Coroa dos sete pecados ou virtudes capitais
I - ORGULHO
Desse prazer que é apenas natureza
pode advir o orgulho da conquista.
Se orgulho é impulsão, essa imprevista
força que leva à frente. Que se preza
de ser o que constrói, deixada a reza
de lado, que apesar de ser benquista
por uns, é para outros a imprevista
petição recebida com frieza.
Quase sempre constrói um vago orgulho
que vem do fundo da alma, num marulho
de mar cansado, esfeito em verdes ondas.
Nascido, muita vez, de uma ansiedade,
(o novelo de antigas anacondas)
o orgulho de ser bom já é bondade.
II- INVEJA
O orgulho de ser bom já é bondade
que muita vez atrai despeito e inveja.
Mas inveja é virtude e há quem veja
que é impulso normal da humanidade.
Também constrói a inveja, desagrade
aos que só vêem pecado, os de alma aneja
que não possuam senso que preveja
que pode vir de ignota enfermidade.
Mas inveja até pode ser proveito
aquele a quem acaso endereçada
que sentiu que seu passo foi perfeito,
que a inveja que causou não foi nociva.
O invejoso invejou mas não foi nada.
Só é pecado a inveja corrosiva.
III - IRA
Só é pecado a inveja corrosiwa
que esta provoca a ira e o desconforto,
faz naufragar o barco já no porto,
faz nascer a vontade negativa.
No dia a dia deste mundo torto
onde vale talvez a tentativa
mais do que o resultado da saliva
das pregações, nos montes ou no horto,
não vale ver na ira o absoluto
mal, inda mesmo quando fere e assusta
no afã diário, o ritmo dissoluto.
Não é bom que esqueçamos a baraça
de Quem se viu tomado de ira justa
quando expulsou os vendilhões da Praça.
IV- PREGUIÇA
Quando expulsou os vendilhões da Praça
do Templo, Ele calmou-se, descansando,
pois fizera correr o triste bando
e a sua cupidez, sua desgraça.
Descansou, sem preguiça, se a arruaça
acabara, e era a paz. Novo comando
imperava. Mas se sentisse um brando
enfaro de preguiça, essa mordaça
interior, não seria nada estranho.
O “doce não fazer"pode ser justo
“ócio com dignidade”, justo ganho,
depois de afã contínuo, grande luta
em que se quis vencer a todo o custo,
preguiça na vitória após disputa.
V - AVAREZA
Preguiça na vitória após disputa
não é então pecado mas virtude.
A prodigalidade nunca ilude,
essa que é tão ruim quanto a cicuta.
Poupar é sempre bom, uma atitude
que o profeta do templo e o da gruta,
o primeiro aconselha, em resoluta
lição, e o outro exerce em mansuetude.
Quem trabalha, e o seu ganho muito custa
sabe emprestar valor a quanto ganha,
e o medo de perdê-lo sempre o assusta.
Se ao avaro uma perda mortifica
e ao pródigo o espalhar é sempre sanha,
o guardar ou gastar não significa.
VI - GULA
O guardar ou gastar não significa
nem a vida gulosa é condenada
sem um motivo forte. A terra arada
dá presentes ao homem, que o enrica.
As primícias da terra (a Terra amada,
um presente do Céu, que mortifica
o frugal que depende da botica
para ter a saúde desejada),
não podem ser pecado. O vinho doce
que nos desperta a fome dos sentidos
que o Criador nos deu, como se fosse
o seu sinal de amor à sua igreja
que ensina os apetites permitidos.
Amar não é luxúria, assim se veja.
VII - LUXÚRIA
Amar não é luxúria, assim se veja,
na grande intensidade que lhe marca
em toda a vida, até que venha a Barca
de Caronte, e nos leve, benfazeja.
Amar com força viva, na peleja
do edredom, do lençol que o duplo abarca,
é seguir todo o ensino do Nomarca
que mandou construir a sua igreja
e fazê-la crescer, multiplicá-la
a base de atrações e convivências
que podem ser um luxo, com certeza.
(Que não são acidentes mas essências
do natural preparo na ante-sala
desse prazer que é apenas natureza.
Sextina da rosa do amor e da morte
De que uma rosa é uma rosa
é uma rosa, até quando
lhe seja dado viver,
disse poeta. É a vida
que ao cabelo prende o pente
até que Destino a mata.
Quem sabe a tocaia, a mata,
a bala ferindo a rosa,
com outras balas no pente?
Da assassina à espreita quando
tudo eram flores na vida
e um puro sabor viver.
Mas vale a pena viver?
Não é a vida o que mata?
A morte é o fruto da vida
que floresce como rosa
e em versos se torna quando
sabe à lã cardada ao pente.
No campo marinho o pente,
concha bivalve, a viver
no meio das algas, quando
pescador o apresa e mata,
para alimento, que é rosa
que sustenta e enfeita a vida.
O artesão que ganha a vida
tece em seu tear, no pente,
a teia. Motivo: rosa.
Que se destina a viver
matando o tédio que mata,
não se sabe aonde, quando.
Rosas serão pedras, quando
em carga tornar-se a vida.
O desespero que mata
retira ao cabelo o pente,
que é desalento o viver
num país que não tem rosa.
No entanto viver é a Vida
na escura rosa do pente
ainda quando ou fere ou mata.
1995.
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Louvado a Tarcísio
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo Tarcísio, e a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
Tarcísio, pastor de livros,
que os apascenta no amor.
Que o Livro, todos o sabem,
guarda os risos do Prazer,
guarda os suspiros da Dor.
O livro é carta de rumos,
rosa dos ventos, o mapa
de acertos e desaprumos,
dos roteiros misteriosos
dos ontens, dos amanhãs.
Das rotas das caravelas,
das órbitas parabólicas
de prateadas astronaves,
dos bergantins naufragados,
dos galeões com seus tesouros,
todos fortuna do mar,
dos olhos dos batiscafos
nas profundezas do abismo.
O livro é um mundo guardado
na menor das dimensões,
ora em verdade e crueza
ora em sonhos e ilusões,
o livro é um mundo de coisas
difíceis de descrever,
quem tiver curiosidade
compareça à Livro Sete
para ouvir, sentir e ver.
Outros mundos, muitos mundos,
todos o Livro contém,
Livro, resumo da Vida,
com todo o Mal, todo o Bem,
que guarda em si todo o Tudo,
que guarda em si todo o Sem.
Tarcísio, Pastor de Livros,
merece o nosso louvor.
Por isso louvo Tarcísio
e a luz do espírito louvo,
como também louvo a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
Rota de colisão
É fortuna do mar o que nós somos
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
Soneto quase erótico
Queimaremos os barcos, bem defronte
dos países do amor desesperado,
para que nada seja relembrado
além da linha azul desse horizonte.
Ultrapassados campos, lagos, monte,
seja o reino do sempre inesperado,
que Amor vive do novo renovado
que sempre se renova, eterna fonte.
Sobre lençóis de chamas, cada dia
Jogaremos os jogos, e o secreto
jogo do fogo e mágica alegria.
Destroçados os cintos do passado
dar-vos-emos, Senhora, o amor completo:
o prazer do prazer então negado.
Cidade Submersa
CIDADE SUBMERSA
Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.
Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?
Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam do seu passeio.
Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.
Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.
Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.
Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.
Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.
Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.
Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.
Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.
Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede
Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade
há tanto tempo famosa.
Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos
nos fios da rede elétrica.
Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.
E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.
Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.
Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.
Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.
Respiro profundamente
o ar frio da manhã fria,
e como um peixe me afogo
no ar que agora me sufoca,
e morro dessa asfixia
na mansa luz da manhã.
Recife, janeiro de 1958.
Cidade Submersa
Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.
Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?
Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam o seu passeio.
Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.
Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.
Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.
Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.
Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.
Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.
Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.
Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.
Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede
Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade
há tanto tempo famosa.
Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos
nos fios da rede elétrica.
Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.
E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.
Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.
Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.
Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.
Respiro profundamente
o ar frio da manhã fria,
e como um peixe me afogo
no ar que agora me sufoca,
e morro dessa asfixia
na mansa luz da manhã.
Recife, janeiro de 1958.
Recado ao eleitor
A mão que lavra esta terra
de carinho e de perdão,
a mão que levanta as casas
do barro duro do chão,
a mão que pega do lápis
e que faz planos em vão,
a mão ferida da agulha,
a mão da repartição,
a mão suja do operário
(do operário em construção)
a mão que aprende na escola
a fugir da escravidão,
a mão que tece nos fusos
os fios que vêm e vão,
a mão que trabalha e sofre,
que é irmã de nossa mão,
a mão que se eleva à boca
que cospe aos pés do vilão,
a mão como a mão de Cristo
na sua crucifixão,
a mão que não vende o voto
(se o voto é revolução)
irá votar na certeza
contra as coisas como estão,
dizendo ao Povo que “sim”,
dizendo ao Dinheiro: “não”!
Para a alvorada dos dias
plenos de paz que virão.
Sextina de Aniversário
Bom dia, Manoel Bandeira!
Avozinho de cem anos
hoje é festa da Poesia.
Todos te damos bom dia
que é de todos esta festa
de natal, para o avozinho.
O pai, o mestre, o avozinho,
a imperecível bandeira
de toda esta grande festa.
É o jubileu de cem anos
que acontece neste dia.
Seja louvada a Poesia!
A tua grande poesia
desde a casa do avozinho
no Recife, o claro dia
da verde infância, bandeira
para o restante dos anos.
(Quase nunca anos de festa).
Mas tristeza é também festa
se transmutada em poesia.
(A poesia faz cem anos!).
Do pardal novo o avozinho
tu foste, Manoel Bandeira,
cada noite, cada dia.
Sapos da noite, do dia,
pelos peraus fazem festa.
Pássaros verdes-bandeira
e azulões, trazem poesia,
trinados para o avozinho
que hoje é o dia dos seus anos.
Viverias poucos anos
disseram-te, certo dia.
Pois bem, viraste o Avozinho.
(E a vida tornou-se festa
para os que são da poesia).
Viraste imortal, Bandeira!
Soneto a Jacó
Sete anos de pastor Jacó servia
Raquel, e não seu pai, como se conta,
mas um dia, no fim, lhe desaponta
a evidência do amor, porque de Lia.
Outros sete anos serve, e não tem conta
a conta que ele conta, cada dia,
porque, se era Raquel que pretendia,
não reclama Jacó, do tempo, a monta.
Não diz, no entanto, a história sem sabença,
quanto lhe deu Raquel de indiferença,
que o fez renunciar a todo o encanto.
Que amor é negação do entendimento
pois se nutre de fome, tanto quanto
se nutre de presença e de alimento.