Lista de Poemas

O Cisne

Sem rumor, sob o espelho em lagos fundos, calmos,
O cisne impele a onda com as amplas palmas,
E desliza. A penugem em seus flancos, tal
Neves de abril tremendo ao sol de forma igual;
Mas, rijo, branco mastro a vibrar pelo vento,
Sua imensa asa o leva assim qual barco lento,
Passa seu belo peito acima de umas plantas,
Mergulha e sobre as águas o alonga, levanta,
Arqueia-o gracioso qual perfil de acanto
E guarda o negro bico em seu colo de encanto.
Ora ao longo dos pinhos, lar de sombra e paz,
Serpeia, deixando ervas espessas atrás
Arrastando-se assim como uma cabeleira,
E segue ele em suave e lânguida maneira.
A gruta onde o poeta escuta o que ele sente
E a fonte que lamenta um sempre eterno ausente
Lhe prazem; Lá gira ele; e a folha de salgueiro
Em silêncio caída, ao seu dorso se abeira.
Quanto mais ele faz-se ao largo; a se afastar
Do bosque escuro e, esplêndido, no azul reinar,
Só elegeu para saudar o alvor que admira
O lugar reluzente em onde o sol se mira.
E depois quando as margens tornam-se confusas,
Na hora onde toda forma é um espectro difuso,
Onde reduz um horizonte em rubro risco,
Enquanto nenhum junco ou espadana pisca,
Com as rãs verdes a soar no sereno ar
E quando o pirilampo refulge ao luar,
A ave, no sombrio lago aonde se reflete
O fulgor de uma noite láctea e violeta,
Como um jarro de prata em meio a diamantes,
Dorme, a cabeça entre asas e dois céus brilhantes.


tradução José Lino Grünewald
686

O vaso partido

O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.

Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.

A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.

Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;

Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.



Le vase brisé
Le vase où meurt cette vervaine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut l’effleurer à peine,
Aucun bruit ne l’a révélé.

Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.

Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.

Souvent aussi la main qu’on aime
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;

Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.


tradução Guilherme de Almeida
1 685

O cisne

Calmo, do espelho azul d’água profunda e calma
à face errando, os pés, lânguido, o cisne espalma
E desliza. Da neve os raros flocos brancos
Lembra o fino frouxel que lhe amacia os flancos;
Línea vela parece a asa que encurva e brande,
Esbelto, e ora retrai, ora sacode e expande;
Entre as ninféias indo, o alvo pescoço apruma,
Colhe-o após, some-o n’água, estende-o sobre a espuma,
Curva-o mole e gracioso, e ânfora antiga imita.
Dos pinheiros ao longo, onde o silêncio habita
E a paz e a sombra, vai; rastejando na esteira,
Que atrás fica, semelha intensa cabeleira
A basta ervagem fresca a palpitar. A gruta,
Que a alma atrai do poeta e a voz da tarde escuta,
Praz-lhe e a fonte que além flui, regurgita e bolha.
Vendo-as, lento se arrasta. às vezes numa folha
Leve cai do salgueiro e, em sua queda, leve,
Roça-lhe, muda sombra, as plumas cor de neve.
Caminha agora ao largo; o implexo da ramagem
Deixa e a parte procura onde o esplendor selvagem
Diz melhor com o brilhar d’água anilada e pura.
Do lado é a parte mais azul que ele procura;
E lá vai… a cismar sobre as ondas serenas,
Entrega à luz do sol a brancura das penas.
Depois, quando, em redor, se confundem, caindo
A noite, do amplo lago as margens, e no infinito

Horizonte há somente um ponto avermelhado;
Quando tudo quedou, quando no ilimitado
Do céu paira da lua o globo enorme e albente;
Quando acende o lampiro a luz fosforescente,
E nem o menor sopro o débil junco embala:
O cisne, sob o olhar dessa noite de opala,
Em seu lago sombrio, enfim, descansa; e, acaso
Visto de alguém, assim, lembra de prata um vaso…
Põe sob a asa a cabeça, os olhos sonolentos
Fecha, e dorme, feliz, entre dois firmamentos.



Le cygne
Sans bruit, sous le miroir des lacs profonds et calmes,
Le cygne chasse l’onde avec ses larges palmes,
Et glisse. Le duvet de ses flancs est pareil
A des neiges d’avril qui croulent au soleil;
Mais, ferme et d’un blanc mat, vibrant sous le zéphire,
Sa grande aile l’entraîne ainsi qu’un lent navire.
Il dresse son beau col au-dessus des roseaux,
Le plonge, le promène allongé sur les eaux,
Le courbe gracieux comme un profil d’acanthe,
Et cache son bec noir dans sa gorge éclatante.
Tantôt le long des pins, séjour d’ombre et de paix,
Il serpente, et, laissant les herbages épais
Traîner derrière lui comme une chevelure,
Il va d’une tardive et languissante allure.
La grotte où le poète écoute ce qu’il sent,
Et la source qui pleure un éternel absent,
Lui plaisent; il y rôde; une feuille de saule
En silence tombée effleure son épaule.
Tantôt il pousse au large, et, loin du bois obscur,
Superbe, gouvernant du côté de l’azur,
Il choisit, pour fêter sa blancheur qu’il admire,
La place éblouissante où le soleil se mire.

Puis, quand les bords de l’eau ne se distinguent plus,
A l’heure où toute forme est un spectre confus,
Où l’horizon brunit rayé d’un long trait rouge,
Alors que pas un jonc, pas un glaïeul ne bouge,
Que les rainettes font dans l’air serein leur bruit,
Et que la luciole au clair de lune luit,
L’oiseau, dans le lac sombre où sous lui se reflète
La splendeur d’une nuit lactée et violette,
Comme un vase d’argent parmi des diamants,
Dort, la tête sous l’aile, entre deux firmaments.

tradução Alberto de oliveira
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Identificação e contexto básico

René François Armand Prudhomme, mais conhecido pelo pseudónimo Sully Prudhomme, nasceu a 16 de março de 1839 em Paris, França, e faleceu a 6 de setembro de 1907 em Châtenay-Malabry, também em França. Foi um poeta e ensaísta francês. Pertenceu à Academia Francesa a partir de 1881. É reconhecido como um dos principais representantes do movimento parnasiano na literatura francesa, e foi laureado com o primeiro Prémio Nobel da Literatura em 1901.

Infância e formação

Sully Prudhomme nasceu numa família burguesa e demonstrou desde cedo aptidões para as ciências e a filosofia. Inicialmente, pretendia seguir a carreira de engenheiro, tendo estudado em liceus parisienses. No entanto, a saúde frágil e a atração pela poesia levaram-no a abandonar o percurso científico para se dedicar às letras. Absorveu influências do pensamento filosófico da época, incluindo Schopenhauer, e da ciência crescente, que moldariam a sua visão de mundo.

Percurso literário

O início da sua carreira literária foi marcado pela publicação de "Stances et Poèmes" (1865), obra que lhe valeu reconhecimento imediato e o inseriu no círculo do Parnasianismo. Ao longo da sua vida, Prudhomme publicou diversas coleções de poemas, explorando uma evolução gradual nos seus temas, mas mantendo uma coerência estilística. Colaborou com diversas revistas literárias e foi um intelectual ativo no seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Sully Prudhomme é vasta e diversificada, abordando temas como o amor, a morte, a dor, a felicidade, a ciência, a filosofia e a condição humana. O seu estilo é marcado pela clareza, precisão e elegância, com um rigor formal que se alinha com os preceitos do Parnasianismo. Utilizava frequentemente o soneto e outras formas poéticas clássicas, mas também experimentou com o verso livre em poemas mais longos e filosóficos. A sua linguagem é culta e imagética, mas sem o excesso de ornamentação de outros poetas simbolistas. O tom da sua poesia é frequentemente melancólico, reflexivo e, por vezes, pessimista, refletindo as suas inquietações existenciais e intelectuais. Prudhomme procurou conciliar a arte com a ciência e a filosofia, criando uma poesia intelectualizada e de profunda introspeção.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sully Prudhomme viveu num período de grandes transformações científicas, sociais e políticas em França, como a Segunda Revolução Industrial, o desenvolvimento do positivismo e as tensões entre a República e as forças conservadoras. Integrou o grupo de poetas parnasianos, que se opunham ao sentimentalismo romântico e buscavam uma poesia mais objetiva, formal e inspirada na arte clássica e nas descobertas científicas. Era contemporâneo de poetas como Leconte de Lisle e Théophile Gautier. A sua obra refletiu o ceticismo e as angústias intelectuais de uma época marcada pelo avanço científico e pela crise de valores tradicionais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sully Prudhomme teve uma vida pessoal marcada pela fragilidade física e por uma certa melancolia. As suas relações familiares foram importantes, embora detalhes sobre a sua vida amorosa sejam menos proeminentes na sua biografia pública. Foi um intelectual dedicado à sua arte, com uma forte ética de trabalho. A sua posição política era moderada, alinhada com os ideais republicanos, mas o seu foco principal era a produção artística e a reflexão filosófica.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Sully Prudhomme gozou de grande prestígio em vida, sendo considerado um dos maiores poetas franceses da sua geração. A sua eleição para a Academia Francesa e, especialmente, a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1901 solidificaram o seu reconhecimento institucional e internacional. A sua poesia foi elogiada pela sua qualidade estética e pela profundidade dos seus temas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sully Prudhomme foi influenciado por poetas clássicos, filósofos (como Schopenhauer) e pelo espírito científico da sua época. Por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas com a sua abordagem intelectual à poesia e a sua capacidade de conciliar forma e conteúdo. O seu legado reside na sua contribuição para o Parnasianismo e na sua capacidade de criar uma poesia que dialoga com as grandes questões da existência humana e do conhecimento científico.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Sully Prudhomme tem sido analisada sob diversas perspetivas, destacando-se a sua exploração do conflito entre a razão e a emoção, a busca pela verdade num mundo em constante mudança e a resignação perante as limitações da condição humana. O seu pessimismo e a sua visão cética da felicidade são temas recorrentes nas análises críticas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade notável sobre Sully Prudhomme é a sua profunda preocupação com o sofrimento e a injustiça no mundo, que o levou a doar grande parte do valor do Prémio Nobel para a criação de um prémio literário destinado a jovens escritores. A sua dedicação à poesia era tal que, nos seus últimos anos, a cegueira progressiva o impediu de ler, mas não de compor, com a ajuda de outros.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Sully Prudhomme faleceu de forma natural aos 68 anos, após uma longa doença. A sua memória é perpetuada através da sua obra, que continua a ser estudada e apreciada, e pela sua distinção como o primeiro laureado com o Prémio Nobel da Literatura, um marco na história da poesia.