Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Alfonsina Storni
O Engano
Sou tua, Deus sabe porque, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.
Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.
Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator dono do papel.
Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.
Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.
Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator dono do papel.
Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.
1 537
Alda Pereira Pinto
Scherzos
Ora, meu chapa, te esguia...
tu vives sempre implicando
com meu modo de viver.
Sou prosa, sei que sou prosa,
pois nada devo a ninguém
e por isso tu me acusas
de convencida e orgulhosa.
Se acaso escondo o meu jogo
de alguma amiga ou parenta
que quer dinheiro emprestado
tu vens logo xeretando
e chamar-me de avarenta
Se desejo ter o trato
que tem a nossa vizinha
mais feia que um chimpanzé
mas, granfa e sempre cheirosa,
e fico olhando a perua
do buraco da janela,
o meu humor envenenas
como se eu fosse invejosa.
Se a cozinheira me chama na hora agá da novela,
no momento em que o bacana
está cantando a boazuda
e eu raspo uma espinafrada
na chatona de galocha,
tu bancas o imaculado
de mãos postas: queridinha,
a ira é grande pecado!
De manhã, se acho bacana
ficar na cama um pouquinho
enquanto tomas café,
vens com a cara pendurada,
igual a um velho gagá,
entre os dentes resmungando:
preguiçosa, preguiçosa...
Quando vou ao restaurante,
só porque olho o cardápio
e prefiro um vatapá
com castanha e amendoim,
uma pizza, uma fritada,
um macarrão com almôndegas,
um arroz, uma salada
com creme de leite e vinho,
um pudim de chocolate
e por cima um cafezinho,
me olhas com olhar tão terno,
mas lá bem dentro de ti
tua voz grita: gulosa
vai comer assim no inferno.
Tu me chamas fogueteira,
sapeca, luxurienta,
sem motivo, à-toa, à-toa,
porque já de longa data
tu pifaste, meu querido,
e eu prossigo, e muito boa.
És anjinho e eu carrego
os pecados de satã,
mas não te darei pelota.
Para mim só é pecado
ser bucho, ser idiota,
é querer comprar um teco
e não ver na bolsa a nota,
é guardar grande desejo
de chapoletar alguém
e em vez disso dar-lhe um beijo,
é ter um bom apetite
e só comer vegetais,
é vontade de mandar
todo dia uma brasinha
e ficar de olhinhos baixos
com ares de pomba-rola
num altar de uma santinha.
E, que o bom Deus me perdoe
se estou dizendo heresia,
pecado é ficar zanzando
pela vida dando murros,
é dormir noites inteiras
sem os prelúdios do amor,
é trabalhar no pesado
suando tal qual os burros.
Se tua achas que ao meu lado
estás, por teres pecado
numa outra encarnação,
cumprindo uma triste sina,
te manca, meu bobalhão,
dá meu desquite e vai ver
tua avó lá noutra esquina.
tu vives sempre implicando
com meu modo de viver.
Sou prosa, sei que sou prosa,
pois nada devo a ninguém
e por isso tu me acusas
de convencida e orgulhosa.
Se acaso escondo o meu jogo
de alguma amiga ou parenta
que quer dinheiro emprestado
tu vens logo xeretando
e chamar-me de avarenta
Se desejo ter o trato
que tem a nossa vizinha
mais feia que um chimpanzé
mas, granfa e sempre cheirosa,
e fico olhando a perua
do buraco da janela,
o meu humor envenenas
como se eu fosse invejosa.
Se a cozinheira me chama na hora agá da novela,
no momento em que o bacana
está cantando a boazuda
e eu raspo uma espinafrada
na chatona de galocha,
tu bancas o imaculado
de mãos postas: queridinha,
a ira é grande pecado!
De manhã, se acho bacana
ficar na cama um pouquinho
enquanto tomas café,
vens com a cara pendurada,
igual a um velho gagá,
entre os dentes resmungando:
preguiçosa, preguiçosa...
Quando vou ao restaurante,
só porque olho o cardápio
e prefiro um vatapá
com castanha e amendoim,
uma pizza, uma fritada,
um macarrão com almôndegas,
um arroz, uma salada
com creme de leite e vinho,
um pudim de chocolate
e por cima um cafezinho,
me olhas com olhar tão terno,
mas lá bem dentro de ti
tua voz grita: gulosa
vai comer assim no inferno.
Tu me chamas fogueteira,
sapeca, luxurienta,
sem motivo, à-toa, à-toa,
porque já de longa data
tu pifaste, meu querido,
e eu prossigo, e muito boa.
És anjinho e eu carrego
os pecados de satã,
mas não te darei pelota.
Para mim só é pecado
ser bucho, ser idiota,
é querer comprar um teco
e não ver na bolsa a nota,
é guardar grande desejo
de chapoletar alguém
e em vez disso dar-lhe um beijo,
é ter um bom apetite
e só comer vegetais,
é vontade de mandar
todo dia uma brasinha
e ficar de olhinhos baixos
com ares de pomba-rola
num altar de uma santinha.
E, que o bom Deus me perdoe
se estou dizendo heresia,
pecado é ficar zanzando
pela vida dando murros,
é dormir noites inteiras
sem os prelúdios do amor,
é trabalhar no pesado
suando tal qual os burros.
Se tua achas que ao meu lado
estás, por teres pecado
numa outra encarnação,
cumprindo uma triste sina,
te manca, meu bobalhão,
dá meu desquite e vai ver
tua avó lá noutra esquina.
1 116
Márcia Fasciotti
Beija-flor
Flor...
Flor que beija
Flor que deseja
O beijo do beija-flor
Que não a beija...
Ele voa
Desaparece, reaparece
E pousa em outra flor
Saudade - dor!!
Esperança perdida nos jardins,
Cravos, rosas
Margaridas e jasmins.
Voe e pouse em outra flor.
Sinta o perfume dela.
Leve seu pólen prá florir outra janela.
Traia todas as flores,
Com beijos de todas as cores...
Mas cumpra com seu dever...
Resgate o que cativou.
Faça renascer,
Desejo - beijo - flor,
Eu, você e o amor...
Beija!!! Flor...
Flor que beija
Flor que deseja
O beijo do beija-flor
Que não a beija...
Ele voa
Desaparece, reaparece
E pousa em outra flor
Saudade - dor!!
Esperança perdida nos jardins,
Cravos, rosas
Margaridas e jasmins.
Voe e pouse em outra flor.
Sinta o perfume dela.
Leve seu pólen prá florir outra janela.
Traia todas as flores,
Com beijos de todas as cores...
Mas cumpra com seu dever...
Resgate o que cativou.
Faça renascer,
Desejo - beijo - flor,
Eu, você e o amor...
Beija!!! Flor...
1 223
Janete Rodrigues Ribeiro
Estranha saudade
Então, tu apareceste no meu caminho
a ti entreguei meu coração
te contei meus segredos
te dei meu corpo e meus carinhos...
Todo meu mistério desvendei
tudo que tinha guardado
tanto tempo na minha solidão,
te ofereci tudo, cada pedaço, cada emoção...
Agora faço parte do teu todo
sou fração do teu total
somando essa imensa ternura
juntando um carinho sem igual!
Os minutos em hora se transformaram
longe de ti, teus abraços, teu olhar,
as marcas que em mim ficaram
de nossos momentos sob a luz do luar...
É assim, uma estranha saudade,
um sabor de ti, que dentro ficou,
encravado em minha alma,
lembranças do que se passou...
Acordo, olho o céu, vejo o sol
tudo iluminado à minha volta
recordo nossos corpos no lençol,
nosso abraço apertado, o último olhar...
E tu, voltando, rolando estrada
e eu, parada, perdida, presa ao chão,
olhando de longe, tu sumindo e
entrando cada vez mais fundo no meu coração!
a ti entreguei meu coração
te contei meus segredos
te dei meu corpo e meus carinhos...
Todo meu mistério desvendei
tudo que tinha guardado
tanto tempo na minha solidão,
te ofereci tudo, cada pedaço, cada emoção...
Agora faço parte do teu todo
sou fração do teu total
somando essa imensa ternura
juntando um carinho sem igual!
Os minutos em hora se transformaram
longe de ti, teus abraços, teu olhar,
as marcas que em mim ficaram
de nossos momentos sob a luz do luar...
É assim, uma estranha saudade,
um sabor de ti, que dentro ficou,
encravado em minha alma,
lembranças do que se passou...
Acordo, olho o céu, vejo o sol
tudo iluminado à minha volta
recordo nossos corpos no lençol,
nosso abraço apertado, o último olhar...
E tu, voltando, rolando estrada
e eu, parada, perdida, presa ao chão,
olhando de longe, tu sumindo e
entrando cada vez mais fundo no meu coração!
903
Márcia Fasciotti
Madrugada
É claro!! Sempre estava afim!
Uma noitada, música,
burburinho de vozes,
matizadas em vários tons...
Mais uma dose!!!
Estalar de copos, gargalhadas...
Mistura de sons!!!
É a boemia insone
exibindo falsa alegria,
procurando encher de amores
a madrugada vazia...
Já gostei...
...já fui assim!!
Hoje, a insônia, desabafo no papel...
Encontro marcado comigo!!!
Que ironia!!
Sou no momento, minha melhor
e mais fiel companhia...
Uma noitada, música,
burburinho de vozes,
matizadas em vários tons...
Mais uma dose!!!
Estalar de copos, gargalhadas...
Mistura de sons!!!
É a boemia insone
exibindo falsa alegria,
procurando encher de amores
a madrugada vazia...
Já gostei...
...já fui assim!!
Hoje, a insônia, desabafo no papel...
Encontro marcado comigo!!!
Que ironia!!
Sou no momento, minha melhor
e mais fiel companhia...
839
Márcia Fasciotti
Madrugada
É claro!! Sempre estava afim!
Uma noitada, música,
burburinho de vozes,
matizadas em vários tons...
Mais uma dose!!!
Estalar de copos, gargalhadas...
Mistura de sons!!!
É a boemia insone
exibindo falsa alegria,
procurando encher de amores
a madrugada vazia...
Já gostei...
...já fui assim!!
Hoje, a insônia, desabafo no papel...
Encontro marcado comigo!!!
Que ironia!!
Sou no momento, minha melhor
e mais fiel companhia...
Uma noitada, música,
burburinho de vozes,
matizadas em vários tons...
Mais uma dose!!!
Estalar de copos, gargalhadas...
Mistura de sons!!!
É a boemia insone
exibindo falsa alegria,
procurando encher de amores
a madrugada vazia...
Já gostei...
...já fui assim!!
Hoje, a insônia, desabafo no papel...
Encontro marcado comigo!!!
Que ironia!!
Sou no momento, minha melhor
e mais fiel companhia...
839
Angela Melim
Com certeza
me segura
igual unha
meia lua
cabelo mínimo
– pode voar
num sopro –
me segura pela cintura
as duas palmas macias
cala
aquela voz de longe, esguia
mulher cantando em alemão
a tela do rádio
bafejando com o som
aquilo cala –
não lembro se dormi
esta dor aqui, esta aqui
a mesma
– mola –
antigo martelo repetido o medo
me segura com certeza
para eu não
chorar.
(29.10.88)
igual unha
meia lua
cabelo mínimo
– pode voar
num sopro –
me segura pela cintura
as duas palmas macias
cala
aquela voz de longe, esguia
mulher cantando em alemão
a tela do rádio
bafejando com o som
aquilo cala –
não lembro se dormi
esta dor aqui, esta aqui
a mesma
– mola –
antigo martelo repetido o medo
me segura com certeza
para eu não
chorar.
(29.10.88)
1 130
Angela Melim
Com certeza
me segura
igual unha
meia lua
cabelo mínimo
– pode voar
num sopro –
me segura pela cintura
as duas palmas macias
cala
aquela voz de longe, esguia
mulher cantando em alemão
a tela do rádio
bafejando com o som
aquilo cala –
não lembro se dormi
esta dor aqui, esta aqui
a mesma
– mola –
antigo martelo repetido o medo
me segura com certeza
para eu não
chorar.
(29.10.88)
igual unha
meia lua
cabelo mínimo
– pode voar
num sopro –
me segura pela cintura
as duas palmas macias
cala
aquela voz de longe, esguia
mulher cantando em alemão
a tela do rádio
bafejando com o som
aquilo cala –
não lembro se dormi
esta dor aqui, esta aqui
a mesma
– mola –
antigo martelo repetido o medo
me segura com certeza
para eu não
chorar.
(29.10.88)
1 130
Ana Mafalda Leite
Papoilas
estou opiada de ti
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas
o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro
aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me
qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça
sonhos
coisa estranha
opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e
muito sol com luas por dentro
para poder mastigar estes sonhos
reais como mandrágoras
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas
o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro
aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me
qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça
sonhos
coisa estranha
opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e
muito sol com luas por dentro
para poder mastigar estes sonhos
reais como mandrágoras
1 618
Ana Mafalda Leite
Papoilas
estou opiada de ti
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas
o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro
aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me
qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça
sonhos
coisa estranha
opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e
muito sol com luas por dentro
para poder mastigar estes sonhos
reais como mandrágoras
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas
o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro
aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me
qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça
sonhos
coisa estranha
opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e
muito sol com luas por dentro
para poder mastigar estes sonhos
reais como mandrágoras
1 618
Ana Mafalda Leite
Papoilas
estou opiada de ti
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas
o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro
aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me
qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça
sonhos
coisa estranha
opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e
muito sol com luas por dentro
para poder mastigar estes sonhos
reais como mandrágoras
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas
o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro
aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me
qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça
sonhos
coisa estranha
opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e
muito sol com luas por dentro
para poder mastigar estes sonhos
reais como mandrágoras
1 618
Anna Maria Feitosa
Instante
A vida é essa luz
No teu rosto
é esse brilho
Inconstante
Dos teus olhos
Na penumbra.
Essa paixão
Esse instante fugaz.
A vida é só isso
é só isso
Nada mais.
No teu rosto
é esse brilho
Inconstante
Dos teus olhos
Na penumbra.
Essa paixão
Esse instante fugaz.
A vida é só isso
é só isso
Nada mais.
1 004
Gabriela Mistral
Pezinhos
Pezinhos de criança
azulados de frio
Como os vêem e não os cobrem,
Deus meu!
Pezinhos feridos
pelas pedras todas,
ultrajados de neves
e lodos!
O homem cego ignora
que por onde passais,
uma flor de luz viva
deixais;
Que ali, onde colocais
a plantinha sangrante,
o narco nasce mais
perfumado.
Sede, posto que marchais
pelos caminhos retos,
heroicos como sois
perfeitos.
Pezinhos de criança,
duas joinhas sofridas,
como passam sem ver
as pessoas!
azulados de frio
Como os vêem e não os cobrem,
Deus meu!
Pezinhos feridos
pelas pedras todas,
ultrajados de neves
e lodos!
O homem cego ignora
que por onde passais,
uma flor de luz viva
deixais;
Que ali, onde colocais
a plantinha sangrante,
o narco nasce mais
perfumado.
Sede, posto que marchais
pelos caminhos retos,
heroicos como sois
perfeitos.
Pezinhos de criança,
duas joinhas sofridas,
como passam sem ver
as pessoas!
2 289
Homero Exposito
Laranjeira em flor
Era mais branda que a água
que a água branda
Era mais fresca que o rio,
laranjeira em flor
E nessa rua de estio,
rua perdida,
deixou um pedaço de vida
e se marchou
Primeiro há que saber sofrer,
depois amar, depois partir
e ao fim andar sem pensamento
Perfume de laranjeira em flor,
promessas vãs de um amor
que se escaparam no vento.
Depois, que importa do depois
Toda minha vida é o ontem
que me detém no passado
Eterna e velha juventude
que me há deixado acovardado
como um pássaro sem luz.
Que lhe haverão feito minhas mãos?
Que lhe haverão feito,
para me deixar no peito
tanta dor?
Dor de velho arvoredo
canção de esquina,
com um pedaço de vida,
laranjeira em flor
que a água branda
Era mais fresca que o rio,
laranjeira em flor
E nessa rua de estio,
rua perdida,
deixou um pedaço de vida
e se marchou
Primeiro há que saber sofrer,
depois amar, depois partir
e ao fim andar sem pensamento
Perfume de laranjeira em flor,
promessas vãs de um amor
que se escaparam no vento.
Depois, que importa do depois
Toda minha vida é o ontem
que me detém no passado
Eterna e velha juventude
que me há deixado acovardado
como um pássaro sem luz.
Que lhe haverão feito minhas mãos?
Que lhe haverão feito,
para me deixar no peito
tanta dor?
Dor de velho arvoredo
canção de esquina,
com um pedaço de vida,
laranjeira em flor
1 073
Homero Exposito
Laranjeira em flor
Era mais branda que a água
que a água branda
Era mais fresca que o rio,
laranjeira em flor
E nessa rua de estio,
rua perdida,
deixou um pedaço de vida
e se marchou
Primeiro há que saber sofrer,
depois amar, depois partir
e ao fim andar sem pensamento
Perfume de laranjeira em flor,
promessas vãs de um amor
que se escaparam no vento.
Depois, que importa do depois
Toda minha vida é o ontem
que me detém no passado
Eterna e velha juventude
que me há deixado acovardado
como um pássaro sem luz.
Que lhe haverão feito minhas mãos?
Que lhe haverão feito,
para me deixar no peito
tanta dor?
Dor de velho arvoredo
canção de esquina,
com um pedaço de vida,
laranjeira em flor
que a água branda
Era mais fresca que o rio,
laranjeira em flor
E nessa rua de estio,
rua perdida,
deixou um pedaço de vida
e se marchou
Primeiro há que saber sofrer,
depois amar, depois partir
e ao fim andar sem pensamento
Perfume de laranjeira em flor,
promessas vãs de um amor
que se escaparam no vento.
Depois, que importa do depois
Toda minha vida é o ontem
que me detém no passado
Eterna e velha juventude
que me há deixado acovardado
como um pássaro sem luz.
Que lhe haverão feito minhas mãos?
Que lhe haverão feito,
para me deixar no peito
tanta dor?
Dor de velho arvoredo
canção de esquina,
com um pedaço de vida,
laranjeira em flor
1 073
Carmelina Albuquerque
Esperança
O mar era verde
Quando a ele me atirei
Por isso julguei
A esperança ali estar
A me acenar
Enembarquei,
(no PedroII)
deixando ono porto
meu povo a chorar
e dentro do peito
minhalma gemia
e o meu coração
estava a sangrar.
Parece um peixinho
o barco no oceano
a navegar
tão pequenino
numa bacia de anil
a flutuar
levando mil vidas
em busca de um porto
onde a felicidade
talvez possa estar.
Assim são os destinos
de todas as almas
que vivem a vagar
na Terra,
no espaço
ou no Mar
Quando a ele me atirei
Por isso julguei
A esperança ali estar
A me acenar
Enembarquei,
(no PedroII)
deixando ono porto
meu povo a chorar
e dentro do peito
minhalma gemia
e o meu coração
estava a sangrar.
Parece um peixinho
o barco no oceano
a navegar
tão pequenino
numa bacia de anil
a flutuar
levando mil vidas
em busca de um porto
onde a felicidade
talvez possa estar.
Assim são os destinos
de todas as almas
que vivem a vagar
na Terra,
no espaço
ou no Mar
850
Eugénia Tabosa
Destino
No passeio junto à praia,
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.
Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.
O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.
Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.
Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.
Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.
O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.
Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.
Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.
1 203
Maria Teresa M. Carrilho
Não, hoje não saio
Não, hoje não saio
eu quero ficar
no espaço
dum cantinho
que é só meu
Não, hoje não falo
eu quero escutar
as palavras floridas
dum canto
que me entonteceu
Não, hoje não vou respirar
eu quero confundir
a minha vertigem
com a tua vertigem
e ser só um todo
ou um nada
num mundo que emudeceu...
eu quero ficar
no espaço
dum cantinho
que é só meu
Não, hoje não falo
eu quero escutar
as palavras floridas
dum canto
que me entonteceu
Não, hoje não vou respirar
eu quero confundir
a minha vertigem
com a tua vertigem
e ser só um todo
ou um nada
num mundo que emudeceu...
1 124
Carla Dias
Ausência
Bebi... sim...
de gole em gole, refrescou-se o silêncio
com a balbúrdia
da tua sofisticada
ausência.
Enveredou-se
pela trilha estreita,
Gritando,
voluptuosidade
ao inverno
e ao sol que gela.
Pouco a pouco,
reviram-se papéis
sobre a mesa
na hora do jantar.
Palavras sobrevoam
a fome latente.
Parece bonito,
mas quase arde.
Lentamente,
sedas se arrastam
pelo chão
da tua ausência.
Assim como meu corpo,
cravado em dúvidas,
no sofá,
retrata nosso momento fatal.
Não me traga
um rosto
quase pálido
de vida.
Traga-me
o perfume
engarrafado
no teu sorriso.
Assim
a ausência passa
e com ela
o grande perigo.
Perder...
de gole em gole, refrescou-se o silêncio
com a balbúrdia
da tua sofisticada
ausência.
Enveredou-se
pela trilha estreita,
Gritando,
voluptuosidade
ao inverno
e ao sol que gela.
Pouco a pouco,
reviram-se papéis
sobre a mesa
na hora do jantar.
Palavras sobrevoam
a fome latente.
Parece bonito,
mas quase arde.
Lentamente,
sedas se arrastam
pelo chão
da tua ausência.
Assim como meu corpo,
cravado em dúvidas,
no sofá,
retrata nosso momento fatal.
Não me traga
um rosto
quase pálido
de vida.
Traga-me
o perfume
engarrafado
no teu sorriso.
Assim
a ausência passa
e com ela
o grande perigo.
Perder...
991
Carla Dias
Ausência
Bebi... sim...
de gole em gole, refrescou-se o silêncio
com a balbúrdia
da tua sofisticada
ausência.
Enveredou-se
pela trilha estreita,
Gritando,
voluptuosidade
ao inverno
e ao sol que gela.
Pouco a pouco,
reviram-se papéis
sobre a mesa
na hora do jantar.
Palavras sobrevoam
a fome latente.
Parece bonito,
mas quase arde.
Lentamente,
sedas se arrastam
pelo chão
da tua ausência.
Assim como meu corpo,
cravado em dúvidas,
no sofá,
retrata nosso momento fatal.
Não me traga
um rosto
quase pálido
de vida.
Traga-me
o perfume
engarrafado
no teu sorriso.
Assim
a ausência passa
e com ela
o grande perigo.
Perder...
de gole em gole, refrescou-se o silêncio
com a balbúrdia
da tua sofisticada
ausência.
Enveredou-se
pela trilha estreita,
Gritando,
voluptuosidade
ao inverno
e ao sol que gela.
Pouco a pouco,
reviram-se papéis
sobre a mesa
na hora do jantar.
Palavras sobrevoam
a fome latente.
Parece bonito,
mas quase arde.
Lentamente,
sedas se arrastam
pelo chão
da tua ausência.
Assim como meu corpo,
cravado em dúvidas,
no sofá,
retrata nosso momento fatal.
Não me traga
um rosto
quase pálido
de vida.
Traga-me
o perfume
engarrafado
no teu sorriso.
Assim
a ausência passa
e com ela
o grande perigo.
Perder...
991
Henriqueta Lisboa
Canção do berço vazio
Canção do berço vazio
nunca a ninguém acalenta,
nenhuma voz a cantou.
Canção de lábios cerrados
que estremeceu no silëncio
muito antes de ter princípio.
Canção de peito oprimido
que não encontra palavras
porque nem o berço existe.
Ah! quem sonhara acalantos,
fontes escorrendo leite
para inconcebidos anjos?
Num país irmão da noite
canção da loucura mansa
para ouvidos que não ouvem...
Canção do berço vazio
entrecortada de pratos
e de risos escondidos...
Lá do outro lado do mundo
canção sem nenhum sentido
pobre louca está cantando.
nunca a ninguém acalenta,
nenhuma voz a cantou.
Canção de lábios cerrados
que estremeceu no silëncio
muito antes de ter princípio.
Canção de peito oprimido
que não encontra palavras
porque nem o berço existe.
Ah! quem sonhara acalantos,
fontes escorrendo leite
para inconcebidos anjos?
Num país irmão da noite
canção da loucura mansa
para ouvidos que não ouvem...
Canção do berço vazio
entrecortada de pratos
e de risos escondidos...
Lá do outro lado do mundo
canção sem nenhum sentido
pobre louca está cantando.
1 519
Henriqueta Lisboa
Canção do berço vazio
Canção do berço vazio
nunca a ninguém acalenta,
nenhuma voz a cantou.
Canção de lábios cerrados
que estremeceu no silëncio
muito antes de ter princípio.
Canção de peito oprimido
que não encontra palavras
porque nem o berço existe.
Ah! quem sonhara acalantos,
fontes escorrendo leite
para inconcebidos anjos?
Num país irmão da noite
canção da loucura mansa
para ouvidos que não ouvem...
Canção do berço vazio
entrecortada de pratos
e de risos escondidos...
Lá do outro lado do mundo
canção sem nenhum sentido
pobre louca está cantando.
nunca a ninguém acalenta,
nenhuma voz a cantou.
Canção de lábios cerrados
que estremeceu no silëncio
muito antes de ter princípio.
Canção de peito oprimido
que não encontra palavras
porque nem o berço existe.
Ah! quem sonhara acalantos,
fontes escorrendo leite
para inconcebidos anjos?
Num país irmão da noite
canção da loucura mansa
para ouvidos que não ouvem...
Canção do berço vazio
entrecortada de pratos
e de risos escondidos...
Lá do outro lado do mundo
canção sem nenhum sentido
pobre louca está cantando.
1 519
Gisele Mazzonetto
Doce amargura
Amor bandido
Tempo perdido
Selva de pedra
Noites sem fim
Amo você e sempre foi assim
O amor no meu peito
Nunca vai ter fim
Você me adora
E me devora
E eu no meu canto
Espantando o pranto
Vivo aguardando o grande fim
Tempo perdido
Selva de pedra
Noites sem fim
Amo você e sempre foi assim
O amor no meu peito
Nunca vai ter fim
Você me adora
E me devora
E eu no meu canto
Espantando o pranto
Vivo aguardando o grande fim
825
Carla Dias
Suicida
Seria suicídio
se eu levantasse, derrubasse os lençóis
e dançasse?
Os homens dançam
enquanto doem!
Enquanto caçam uma lembrança
para transformá-la
em virtual realidade.
Será que você entende?
Você que me escuta
sem pluralizar minhas palavras?
Você, tão cuidadoso com seu dia,
sem querer desperdiçá-lo
com instantes...
Seria um milagre
se eu revirasse as gavetas
e encontrasse um sonho?
Onde eu pudesse cantar,
exorcizar o silêncio...
Venha...
Venha dançar e acredite,
ainda sei encontrar alguém
e olhar dentro dos olhos dele!
Ainda...
se eu levantasse, derrubasse os lençóis
e dançasse?
Os homens dançam
enquanto doem!
Enquanto caçam uma lembrança
para transformá-la
em virtual realidade.
Será que você entende?
Você que me escuta
sem pluralizar minhas palavras?
Você, tão cuidadoso com seu dia,
sem querer desperdiçá-lo
com instantes...
Seria um milagre
se eu revirasse as gavetas
e encontrasse um sonho?
Onde eu pudesse cantar,
exorcizar o silêncio...
Venha...
Venha dançar e acredite,
ainda sei encontrar alguém
e olhar dentro dos olhos dele!
Ainda...
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