Canção perplexa, diante de Bob assassinado.
Há um país onde a bondade
é um passaporte (para a morte).
Onde se fala de igualdade
e se pratica a distinção.
Seu filho diz que ê irmão dos povos.
Nem mesmo é irmão do próprio irmão.
Foi Abe há tempo, após foi John,
E King, e Bob, e tantos são.
Há um país onde a bondade
só tem um prêmio • punição.
Por quê? Pergunta a voz do espanto.
Seu povo é bom, os povos são
como as crianças na pureza.
A culpa cabe à direção.
E quem dirige na verdade
essa potência de nação,
não é um homem, não são homens,
que esses estão na escravidão.
Pois são cérebros eletrônicos
hoje os heróis da usurpação,
terríveis máquinas sem alma,
sem o calor do coração,
sem a grandeza da fraqueza,
do erro e de sua redenção,
que encaram sempre a humanidade
medida em termos de equação.
Qual a esperança que nos resta
ante o poder dessa nação,
diante da Máquina insensível?
Que Deus nos guarde. . . Não sei, não.
E há um país de negros pobres
um pouco ao sul, a escuridão
fica na pele, não penetra
de sua gente o coração.
De grandes padres que hoje pregam
a verdadeira religião,
a que se encontra no Evangelho
que foi do Cristo a ensinação.
De um povo inculto e desnutrido
mas professor dessa lição:
de crença viva em liberdade,
de paciência na opressão,
da tolerância que se espalha
de litoral até sertão,
dessa igualdade só possível
depois da miscigenação,
que em voz de samba explica ao mundo
entre o compasso do violão,
que toda noite que prospera
é na verdade a anunciação
da grande aurora que, na sombra,
já vive a plena gestação.
Saltimbancos
Seremos saltimbancos nesta noite
que é preciso que alguém envergue o traje
das púrpuras e guizos, no vazio.
Todo silêncio é triste. E a madrugada
que está sendo construída neste instante
não deve ter nos passos, quando venha,
senão um canto exato como um rito.
Se cada madrugada que rebenta
é produto de um reino de trabalho
que além palpita, e nós o não sabemos,
pois nascemos de noite mal nascidos
de cérebro e sentidos amputados.
As palavras nos negam. 0 cristal
dorme na rocha e nasce como rosa
enquanto a flor que nasce da palavra
na própria inconsistência se desata.
Por isso o reino é nada, e os saltimbancos
valem mais do que o rei e os sacerdotes,
se eles são, no que dizem, no que pregam,
mais verdadeiros posto que mais falsos.
Dos ditos que diremos saltimbancos
claros ou não que sejam se conclua
que os países da infância são distantes
mas únicos na altura e na verdade.
Na sua neve dorme a consistência
dos anjos e das pétalas noturnas
que nenhuma mulher nos trouxe nunca
por mais que dela o vento nos falasse.
Não saberão, por certo, os da assistência,
que a verdade só vive nas comédias
as quais palpitam sempre como sangue.
Então nós construiremos um silêncio.
Se outra coisa não foram as palavras
faladas até hoje, na constância
que se permite aos tempos provisórios,
sob as sombras e a luz, senão silêncio.
Seremos saltimbancos, envergando
as púrpuras e os guizos, no vazio.
Primeiro soneto da estrela
Quando a estrela vitral de verde e roxo
subir no céu desfeito em riso e cores,
sejam cinza os passados dissabores,
a incerteza futura um sonho coxo.
E se a estrela descer, com seus tentáculos
sobre nossas cabeças semi-obscuras,
haja o canto de todas as ternuras
transcendendo os conceitos e os obstáculos.
Bem haja então a estrela a nós descida,
tornando ouro estes pés de barro e lama,
talvez estrela ainda em nossa cama
entre espasmos de amor, de luz, de vida.
- Que esses olhos que dormem com as estrelas
jamais serão de pó para esquecê-las.
Louvado a Manuel Bandeira
À sua maneira.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo também a Manuel,
bandeira do nosso povo.
- Bandeira, Drummond já disse,
e eu digo agora, de novo.
Louvo o beco, louvo a estrela
da manhã, que ainda arde,
louvo a cinza, o carnaval,
o belo, a libertinagem,
e louvo a estrela da tarde.
Louvo o sapo cururu
que lá, no perau profundo,
derrota o sapo-tanoeiro
que mata as artes do mundo.
Louvo esses sinos que batem
bem-bem-bem e bão-bão-bão,
mas que batem de alegria
no ensejo do aniversário
do Poeta, nosso Irmão.
Louvo o busto de Bandeira
(no Recife não há, não)
que em Pasárgada se encontra
- lá tem civilização -
juro pelo mais sagrado
da Semana da Paixão,
juro que vi com meus olhos,
bem pertinho do meu busto,
quando um dia visitei
o Rei da terra em questão.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo o poeta querido,
e louvo a vida que foi
(que graças a Deus que foi)
pois podia não ter sido.
abril, 19-1966.
Halley
Dos limites do afélio,
dos longes do anti-hélio,
caminhei, dia a dia.
Mas por que dia a dia
quando dias não há?
Bem melhor noite a noite
nas paisagens do escuro.
Nem mesmo noite a noite
quando uma noite só.
Antenome: Cometa.
Filho de gelo e neve,
de coma inexistente,
acéfalo, porquanto
longe do periélio.
A suja massa fria
em cuja me resumo,
caminhou, lento lento,
no espaço sideral.
O destino futuro
puxou-me, como um quante,
na rota irrecusável.
E eis que chego, no agora,
e eis que por fim me aqueço,
e solto a cabeleira
sob os ventos solares,
e agora macrocéfalo
e por fim belo e enorme
surpreendo e espalho o espanto
e, enfim, me realizo,
Será de um breve instante
o degustar da glória,
o calor do astro-pai.
A órbita alongada,
a rota irrecusável
(que a liberdade é um mito),
me levará de novo
aos Países da Treva,
a Noite Interminável,
de um distante retorno.
Como tudo o que vive.
Um momento, o mais breve,
para as luzes da vida
enquanto a negra noite
é a quase-eternidade.
O gelo, a neve, o frio,
as Solidões da Morte.
Os gatos
A sombra, a noite, o muro, o gato, o canto,
no silêncio de plumas. Sobre o muro
o gato e o seu noturno olhar na sombra
um reflexo de luz rompendo a noite.
Se a rosa é rosa um gato é sempre um gato
que anda em silêncio sobre pés de plumas.
É de crer haja mesmo o cão sem plumas,
líquido ou não, correndo no seu canto.
Não há, porém, sem plumas, nenhum gato,
nem aqui, nem acaso atrás do muro,
nesta noite global, ou noutra noite,
quer pintado de luz, ou feito em sombra.
Que exista mesmo um gato e sua sombra
é bom. Para que o mundo tenha plumas
e sons, porque dão vida à eterna noite.
No mundo sublunar o áspero canto
monofônico, miados sobre o muro,
Sempre que esteja ali, na sombra, o gato.
No meio da floresta o enorme gato
sob a copa de folhas e de sombra
onde não há nem construção nem muro.
Como se andassem sob chão de plumas
entre urros e grunhidos (são seu canto)
há grandes gatos fulvos sob a noite.
O muro, o imenso muro, esconde a noite,
a sombra, negra e enorme, esconde o gato.
As plumas tornam doce o ácido canto
quando o nosso universo é paz e sombra
- o íntimo travesseiro e suas plumas,
o castelo, o quintal, o quarto, o muro.
Da noite que corrói o velho muro
levantem-se os fantasmas, porque é noite.
Seus passos leves não requerem plumas.
No entanto é requerido sempre o gato,
para que haja ambiente, o gato, a sombra
o coro de uivos lúgubres por canto.
O gato da noite
no muro de canto
nas plumas da sombra.
O gato no canto
do muro, na sombra
das plumas da noite.
O canto do gato
no muro da noite,
na sombra de plumas.
A sombra da noite
no canto do gato,
nas plumas do muro.
No canto do muro
o gato na sombra
da noite de plumas.
No muro de plumas
a noite do canto
e a sombra do gato.
Na sombra do muro
o gato de plumas
e o canto da noite.
janeiro, 1984
Soneto das estrelas sem conta
E eu galguei o alcantil tendo-a em meus braços,
vestida não de sol, porém de lua,
e havia cavalgadas nos espaços,
seu suave suor, e estava nua.
Houve então cavalgadas sobre a terra,
o espanto do luar que tudo via,
e a grande paz que habita nessa guerra
de corpos enlaçados em porfia.
Veio depois o estranho cataclismo
desse grande vazio de depois.
À margem desse negro mar, o abismo
do mar, ao pé da soma de nós dois.
A Mão do Orvalho então, sabe fazê-lo,
pôs estrelas sem conta em seu cabelo.
Soneto a Charles Chaplin
Já que o sal não nos dão nos dás a rosa,
a nós que temos sido a pura espera,
de que viesses trazendo a primavera
à nossa contingência dolorosa.
E na vila noturna e silenciosa
onde as pedras têm vida e os galhos de hera
nos falam, sob as luas da quimera
seremos a ciranda e a polvorosa.
Assim, na inquietação dos novos climas,
teremos os teus passos e presença
junto às nossas privadas pantomimas.
Sendo quase irreais quanto insensatos,
como se repousáramos na crença
do céu que deve haver para os sapatos.
Soneto com jeito de chegança
Ventos do mar que não peninsulares
trouxeram nossas vozes de chegança,
navegantes de barcos de esperança
na roupa das cantigas seculares.
Lembrávamos Lisboa, os mansos lares,
as cachopas pousadas na lembrança,
as vagas que nem sempre de bonança,
na saudade da copla e dos cantares.
Outros, os capitães-de-mar-e-guerra,
tristes de ver o barco agora em terra
descem do rito náutico aos lamentos.
Sem curva de marés nos decompomos
porquanto marinheiros já não somos
mas o gesto e a canção dos movimentos.
soneto XXXV - A rua do vento norte
Servos do rei, tomemos nossa barca,
(pena que tem as velas muito escuras!)
que é mandado busquemos aventuras
longe dos claros céus desta comarca.
E a noite não será das formas puras,
contracanto a canção jamais que parca,
tornará, para o rosto, a antiga marca
do sono, e as sugestões das desventuras.
Dirão que não me vá que a sombra é densa,
mas serei quando o mar vista a presença
a ausência que não quero e outra não posso,
e na rua onde o Vento Norte dança
somente uma canção, mas leve e mansa,
naquele Carnaval privado e nosso.