Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Edmir Domingues
soneto XI - Cantem sinos
Cantem sinos, que parto finalmente
enquanto desce a noite sobre o porto,
e a bruma que nos cega o olhar cansado
sugere a flor cinzenta e a morte vaga.
Cantem sinos que parto, cantem sinos
afim de que eu não ouça o pranto doido
daquela que me acena o lenço branco
e enfeita de papoulas o cabelo.
Eis que busco este mar de tantas vozes,
de ventos, enfunando as velas claras,
de luares cor de sangue e vinho velho.
Onde os meigos fantasmas são mais leves,
onde o tumulto esvai-se em suavidade,
e a lembrança da infância se repete.
enquanto desce a noite sobre o porto,
e a bruma que nos cega o olhar cansado
sugere a flor cinzenta e a morte vaga.
Cantem sinos que parto, cantem sinos
afim de que eu não ouça o pranto doido
daquela que me acena o lenço branco
e enfeita de papoulas o cabelo.
Eis que busco este mar de tantas vozes,
de ventos, enfunando as velas claras,
de luares cor de sangue e vinho velho.
Onde os meigos fantasmas são mais leves,
onde o tumulto esvai-se em suavidade,
e a lembrança da infância se repete.
708
Edmir Domingues
soneto XVII - De mãos dadas
E por sermos canções jamais cantadas
apesar de amarguras recalcadas,
os mendigos vieram, de mãos dadas,
juntar-se a nós em nossas mascaradas.
E até ser madrugada vinho quente,
rosas vindas do chão de antigamente,
equação de silêncio impenitente
tombada no punhal da voz demente.
Que limpa-chaminés, mendigos, loucos,
conosco dão-se bem nos risos poucos
e nas canções bastante e na tristeza.
Que resta sempre o mundo quase infância,
todo sombra ante o vento da inconstância,
não resistido ao pranto e à natureza.
apesar de amarguras recalcadas,
os mendigos vieram, de mãos dadas,
juntar-se a nós em nossas mascaradas.
E até ser madrugada vinho quente,
rosas vindas do chão de antigamente,
equação de silêncio impenitente
tombada no punhal da voz demente.
Que limpa-chaminés, mendigos, loucos,
conosco dão-se bem nos risos poucos
e nas canções bastante e na tristeza.
Que resta sempre o mundo quase infância,
todo sombra ante o vento da inconstância,
não resistido ao pranto e à natureza.
617
Edmir Domingues
O espelho
Enfrento a face plana
assim como o faz quem
convoca os seus demônios
na calada da noite.
Mas não me reconheço
no duplo que me enfrenta.
Nos seus olhos amargos
nem na boca de febre
no amarelo da fronte
na mudez do semblante.
A fria superfície
de resto mineral,
não retrata o secreto
inconfessado anseio.
Que hiberna no silêncio
como a semente dorme
do trigo, sob a neve,
como o esporo invisível
no mar, da diatomácea,
os quais, cumprido o ciclo,
no vir da primavera,
rebentarão de vida
na força natural.
O espelho não conhece
o toque apenas cálido
do sol que a nuvem cobre.
E distorce o retrato,
se não supõe do estímulo
que avivará no breve
todo o anseio escondido.
Perdoo a estranha face
que inverte as realidades.
Porque sendo como é
só pode refletir
a amargura da febre,
que a face da esperança
escondida no íntimo
não pode ser sentida
no clima da inversão.
assim como o faz quem
convoca os seus demônios
na calada da noite.
Mas não me reconheço
no duplo que me enfrenta.
Nos seus olhos amargos
nem na boca de febre
no amarelo da fronte
na mudez do semblante.
A fria superfície
de resto mineral,
não retrata o secreto
inconfessado anseio.
Que hiberna no silêncio
como a semente dorme
do trigo, sob a neve,
como o esporo invisível
no mar, da diatomácea,
os quais, cumprido o ciclo,
no vir da primavera,
rebentarão de vida
na força natural.
O espelho não conhece
o toque apenas cálido
do sol que a nuvem cobre.
E distorce o retrato,
se não supõe do estímulo
que avivará no breve
todo o anseio escondido.
Perdoo a estranha face
que inverte as realidades.
Porque sendo como é
só pode refletir
a amargura da febre,
que a face da esperança
escondida no íntimo
não pode ser sentida
no clima da inversão.
673
Edmir Domingues
Cantiga del rey
Que em palavras del rey, senhora mia,
per vontade e a sahendas vos confesso,
e a bem do vosso bem suplico e peço
que o nam considereis de aleivosia.
Antes de puro amor, que em noute fria
e em vãos prometimentos fez-se apresso,
de apartado de vós, sem culpa, meço,
feito per fogo em pó mais nam seria.
Que nam cabem açoutes em quem ama
per baraço e pregão que empece e infama
dá-se mostrança publica nest’hora.
Posto que sendo assi vosso cahello
que o tenha, mesmo que morra por ello,
per o meu proprio moto e mal, senhora
per vontade e a sahendas vos confesso,
e a bem do vosso bem suplico e peço
que o nam considereis de aleivosia.
Antes de puro amor, que em noute fria
e em vãos prometimentos fez-se apresso,
de apartado de vós, sem culpa, meço,
feito per fogo em pó mais nam seria.
Que nam cabem açoutes em quem ama
per baraço e pregão que empece e infama
dá-se mostrança publica nest’hora.
Posto que sendo assi vosso cahello
que o tenha, mesmo que morra por ello,
per o meu proprio moto e mal, senhora
740
Edmir Domingues
Galope à beira mar
Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.
Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.
Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.
Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.
Recife. 1954.
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.
Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.
Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.
Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.
Recife. 1954.
824
Edmir Domingues
soneto VII - Derradeiros líricos
Sopremos nossas lâmpadas que é noite.
E bebamos o vinho escuro e podre
já que o doce beberam chuva e lágrima
e nos deram somente o rejeitado.
Sopremos nossas luzes, que no escuro
não nos verão meninos e mulheres
e esconderemos deles que nos faltam
o pão e o sal enquanto sobra a fome.
As torres de Sião estão contadas
e um dia se dirá dos seus valores
e das harpas deixadas nos salgueiros.
E saberão que fomos, eu e os loucos,
os derradeiros líricos cantando
as canções do Senhor em terra estranha.
E bebamos o vinho escuro e podre
já que o doce beberam chuva e lágrima
e nos deram somente o rejeitado.
Sopremos nossas luzes, que no escuro
não nos verão meninos e mulheres
e esconderemos deles que nos faltam
o pão e o sal enquanto sobra a fome.
As torres de Sião estão contadas
e um dia se dirá dos seus valores
e das harpas deixadas nos salgueiros.
E saberão que fomos, eu e os loucos,
os derradeiros líricos cantando
as canções do Senhor em terra estranha.
597
Edmir Domingues
soneto VII - Derradeiros líricos
Sopremos nossas lâmpadas que é noite.
E bebamos o vinho escuro e podre
já que o doce beberam chuva e lágrima
e nos deram somente o rejeitado.
Sopremos nossas luzes, que no escuro
não nos verão meninos e mulheres
e esconderemos deles que nos faltam
o pão e o sal enquanto sobra a fome.
As torres de Sião estão contadas
e um dia se dirá dos seus valores
e das harpas deixadas nos salgueiros.
E saberão que fomos, eu e os loucos,
os derradeiros líricos cantando
as canções do Senhor em terra estranha.
E bebamos o vinho escuro e podre
já que o doce beberam chuva e lágrima
e nos deram somente o rejeitado.
Sopremos nossas luzes, que no escuro
não nos verão meninos e mulheres
e esconderemos deles que nos faltam
o pão e o sal enquanto sobra a fome.
As torres de Sião estão contadas
e um dia se dirá dos seus valores
e das harpas deixadas nos salgueiros.
E saberão que fomos, eu e os loucos,
os derradeiros líricos cantando
as canções do Senhor em terra estranha.
597
Edmir Domingues
Atmosfera de aventura
E tínhamos os olhos dissolvidos
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
712
Edmir Domingues
Atmosfera de aventura
E tínhamos os olhos dissolvidos
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
712
Edmir Domingues
Pela paz de maio e junho
Posto que estava maio, e resolvido
que nos idos, em grupo, tornaríamos
às fáculas antigas, quando estavam
quanto mais velhas tanto mais acesas,
assim fomos e vimos. Era o tempo
doutra luz, essa que se tem mais forte,
presa na carne e no osso e resguardada
pelas fronteiras rígidas da sombra.
Nas citadas planícies nos perdemos
e era mais que do tato um só caminho
para este externo mundo que nos guarda.
Por elas compreendemos do sentido.
E soubemos que apenas tênues rosas
têm fundações mais fortes do que pedra,
que mais que pedras vale, compreendemos,
a força enclausurada nas raízes
Então fomos ficados neste campo
de teto e espaço e fumo que nos cobre,
porquanto que o soubemos mais seguro
e que os mundos alheios valem menos
visto que em muito grandes são fundados
em brancos alicerces de fumaça.
Considerado o mar, nós nos despimos
do marítimo traje com que estavam
corpos ao sol e à chuva resguardados.
Se era o mar fabricado em movimento
que lhe dá toda a essência e qualidade,
para restarmos todos sobre o verde
e o vermelho do chão que nos ampara.
Que a nossa inconsistência será sempre
o mais caro de nós, ficamos crendo.
Repousa um tédio imenso na certeza.
E então faz-se de bem que a não tenhamos
senão essa de pouca com que temos
que o vermelho do piso, mais o verde,
nos serão toda a paz ambicionada
Que as fáculas não faltem, de resina,
e os limites da sombra estejam longe,
para que seja a paz feita possível
longe das rosas flácidas de estanho,
que essas não têm raízes, e repousa
nas raízes a força do que vive,
ou se têm, ai, são brancas, ai, são tênues,
visto serem construídas de fumaça.
- Seremos vegetais em verde e rubro
nas calendas de junho que vem vindo.
que nos idos, em grupo, tornaríamos
às fáculas antigas, quando estavam
quanto mais velhas tanto mais acesas,
assim fomos e vimos. Era o tempo
doutra luz, essa que se tem mais forte,
presa na carne e no osso e resguardada
pelas fronteiras rígidas da sombra.
Nas citadas planícies nos perdemos
e era mais que do tato um só caminho
para este externo mundo que nos guarda.
Por elas compreendemos do sentido.
E soubemos que apenas tênues rosas
têm fundações mais fortes do que pedra,
que mais que pedras vale, compreendemos,
a força enclausurada nas raízes
Então fomos ficados neste campo
de teto e espaço e fumo que nos cobre,
porquanto que o soubemos mais seguro
e que os mundos alheios valem menos
visto que em muito grandes são fundados
em brancos alicerces de fumaça.
Considerado o mar, nós nos despimos
do marítimo traje com que estavam
corpos ao sol e à chuva resguardados.
Se era o mar fabricado em movimento
que lhe dá toda a essência e qualidade,
para restarmos todos sobre o verde
e o vermelho do chão que nos ampara.
Que a nossa inconsistência será sempre
o mais caro de nós, ficamos crendo.
Repousa um tédio imenso na certeza.
E então faz-se de bem que a não tenhamos
senão essa de pouca com que temos
que o vermelho do piso, mais o verde,
nos serão toda a paz ambicionada
Que as fáculas não faltem, de resina,
e os limites da sombra estejam longe,
para que seja a paz feita possível
longe das rosas flácidas de estanho,
que essas não têm raízes, e repousa
nas raízes a força do que vive,
ou se têm, ai, são brancas, ai, são tênues,
visto serem construídas de fumaça.
- Seremos vegetais em verde e rubro
nas calendas de junho que vem vindo.
597
Edmir Domingues
Vento e conformação
O denso minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
802
Edmir Domingues
Soneto à mulher do próximo
Fendida seja um dia, pólo a pólo,
no remo que há fendido as águas densas
de outros corpos de formas quase imensas,
cavalgue a flor de sangue a flor do solo.
Outro não seja então que um novo Apolo
no amor de outra intenção que não de ofensas.
Sejam sinal das transitórias crenças
andorinhas de fogo no teu colo.
Haja um leito de espuma e de sargaços
nos caminhos do mar, e quanto aos passos
a chuva apaga-os sempre, quando chove.
Sob os ventos do céu de lua cheia
desfaçam-se os desejos sobre a areia,
sobre as letras limite, sobre o nove.
no remo que há fendido as águas densas
de outros corpos de formas quase imensas,
cavalgue a flor de sangue a flor do solo.
Outro não seja então que um novo Apolo
no amor de outra intenção que não de ofensas.
Sejam sinal das transitórias crenças
andorinhas de fogo no teu colo.
Haja um leito de espuma e de sargaços
nos caminhos do mar, e quanto aos passos
a chuva apaga-os sempre, quando chove.
Sob os ventos do céu de lua cheia
desfaçam-se os desejos sobre a areia,
sobre as letras limite, sobre o nove.
765
Edmir Domingues
Canções em terra estranha
Junto dos rios nossos pés fendidos,
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
761
Edmir Domingues
Canções em terra estranha
Junto dos rios nossos pés fendidos,
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
761
Edmir Domingues
Canções em terra estranha
Junto dos rios nossos pés fendidos,
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
761
Edmir Domingues
O tigre
Incêndio ardendo na floresta
mesmo na de altos edifícios,
o pelo de aço, os olhos fogo,
passo de pluma, no silêncio.
Eis que te vê, no jogo sempre,
o meu olhar pleno de angústia,
sinto o teu passo após o meu
na dança má de raro ritmo.
0 canto, o abismo, o afã diário,
tua constância não desviam,
tigre no escuro, os olhos vistos
dentro da sombra, da mais negra.
Mesmo eu que vim de manhã clara
e do frescor de águas paradas,
do pôr do sol, da cor da terra,
amargo a angústia de saber-te
hora após hora ao pé de mim.
Tigre deitado na alcatifa
do piso neutro do escritório,
anjo (demônio) que me segue
nos apinhados coletivos,
que vai comigo no meu carro
na dura andança cotidiana.
Ó, tigre-tigre, fera-fera
de tão terrível simetria,
ferindo a carne (a interna carne),
ferindo o cérebro cansado
e o já ferido coração,
a tua garra, fio, lâmina,
como aproxima, cada dia,
o enfarte certo, a névoa eterna,
junto a este mar, sob este céu.
mesmo na de altos edifícios,
o pelo de aço, os olhos fogo,
passo de pluma, no silêncio.
Eis que te vê, no jogo sempre,
o meu olhar pleno de angústia,
sinto o teu passo após o meu
na dança má de raro ritmo.
0 canto, o abismo, o afã diário,
tua constância não desviam,
tigre no escuro, os olhos vistos
dentro da sombra, da mais negra.
Mesmo eu que vim de manhã clara
e do frescor de águas paradas,
do pôr do sol, da cor da terra,
amargo a angústia de saber-te
hora após hora ao pé de mim.
Tigre deitado na alcatifa
do piso neutro do escritório,
anjo (demônio) que me segue
nos apinhados coletivos,
que vai comigo no meu carro
na dura andança cotidiana.
Ó, tigre-tigre, fera-fera
de tão terrível simetria,
ferindo a carne (a interna carne),
ferindo o cérebro cansado
e o já ferido coração,
a tua garra, fio, lâmina,
como aproxima, cada dia,
o enfarte certo, a névoa eterna,
junto a este mar, sob este céu.
817
Edmir Domingues
O tigre
Incêndio ardendo na floresta
mesmo na de altos edifícios,
o pelo de aço, os olhos fogo,
passo de pluma, no silêncio.
Eis que te vê, no jogo sempre,
o meu olhar pleno de angústia,
sinto o teu passo após o meu
na dança má de raro ritmo.
0 canto, o abismo, o afã diário,
tua constância não desviam,
tigre no escuro, os olhos vistos
dentro da sombra, da mais negra.
Mesmo eu que vim de manhã clara
e do frescor de águas paradas,
do pôr do sol, da cor da terra,
amargo a angústia de saber-te
hora após hora ao pé de mim.
Tigre deitado na alcatifa
do piso neutro do escritório,
anjo (demônio) que me segue
nos apinhados coletivos,
que vai comigo no meu carro
na dura andança cotidiana.
Ó, tigre-tigre, fera-fera
de tão terrível simetria,
ferindo a carne (a interna carne),
ferindo o cérebro cansado
e o já ferido coração,
a tua garra, fio, lâmina,
como aproxima, cada dia,
o enfarte certo, a névoa eterna,
junto a este mar, sob este céu.
mesmo na de altos edifícios,
o pelo de aço, os olhos fogo,
passo de pluma, no silêncio.
Eis que te vê, no jogo sempre,
o meu olhar pleno de angústia,
sinto o teu passo após o meu
na dança má de raro ritmo.
0 canto, o abismo, o afã diário,
tua constância não desviam,
tigre no escuro, os olhos vistos
dentro da sombra, da mais negra.
Mesmo eu que vim de manhã clara
e do frescor de águas paradas,
do pôr do sol, da cor da terra,
amargo a angústia de saber-te
hora após hora ao pé de mim.
Tigre deitado na alcatifa
do piso neutro do escritório,
anjo (demônio) que me segue
nos apinhados coletivos,
que vai comigo no meu carro
na dura andança cotidiana.
Ó, tigre-tigre, fera-fera
de tão terrível simetria,
ferindo a carne (a interna carne),
ferindo o cérebro cansado
e o já ferido coração,
a tua garra, fio, lâmina,
como aproxima, cada dia,
o enfarte certo, a névoa eterna,
junto a este mar, sob este céu.
817
Edmir Domingues
soneto IX - E tu não vinhas
Nunca houvesse o luar da tanta espera
e a noite de perfume e fermosura,
quando a rosa está murcha na cintura
e o corj)o nu não sabe à primavera.
Rede tecida em tempo e fibras de hera,
de tanto tempo enorme na espessura,
ficada pura ao dia e à noite pura
que a fuga mais real já se fizera.
Oh! Não digas que o mar já te não queira
talvez, porquanto a escura cabeleira
se prende entre as mais coisas comezinhas.
Mas dissolvam-se em fumo os longos braços,
pois perdeu-se a esperança entre os cansaços
da espera e do saber que tu não vinhas.
e a noite de perfume e fermosura,
quando a rosa está murcha na cintura
e o corj)o nu não sabe à primavera.
Rede tecida em tempo e fibras de hera,
de tanto tempo enorme na espessura,
ficada pura ao dia e à noite pura
que a fuga mais real já se fizera.
Oh! Não digas que o mar já te não queira
talvez, porquanto a escura cabeleira
se prende entre as mais coisas comezinhas.
Mas dissolvam-se em fumo os longos braços,
pois perdeu-se a esperança entre os cansaços
da espera e do saber que tu não vinhas.
682
Edmir Domingues
soneto IX - E tu não vinhas
Nunca houvesse o luar da tanta espera
e a noite de perfume e fermosura,
quando a rosa está murcha na cintura
e o corj)o nu não sabe à primavera.
Rede tecida em tempo e fibras de hera,
de tanto tempo enorme na espessura,
ficada pura ao dia e à noite pura
que a fuga mais real já se fizera.
Oh! Não digas que o mar já te não queira
talvez, porquanto a escura cabeleira
se prende entre as mais coisas comezinhas.
Mas dissolvam-se em fumo os longos braços,
pois perdeu-se a esperança entre os cansaços
da espera e do saber que tu não vinhas.
e a noite de perfume e fermosura,
quando a rosa está murcha na cintura
e o corj)o nu não sabe à primavera.
Rede tecida em tempo e fibras de hera,
de tanto tempo enorme na espessura,
ficada pura ao dia e à noite pura
que a fuga mais real já se fizera.
Oh! Não digas que o mar já te não queira
talvez, porquanto a escura cabeleira
se prende entre as mais coisas comezinhas.
Mas dissolvam-se em fumo os longos braços,
pois perdeu-se a esperança entre os cansaços
da espera e do saber que tu não vinhas.
682
Edmir Domingues
soneto II - Nunca mais
Nunca mais o ente amado em doce veste
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
659
Edmir Domingues
soneto II - Nunca mais
Nunca mais o ente amado em doce veste
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
659
Edmir Domingues
soneto II - Nunca mais
Nunca mais o ente amado em doce veste
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
659
Edmir Domingues
Primeiro soneto da estrela
Quando a estrela vitral de verde e roxo
subir no céu desfeito em riso e cores,
sejam cinza os passados dissabores,
a incerteza futura um sonho coxo.
E se a estrela descer, com seus tentáculos
sobre nossas cabeças semi-obscuras,
haja o canto de todas as ternuras
transcendendo os conceitos e os obstáculos.
Bem haja então a estrela a nós descida,
tornando ouro estes pés de barro e lama,
talvez estrela ainda em nossa cama
entre espasmos de amor, de luz, de vida.
- Que esses olhos que dormem com as estrelas
jamais serão de pó para esquecê-las.
subir no céu desfeito em riso e cores,
sejam cinza os passados dissabores,
a incerteza futura um sonho coxo.
E se a estrela descer, com seus tentáculos
sobre nossas cabeças semi-obscuras,
haja o canto de todas as ternuras
transcendendo os conceitos e os obstáculos.
Bem haja então a estrela a nós descida,
tornando ouro estes pés de barro e lama,
talvez estrela ainda em nossa cama
entre espasmos de amor, de luz, de vida.
- Que esses olhos que dormem com as estrelas
jamais serão de pó para esquecê-las.
737
Edmir Domingues
soneto I - Quando o mundo acabe
E de espaço e de tempo enfim libertos
seremos quase pássaros no vôo
inconscientemente sexo e vida
burlados preconceitos e limite.
Que a verdade foi vinho e foi desmaio
entre a noite de fumo e de agonia,
sempre antecipação porque sabíamos
composta em nosso sangue a madrugada.
Sejamos ébrios quando o mundo acabe,
e bêbedos nos barcos estejamos
de tímidos e leves quase pássaros.
Que os anjos nos verão rindo e cantando
e nós não voltaremos nem que seja
para enterrar os corpos logo podres.
seremos quase pássaros no vôo
inconscientemente sexo e vida
burlados preconceitos e limite.
Que a verdade foi vinho e foi desmaio
entre a noite de fumo e de agonia,
sempre antecipação porque sabíamos
composta em nosso sangue a madrugada.
Sejamos ébrios quando o mundo acabe,
e bêbedos nos barcos estejamos
de tímidos e leves quase pássaros.
Que os anjos nos verão rindo e cantando
e nós não voltaremos nem que seja
para enterrar os corpos logo podres.
666