
Não a terra da casa nem o tronco da terra.
Não a face no espelho onde nulo me vejo.
Rosto pregado ao solo, às pregas mínimas,
contacto a pura força dos ossos masculinos.
Dói. Dói-me a força que sustento.
A parede do silêncio mais espessa.
As escuras veias que se engrossam.
Rasgarei uma nuvem? Abrirei uma pedra?
Contenho o tronco, a força contra o tempo?
Uma janela? Não. Não antecipo.
No meu corpo ainda não se fez silêncio.
Abro, abro a porta deste tronco ou fecho-a?
Estendo os braços que estalam. Uma ponte?
Atravesso as veias de madeira ou de pedra.
Silva algum astro na seiva ou as raízes rangem?
Sou compactamente. Nada ainda sou.
Sobrevivo ainda. Resisto ainda. Forço ainda. Quero.
O silêncio ainda é uma bandeira de febre.
Um país de insectos dissemina-se.
Vibro no saibro ardente. Vibro e ardo.
Se atingir os ombros, desaguar as espáduas,
deixarei a onda mais branca do silêncio
abrir-me a porta, descerrar-me o tronco?
Estou aqui. Aonde? Cerradamente inverso.
Por uma ferida verde, por uma porta aberta?
Estou aqui onde não é uma torre,
contra a expulsão. Por uma explosão suave.
Ah, se caísse, caísse na queda que me erguesse?
Até à folha onde escrevo, que país de mãos seria?
1 217
António Ramos Rosa
No Elemento Único Global
Sem o ofegar da tensão cativa
sóbria soberana
em assomos planos de dorso
o elemento único global
a alegria nova e luminosa
Entre ver e respirar
praia ao cessar das sílabas
recente clareira
despojada lâmina de brancura
de plana tranquilidade imediata
Sem perfil entrevista entre ramos acesos
ligeira imóvel dança de sinais
coroada em todo o lado pelo seu suporte branco
Alta e rasa sem figura interposta
a mesa real de todo o ver possível
na aérea luz de um sim que se respira
Renovada madeira do corpo comunicada
Lâmina liberta ao nível do ar
sóbria soberana
em assomos planos de dorso
o elemento único global
a alegria nova e luminosa
Entre ver e respirar
praia ao cessar das sílabas
recente clareira
despojada lâmina de brancura
de plana tranquilidade imediata
Sem perfil entrevista entre ramos acesos
ligeira imóvel dança de sinais
coroada em todo o lado pelo seu suporte branco
Alta e rasa sem figura interposta
a mesa real de todo o ver possível
na aérea luz de um sim que se respira
Renovada madeira do corpo comunicada
Lâmina liberta ao nível do ar
560
António Ramos Rosa
No Elemento Único Global
Sem o ofegar da tensão cativa
sóbria soberana
em assomos planos de dorso
o elemento único global
a alegria nova e luminosa
Entre ver e respirar
praia ao cessar das sílabas
recente clareira
despojada lâmina de brancura
de plana tranquilidade imediata
Sem perfil entrevista entre ramos acesos
ligeira imóvel dança de sinais
coroada em todo o lado pelo seu suporte branco
Alta e rasa sem figura interposta
a mesa real de todo o ver possível
na aérea luz de um sim que se respira
Renovada madeira do corpo comunicada
Lâmina liberta ao nível do ar
sóbria soberana
em assomos planos de dorso
o elemento único global
a alegria nova e luminosa
Entre ver e respirar
praia ao cessar das sílabas
recente clareira
despojada lâmina de brancura
de plana tranquilidade imediata
Sem perfil entrevista entre ramos acesos
ligeira imóvel dança de sinais
coroada em todo o lado pelo seu suporte branco
Alta e rasa sem figura interposta
a mesa real de todo o ver possível
na aérea luz de um sim que se respira
Renovada madeira do corpo comunicada
Lâmina liberta ao nível do ar
560
António Ramos Rosa
Na Solidão Renovada
Com os dentes.
Sem música,
sem água.
Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
Sem música,
sem água.
Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
1 162
António Ramos Rosa
Para Ser Nos Limites
Para ser nos limites, luz da árvore, para estar no espaço,
mãos que formem um corpo — que o desfaçam e o reúnam
— corpo nu,
a primeira palavra, o primeiro tacto.
Nasce a árvore no lugar onde é o espaço
onde tu estás.
Eu amo essa palavra no lugar — a palavra no olhar
a palavra que me faz
ver-te.
Para ser e para estar
quero construir-te árvore
do meu tacto,
árvore do meu olhar,
minha árvore.
A árvore inteira
no hálito de te ver.
Árvore no seu lugar.
Sou eu perante ti — de face
em meu rosto real
e o mesmo ar
da árvore.
mãos que formem um corpo — que o desfaçam e o reúnam
— corpo nu,
a primeira palavra, o primeiro tacto.
Nasce a árvore no lugar onde é o espaço
onde tu estás.
Eu amo essa palavra no lugar — a palavra no olhar
a palavra que me faz
ver-te.
Para ser e para estar
quero construir-te árvore
do meu tacto,
árvore do meu olhar,
minha árvore.
A árvore inteira
no hálito de te ver.
Árvore no seu lugar.
Sou eu perante ti — de face
em meu rosto real
e o mesmo ar
da árvore.
1 150
António Ramos Rosa
O Cavalo Decide Antes Ainda
O cavalo decide antes ainda
da decisão, na planície.
Cavalo azul, não, mas forma
do meu bafo que lhe respira o ardor.
Eu sou cavalo no cavalo
porque a palavra o diz inteiro
e vejo que ela cava, é terra e pedra
e músculo a músculo retenho a força dele.
Com a paciência do campo e o amor do olhar
a precisão do cavalo é maior que o caminho
e tem em si todo o hálito da casa.
da decisão, na planície.
Cavalo azul, não, mas forma
do meu bafo que lhe respira o ardor.
Eu sou cavalo no cavalo
porque a palavra o diz inteiro
e vejo que ela cava, é terra e pedra
e músculo a músculo retenho a força dele.
Com a paciência do campo e o amor do olhar
a precisão do cavalo é maior que o caminho
e tem em si todo o hálito da casa.
1 319
António Ramos Rosa
Fronte Ou Limiar
Fronte ou limiar se tu respiras
o grande solo do dia,
limiar do ar onde o ar aflora
o ar no ar.
Uma só onda no papel, uma onda nua,
o solo do cimo,
o branco mar do ar.
Se te respiro, janela
aberta sobre o vazio fresco,
o ar da mesa clara
do dia,
percorro-o num voo de sol,
na roda branca do céu,
margem total rasgada de ar,
latitude do centro, largo em fuga.
Se te respiro, sou
o suporte nu do ar.
Breve, tão breve lâmina
à flor do papel, à flor da terra.
Uma madeira nova — boca e vela.
Um puro assomo de ar.
o grande solo do dia,
limiar do ar onde o ar aflora
o ar no ar.
Uma só onda no papel, uma onda nua,
o solo do cimo,
o branco mar do ar.
Se te respiro, janela
aberta sobre o vazio fresco,
o ar da mesa clara
do dia,
percorro-o num voo de sol,
na roda branca do céu,
margem total rasgada de ar,
latitude do centro, largo em fuga.
Se te respiro, sou
o suporte nu do ar.
Breve, tão breve lâmina
à flor do papel, à flor da terra.
Uma madeira nova — boca e vela.
Um puro assomo de ar.
1 072
António Ramos Rosa
Tronco Decepado
Tentação de dizer:
as largas gotas
de madeira e paz,
os veios do sono materiais.
As fronteiras redondas: labirinto exibido.
Ó tentação: mais ser
de vegetal viver no já vivido
e por surpresa na seiva que já seca
acorda ao olhar o respirar de ver.
Morta ou calada,
minha cabeça assim se enche vaga,
do ar da árvore decepada:
um cheio de nada, um tronco de ar.
Assim cortada,
redonda face
no chão de liso amor
te calco e te decalco
no vão que eu próprio sou,
rasa garganta em veios duros e macios
de um tronco que não sei nem sou,
por ti respiro.
as largas gotas
de madeira e paz,
os veios do sono materiais.
As fronteiras redondas: labirinto exibido.
Ó tentação: mais ser
de vegetal viver no já vivido
e por surpresa na seiva que já seca
acorda ao olhar o respirar de ver.
Morta ou calada,
minha cabeça assim se enche vaga,
do ar da árvore decepada:
um cheio de nada, um tronco de ar.
Assim cortada,
redonda face
no chão de liso amor
te calco e te decalco
no vão que eu próprio sou,
rasa garganta em veios duros e macios
de um tronco que não sei nem sou,
por ti respiro.
1 106
António Ramos Rosa
Campo de Acção
Quando as forças duras
nas faces dos muros
nas plantas rasteiras
nos intervalos nus
na rede solitária das ruas
quando um corpo através dos poros
interiormente nu
se desfaz entre as árvores
se refaz de ar verdadeiro rindo
toda a pobreza solta
claros intervalos altas forças
cantam
e caminhar
é a luz do vinho nos passos no olhar
altura de ser livre
aberto o arco da fronte sobre as ruas
O corpo é a chama dada
parte viva do ar
cúmplice do cálido rigor das alamedas
a mão é trespassada pela luz dourada
perpendicular caindo sobre o centro do corpo
a seda dos segundos solares
circula num tapete continuamente solto
Olhar é respirar respirar olhar
beber o ouro visível
roda imóvel verde
o corpo envolto
mais vivo do que as folhas mais alto e duro
reunido no silêncio
respira
banhando de ar e sangue todas as palavras
nas faces dos muros
nas plantas rasteiras
nos intervalos nus
na rede solitária das ruas
quando um corpo através dos poros
interiormente nu
se desfaz entre as árvores
se refaz de ar verdadeiro rindo
toda a pobreza solta
claros intervalos altas forças
cantam
e caminhar
é a luz do vinho nos passos no olhar
altura de ser livre
aberto o arco da fronte sobre as ruas
O corpo é a chama dada
parte viva do ar
cúmplice do cálido rigor das alamedas
a mão é trespassada pela luz dourada
perpendicular caindo sobre o centro do corpo
a seda dos segundos solares
circula num tapete continuamente solto
Olhar é respirar respirar olhar
beber o ouro visível
roda imóvel verde
o corpo envolto
mais vivo do que as folhas mais alto e duro
reunido no silêncio
respira
banhando de ar e sangue todas as palavras
965
António Ramos Rosa
No Lugar da Árvore
No lugar da árvore. Longa e ampla.
Tronco, não obstáculo,
roda única sem rumor.
Minha mão de silêncio sem espanto.
Fazes-me maior
perto do ar.
Toda a leveza do ouvido, rede aérea,
onde sorrio e vejo
os animais claros do dia.
Próximo estou do justo
centro da coluna.
O corpo surdo e denso, só com o vinho do ar.
Desço ao nível da pedra,
pedra clara e sem canto.
Pousada, a árvore dá-me a pausa
a partir do chão.
Um pacto
de fiel invenção.
Já afasto os meus passos.
O timbre das palavras será o deste solo.
Tronco, não obstáculo,
roda única sem rumor.
Minha mão de silêncio sem espanto.
Fazes-me maior
perto do ar.
Toda a leveza do ouvido, rede aérea,
onde sorrio e vejo
os animais claros do dia.
Próximo estou do justo
centro da coluna.
O corpo surdo e denso, só com o vinho do ar.
Desço ao nível da pedra,
pedra clara e sem canto.
Pousada, a árvore dá-me a pausa
a partir do chão.
Um pacto
de fiel invenção.
Já afasto os meus passos.
O timbre das palavras será o deste solo.
581