Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Fernando Pessoa
Porque o olhar de quem não merece
Porque o olhar de quem não merece
O meu amor para outro olhou,
Uma dor fria me enfurece,
Decido odiar quem me insultou.
Vil dor, vil causa e vil remédio!
Quanto melhor não fora achar-se
No antigo sem-amor, com tédio,
Mas sem dor de que envergonhar-se!
O meu amor para outro olhou,
Uma dor fria me enfurece,
Decido odiar quem me insultou.
Vil dor, vil causa e vil remédio!
Quanto melhor não fora achar-se
No antigo sem-amor, com tédio,
Mas sem dor de que envergonhar-se!
1 540
Fernando Pessoa
Maldita seja em toda a parte / A Igreja Católica
Maldita seja em toda a parte
A I[greja] C[atólica]
M[aldita] s[eja], com arte ou sem arte,
A I[greja] C[atólica]
E quando alguém por apanhar ar
Tiver uma cólica
E sinta preciso aluviar
Lembre-se sempre de bem cagar
Para a I[greja] C[atólica].
Maldita seja, de rabo à vela,
A I[greja] C[atólica]
De toda retrete que seja capela
A I[greja] C[atólica]
Há só duas coisas a fazer para aquela
I[greja] C[atólica]
Cagar p'ra ela e mijar p'ra ela
Para a I[greja] C[atólica].
Caguemos pois e tudo junto
Para a I[greja] C[atólica]
Até que o caso dê assunto
À I[greja] C[atólica]
Cagar também, também por cólica
Então ver-se-á e será ouvido
O que tem comido, e o que tem bebido,
O que tem sorvido e engolido
A I[greja] C[atólica].
A I[greja] C[atólica]
M[aldita] s[eja], com arte ou sem arte,
A I[greja] C[atólica]
E quando alguém por apanhar ar
Tiver uma cólica
E sinta preciso aluviar
Lembre-se sempre de bem cagar
Para a I[greja] C[atólica].
Maldita seja, de rabo à vela,
A I[greja] C[atólica]
De toda retrete que seja capela
A I[greja] C[atólica]
Há só duas coisas a fazer para aquela
I[greja] C[atólica]
Cagar p'ra ela e mijar p'ra ela
Para a I[greja] C[atólica].
Caguemos pois e tudo junto
Para a I[greja] C[atólica]
Até que o caso dê assunto
À I[greja] C[atólica]
Cagar também, também por cólica
Então ver-se-á e será ouvido
O que tem comido, e o que tem bebido,
O que tem sorvido e engolido
A I[greja] C[atólica].
1 658
Fernando Pessoa
II - SAUDADE DADA
II
SAUDADE DADA
Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas.
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.
Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!
E em tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.
E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos...
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.
SAUDADE DADA
Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas.
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.
Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!
E em tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.
E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos...
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.
1 981
Fernando Pessoa
II - SAUDADE DADA
II
SAUDADE DADA
Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas.
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.
Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!
E em tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.
E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos...
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.
SAUDADE DADA
Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas.
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.
Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!
E em tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.
E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos...
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.
1 981
Fernando Pessoa
Não creio ainda no que sinto -
Não creio ainda no que sinto -
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração...
Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali (...) fica parada.
Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.
……
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração...
Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali (...) fica parada.
Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.
……
1 385
Fernando Pessoa
Tens uma salva de prata
Tens uma salva de prata
Onde pões os alfinetes...
Mas não tem salva nem prata
Aquilo que tu prometes.
Onde pões os alfinetes...
Mas não tem salva nem prata
Aquilo que tu prometes.
1 487
Fernando Pessoa
Ás vezes, quando cismo, e incerto vou
Às vezes, quando cismo, e incerto vou
Através do meu ser em confusão
Procuro ver, sentir, sem olhos ler
Na minha consciência a alvorecer
De que anterior Presença humana sou
A reincarnação.
Então, aos olhos com que sonho olhando,
Meu próprio vulto outro se ergue, e eu sei
Que fui, num grande ocaso de (...) gentes
Entre sonhos nas almas confluentes
Alguém com gesto e mando,
Imperador ou rei.
Triste, profundamente triste, calmo
Sim, calmo como a morte, eu quis fazer
Com que em não sei que terra revivesse
Um belo culto morto, a incerta messe (…)
Através do meu ser em confusão
Procuro ver, sentir, sem olhos ler
Na minha consciência a alvorecer
De que anterior Presença humana sou
A reincarnação.
Então, aos olhos com que sonho olhando,
Meu próprio vulto outro se ergue, e eu sei
Que fui, num grande ocaso de (...) gentes
Entre sonhos nas almas confluentes
Alguém com gesto e mando,
Imperador ou rei.
Triste, profundamente triste, calmo
Sim, calmo como a morte, eu quis fazer
Com que em não sei que terra revivesse
Um belo culto morto, a incerta messe (…)
1 503
Fernando Pessoa
Ás vezes, quando cismo, e incerto vou
Às vezes, quando cismo, e incerto vou
Através do meu ser em confusão
Procuro ver, sentir, sem olhos ler
Na minha consciência a alvorecer
De que anterior Presença humana sou
A reincarnação.
Então, aos olhos com que sonho olhando,
Meu próprio vulto outro se ergue, e eu sei
Que fui, num grande ocaso de (...) gentes
Entre sonhos nas almas confluentes
Alguém com gesto e mando,
Imperador ou rei.
Triste, profundamente triste, calmo
Sim, calmo como a morte, eu quis fazer
Com que em não sei que terra revivesse
Um belo culto morto, a incerta messe (…)
Através do meu ser em confusão
Procuro ver, sentir, sem olhos ler
Na minha consciência a alvorecer
De que anterior Presença humana sou
A reincarnação.
Então, aos olhos com que sonho olhando,
Meu próprio vulto outro se ergue, e eu sei
Que fui, num grande ocaso de (...) gentes
Entre sonhos nas almas confluentes
Alguém com gesto e mando,
Imperador ou rei.
Triste, profundamente triste, calmo
Sim, calmo como a morte, eu quis fazer
Com que em não sei que terra revivesse
Um belo culto morto, a incerta messe (…)
1 503
Ibn Ammar
Do amor
olhai quão grande é o amor apaixonado
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
1 311
Ibn Ammar
Do amor
olhai quão grande é o amor apaixonado
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
1 311
Ibn Ammar
Do amor
olhai quão grande é o amor apaixonado
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
1 311
Fernando Pessoa
Todos os dias eu penso
Todos os dias eu penso
Naquele gesto engraçado
Com que pegaste no lenço
Que estava esquecido ao lado.
Naquele gesto engraçado
Com que pegaste no lenço
Que estava esquecido ao lado.
1 426
Fernando Pessoa
Ah, bate levemente, mais levemente!
Ah, bate leve, mais levemente!
Eu julguei morto meu coração
Na hora passa, como demente
Ophelia indo para a corrente,
Não sei que incerta minha emoção,
Julguei-te morto, coração triste,
Que nada fazes salvo doer.
Julguei-te morto, e ainda existe
Na tua cinza algum fogo e resiste
Em ti ainda o mal de sofrer.
……
Coração triste, vibras incerto,
Gemes na tua desolação.
Que oásis falso no teu deserto
Não foi esta vaga miragem perto
Da tua inútil consolação!
……
Recolhe, monge definitivo
Ao peito aonde te abrigas
(…)
……
Sê firme, crê que ninguém deseja
O teu asilo ou o teu abrigo.
Em teu deserto nada viceja.
Quem queres tu que te queira...
Coração triste, vive contigo.
……
Abdica e vive de não viver!
……
Pobre criança que queria ter
Em toda a vida canções de amor (…)
Eu julguei morto meu coração
Na hora passa, como demente
Ophelia indo para a corrente,
Não sei que incerta minha emoção,
Julguei-te morto, coração triste,
Que nada fazes salvo doer.
Julguei-te morto, e ainda existe
Na tua cinza algum fogo e resiste
Em ti ainda o mal de sofrer.
……
Coração triste, vibras incerto,
Gemes na tua desolação.
Que oásis falso no teu deserto
Não foi esta vaga miragem perto
Da tua inútil consolação!
……
Recolhe, monge definitivo
Ao peito aonde te abrigas
(…)
……
Sê firme, crê que ninguém deseja
O teu asilo ou o teu abrigo.
Em teu deserto nada viceja.
Quem queres tu que te queira...
Coração triste, vive contigo.
……
Abdica e vive de não viver!
……
Pobre criança que queria ter
Em toda a vida canções de amor (…)
1 542
Fernando Pessoa
Ah, bate levemente, mais levemente!
Ah, bate leve, mais levemente!
Eu julguei morto meu coração
Na hora passa, como demente
Ophelia indo para a corrente,
Não sei que incerta minha emoção,
Julguei-te morto, coração triste,
Que nada fazes salvo doer.
Julguei-te morto, e ainda existe
Na tua cinza algum fogo e resiste
Em ti ainda o mal de sofrer.
……
Coração triste, vibras incerto,
Gemes na tua desolação.
Que oásis falso no teu deserto
Não foi esta vaga miragem perto
Da tua inútil consolação!
……
Recolhe, monge definitivo
Ao peito aonde te abrigas
(…)
……
Sê firme, crê que ninguém deseja
O teu asilo ou o teu abrigo.
Em teu deserto nada viceja.
Quem queres tu que te queira...
Coração triste, vive contigo.
……
Abdica e vive de não viver!
……
Pobre criança que queria ter
Em toda a vida canções de amor (…)
Eu julguei morto meu coração
Na hora passa, como demente
Ophelia indo para a corrente,
Não sei que incerta minha emoção,
Julguei-te morto, coração triste,
Que nada fazes salvo doer.
Julguei-te morto, e ainda existe
Na tua cinza algum fogo e resiste
Em ti ainda o mal de sofrer.
……
Coração triste, vibras incerto,
Gemes na tua desolação.
Que oásis falso no teu deserto
Não foi esta vaga miragem perto
Da tua inútil consolação!
……
Recolhe, monge definitivo
Ao peito aonde te abrigas
(…)
……
Sê firme, crê que ninguém deseja
O teu asilo ou o teu abrigo.
Em teu deserto nada viceja.
Quem queres tu que te queira...
Coração triste, vive contigo.
……
Abdica e vive de não viver!
……
Pobre criança que queria ter
Em toda a vida canções de amor (…)
1 542
Fernando Pessoa
Ah, bate levemente, mais levemente!
Ah, bate leve, mais levemente!
Eu julguei morto meu coração
Na hora passa, como demente
Ophelia indo para a corrente,
Não sei que incerta minha emoção,
Julguei-te morto, coração triste,
Que nada fazes salvo doer.
Julguei-te morto, e ainda existe
Na tua cinza algum fogo e resiste
Em ti ainda o mal de sofrer.
……
Coração triste, vibras incerto,
Gemes na tua desolação.
Que oásis falso no teu deserto
Não foi esta vaga miragem perto
Da tua inútil consolação!
……
Recolhe, monge definitivo
Ao peito aonde te abrigas
(…)
……
Sê firme, crê que ninguém deseja
O teu asilo ou o teu abrigo.
Em teu deserto nada viceja.
Quem queres tu que te queira...
Coração triste, vive contigo.
……
Abdica e vive de não viver!
……
Pobre criança que queria ter
Em toda a vida canções de amor (…)
Eu julguei morto meu coração
Na hora passa, como demente
Ophelia indo para a corrente,
Não sei que incerta minha emoção,
Julguei-te morto, coração triste,
Que nada fazes salvo doer.
Julguei-te morto, e ainda existe
Na tua cinza algum fogo e resiste
Em ti ainda o mal de sofrer.
……
Coração triste, vibras incerto,
Gemes na tua desolação.
Que oásis falso no teu deserto
Não foi esta vaga miragem perto
Da tua inútil consolação!
……
Recolhe, monge definitivo
Ao peito aonde te abrigas
(…)
……
Sê firme, crê que ninguém deseja
O teu asilo ou o teu abrigo.
Em teu deserto nada viceja.
Quem queres tu que te queira...
Coração triste, vive contigo.
……
Abdica e vive de não viver!
……
Pobre criança que queria ter
Em toda a vida canções de amor (…)
1 542
Fernando Pessoa
Já estou tranquilo. Já não espero nada.
Já estou tranquilo. Já não espero nada.
Já sobre meu vazio coração
Desceu a inconsciência abençoada
De nem querer uma ilusão.
Já sobre meu vazio coração
Desceu a inconsciência abençoada
De nem querer uma ilusão.
1 721
Fernando Pessoa
Já estou tranquilo. Já não espero nada.
Já estou tranquilo. Já não espero nada.
Já sobre meu vazio coração
Desceu a inconsciência abençoada
De nem querer uma ilusão.
Já sobre meu vazio coração
Desceu a inconsciência abençoada
De nem querer uma ilusão.
1 721
Fernando Pessoa
CANÇÃO TRISTE
Sol, que dá nas ruas, não dá
No meu carinho.
A felicidade quando virá?
Por que caminho?
Horas e horas por fim são meses
De ansiado bem.
Eu penso em ti indecisas vezes,
E tu ninguém!
Não tenho barco para a outra margem,
Nem sei do rio
Ah! E envelheceu já tua imagem
E eu sinto frio.
Não me resigno, não me decido,
Choro querer...
Sempre eu! Ó sorte, dá-me o olvido
De pertencer!
Enterrei hoje outra vez meu sonho
Amanhã virá
Tornar-me triste por ser risonho,
E não ser já.
No meu carinho.
A felicidade quando virá?
Por que caminho?
Horas e horas por fim são meses
De ansiado bem.
Eu penso em ti indecisas vezes,
E tu ninguém!
Não tenho barco para a outra margem,
Nem sei do rio
Ah! E envelheceu já tua imagem
E eu sinto frio.
Não me resigno, não me decido,
Choro querer...
Sempre eu! Ó sorte, dá-me o olvido
De pertencer!
Enterrei hoje outra vez meu sonho
Amanhã virá
Tornar-me triste por ser risonho,
E não ser já.
1 424
Fernando Pessoa
CANÇÃO TRISTE
Sol, que dá nas ruas, não dá
No meu carinho.
A felicidade quando virá?
Por que caminho?
Horas e horas por fim são meses
De ansiado bem.
Eu penso em ti indecisas vezes,
E tu ninguém!
Não tenho barco para a outra margem,
Nem sei do rio
Ah! E envelheceu já tua imagem
E eu sinto frio.
Não me resigno, não me decido,
Choro querer...
Sempre eu! Ó sorte, dá-me o olvido
De pertencer!
Enterrei hoje outra vez meu sonho
Amanhã virá
Tornar-me triste por ser risonho,
E não ser já.
No meu carinho.
A felicidade quando virá?
Por que caminho?
Horas e horas por fim são meses
De ansiado bem.
Eu penso em ti indecisas vezes,
E tu ninguém!
Não tenho barco para a outra margem,
Nem sei do rio
Ah! E envelheceu já tua imagem
E eu sinto frio.
Não me resigno, não me decido,
Choro querer...
Sempre eu! Ó sorte, dá-me o olvido
De pertencer!
Enterrei hoje outra vez meu sonho
Amanhã virá
Tornar-me triste por ser risonho,
E não ser já.
1 424
Fernando Pessoa
CANÇÃO TRISTE
Sol, que dá nas ruas, não dá
No meu carinho.
A felicidade quando virá?
Por que caminho?
Horas e horas por fim são meses
De ansiado bem.
Eu penso em ti indecisas vezes,
E tu ninguém!
Não tenho barco para a outra margem,
Nem sei do rio
Ah! E envelheceu já tua imagem
E eu sinto frio.
Não me resigno, não me decido,
Choro querer...
Sempre eu! Ó sorte, dá-me o olvido
De pertencer!
Enterrei hoje outra vez meu sonho
Amanhã virá
Tornar-me triste por ser risonho,
E não ser já.
No meu carinho.
A felicidade quando virá?
Por que caminho?
Horas e horas por fim são meses
De ansiado bem.
Eu penso em ti indecisas vezes,
E tu ninguém!
Não tenho barco para a outra margem,
Nem sei do rio
Ah! E envelheceu já tua imagem
E eu sinto frio.
Não me resigno, não me decido,
Choro querer...
Sempre eu! Ó sorte, dá-me o olvido
De pertencer!
Enterrei hoje outra vez meu sonho
Amanhã virá
Tornar-me triste por ser risonho,
E não ser já.
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Fernando Pessoa
Boca com olhos por cima
Boca com olhos por cima
Ambos a estar a sorrir...
Já sei onde está a rima
Do que não ouso pedir.
Ambos a estar a sorrir...
Já sei onde está a rima
Do que não ouso pedir.
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Fernando Pessoa
Vale a pena ser discreto?
Vale a pena ser discreto?
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena.
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena.
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Fernando Pessoa
XIV - Como uma voz de fonte que cessasse
XIV
Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), para além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce
Parou... Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...
A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
Para o mistério, silêncio a que a hora assiste...
E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...
Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), para além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce
Parou... Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...
A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
Para o mistério, silêncio a que a hora assiste...
E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...
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