Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Edmir Domingues
O espelho
Enfrento a face plana
assim como o faz quem
convoca os seus demônios
na calada da noite.
Mas não me reconheço
no duplo que me enfrenta.
Nos seus olhos amargos
nem na boca de febre
no amarelo da fronte
na mudez do semblante.
A fria superfície
de resto mineral,
não retrata o secreto
inconfessado anseio.
Que hiberna no silêncio
como a semente dorme
do trigo, sob a neve,
como o esporo invisível
no mar, da diatomácea,
os quais, cumprido o ciclo,
no vir da primavera,
rebentarão de vida
na força natural.
O espelho não conhece
o toque apenas cálido
do sol que a nuvem cobre.
E distorce o retrato,
se não supõe do estímulo
que avivará no breve
todo o anseio escondido.
Perdoo a estranha face
que inverte as realidades.
Porque sendo como é
só pode refletir
a amargura da febre,
que a face da esperança
escondida no íntimo
não pode ser sentida
no clima da inversão.
assim como o faz quem
convoca os seus demônios
na calada da noite.
Mas não me reconheço
no duplo que me enfrenta.
Nos seus olhos amargos
nem na boca de febre
no amarelo da fronte
na mudez do semblante.
A fria superfície
de resto mineral,
não retrata o secreto
inconfessado anseio.
Que hiberna no silêncio
como a semente dorme
do trigo, sob a neve,
como o esporo invisível
no mar, da diatomácea,
os quais, cumprido o ciclo,
no vir da primavera,
rebentarão de vida
na força natural.
O espelho não conhece
o toque apenas cálido
do sol que a nuvem cobre.
E distorce o retrato,
se não supõe do estímulo
que avivará no breve
todo o anseio escondido.
Perdoo a estranha face
que inverte as realidades.
Porque sendo como é
só pode refletir
a amargura da febre,
que a face da esperança
escondida no íntimo
não pode ser sentida
no clima da inversão.
668
Edmir Domingues
Canto fúnebre a Garcia Lorca
Quando os cavalos negros não chegaram
e os brancos foram feitos de fumaça,
teu rosto em plena sombra, Federico,
era uma suave luz como não resta.
Os ciganos dormiam, Santiago
de Cuba na distância repousava,
mar de papel, os plátanos medusas,
e em tudo o odor das flores de tabaco.
No entanto, Federico, nós não fomos,
num coche de água negra, a Santiago,
antes levou-te o coche às águas mortas
entre o sabor do sangue e da revolta.
E se não foi às cinco de uma tarde
sucedeu numa estranha madrugada
quando era o sol de sangue (e a lua sangue)
em um reino de bêbedos distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
E as faces alvas todas se voltaram
para o país das lágrimas noturnas.
Choramos os teus passos, Federico,
que os teus pés muito leves não pisaram.
Nós os de branco, os outros de cinzento,
os de azul, os de terra, os de amarelo,
fomos chorar-te junto aos que choravam
e que estavam vestidos de vermelho.
E eis que te digo então que os homens todos
são ratos e são deuses, nada importa
a cor das roupas várias com que cobrem
o corpo igual e nu e sem segredo.
Por trás das cores dorme a indisfarçada,
a humana condição que nos domina
que só nos dá ser grandes quando ouvimos,
canções como as que sempre nos cantavas.
Quando um poeta morre a vida morre
um pouco. E mais morreu quando morreste.
Mais triste o mundo resta, irmão tombado,
sem tua voz de estranha humanidade.
Há silêncio na terra e este meu canto
é teu, pois te reclama nessa ausência,
de ausentes que nós somos e distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
e os brancos foram feitos de fumaça,
teu rosto em plena sombra, Federico,
era uma suave luz como não resta.
Os ciganos dormiam, Santiago
de Cuba na distância repousava,
mar de papel, os plátanos medusas,
e em tudo o odor das flores de tabaco.
No entanto, Federico, nós não fomos,
num coche de água negra, a Santiago,
antes levou-te o coche às águas mortas
entre o sabor do sangue e da revolta.
E se não foi às cinco de uma tarde
sucedeu numa estranha madrugada
quando era o sol de sangue (e a lua sangue)
em um reino de bêbedos distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
E as faces alvas todas se voltaram
para o país das lágrimas noturnas.
Choramos os teus passos, Federico,
que os teus pés muito leves não pisaram.
Nós os de branco, os outros de cinzento,
os de azul, os de terra, os de amarelo,
fomos chorar-te junto aos que choravam
e que estavam vestidos de vermelho.
E eis que te digo então que os homens todos
são ratos e são deuses, nada importa
a cor das roupas várias com que cobrem
o corpo igual e nu e sem segredo.
Por trás das cores dorme a indisfarçada,
a humana condição que nos domina
que só nos dá ser grandes quando ouvimos,
canções como as que sempre nos cantavas.
Quando um poeta morre a vida morre
um pouco. E mais morreu quando morreste.
Mais triste o mundo resta, irmão tombado,
sem tua voz de estranha humanidade.
Há silêncio na terra e este meu canto
é teu, pois te reclama nessa ausência,
de ausentes que nós somos e distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
716
Edmir Domingues
O planetóide
Herdei um planetóide
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.
A mim um planetóide
como único legado.
Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.
Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.
Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.
Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.
A mim um planetóide
como único legado.
Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.
Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.
Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.
Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
296
Edmir Domingues
Atmosfera de aventura
E tínhamos os olhos dissolvidos
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
703
Edmir Domingues
Atmosfera de aventura
E tínhamos os olhos dissolvidos
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
703
Edmir Domingues
Canções em terra estranha
Junto dos rios nossos pés fendidos,
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
751
Edmir Domingues
Canções em terra estranha
Junto dos rios nossos pés fendidos,
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
751
Edmir Domingues
Canções em terra estranha
Junto dos rios nossos pés fendidos,
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
751
Edmir Domingues
Fabulosos
De fabulosos céus, e fabulosas
noites de fabulosos incidentes,
de mãos crispadas não, de asas doentes
repousando em jardins de antigas rosas.
Das outras mãos tornadas vaporosas,
quanto mais longe tanto mais presentes
às carícias dos braços abstinentes,
de nossas mãos também, por mais nervosas.
Mariposas sonâmbulas espargem
das asas cinza em risos de outra margem
negada a quem ficado em porto sujo.
Quem de gestos noturnos se consome
despido de passado e antigo nome
entre risos de concha e caramujo.
noites de fabulosos incidentes,
de mãos crispadas não, de asas doentes
repousando em jardins de antigas rosas.
Das outras mãos tornadas vaporosas,
quanto mais longe tanto mais presentes
às carícias dos braços abstinentes,
de nossas mãos também, por mais nervosas.
Mariposas sonâmbulas espargem
das asas cinza em risos de outra margem
negada a quem ficado em porto sujo.
Quem de gestos noturnos se consome
despido de passado e antigo nome
entre risos de concha e caramujo.
775
Edmir Domingues
Balada dos cavalos de infância
Os nossos cavalos brancos
de sete palmos de altura
os nossos cavalos negros
que triste encanto os levou?
Rói-nos a mágoa ficada,
maior que as mágoas antigas,
que os nossos cavalos baios,
de sete palmos de altura
ai, seriam nossas pernas
na viagem de amanhã.
Sem eles não somos nada
nossos pés não valem muito,
e então comeremos cinza
para nos envenenar,
se os nossos cavalos idos
por conta da força alheia
não forem tornados breve
a bem da nossa fraqueza
Trotando a sua elegância
por paços desconhecidos
devem de estar neste instante
de infinito desespero,
diferente o tempo é feito
posto que na madrugada
trotavam seu trote manso
num país chamado Infância.
Procurai-os, procurai-os,
manda o rei que a vós vos diga,
procurai-os, procurai-os
pelos caminhos do sul,
depois por norte e por leste,
e pelo ocaso afinal,
se as leves portas da noite
a tanto extremo os levar.
Têm ferraduras de prata,
panos do linho mais fino,
jaezes de ouro e de pedras
vindas das minas do rei,
e não têm outro sinal
senão a própria beleza,
mas são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.
Procurai-os, procurai-os pelos caminhos da noite.
Tudo o que resta de Infância
no resto de vida nosso
faz-se no instante presente
de indescritível cuidado,
apuremos os ouvidos
pela espessura do espaço
para o tinido dos cascos
que noutro campo se escuta.
Pelos caminhos da noite
procurai-os, procurai-os.
Se fora a fuga na Infância
talvez nunca se notasse,
mas nesta quadra presente
salta aos olhos e magoa.
Que da outra quadra só resta
uma ternura tão íntima
que de ser assim profunda
por certo ninguém suspeita.
Procurai-os, procurai-os
em nome do nosso rei,
que vos darão ouro e prata
mais o sangue de Aragão,
seus sinais particulares
são sua própria beleza
pois são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.
Pelo que resta de Infância
na vida de todos vós,
manda o rei, pede a rainha,
procurai-os, procurai-os.
de sete palmos de altura
os nossos cavalos negros
que triste encanto os levou?
Rói-nos a mágoa ficada,
maior que as mágoas antigas,
que os nossos cavalos baios,
de sete palmos de altura
ai, seriam nossas pernas
na viagem de amanhã.
Sem eles não somos nada
nossos pés não valem muito,
e então comeremos cinza
para nos envenenar,
se os nossos cavalos idos
por conta da força alheia
não forem tornados breve
a bem da nossa fraqueza
Trotando a sua elegância
por paços desconhecidos
devem de estar neste instante
de infinito desespero,
diferente o tempo é feito
posto que na madrugada
trotavam seu trote manso
num país chamado Infância.
Procurai-os, procurai-os,
manda o rei que a vós vos diga,
procurai-os, procurai-os
pelos caminhos do sul,
depois por norte e por leste,
e pelo ocaso afinal,
se as leves portas da noite
a tanto extremo os levar.
Têm ferraduras de prata,
panos do linho mais fino,
jaezes de ouro e de pedras
vindas das minas do rei,
e não têm outro sinal
senão a própria beleza,
mas são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.
Procurai-os, procurai-os pelos caminhos da noite.
Tudo o que resta de Infância
no resto de vida nosso
faz-se no instante presente
de indescritível cuidado,
apuremos os ouvidos
pela espessura do espaço
para o tinido dos cascos
que noutro campo se escuta.
Pelos caminhos da noite
procurai-os, procurai-os.
Se fora a fuga na Infância
talvez nunca se notasse,
mas nesta quadra presente
salta aos olhos e magoa.
Que da outra quadra só resta
uma ternura tão íntima
que de ser assim profunda
por certo ninguém suspeita.
Procurai-os, procurai-os
em nome do nosso rei,
que vos darão ouro e prata
mais o sangue de Aragão,
seus sinais particulares
são sua própria beleza
pois são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.
Pelo que resta de Infância
na vida de todos vós,
manda o rei, pede a rainha,
procurai-os, procurai-os.
164
Edmir Domingues
Balada dos cavalos de infância
Os nossos cavalos brancos
de sete palmos de altura
os nossos cavalos negros
que triste encanto os levou?
Rói-nos a mágoa ficada,
maior que as mágoas antigas,
que os nossos cavalos baios,
de sete palmos de altura
ai, seriam nossas pernas
na viagem de amanhã.
Sem eles não somos nada
nossos pés não valem muito,
e então comeremos cinza
para nos envenenar,
se os nossos cavalos idos
por conta da força alheia
não forem tornados breve
a bem da nossa fraqueza
Trotando a sua elegância
por paços desconhecidos
devem de estar neste instante
de infinito desespero,
diferente o tempo é feito
posto que na madrugada
trotavam seu trote manso
num país chamado Infância.
Procurai-os, procurai-os,
manda o rei que a vós vos diga,
procurai-os, procurai-os
pelos caminhos do sul,
depois por norte e por leste,
e pelo ocaso afinal,
se as leves portas da noite
a tanto extremo os levar.
Têm ferraduras de prata,
panos do linho mais fino,
jaezes de ouro e de pedras
vindas das minas do rei,
e não têm outro sinal
senão a própria beleza,
mas são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.
Procurai-os, procurai-os pelos caminhos da noite.
Tudo o que resta de Infância
no resto de vida nosso
faz-se no instante presente
de indescritível cuidado,
apuremos os ouvidos
pela espessura do espaço
para o tinido dos cascos
que noutro campo se escuta.
Pelos caminhos da noite
procurai-os, procurai-os.
Se fora a fuga na Infância
talvez nunca se notasse,
mas nesta quadra presente
salta aos olhos e magoa.
Que da outra quadra só resta
uma ternura tão íntima
que de ser assim profunda
por certo ninguém suspeita.
Procurai-os, procurai-os
em nome do nosso rei,
que vos darão ouro e prata
mais o sangue de Aragão,
seus sinais particulares
são sua própria beleza
pois são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.
Pelo que resta de Infância
na vida de todos vós,
manda o rei, pede a rainha,
procurai-os, procurai-os.
de sete palmos de altura
os nossos cavalos negros
que triste encanto os levou?
Rói-nos a mágoa ficada,
maior que as mágoas antigas,
que os nossos cavalos baios,
de sete palmos de altura
ai, seriam nossas pernas
na viagem de amanhã.
Sem eles não somos nada
nossos pés não valem muito,
e então comeremos cinza
para nos envenenar,
se os nossos cavalos idos
por conta da força alheia
não forem tornados breve
a bem da nossa fraqueza
Trotando a sua elegância
por paços desconhecidos
devem de estar neste instante
de infinito desespero,
diferente o tempo é feito
posto que na madrugada
trotavam seu trote manso
num país chamado Infância.
Procurai-os, procurai-os,
manda o rei que a vós vos diga,
procurai-os, procurai-os
pelos caminhos do sul,
depois por norte e por leste,
e pelo ocaso afinal,
se as leves portas da noite
a tanto extremo os levar.
Têm ferraduras de prata,
panos do linho mais fino,
jaezes de ouro e de pedras
vindas das minas do rei,
e não têm outro sinal
senão a própria beleza,
mas são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.
Procurai-os, procurai-os pelos caminhos da noite.
Tudo o que resta de Infância
no resto de vida nosso
faz-se no instante presente
de indescritível cuidado,
apuremos os ouvidos
pela espessura do espaço
para o tinido dos cascos
que noutro campo se escuta.
Pelos caminhos da noite
procurai-os, procurai-os.
Se fora a fuga na Infância
talvez nunca se notasse,
mas nesta quadra presente
salta aos olhos e magoa.
Que da outra quadra só resta
uma ternura tão íntima
que de ser assim profunda
por certo ninguém suspeita.
Procurai-os, procurai-os
em nome do nosso rei,
que vos darão ouro e prata
mais o sangue de Aragão,
seus sinais particulares
são sua própria beleza
pois são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.
Pelo que resta de Infância
na vida de todos vós,
manda o rei, pede a rainha,
procurai-os, procurai-os.
164
Edmir Domingues
Elegia aos céus de Maralinga
Outrora em Maralinga as águas mansas
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.
Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.
Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,
bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.
Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.
Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,
bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
684
Edmir Domingues
Soneto à mulher do próximo
Fendida seja um dia, pólo a pólo,
no remo que há fendido as águas densas
de outros corpos de formas quase imensas,
cavalgue a flor de sangue a flor do solo.
Outro não seja então que um novo Apolo
no amor de outra intenção que não de ofensas.
Sejam sinal das transitórias crenças
andorinhas de fogo no teu colo.
Haja um leito de espuma e de sargaços
nos caminhos do mar, e quanto aos passos
a chuva apaga-os sempre, quando chove.
Sob os ventos do céu de lua cheia
desfaçam-se os desejos sobre a areia,
sobre as letras limite, sobre o nove.
no remo que há fendido as águas densas
de outros corpos de formas quase imensas,
cavalgue a flor de sangue a flor do solo.
Outro não seja então que um novo Apolo
no amor de outra intenção que não de ofensas.
Sejam sinal das transitórias crenças
andorinhas de fogo no teu colo.
Haja um leito de espuma e de sargaços
nos caminhos do mar, e quanto aos passos
a chuva apaga-os sempre, quando chove.
Sob os ventos do céu de lua cheia
desfaçam-se os desejos sobre a areia,
sobre as letras limite, sobre o nove.
753
Edmir Domingues
soneto IV - Carnaval de ilusões
Fantasias de luas esquecidas
entre o enigma da morte e a rosa clara
que em vinho de manhãs se enfeitiçara
e em luz que inspira as ânsias incontidas.
Carnaval de ilusões, que a luz mais rara
fez descer sobre as sombras recolhidas,
que fez brotar do sangue das feridas
uma tímida flor que não brotara.
Busca sem fim da imagem tão somente,
fugida a nosso amor contido e ardente
no adeus que não consola e não compensa.
E entre murmurações de tédio e sono,
mesmo que reste o leito no abandono
o desejo que pede a só presença.
entre o enigma da morte e a rosa clara
que em vinho de manhãs se enfeitiçara
e em luz que inspira as ânsias incontidas.
Carnaval de ilusões, que a luz mais rara
fez descer sobre as sombras recolhidas,
que fez brotar do sangue das feridas
uma tímida flor que não brotara.
Busca sem fim da imagem tão somente,
fugida a nosso amor contido e ardente
no adeus que não consola e não compensa.
E entre murmurações de tédio e sono,
mesmo que reste o leito no abandono
o desejo que pede a só presença.
676
Edmir Domingues
soneto IV - Carnaval de ilusões
Fantasias de luas esquecidas
entre o enigma da morte e a rosa clara
que em vinho de manhãs se enfeitiçara
e em luz que inspira as ânsias incontidas.
Carnaval de ilusões, que a luz mais rara
fez descer sobre as sombras recolhidas,
que fez brotar do sangue das feridas
uma tímida flor que não brotara.
Busca sem fim da imagem tão somente,
fugida a nosso amor contido e ardente
no adeus que não consola e não compensa.
E entre murmurações de tédio e sono,
mesmo que reste o leito no abandono
o desejo que pede a só presença.
entre o enigma da morte e a rosa clara
que em vinho de manhãs se enfeitiçara
e em luz que inspira as ânsias incontidas.
Carnaval de ilusões, que a luz mais rara
fez descer sobre as sombras recolhidas,
que fez brotar do sangue das feridas
uma tímida flor que não brotara.
Busca sem fim da imagem tão somente,
fugida a nosso amor contido e ardente
no adeus que não consola e não compensa.
E entre murmurações de tédio e sono,
mesmo que reste o leito no abandono
o desejo que pede a só presença.
676
Edmir Domingues
soneto IV - Carnaval de ilusões
Fantasias de luas esquecidas
entre o enigma da morte e a rosa clara
que em vinho de manhãs se enfeitiçara
e em luz que inspira as ânsias incontidas.
Carnaval de ilusões, que a luz mais rara
fez descer sobre as sombras recolhidas,
que fez brotar do sangue das feridas
uma tímida flor que não brotara.
Busca sem fim da imagem tão somente,
fugida a nosso amor contido e ardente
no adeus que não consola e não compensa.
E entre murmurações de tédio e sono,
mesmo que reste o leito no abandono
o desejo que pede a só presença.
entre o enigma da morte e a rosa clara
que em vinho de manhãs se enfeitiçara
e em luz que inspira as ânsias incontidas.
Carnaval de ilusões, que a luz mais rara
fez descer sobre as sombras recolhidas,
que fez brotar do sangue das feridas
uma tímida flor que não brotara.
Busca sem fim da imagem tão somente,
fugida a nosso amor contido e ardente
no adeus que não consola e não compensa.
E entre murmurações de tédio e sono,
mesmo que reste o leito no abandono
o desejo que pede a só presença.
676
Edmir Domingues
Cantiga, voltando-se.
Sendo os ventos alísios retomados
às margens deste rio nos tomamos
também, que embora em vozes de silêncio
o nosso longo amor foi dedicado
as águas do seu curso, há já decênios.
Nestas margens nos buscam, comovidos,
os príncipes, amigos de outro tempo,
os loucos, com seus passos muito vagos
pelas comuns heranças do abandono,
os pássaros do sono, com seus olhos
dos quais somente a sombra tem notícia.
No entanto essa estranheza nos persuade
de que a presença branca está conosco,
e com ela a lembrança das antigas
noites de amor, sem corpo, de inconcretas,
se avultava na sombra e na espessura
o exagero de algum comedimento.
Pois somos, e isto basta, nestas margens
de lama (para nós tão preciosa
como o mármore branco dos altares)
entre as palmas ao vento levantadas
e vivos e sensatos neste canto
E vivos e sensatos conhecendo
a solidão que somos e seremos
enquanto nos não chegue a madrugada
que há de vir, que por certo não demora,
tornando as mudas pedras das calçadas
em ninhos de andorinhas, por milagre.
Pois quando as duras pedras se tornarem
nos pássaros mais leves do hemisfério
ao peito arrancaremos suave rosa
que ali nasceu, raízes no infinito,
para dá-la ao regente, a rosa branca
guardada tanto tempo avaramente.
Eis que estaremos mortos sem remédio.
E as nossas barcas siderais pintadas
pelas cores noturnas do horizonte,
seguindo o Cão Maior terão por bússola
o roteiro de prata dessas águas.
Que este rio de passos compassados
é para nos tão grande quanto o mundo.
O que vemos talvez mais claramente
quando, por nos sabermos na distância,
temos lua e conhaque em nossos olhos
e um rumor de saudade em nossa boca.
às margens deste rio nos tomamos
também, que embora em vozes de silêncio
o nosso longo amor foi dedicado
as águas do seu curso, há já decênios.
Nestas margens nos buscam, comovidos,
os príncipes, amigos de outro tempo,
os loucos, com seus passos muito vagos
pelas comuns heranças do abandono,
os pássaros do sono, com seus olhos
dos quais somente a sombra tem notícia.
No entanto essa estranheza nos persuade
de que a presença branca está conosco,
e com ela a lembrança das antigas
noites de amor, sem corpo, de inconcretas,
se avultava na sombra e na espessura
o exagero de algum comedimento.
Pois somos, e isto basta, nestas margens
de lama (para nós tão preciosa
como o mármore branco dos altares)
entre as palmas ao vento levantadas
e vivos e sensatos neste canto
E vivos e sensatos conhecendo
a solidão que somos e seremos
enquanto nos não chegue a madrugada
que há de vir, que por certo não demora,
tornando as mudas pedras das calçadas
em ninhos de andorinhas, por milagre.
Pois quando as duras pedras se tornarem
nos pássaros mais leves do hemisfério
ao peito arrancaremos suave rosa
que ali nasceu, raízes no infinito,
para dá-la ao regente, a rosa branca
guardada tanto tempo avaramente.
Eis que estaremos mortos sem remédio.
E as nossas barcas siderais pintadas
pelas cores noturnas do horizonte,
seguindo o Cão Maior terão por bússola
o roteiro de prata dessas águas.
Que este rio de passos compassados
é para nos tão grande quanto o mundo.
O que vemos talvez mais claramente
quando, por nos sabermos na distância,
temos lua e conhaque em nossos olhos
e um rumor de saudade em nossa boca.
701
Edmir Domingues
Cantiga, voltando-se.
Sendo os ventos alísios retomados
às margens deste rio nos tomamos
também, que embora em vozes de silêncio
o nosso longo amor foi dedicado
as águas do seu curso, há já decênios.
Nestas margens nos buscam, comovidos,
os príncipes, amigos de outro tempo,
os loucos, com seus passos muito vagos
pelas comuns heranças do abandono,
os pássaros do sono, com seus olhos
dos quais somente a sombra tem notícia.
No entanto essa estranheza nos persuade
de que a presença branca está conosco,
e com ela a lembrança das antigas
noites de amor, sem corpo, de inconcretas,
se avultava na sombra e na espessura
o exagero de algum comedimento.
Pois somos, e isto basta, nestas margens
de lama (para nós tão preciosa
como o mármore branco dos altares)
entre as palmas ao vento levantadas
e vivos e sensatos neste canto
E vivos e sensatos conhecendo
a solidão que somos e seremos
enquanto nos não chegue a madrugada
que há de vir, que por certo não demora,
tornando as mudas pedras das calçadas
em ninhos de andorinhas, por milagre.
Pois quando as duras pedras se tornarem
nos pássaros mais leves do hemisfério
ao peito arrancaremos suave rosa
que ali nasceu, raízes no infinito,
para dá-la ao regente, a rosa branca
guardada tanto tempo avaramente.
Eis que estaremos mortos sem remédio.
E as nossas barcas siderais pintadas
pelas cores noturnas do horizonte,
seguindo o Cão Maior terão por bússola
o roteiro de prata dessas águas.
Que este rio de passos compassados
é para nos tão grande quanto o mundo.
O que vemos talvez mais claramente
quando, por nos sabermos na distância,
temos lua e conhaque em nossos olhos
e um rumor de saudade em nossa boca.
às margens deste rio nos tomamos
também, que embora em vozes de silêncio
o nosso longo amor foi dedicado
as águas do seu curso, há já decênios.
Nestas margens nos buscam, comovidos,
os príncipes, amigos de outro tempo,
os loucos, com seus passos muito vagos
pelas comuns heranças do abandono,
os pássaros do sono, com seus olhos
dos quais somente a sombra tem notícia.
No entanto essa estranheza nos persuade
de que a presença branca está conosco,
e com ela a lembrança das antigas
noites de amor, sem corpo, de inconcretas,
se avultava na sombra e na espessura
o exagero de algum comedimento.
Pois somos, e isto basta, nestas margens
de lama (para nós tão preciosa
como o mármore branco dos altares)
entre as palmas ao vento levantadas
e vivos e sensatos neste canto
E vivos e sensatos conhecendo
a solidão que somos e seremos
enquanto nos não chegue a madrugada
que há de vir, que por certo não demora,
tornando as mudas pedras das calçadas
em ninhos de andorinhas, por milagre.
Pois quando as duras pedras se tornarem
nos pássaros mais leves do hemisfério
ao peito arrancaremos suave rosa
que ali nasceu, raízes no infinito,
para dá-la ao regente, a rosa branca
guardada tanto tempo avaramente.
Eis que estaremos mortos sem remédio.
E as nossas barcas siderais pintadas
pelas cores noturnas do horizonte,
seguindo o Cão Maior terão por bússola
o roteiro de prata dessas águas.
Que este rio de passos compassados
é para nos tão grande quanto o mundo.
O que vemos talvez mais claramente
quando, por nos sabermos na distância,
temos lua e conhaque em nossos olhos
e um rumor de saudade em nossa boca.
701
Edmir Domingues
Soneto da vinda
Venha quando não possa (quando possa
nos não será valor porque podia)
que as ilhas da neblina são tangíveis
no mundo de intangíveis fundamentos,
a que se tenha então por flecha e folha
sem o mundo de asfalto e de alumínio
e esses prefira, essência em sombra e vento,
aos cogumelos neutros da avenida,
para a veste do amor, que amor dá veste
a quem por seu amor se despe e deixa
o seu porto de velas e de mastros,
e outras sombras prefere que essa sombra
de ventos que nos varrem da memória
aos cogumelos neutros da avenida
nos não será valor porque podia)
que as ilhas da neblina são tangíveis
no mundo de intangíveis fundamentos,
a que se tenha então por flecha e folha
sem o mundo de asfalto e de alumínio
e esses prefira, essência em sombra e vento,
aos cogumelos neutros da avenida,
para a veste do amor, que amor dá veste
a quem por seu amor se despe e deixa
o seu porto de velas e de mastros,
e outras sombras prefere que essa sombra
de ventos que nos varrem da memória
aos cogumelos neutros da avenida
661
Edmir Domingues
Soneto neste tempo
Debaixo deste sol, das armas vivas
(mais do que dantes vivas, é contado)
espraia-se o clamor, porque é do agrado
do Homem Novo de faces fugitivas.
Ora, as águas e as flores do passado
beberam do sabor das mais nocivas.
Conhecem como amargam negativas
na linguagem do amor descompensado.
Morreremos de enfarte, nestes dias
quando a paz desertou das noites frias
todas em sobressaltos perdulárias.
Como em versos antigos resta um passo.
Morrermos, pobre amor; num grande abraço,
quando morram no peito as coronárias.
(mais do que dantes vivas, é contado)
espraia-se o clamor, porque é do agrado
do Homem Novo de faces fugitivas.
Ora, as águas e as flores do passado
beberam do sabor das mais nocivas.
Conhecem como amargam negativas
na linguagem do amor descompensado.
Morreremos de enfarte, nestes dias
quando a paz desertou das noites frias
todas em sobressaltos perdulárias.
Como em versos antigos resta um passo.
Morrermos, pobre amor; num grande abraço,
quando morram no peito as coronárias.
747
Edmir Domingues
Cantiga del rey
Que em palavras del rey, senhora mia,
per vontade e a sahendas vos confesso,
e a bem do vosso bem suplico e peço
que o nam considereis de aleivosia.
Antes de puro amor, que em noute fria
e em vãos prometimentos fez-se apresso,
de apartado de vós, sem culpa, meço,
feito per fogo em pó mais nam seria.
Que nam cabem açoutes em quem ama
per baraço e pregão que empece e infama
dá-se mostrança publica nest’hora.
Posto que sendo assi vosso cahello
que o tenha, mesmo que morra por ello,
per o meu proprio moto e mal, senhora
per vontade e a sahendas vos confesso,
e a bem do vosso bem suplico e peço
que o nam considereis de aleivosia.
Antes de puro amor, que em noute fria
e em vãos prometimentos fez-se apresso,
de apartado de vós, sem culpa, meço,
feito per fogo em pó mais nam seria.
Que nam cabem açoutes em quem ama
per baraço e pregão que empece e infama
dá-se mostrança publica nest’hora.
Posto que sendo assi vosso cahello
que o tenha, mesmo que morra por ello,
per o meu proprio moto e mal, senhora
734
Edmir Domingues
À cadelinha navegante do espaço
Acontece que a terra é fria, escura,
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.
Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.
Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.
Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.
Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.
Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.
Mas nunca foste só no teu caminho.
Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.
Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.
Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.
Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.
Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.
Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.
Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.
Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.
Mas nunca foste só no teu caminho.
Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.
Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.
Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
722
Edmir Domingues
Galope sobre as águas
E fomos todos nós à beira d´água
lançar para a corrente as nossas flautas,
olhos de febre ardendo, e angústia quase,
como se morta fora entre os cansaços
a vida, antes presente nas sonatas
compostas sob a luz dos candelabros
antigos, que luziam sobre as magras
faces de sofrimento, ante os pecados
presentes, quando mares, quando vagas
enfeitam de evidência madrugadas,
vestem o mundo sublimar de prata,
ou quando as puras intuições nos trazem
demônios indormidos, em cavalos
que galopam farrapos sobre as águas.
lançar para a corrente as nossas flautas,
olhos de febre ardendo, e angústia quase,
como se morta fora entre os cansaços
a vida, antes presente nas sonatas
compostas sob a luz dos candelabros
antigos, que luziam sobre as magras
faces de sofrimento, ante os pecados
presentes, quando mares, quando vagas
enfeitam de evidência madrugadas,
vestem o mundo sublimar de prata,
ou quando as puras intuições nos trazem
demônios indormidos, em cavalos
que galopam farrapos sobre as águas.
544
Edmir Domingues
Galope sobre as águas
E fomos todos nós à beira d´água
lançar para a corrente as nossas flautas,
olhos de febre ardendo, e angústia quase,
como se morta fora entre os cansaços
a vida, antes presente nas sonatas
compostas sob a luz dos candelabros
antigos, que luziam sobre as magras
faces de sofrimento, ante os pecados
presentes, quando mares, quando vagas
enfeitam de evidência madrugadas,
vestem o mundo sublimar de prata,
ou quando as puras intuições nos trazem
demônios indormidos, em cavalos
que galopam farrapos sobre as águas.
lançar para a corrente as nossas flautas,
olhos de febre ardendo, e angústia quase,
como se morta fora entre os cansaços
a vida, antes presente nas sonatas
compostas sob a luz dos candelabros
antigos, que luziam sobre as magras
faces de sofrimento, ante os pecados
presentes, quando mares, quando vagas
enfeitam de evidência madrugadas,
vestem o mundo sublimar de prata,
ou quando as puras intuições nos trazem
demônios indormidos, em cavalos
que galopam farrapos sobre as águas.
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