Dístico para as portas do Recife
A quem vem se diga:
percorra a cidade
como quem afaga
o corpo despido
da mulher amada.
Que o faça pois com
carinho e cuidado.
Stalingrado
Combati o bom combate
conforme o ensino de Paulo.
Lutei por Stalingrado.
(Talvez por Tsaritsine).
Alistei-me voluntário,
e eu tinha apenas quinze anos.
Tomei modos de soldado
atirando longe a lira
em troca de armas mais duras,
lutei por Stalingrado.
Por quem? Pela liberdade.
Acaso eu participava
em matéria e em verdade?
Que importa como o fizesse?
Fi-lo pela liberdade.
O sangue tingindo a neve,
tendo o General Inverno
outra vez, a nosso lado.
Mas era a luta de todos
durante seis longos meses,
- tida como a irrecusável -
a diferença entre a Vida
e a Servidão mais escura.
Cem graus abaixo de zero
no combate e no repouso,
mas há que não houve escolha
ante um Reich de mil anos.
Será que então se lutava
do lado da liberdade,
esse conceito que muda
na luta de cada dia?
É preciso a vigilância,
a opção, a cada instante.
A liberdade inconstante
é o bem maior da Vida.
Não importa se em espírito,
não importa se em verdade,
combati o bom combate.
Lutei pela Liberdade
nas neves de Stalingrado.
1943/1996
Eternal vigilance is the price of liberty.
(Wendell Phillips (1811-1884, em discurso de 1852)
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
(Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo. Telegrama de Moscou.)
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edmir_domingues Autor
A revolta e o convite
Coroa de Tercetos (Invenção do autor.)
I
Uma rosa e um punhal, na superfície plana
e o eterno convite, a solução de tudo.
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.
II
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.
Mas a quem reclamar? Há-de ficar-se mudo.
Foi uma imposição, de impossível recusa.
III
Foi uma imposição, de impossível recusa
o descer a este chão, desvestido e sozinho,
da Força Superior que me tirou do nada.
IV
Da Força Superior que me tirou do nada,
não houve ouro nem prata, e nem mesmo o cadinho,
sob o signo infeliz da natureza humana.
V
Sob o signo infeliz da natureza humana
restou o rastejar na sujeira e no barro,
o convite diário, a invitação da musa.
VI
O convite diário, a invitação da musa
para a fuga esperada, a cujo fim me agarro.
Uma rosa e um punhal na superfície plana.
COROA
Não pedi para vir. À vinda foi forçada.
Foi uma imposição, de impossível recusa,
da Força Superior que me tirou do nada.
Sob o signo infeliz da natureza humana,
o convite diário, a invitação da musa,
uma rosa e um punhal na superfície plana.
Oferta para a amiga estrangeira
Dar-te-ei a água morna destes mares,
o verde e o azul das ondas desatadas,
a doçura das canas orvalhadas,
praias como não há noutros lugares,
e estes rios de luzes, e os cantares
dos pássaros, soando nas quebradas,
os bosques de onde vem, nas madrugadas,
o terral, de fragrâncias singulares.
Terás o amor que damos por costume.
Quente e vivo, contendo o mesmo lume
da lua em chamas sobre antigas tabas.
É as primícias da terra generosa:
a açucena, o Jasmim, o cravo, a rosa,
mangas, cajás, cajus, limões, mangabas.
Terrar
Mudo e triste, conviva cotidiano
da grande solidão, sinto-me em casa,
o vôo que se voa sem ter-se asa
lançou-me a estas paragens do altiplano.
A esse deserto estranho e anti-humano
de geladas crateras, que se arrasa
e se perde no pó da antiga brasa,
fogo estelar do mais antigo arcano.
Silencioso e só, o Tempo espia
esse mundo que é apenas o esqueleto
do universo futuro de algum dia.
De súbito a surpresa. Eis que se alteia
na linha do horizonte, em fundo preto,
o grande globo azul da Terra cheia.
Canção perplexa, diante de Bob assassinado.
Há um país onde a bondade
é um passaporte (para a morte).
Onde se fala de igualdade
e se pratica a distinção.
Seu filho diz que ê irmão dos povos.
Nem mesmo é irmão do próprio irmão.
Foi Abe há tempo, após foi John,
E King, e Bob, e tantos são.
Há um país onde a bondade
só tem um prêmio • punição.
Por quê? Pergunta a voz do espanto.
Seu povo é bom, os povos são
como as crianças na pureza.
A culpa cabe à direção.
E quem dirige na verdade
essa potência de nação,
não é um homem, não são homens,
que esses estão na escravidão.
Pois são cérebros eletrônicos
hoje os heróis da usurpação,
terríveis máquinas sem alma,
sem o calor do coração,
sem a grandeza da fraqueza,
do erro e de sua redenção,
que encaram sempre a humanidade
medida em termos de equação.
Qual a esperança que nos resta
ante o poder dessa nação,
diante da Máquina insensível?
Que Deus nos guarde. . . Não sei, não.
E há um país de negros pobres
um pouco ao sul, a escuridão
fica na pele, não penetra
de sua gente o coração.
De grandes padres que hoje pregam
a verdadeira religião,
a que se encontra no Evangelho
que foi do Cristo a ensinação.
De um povo inculto e desnutrido
mas professor dessa lição:
de crença viva em liberdade,
de paciência na opressão,
da tolerância que se espalha
de litoral até sertão,
dessa igualdade só possível
depois da miscigenação,
que em voz de samba explica ao mundo
entre o compasso do violão,
que toda noite que prospera
é na verdade a anunciação
da grande aurora que, na sombra,
já vive a plena gestação.
Soneto das estrelas sem conta
E eu galguei o alcantil tendo-a em meus braços,
vestida não de sol, porém de lua,
e havia cavalgadas nos espaços,
seu suave suor, e estava nua.
Houve então cavalgadas sobre a terra,
o espanto do luar que tudo via,
e a grande paz que habita nessa guerra
de corpos enlaçados em porfia.
Veio depois o estranho cataclismo
desse grande vazio de depois.
À margem desse negro mar, o abismo
do mar, ao pé da soma de nós dois.
A Mão do Orvalho então, sabe fazê-lo,
pôs estrelas sem conta em seu cabelo.
O circo
Na meia luz do picadeiro
do nosso circo, antes que cheguem,
os que serão nossa platéia,
nossa penumbra interna pulsa
da sua própria intensidade
por sobre o chão de pó de serra.
Que pensarão aqueles todos
que vão chegar, portando angústia,
da angústia vã dos nossos números?
Nem saberão que nós sabemos
que eles também morrem de angústia,
que são convivas da miséria,
do mesmo modo que nós somos.
E que eles têm, como nós temos,
a sua volta, um outro circo,
de um toldo azul, de azul intenso.
Na corda bamba, dançaremos,
como um prodígio de equilíbrio,
mas todos eles, que nos olham,
na corda bamba também vivem.
Se a nossa veste é a do palhaço
trazendo o riso a nosso circo,
é bom lembrar que também eles
que não se pintam da pintura
que em nossos rostos ostentamos,
por muitas vezes são palhaços
no enorme circo em que pelejam.
Em nosso sangue o pó de serra
geme e soluça, e rasga a carne,
se somos mímicos (ou trágicos...).
Mas quanta vez eles são gesto,
trágico gesto, se lhes calam
a voz, impondo-lhes silêncio.
Nossa libré de domador
será de um circo noutro Circo.
Saltimbancos
Seremos saltimbancos nesta noite
que é preciso que alguém envergue o traje
das púrpuras e guizos, no vazio.
Todo silêncio é triste. E a madrugada
que está sendo construída neste instante
não deve ter nos passos, quando venha,
senão um canto exato como um rito.
Se cada madrugada que rebenta
é produto de um reino de trabalho
que além palpita, e nós o não sabemos,
pois nascemos de noite mal nascidos
de cérebro e sentidos amputados.
As palavras nos negam. 0 cristal
dorme na rocha e nasce como rosa
enquanto a flor que nasce da palavra
na própria inconsistência se desata.
Por isso o reino é nada, e os saltimbancos
valem mais do que o rei e os sacerdotes,
se eles são, no que dizem, no que pregam,
mais verdadeiros posto que mais falsos.
Dos ditos que diremos saltimbancos
claros ou não que sejam se conclua
que os países da infância são distantes
mas únicos na altura e na verdade.
Na sua neve dorme a consistência
dos anjos e das pétalas noturnas
que nenhuma mulher nos trouxe nunca
por mais que dela o vento nos falasse.
Não saberão, por certo, os da assistência,
que a verdade só vive nas comédias
as quais palpitam sempre como sangue.
Então nós construiremos um silêncio.
Se outra coisa não foram as palavras
faladas até hoje, na constância
que se permite aos tempos provisórios,
sob as sombras e a luz, senão silêncio.
Seremos saltimbancos, envergando
as púrpuras e os guizos, no vazio.
Louvado a Manuel Bandeira
À sua maneira.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo também a Manuel,
bandeira do nosso povo.
- Bandeira, Drummond já disse,
e eu digo agora, de novo.
Louvo o beco, louvo a estrela
da manhã, que ainda arde,
louvo a cinza, o carnaval,
o belo, a libertinagem,
e louvo a estrela da tarde.
Louvo o sapo cururu
que lá, no perau profundo,
derrota o sapo-tanoeiro
que mata as artes do mundo.
Louvo esses sinos que batem
bem-bem-bem e bão-bão-bão,
mas que batem de alegria
no ensejo do aniversário
do Poeta, nosso Irmão.
Louvo o busto de Bandeira
(no Recife não há, não)
que em Pasárgada se encontra
- lá tem civilização -
juro pelo mais sagrado
da Semana da Paixão,
juro que vi com meus olhos,
bem pertinho do meu busto,
quando um dia visitei
o Rei da terra em questão.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo o poeta querido,
e louvo a vida que foi
(que graças a Deus que foi)
pois podia não ter sido.
abril, 19-1966.