Lista de Poemas

Cidade Submersa

Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.

Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?

Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam o seu passeio.

Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.

Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.

Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.

Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.

Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.

Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.

Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.

Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.

Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede

Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade                                   
há tanto tempo famosa.

Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,                         
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos                       
nos fios da rede elétrica.

Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.

E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.

Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.

Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.

Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.

      Respiro profundamente
      o ar frio da manhã fria,
      e como um peixe me afogo
      no ar que agora me sufoca,
      e morro dessa asfixia
      na mansa luz da manhã.

                                          Recife, janeiro de 1958.
725

Stalingrado

Combati o bom combate
conforme o ensino de Paulo.
Lutei por Stalingrado.
(Talvez por Tsaritsine).
Alistei-me voluntário,
e eu tinha apenas quinze anos.
Tomei modos de soldado
atirando longe a lira
em troca de armas mais duras,
lutei por Stalingrado.

Por quem? Pela liberdade.

Acaso eu participava
em matéria e em verdade?
Que importa como o fizesse?
Fi-lo pela liberdade.

O sangue tingindo a neve,
tendo o General Inverno
outra vez, a nosso lado.
Mas era a luta de todos
durante seis longos meses,
- tida como a irrecusável -
a diferença entre a Vida
e a Servidão mais escura.

Cem graus abaixo de zero
no combate e no repouso,
mas há que não houve escolha
ante um Reich de mil anos.

Será que então se lutava
do lado da liberdade,
esse conceito que muda
na luta de cada dia?
É preciso a vigilância,
a opção, a cada instante.
A liberdade inconstante
é o bem maior da Vida.

Não importa se em espírito,
não importa se em verdade,
combati o bom combate.
Lutei pela Liberdade
nas neves de Stalingrado.
                                    1943/1996

Eternal vigilance is the price of liberty.
       (Wendell Phillips (1811-1884, em discurso de 1852)

A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
(Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo. Telegrama de Moscou.)
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 edmir_domingues Autor
147

Cidade Submersa

CIDADE SUBMERSA

 

 Acordo súbito, é tarde

e a surpresa me surpreende,

encheu-se-me de água o quarto

os livros bóiam no teto

grandes peixes taciturnos

espiam-me o sono imenso.

 Desperto pondero os fatos

não sei por que não sei como

respiro não tendo guelras

no centro das águas mansas

e a vida se me parece

como antes naturalmente.


Mas o quarto submarino

nunca o vira nem soubera

e entanto as águas estavam

lá dentro literalmente.

 Será que a guerra dos mundos

no meu sono começara?

ou que o degelo dos pólos

se fizera num momento?

 Os russos e americanos

também contidos nas águas

será que enfim maldiriam

do tempo da guerra fria?

 

Fria mesmo era a água fria

que me estava enchendo o quarto.

Levanto-me e já percorro

a casa e a casa era toda

o aquário onde os bichos d'água

faziam do seu passeio.


Saio à rua e não há rua

que a cidade está submersa

e o longo painel das águas

se desenrola no tempo.


Ah que eu sempre suspeitara

que esta cidade tão plana

seria um dia contida

no dorso verde do mar.

que o mar guardava os seus mangues

como espias traiçoeiros

como cúmplices danados

mesmo no seio da incauta.

 

Percorro a cidade toda

cidade não há, se acaso

não se há de dizer cidade

das águas que a devoraram,

porém é um mundo de mágica

o aquário onde vejo e sinto

toda a fauna do mistério

desenvolvendo o seu jogo.


Eis que com pouco me encontro

no Parque Treze de Maio

ao lado do qual dormia

a sombra da Faculdade.

As antigas namoradas

travestidas de sereias

será que estão pela praça

com suas caudas de peixe?

Já percorro a praça toda

como em domingos antigos

mas o parque está deserto

ninguém que veja o meu passo.


 Ninguém não, porque estão peixes

 nadando tranqüilamente

 iluminando o passeio

 nessa luz difusa e vaga

 que é sempre própria dos peixes.

 Calamares cor de cinza

 envolvem os seus tentáculos

 como as estrelas do inferno

 nos seios de bronze escuro

 das estátuas no silêncio.

 Será que apenas eu vivo

 existo em toda a cidade?

 Ou aquelas que eu buscara

 estão vivendo do sono

 porquanto é tarde da noite?

 (Impossível ter certeza

 se a vida nos nega sempre

 certeza plena das coisas.)

 Resta que eu viva pesquisa

 nesta cidade afogada

 num campo de mar - pai nosso

 cruzado da reconquista.

 

Procuro o rio, ora o ri

é uma ficção tão somente

junto das formas estranhas

das pontes debaixo d água.


Arcos (as pontes) ligando

dois pontos mal divisados

neste instante em que eu os vejo

já me parecem mais belos

dessa beleza mais pura

que vem da inutilidade.


Mas sinto que sofro muito

sabendo o rio afogado,

e somente então percebo

o quanto amava esse rio

que amor só se sente pleno

depois do instante da perda.


Cruzo a ponte, na avenida

cefalópodes descansam

as suas formas fantásticas

a um passo do meio-fio.

Larvas, actinias, estrelas

do mar, no que fora terra,

emprestam a tudo o aspecto

de um quadro sobre a parede


Microplantas iluminam

com suas roupas de fósforo

os meus passos no passeio

de ver a cidade minha.

Percebe-se no ambiente

tão grandes luminescências

que eu na verdade suspeito

que os peixes que têm luz própria

subiram todos do abismo

para ver esta cidade                                   

há tanto tempo famosa.


Na rua Nova lagostas

deslizam contornos vagos,

mexilhões no calçamento

enfeitam de novo brilho

o pouso onde os pés descansam,

sifonóforos, retidos,
                            
têm espasmos de agonia

com seus tentáculos presos                       

nos fios da rede elétrica.

 

Busco o Pátio de São Pedro

para a surpresa feliz,

porque são peixes barrocos

os que em cardume se encontram

neste recinto sagrado,

respeitando a arquitetura

e o nosso próprio respeito.


E em tudo reina um silêncio

que talvez não seja unânime,

mas que é a realidade

para os ouvidos que tenho

mal refeitos da surpresa,

mas ah ouvidos escutam

um sino batendo ao longe

e uma canção se espalhando

pela espessura das águas.

Procuro seguir o rumo

da voz do sino e percebo

- milagre de São Francisco -

tocando o sino da Penha

tangido pelas correntes

marinhas, ou por si próprios,

lembrando que a fé subsiste

mesmo no íntimo das águas.

 

Oh bairro de São José

pedaço da minha infância,

das tuas ruas tão tristes

somente uma rua triste

entre as ruas da cidade

(a rua das Águas Verdes)

não hã de trocar de nome.

 

Nesta altura já percebo

toda a cidade submersa

pelo que já não me sobra

mais a razão de viver.


 
Subo à tona onde me ferem

as flechas da madrugada

que vem surgindo do mar.

Nem as copas das palmeiras

emergem do lençol d água

e apenas se vê no extremo

alguns dos montes de Olinda.

 

      Respiro profundamente

      o ar frio da manhã fria,

      e como um peixe me afogo

      no ar que agora me sufoca,

      e morro dessa asfixia

      na mansa luz da manhã.

                                          Recife, janeiro de 1958.
979

Soneto das inseguranças

O que é mau e o que é bom, no dia a dia,
fica sempre difícil de entendermos.
Seja tudo julgado nos seus termos
sem qualquer preconceito ou fantasia.

Toda verdade é de sujeito, via
essa coisa tão simples de sabermos,
um mago, que escreveu para nós lermos,
que nada há de objetivo na valia.

Quando, à tarde, de súbito, aparece
um sátiro num bosque de ninfetas,
o que é bom e o que é mau não se conhece.

Cochonilhas são rubras nas provetas,
e quem mata lagartas não merece
o futuro esplendor das borboletas.
678

Soneto do amor imperfeito

Território de flores. Chão de plumas
o plano do lençol. A cachoeira
dos sedosos cabelos. Como a esteira
do barco do prazer. Penumbra. Algumas

murmurações, sussuros, numa feira
segunda. No país das grandes brumas.
O bom vinho de múltiplas espumas
e o amor do amor e a festa costumeira.

Não subimos o monte. Ao rés da terra
ficamos. Sob a paz. Não houve a guerra.
As legiões cansadas, fria a clava.

Mas houve Ela. E a carícia desmedida.
Cada instante mais bela. Colorida
na pintura dos beijos que eu lhe devo.
715

Palafitas do Capibaribe

Muito nos custarão as águas baixas,
baniremos a Lua, por cautela.

Asas no espaço, rio, além das águas
uma essência de sombras se condensa
na espessura da tarde sem cantigas.
Rio, contém as águas na vazante
que entre o rumor das sombras que se empurram
estranhas residências se levantam
do teu leito de lama e de agonia.

Rio, contém as águas na vazante,
que homens, mulheres, velhos e crianças,
compartilham da lama do teu leito
enquanto ao lado os príncipes sorriem.
Águas noturnas, rio, eterna noite,
sobretudo as crianças, quanto sofrem
na completa ignorância do conforto.
(Mas o Reino de Deus é das crianças,
mesmo as pagãs, mais puras porque livres
da impureza das mãos de quem batiza).
A lama sairá quando lavadas
pelas águas do céu, como elas puras,
mas  nem assim foi justo se lhes dessem
essa infância de lama em que vegetam.

E os infantes dourados, no acalanto
das alcovas de prata sabem riso,
e na altura das pontes, sobre o asfalto,
cresce o reino das luzes coloridas.
Nada comove as pontes. E no entanto
a agonia se esconde ao lado delas,
sob os tetos de zinco, na fumaça
negra dos lampiões de querosene,
se eles são agonia ao pé da lama,
madeira podre, som de desespero,
porque as cores de trópico se casam
frequentemente às cores da miséria.

Ah, serpente bicéfala, cidade
de esplendor e miséria inenarráveis,
o teu poeta sofre ao magro choro
das crianças de lama que cultivas.
713

A lenda do boi de ouro

Diz-que ali na Pontezinha,
junto ao rio Jaboatão,
onde os ventos marinheiros
agitam palmas suspensas,
há mais de trezentos anos
um enorme boi de ouro
passeia solene a sua
figura animineral.

0 verdevivo das folhas,
o verdenegro dos mangues,
têm inéditas cambiantes
(privilégio dos besouros)
quando essa forma barroca
do tempo dos holandeses
emerge das águas mortas
para as terras surpreendidas

Diz-que a menina pobrinha
de vê-lo perdeu a fala.
Eis que estava no seu reino
de infância, posta em sossego,
quando deu pela corrente
enrodilhada no campo.
Puxou a corrente de ouro
e eis que era o boi preso nela.
0 susto tornou-se a síncope
da sua seminudez.

O boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Há mais de trezentos anos
passeia o talvez seu tédio
de bicho sem companhia.
Mastiga o silêncio morto
com os seus dentes de ouro.
com sua cauda de ouro.
Se fora um bezerro, certo
teria um lugar há muito,
no mármore dos altares
dos templos dos potentados.

0 boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Quem sabe um Midas frustrado
sem pedra filosofal
que não sabe tornar de ouro
a negra lama dos mangues
e as cascas dos caranguejos,
que deve a imortalidade
ao fato de que se nutre
do sonho ingênuo das gentes
que certo lhe deu a vida.

0 boi de ouro passeia
nas terras da Pontezinha,
vivendo da espera longa
de que um dia o sol do trópico
já possa dourar sozinho
os anseios do seu povo.
E que, assim, morrer já possa
(por ser já desnecessário)
tornado no barro simples
que fertiliza as sementes.
510

Pedra do navio

Duro barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).

Mas porquê, como e quando?

Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?

O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.

Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)

Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.

Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.

Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.

0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.

Negra, a nave navega.

Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.

Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.

Que vê, de madrugada?

Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
213

Uma viagem de volta do país de Caruaru

Rolando pela auto-estrada
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.

Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.

Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.

Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.

Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.

Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.

Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.

Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
719

Didaktikós

Não se diz em Recife,
de Recife, a Recife.
Só se diz no Recife,
do Recife, ao Recife.
Como nunca se disse
de Bahia ou de Rio,
ou em Rio e em Bahia.
A regra ê simples, viva
como as coisas mais vivas,
nome comum eleito
para a coisa mais própria.

Também porque o Recife
é cidade-varão,
infante condestável,
o Defensor Perpétuo
das coisas do Brasil.
Leão do Norte bravo
Leão da Pátria sempre
sangue dos velhos índios
dos negros dos Palmares
dos brancos conjurados
contra o sangue invasor,
dos heróis que forjaram
a nacionalidade
no Morro das Tabocas
nos Montes Guararapes.

Por questões de linguagem
e por questões de sexo
se diga no Recife
e se diga o Recife.

Onde nasceram frevo
e fado. E capoeira
dança dos quilombolas
no fundo arte marcial.
Onde soam na sombra
os lamentos dolentes
dos seus maracatus,
que a poesia e a ternura
para quem saiba e veja
nunca serão fraqueza
antes signo de força.

Assim que se confirme
a sempre afirmativa:
que é possível ser terno
- consoante já foi dito -
sem que seja preciso
renunciar à dureza.

0 Recife, se diga.
Sempre o nosso Recife.
685

Comentários (3)

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cintya_arruda1

Mas um orgulho para sua bisneta??

arletemarques

Parabéns pela iniciativa. Lindos trabalhos. Grade sensibilidade e de profunda inteligência

camillo

Querido primo. Um dos homens mais inteligentes que conheci na vida até hoje. Meu primeiro Mestre, aprendi muito com ele. Gratidão !

Identificação e contexto básico

Edmir Domingues é um escritor brasileiro, atuante nas áreas da poesia, conto e ensaio. Sua obra se insere no panorama da literatura contemporânea brasileira.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre sua infância e formação não são amplamente divulgadas em fontes acessíveis.

Percurso literário

Edmir Domingues tem um percurso literário marcado pela publicação de diversos livros de poesia, além de contos e ensaios. Sua participação em eventos literários e antologias contribui para sua visibilidade no cenário cultural.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Edmir Domingues é caracterizada pela exploração da linguagem, pela subjetividade e por um tom muitas vezes reflexivo e crítico. Temas como a condição humana, a memória, a cidade e as relações sociais são frequentes em sua obra. Seu estilo pode variar entre o lirismo mais límpido e a experimentação formal, buscando novas formas de expressão poética.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Inserido na literatura contemporânea brasileira, Edmir Domingues dialoga com as preocupações estéticas e temáticas de sua geração, refletindo sobre a realidade social e cultural do Brasil atual.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre sua vida pessoal não são amplamente divulgados em fontes acessíveis.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Sua obra tem recebido atenção da crítica literária e do público leitor, consolidando seu nome como um poeta relevante na cena contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A influência de outros poetas e escritores brasileiros e estrangeiros pode ser percebida em sua obra, mas seu legado está em construção, marcado pela sua contribuição para a diversidade da poesia brasileira atual.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Domingues permite diversas leituras, abordando questões existenciais e sociais sob uma ótica particular e inovadora.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações específicas sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos de sua vida e obra não são amplamente disponíveis.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Edmir Domingues está vivo e sua obra continua a ser produzida e a ser objeto de estudo e apreciação.