Lista de Poemas

Meu Deus, me dê a Coragem

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.
48 453

Precisão

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.
51 193

Mas há a vida

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.

Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

37 220

Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

38 843

A Perfeição

O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.
29 172

ALMA LUZ

MINHA ALMA TEM O PESO DA LUZ
TEM O PESO DA MÚSICA
TEM O PESO DA PALAVRA NUNCA DITA,
PRESTES QUEM SABE A SER DITA
TEM O PESO DE UMA LEMBRANÇA
TEM O PESO DE UMA SAUDADE
TEM O PESO DE UM OLHAR
PESA COMO PESA UMA AUSÊNCIA
E A LÁGRIMA QUE NÃO CHOROU
TEM O IMATERIAL PESO DE UMA SOLIDÃO
NO MEIO DE OUTROS



39 687

Amor à Terra

Laranja na mesa.

Bendita a árvore

que te pariu.

13 633

A Lucidez Perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

69 303

Quero Escrever o Borrão Vermelho de Sangue

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.

13 704

Tentação

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva. Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos. Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo. Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro. A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam. Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo. Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos. Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos. No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam. Mas ambos eram comprometidos. Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada. A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina. Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás. ("Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)

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Comentários (5)

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Uma autentica poetisa... de assustar qualquer pessoa... seu canto de clamor a Deus, suas fraquezas e suas esperanças em sobreviver aos dias de cada ano de sua vida.

robertinho de roberto
robertinho de roberto

Clarice Lispector é Clarice Lispector! Sou há eras seu leitor! Imagino , ou melhor, invejo sua inteligência, aprendendo aqui, alí o seu saber dizer que me encanta!

Andréa Mascarenhas
Andréa Mascarenhas

Alguma referência / fonte para estes poemas?

hascabulusca
hascabulusca

que poema legal

Clarice Lispector, minha inspiração, que dom era esse de expor a alma?

Identificação e contexto básico

Clarice Lispector, cujo nome de nascimento era Chaya Pinkhasivna Lispector, foi uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX. Nascida em Tchetchelnik, na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920, mudou-se ainda criança para o Brasil com sua família, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. Adotou o nome Clarice e, posteriormente, o sobrenome Lispector, que se tornaria indissociável de sua obra. Sua nacionalidade era brasileira. Viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro e em Recife, imersa no contexto cultural e social do Brasil em meados do século XX.

Infância e formação

A infância de Clarice foi marcada pela perseguição antissemita na Ucrânia, que levou sua família a emigrar para o Brasil quando ela tinha apenas cinco anos. Chegaram a Maceió, depois a Recife, onde o pai prosperou, e finalmente se estabeleceram no Rio de Janeiro. Apesar de ter tido uma infância relativamente confortável no Brasil, a memória da tragédia e da diáspora judaica permeou sua sensibilidade. Sua educação formal foi interrompida pela tuberculose que acometeu sua mãe, levando-a a abandonar os estudos. Foi em casa, em grande parte, que desenvolveu seu amor pela leitura e pela escrita, influenciada pela mãe, que lhe lia trechos da Bíblia e de romances. A leitura de autores como Dostoievski, Proust e Virginia Woolf moldou sua visão literária.

Percurso literário

Clarice Lispector começou a escrever desde muito jovem. Seu primeiro romance, "Perto do Coração Selvagem", foi publicado em 1943, quando ela tinha apenas 23 anos, e causou grande impacto pela sua originalidade e modernidade. Ao longo de sua carreira, publicou romances, contos e crônicas, explorando incessantemente as complexidades da existência humana. Sua obra evoluiu de uma fase inicial marcada por uma linguagem mais experimental e introspectiva para uma exploração ainda mais profunda da alma feminina e das angústias existenciais. Participou ativamente da vida literária brasileira, embora de forma discreta, e suas crônicas, publicadas em jornais, revelaram um lado mais acessível de sua prosa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras mais notáveis estão "A Paixão Segundo G.H.", "Água Viva", "A Hora da Estrela" e "Laços de Família". Seus temas centrais giram em torno da identidade, da solidão, do amor, da morte, da epifania, da busca pelo sentido da vida e da relação do ser humano com o transcendente e com o mundo. Clarice frequentemente utilizava o fluxo de consciência e a fragmentação narrativa para capturar a complexidade do pensamento e das sensações. Sua linguagem é densa, imagética e sensorial, muitas vezes partindo do concreto para alcançar o abstrato e o metafísico. A voz poética em sua obra é frequentemente confessional e introspectiva, buscando desvendar o mistério do ser. Ela inovou ao trazer para a literatura brasileira uma abordagem radicalmente subjetiva e filosófica da experiência humana, dialogando com o existencialismo e o pós-estruturalismo, mas mantendo uma voz singular e inconfundível, associada ao modernismo tardio e à prosa introspectiva.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Clarice Lispector viveu em um período de intensa transformação social e cultural no Brasil, marcado por períodos democráticos e ditatoriais, pela urbanização e pela modernização. Sua obra, embora marcadamente pessoal e introspectiva, dialoga com as angústias existenciais de seu tempo. Ela conviveu com grandes nomes da literatura brasileira como Cecília Meireles e Vinicius de Moraes, embora mantivesse uma postura reservada em relação aos círculos literários. Sua escrita, por vezes hermética e desafiadora, refletiu as tensões entre a tradição e a modernidade na arte brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Clarice Lispector foi marcada por um casamento com o diplomata Maury Gurgel Valente, que a levou a viver em diversos países, como Itália, Inglaterra e Estados Unidos. Essa experiência no exterior, embora enriquecedora, também a fez sentir um profundo saudosismo do Brasil. Teve dois filhos, Pedro e Antônio. A escrita era seu refúgio e sua principal forma de expressão, uma busca constante por desvendar os mistérios da alma. Sofreu com a doença de sua mãe e com as pressões sociais e familiares, que por vezes a afastaram da escrita. Sua dedicação à poesia e à prosa era quase uma religião particular, uma exploração das verdades mais íntimas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Clarice Lispector obteve reconhecimento nacional e internacional ainda em vida, especialmente após a publicação de "A Paixão Segundo G.H.". Sua obra foi elogiada pela originalidade e profundidade, mas também gerou debates pela sua complexidade e hermetismo. Ao longo do tempo, seu prestígio só aumentou, consolidando-a como um ícone da literatura brasileira e um nome de referência na literatura mundial. Seu estilo único e sua capacidade de penetrar na psique humana garantiram-lhe um lugar de destaque tanto no meio académico quanto entre leitores ávidos por uma literatura que transcende o ordinário.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Clarice Lispector foi influenciada por autores como Virginia Woolf, James Joyce, Franz Kafka e Marcel Proust, cujas técnicas de fluxo de consciência e exploração psicológica ela adaptou de forma magistral. Seu legado é imenso: ela influenciou gerações de escritores brasileiros e latino-americanos, abrindo novos caminhos para a prosa introspectiva e a exploração da subjetividade. Sua obra é estudada em universidades de todo o mundo, traduzida para diversas línguas e continua a desafiar e encantar leitores com sua profundidade e originalidade. A entrada de Clarice no cânone literário é incontestável, sendo considerada uma das maiores escritoras em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Clarice Lispector tem sido objeto de inúmeras interpretações críticas, que exploram suas camadas filosóficas, psicológicas e existenciais. Leituras a associam ao existencialismo, à fenomenologia e à psicanálise, buscando compreender sua busca pelo "ser" e sua forma de representar a experiência do tempo e da consciência. As discussões críticas frequentemente giram em torno da dificuldade de classificar sua obra e da genialidade de sua linguagem, que desafia as convenções literárias.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Clarice possuía um fascínio por animais, especialmente por cachorros, que aparecem em sua obra e em sua vida. Era conhecida por sua discrição e por uma certa timidez em eventos sociais. Sua rotina de escrita era rigorosa, e ela valorizava o silêncio e a solidão para criar. Diz-se que ela escrevia em máquinas de escrever antigas e que seus manuscritos eram meticulosamente organizados. Um episódio curioso envolve sua participação em programas de televisão, onde sua fala pausada e seus pensamentos profundos causavam estranhamento e admiração no público.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Clarice Lispector faleceu no Rio de Janeiro em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos, em decorrência de um câncer de ovário. Sua morte, embora triste, não diminuiu o impacto de sua obra. Publicações póstumas continuaram a revelar facetas de seu pensamento e de sua escrita, solidificando sua memória como uma das vozes mais singulares e poderosas da literatura moderna.