Edmir Domingues

Edmir Domingues

1927–2001 · viveu 73 anos BR BR

Edmir Domingues é um poeta, contista e ensaísta brasileiro contemporâneo. Sua obra poética é reconhecida pela exploração da linguagem, pela subjetividade e pela reflexão sobre temas existenciais e sociais. Com uma escrita que transita entre o lirismo e a experimentação, Domingues se firmou como um nome relevante na poesia brasileira atual.

n. 1927-06-08, Recife · m. 2001-04-01, Recife

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Oferta para a amiga estrangeira

Dar-te-ei a água morna destes mares,
o verde e o azul das ondas desatadas,
a doçura das canas orvalhadas,
praias como não há noutros lugares,

e estes rios de luzes, e os cantares
dos pássaros, soando nas quebradas,
os bosques de onde vem, nas madrugadas,
o terral, de fragrâncias singulares.

Terás o amor que damos por costume.
Quente e vivo, contendo o mesmo lume
da lua em chamas sobre antigas tabas.

É as primícias da terra generosa:
a açucena, o Jasmim, o cravo, a rosa,
mangas, cajás, cajus, limões, mangabas.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Edmir Domingues é um escritor brasileiro, atuante nas áreas da poesia, conto e ensaio. Sua obra se insere no panorama da literatura contemporânea brasileira.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre sua infância e formação não são amplamente divulgadas em fontes acessíveis.

Percurso literário

Edmir Domingues tem um percurso literário marcado pela publicação de diversos livros de poesia, além de contos e ensaios. Sua participação em eventos literários e antologias contribui para sua visibilidade no cenário cultural.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Edmir Domingues é caracterizada pela exploração da linguagem, pela subjetividade e por um tom muitas vezes reflexivo e crítico. Temas como a condição humana, a memória, a cidade e as relações sociais são frequentes em sua obra. Seu estilo pode variar entre o lirismo mais límpido e a experimentação formal, buscando novas formas de expressão poética.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Inserido na literatura contemporânea brasileira, Edmir Domingues dialoga com as preocupações estéticas e temáticas de sua geração, refletindo sobre a realidade social e cultural do Brasil atual.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre sua vida pessoal não são amplamente divulgados em fontes acessíveis.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Sua obra tem recebido atenção da crítica literária e do público leitor, consolidando seu nome como um poeta relevante na cena contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A influência de outros poetas e escritores brasileiros e estrangeiros pode ser percebida em sua obra, mas seu legado está em construção, marcado pela sua contribuição para a diversidade da poesia brasileira atual.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Domingues permite diversas leituras, abordando questões existenciais e sociais sob uma ótica particular e inovadora.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações específicas sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos de sua vida e obra não são amplamente disponíveis.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Edmir Domingues está vivo e sua obra continua a ser produzida e a ser objeto de estudo e apreciação.

Poemas

138

Soneto do amor imperfeito

Território de flores. Chão de plumas
o plano do lençol. A cachoeira
dos sedosos cabelos. Como a esteira
do barco do prazer. Penumbra. Algumas

murmurações, sussuros, numa feira
segunda. No país das grandes brumas.
O bom vinho de múltiplas espumas
e o amor do amor e a festa costumeira.

Não subimos o monte. Ao rés da terra
ficamos. Sob a paz. Não houve a guerra.
As legiões cansadas, fria a clava.

Mas houve Ela. E a carícia desmedida.
Cada instante mais bela. Colorida
na pintura dos beijos que eu lhe devo.
746

Palafitas do Capibaribe

Muito nos custarão as águas baixas,
baniremos a Lua, por cautela.

Asas no espaço, rio, além das águas
uma essência de sombras se condensa
na espessura da tarde sem cantigas.
Rio, contém as águas na vazante
que entre o rumor das sombras que se empurram
estranhas residências se levantam
do teu leito de lama e de agonia.

Rio, contém as águas na vazante,
que homens, mulheres, velhos e crianças,
compartilham da lama do teu leito
enquanto ao lado os príncipes sorriem.
Águas noturnas, rio, eterna noite,
sobretudo as crianças, quanto sofrem
na completa ignorância do conforto.
(Mas o Reino de Deus é das crianças,
mesmo as pagãs, mais puras porque livres
da impureza das mãos de quem batiza).
A lama sairá quando lavadas
pelas águas do céu, como elas puras,
mas  nem assim foi justo se lhes dessem
essa infância de lama em que vegetam.

E os infantes dourados, no acalanto
das alcovas de prata sabem riso,
e na altura das pontes, sobre o asfalto,
cresce o reino das luzes coloridas.
Nada comove as pontes. E no entanto
a agonia se esconde ao lado delas,
sob os tetos de zinco, na fumaça
negra dos lampiões de querosene,
se eles são agonia ao pé da lama,
madeira podre, som de desespero,
porque as cores de trópico se casam
frequentemente às cores da miséria.

Ah, serpente bicéfala, cidade
de esplendor e miséria inenarráveis,
o teu poeta sofre ao magro choro
das crianças de lama que cultivas.
745

Schoteinós

(em grego: obscuro)

Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?

Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.

Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.

Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.

Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.

Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.

E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
                                                                    1996.

Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
572

Os esquecidos azuis de cobalto

No horizonte de sono das palavras
os sete monges magros pontificam.
E a voz das pregações que sempre cantam
não sabe compreensão nem ressonância,
se nas terras de inverno e areia morta
os que guardam de ouvidos não residem.
Porém silêncio, em dobras incontáveis,
onde repousam árvores de pedra
de longos braços nus dependurados
sobre o solo de pedra em que se ergueram.
Cujas sementes sete magos vesgos
fabricaram na sombra dos escombros
e as entregaram presto aos ventos loucos
que em danças de loucura as sacudiram
nas planícies de pedra e de silêncio.

É pois perdido o canto de ternura
que havíamos composto, (no intervalo
dessas horas de sangue e sacrifício),
que o uníssono das vozes cantaria
quando os nobres cansados da nobreza
sentindo-se descalços se sorrissem.

Pois os pastores bêbedos e os magos
tão bêbedos também quanto os pastores,
uns contra os outros lutam nas esquinas
e engendram cogumelos, do cobalto
que a nós nos pertencia, e era guardado
para fazer o azul quanto alimenta.
E cortam nossa voz que sabem fraca
se guardam ferro e fogo e nós só temos
um canteiro de rosas desmanchadas,
a noite e os seus mastins de pelo negro.

Mas eis que a noite já não nos pertence.
A noite, que era nossa, se ressente
da invasão das risadas dos estranhos
que vestem roupa preta e andam de noite
sem que o amor da poesia os leve à sombra.
Mas que buscam no escuro a integração
dos seus corpos vazios nesse escuro
quando a luz os ofusca e os entontece
e esses não são de bem que os incomodem.

Não nos importam nossas cinco chagas
se os espinhos da rosa que as fizeram
nas nossas frágeis mãos foram perfume.
Mas dói-nos quando o mal que nos atinja
não traga o seu perfume entre o cinzento.
Pois outrora era o amor, e de cobalto
se preparava azul, enquanto agora
são feitos cogumelos de cobalto
e as tintas do cinzento se difundem.

Daí o desamor que nos atinge
a nós que só de amor temos vivido,
o horrível desespero que nos ronda
a pouquíssima chama que nos mostra
que deve haver num ponto além do espaço
a ilha de esperança que buscamos.

Nessa ilha de ternura, quando a achemos,
a laranjeira exista e frutifique,
que em torno todos nós semearemos
os azuis de cobalto que tivermos.
Que em país de laranjas e outros pomos
poremos nosso reino incipiente,
e às bordas do seu mar descansaremos
deitados sobre a face do impossível.
617

Galope à beira mar

Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.

Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.

Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.

Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.

                                                                          Recife. 1954.
805

O tigre

Incêndio ardendo na floresta
mesmo na de altos edifícios,
o pelo de aço, os olhos fogo,
passo de pluma, no silêncio.
Eis que te vê, no jogo sempre,
o meu olhar pleno de angústia,
sinto o teu passo após o meu
na dança má de raro ritmo.
0 canto, o abismo, o afã diário,
tua constância não desviam,
tigre no escuro, os olhos vistos
dentro da sombra, da mais negra.
Mesmo eu que vim de manhã clara
e do frescor de águas paradas,
do pôr do sol, da cor da terra,
amargo a angústia de saber-te
hora após hora ao pé de mim.
Tigre deitado na alcatifa
do piso neutro do escritório,
anjo (demônio) que me segue
nos apinhados coletivos,
que vai comigo no meu carro
na dura andança cotidiana.

Ó, tigre-tigre, fera-fera
de tão terrível simetria,
ferindo a carne (a interna carne),
ferindo o cérebro cansado
e o já ferido coração,
a tua garra, fio, lâmina,
como aproxima, cada dia,
o enfarte certo, a névoa eterna,
junto a este mar, sob este céu.
810

Fabulosos

De fabulosos céus, e fabulosas
noites de fabulosos incidentes,
de mãos crispadas não, de asas doentes
repousando em jardins de antigas rosas.

Das  outras      mãos        tornadas   vaporosas,
quanto mais longe tanto mais presentes
às carícias dos braços abstinentes,
de nossas mãos também, por mais nervosas.

Mariposas sonâmbulas espargem
das asas cinza em risos de outra margem
negada a quem ficado em porto sujo.

Quem de gestos noturnos se consome
despido de passado e antigo nome
entre risos de concha e caramujo.
778

Fome de amor

Acordarei com fome nesta noite.
Fome do teu amor distante e vago
que repousa na borda de algum lago
que em seu silêncio todo acaso açoite

o teu repouso injusto, enquanto pago
um preço de recusa, enquanto foi-te
dado amor de vigília, de pernoite,
de uma insônia insuspeita. Entanto afago

a lembrança restante nesta quadra
ao passo que no lado escuro ladra
cão, demônio, orixá de bruxaria.

Dama do lago, antiga mas presente,
no tempo de esperar constantemente,
que há séculos se esquiva e renuncia.
748

Sextina de Aniversário

Bom dia, Manoel Bandeira!
Avozinho de cem anos
hoje é festa da Poesia.
Todos te damos bom dia
que é de todos esta festa
de natal, para o avozinho.

O pai, o mestre, o avozinho,
a imperecível bandeira
de toda esta grande festa.
É o jubileu de cem anos
que acontece neste dia.
Seja louvada a Poesia!

A tua grande poesia
desde a casa do avozinho
no Recife, o claro dia
da verde infância, bandeira
para o restante dos anos.
(Quase nunca anos de festa).

Mas tristeza é também festa
se transmutada em poesia.
(A poesia faz cem anos!).
Do pardal novo o avozinho
tu foste, Manoel Bandeira,
cada noite, cada dia.

Sapos da noite, do dia,
pelos peraus fazem festa.
Pássaros verdes-bandeira
e azulões, trazem poesia,
trinados para o avozinho
que hoje é o dia dos seus anos.

Viverias poucos anos
disseram-te, certo dia.
Pois bem, viraste o Avozinho.
(E a vida tornou-se festa
para os que são da poesia).
Viraste imortal, Bandeira!
772

Uma viagem de volta do país de Caruaru

Rolando pela auto-estrada
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.

Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.

Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.

Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.

Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.

Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.

Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.

Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
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Mas um orgulho para sua bisneta??

arletemarques

Parabéns pela iniciativa. Lindos trabalhos. Grade sensibilidade e de profunda inteligência

camillo

Querido primo. Um dos homens mais inteligentes que conheci na vida até hoje. Meu primeiro Mestre, aprendi muito com ele. Gratidão !