A revolta e o convite
Coroa de Tercetos (Invenção do autor.)
I
Uma rosa e um punhal, na superfície plana
e o eterno convite, a solução de tudo.
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.
II
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.
Mas a quem reclamar? Há-de ficar-se mudo.
Foi uma imposição, de impossível recusa.
III
Foi uma imposição, de impossível recusa
o descer a este chão, desvestido e sozinho,
da Força Superior que me tirou do nada.
IV
Da Força Superior que me tirou do nada,
não houve ouro nem prata, e nem mesmo o cadinho,
sob o signo infeliz da natureza humana.
V
Sob o signo infeliz da natureza humana
restou o rastejar na sujeira e no barro,
o convite diário, a invitação da musa.
VI
O convite diário, a invitação da musa
para a fuga esperada, a cujo fim me agarro.
Uma rosa e um punhal na superfície plana.
COROA
Não pedi para vir. À vinda foi forçada.
Foi uma imposição, de impossível recusa,
da Força Superior que me tirou do nada.
Sob o signo infeliz da natureza humana,
o convite diário, a invitação da musa,
uma rosa e um punhal na superfície plana.
Dístico para as portas do Recife
A quem vem se diga:
percorra a cidade
como quem afaga
o corpo despido
da mulher amada.
Que o faça pois com
carinho e cuidado.
Oferta para a amiga estrangeira
Dar-te-ei a água morna destes mares,
o verde e o azul das ondas desatadas,
a doçura das canas orvalhadas,
praias como não há noutros lugares,
e estes rios de luzes, e os cantares
dos pássaros, soando nas quebradas,
os bosques de onde vem, nas madrugadas,
o terral, de fragrâncias singulares.
Terás o amor que damos por costume.
Quente e vivo, contendo o mesmo lume
da lua em chamas sobre antigas tabas.
É as primícias da terra generosa:
a açucena, o Jasmim, o cravo, a rosa,
mangas, cajás, cajus, limões, mangabas.
Stalingrado
Combati o bom combate
conforme o ensino de Paulo.
Lutei por Stalingrado.
(Talvez por Tsaritsine).
Alistei-me voluntário,
e eu tinha apenas quinze anos.
Tomei modos de soldado
atirando longe a lira
em troca de armas mais duras,
lutei por Stalingrado.
Por quem? Pela liberdade.
Acaso eu participava
em matéria e em verdade?
Que importa como o fizesse?
Fi-lo pela liberdade.
O sangue tingindo a neve,
tendo o General Inverno
outra vez, a nosso lado.
Mas era a luta de todos
durante seis longos meses,
- tida como a irrecusável -
a diferença entre a Vida
e a Servidão mais escura.
Cem graus abaixo de zero
no combate e no repouso,
mas há que não houve escolha
ante um Reich de mil anos.
Será que então se lutava
do lado da liberdade,
esse conceito que muda
na luta de cada dia?
É preciso a vigilância,
a opção, a cada instante.
A liberdade inconstante
é o bem maior da Vida.
Não importa se em espírito,
não importa se em verdade,
combati o bom combate.
Lutei pela Liberdade
nas neves de Stalingrado.
1943/1996
Eternal vigilance is the price of liberty.
(Wendell Phillips (1811-1884, em discurso de 1852)
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
(Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo. Telegrama de Moscou.)
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edmir_domingues Autor
Terrar
Mudo e triste, conviva cotidiano
da grande solidão, sinto-me em casa,
o vôo que se voa sem ter-se asa
lançou-me a estas paragens do altiplano.
A esse deserto estranho e anti-humano
de geladas crateras, que se arrasa
e se perde no pó da antiga brasa,
fogo estelar do mais antigo arcano.
Silencioso e só, o Tempo espia
esse mundo que é apenas o esqueleto
do universo futuro de algum dia.
De súbito a surpresa. Eis que se alteia
na linha do horizonte, em fundo preto,
o grande globo azul da Terra cheia.
Os gatos
A sombra, a noite, o muro, o gato, o canto,
no silêncio de plumas. Sobre o muro
o gato e o seu noturno olhar na sombra
um reflexo de luz rompendo a noite.
Se a rosa é rosa um gato é sempre um gato
que anda em silêncio sobre pés de plumas.
É de crer haja mesmo o cão sem plumas,
líquido ou não, correndo no seu canto.
Não há, porém, sem plumas, nenhum gato,
nem aqui, nem acaso atrás do muro,
nesta noite global, ou noutra noite,
quer pintado de luz, ou feito em sombra.
Que exista mesmo um gato e sua sombra
é bom. Para que o mundo tenha plumas
e sons, porque dão vida à eterna noite.
No mundo sublunar o áspero canto
monofônico, miados sobre o muro,
Sempre que esteja ali, na sombra, o gato.
No meio da floresta o enorme gato
sob a copa de folhas e de sombra
onde não há nem construção nem muro.
Como se andassem sob chão de plumas
entre urros e grunhidos (são seu canto)
há grandes gatos fulvos sob a noite.
O muro, o imenso muro, esconde a noite,
a sombra, negra e enorme, esconde o gato.
As plumas tornam doce o ácido canto
quando o nosso universo é paz e sombra
- o íntimo travesseiro e suas plumas,
o castelo, o quintal, o quarto, o muro.
Da noite que corrói o velho muro
levantem-se os fantasmas, porque é noite.
Seus passos leves não requerem plumas.
No entanto é requerido sempre o gato,
para que haja ambiente, o gato, a sombra
o coro de uivos lúgubres por canto.
O gato da noite
no muro de canto
nas plumas da sombra.
O gato no canto
do muro, na sombra
das plumas da noite.
O canto do gato
no muro da noite,
na sombra de plumas.
A sombra da noite
no canto do gato,
nas plumas do muro.
No canto do muro
o gato na sombra
da noite de plumas.
No muro de plumas
a noite do canto
e a sombra do gato.
Na sombra do muro
o gato de plumas
e o canto da noite.
janeiro, 1984
Halley
Dos limites do afélio,
dos longes do anti-hélio,
caminhei, dia a dia.
Mas por que dia a dia
quando dias não há?
Bem melhor noite a noite
nas paisagens do escuro.
Nem mesmo noite a noite
quando uma noite só.
Antenome: Cometa.
Filho de gelo e neve,
de coma inexistente,
acéfalo, porquanto
longe do periélio.
A suja massa fria
em cuja me resumo,
caminhou, lento lento,
no espaço sideral.
O destino futuro
puxou-me, como um quante,
na rota irrecusável.
E eis que chego, no agora,
e eis que por fim me aqueço,
e solto a cabeleira
sob os ventos solares,
e agora macrocéfalo
e por fim belo e enorme
surpreendo e espalho o espanto
e, enfim, me realizo,
Será de um breve instante
o degustar da glória,
o calor do astro-pai.
A órbita alongada,
a rota irrecusável
(que a liberdade é um mito),
me levará de novo
aos Países da Treva,
a Noite Interminável,
de um distante retorno.
Como tudo o que vive.
Um momento, o mais breve,
para as luzes da vida
enquanto a negra noite
é a quase-eternidade.
O gelo, a neve, o frio,
as Solidões da Morte.
Canção do que fala
Valete, Dama, Rei,
Ás
A Justiça é um jogo.
Um jogo de interesses,
um jogo de paixões.
Raramente a Balança.
No entanto, quase sempre,
os azares do jogo.
A condição humana.
A ciência cultural.
Só nos resta jogá-lo
com o máximo empenho,
e toda a inteligência,
toda a força da Vida,
temperada no fogo
e no sangue e no Amor.
Não importa a Sentença.
Feita do inescrutável,
imune a todo oráculo.
Canção perplexa, diante de Bob assassinado.
Há um país onde a bondade
é um passaporte (para a morte).
Onde se fala de igualdade
e se pratica a distinção.
Seu filho diz que ê irmão dos povos.
Nem mesmo é irmão do próprio irmão.
Foi Abe há tempo, após foi John,
E King, e Bob, e tantos são.
Há um país onde a bondade
só tem um prêmio • punição.
Por quê? Pergunta a voz do espanto.
Seu povo é bom, os povos são
como as crianças na pureza.
A culpa cabe à direção.
E quem dirige na verdade
essa potência de nação,
não é um homem, não são homens,
que esses estão na escravidão.
Pois são cérebros eletrônicos
hoje os heróis da usurpação,
terríveis máquinas sem alma,
sem o calor do coração,
sem a grandeza da fraqueza,
do erro e de sua redenção,
que encaram sempre a humanidade
medida em termos de equação.
Qual a esperança que nos resta
ante o poder dessa nação,
diante da Máquina insensível?
Que Deus nos guarde. . . Não sei, não.
E há um país de negros pobres
um pouco ao sul, a escuridão
fica na pele, não penetra
de sua gente o coração.
De grandes padres que hoje pregam
a verdadeira religião,
a que se encontra no Evangelho
que foi do Cristo a ensinação.
De um povo inculto e desnutrido
mas professor dessa lição:
de crença viva em liberdade,
de paciência na opressão,
da tolerância que se espalha
de litoral até sertão,
dessa igualdade só possível
depois da miscigenação,
que em voz de samba explica ao mundo
entre o compasso do violão,
que toda noite que prospera
é na verdade a anunciação
da grande aurora que, na sombra,
já vive a plena gestação.
Assim a vida
A suave luz do sol que cedo aporta
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.