Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Angela Santos
Faltas-me!
Faltas-me
ainda que saciada
pelos dias plenos
da tua presença
Faltas-me
mais ainda
se não estou só
e outros acordam
a distancia em mim
Faltas-me
no tempo que desfio
em calendários
Faltas-me!..
e ainda assim te guardo
na força do meu querer
na paz que chega
se te lembro
no riso, na voz
nas marcas,
no lugar
que o sonho traça
e a que regresso!
se me faltas.
ainda que saciada
pelos dias plenos
da tua presença
Faltas-me
mais ainda
se não estou só
e outros acordam
a distancia em mim
Faltas-me
no tempo que desfio
em calendários
Faltas-me!..
e ainda assim te guardo
na força do meu querer
na paz que chega
se te lembro
no riso, na voz
nas marcas,
no lugar
que o sonho traça
e a que regresso!
se me faltas.
998
Angela Santos
Corpo e Alma
Procuramos
ser corpo de uma outra forma
mas o corpo é feroz e felino,
e vive do toque da presa,
do calor e do sangue que lhe bebe
no corpo que se rasga em oferendas.
O corpo tem leis…
Eu quis ser corpo e alma
para um outro corpo e uma outra alma…
mas só pude ser alma
no tempo possível…
e a alma transfigurada
foi sangue, vísceras, músculo, estertor
pulsão, êxtase
para aquele corpo e aquela alma
e aquele corpo e alma
não pôde ser alma,
no tempo em que só almas transfigurando-se
podíamos ser.
ser corpo de uma outra forma
mas o corpo é feroz e felino,
e vive do toque da presa,
do calor e do sangue que lhe bebe
no corpo que se rasga em oferendas.
O corpo tem leis…
Eu quis ser corpo e alma
para um outro corpo e uma outra alma…
mas só pude ser alma
no tempo possível…
e a alma transfigurada
foi sangue, vísceras, músculo, estertor
pulsão, êxtase
para aquele corpo e aquela alma
e aquele corpo e alma
não pôde ser alma,
no tempo em que só almas transfigurando-se
podíamos ser.
1 073
Angela Santos
Cerrado
Toma- me....
pela mão ou inteira
e despe-me de tudo
o que não seja vida
Leva-me a um lugar
onde em mim te sinta
e adormeça a ira
de ser no presente
um ser adiado
Leva-me
ao lugar onde a vida se escuta
no mais fundo silêncio,
onde as pedras são corpos
que ao nosso se ajustam
e onde um sussurro
- vindo, quem sabe de onde-
vive preso ao ar...
Lá, onde à raiz, profundas
as águas nos devolvem
me deitarei, um dia
pronta para a terra
me engolir inteira
e parir de novo
E assim renascida
a dentes eu rasgo
o umbilical fio
que me traz suspensa
entre a noite presente
e as manhãs de oiro
onde a vida a esmo
não me furta os sonhos.
pela mão ou inteira
e despe-me de tudo
o que não seja vida
Leva-me a um lugar
onde em mim te sinta
e adormeça a ira
de ser no presente
um ser adiado
Leva-me
ao lugar onde a vida se escuta
no mais fundo silêncio,
onde as pedras são corpos
que ao nosso se ajustam
e onde um sussurro
- vindo, quem sabe de onde-
vive preso ao ar...
Lá, onde à raiz, profundas
as águas nos devolvem
me deitarei, um dia
pronta para a terra
me engolir inteira
e parir de novo
E assim renascida
a dentes eu rasgo
o umbilical fio
que me traz suspensa
entre a noite presente
e as manhãs de oiro
onde a vida a esmo
não me furta os sonhos.
1 071
Angela Santos
Instantes
Espanto e
assombro
navegam meus dias
e na visão de uma gota de orvalho
toda a luz de um cristal plangente
se revela no instante
em que o mistério se acerca.
Diante das coisas do mundo
se abrem feridas
e cascatas de luz se derramam também
se abertas as fendas
por onde entrar possam
os sinais aos olhos invisíveis
Estremeço
diante de um beijo
que se sente como pura vibração
num recanto de uma esquina qualquer
trocado, marcado em duas bocas
que ignoro, exibindo ao mundo
na expressão de um beijo
a incontida força que assoma à boca
da paixão
Em tudo me sinto,
e nada é ausência ou sem sentido
se desço ao centro do assombro
que rasga meus olhos
e deixa perenes sinais
Sobre a varanda dos meus dias
espero a luz da revelação,
e pressagio
em cada momento que passa
o inesperado mensageiro
do mistério da vida
que persigo.
Deixo-me levar no que vem
abraçando isso que não sei dizer
e na doce melopeia que me embala,
surgida desse ficar atenta
sacudo resquícios de raiva insuspeita
e sinto-me perto...mais perto de mim.
assombro
navegam meus dias
e na visão de uma gota de orvalho
toda a luz de um cristal plangente
se revela no instante
em que o mistério se acerca.
Diante das coisas do mundo
se abrem feridas
e cascatas de luz se derramam também
se abertas as fendas
por onde entrar possam
os sinais aos olhos invisíveis
Estremeço
diante de um beijo
que se sente como pura vibração
num recanto de uma esquina qualquer
trocado, marcado em duas bocas
que ignoro, exibindo ao mundo
na expressão de um beijo
a incontida força que assoma à boca
da paixão
Em tudo me sinto,
e nada é ausência ou sem sentido
se desço ao centro do assombro
que rasga meus olhos
e deixa perenes sinais
Sobre a varanda dos meus dias
espero a luz da revelação,
e pressagio
em cada momento que passa
o inesperado mensageiro
do mistério da vida
que persigo.
Deixo-me levar no que vem
abraçando isso que não sei dizer
e na doce melopeia que me embala,
surgida desse ficar atenta
sacudo resquícios de raiva insuspeita
e sinto-me perto...mais perto de mim.
1 019
Angela Santos
Transmutação
Deixo-me
ficar na quietude
que invade o dia
e abandono-me à corrente dos sons
que assomam à flor de mim
No seio do silencio que chega
escuto teus passos,
tua voz , teu rir
tua presença inteira
suavemente me invadindo
Eu não estou só....
Eu não sou apenas eu,
todos os lugares em mim
corpo, memória alma
abrigam os teus sinais,
te amo como respiro
E vivo
ao compasso do meu eu
transfigurado em nós
ficar na quietude
que invade o dia
e abandono-me à corrente dos sons
que assomam à flor de mim
No seio do silencio que chega
escuto teus passos,
tua voz , teu rir
tua presença inteira
suavemente me invadindo
Eu não estou só....
Eu não sou apenas eu,
todos os lugares em mim
corpo, memória alma
abrigam os teus sinais,
te amo como respiro
E vivo
ao compasso do meu eu
transfigurado em nós
987
Angela Santos
Corpos
Das noites de néon que celebramos
perdura a chama
e queimam ainda meus lábios
as memórias
que não se dissolvem nos dias
Cada gesto novo
recomeça a viagem, a descoberta,
e no amplexo das tuas coxas, perdida
eu reencontro
os sons e os cheiros
num lugar qualquer de mim guardados,
antes de partir
Entre os meus e os teus olhos
estende-se a languidez cúmplice
decifrando sinais
de velhos amantes,
da tua à minha boca
a curta distancia
de um sopro vai
e tudo em nós se mistura...
em tuas mãos, o ritual do fogo se inicia
e cresce a lava do desejo
que nos arrasta
por entre sussurros e explosões
E é num mar de calmaria,
na embriaguez dos ópios naturais,
que nossos corpos
húmidos, quentes, saciados
desaguam.
perdura a chama
e queimam ainda meus lábios
as memórias
que não se dissolvem nos dias
Cada gesto novo
recomeça a viagem, a descoberta,
e no amplexo das tuas coxas, perdida
eu reencontro
os sons e os cheiros
num lugar qualquer de mim guardados,
antes de partir
Entre os meus e os teus olhos
estende-se a languidez cúmplice
decifrando sinais
de velhos amantes,
da tua à minha boca
a curta distancia
de um sopro vai
e tudo em nós se mistura...
em tuas mãos, o ritual do fogo se inicia
e cresce a lava do desejo
que nos arrasta
por entre sussurros e explosões
E é num mar de calmaria,
na embriaguez dos ópios naturais,
que nossos corpos
húmidos, quentes, saciados
desaguam.
715
Angela Santos
Corpos
Das noites de néon que celebramos
perdura a chama
e queimam ainda meus lábios
as memórias
que não se dissolvem nos dias
Cada gesto novo
recomeça a viagem, a descoberta,
e no amplexo das tuas coxas, perdida
eu reencontro
os sons e os cheiros
num lugar qualquer de mim guardados,
antes de partir
Entre os meus e os teus olhos
estende-se a languidez cúmplice
decifrando sinais
de velhos amantes,
da tua à minha boca
a curta distancia
de um sopro vai
e tudo em nós se mistura...
em tuas mãos, o ritual do fogo se inicia
e cresce a lava do desejo
que nos arrasta
por entre sussurros e explosões
E é num mar de calmaria,
na embriaguez dos ópios naturais,
que nossos corpos
húmidos, quentes, saciados
desaguam.
perdura a chama
e queimam ainda meus lábios
as memórias
que não se dissolvem nos dias
Cada gesto novo
recomeça a viagem, a descoberta,
e no amplexo das tuas coxas, perdida
eu reencontro
os sons e os cheiros
num lugar qualquer de mim guardados,
antes de partir
Entre os meus e os teus olhos
estende-se a languidez cúmplice
decifrando sinais
de velhos amantes,
da tua à minha boca
a curta distancia
de um sopro vai
e tudo em nós se mistura...
em tuas mãos, o ritual do fogo se inicia
e cresce a lava do desejo
que nos arrasta
por entre sussurros e explosões
E é num mar de calmaria,
na embriaguez dos ópios naturais,
que nossos corpos
húmidos, quentes, saciados
desaguam.
715
Angela Santos
Depois do Amor
Cai
sobre os amantes
como diáfano manto
uma doce serenidade
depois do amor…
É como se tudo parasse
e nada mais existisse
no momento em que suspensos
ficam o mundo, as dores
e o tempo
Serenidade…
só a serenidade emana
dos corpos amantes
depois do amor
depois da explosão
que tudo aquietou.
sobre os amantes
como diáfano manto
uma doce serenidade
depois do amor…
É como se tudo parasse
e nada mais existisse
no momento em que suspensos
ficam o mundo, as dores
e o tempo
Serenidade…
só a serenidade emana
dos corpos amantes
depois do amor
depois da explosão
que tudo aquietou.
1 066
Angela Santos
Puros Sangue
Desgarra-se
do meu peito
sem freio o potro selvagem
e galopa ao compasso
do que em mim te quer e pensa...
Que de sentir e saber
é seu galope, seu trote
e à vista do puro sangue,
que em teu peito saltita
se desgarra mais ainda.
Esses dois potros selvagens,
se reconhecem no cheiro,
no galope que os parelha,
no fogo, na crina ao vento...
Selvagens potros de fogo
exaltam na liberdade
centelhas de uma outra vida....
Pégasos da nossa memória
centauros foram um dia
Livres e soltos
no teu e no meu peito desgarram,
potros de fogo, selvagens
do nosso ser a medida.
do meu peito
sem freio o potro selvagem
e galopa ao compasso
do que em mim te quer e pensa...
Que de sentir e saber
é seu galope, seu trote
e à vista do puro sangue,
que em teu peito saltita
se desgarra mais ainda.
Esses dois potros selvagens,
se reconhecem no cheiro,
no galope que os parelha,
no fogo, na crina ao vento...
Selvagens potros de fogo
exaltam na liberdade
centelhas de uma outra vida....
Pégasos da nossa memória
centauros foram um dia
Livres e soltos
no teu e no meu peito desgarram,
potros de fogo, selvagens
do nosso ser a medida.
1 112
Angela Santos
A Contas com Deus
Há dias
em que à conversa com Deus
O chamo para o ajuste de contas....
E ainda que o Verbo seja,
Deus, não me responde!
Há dias
em que quebrando os remos
contra as vagas
cansa-me remar...
E pergunto:
quando aportarei?
E o que seja o Verbo
não me responde!
Há dias
em que não suporto as horas
e pergunto....
Até quando?
E o que seja o Verbo
o insustentável silencio me devolve
Há dias
em que o silencio aceito
e não pergunto
espero só de outro modo
saber ....
Porquê
o que seja o Verbo
o mais que perfeito
amor consentiu,
sem me doar o tempo
da sua infinita forma
conjugar?
em que à conversa com Deus
O chamo para o ajuste de contas....
E ainda que o Verbo seja,
Deus, não me responde!
Há dias
em que quebrando os remos
contra as vagas
cansa-me remar...
E pergunto:
quando aportarei?
E o que seja o Verbo
não me responde!
Há dias
em que não suporto as horas
e pergunto....
Até quando?
E o que seja o Verbo
o insustentável silencio me devolve
Há dias
em que o silencio aceito
e não pergunto
espero só de outro modo
saber ....
Porquê
o que seja o Verbo
o mais que perfeito
amor consentiu,
sem me doar o tempo
da sua infinita forma
conjugar?
1 123
Angela Santos
Inesperadamente
Hoje,
talvez um anjo azul
me visite
e o leve roçar de suas asas
(quem sabe) , me sussurre
o inaudível sentido
da minha teimosia
Hoje,
Talvez uma palavra
Infinitamente repetida
Desvende no ápice
Do seu surgimento
O que na sucessão do antes
O afã de dizer , não dizia
Hoje,
Talvez que um olhar
envolto em sinais
que ler eu não soube
desvende o mistério
que vive no fogo
à flor do seu brilho
Hoje,
Talvez no turbilhão de vozes
Ou no mais fundo vazio
O imponderável
Me responda
E sobre o muro férreo dos dias
Inesperadamente, uma nesga se abra
E um pedaço de azul
Do outro lado surgindo
Me faça acreditar.
Talvez…..
talvez um anjo azul
me visite
e o leve roçar de suas asas
(quem sabe) , me sussurre
o inaudível sentido
da minha teimosia
Hoje,
Talvez uma palavra
Infinitamente repetida
Desvende no ápice
Do seu surgimento
O que na sucessão do antes
O afã de dizer , não dizia
Hoje,
Talvez que um olhar
envolto em sinais
que ler eu não soube
desvende o mistério
que vive no fogo
à flor do seu brilho
Hoje,
Talvez no turbilhão de vozes
Ou no mais fundo vazio
O imponderável
Me responda
E sobre o muro férreo dos dias
Inesperadamente, uma nesga se abra
E um pedaço de azul
Do outro lado surgindo
Me faça acreditar.
Talvez…..
639
Angela Santos
Epifania
Des-obliterando uma palavra
corre, expande-se significante
invade as horas e os murmúrios
enquanto o mundo
no inquietante da sua
fácies
se revela
Azuís
imensamente azuís
os olhos da menina
o quotidiano lodo atravessam
e um instante... um instante único
o imundo lava
nas águas do perfeito azul
de uns olhos de criança
corre, expande-se significante
invade as horas e os murmúrios
enquanto o mundo
no inquietante da sua
fácies
se revela
Azuís
imensamente azuís
os olhos da menina
o quotidiano lodo atravessam
e um instante... um instante único
o imundo lava
nas águas do perfeito azul
de uns olhos de criança
1 084
Angela Santos
Cismo
Deixa bailando
no ar
o arabesco das formas
e os olhares conduz
naquele compasso
Passa
e no esboço de dança
o insuspeito convite
deixa ao passar
Em seu manear
se lhe agita o corpo,
e a cada passo
treme o chão também,
como se intrépido
o magma subisse
de repente à boca
de um velho vulcão
Seu passo é dança
que o mundo sacode
não sabe a morena
que ligeira passa
do breve tremor
que ao peito propaga
cada passo seu.
no ar
o arabesco das formas
e os olhares conduz
naquele compasso
Passa
e no esboço de dança
o insuspeito convite
deixa ao passar
Em seu manear
se lhe agita o corpo,
e a cada passo
treme o chão também,
como se intrépido
o magma subisse
de repente à boca
de um velho vulcão
Seu passo é dança
que o mundo sacode
não sabe a morena
que ligeira passa
do breve tremor
que ao peito propaga
cada passo seu.
666
Angela Santos
Dionísiaca
Assomas à
flor dos dias
no negro mais fundo do olhar
como grito explodindo
à luz do que desperta
Tremulas mãos,
peito em cavalgada..
prenuncio do incontido fogo,
bruto poder do
instinto
E me recrio
a partir de ti
a cada instante da vida
a que me atam
estes frágeis fios.
flor dos dias
no negro mais fundo do olhar
como grito explodindo
à luz do que desperta
Tremulas mãos,
peito em cavalgada..
prenuncio do incontido fogo,
bruto poder do
instinto
E me recrio
a partir de ti
a cada instante da vida
a que me atam
estes frágeis fios.
1 174
Angela Santos
Dionísiaca
Assomas à
flor dos dias
no negro mais fundo do olhar
como grito explodindo
à luz do que desperta
Tremulas mãos,
peito em cavalgada..
prenuncio do incontido fogo,
bruto poder do
instinto
E me recrio
a partir de ti
a cada instante da vida
a que me atam
estes frágeis fios.
flor dos dias
no negro mais fundo do olhar
como grito explodindo
à luz do que desperta
Tremulas mãos,
peito em cavalgada..
prenuncio do incontido fogo,
bruto poder do
instinto
E me recrio
a partir de ti
a cada instante da vida
a que me atam
estes frágeis fios.
1 174
Fernando Tavares Rodrigues
Como se Estivesse Apaixonado
Para quem
não sabe como é
(como se escreve um poema de amor)
eu vou dizer.
Como se estivesse apaixonado
Falar desse teu corpo exagerado
Que apenas aos meus olhos ganha cor,
De um coração em mim anteestreado
Num palco onde jurei fazer-te amor.
Esculpir esses cabelos impossíveis
Que nunca mãos algumas alisaram,
Desflorar esses vales inacessíveis
Onde os outros de vésperas naufragaram.
Contar como se ardesse de desejo
As pernas de cetim que tu me abriste
E a boca que se derreteu num beijo,
Soluço de sorriso que desiste.
Dizer, porquê? Se todo o mundo sabe
Que quando se ama não se escreve
E que, então, o tempo todo cabe
Naquele instante breve que se teve.
Contar o resto seria apenas feio,
Sentir o que não foi, deselegante.
Falar do que te disse pelo meio
Só se não fosse homem, nem amante...
não sabe como é
(como se escreve um poema de amor)
eu vou dizer.
Como se estivesse apaixonado
Falar desse teu corpo exagerado
Que apenas aos meus olhos ganha cor,
De um coração em mim anteestreado
Num palco onde jurei fazer-te amor.
Esculpir esses cabelos impossíveis
Que nunca mãos algumas alisaram,
Desflorar esses vales inacessíveis
Onde os outros de vésperas naufragaram.
Contar como se ardesse de desejo
As pernas de cetim que tu me abriste
E a boca que se derreteu num beijo,
Soluço de sorriso que desiste.
Dizer, porquê? Se todo o mundo sabe
Que quando se ama não se escreve
E que, então, o tempo todo cabe
Naquele instante breve que se teve.
Contar o resto seria apenas feio,
Sentir o que não foi, deselegante.
Falar do que te disse pelo meio
Só se não fosse homem, nem amante...
1 150
Angela Santos
Meu Bem Querer
Surge
diante de mim
como um lampejo de luz
e claramente eu vejo
que é ela…
Deusa do meu amor
Venus como todas
as mulheres
que trazem as mãos
e o peito carregados
de amor
Clara Luz
essa que me invade
a vida e o desejo
meu bem querer
meu bem me quer
diante de mim
como um lampejo de luz
e claramente eu vejo
que é ela…
Deusa do meu amor
Venus como todas
as mulheres
que trazem as mãos
e o peito carregados
de amor
Clara Luz
essa que me invade
a vida e o desejo
meu bem querer
meu bem me quer
1 215
Angela Santos
Meu Bem Querer
Surge
diante de mim
como um lampejo de luz
e claramente eu vejo
que é ela…
Deusa do meu amor
Venus como todas
as mulheres
que trazem as mãos
e o peito carregados
de amor
Clara Luz
essa que me invade
a vida e o desejo
meu bem querer
meu bem me quer
diante de mim
como um lampejo de luz
e claramente eu vejo
que é ela…
Deusa do meu amor
Venus como todas
as mulheres
que trazem as mãos
e o peito carregados
de amor
Clara Luz
essa que me invade
a vida e o desejo
meu bem querer
meu bem me quer
1 215
Angela Santos
Às Voltas
Com o Tempo
Ao
longo da avenida, numa tarde soalheira de Inverno, anunciando já
o seu fim, aqui e ali a cidade se polvilha de gente. As praças
e jardins se enchem de pessoas que desfrutam de amenas conversas aproveitando
o tempo que se ameniza.
Só
as pequenas cidades ainda oferecem isso que vai rareando em nossos dias:
o contacto das pessoas que se cruzam diariamente, na rua, em um café
ao dobrar de uma esquina, no mercado, esse lugar vivo onde a compra
e venda se faz de forma direta, com as pessoas trocando impressões,
discutindo preços.
Desses
encontros ainda se faz a vida cotidiana das gentes que não foram
submergidas pela azafama das grandes metrópoles, que não
vivem a tortura da pressa, a ameaça dos "salteadores" modernos
, espreitando uma oportunidade para o saque do dia, e que vivem o tempo
a um outro compasso, de forma tal que não reiteram a permanente
queixa da modernidade: a falta de tempo.
O
Tempo parece ter-se tornado um bem escasso. Não temos mais tempo
para ir num cinema, não temos tempo para ficar parados uns minutos
que sejam e escutar a voz do silencio; deixamos de ter tempo para saborear
a leitura de um bom livro; não temos tempo para nossas crianças,
reclamando atenção, emitindo sinais de que deixamos de
dar conta, sabe Deus a que preço.
Na
correria e falta de tempo, que se lhe associa, vamos também perdendo
a memória e esquecemos que há dias especiais, porque marcam
momentos únicos e irrepetíveis em nossas vidas. É
aquele dia que guardávamos como "o dia em que conheci você";
a data marcada na agenda para o encontro dos colegas de formatura; o
aniversário do amigo de longa data. Lembramos depois. Tantas
vezes tarde demais, ao folhear a agenda cujo prazo expirou no ano transato.
Deixamos de ter tempo, e vamos perdendo a memória das coisas
importantes, as que são importantes para nós e para aqueles
que amamos, datas, acontecimentos, pessoas que deveriam estar vivos
em nós e não adormecidos numa agenda ultrapassada.
O
nosso tempo é também ele caraterizado por uma certa amnésia,
a que nos convém, porque a memória abre feridas, e aquela
outra que nos causam, pelo adormecimento das mentes, o entorpecimento
do corpo, pelo acenar do fácil e do "el dorado" que alguém
oferta a troco de" nada", na aparência, mas que para além
de nos esvaziar a alma nos esvazia do resto.
É
verdade que as conversas são como as cerejas, umas puxam as outras,
e por isso mesmo tergiversei sobre a vida moderna, quando queria mesmo
era falar de como ainda é possível encontrar nichos de
mundos quase perdidos. Mundos de comunicação real e profícua,
por oposição a essa outra forma de comunicação
massiva, que nos coloca no centro de um dilema e contradição:
nos aproxima, realizando o prodígio de nada mais poder ser ignorado
por ser distante, e irremediavelmente nos afasta da vida aqui e agora.
Nunca estivemos tão próximos, agora que a globalização
se tornou um palavrão de bolso, mas em boa verdade, talvez nunca
antes se tenha sofrido tanto de solidão.
E,
quem sabe, para espantar a solidão e cultivar o gosto pelas trocas
humanas, é que nessas tardes soalheiras, as pracinhas e a avenida
sobranceira ao oceano se enchem de pessoas em busca do sol de inverno,
mais apreciado, porque tem sabor de coisa rara.
Não
é possível passar indiferente às personagens que
inundam esses lugares, na sua maioria jovens estudantes ou desocupados
e homens idosos. Estes esperam que a tarde anuncie o seu final, para
depois de cumprida a tarefa do dia, que é afinal cumprir mais
um dia, regressarem a suas casas, ou a seus lares de acolhimento. Esses
outros que esmolam, de igual modo aguardam a vinda da noite para se
acolherem nos recantos mais abrigados e iluminados das cidades.
Essa
gente de pele sulcada, cabelos a que o tempo emprestou a cor da neve,
uns de cigarro ao canto da boca deambulando pelas cidades, outros em
pequenos grupos aqui e ali, são o que sem pudor chamamos de "nossos
velhos", mas na verdade são a nossa memória, e mais que
passada prospetiva. E é na medida em que nos acordam para um
futuro que sempre chega, que preferimos, tantas vezes esquecê-los.
O velho continente, envelhecido, esquece os que vão envelhecendo.
Vivemos
de forma orgiástica o endeusamento da beleza e da juventude,
mas um dia, se tivermos a felicidade de viver longos dias, tomaremos
a estrada da velhice. Pudéssemos encara-la como uma espécie
de "idade do ouro" o momento único de realizarmos a síntese
de nossas vidas.
Vamos
perdendo a memória, mergulhados no turbilhão do dia que
passa. Aqui e agora sendo a dimensão primordial de nossa existência,
jamais nos deveria fazer perder de vista o futuro. Nas praças
e jardins das cidades, ele surge na forma de um quadro vivo: um dia
poderemos estar ao fim da tarde saboreando o sol num banco de jardim,
ou seja ter a felicidade de chegar a "velho". Nesse momento da vida,
já não andaremos às voltas com o Tempo, do que
seja te-lo ou da sua falta, já que é o momento de convivermos
de perto com a eternidade. Então, teremos todo o tempo do mundo.
Ao
longo da avenida, numa tarde soalheira de Inverno, anunciando já
o seu fim, aqui e ali a cidade se polvilha de gente. As praças
e jardins se enchem de pessoas que desfrutam de amenas conversas aproveitando
o tempo que se ameniza.
Só
as pequenas cidades ainda oferecem isso que vai rareando em nossos dias:
o contacto das pessoas que se cruzam diariamente, na rua, em um café
ao dobrar de uma esquina, no mercado, esse lugar vivo onde a compra
e venda se faz de forma direta, com as pessoas trocando impressões,
discutindo preços.
Desses
encontros ainda se faz a vida cotidiana das gentes que não foram
submergidas pela azafama das grandes metrópoles, que não
vivem a tortura da pressa, a ameaça dos "salteadores" modernos
, espreitando uma oportunidade para o saque do dia, e que vivem o tempo
a um outro compasso, de forma tal que não reiteram a permanente
queixa da modernidade: a falta de tempo.
O
Tempo parece ter-se tornado um bem escasso. Não temos mais tempo
para ir num cinema, não temos tempo para ficar parados uns minutos
que sejam e escutar a voz do silencio; deixamos de ter tempo para saborear
a leitura de um bom livro; não temos tempo para nossas crianças,
reclamando atenção, emitindo sinais de que deixamos de
dar conta, sabe Deus a que preço.
Na
correria e falta de tempo, que se lhe associa, vamos também perdendo
a memória e esquecemos que há dias especiais, porque marcam
momentos únicos e irrepetíveis em nossas vidas. É
aquele dia que guardávamos como "o dia em que conheci você";
a data marcada na agenda para o encontro dos colegas de formatura; o
aniversário do amigo de longa data. Lembramos depois. Tantas
vezes tarde demais, ao folhear a agenda cujo prazo expirou no ano transato.
Deixamos de ter tempo, e vamos perdendo a memória das coisas
importantes, as que são importantes para nós e para aqueles
que amamos, datas, acontecimentos, pessoas que deveriam estar vivos
em nós e não adormecidos numa agenda ultrapassada.
O
nosso tempo é também ele caraterizado por uma certa amnésia,
a que nos convém, porque a memória abre feridas, e aquela
outra que nos causam, pelo adormecimento das mentes, o entorpecimento
do corpo, pelo acenar do fácil e do "el dorado" que alguém
oferta a troco de" nada", na aparência, mas que para além
de nos esvaziar a alma nos esvazia do resto.
É
verdade que as conversas são como as cerejas, umas puxam as outras,
e por isso mesmo tergiversei sobre a vida moderna, quando queria mesmo
era falar de como ainda é possível encontrar nichos de
mundos quase perdidos. Mundos de comunicação real e profícua,
por oposição a essa outra forma de comunicação
massiva, que nos coloca no centro de um dilema e contradição:
nos aproxima, realizando o prodígio de nada mais poder ser ignorado
por ser distante, e irremediavelmente nos afasta da vida aqui e agora.
Nunca estivemos tão próximos, agora que a globalização
se tornou um palavrão de bolso, mas em boa verdade, talvez nunca
antes se tenha sofrido tanto de solidão.
E,
quem sabe, para espantar a solidão e cultivar o gosto pelas trocas
humanas, é que nessas tardes soalheiras, as pracinhas e a avenida
sobranceira ao oceano se enchem de pessoas em busca do sol de inverno,
mais apreciado, porque tem sabor de coisa rara.
Não
é possível passar indiferente às personagens que
inundam esses lugares, na sua maioria jovens estudantes ou desocupados
e homens idosos. Estes esperam que a tarde anuncie o seu final, para
depois de cumprida a tarefa do dia, que é afinal cumprir mais
um dia, regressarem a suas casas, ou a seus lares de acolhimento. Esses
outros que esmolam, de igual modo aguardam a vinda da noite para se
acolherem nos recantos mais abrigados e iluminados das cidades.
Essa
gente de pele sulcada, cabelos a que o tempo emprestou a cor da neve,
uns de cigarro ao canto da boca deambulando pelas cidades, outros em
pequenos grupos aqui e ali, são o que sem pudor chamamos de "nossos
velhos", mas na verdade são a nossa memória, e mais que
passada prospetiva. E é na medida em que nos acordam para um
futuro que sempre chega, que preferimos, tantas vezes esquecê-los.
O velho continente, envelhecido, esquece os que vão envelhecendo.
Vivemos
de forma orgiástica o endeusamento da beleza e da juventude,
mas um dia, se tivermos a felicidade de viver longos dias, tomaremos
a estrada da velhice. Pudéssemos encara-la como uma espécie
de "idade do ouro" o momento único de realizarmos a síntese
de nossas vidas.
Vamos
perdendo a memória, mergulhados no turbilhão do dia que
passa. Aqui e agora sendo a dimensão primordial de nossa existência,
jamais nos deveria fazer perder de vista o futuro. Nas praças
e jardins das cidades, ele surge na forma de um quadro vivo: um dia
poderemos estar ao fim da tarde saboreando o sol num banco de jardim,
ou seja ter a felicidade de chegar a "velho". Nesse momento da vida,
já não andaremos às voltas com o Tempo, do que
seja te-lo ou da sua falta, já que é o momento de convivermos
de perto com a eternidade. Então, teremos todo o tempo do mundo.
1 083
Cristiane Neder
Em Uma Só Unidade
Bis,
heteros,
homos,
todos nós somos
nos dias de cio.
Animais
todos sexuais.
Raça pura
destilada em outras misturas.
Animais
pensantes,
fabricantes,
da origem dos habitantes.
Bis,
heteros,
homos,
é o que somos
em uma só unidade.
heteros,
homos,
todos nós somos
nos dias de cio.
Animais
todos sexuais.
Raça pura
destilada em outras misturas.
Animais
pensantes,
fabricantes,
da origem dos habitantes.
Bis,
heteros,
homos,
é o que somos
em uma só unidade.
921
Angela Santos
Mil Sóis
De
noites de mil sóis
se fazem os
dias
e na berma
dos sentidos,
corre o desassossego
de um corpo
sôfrego
noites de mil sóis
se fazem os
dias
e na berma
dos sentidos,
corre o desassossego
de um corpo
sôfrego
835
Angela Santos
Mil Sóis
De
noites de mil sóis
se fazem os
dias
e na berma
dos sentidos,
corre o desassossego
de um corpo
sôfrego
noites de mil sóis
se fazem os
dias
e na berma
dos sentidos,
corre o desassossego
de um corpo
sôfrego
835
Fernando Mendes Vianna
Oratório dos Corpos (trechos)
Segue os ditames do
teu corpo.
Ele sabe as tuas necessidades.
Atende quando ele grita "liberdade".
Segue teu corpo; ele sabe do que necessita,
sabe os caminhos da fome, do cio, da sede, do sono.
Sê humilde perante o corpo sábio, pois o corpo
pensa de acordo com as raízes mais profundas,
Pode sentir as raízes que te irmanam à criação.
……….
O corpo não
precisa desencantar-se, não precisa
de fadas, de demiurgos, de paraísos, de infernos.
Se for corpo de mulher, nenhum príncipe é necessário:
só um macho que acredite no sêmen.
como na hóstia de um deus apenas seiva,
e confie o corpo à fêmea como o padre confia o cálice
ao altar.
Crê no teu corpo, confia no teu corpo, no corpo do homem,
no corpo da mulher.
Crê no corpo como na única ponte entre os homens;
e que acima do rio variável e enganoso da palavra,
a carne seja como um gesto em perene dádiva.
O corpo é mais antigo e belo do que a Cova de Altamira,
e a gruta do útero pode ser mais funda e clara
do que uma aurora que se abrisse no fundo da terra.
teu corpo.
Ele sabe as tuas necessidades.
Atende quando ele grita "liberdade".
Segue teu corpo; ele sabe do que necessita,
sabe os caminhos da fome, do cio, da sede, do sono.
Sê humilde perante o corpo sábio, pois o corpo
pensa de acordo com as raízes mais profundas,
Pode sentir as raízes que te irmanam à criação.
……….
O corpo não
precisa desencantar-se, não precisa
de fadas, de demiurgos, de paraísos, de infernos.
Se for corpo de mulher, nenhum príncipe é necessário:
só um macho que acredite no sêmen.
como na hóstia de um deus apenas seiva,
e confie o corpo à fêmea como o padre confia o cálice
ao altar.
Crê no teu corpo, confia no teu corpo, no corpo do homem,
no corpo da mulher.
Crê no corpo como na única ponte entre os homens;
e que acima do rio variável e enganoso da palavra,
a carne seja como um gesto em perene dádiva.
O corpo é mais antigo e belo do que a Cova de Altamira,
e a gruta do útero pode ser mais funda e clara
do que uma aurora que se abrisse no fundo da terra.
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