Soneto do amor imperfeito
Território de flores. Chão de plumas
o plano do lençol. A cachoeira
dos sedosos cabelos. Como a esteira
do barco do prazer. Penumbra. Algumas
murmurações, sussuros, numa feira
segunda. No país das grandes brumas.
O bom vinho de múltiplas espumas
e o amor do amor e a festa costumeira.
Não subimos o monte. Ao rés da terra
ficamos. Sob a paz. Não houve a guerra.
As legiões cansadas, fria a clava.
Mas houve Ela. E a carícia desmedida.
Cada instante mais bela. Colorida
na pintura dos beijos que eu lhe devo.
Sextina da face oculta
Penetrar no infinito pela porta
que o desvão da memória acaso oculta,
(Que esta mão indecisa porte a vela,
a luz para o caminho). Passo a passo.
Penetrar o invisível sempre sabe
o gosto das lições para o presente.
É preciso se tenha então presente
essa atenção constante que se porta
sempre que se conhece, que se sabe.
Urgente é decifrar a face oculta
mesmo sabendo que esse incerto passo
requer todo o cuidado de quem vela.
Haja o sopro do vento que enche a vela
do barco do desejo, aqui presente,
que se apresta a aventura desse passo.
Na procura incessante dessa porta
que é sempre disfarçada, sempre oculta,
não constante do mapa, ao que se sabe.
É pequeno o saber que o sábio sabe.
Mais precária que a chama de uma vela
a ciência vaidosa sempre oculta
o escasso conhecer mais que presente.
Ninguém herdou a chave dessa porta
que impede ao ser humano o grande passo.
Resta pois prosseguir marcando passo
com que fim, que destino, não se sabe.
A nós os prisioneiros dessa porta,
que não podem viver sem sempre vê-la,
a quem foi sonegado esse presente
que seria o entender a face oculta.
O demônio (o Destino) nos oculta
o que é que significa o nosso passo.
Se é que existe o futuro do presente
para o que se destina ninguém sabe.
A luz mortiça e vaga de uma vela
não dá para enxergar além da porta.
(Quem vive neste passo apenas sabe
desse Dragão presente ao pé da Porta
que dia e noite vela a face oculta.
Soneto neste tempo
Debaixo deste sol, das armas vivas
(mais do que dantes vivas, é contado)
espraia-se o clamor, porque é do agrado
do Homem Novo de faces fugitivas.
Ora, as águas e as flores do passado
beberam do sabor das mais nocivas.
Conhecem como amargam negativas
na linguagem do amor descompensado.
Morreremos de enfarte, nestes dias
quando a paz desertou das noites frias
todas em sobressaltos perdulárias.
Como em versos antigos resta um passo.
Morrermos, pobre amor; num grande abraço,
quando morram no peito as coronárias.
Sobre um tema de Li Tai Pó.
Na noite (se profunda) as nossas asas
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
Chuva e lagunas nos telhados
Eis que súbito a chuva acontecida
fez-se de sopro novo e novo alento
e as invisíveis mãos que nos agitam
prepararam na sombra aquele barco.
A solitária nau, que em plena sombra
a nós será da prata e do vermelho
quando desponte a mansa madrugada
misto de orvalho e sangue, a madrugada.
Um círculo terrível nos envolve
de montanhas de assombro e raiva e medo,
onde em vez de alimento oculta força
semeia cogumelos e os aplica
contra a nossa obstinada resistência
sempre aplicada ao surto do inefável.
E o Deus da chuva e um pássaro de neve
de asas que se desfazem, mas rebentam
de novo, cada vez que se desfazem,
para um mundo talhado no granito
de face avessa aos sopros e aos milagres.
Mas há, no entanto, a vida, o imponderável,
e àqueles que não sabem nós diremos
que há plátanos crescendo nos telhados
e estranhas casuarinas junto deles,
águas negras no chão em que repousam
nos telhados são límpidas lagunas.
Ai, barco nas lagunas que essa chuva
semeia nos telhados desta noite,
seremos teus convivas assombrados
para a decifração do teu mistério,
negada a fronte ao mundo que nos prende
onde a rosa morreu sem que alguém visse,
e os lampiões sem luz jazem partidos
sem óleo nem alguém que o percebesse.
Por certo cairemos dos telhados
sobre esse escuro mundo que nos guarda
- mas a vida é melhor quando se a vive
pelo menos a um palmo dos telhados.
Pois contra a queda e os tristes cogumelos
nos resta apenas vele a providência
das invisíveis mãos que nos dirigem
no mistério do mundo impenetrável,
se mais que amor e risos e cavalos
os segredos do mundo nos fascinam.
Ai, os olhos da aurora em nossas faces
e o mar deitado à margem dos caminhos,
mas não, a chuva molha as nossas luzes
e a esperança que são se apaga e morre,
se os filhos de Caim, disseminados,
engendram outros filhos, de alumínio,
e todos intocados de lirismo
semeiam cogumelos nas esquinas.
No entanto a chuva é já uma esperança.
De que os homens, de súbito, aturdidos,
sintam-se bem, lavados de repente,
e sejam naturais como um sorriso.
Flautas e mar
Que noite pode ser, conquanto dia
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
Elegia aos céus de Maralinga
Outrora em Maralinga as águas mansas
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.
Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.
Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,
bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
Que criança é esta?...
Que criança é esta criança
coberta de palha e luz,
dormindo tranquilamente
entre o barulho dos tiros,
entre o rugido das feras,
entre o pânico dos homens?
Que criança é esta criança
que dorme entre o burro e o boi
mas dorme tão docemente
(entre o pânico dos homens)
que não percebe que a estrela
dos magos da lenda antiga
se encontra agora mudada
no céu que cobre o presépio
por um satélite plástico?
Por que não vêm reis modernos,
reis do aço, reis do petróleo,
nos seus carros de mansinho
olhar de perto o menino?
Também como os reis do oriente
eis que seriam tocados
por essa paz que o menino
por sobre o mundo irradia.
Nós também, ah, se nós fôramos
repetição do menino,
mesmo no mundo da angústia,
no mundo do desamor,
entre o pânico dos homens
dormiríamos tranquilos
um sono como esse sono.
Ó vós que olhais o presépio
pelos olhos da ternura
e tendes amor e paz,
neste mundo amargo e frio
que tudo a nada reduz
olhai os filhos dos pobres.
Que foi um filho de pobres
nosso menino de luz.
O Último poema
Tenho estado tão cansado
quero dormir para sempre.
Caminhos muitos andei
os pés feridos nas pedras.
Mas havia as cores vivas
das flores nas pradarias,
havia o canto dos pássaros
entre as folhas do arvoredo
havia o doce perfume
das rosas, pelos caminhos.
Mas agora estou cansado.
Os pés sem forças antigas,
os olhos já muito gastos
não vêem as cores de outrora,
os ouvidos insensíveis
da velhice contundente
não ouvem cantos de pássaros,
os sentidos corroídos
já não sentem, como dantes,
o perfume das roseiras.
Tanta vez estive à morte
e tanta vez desmorri.
Mas quero dormir agora.
O mundo não mudou nada,
o mundo eterno e contínuo,
mas eu mudei, não encontro
o menino do Passado.
Moriturus te salutat.
Se eu amo o sono das noites
por que, então, não amaria
o Grande Sono da Morte?
1987.
De anjos bons e anjos maus
De tanto ter ficado nestas praias
sem riso da obtenção que nunca veio,
aqui nos encontramos, semi-mortos,
sem tamborins que cantem nossos cantos
nem outros instrumentos que sorriam.
A ave esperança aos poucos foi perdendo
a pouca nitidez que lhe restava,
a flor de asfalto e pedra, liquefeita,
na própria liquidez desfaz-se em gritos.
Os cavalos do tempo, em seu galope,
com suas asas tocam nossas faces,
e os anjos de granito, em pé na sombra,
passeiam sobre tudo os olhos mortos.
Os anjos nada sabem. A inocência
que os reveste os dissolve e os aniquila,
no barroco das faces de granito
só se reflete o espelho do vazio.
Por isso os anjos maus tanto apetecem.
Se as suas faces, quase sempre ascéticas,
mostram que sabem tudo e quase chegam
ao misterioso amor da divindade.
Que os deuses amam sempre a consciência
ainda que de pecado e rebeldia.
Mas resta a praia mágica e infinita
se bem seja a magia a do silêncio
que o rosto nos fustiga qual se fosse
o chicote terrível do abandono,
e as sovertidas águas que nos molham
os pés, sem novas cartas nem roteiros,
quando se sabe o barco de chegada
que as sovertidas águas não tragaram.
O barco noite abra o velame negro
e iremos para sempre destas praias.
Por trás da sombra, e branca, a luz reside
como um sopro de vida e consistência,
e a luz que existe em nós, profunda e viva,
por essa luz mais viva nos reclama.