O espelho
Enfrento a face plana
assim como o faz quem
convoca os seus demônios
na calada da noite.
Mas não me reconheço
no duplo que me enfrenta.
Nos seus olhos amargos
nem na boca de febre
no amarelo da fronte
na mudez do semblante.
A fria superfície
de resto mineral,
não retrata o secreto
inconfessado anseio.
Que hiberna no silêncio
como a semente dorme
do trigo, sob a neve,
como o esporo invisível
no mar, da diatomácea,
os quais, cumprido o ciclo,
no vir da primavera,
rebentarão de vida
na força natural.
O espelho não conhece
o toque apenas cálido
do sol que a nuvem cobre.
E distorce o retrato,
se não supõe do estímulo
que avivará no breve
todo o anseio escondido.
Perdoo a estranha face
que inverte as realidades.
Porque sendo como é
só pode refletir
a amargura da febre,
que a face da esperança
escondida no íntimo
não pode ser sentida
no clima da inversão.
O planetóide
Herdei um planetóide
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.
A mim um planetóide
como único legado.
Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.
Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.
Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.
Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
Canção amarga
A pompa e a circunstância não me tentam.
Sei dos males do mundo, da humildade
que devem ter os que andam pelo Vale.
Se a vida é breve e vã, como sabermos,
se vamos, se não vamos para a morte?
A morte ê a companheira cotidiana.
A segurança ê um mito, a rosa esconde
o novelo das línguas bipartidas
das áspides que estão sob a folhagem.
A traição é o Nome, a permanência
nestes tempos de coisas provisórias,
o uisque das garrafas é tão falso
quanto a moeda com que foi comprado.
0 mar da mágoa é vivo e vai tragando
o escuro barco nosso, que desaba.
Náufrago. Exista, pois, essa coragem
de assim reconhecer, porque é preciso.
0 resto é a noite, a noite imensa, a noite,
a noite dos mais trágicos fantasmas,
onde vêm ecoar risos convulsos
da convulsa histeria onipresente,
a circunstância e a pompa que a outros tentam.
soneto VII - Derradeiros líricos
Sopremos nossas lâmpadas que é noite.
E bebamos o vinho escuro e podre
já que o doce beberam chuva e lágrima
e nos deram somente o rejeitado.
Sopremos nossas luzes, que no escuro
não nos verão meninos e mulheres
e esconderemos deles que nos faltam
o pão e o sal enquanto sobra a fome.
As torres de Sião estão contadas
e um dia se dirá dos seus valores
e das harpas deixadas nos salgueiros.
E saberão que fomos, eu e os loucos,
os derradeiros líricos cantando
as canções do Senhor em terra estranha.
soneto I - Quando o mundo acabe
E de espaço e de tempo enfim libertos
seremos quase pássaros no vôo
inconscientemente sexo e vida
burlados preconceitos e limite.
Que a verdade foi vinho e foi desmaio
entre a noite de fumo e de agonia,
sempre antecipação porque sabíamos
composta em nosso sangue a madrugada.
Sejamos ébrios quando o mundo acabe,
e bêbedos nos barcos estejamos
de tímidos e leves quase pássaros.
Que os anjos nos verão rindo e cantando
e nós não voltaremos nem que seja
para enterrar os corpos logo podres.
A bailarina dos sapatinhos de Andersen
De rua ou palco em sombras surge a imagem
que à festa das imagens comparece,
ao passo que por trás aranha tece
a teia complemento a essa paisagem
distante. Após, nos fumos, aparece
vestindo a prata e o cinza o estranho pajem
que a nós nos pareceu quase selvagem
se os sapatos vermelhos oferece.
E houve dança e houve morte, e morte e dança!
Enfim uma apatia suave e mansa
resposta a impulso de invisíveis molas.
E nós que fomos olhos, nunca passos,
desfizemos calores e cansaços
nos leques vegetais das castanholas.
A bailarina dos sapatinhos de Andersen
De rua ou palco em sombras surge a imagem
que à festa das imagens comparece,
ao passo que por trás aranha tece
a teia complemento a essa paisagem
distante. Após, nos fumos, aparece
vestindo a prata e o cinza o estranho pajem
que a nós nos pareceu quase selvagem
se os sapatos vermelhos oferece.
E houve dança e houve morte, e morte e dança!
Enfim uma apatia suave e mansa
resposta a impulso de invisíveis molas.
E nós que fomos olhos, nunca passos,
desfizemos calores e cansaços
nos leques vegetais das castanholas.
Galope à beira mar
Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.
Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.
Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.
Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.
Recife. 1954.
soneto XVIII - A corda
Funâmbulo da corda desencanto
o limpa-chaminés que a vida tenta
despiu a veste antiga, por cinzenta,
resolvido abandono a pós e a pranto.
O grito do metal que vibra tanto,
a marcha de trombetas o atormenta,
porque em mil novecentos e cinquenta
no circo não devia achar-se encanto.
Há três cavalos brancos como a neve
trotando sob a corda um trote leve,
presença que distrai nossa vertigem.
Mas quem vive e quem pensa sempre errado
suja sempre, num gesto atrapalhado,
os três cavalos brancos, de fuligem.
Corcel de espuma
Tordilhos, alazãos, cavalos baios
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.