Lista de Poemas
Cantiga, voltando-se.
às margens deste rio nos tomamos
também, que embora em vozes de silêncio
o nosso longo amor foi dedicado
as águas do seu curso, há já decênios.
Nestas margens nos buscam, comovidos,
os príncipes, amigos de outro tempo,
os loucos, com seus passos muito vagos
pelas comuns heranças do abandono,
os pássaros do sono, com seus olhos
dos quais somente a sombra tem notícia.
No entanto essa estranheza nos persuade
de que a presença branca está conosco,
e com ela a lembrança das antigas
noites de amor, sem corpo, de inconcretas,
se avultava na sombra e na espessura
o exagero de algum comedimento.
Pois somos, e isto basta, nestas margens
de lama (para nós tão preciosa
como o mármore branco dos altares)
entre as palmas ao vento levantadas
e vivos e sensatos neste canto
E vivos e sensatos conhecendo
a solidão que somos e seremos
enquanto nos não chegue a madrugada
que há de vir, que por certo não demora,
tornando as mudas pedras das calçadas
em ninhos de andorinhas, por milagre.
Pois quando as duras pedras se tornarem
nos pássaros mais leves do hemisfério
ao peito arrancaremos suave rosa
que ali nasceu, raízes no infinito,
para dá-la ao regente, a rosa branca
guardada tanto tempo avaramente.
Eis que estaremos mortos sem remédio.
E as nossas barcas siderais pintadas
pelas cores noturnas do horizonte,
seguindo o Cão Maior terão por bússola
o roteiro de prata dessas águas.
Que este rio de passos compassados
é para nos tão grande quanto o mundo.
O que vemos talvez mais claramente
quando, por nos sabermos na distância,
temos lua e conhaque em nossos olhos
e um rumor de saudade em nossa boca.
Soneto neste tempo
(mais do que dantes vivas, é contado)
espraia-se o clamor, porque é do agrado
do Homem Novo de faces fugitivas.
Ora, as águas e as flores do passado
beberam do sabor das mais nocivas.
Conhecem como amargam negativas
na linguagem do amor descompensado.
Morreremos de enfarte, nestes dias
quando a paz desertou das noites frias
todas em sobressaltos perdulárias.
Como em versos antigos resta um passo.
Morrermos, pobre amor; num grande abraço,
quando morram no peito as coronárias.
Poema para a filha
a dádiva da flor, o mundo amargo
onde as cores antigas se transformam
nessas cores de sombra, as mais escuras.
Mundo de aroma pouco (mas no entanto
de amargura bastante) nos exige
após as danças lubricas que dança
nossa cabeça em sangue, a vida nossa.
Nasce a criança. Nasce, e no princípio
o verbo e já sofrer se tem vagidos,
enquanto dor também se faz no ventre
da frutificação, na madre aberta.
(Dor que só sabe um dia paralelo
havendo o sacrifício prematuro
nas bocas dos fuzis e nas granadas
que em trabalho sem bênção se produzem).
E as bandeiras da infância, penduradas
nas cordas de secar, são sempre brancas,
como branca se pinta a pomba branca,
insígnia dessa paz que é carecida.
Infância que não volta, e que alimenta
toda a vida futura que lhe segue,
e se bem resumida inda é o bastante
para trazer-nos vivos muitos anos.
Seja pois para a filha a infância alegre
assim permitam deuses queiram ventos,
com pássaros trazendo a primavera,
rosas trazendo cores, borboletas.
Para que ame esta vida como a vida
precisa ser amada, ainda que triste,
se há beleza nos campos, nas marinhas,
na imensa paz dos bois que estão pastando.
E se lhe for a infância assim tranquila
como deseja o pai que se lhe seja,
mister se faz que aceite o ensinamento
do pobre pai que, cedo, dá conselho.
Não volte nunca, adulta, à terra antiga
onde viveu na infância as horas doces,
que o tempo faz pequeno o que foi grande,
reduz a nada aquilo que foi tudo,
amesquinha a paisagem, fere e mata
a esperança de glória acalentada,
que se desfaz, fumaça sem sonância
ante os muros de pedra da evidência.
Não volte e viva. E viva amando a vida
apesar das traições que a vida encerra
pensando um mundo grande como aquele
que as paisagens da infância nos ofertam.
Onde se põe na lua as mágoas íntimas
Quando as asas do espanto, desfolhadas
sobre os muros do sono e do silêncio
foscas de tanto musgo que as invade
imergirem das pétalas do tempo,
noite, profunda e vasta como o sono,
como a névoa do chão, vasta e profunda,
se alongue sobre a prata dessas ondas
que guardam nossa fronte e nosso mundo.
E os sentimentos mudos, no silêncio,
tornando para o frêmito das salas,
sejam novos por fim, quando os idênticos
forem mortos da tanta antiguidade.
Noite de vozes roucas, precipícios
disfarçados no chão que não se espera,
onde deverá haver leve carícia
e mãos de carne em vez de mãos de pedra.
A luz resvala e é pouca, das esquinas
vem um vento sem cores e sem ritmos,
o junco nos espera e nós não vamos
quando nada nos prende à nossa cama.
Das nossas mãos, inermes da procura,
o sentido do tempo se desprende,
das viagens não viajadas por descuido
vêm tímidos fantasmas nesse vento,
e em tudo noite, e vasta e sem limite,
sem piscina e sem Lua e sem cantiga,
que o sentido do tempo se desprende
quando faltam sussurro e confidência.
Quando fosse vedado dizer Lua
nós diríamos Lua, com veemência,
que em mundo de aparência a face pura
(nos lagos em que dorme o nosso sangue)
Lua será na treva, sobre as águas,
o refúgio do parco pensamento,
cansado da suposta eternidade
que não resiste ao sopro inconsistente.
Canto fúnebre a Garcia Lorca
e os brancos foram feitos de fumaça,
teu rosto em plena sombra, Federico,
era uma suave luz como não resta.
Os ciganos dormiam, Santiago
de Cuba na distância repousava,
mar de papel, os plátanos medusas,
e em tudo o odor das flores de tabaco.
No entanto, Federico, nós não fomos,
num coche de água negra, a Santiago,
antes levou-te o coche às águas mortas
entre o sabor do sangue e da revolta.
E se não foi às cinco de uma tarde
sucedeu numa estranha madrugada
quando era o sol de sangue (e a lua sangue)
em um reino de bêbedos distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
E as faces alvas todas se voltaram
para o país das lágrimas noturnas.
Choramos os teus passos, Federico,
que os teus pés muito leves não pisaram.
Nós os de branco, os outros de cinzento,
os de azul, os de terra, os de amarelo,
fomos chorar-te junto aos que choravam
e que estavam vestidos de vermelho.
E eis que te digo então que os homens todos
são ratos e são deuses, nada importa
a cor das roupas várias com que cobrem
o corpo igual e nu e sem segredo.
Por trás das cores dorme a indisfarçada,
a humana condição que nos domina
que só nos dá ser grandes quando ouvimos,
canções como as que sempre nos cantavas.
Quando um poeta morre a vida morre
um pouco. E mais morreu quando morreste.
Mais triste o mundo resta, irmão tombado,
sem tua voz de estranha humanidade.
Há silêncio na terra e este meu canto
é teu, pois te reclama nessa ausência,
de ausentes que nós somos e distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
A mascarada
os olhos meus me cega e me angústia,
que sejam vossos olhos alegria
àqueles onde a mágoa está guardada
Que sejam como a luz da chama pura
do sol, que às vezes cega a vista humana,
mas que ê da mesma e sempre soberana
se a prefere ao sabor da noite escura.
Que sejam o horizonte manifesto
que a promessa de vida revigora,
expresso ou por um riso ou por um gesto
de natural calor, gentil senhora
Dizendo ao céu e ao mar e à chuva e ao vento
que todo mal de amor tem valimento .
De anjos bons e anjos maus
sem riso da obtenção que nunca veio,
aqui nos encontramos, semi-mortos,
sem tamborins que cantem nossos cantos
nem outros instrumentos que sorriam.
A ave esperança aos poucos foi perdendo
a pouca nitidez que lhe restava,
a flor de asfalto e pedra, liquefeita,
na própria liquidez desfaz-se em gritos.
Os cavalos do tempo, em seu galope,
com suas asas tocam nossas faces,
e os anjos de granito, em pé na sombra,
passeiam sobre tudo os olhos mortos.
Os anjos nada sabem. A inocência
que os reveste os dissolve e os aniquila,
no barroco das faces de granito
só se reflete o espelho do vazio.
Por isso os anjos maus tanto apetecem.
Se as suas faces, quase sempre ascéticas,
mostram que sabem tudo e quase chegam
ao misterioso amor da divindade.
Que os deuses amam sempre a consciência
ainda que de pecado e rebeldia.
Mas resta a praia mágica e infinita
se bem seja a magia a do silêncio
que o rosto nos fustiga qual se fosse
o chicote terrível do abandono,
e as sovertidas águas que nos molham
os pés, sem novas cartas nem roteiros,
quando se sabe o barco de chegada
que as sovertidas águas não tragaram.
O barco noite abra o velame negro
e iremos para sempre destas praias.
Por trás da sombra, e branca, a luz reside
como um sopro de vida e consistência,
e a luz que existe em nós, profunda e viva,
por essa luz mais viva nos reclama.
Que criança é esta?...
coberta de palha e luz,
dormindo tranquilamente
entre o barulho dos tiros,
entre o rugido das feras,
entre o pânico dos homens?
Que criança é esta criança
que dorme entre o burro e o boi
mas dorme tão docemente
(entre o pânico dos homens)
que não percebe que a estrela
dos magos da lenda antiga
se encontra agora mudada
no céu que cobre o presépio
por um satélite plástico?
Por que não vêm reis modernos,
reis do aço, reis do petróleo,
nos seus carros de mansinho
olhar de perto o menino?
Também como os reis do oriente
eis que seriam tocados
por essa paz que o menino
por sobre o mundo irradia.
Nós também, ah, se nós fôramos
repetição do menino,
mesmo no mundo da angústia,
no mundo do desamor,
entre o pânico dos homens
dormiríamos tranquilos
um sono como esse sono.
Ó vós que olhais o presépio
pelos olhos da ternura
e tendes amor e paz,
neste mundo amargo e frio
que tudo a nada reduz
olhai os filhos dos pobres.
Que foi um filho de pobres
nosso menino de luz.
Memória de amor
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
Sobre um tema de Li Tai Pó.
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
Comentários (3)
Mas um orgulho para sua bisneta??
Parabéns pela iniciativa. Lindos trabalhos. Grade sensibilidade e de profunda inteligência
Querido primo. Um dos homens mais inteligentes que conheci na vida até hoje. Meu primeiro Mestre, aprendi muito com ele. Gratidão !
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