Uma viagem de volta do país de Caruaru
Rolando pela auto-estrada
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.
Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.
Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.
Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.
Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.
Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.
Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.
Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
Canto fúnebre a Garcia Lorca
Quando os cavalos negros não chegaram
e os brancos foram feitos de fumaça,
teu rosto em plena sombra, Federico,
era uma suave luz como não resta.
Os ciganos dormiam, Santiago
de Cuba na distância repousava,
mar de papel, os plátanos medusas,
e em tudo o odor das flores de tabaco.
No entanto, Federico, nós não fomos,
num coche de água negra, a Santiago,
antes levou-te o coche às águas mortas
entre o sabor do sangue e da revolta.
E se não foi às cinco de uma tarde
sucedeu numa estranha madrugada
quando era o sol de sangue (e a lua sangue)
em um reino de bêbedos distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
E as faces alvas todas se voltaram
para o país das lágrimas noturnas.
Choramos os teus passos, Federico,
que os teus pés muito leves não pisaram.
Nós os de branco, os outros de cinzento,
os de azul, os de terra, os de amarelo,
fomos chorar-te junto aos que choravam
e que estavam vestidos de vermelho.
E eis que te digo então que os homens todos
são ratos e são deuses, nada importa
a cor das roupas várias com que cobrem
o corpo igual e nu e sem segredo.
Por trás das cores dorme a indisfarçada,
a humana condição que nos domina
que só nos dá ser grandes quando ouvimos,
canções como as que sempre nos cantavas.
Quando um poeta morre a vida morre
um pouco. E mais morreu quando morreste.
Mais triste o mundo resta, irmão tombado,
sem tua voz de estranha humanidade.
Há silêncio na terra e este meu canto
é teu, pois te reclama nessa ausência,
de ausentes que nós somos e distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
O tigre
Incêndio ardendo na floresta
mesmo na de altos edifícios,
o pelo de aço, os olhos fogo,
passo de pluma, no silêncio.
Eis que te vê, no jogo sempre,
o meu olhar pleno de angústia,
sinto o teu passo após o meu
na dança má de raro ritmo.
0 canto, o abismo, o afã diário,
tua constância não desviam,
tigre no escuro, os olhos vistos
dentro da sombra, da mais negra.
Mesmo eu que vim de manhã clara
e do frescor de águas paradas,
do pôr do sol, da cor da terra,
amargo a angústia de saber-te
hora após hora ao pé de mim.
Tigre deitado na alcatifa
do piso neutro do escritório,
anjo (demônio) que me segue
nos apinhados coletivos,
que vai comigo no meu carro
na dura andança cotidiana.
Ó, tigre-tigre, fera-fera
de tão terrível simetria,
ferindo a carne (a interna carne),
ferindo o cérebro cansado
e o já ferido coração,
a tua garra, fio, lâmina,
como aproxima, cada dia,
o enfarte certo, a névoa eterna,
junto a este mar, sob este céu.
Soneto quase erótico
Queimaremos os barcos, bem defronte
dos países do amor desesperado,
para que nada seja relembrado
além da linha azul desse horizonte.
Ultrapassados campos, lagos, monte,
seja o reino do sempre inesperado,
que Amor vive do novo renovado
que sempre se renova, eterna fonte.
Sobre lençóis de chamas, cada dia
Jogaremos os jogos, e o secreto
jogo do fogo e mágica alegria.
Destroçados os cintos do passado
dar-vos-emos, Senhora, o amor completo:
o prazer do prazer então negado.
Galope à beira mar
Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.
Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.
Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.
Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.
Recife. 1954.
Fabulosos
De fabulosos céus, e fabulosas
noites de fabulosos incidentes,
de mãos crispadas não, de asas doentes
repousando em jardins de antigas rosas.
Das outras mãos tornadas vaporosas,
quanto mais longe tanto mais presentes
às carícias dos braços abstinentes,
de nossas mãos também, por mais nervosas.
Mariposas sonâmbulas espargem
das asas cinza em risos de outra margem
negada a quem ficado em porto sujo.
Quem de gestos noturnos se consome
despido de passado e antigo nome
entre risos de concha e caramujo.
Schoteinós
(em grego: obscuro)
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
Soneto ao boi
A grande voz das longas avenidas
não consegue abafar esse murmúrio
(sussurro de papoulas tenras, gritos
de agapantos azuis como a ternura)
derramado no chão. 0 campo cresce
na direta razão da nossa mágoa
com sorrisos de mágicas quermesses
multiplicando passos pela estrada.
A carne dos açougues, ainda viva,
se nutre desse verde, à luz da tarde,
os ossos dos botões passeiam tristes
protegidos no couro dos sapatos.
Alonga o olhar ao campo que perdemos
o boi que existe em nós, porque o comemos.
Soneto neste tempo
Debaixo deste sol, das armas vivas
(mais do que dantes vivas, é contado)
espraia-se o clamor, porque é do agrado
do Homem Novo de faces fugitivas.
Ora, as águas e as flores do passado
beberam do sabor das mais nocivas.
Conhecem como amargam negativas
na linguagem do amor descompensado.
Morreremos de enfarte, nestes dias
quando a paz desertou das noites frias
todas em sobressaltos perdulárias.
Como em versos antigos resta um passo.
Morrermos, pobre amor; num grande abraço,
quando morram no peito as coronárias.
A mascarada
Senhora, se do amor a mascarada
os olhos meus me cega e me angústia,
que sejam vossos olhos alegria
àqueles onde a mágoa está guardada
Que sejam como a luz da chama pura
do sol, que às vezes cega a vista humana,
mas que ê da mesma e sempre soberana
se a prefere ao sabor da noite escura.
Que sejam o horizonte manifesto
que a promessa de vida revigora,
expresso ou por um riso ou por um gesto
de natural calor, gentil senhora
Dizendo ao céu e ao mar e à chuva e ao vento
que todo mal de amor tem valimento .