A lenda do boi de ouro
Diz-que ali na Pontezinha,
junto ao rio Jaboatão,
onde os ventos marinheiros
agitam palmas suspensas,
há mais de trezentos anos
um enorme boi de ouro
passeia solene a sua
figura animineral.
0 verdevivo das folhas,
o verdenegro dos mangues,
têm inéditas cambiantes
(privilégio dos besouros)
quando essa forma barroca
do tempo dos holandeses
emerge das águas mortas
para as terras surpreendidas
Diz-que a menina pobrinha
de vê-lo perdeu a fala.
Eis que estava no seu reino
de infância, posta em sossego,
quando deu pela corrente
enrodilhada no campo.
Puxou a corrente de ouro
e eis que era o boi preso nela.
0 susto tornou-se a síncope
da sua seminudez.
O boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.
Há mais de trezentos anos
passeia o talvez seu tédio
de bicho sem companhia.
Mastiga o silêncio morto
com os seus dentes de ouro.
com sua cauda de ouro.
Se fora um bezerro, certo
teria um lugar há muito,
no mármore dos altares
dos templos dos potentados.
0 boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.
Quem sabe um Midas frustrado
sem pedra filosofal
que não sabe tornar de ouro
a negra lama dos mangues
e as cascas dos caranguejos,
que deve a imortalidade
ao fato de que se nutre
do sonho ingênuo das gentes
que certo lhe deu a vida.
0 boi de ouro passeia
nas terras da Pontezinha,
vivendo da espera longa
de que um dia o sol do trópico
já possa dourar sozinho
os anseios do seu povo.
E que, assim, morrer já possa
(por ser já desnecessário)
tornado no barro simples
que fertiliza as sementes.
Lição de abismo
A árvore. Onde estará?
Em que lote, em que terreno,
em que bosque, em que floresta,
terá crescido, e sugado
a vida do pó da terra?
Será que ainda existe a árvore?
a copa de passarinhos
verde e viva, verdejando,
uma sombra ao pé da estrada?
Ou será que está cortada,
desfeita em pranchas polidas,
empilhadas, empoeiradas,
madeira de serraria?
0 ferro. Em que mina o ferro
simples minério repousa
a sua paz mineral?
Será que já foi colhido
por negros braços mineiros
e trazido à luz do sol?
Será que já soube a forja
o fogo, o malho, a bigorna,
onde depois de batido
será composto em martelo?
Estará pronto o martelo?
O cabo talvez tirado
dos rijos galhos cortados
da planta desfeita em pranchas?
Os pregos. Já serão pregos
já maquinofaturados
talvez desse mesmo ferro
de que foi feito o martelo?
A mão. Que estará fazendo
a mão, neste exato instante?
Será jovem, será velha
a mão, será negra ou branca?
E assim, já composto o quadro,
quando estarão todos juntos,
a mão, o martelo, os pregos,
a madeira (e o seu destino),
para que, juntos, componham
meu caixão, meu ataúde?
Talvez a mão distraída,
pregando os pregos não sinta
que a boca do mesmo corpo
trauteia a canção da vida,
um canto simples de amor.
Talvez tudo esteja pronto,
o trabalho esteja feito,
e já se veja o ataúde
brilhando no mostruário.
E só não tenha chegado,
para o final da comédia,
o momento que não tarda
que vem por certo em caminho.
Elegia aos céus de Maralinga
Outrora em Maralinga as águas mansas
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.
Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.
Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,
bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
Flautas e mar
Que noite pode ser, conquanto dia
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
Notificação à propósito da lua
Aos gringos dos States e das Rússias
através do presente notifico:
podeis passar na Lua os pretendidos
week-ends. Mas a Lua me pertence.
E meu bem de raiz há muito tempo,
desde que eu palmilhava incerto passo
nas campinas da infância já remota.
Na dúvida, podeis ir ver se tenho,
ou não, relacionado anualmente
ao Imposto de Renda o meu domínio.
Não me falta, eu vos digo e vos garanto,
o animus possidendi necessário,
e tenho-a registrada com certeza
nos Registros de Imóveis da Galáxia.
Direis o quanto é inútil possuí-la
para ver se desisto. Ao que pergunto:
não venho cultivando há tanto tempo
essa inutilidade, a poesia?
Direis que a Lua é um frígido deserto.
Mas há calor (humano) sobre a Terra?
Direis que não havendo uma atmosfera
não se presta ao cultivo de alimentos.
E eu pergunto em resposta: por acaso
não se morre de fome em nosso mundo?
Eis que vos dou Deimos e Fobos, Ceres,
Tritão, Nereida e Umbriel, Miranda,
e Ariel, e Oberon, Titã, Titânia,
outros bens que possuo registrados.
Lua não. Pois pretendo fique imune
aos progressos da técnica moderna
lembrando à humanidade, a cada dia,
a fome que há na Terra, o quanto é frio
o coração dos homens que a povoam.
Pedra do navio
Duro barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).
Mas porquê, como e quando?
Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?
O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.
Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)
Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.
Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.
Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.
0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.
Negra, a nave navega.
Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.
Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.
Que vê, de madrugada?
Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
O planetóide
Herdei um planetóide
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.
A mim um planetóide
como único legado.
Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.
Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.
Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.
Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
A mascarada
Senhora, se do amor a mascarada
os olhos meus me cega e me angústia,
que sejam vossos olhos alegria
àqueles onde a mágoa está guardada
Que sejam como a luz da chama pura
do sol, que às vezes cega a vista humana,
mas que ê da mesma e sempre soberana
se a prefere ao sabor da noite escura.
Que sejam o horizonte manifesto
que a promessa de vida revigora,
expresso ou por um riso ou por um gesto
de natural calor, gentil senhora
Dizendo ao céu e ao mar e à chuva e ao vento
que todo mal de amor tem valimento .
Ao infante navegador
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
E as nossas faces, nossas frontes,
as nossas cãs da insônia tanta,
jazem despertas, debruçadas
neste outro mar dos instrumentos.
Onde andarão as nossas naves
no mar da bruma e da incerteza?
Onde andarão irmãos, amigos,
no mar de breu, de sorvedouros?
O Infante espia e cisma e sonha.
Eu, sacerdote do mistério,
sempre a seu lado, apuro os filtros,
espanto os gatos e os morcegos
avivo os fogos do braseiro.
(Viva bem vivo o sortilégio
para espantar os monstros feros
que habitam sempre o Tenebroso).
Zarco, Tris tão, Eanes, Velho,
Bartolomeu, Diogo Cão,
onde estarão na noite imensa?
(Dizem que quem no mar de trevas
haja por hem se aventurar
em pouco instante será velho
já não terá noção do tempo).
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
O Infante espia o espaço e cisma.
Onde andarão as nossas naves
em meio aos vórtices do espaço?
Será que acaso já dobraram
O Cabo Não e Marte, e Vênus
e o Bojador, e acaso acharam
Catay, Saturno, Taprohana,
Cipango e o Décimo Planeta,
Lua e o País do Preste João?
Caminho líquido das índias
aérea rota para Andrômeda.
Sagres então, Canaveral
agora, e sempre, e em toda a vida.
No promontório o Infante cisma
e a guerra santa nos promete.
Aos habitantes das esferas
em breve luta sujeitados -
temos de impor a fé de Cristo
e difundir nosso Evangelho.
Sobre um tema de Li Tai Pó.
Na noite (se profunda) as nossas asas
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.