Lista de Poemas
Sextina de Aniversário
Avozinho de cem anos
hoje é festa da Poesia.
Todos te damos bom dia
que é de todos esta festa
de natal, para o avozinho.
O pai, o mestre, o avozinho,
a imperecível bandeira
de toda esta grande festa.
É o jubileu de cem anos
que acontece neste dia.
Seja louvada a Poesia!
A tua grande poesia
desde a casa do avozinho
no Recife, o claro dia
da verde infância, bandeira
para o restante dos anos.
(Quase nunca anos de festa).
Mas tristeza é também festa
se transmutada em poesia.
(A poesia faz cem anos!).
Do pardal novo o avozinho
tu foste, Manoel Bandeira,
cada noite, cada dia.
Sapos da noite, do dia,
pelos peraus fazem festa.
Pássaros verdes-bandeira
e azulões, trazem poesia,
trinados para o avozinho
que hoje é o dia dos seus anos.
Viverias poucos anos
disseram-te, certo dia.
Pois bem, viraste o Avozinho.
(E a vida tornou-se festa
para os que são da poesia).
Viraste imortal, Bandeira!
O espelho
assim como o faz quem
convoca os seus demônios
na calada da noite.
Mas não me reconheço
no duplo que me enfrenta.
Nos seus olhos amargos
nem na boca de febre
no amarelo da fronte
na mudez do semblante.
A fria superfície
de resto mineral,
não retrata o secreto
inconfessado anseio.
Que hiberna no silêncio
como a semente dorme
do trigo, sob a neve,
como o esporo invisível
no mar, da diatomácea,
os quais, cumprido o ciclo,
no vir da primavera,
rebentarão de vida
na força natural.
O espelho não conhece
o toque apenas cálido
do sol que a nuvem cobre.
E distorce o retrato,
se não supõe do estímulo
que avivará no breve
todo o anseio escondido.
Perdoo a estranha face
que inverte as realidades.
Porque sendo como é
só pode refletir
a amargura da febre,
que a face da esperança
escondida no íntimo
não pode ser sentida
no clima da inversão.
O planetóide
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.
A mim um planetóide
como único legado.
Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.
Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.
Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.
Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
Galope à beira mar
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.
Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.
Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.
Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.
Recife. 1954.
Notificação à propósito da lua
através do presente notifico:
podeis passar na Lua os pretendidos
week-ends. Mas a Lua me pertence.
E meu bem de raiz há muito tempo,
desde que eu palmilhava incerto passo
nas campinas da infância já remota.
Na dúvida, podeis ir ver se tenho,
ou não, relacionado anualmente
ao Imposto de Renda o meu domínio.
Não me falta, eu vos digo e vos garanto,
o animus possidendi necessário,
e tenho-a registrada com certeza
nos Registros de Imóveis da Galáxia.
Direis o quanto é inútil possuí-la
para ver se desisto. Ao que pergunto:
não venho cultivando há tanto tempo
essa inutilidade, a poesia?
Direis que a Lua é um frígido deserto.
Mas há calor (humano) sobre a Terra?
Direis que não havendo uma atmosfera
não se presta ao cultivo de alimentos.
E eu pergunto em resposta: por acaso
não se morre de fome em nosso mundo?
Eis que vos dou Deimos e Fobos, Ceres,
Tritão, Nereida e Umbriel, Miranda,
e Ariel, e Oberon, Titã, Titânia,
outros bens que possuo registrados.
Lua não. Pois pretendo fique imune
aos progressos da técnica moderna
lembrando à humanidade, a cada dia,
a fome que há na Terra, o quanto é frio
o coração dos homens que a povoam.
O espelho retrovisor
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.
Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.
Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?
Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.
O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
Lição de abismo
Em que lote, em que terreno,
em que bosque, em que floresta,
terá crescido, e sugado
a vida do pó da terra?
Será que ainda existe a árvore?
a copa de passarinhos
verde e viva, verdejando,
uma sombra ao pé da estrada?
Ou será que está cortada,
desfeita em pranchas polidas,
empilhadas, empoeiradas,
madeira de serraria?
0 ferro. Em que mina o ferro
simples minério repousa
a sua paz mineral?
Será que já foi colhido
por negros braços mineiros
e trazido à luz do sol?
Será que já soube a forja
o fogo, o malho, a bigorna,
onde depois de batido
será composto em martelo?
Estará pronto o martelo?
O cabo talvez tirado
dos rijos galhos cortados
da planta desfeita em pranchas?
Os pregos. Já serão pregos
já maquinofaturados
talvez desse mesmo ferro
de que foi feito o martelo?
A mão. Que estará fazendo
a mão, neste exato instante?
Será jovem, será velha
a mão, será negra ou branca?
E assim, já composto o quadro,
quando estarão todos juntos,
a mão, o martelo, os pregos,
a madeira (e o seu destino),
para que, juntos, componham
meu caixão, meu ataúde?
Talvez a mão distraída,
pregando os pregos não sinta
que a boca do mesmo corpo
trauteia a canção da vida,
um canto simples de amor.
Talvez tudo esteja pronto,
o trabalho esteja feito,
e já se veja o ataúde
brilhando no mostruário.
E só não tenha chegado,
para o final da comédia,
o momento que não tarda
que vem por certo em caminho.
Corcel de espuma
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.
Fabulosos
noites de fabulosos incidentes,
de mãos crispadas não, de asas doentes
repousando em jardins de antigas rosas.
Das outras mãos tornadas vaporosas,
quanto mais longe tanto mais presentes
às carícias dos braços abstinentes,
de nossas mãos também, por mais nervosas.
Mariposas sonâmbulas espargem
das asas cinza em risos de outra margem
negada a quem ficado em porto sujo.
Quem de gestos noturnos se consome
despido de passado e antigo nome
entre risos de concha e caramujo.
Mãos e telhados
para a dança dos gestos costumeiros
(com pedaços de cinza atrás dos dedos)
para o reino esgotado das palavras
marcadas pela humana insuficiência.
Renascem, cada dia envelhecidas,
para os perfeitos cubos de silêncio
que repousam cobertos de vermelho,
quando, apesar de mãos, se desejassem
telhados feitos verdes liquescências,
do mar prolongamento muito nosso
como se verde e líquido os houvera.
Pouca verdade em nossas mãos repousa
e em tanto verde as nossas mãos tocaram,
que fica um sentimento de ternura
e a muda compreensão que se acalenta
de que somente o falso em que tocamos
vida nos fora em forma de alimento.
Daí, que as mãos em gesto se resumam
nada mais que do gesto se precise,
até que a chuva desça, e o tempo chegue,
enfim, de mergulhá-las se careça,
nos maduros trigais de quando os haja
para a carícia morna das espigas.
Porquanto, às vezes noite, se realiza
compreensão de telhados nunca verdes,
sentido de que são vermelho-vivos
para que não se integrem na paisagem.
Comentários (3)
Mas um orgulho para sua bisneta??
Parabéns pela iniciativa. Lindos trabalhos. Grade sensibilidade e de profunda inteligência
Querido primo. Um dos homens mais inteligentes que conheci na vida até hoje. Meu primeiro Mestre, aprendi muito com ele. Gratidão !
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