Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
António Ramos Rosa
Esta Luz Súbita
Esta luz súbita
que nasce das raízes
onde o implacável vive
Homens
tímidos passageiros
eu rangerei os dentes
até à violência extrema
em que a paz me aniquilará
que nasce das raízes
onde o implacável vive
Homens
tímidos passageiros
eu rangerei os dentes
até à violência extrema
em que a paz me aniquilará
672
António Ramos Rosa
Esta Luz Súbita
Esta luz súbita
que nasce das raízes
onde o implacável vive
Homens
tímidos passageiros
eu rangerei os dentes
até à violência extrema
em que a paz me aniquilará
que nasce das raízes
onde o implacável vive
Homens
tímidos passageiros
eu rangerei os dentes
até à violência extrema
em que a paz me aniquilará
672
António Ramos Rosa
De Escadas Insubmissas
De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro
1 371
António Ramos Rosa
De Escadas Insubmissas
De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro
1 371
Natasha Tinet
mice follies
nunca tive um olho mágico que funcionasse
atrás da porta, há sempre um aquário opaco
com peixes que não sabem que respiram
eu toco o relevo das minhas guelras
e abro todas as torneiras da casa
os pés envelhecidos se abrem em cortes de pele morta
deslizam no rinque de gelo da cozinha
já assistimos a esse desenho
torcíamos pelo rato, crescemos
somos o gato achatado contra a parede
preciso fazer um telefonema que não quero
me desculpe esse domingo no peito
eu não esperava escrever agora
mas, na esquina, uma cega disputa trocados
com um saxofonista, conheço esse jazz
você sabe, deus é um sádico
o diabo só tem uma grande autoestima.
atrás da porta, há sempre um aquário opaco
com peixes que não sabem que respiram
eu toco o relevo das minhas guelras
e abro todas as torneiras da casa
os pés envelhecidos se abrem em cortes de pele morta
deslizam no rinque de gelo da cozinha
já assistimos a esse desenho
torcíamos pelo rato, crescemos
somos o gato achatado contra a parede
preciso fazer um telefonema que não quero
me desculpe esse domingo no peito
eu não esperava escrever agora
mas, na esquina, uma cega disputa trocados
com um saxofonista, conheço esse jazz
você sabe, deus é um sádico
o diabo só tem uma grande autoestima.
758
Natasha Tinet
mice follies
nunca tive um olho mágico que funcionasse
atrás da porta, há sempre um aquário opaco
com peixes que não sabem que respiram
eu toco o relevo das minhas guelras
e abro todas as torneiras da casa
os pés envelhecidos se abrem em cortes de pele morta
deslizam no rinque de gelo da cozinha
já assistimos a esse desenho
torcíamos pelo rato, crescemos
somos o gato achatado contra a parede
preciso fazer um telefonema que não quero
me desculpe esse domingo no peito
eu não esperava escrever agora
mas, na esquina, uma cega disputa trocados
com um saxofonista, conheço esse jazz
você sabe, deus é um sádico
o diabo só tem uma grande autoestima.
atrás da porta, há sempre um aquário opaco
com peixes que não sabem que respiram
eu toco o relevo das minhas guelras
e abro todas as torneiras da casa
os pés envelhecidos se abrem em cortes de pele morta
deslizam no rinque de gelo da cozinha
já assistimos a esse desenho
torcíamos pelo rato, crescemos
somos o gato achatado contra a parede
preciso fazer um telefonema que não quero
me desculpe esse domingo no peito
eu não esperava escrever agora
mas, na esquina, uma cega disputa trocados
com um saxofonista, conheço esse jazz
você sabe, deus é um sádico
o diabo só tem uma grande autoestima.
758
Natasha Tinet
Quando eu era você
Me sigo pela casa com cuidado
não quero me assustar porque sou outra
agora,
enquanto você dança envolta em poeira solar
eu me escondo à sombra dos meus dedos tortos
uma aranha sobe a parede
mnemosyne, ela se chama
tem sujeira sob as patas e é lenta
como os passos de um inimigo perverso
ninguém se perde numa floresta sem motivo
ninguém guarda no livro uma flor
sem o desejo do eterno
me leve para outra dimensão
onde não exista o tempo
somente o cheiro das noites agrestes, do musgo
do sabão nos lençóis ainda úmidos
todo o seu pequeno mundo murmurando
uma sinfonia de árvores e solidões
segredos que crescem no interior de uma fruta
suculenta de futuro, eles não te ouvem
porque têm pressa e você nada fala
um elo foi quebrado e o que resta
é o significado da palavra hereditário
eu te persigo porque respiro conflitos e culpas
ainda encontros escorpiões no jardim e paraliso
enquanto constelações explodem meus pensamentos
me desculpe, há coisas que não entendo
quando eu era você como era o silêncio?
não quero me assustar porque sou outra
agora,
enquanto você dança envolta em poeira solar
eu me escondo à sombra dos meus dedos tortos
uma aranha sobe a parede
mnemosyne, ela se chama
tem sujeira sob as patas e é lenta
como os passos de um inimigo perverso
ninguém se perde numa floresta sem motivo
ninguém guarda no livro uma flor
sem o desejo do eterno
me leve para outra dimensão
onde não exista o tempo
somente o cheiro das noites agrestes, do musgo
do sabão nos lençóis ainda úmidos
todo o seu pequeno mundo murmurando
uma sinfonia de árvores e solidões
segredos que crescem no interior de uma fruta
suculenta de futuro, eles não te ouvem
porque têm pressa e você nada fala
um elo foi quebrado e o que resta
é o significado da palavra hereditário
eu te persigo porque respiro conflitos e culpas
ainda encontros escorpiões no jardim e paraliso
enquanto constelações explodem meus pensamentos
me desculpe, há coisas que não entendo
quando eu era você como era o silêncio?
675
António Ramos Rosa
Monólogo
Perdi a infância e as grandes horas
e procuro numa árvore não sei que intimidade
como se um sol para as mãos nascesse deste olhar
mas a inocência é rápida como o brilho
silenciosa
e existe em si mesma.
Uma forma, sim, sempre silenciosa
dia a dia nascida da surpresa e constância
dia a dia nascida da inocência, mas
como fugir a esta inútil presença?
e procuro numa árvore não sei que intimidade
como se um sol para as mãos nascesse deste olhar
mas a inocência é rápida como o brilho
silenciosa
e existe em si mesma.
Uma forma, sim, sempre silenciosa
dia a dia nascida da surpresa e constância
dia a dia nascida da inocência, mas
como fugir a esta inútil presença?
1 236
António Ramos Rosa
Tertúlia
Não encontro casa
casa onde estar
Ai amigo senta-te
fala-me de ti
Não encontro amiga
não encontro amigo
Se não tenho casa
como ser amigo?
Os meus estão longe
e não têm casa
A natureza é longe
A uma mesa de café
somos quatro quatro quê?
casa onde estar
Ai amigo senta-te
fala-me de ti
Não encontro amiga
não encontro amigo
Se não tenho casa
como ser amigo?
Os meus estão longe
e não têm casa
A natureza é longe
A uma mesa de café
somos quatro quatro quê?
1 119
António Ramos Rosa
Tertúlia
Não encontro casa
casa onde estar
Ai amigo senta-te
fala-me de ti
Não encontro amiga
não encontro amigo
Se não tenho casa
como ser amigo?
Os meus estão longe
e não têm casa
A natureza é longe
A uma mesa de café
somos quatro quatro quê?
casa onde estar
Ai amigo senta-te
fala-me de ti
Não encontro amiga
não encontro amigo
Se não tenho casa
como ser amigo?
Os meus estão longe
e não têm casa
A natureza é longe
A uma mesa de café
somos quatro quatro quê?
1 119
Natasha Tinet
Evelyn McHale
Evelyn McHale não podia se casar
tinha tendências iguais às da mãe
não se pode fugir de uma herança
nem que se jogue do octogésimo
sexto andar do empire state
373 metros entre seus pés acetinados
e o choque de altitude que paralisou
fulminou seu coração antes do impacto metálico
contra um carro estacionado
ofélia afogada no lago negro do desespero
de punhos fechados em luvas e segredos
não há prêmio quando se quer morrer
evaporar adormecida em uma nuvem púrpura
diante dos transeuntes envenenados de cotidiano
um clique registra o “suicídio mais belo da história”
ninfa que repousa em lençóis turbulentos
senhoras, senhores, guardem seus narcisos
antes que apodreçam pela falta de lucidez
Evelyn McHale esposou a morte, mas
não há graciosidade nesse matrimônio
em seu corpo inerte, profundo e apático
na boca exonerada de esperança, quieta
mesmo quando viva, sufocada numa estufa
com a garganta pulsando o último passo
para o esquecimento.
tinha tendências iguais às da mãe
não se pode fugir de uma herança
nem que se jogue do octogésimo
sexto andar do empire state
373 metros entre seus pés acetinados
e o choque de altitude que paralisou
fulminou seu coração antes do impacto metálico
contra um carro estacionado
ofélia afogada no lago negro do desespero
de punhos fechados em luvas e segredos
não há prêmio quando se quer morrer
evaporar adormecida em uma nuvem púrpura
diante dos transeuntes envenenados de cotidiano
um clique registra o “suicídio mais belo da história”
ninfa que repousa em lençóis turbulentos
senhoras, senhores, guardem seus narcisos
antes que apodreçam pela falta de lucidez
Evelyn McHale esposou a morte, mas
não há graciosidade nesse matrimônio
em seu corpo inerte, profundo e apático
na boca exonerada de esperança, quieta
mesmo quando viva, sufocada numa estufa
com a garganta pulsando o último passo
para o esquecimento.
757
Natasha Tinet
Evelyn McHale
Evelyn McHale não podia se casar
tinha tendências iguais às da mãe
não se pode fugir de uma herança
nem que se jogue do octogésimo
sexto andar do empire state
373 metros entre seus pés acetinados
e o choque de altitude que paralisou
fulminou seu coração antes do impacto metálico
contra um carro estacionado
ofélia afogada no lago negro do desespero
de punhos fechados em luvas e segredos
não há prêmio quando se quer morrer
evaporar adormecida em uma nuvem púrpura
diante dos transeuntes envenenados de cotidiano
um clique registra o “suicídio mais belo da história”
ninfa que repousa em lençóis turbulentos
senhoras, senhores, guardem seus narcisos
antes que apodreçam pela falta de lucidez
Evelyn McHale esposou a morte, mas
não há graciosidade nesse matrimônio
em seu corpo inerte, profundo e apático
na boca exonerada de esperança, quieta
mesmo quando viva, sufocada numa estufa
com a garganta pulsando o último passo
para o esquecimento.
tinha tendências iguais às da mãe
não se pode fugir de uma herança
nem que se jogue do octogésimo
sexto andar do empire state
373 metros entre seus pés acetinados
e o choque de altitude que paralisou
fulminou seu coração antes do impacto metálico
contra um carro estacionado
ofélia afogada no lago negro do desespero
de punhos fechados em luvas e segredos
não há prêmio quando se quer morrer
evaporar adormecida em uma nuvem púrpura
diante dos transeuntes envenenados de cotidiano
um clique registra o “suicídio mais belo da história”
ninfa que repousa em lençóis turbulentos
senhoras, senhores, guardem seus narcisos
antes que apodreçam pela falta de lucidez
Evelyn McHale esposou a morte, mas
não há graciosidade nesse matrimônio
em seu corpo inerte, profundo e apático
na boca exonerada de esperança, quieta
mesmo quando viva, sufocada numa estufa
com a garganta pulsando o último passo
para o esquecimento.
757
António Ramos Rosa
Como Uma Sombra Vã
Como uma sombra vã
como uma sombra inútil
numa rua deserta
numa árvore seca
uma caneta inerte sobre a página
onde o sangue das palavras e das veias
uma taça rota pelo sangue
um lenço esburacado pelas lágrimas
uma gota de sangue
na neve
As palavras mais simples têm frio
como a palavra amor
como a palavra tempo
O esquecimento sem sombra é o país onde te abraço
como uma sombra inútil
no qual habitaste o sol antes da morte
As palavras mais simples são as mais preciosas
como uma sombra vã
numa rua deserta
Os dedos são mais tristes que formigas
as formigas que nascem sob as pálpebras
as pálpebras que são dunas de areia
a areia que é mais fina do que o gelo
o gelo que é cintilante nos teus dedos
cinzelados como líquenes de cristal
onde uma lágrima fulge como um sol
como uma sombra vã
numa rua deserta
Uma criança triste
pelo crivo das lágrimas
faz cintilar a luz
pelo crivo da vida
faz passar o céu puro
É um amante e um amigo
é uma criança com um barco
é uma sombra generosa
é um esqueleto de sangue
sobre o papel
É uma sombra uma sombra
sobre o cimo da neve
é uma gota de sangue
é um homem na fronteira
do vazio e da calma
um nosso irmão
como uma sombra inútil
numa rua deserta
numa árvore seca
uma caneta inerte sobre a página
onde o sangue das palavras e das veias
uma taça rota pelo sangue
um lenço esburacado pelas lágrimas
uma gota de sangue
na neve
As palavras mais simples têm frio
como a palavra amor
como a palavra tempo
O esquecimento sem sombra é o país onde te abraço
como uma sombra inútil
no qual habitaste o sol antes da morte
As palavras mais simples são as mais preciosas
como uma sombra vã
numa rua deserta
Os dedos são mais tristes que formigas
as formigas que nascem sob as pálpebras
as pálpebras que são dunas de areia
a areia que é mais fina do que o gelo
o gelo que é cintilante nos teus dedos
cinzelados como líquenes de cristal
onde uma lágrima fulge como um sol
como uma sombra vã
numa rua deserta
Uma criança triste
pelo crivo das lágrimas
faz cintilar a luz
pelo crivo da vida
faz passar o céu puro
É um amante e um amigo
é uma criança com um barco
é uma sombra generosa
é um esqueleto de sangue
sobre o papel
É uma sombra uma sombra
sobre o cimo da neve
é uma gota de sangue
é um homem na fronteira
do vazio e da calma
um nosso irmão
1 177
António Ramos Rosa
Como Uma Sombra Vã
Como uma sombra vã
como uma sombra inútil
numa rua deserta
numa árvore seca
uma caneta inerte sobre a página
onde o sangue das palavras e das veias
uma taça rota pelo sangue
um lenço esburacado pelas lágrimas
uma gota de sangue
na neve
As palavras mais simples têm frio
como a palavra amor
como a palavra tempo
O esquecimento sem sombra é o país onde te abraço
como uma sombra inútil
no qual habitaste o sol antes da morte
As palavras mais simples são as mais preciosas
como uma sombra vã
numa rua deserta
Os dedos são mais tristes que formigas
as formigas que nascem sob as pálpebras
as pálpebras que são dunas de areia
a areia que é mais fina do que o gelo
o gelo que é cintilante nos teus dedos
cinzelados como líquenes de cristal
onde uma lágrima fulge como um sol
como uma sombra vã
numa rua deserta
Uma criança triste
pelo crivo das lágrimas
faz cintilar a luz
pelo crivo da vida
faz passar o céu puro
É um amante e um amigo
é uma criança com um barco
é uma sombra generosa
é um esqueleto de sangue
sobre o papel
É uma sombra uma sombra
sobre o cimo da neve
é uma gota de sangue
é um homem na fronteira
do vazio e da calma
um nosso irmão
como uma sombra inútil
numa rua deserta
numa árvore seca
uma caneta inerte sobre a página
onde o sangue das palavras e das veias
uma taça rota pelo sangue
um lenço esburacado pelas lágrimas
uma gota de sangue
na neve
As palavras mais simples têm frio
como a palavra amor
como a palavra tempo
O esquecimento sem sombra é o país onde te abraço
como uma sombra inútil
no qual habitaste o sol antes da morte
As palavras mais simples são as mais preciosas
como uma sombra vã
numa rua deserta
Os dedos são mais tristes que formigas
as formigas que nascem sob as pálpebras
as pálpebras que são dunas de areia
a areia que é mais fina do que o gelo
o gelo que é cintilante nos teus dedos
cinzelados como líquenes de cristal
onde uma lágrima fulge como um sol
como uma sombra vã
numa rua deserta
Uma criança triste
pelo crivo das lágrimas
faz cintilar a luz
pelo crivo da vida
faz passar o céu puro
É um amante e um amigo
é uma criança com um barco
é uma sombra generosa
é um esqueleto de sangue
sobre o papel
É uma sombra uma sombra
sobre o cimo da neve
é uma gota de sangue
é um homem na fronteira
do vazio e da calma
um nosso irmão
1 177
António Ramos Rosa
Como Uma Sombra Vã
Como uma sombra vã
como uma sombra inútil
numa rua deserta
numa árvore seca
uma caneta inerte sobre a página
onde o sangue das palavras e das veias
uma taça rota pelo sangue
um lenço esburacado pelas lágrimas
uma gota de sangue
na neve
As palavras mais simples têm frio
como a palavra amor
como a palavra tempo
O esquecimento sem sombra é o país onde te abraço
como uma sombra inútil
no qual habitaste o sol antes da morte
As palavras mais simples são as mais preciosas
como uma sombra vã
numa rua deserta
Os dedos são mais tristes que formigas
as formigas que nascem sob as pálpebras
as pálpebras que são dunas de areia
a areia que é mais fina do que o gelo
o gelo que é cintilante nos teus dedos
cinzelados como líquenes de cristal
onde uma lágrima fulge como um sol
como uma sombra vã
numa rua deserta
Uma criança triste
pelo crivo das lágrimas
faz cintilar a luz
pelo crivo da vida
faz passar o céu puro
É um amante e um amigo
é uma criança com um barco
é uma sombra generosa
é um esqueleto de sangue
sobre o papel
É uma sombra uma sombra
sobre o cimo da neve
é uma gota de sangue
é um homem na fronteira
do vazio e da calma
um nosso irmão
como uma sombra inútil
numa rua deserta
numa árvore seca
uma caneta inerte sobre a página
onde o sangue das palavras e das veias
uma taça rota pelo sangue
um lenço esburacado pelas lágrimas
uma gota de sangue
na neve
As palavras mais simples têm frio
como a palavra amor
como a palavra tempo
O esquecimento sem sombra é o país onde te abraço
como uma sombra inútil
no qual habitaste o sol antes da morte
As palavras mais simples são as mais preciosas
como uma sombra vã
numa rua deserta
Os dedos são mais tristes que formigas
as formigas que nascem sob as pálpebras
as pálpebras que são dunas de areia
a areia que é mais fina do que o gelo
o gelo que é cintilante nos teus dedos
cinzelados como líquenes de cristal
onde uma lágrima fulge como um sol
como uma sombra vã
numa rua deserta
Uma criança triste
pelo crivo das lágrimas
faz cintilar a luz
pelo crivo da vida
faz passar o céu puro
É um amante e um amigo
é uma criança com um barco
é uma sombra generosa
é um esqueleto de sangue
sobre o papel
É uma sombra uma sombra
sobre o cimo da neve
é uma gota de sangue
é um homem na fronteira
do vazio e da calma
um nosso irmão
1 177
António Ramos Rosa
Terraço Aberto
Terraço aberto
aos ventos e aos astros
crivado
das balas de frescura
das ranhuras do sol
muros
onde vejo dedos
muros fraternos
de meus ossos
aqui respiro
através das flores
da chaminé
nos planos brancos
nos montes azulados
nas velas brancas
nas areias douradas
aqui respiro
a claridade
aos ventos e aos astros
crivado
das balas de frescura
das ranhuras do sol
muros
onde vejo dedos
muros fraternos
de meus ossos
aqui respiro
através das flores
da chaminé
nos planos brancos
nos montes azulados
nas velas brancas
nas areias douradas
aqui respiro
a claridade
1 181
António Ramos Rosa
Poema de Duas Faces
Quando havia antes um antigamente
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo
Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seco e pálido
quando havia antes um caminho
Não houve nunca amigos nem pureza
nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar
A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar
Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas
Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos alacres do silêncio
Um mar de espuma e alegria obscura
Um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa
Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insectos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
o mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o verde as lâminas solares
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo
Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seco e pálido
quando havia antes um caminho
Não houve nunca amigos nem pureza
nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar
A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar
Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas
Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos alacres do silêncio
Um mar de espuma e alegria obscura
Um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa
Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insectos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
o mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o verde as lâminas solares
1 199
António Ramos Rosa
Poema de Duas Faces
Quando havia antes um antigamente
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo
Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seco e pálido
quando havia antes um caminho
Não houve nunca amigos nem pureza
nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar
A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar
Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas
Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos alacres do silêncio
Um mar de espuma e alegria obscura
Um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa
Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insectos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
o mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o verde as lâminas solares
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo
Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seco e pálido
quando havia antes um caminho
Não houve nunca amigos nem pureza
nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar
A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar
Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas
Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos alacres do silêncio
Um mar de espuma e alegria obscura
Um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa
Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insectos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
o mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o verde as lâminas solares
1 199
António Ramos Rosa
A Última Oportunidade É Sempre
A última oportunidade é sempre
esta
corre
só um pouco mais e o sol e o sangue
invadirá a árvore
a seiva empapará tua língua
eia! um homem
sem nada para a morte
esta
corre
só um pouco mais e o sol e o sangue
invadirá a árvore
a seiva empapará tua língua
eia! um homem
sem nada para a morte
999
António Ramos Rosa
Através da Memória
a Jorge de Sena
Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.
EDNA St. VINCENT MILLAY*
Não é apenas o dom
extremo da delicada atenção,
a generosa paciência,
esse toque subtil que se desfere,
após o gosto cheio da palavra redonda,
na zona branca da perfeição.
A página
ali esperava.
Mas quanto antes
na azáfama alheia e neutra
duma viagem de eléctrico,
numa paragem,
num cinema,
numas escadas toscas, solitárias,
num gosto de café, nesse amargo especial
do cigarro, que é um convite, um sinal,
ela, a forma esplêndida,
com a miragem dum espelho,
com a auréola duma árvore brilhante,
nua como uma espada,
brilhara,
na mente fatigada, mas logo límpida,
sinal brusco, e, no entanto, liso,
a forma preciosa.
Não.
Não fora apenas esse dom inato,
nem essa pureza rápida da inspiração,
nem esse acalento sossegado à noite,
esse cerrar de lábios,
esse branco vazio,
esse tumultuar de palavras prontas
a passar pelo crivo.
Não.
Mas já no tempo, nesse longo ciciar
de folhas durando na memória,
de dicionários rotos e tristes,
mas que é gostoso desfolhar na impaciência,
já nessa amorosa e repetida paciência
com que se inclinara ao longo de crepúsculos
em que meninos atiravam pedras longe,
sim, sobretudo nos crepúsculos,
nessa limpa mágoa que nos vem de árvores ao frio
e dos seus braços magros,
já, já se adivinhara esse respirar de sílabas
fluindo em graça pura,
não plumas,
mas sílabas certas e claras,
sílabas onde o destino bate
com a grave leveza de quem dança
de noite, entre as estrelas.
Já
essa saudade calma
alguma vez pousara
na fronte do poeta;
já esse Verão uma tarde
depusera
seu pó alegre e estático
como um pólen
nas suas mãos suaves.
Mas nunca
ele cantara assim.
* Estes versos são extraídos de uma tradução do soneto «What lips my lips have kissed», da autoria de Jorge de Sena, inserta na página «Cultura e Arte», de O Comércio do Porto, de 12 de Agosto de 1958. O poema «Através da Memória» foi publicado na página «Artes e Letras» do Diário de Notícias, em homenagem a Jorge de Sena por essa tradução. A expressão «saudade calma», empregada neste poema, é também extraída da referida tradução.
Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.
EDNA St. VINCENT MILLAY*
Não é apenas o dom
extremo da delicada atenção,
a generosa paciência,
esse toque subtil que se desfere,
após o gosto cheio da palavra redonda,
na zona branca da perfeição.
A página
ali esperava.
Mas quanto antes
na azáfama alheia e neutra
duma viagem de eléctrico,
numa paragem,
num cinema,
numas escadas toscas, solitárias,
num gosto de café, nesse amargo especial
do cigarro, que é um convite, um sinal,
ela, a forma esplêndida,
com a miragem dum espelho,
com a auréola duma árvore brilhante,
nua como uma espada,
brilhara,
na mente fatigada, mas logo límpida,
sinal brusco, e, no entanto, liso,
a forma preciosa.
Não.
Não fora apenas esse dom inato,
nem essa pureza rápida da inspiração,
nem esse acalento sossegado à noite,
esse cerrar de lábios,
esse branco vazio,
esse tumultuar de palavras prontas
a passar pelo crivo.
Não.
Mas já no tempo, nesse longo ciciar
de folhas durando na memória,
de dicionários rotos e tristes,
mas que é gostoso desfolhar na impaciência,
já nessa amorosa e repetida paciência
com que se inclinara ao longo de crepúsculos
em que meninos atiravam pedras longe,
sim, sobretudo nos crepúsculos,
nessa limpa mágoa que nos vem de árvores ao frio
e dos seus braços magros,
já, já se adivinhara esse respirar de sílabas
fluindo em graça pura,
não plumas,
mas sílabas certas e claras,
sílabas onde o destino bate
com a grave leveza de quem dança
de noite, entre as estrelas.
Já
essa saudade calma
alguma vez pousara
na fronte do poeta;
já esse Verão uma tarde
depusera
seu pó alegre e estático
como um pólen
nas suas mãos suaves.
Mas nunca
ele cantara assim.
* Estes versos são extraídos de uma tradução do soneto «What lips my lips have kissed», da autoria de Jorge de Sena, inserta na página «Cultura e Arte», de O Comércio do Porto, de 12 de Agosto de 1958. O poema «Através da Memória» foi publicado na página «Artes e Letras» do Diário de Notícias, em homenagem a Jorge de Sena por essa tradução. A expressão «saudade calma», empregada neste poema, é também extraída da referida tradução.
639
António Ramos Rosa
As Palavras Mais Nuas
As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que dormem
na sombra dos meus olhos.
Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?
Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.
Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que dormem
na sombra dos meus olhos.
Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?
Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.
Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.
1 402
Louise Glück
Sirena
Me tornei uma criminosa ao me apaixonar.
Antes disso eu era uma garçonete.
Eu não queria ir para Chicago contigo.
queria que casasses comigo, queria
que tua esposa sofresse.
Queria que a vida dela fosse como uma peça
em que todos os partes são tristes partes.
Pode uma pessoa decente
pensar assim? Eu mereço
reconhecimento por minha coragem —
Sentei-me no escuro de teu alpendre.
Tudo estava claro para para mim:
se tua mulher não te deixava partir
era prova de que não te amava.
Se ela te amasse
não queria que fosses feliz?
Considero agora que
se eu sentisse menos poderia
ser uma pessoa melhor. Eu era
uma boa garçonete,
conseguia equilibrar oito drinques.
Eu costumava te contar meus sonhos.
Noite passada eu vi uma mulher sentada num ônibus escuro —
no sonho, ela chora, o ônibus em que está começa a partir. Com uma das mãos
ela abana; com a outra, golpeia
uma caixa de ovos cheia de bebês
O sonho não resgata a donzela.
Antes disso eu era uma garçonete.
Eu não queria ir para Chicago contigo.
queria que casasses comigo, queria
que tua esposa sofresse.
Queria que a vida dela fosse como uma peça
em que todos os partes são tristes partes.
Pode uma pessoa decente
pensar assim? Eu mereço
reconhecimento por minha coragem —
Sentei-me no escuro de teu alpendre.
Tudo estava claro para para mim:
se tua mulher não te deixava partir
era prova de que não te amava.
Se ela te amasse
não queria que fosses feliz?
Considero agora que
se eu sentisse menos poderia
ser uma pessoa melhor. Eu era
uma boa garçonete,
conseguia equilibrar oito drinques.
Eu costumava te contar meus sonhos.
Noite passada eu vi uma mulher sentada num ônibus escuro —
no sonho, ela chora, o ônibus em que está começa a partir. Com uma das mãos
ela abana; com a outra, golpeia
uma caixa de ovos cheia de bebês
O sonho não resgata a donzela.
771
Louise Glück
Sirena
Me tornei uma criminosa ao me apaixonar.
Antes disso eu era uma garçonete.
Eu não queria ir para Chicago contigo.
queria que casasses comigo, queria
que tua esposa sofresse.
Queria que a vida dela fosse como uma peça
em que todos os partes são tristes partes.
Pode uma pessoa decente
pensar assim? Eu mereço
reconhecimento por minha coragem —
Sentei-me no escuro de teu alpendre.
Tudo estava claro para para mim:
se tua mulher não te deixava partir
era prova de que não te amava.
Se ela te amasse
não queria que fosses feliz?
Considero agora que
se eu sentisse menos poderia
ser uma pessoa melhor. Eu era
uma boa garçonete,
conseguia equilibrar oito drinques.
Eu costumava te contar meus sonhos.
Noite passada eu vi uma mulher sentada num ônibus escuro —
no sonho, ela chora, o ônibus em que está começa a partir. Com uma das mãos
ela abana; com a outra, golpeia
uma caixa de ovos cheia de bebês
O sonho não resgata a donzela.
Antes disso eu era uma garçonete.
Eu não queria ir para Chicago contigo.
queria que casasses comigo, queria
que tua esposa sofresse.
Queria que a vida dela fosse como uma peça
em que todos os partes são tristes partes.
Pode uma pessoa decente
pensar assim? Eu mereço
reconhecimento por minha coragem —
Sentei-me no escuro de teu alpendre.
Tudo estava claro para para mim:
se tua mulher não te deixava partir
era prova de que não te amava.
Se ela te amasse
não queria que fosses feliz?
Considero agora que
se eu sentisse menos poderia
ser uma pessoa melhor. Eu era
uma boa garçonete,
conseguia equilibrar oito drinques.
Eu costumava te contar meus sonhos.
Noite passada eu vi uma mulher sentada num ônibus escuro —
no sonho, ela chora, o ônibus em que está começa a partir. Com uma das mãos
ela abana; com a outra, golpeia
uma caixa de ovos cheia de bebês
O sonho não resgata a donzela.
771
Louise Glück
Sirena
Me tornei uma criminosa ao me apaixonar.
Antes disso eu era uma garçonete.
Eu não queria ir para Chicago contigo.
queria que casasses comigo, queria
que tua esposa sofresse.
Queria que a vida dela fosse como uma peça
em que todos os partes são tristes partes.
Pode uma pessoa decente
pensar assim? Eu mereço
reconhecimento por minha coragem —
Sentei-me no escuro de teu alpendre.
Tudo estava claro para para mim:
se tua mulher não te deixava partir
era prova de que não te amava.
Se ela te amasse
não queria que fosses feliz?
Considero agora que
se eu sentisse menos poderia
ser uma pessoa melhor. Eu era
uma boa garçonete,
conseguia equilibrar oito drinques.
Eu costumava te contar meus sonhos.
Noite passada eu vi uma mulher sentada num ônibus escuro —
no sonho, ela chora, o ônibus em que está começa a partir. Com uma das mãos
ela abana; com a outra, golpeia
uma caixa de ovos cheia de bebês
O sonho não resgata a donzela.
Antes disso eu era uma garçonete.
Eu não queria ir para Chicago contigo.
queria que casasses comigo, queria
que tua esposa sofresse.
Queria que a vida dela fosse como uma peça
em que todos os partes são tristes partes.
Pode uma pessoa decente
pensar assim? Eu mereço
reconhecimento por minha coragem —
Sentei-me no escuro de teu alpendre.
Tudo estava claro para para mim:
se tua mulher não te deixava partir
era prova de que não te amava.
Se ela te amasse
não queria que fosses feliz?
Considero agora que
se eu sentisse menos poderia
ser uma pessoa melhor. Eu era
uma boa garçonete,
conseguia equilibrar oito drinques.
Eu costumava te contar meus sonhos.
Noite passada eu vi uma mulher sentada num ônibus escuro —
no sonho, ela chora, o ônibus em que está começa a partir. Com uma das mãos
ela abana; com a outra, golpeia
uma caixa de ovos cheia de bebês
O sonho não resgata a donzela.
771