soneto XVII - De mãos dadas
E por sermos canções jamais cantadas
apesar de amarguras recalcadas,
os mendigos vieram, de mãos dadas,
juntar-se a nós em nossas mascaradas.
E até ser madrugada vinho quente,
rosas vindas do chão de antigamente,
equação de silêncio impenitente
tombada no punhal da voz demente.
Que limpa-chaminés, mendigos, loucos,
conosco dão-se bem nos risos poucos
e nas canções bastante e na tristeza.
Que resta sempre o mundo quase infância,
todo sombra ante o vento da inconstância,
não resistido ao pranto e à natureza.
soneto XI - Cantem sinos
Cantem sinos, que parto finalmente
enquanto desce a noite sobre o porto,
e a bruma que nos cega o olhar cansado
sugere a flor cinzenta e a morte vaga.
Cantem sinos que parto, cantem sinos
afim de que eu não ouça o pranto doido
daquela que me acena o lenço branco
e enfeita de papoulas o cabelo.
Eis que busco este mar de tantas vozes,
de ventos, enfunando as velas claras,
de luares cor de sangue e vinho velho.
Onde os meigos fantasmas são mais leves,
onde o tumulto esvai-se em suavidade,
e a lembrança da infância se repete.
soneto XV - Ébrios
Ébrios de busca, bêbedos de sono,
em nosso bairro à rua mais vazia,
fizemos roda, na última folia,
ante o tímido olhar dos cães sem dono.
Os loucos deram flores de abandono,
os limpa-chaminés fuligem fria,
e eu não dei nada, porque não sabia
devesse dar quem parte e deixa o trono.
Mesmo os príncipes bons à contingência
legaram seus castelos de opulência
para às nossas prender as mãos amigas.
E gritamos aos ébrios da taberna
que nós temos no sangue a vida eterna,
que há céu em nossas múltiplas cantigas.
soneto XIV - Um mundo como o nosso
A caravana estranha, grave e estranha,
dos limpa-chaminés, dos desgraçados,
aves já quase não de tão cansados,
as sombras deste bairro morto assanha.
Seguem. E a angústia mórbida acompanha
aqueles a seus olhos bem-amados,
que sonham meigos risos sufocados
que a lua faz de antigos quando banha.
Os limpa-chaminés só têm a rua
onde tombam de sono, a luz da lua
e essas canções que são de um mundo louco,
leves, vazias, feitas de tão pouco.
Canções que repetir tento e não posso
porque não são de um mundo como o nosso.
Mãos e telhados
Dos profundos azuis as mãos renascem
para a dança dos gestos costumeiros
(com pedaços de cinza atrás dos dedos)
para o reino esgotado das palavras
marcadas pela humana insuficiência.
Renascem, cada dia envelhecidas,
para os perfeitos cubos de silêncio
que repousam cobertos de vermelho,
quando, apesar de mãos, se desejassem
telhados feitos verdes liquescências,
do mar prolongamento muito nosso
como se verde e líquido os houvera.
Pouca verdade em nossas mãos repousa
e em tanto verde as nossas mãos tocaram,
que fica um sentimento de ternura
e a muda compreensão que se acalenta
de que somente o falso em que tocamos
vida nos fora em forma de alimento.
Daí, que as mãos em gesto se resumam
nada mais que do gesto se precise,
até que a chuva desça, e o tempo chegue,
enfim, de mergulhá-las se careça,
nos maduros trigais de quando os haja
para a carícia morna das espigas.
Porquanto, às vezes noite, se realiza
compreensão de telhados nunca verdes,
sentido de que são vermelho-vivos
para que não se integrem na paisagem.
soneto XIII - Partiu a ave esperança
Nos soluços enfermos desta noite
as enlutadas vozes falam claro,
e há tormento, Senhor, e entre o tormento
desejo inconfessável de suicídio.
Asas curvas, partiu a ave esperança
entre um sopro de vento, envolta em nuvens,
e restou-nos a nós somente a bruma
desencanto que vem dos sonhos poucos.
Lembrança de outras vozes, sosseqadas,
rir deus flautas de outrora, nunca ouvidas
no silêncio da noite onipresente.
Sugestões de abandono se refletem
do abafamento enorme dos sentidos
nesta noite maior que sai dos olhos.
Galope sobre as águas
E fomos todos nós à beira d´água
lançar para a corrente as nossas flautas,
olhos de febre ardendo, e angústia quase,
como se morta fora entre os cansaços
a vida, antes presente nas sonatas
compostas sob a luz dos candelabros
antigos, que luziam sobre as magras
faces de sofrimento, ante os pecados
presentes, quando mares, quando vagas
enfeitam de evidência madrugadas,
vestem o mundo sublimar de prata,
ou quando as puras intuições nos trazem
demônios indormidos, em cavalos
que galopam farrapos sobre as águas.
Das não vindas barcas
Eis-nos cansados do cansaço enorme
que nos penetra os músculos do sono
e em mansa sonolência nos abate
- esperamos as naus que não vieram
cantando uma cantiga muito velha.
As naus de porcelana que trocamos
pelas canções compostas sob o outono,
que há sete dias estariam vindas
não fosse o triste encanto que as deteve
acaso, acaso as luas de naufrágio
dos bruscos temporais que as naus abatem.
Há sete dias estariam vindas.
Há sete dias nossos pés de chumbo
pelos seus frágeis chãos descansariam
de inúteis passos dados sobre o tempo
que ao fim do tempo a nada nos levaram.
Mas se vindas não foram não partiram
e em não terem chegado não levaram
nossos longos cabelos desgrenhados
por longos sete dias de distância,
que a distância seria o pão de trigo
da vida que ficou, porquanto a espera
de espera não passou, nos olhos foscos
não houve conclusão que outra não fosse
que ser na própria essência de inconclusa.
De quando as barcas nossas muito frágeis,
cascos de porcelanas importada
das índias, muito mais do que longínquas,
velas de seda pálida de alguma
península da China, a mais distante,
nos não levaram para aquelas rotas
que Andrômeda ilumina à luz da noite.
Ficamos neste porto imensurável,
maior que as nossas mágoas mais profundas.
Ficamos entre as bússolas inúteis
e os velhos instrumentos de partida,
entregues para sempre à insuficiência
dos nossos pés mais fracos do que as barcas.
E ao nosso amor, que dorme nestas sombras
enroscado entre os galgos do silêncio,
e entre a vaga esperança de que um dia
as naus trocadas toquem neste porto
e inesperadamente se emaranhem
nas magras e enredosas pontas dos
nossos longos cabelos desgrenhados.
soneto XXIII - Asas quebradas
As vozes vêm do inferno e me atormentam
porque falam de sangue, angústia, morte,
e a valsa lenta, agora sepultada,
singularmente lenta, não se escuta.
Eu que fiquei tão só falo por ela,
de meigas esperanças, meigos sonhos,
que em tempo de passado estão dormindo,
inevitavelmente desmanchados.
E a valsa se desfaz que a flauta é névoa
como se o som distante regressara
aos fagotes e aos velhos contrabaixos.
Minhas asas quebradas me atrapalham.
Dolorosas e inúteis que se encontram
já não servem ao voo e à inocência.
soneto X - Olhar de Dom Quixote
Não lembre o doce olhar sobre o segredo
que se esconde na luz dos céus de sono,
esqueça sobre o cinza do abandono
que a esperanças inúteis já concedo.
Não saiba que a fumaça de bruxedo
chora porque perdemos nosso trono.
Mas na hora nona então, à luz sem dono,
brincaremos em paz nosso brinquedo.
E até das catedrais virão sorrisos!
0 alegro de compassos imprecisos
virá, de contrabaixo e de fagote.
E os pobres anjos vão morrer de susto
quando virem, contendo a inveja a custo,
em nosso olhar o olhar de Dom Quixote.