Edmir Domingues

Edmir Domingues

1927–2001 · viveu 73 anos BR BR

Edmir Domingues é um poeta, contista e ensaísta brasileiro contemporâneo. Sua obra poética é reconhecida pela exploração da linguagem, pela subjetividade e pela reflexão sobre temas existenciais e sociais. Com uma escrita que transita entre o lirismo e a experimentação, Domingues se firmou como um nome relevante na poesia brasileira atual.

n. 1927-06-08, Recife · m. 2001-04-01, Recife

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A revolta e o convite

Coroa de Tercetos  (Invenção do autor.)
I
Uma rosa e um punhal, na superfície plana
e o eterno convite, a solução de tudo.
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.

II
Não pedi para vir. A vinda foi forçada.
Mas a quem reclamar? Há-de ficar-se mudo.
Foi uma imposição, de impossível recusa.

III
Foi uma imposição, de impossível recusa
o descer a este chão, desvestido e sozinho,
da Força Superior que me tirou do nada.

IV
Da Força Superior que me tirou do nada,
não houve ouro nem prata, e nem mesmo o cadinho,
sob o signo infeliz da natureza humana.

V
Sob o signo infeliz da natureza humana
restou o rastejar na sujeira e no barro,
o convite diário, a invitação da musa.

VI
O convite diário, a invitação da musa
para a fuga esperada, a cujo fim me agarro.
Uma rosa e um punhal na superfície plana.

COROA
Não pedi para vir. À vinda foi forçada.
Foi uma imposição, de impossível recusa,
da Força Superior que me tirou do nada.

Sob o signo infeliz da natureza humana,
o convite diário, a invitação da musa,
uma rosa e um punhal na superfície plana.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Edmir Domingues é um escritor brasileiro, atuante nas áreas da poesia, conto e ensaio. Sua obra se insere no panorama da literatura contemporânea brasileira.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre sua infância e formação não são amplamente divulgadas em fontes acessíveis.

Percurso literário

Edmir Domingues tem um percurso literário marcado pela publicação de diversos livros de poesia, além de contos e ensaios. Sua participação em eventos literários e antologias contribui para sua visibilidade no cenário cultural.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Edmir Domingues é caracterizada pela exploração da linguagem, pela subjetividade e por um tom muitas vezes reflexivo e crítico. Temas como a condição humana, a memória, a cidade e as relações sociais são frequentes em sua obra. Seu estilo pode variar entre o lirismo mais límpido e a experimentação formal, buscando novas formas de expressão poética.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Inserido na literatura contemporânea brasileira, Edmir Domingues dialoga com as preocupações estéticas e temáticas de sua geração, refletindo sobre a realidade social e cultural do Brasil atual.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre sua vida pessoal não são amplamente divulgados em fontes acessíveis.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Sua obra tem recebido atenção da crítica literária e do público leitor, consolidando seu nome como um poeta relevante na cena contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A influência de outros poetas e escritores brasileiros e estrangeiros pode ser percebida em sua obra, mas seu legado está em construção, marcado pela sua contribuição para a diversidade da poesia brasileira atual.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Domingues permite diversas leituras, abordando questões existenciais e sociais sob uma ótica particular e inovadora.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações específicas sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos de sua vida e obra não são amplamente disponíveis.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Edmir Domingues está vivo e sua obra continua a ser produzida e a ser objeto de estudo e apreciação.

Poemas

138

Cidade Submersa

CIDADE SUBMERSA

 

 Acordo súbito, é tarde

e a surpresa me surpreende,

encheu-se-me de água o quarto

os livros bóiam no teto

grandes peixes taciturnos

espiam-me o sono imenso.

 Desperto pondero os fatos

não sei por que não sei como

respiro não tendo guelras

no centro das águas mansas

e a vida se me parece

como antes naturalmente.


Mas o quarto submarino

nunca o vira nem soubera

e entanto as águas estavam

lá dentro literalmente.

 Será que a guerra dos mundos

no meu sono começara?

ou que o degelo dos pólos

se fizera num momento?

 Os russos e americanos

também contidos nas águas

será que enfim maldiriam

do tempo da guerra fria?

 

Fria mesmo era a água fria

que me estava enchendo o quarto.

Levanto-me e já percorro

a casa e a casa era toda

o aquário onde os bichos d'água

faziam do seu passeio.


Saio à rua e não há rua

que a cidade está submersa

e o longo painel das águas

se desenrola no tempo.


Ah que eu sempre suspeitara

que esta cidade tão plana

seria um dia contida

no dorso verde do mar.

que o mar guardava os seus mangues

como espias traiçoeiros

como cúmplices danados

mesmo no seio da incauta.

 

Percorro a cidade toda

cidade não há, se acaso

não se há de dizer cidade

das águas que a devoraram,

porém é um mundo de mágica

o aquário onde vejo e sinto

toda a fauna do mistério

desenvolvendo o seu jogo.


Eis que com pouco me encontro

no Parque Treze de Maio

ao lado do qual dormia

a sombra da Faculdade.

As antigas namoradas

travestidas de sereias

será que estão pela praça

com suas caudas de peixe?

Já percorro a praça toda

como em domingos antigos

mas o parque está deserto

ninguém que veja o meu passo.


 Ninguém não, porque estão peixes

 nadando tranqüilamente

 iluminando o passeio

 nessa luz difusa e vaga

 que é sempre própria dos peixes.

 Calamares cor de cinza

 envolvem os seus tentáculos

 como as estrelas do inferno

 nos seios de bronze escuro

 das estátuas no silêncio.

 Será que apenas eu vivo

 existo em toda a cidade?

 Ou aquelas que eu buscara

 estão vivendo do sono

 porquanto é tarde da noite?

 (Impossível ter certeza

 se a vida nos nega sempre

 certeza plena das coisas.)

 Resta que eu viva pesquisa

 nesta cidade afogada

 num campo de mar - pai nosso

 cruzado da reconquista.

 

Procuro o rio, ora o ri

é uma ficção tão somente

junto das formas estranhas

das pontes debaixo d água.


Arcos (as pontes) ligando

dois pontos mal divisados

neste instante em que eu os vejo

já me parecem mais belos

dessa beleza mais pura

que vem da inutilidade.


Mas sinto que sofro muito

sabendo o rio afogado,

e somente então percebo

o quanto amava esse rio

que amor só se sente pleno

depois do instante da perda.


Cruzo a ponte, na avenida

cefalópodes descansam

as suas formas fantásticas

a um passo do meio-fio.

Larvas, actinias, estrelas

do mar, no que fora terra,

emprestam a tudo o aspecto

de um quadro sobre a parede


Microplantas iluminam

com suas roupas de fósforo

os meus passos no passeio

de ver a cidade minha.

Percebe-se no ambiente

tão grandes luminescências

que eu na verdade suspeito

que os peixes que têm luz própria

subiram todos do abismo

para ver esta cidade                                   

há tanto tempo famosa.


Na rua Nova lagostas

deslizam contornos vagos,

mexilhões no calçamento

enfeitam de novo brilho

o pouso onde os pés descansam,

sifonóforos, retidos,
                            
têm espasmos de agonia

com seus tentáculos presos                       

nos fios da rede elétrica.

 

Busco o Pátio de São Pedro

para a surpresa feliz,

porque são peixes barrocos

os que em cardume se encontram

neste recinto sagrado,

respeitando a arquitetura

e o nosso próprio respeito.


E em tudo reina um silêncio

que talvez não seja unânime,

mas que é a realidade

para os ouvidos que tenho

mal refeitos da surpresa,

mas ah ouvidos escutam

um sino batendo ao longe

e uma canção se espalhando

pela espessura das águas.

Procuro seguir o rumo

da voz do sino e percebo

- milagre de São Francisco -

tocando o sino da Penha

tangido pelas correntes

marinhas, ou por si próprios,

lembrando que a fé subsiste

mesmo no íntimo das águas.

 

Oh bairro de São José

pedaço da minha infância,

das tuas ruas tão tristes

somente uma rua triste

entre as ruas da cidade

(a rua das Águas Verdes)

não hã de trocar de nome.

 

Nesta altura já percebo

toda a cidade submersa

pelo que já não me sobra

mais a razão de viver.


 
Subo à tona onde me ferem

as flechas da madrugada

que vem surgindo do mar.

Nem as copas das palmeiras

emergem do lençol d água

e apenas se vê no extremo

alguns dos montes de Olinda.

 

      Respiro profundamente

      o ar frio da manhã fria,

      e como um peixe me afogo

      no ar que agora me sufoca,

      e morro dessa asfixia

      na mansa luz da manhã.

                                          Recife, janeiro de 1958.
1 009

Soneto neste tempo

Debaixo deste sol, das armas vivas
(mais do que dantes vivas, é contado)
espraia-se o clamor, porque é do agrado
do Homem Novo de faces fugitivas.

Ora, as águas e as flores do passado
beberam do sabor das mais nocivas.
Conhecem como amargam negativas
na linguagem do amor descompensado.

Morreremos de enfarte, nestes dias
quando a paz desertou das noites frias
todas em sobressaltos perdulárias.

Como em versos antigos resta um passo.
Morrermos, pobre amor; num grande abraço,
quando morram no peito as coronárias.
742

Louvado a Tiradentes

Joaquim José da Silva
Xavier, Tiradentes,
que cultivaste a rosa
rubra, da liberdade,
com teu sangue de herói
cultivaste essa rosa,
rara e esquisita flor
posto que indispensável.

Eis, mereces o canto
da louvação mais pura,
Joaquim José da Silva
Xavier, Tiradentes,
pois nos quiseste dar
pelo teu sangue li-
bertas qua será tamen.

E morreste na forca
vestindo a alva mais pura
como puro que foi
teu puro sentimento.
Assim te louvo agora
Herói da Pátria Imensa,
louvo São João Del Rei,
Joaguim José da Silva
Xavier, nosso Mártir.

Pátria, conserva a glória, desse Alferes
que um dia ainda serás independente.
                                                       1966.
702

Sextina da face oculta

Penetrar no infinito pela porta
que o desvão da memória acaso oculta,
(Que esta mão indecisa porte a vela,
a luz para o caminho). Passo a passo.
Penetrar o invisível sempre sabe
o gosto das lições para o presente.

É preciso se tenha então presente
essa atenção constante que se porta
sempre que se conhece, que se sabe.
Urgente é decifrar a face oculta
mesmo sabendo que esse incerto passo
requer todo o cuidado de quem vela.

Haja o sopro do vento que enche a vela
do barco do desejo, aqui presente,
que se apresta a aventura desse passo.
Na procura incessante dessa porta
que é sempre disfarçada, sempre oculta,
não constante do mapa, ao que se sabe.

É pequeno o saber que o sábio sabe.
Mais precária que a chama de uma vela
a ciência vaidosa sempre oculta
o escasso conhecer mais que presente.
Ninguém herdou a chave dessa porta
que impede ao ser humano o grande passo.

Resta pois prosseguir marcando passo
com que fim, que destino, não se sabe.
A nós os prisioneiros dessa porta,
que não podem viver sem sempre vê-la,
a quem foi sonegado esse presente
que seria o entender a face oculta.

O demônio (o Destino) nos oculta
o que é que significa o nosso passo.
Se é que existe o futuro do presente
para o que se destina ninguém sabe.
A luz mortiça e vaga de uma vela
não dá para enxergar além da porta.

(Quem vive neste passo apenas sabe
desse Dragão presente ao pé da Porta
que dia e noite vela a face oculta.
522

Sextina de Aniversário

Bom dia, Manoel Bandeira!
Avozinho de cem anos
hoje é festa da Poesia.
Todos te damos bom dia
que é de todos esta festa
de natal, para o avozinho.

O pai, o mestre, o avozinho,
a imperecível bandeira
de toda esta grande festa.
É o jubileu de cem anos
que acontece neste dia.
Seja louvada a Poesia!

A tua grande poesia
desde a casa do avozinho
no Recife, o claro dia
da verde infância, bandeira
para o restante dos anos.
(Quase nunca anos de festa).

Mas tristeza é também festa
se transmutada em poesia.
(A poesia faz cem anos!).
Do pardal novo o avozinho
tu foste, Manoel Bandeira,
cada noite, cada dia.

Sapos da noite, do dia,
pelos peraus fazem festa.
Pássaros verdes-bandeira
e azulões, trazem poesia,
trinados para o avozinho
que hoje é o dia dos seus anos.

Viverias poucos anos
disseram-te, certo dia.
Pois bem, viraste o Avozinho.
(E a vida tornou-se festa
para os que são da poesia).
Viraste imortal, Bandeira!
757

Ichitus

O peixe, o abismo, o mar das incertezas.
A forma hidrodinâmica desliza
nos limites do susto. À forma escura
nos países da sombra. À forma clara
nos domínios da luz. O mimetismo
é o seguro da vida.
                              Pensa o peixe
o conteúdo aético existente
na lei do mais dotado? A injusta regra -
seleção natural - esse o seu nome.
E o direito do fraco? Imune à culpa
de ser fraco, onde fica esse direito?
Desliza o peixe em mares de perigos
aproveitando o instante, até que chegue
o do monstro voraz que vive a espreita.

Noutro mar, outros seres também sabem
a incerteza da vida, a grande rede
das traições, e procuram pelo peixe
sinal do bom caminho, nas estradas.

Entanto seja o forte o irmão do fraco.
Posta de lado a crença no milagre
difícil de aceitar frente à razão,
sem conteúdo mágico, sem ritos,
mas tão só pela luz do Ensinamento:
Iesous CHristos, THeou, Uios, Soter.
869

Didaktikós

Não se diz em Recife,
de Recife, a Recife.
Só se diz no Recife,
do Recife, ao Recife.
Como nunca se disse
de Bahia ou de Rio,
ou em Rio e em Bahia.
A regra ê simples, viva
como as coisas mais vivas,
nome comum eleito
para a coisa mais própria.

Também porque o Recife
é cidade-varão,
infante condestável,
o Defensor Perpétuo
das coisas do Brasil.
Leão do Norte bravo
Leão da Pátria sempre
sangue dos velhos índios
dos negros dos Palmares
dos brancos conjurados
contra o sangue invasor,
dos heróis que forjaram
a nacionalidade
no Morro das Tabocas
nos Montes Guararapes.

Por questões de linguagem
e por questões de sexo
se diga no Recife
e se diga o Recife.

Onde nasceram frevo
e fado. E capoeira
dança dos quilombolas
no fundo arte marcial.
Onde soam na sombra
os lamentos dolentes
dos seus maracatus,
que a poesia e a ternura
para quem saiba e veja
nunca serão fraqueza
antes signo de força.

Assim que se confirme
a sempre afirmativa:
que é possível ser terno
- consoante já foi dito -
sem que seja preciso
renunciar à dureza.

0 Recife, se diga.
Sempre o nosso Recife.
710

Onde se põe na lua as mágoas íntimas


Quando as asas do espanto, desfolhadas
sobre os muros do sono e do silêncio
foscas de tanto musgo que as invade
imergirem das pétalas do tempo,
noite, profunda e vasta como o sono,
como a névoa do chão, vasta e profunda,
se alongue sobre a prata dessas ondas
que guardam nossa fronte e nosso mundo.
E os sentimentos mudos, no silêncio,
tornando para o frêmito das salas,
sejam novos por fim, quando os idênticos
forem mortos da tanta antiguidade.
Noite de vozes roucas, precipícios
disfarçados no chão que não se espera,
onde deverá haver leve carícia
e mãos de carne em vez de mãos de pedra.

A luz resvala e é pouca, das esquinas
vem um vento sem cores e sem ritmos,
o junco nos espera e nós não vamos
quando nada nos prende à nossa cama.
Das nossas mãos, inermes da procura,
o sentido do tempo se desprende,
das viagens não viajadas por descuido
vêm tímidos fantasmas nesse vento,
e em tudo noite, e vasta e sem limite,
sem piscina e sem Lua e sem cantiga,
que o sentido do tempo se desprende
quando faltam sussurro e confidência.

Quando fosse vedado dizer Lua
nós diríamos Lua, com veemência,
que em mundo de aparência a face pura
(nos lagos em que dorme o nosso sangue)
Lua será na treva, sobre as águas,
o refúgio do parco pensamento,
cansado da suposta eternidade
que não resiste ao sopro inconsistente.
773

Coroa de sonetos - Com o estranho pulsar da estrela morta

I
Com o estranho pulsar da estrela morta
a Vida sobrevive, a vida escura,
quase nunca no odor da coisa pura,
quase sempre em feição de coisa torta.

O simples ter na vida não conforta
quando o importante é ser, À iluminura
nunca fala do esforço e da aventura
(ou ventura?) daquele que se importa

com sua essência viva, porque quando
a criou, concebeu, e a fez do nada,
e a resgatou do limbo, o fez vibrando.

Por infinitas noites, longos dias,
viveu o criador que a fez criada
numa parafernália de agonias.

II
Numa parafernália de agonias
cada hora morremos nova morte,
e já não há a mão que nos conforte
nas infinitas noites, longos dias.

Aqui, e nas antigas sesmarias
dos reinados antigos, cuja sorte
as cinzas não cobriram, e onde a coorte
chamada Legião, estrepolias

semeou, como sempre, a vida vive
o constante rosário dos azares
que sempre tu tiveste e eu sempre tive.

Tudo são sofrimentos, neste lado.
Penélope indecisa, em seus teares,
a Vida desenvolve o seu bordado.

III
A Vida desenvolve o seu bordado
no universo das cores, dos matizes,
narcejas, e faisões, e codornizes
estáticas na trama do brocado

enfeitam chãos, paredes, cortinado
com força dos mais fortes chamarizes,
perdição de calhandras e perdizes,
que a velhos susto e a novos dão cuidado.

É os mistérios da vida? Quem desvenda
os mistérios da vida? Quem tem tino
que separe a verdade da legenda?

Eu, pobre semideus, desarvorado,
aflito silencio. E o Destino
esse grande animal sempre a meu lado.

IV
Esse grande animal sempre a meu lado
já não é o Destino, mas a Mente.
Um reflexo no espelho à minha frente
o seu olhar é o meu, o olhar magoado

na rede de torturas torturado,
consequência de um mundo inconseqüente,
tocado da demência mais demente
e para todo o sempre condenado.

Sonoros atambores é atabaques
sonoros, percutidos lua a pino
ao pé dos fogos vivos dos bivaques,

são para nós os pães dos nossos dias
pois é a Mente o mais trágico destino,
egresso de noturnas bruxarias.

V
Egresso de noturnas bruxarias
trago os lábios dormentes da jurema
e da liamba, mas trago as mãos vazias,
e retomo, por isso, o antigo tema

dos fumos da adivinha, do dilema
de não poder chegar, por quaisquer vias,
ao sentido da vida, esse problema
das vigílias noturnas, e dos dias

de vigília também, daquela vaga
sensação de um lugar só de carícias
e de um tranqüilo amor, inconquistado

ou perdido, uma luz que o tempo apaga.
A perda dessa paz, dessas primícias,
conserva-me entre atônito e calado.

VI
Conserva-me entre atônito e calado
o não saber quem sou, o que é que tenho,
por quê carrego sempre o enorme lenho
para o topo do monte designado.

Sendo nada e ninguém na esfera, venho
sem ter para onde ir, em triste estado
de astenia, o cadáver adiado
que procura implodir, mas que contenho.

Quem sou? Que sou? Por quê? Quem me responde
aqui e agora? Quem? Ninguém riposta,
ninguém conhece tais filosofias.

O cálix não se afasta e não se esconde
sempre ofertado, a mesa sempre posta,
por noites infinitas, longos dias.

VII
Por noites infinitas, longos dias,
perguntei-me o que sou, o que conheço
pois não conheço nada. Nem começo
e nem fim, que não sei filosofias.

Olho os buracos negros e estremeço,
quasares e pulsares, correrias
do Cometa, no azul das noites frias,
vindo da nuvem de Oort, o adereço

que restou da explosão, (mas não se prova),
da órbita alongada a eterna presa,
coisa antiga que é sempre coisa nova.

Tudo que é cislunar são teorias
e a minha Religião é a da incerteza
sem consolo de antigas fantasias.

VIII
Sem consolo de antigas fantasias
hoje sei que não sei e eis que sou sábio.
Roteiros de sextante e de astrolábio
não são os meus caminhos, minhas vias.

E essa verdade é quase certa. Sabe-o
quem raciocina e lê, quem faz poesias,
quem frequenta mosteiros, livrarias,
quem guarda o gosto antigo do alfarrábio.

A certeza é a incerteza, com certeza.
No reinado dos quanta, na beleza
de saber-se a constância da inconstância.

O tapete invisível e ondulado,
eu nutrindo-me apenas da ignorância
e para todo o sempre condenado.

IX
E para todo o sempre condenado
é preciso ficar. Nada sabemos
desse olho que nos olha dos extremos
do universo. Um olhar que é do passado

de muitos anos-luz, e que é chegado
agora, e vem de longe, dos supremos
confins, para que um dia o decifremos
para tê-lo, por fim, por decifrado.

Aqui, do grão de areia, na tormenta,
a que o vento solar nutre e alimenta,
é que o bicho da terra mais se achata.

Falo de mim, que vivo ao desabrigo,
quero viver em paz e não consigo,
não consigo matar o que me mata.

X
Não consigo matar o que me mata.
A dúvida de tudo, a dolorosa,
que não sabe porque é que a rosa é a rosa,
que não sabe porque é que a angústia é inata.

Olhar o firmamento, há longa data,
ver M-trinta e um, maravilhosa,
depois para nós mesmos, na inditosa
visão da poeira humilde da alparcata.

Nosso sistema é pobre, e está num canto
do Universo, vivendo a curvatura
com que se encurva a linha curviforme.

Ao lodo a ciência. O céu é um simples manto,
e nada já nos sobra nesta altura
so restando morrer na noite enorme.

XI
So restando morrer na noite enorme
eis que então me questiono, novamente,
da Razão inicial e da presente,
do porquê da existência multiforme,

e desafio a Esfinge à nossa frente,
que nos devora sempre, que não dorme,
esse oráculo antigo e desconforme
na sua danação. Constantemente

a vida se renova em novas provas,
anãs brancas, e novas, supernovas,
número infindo de ergs libertando.

Se a dúvida é constante, sempre ingrata,
na solidão da noite sigo andando
banhado de um luar de pura prata.

XII
Banhado de um luar de pura prata
(o leite de Amaltéia?) enquanto vivo
é preciso seguir o imperativo
a imposição que vem de longa data,

desde quando, da carnação cativo,
o Mundo esmaga os ossos da omoplata,
o macro e o microcosmo, a serenata
do nada contorcido e negativo.

Que é que eu tenho de meu? A chuva, o vento,
a larga estrada real onde transito,
um raro ser feliz por um momento,

um pobre sonho vago, de uniforme
presença, que é cansaço e que é conflito,
porque já quase morto e já disforme.

XIII
Porque já quase morto e já disforme
morrer aos pés do Deus não desejado
que tudo nos negou, nos fez cansado
e cego e surdo e só, na noite enorme.

Pedir contas ao Deus, quando chamado
ao juízo final. Não se conforme
quem foi o Prisioneiro, em pluriforme
universo, o mais curvo e o mais fechado.

Pedir contas ao Deus, quem foi na vida
convicto de universo sem saída,
e que teve, por isso, a vida morta.

Desafio que é apenas asteísmo
porque mesmo que role o cataclismo
bate o meu coração, fechada porta.

XIV
Bate o meu coração, fechada porta,
a espera seja Nêmesis tornada,
nossa Estrela Assassina, a inculpada,
que tudo purifica e a vida corta.

Que tudo morra então. O que é que importa
quando a Vida não morre? Eternizada,
nascida novamente, e renovada
que numa nova vida se transporta?

Por não restar diversa alternativa,
ser feliz, assumindo a ignorância
e as Sementes da Morte, sempre viva.

Conformação que, é certo, já conforta
o coração que pulsa na inconstância
com o estranho pulsar da estrela morta.

XV COROA
Numa parafernália de agonias
a Vida desenvolve o seu bordado.
Esse grande animal, sempre a meu lado,
egresso de noturnas bruxarias,

conserva-me entre atônito e calado
por noites infinitas, longos dias,
sem consolo de antigas fantasias
e para todo o sempre condenado.

Não consigo matar o que me mata,
só restando morrer, na noite enorme,
banhado de um luar de pura prata.

Porque já quase morto e já disforme
bate o meu coração, fechada porta,
com o estranho pulsar da estrela morta.
1 054

Soneto das inseguranças

O que é mau e o que é bom, no dia a dia,
fica sempre difícil de entendermos.
Seja tudo julgado nos seus termos
sem qualquer preconceito ou fantasia.

Toda verdade é de sujeito, via
essa coisa tão simples de sabermos,
um mago, que escreveu para nós lermos,
que nada há de objetivo na valia.

Quando, à tarde, de súbito, aparece
um sátiro num bosque de ninfetas,
o que é bom e o que é mau não se conhece.

Cochonilhas são rubras nas provetas,
e quem mata lagartas não merece
o futuro esplendor das borboletas.
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Mas um orgulho para sua bisneta??

arletemarques

Parabéns pela iniciativa. Lindos trabalhos. Grade sensibilidade e de profunda inteligência

camillo

Querido primo. Um dos homens mais inteligentes que conheci na vida até hoje. Meu primeiro Mestre, aprendi muito com ele. Gratidão !