Soneto de dezembro
De alcantis e falésias contemplamos
o barco abandonado às vagas pretas,
retrato de amplas naus catarinetas
coberto não de velas, mas de ramos
cortados quando antigas ampulhetas
e clepsidras que vão para onde vamos
não supunham verdade nestes gamos
que não fogem de galgos e trombetas
e vão conosco, flauta e sagitário,
aos vales de um dezembro extraordinário
feito de geometria e céu cinzento,
e sabem, como nós e o fauno infante,
se quebramos a bússola e o sextante,
da imprecisão de mapa e de instrumento.
soneto XXXI - Sem fuga
Já não quero um paquete como outrora,
(hoje a ideia de fuga está cansada!)
o promontório é longe, a chuva chora,
as flores sem o amor tombam na estrada.
Mas por fim a certeza hoje ê chegada
de que é contigo que essa noite mora,
noite sabor de noite inesperada,
noite antecipação, previnda à aurora.
Dizem que anjos são machos, nós não cremos.
Acreditamos toquem nossos remos
compassos leves da sonata escusa.
Mas não fogem, sepultam-se no ventre,
e dissolvem-se em sangue e sombras, entre
luzes comuns e risos de medusa.
Soneto de natal
Das árvores de vidro tomam forma
três de barba na fé de seus oráculos,
os três de antigos mitos sustentáculos,
os três de antiga fé brocardo e norma.
De calcinada luz que a lenda informa
trouxe-os aos três a estrela em seus tentáculos,
e por de estrela nunca os houve obstáculos
que a mago e rei limite não conforma.
Mas não saber de ventre que era novo
trazendo, à luz da noite, a noite e a povo
a rosa que era fim de rosas trágicas.
Se não gera a magia os olhos régios
nada ficava a vir de sortilégios
porque eram vida então maiores mágicas.
soneto XXIV - Ébrio de medos
Ai, nunca me perdesse entre os vinhedos
se bêbedo de vinho, ébrio de medos,
falei de nossos íntimos segredos
e na neve enterrei velhos brinquedos.
Que a lua iluminava com ternura
rosas de sangue sobre a estrada escura,
e todos conheceram da amargura
que eu vestia de sonho e de aventura.
Constrangimento então, loucura quase,
olhos cobertos de invisível gaze,
sentimento de culpa e confusão.
Sei que havia violões e sei de banjos,
e lembro os que de mim fugiam, anjos.
Talvez quisessem-me eles e eu os não.
Soneto do azul e da busca
Azul no chão que um príncipe há morrido
aqui, ou tinta azul foi derramada,
talvez, quem sabe?, à luz da madrugada
em que o amor foi contato e foi sentido.
Não desceria o céu sobre essa estrada
para torná-la azul no azul descido,
e a solução ê o sangue, o sangue tido
por nobreza que enfim não vale nada.
Eis porque deixo a vida e busco o poço,
para perder-me em nuvens de alvoroço
se não te achei, contigo a primavera.
A fumaça do gesto ao mar se arrase,
confio as ter, assim transponha o gaze,
que onde tempo não há não cabe espera.
soneto XXIX - Olhos de espantalho
E então fez-se de trunfo um sonho falho
gerado sob os ventos das bonanças,
mas foi tema das novas contradanças
toda a idéia de morno e de agasalho.
De nada então valeram neve e orvalho
em peso sobre as velhas esperanças,
quando toda a ternura das crianças
dançava em nossos olhos de espantalho.
E anjos verdes, e arcanjos amarelos,
foram buscar o canto em violoncelos
e atabaques até de mitos mestos.
E assim foram milagre as nossas túnicas
feitas de palha e luz, tornadas únicas
por nossas invenções e nossos gestos.
Soneto feito com água do mar
Hoje que o barco é nosso, e no recôncavo
desmancha-se a ternura em mãos de vento,
pressinto as vibrações contidas entre
lavarinto o cordão nas verdes ondas.
Pois somos como as coisas de silêncio
deixadas no outro dia, em céus de longe,
pelas angras sem fim de velhos sonhos,
quanto mais velhos tanto mais idênticos.
Que a vida volta, e as noites antiquíssimas
nunca serão passados e absolutos
mas tornarão nas íntimas carícias.
Levagantes e polvos não são tudo.
Há mistério nos mares e nos vícios
e mundos abissais nos cantos surdos.
Soneto quase social
E eu tomei porque noite se fazia
as subnutridas mãos dos meus amigos,
saímos a um país de ventania,
os sentimentos falhos quando antigos.
A nós não nos falassem de perigos
que era inútil que mais por sempre havia,
não valendo dizer quanto a castigos
quando há fome e onde a voz se faz por fria.
Éramos magros como Dom Quixotes
foragidos de livros e dialéticas,
guardando a Lua em bolsos carcomidos.
Qual fazíamos antes meninotes
num tempo de repouso e de patéticas
cantigas que ainda o são junto aos ouvidos.
soneto XXXII - São catorze
Há príncipes deitados sobre a areia,
olhares tristes, bocas ofegantes.
São catorze, buscando a noite feia,
e deixando a chorar catorze amantes.
Loucos são, mais que loucos, inconstantes,
por trocarem castelos por aldeia,
até que tragam ventos navegantes
o barco de marfim da lua cheia.
O vento traz sabores de invernada,
e os príncipes, deitados sobre a estrada,
banham-se em frustração que os acompanha.
Pois vestindo-se em múltipla importância
não puderam reter a antiga infância
e perderam-se um dia, ante a montanha.
soneto XIX - Isso me basta
Antes, desci dos céus complementares
aos mais suplementares artifícios,
e por saber dos ventos não propícios
enfeitei-me de mosto e de lagares.
Depois subi do fundo à flor dos mares
feito assim pela fé de outros ofícios,
banhei-me de equinócios e solstícios
sem que chegasse a hora de chegares.
Não que soubesse o mar no teu vestido
de musgos e de líquenes tecido,
que para mim na dobra se resume.
Mas porque sei que a noite não te afasta.
E mesmo quando é escasso o antigo lume
não te vestes de não e isso me basta.