soneto IX - E tu não vinhas
Nunca houvesse o luar da tanta espera
e a noite de perfume e fermosura,
quando a rosa está murcha na cintura
e o corj)o nu não sabe à primavera.
Rede tecida em tempo e fibras de hera,
de tanto tempo enorme na espessura,
ficada pura ao dia e à noite pura
que a fuga mais real já se fizera.
Oh! Não digas que o mar já te não queira
talvez, porquanto a escura cabeleira
se prende entre as mais coisas comezinhas.
Mas dissolvam-se em fumo os longos braços,
pois perdeu-se a esperança entre os cansaços
da espera e do saber que tu não vinhas.
soneto XIII - Partiu a ave esperança
Nos soluços enfermos desta noite
as enlutadas vozes falam claro,
e há tormento, Senhor, e entre o tormento
desejo inconfessável de suicídio.
Asas curvas, partiu a ave esperança
entre um sopro de vento, envolta em nuvens,
e restou-nos a nós somente a bruma
desencanto que vem dos sonhos poucos.
Lembrança de outras vozes, sosseqadas,
rir deus flautas de outrora, nunca ouvidas
no silêncio da noite onipresente.
Sugestões de abandono se refletem
do abafamento enorme dos sentidos
nesta noite maior que sai dos olhos.
Soneto do azul e da busca
Azul no chão que um príncipe há morrido
aqui, ou tinta azul foi derramada,
talvez, quem sabe?, à luz da madrugada
em que o amor foi contato e foi sentido.
Não desceria o céu sobre essa estrada
para torná-la azul no azul descido,
e a solução ê o sangue, o sangue tido
por nobreza que enfim não vale nada.
Eis porque deixo a vida e busco o poço,
para perder-me em nuvens de alvoroço
se não te achei, contigo a primavera.
A fumaça do gesto ao mar se arrase,
confio as ter, assim transponha o gaze,
que onde tempo não há não cabe espera.
Segundo soneto da estrela
Joguei o amor na távola das cartas
e a túnica inconsútil foi lembrança
cansadas de malogro as falas fartas
foram silêncio e gestos de esquivança.
E se olhos visto e ouvidos não conservo
nas vertentes do sonho me dissolvo,
e, quando noite, a noite sinto e observo
olhos que são tentáculos de polvo.
Por isso a sombra é ingrata e traz venenos.
Negado à intimidade o teu sorriso
os imprevistos fazem-se pequenos
e tudo veste a roupa do impreciso.
Somente, à superfície, antigas mágoas
e a estrela, estranha flor, á flor das águas.
Soneto da vinda
Venha quando não possa (quando possa
nos não será valor porque podia)
que as ilhas da neblina são tangíveis
no mundo de intangíveis fundamentos,
a que se tenha então por flecha e folha
sem o mundo de asfalto e de alumínio
e esses prefira, essência em sombra e vento,
aos cogumelos neutros da avenida,
para a veste do amor, que amor dá veste
a quem por seu amor se despe e deixa
o seu porto de velas e de mastros,
e outras sombras prefere que essa sombra
de ventos que nos varrem da memória
aos cogumelos neutros da avenida
soneto XXIII - Asas quebradas
As vozes vêm do inferno e me atormentam
porque falam de sangue, angústia, morte,
e a valsa lenta, agora sepultada,
singularmente lenta, não se escuta.
Eu que fiquei tão só falo por ela,
de meigas esperanças, meigos sonhos,
que em tempo de passado estão dormindo,
inevitavelmente desmanchados.
E a valsa se desfaz que a flauta é névoa
como se o som distante regressara
aos fagotes e aos velhos contrabaixos.
Minhas asas quebradas me atrapalham.
Dolorosas e inúteis que se encontram
já não servem ao voo e à inocência.
soneto X - Olhar de Dom Quixote
Não lembre o doce olhar sobre o segredo
que se esconde na luz dos céus de sono,
esqueça sobre o cinza do abandono
que a esperanças inúteis já concedo.
Não saiba que a fumaça de bruxedo
chora porque perdemos nosso trono.
Mas na hora nona então, à luz sem dono,
brincaremos em paz nosso brinquedo.
E até das catedrais virão sorrisos!
0 alegro de compassos imprecisos
virá, de contrabaixo e de fagote.
E os pobres anjos vão morrer de susto
quando virem, contendo a inveja a custo,
em nosso olhar o olhar de Dom Quixote.
Atmosfera de aventura
E tínhamos os olhos dissolvidos
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
Cidade Submersa
Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.
Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?
Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam o seu passeio.
Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.
Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.
Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.
Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.
Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.
Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.
Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.
Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.
Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede
Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade
há tanto tempo famosa.
Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos
nos fios da rede elétrica.
Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.
E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.
Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.
Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.
Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.
Respiro profundamente
o ar frio da manhã fria,
e como um peixe me afogo
no ar que agora me sufoca,
e morro dessa asfixia
na mansa luz da manhã.
Recife, janeiro de 1958.
Sextina da rosa do amor e da morte
De que uma rosa é uma rosa
é uma rosa, até quando
lhe seja dado viver,
disse poeta. É a vida
que ao cabelo prende o pente
até que Destino a mata.
Quem sabe a tocaia, a mata,
a bala ferindo a rosa,
com outras balas no pente?
Da assassina à espreita quando
tudo eram flores na vida
e um puro sabor viver.
Mas vale a pena viver?
Não é a vida o que mata?
A morte é o fruto da vida
que floresce como rosa
e em versos se torna quando
sabe à lã cardada ao pente.
No campo marinho o pente,
concha bivalve, a viver
no meio das algas, quando
pescador o apresa e mata,
para alimento, que é rosa
que sustenta e enfeita a vida.
O artesão que ganha a vida
tece em seu tear, no pente,
a teia. Motivo: rosa.
Que se destina a viver
matando o tédio que mata,
não se sabe aonde, quando.
Rosas serão pedras, quando
em carga tornar-se a vida.
O desespero que mata
retira ao cabelo o pente,
que é desalento o viver
num país que não tem rosa.
No entanto viver é a Vida
na escura rosa do pente
ainda quando ou fere ou mata.
1995.
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