Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Félix Pacheco
Símbolo d’arte
Se o meu verso não fora o agonizar de um lírio,
E o suave funeral de um crisântemo roxo,
Diluindo-se, murchando, à vaga luz de um círio,
Entre o planger de um sino e o gargalhar de um mocho;
Se, essas flores do mal, em pleno desabrocho,
Eu não sentira em mim, num êxtase e em delírio,
Meu orgulho de rei julgara vesgo e frouxo,
Pois a glória de um sol não vale esse martírio.
Se, na terra que piso, algum prêmio ambiciono,
É o deserto, a cabala, o claustro, a esfinge, o outono,
O calmo encanto da noite e a augusta paz da morte...
E o meu símbolo darte, o ideal que me fascina,
É a tristeza a florir a graça feminina,
Como um farol pressago a iluminar o norte!
E o suave funeral de um crisântemo roxo,
Diluindo-se, murchando, à vaga luz de um círio,
Entre o planger de um sino e o gargalhar de um mocho;
Se, essas flores do mal, em pleno desabrocho,
Eu não sentira em mim, num êxtase e em delírio,
Meu orgulho de rei julgara vesgo e frouxo,
Pois a glória de um sol não vale esse martírio.
Se, na terra que piso, algum prêmio ambiciono,
É o deserto, a cabala, o claustro, a esfinge, o outono,
O calmo encanto da noite e a augusta paz da morte...
E o meu símbolo darte, o ideal que me fascina,
É a tristeza a florir a graça feminina,
Como um farol pressago a iluminar o norte!
991
Francisco Miguel de Moura
Militância
semente que tentou florir
na rocha impossível, aqui.
por trás da farda
de brim cáqui floriano
preso na hierarquia.
por trás do capacete duro
uma cabeça ágil,
fervente,
por trás da violência de escravo
(no dever?)
há um homem ferido e acorrentado
(seja paz, seja guerra)
por trás dos olhos ligeiros
de lince, de lança
há o homem-fome,
o homem-faz-medo-a-criança
por trás, os olhos feridos
de distância
e o comum dia-a-dia.
tu vês (por profissão)
o campo de batalha
no inimigo-irmão.
saber ser leal ao dono
e diferes do cão.
embora tudo isto,
a cachaça e a sífilis
(e a gota de sangue do coração).
na rocha impossível, aqui.
por trás da farda
de brim cáqui floriano
preso na hierarquia.
por trás do capacete duro
uma cabeça ágil,
fervente,
por trás da violência de escravo
(no dever?)
há um homem ferido e acorrentado
(seja paz, seja guerra)
por trás dos olhos ligeiros
de lince, de lança
há o homem-fome,
o homem-faz-medo-a-criança
por trás, os olhos feridos
de distância
e o comum dia-a-dia.
tu vês (por profissão)
o campo de batalha
no inimigo-irmão.
saber ser leal ao dono
e diferes do cão.
embora tudo isto,
a cachaça e a sífilis
(e a gota de sangue do coração).
880
Cruz Filho
Sugestão de Beethoven
Noite. Ermo... Um luar de abril quase morto na bruma.
Silêncio. Ar medieval de algum convento em ruína...
Num piano, cujo som do jazigo te exuma,
Beethoven chora e geme, em lúgubre surdina...
Há um êxtase em redor. Dorme o arvoredo. Alguma
Cousa indizível paira entre o alvor da neblina,
E a alma da solidão, que um mistério perfuma,
Enche a terra em torpor de uma angústia divina...
E, à música de dor, que na bruma se espalha,
Surgem alvas visões... Há um rumor de mortalha...
Deslizam, sob o luar, Desdêmona e Cordélia...
E, na sombra, a espreitar a ampla noite, que o pasma
Passa do pobre Hanleto o dorido fantasma,
A arrastar, pela cinta, o cadáver de Ofélia...
Silêncio. Ar medieval de algum convento em ruína...
Num piano, cujo som do jazigo te exuma,
Beethoven chora e geme, em lúgubre surdina...
Há um êxtase em redor. Dorme o arvoredo. Alguma
Cousa indizível paira entre o alvor da neblina,
E a alma da solidão, que um mistério perfuma,
Enche a terra em torpor de uma angústia divina...
E, à música de dor, que na bruma se espalha,
Surgem alvas visões... Há um rumor de mortalha...
Deslizam, sob o luar, Desdêmona e Cordélia...
E, na sombra, a espreitar a ampla noite, que o pasma
Passa do pobre Hanleto o dorido fantasma,
A arrastar, pela cinta, o cadáver de Ofélia...
960
Irineu Filho
Caravana
No alto do céu o sol fuzila...
Embaixo se abre amplo deserto:
Desolação funda e tranqüila
Ao longe paira, paira perto...
Embaixo se abre amplo deserto...
E nem, sequer, um ruído tento
Ao longe paira, paira perto,
Nem mesmo sopra um débil vento.
E nem, sequer, um ruído lento
Quebra, por fim, tal solidão,
Nem mesmo sopra um débil vento,
Fazendo erguer o pó do chão...
Quebra, por fim, tal solidão
Grande tropel que, em marcha insana,
Fazendo erguer o pó do chão,
Vem caminhando — é a caravana!
Grande tropel que, em marcha insana,
Pela planície zombadora
Vem caminhando — é a Caravana
Morta de sede abrasadora!...
Pela planície zombadora
Ei-la que passa e segue adiante,
Morta de sede abrasadora,
Penosamente, vacilante...
Ei-la que passa e segue adiante...
E, sombra, agora, além se desfaz,
Penosamente, vacilante...
Tristeza cruel volve tenaz.
Embaixo se abre amplo deserto:
Desolação funda e tranqüila
Ao longe paira, paira perto...
Embaixo se abre amplo deserto...
E nem, sequer, um ruído tento
Ao longe paira, paira perto,
Nem mesmo sopra um débil vento.
E nem, sequer, um ruído lento
Quebra, por fim, tal solidão,
Nem mesmo sopra um débil vento,
Fazendo erguer o pó do chão...
Quebra, por fim, tal solidão
Grande tropel que, em marcha insana,
Fazendo erguer o pó do chão,
Vem caminhando — é a caravana!
Grande tropel que, em marcha insana,
Pela planície zombadora
Vem caminhando — é a Caravana
Morta de sede abrasadora!...
Pela planície zombadora
Ei-la que passa e segue adiante,
Morta de sede abrasadora,
Penosamente, vacilante...
Ei-la que passa e segue adiante...
E, sombra, agora, além se desfaz,
Penosamente, vacilante...
Tristeza cruel volve tenaz.
1 038
Irineu Filho
Caravana
No alto do céu o sol fuzila...
Embaixo se abre amplo deserto:
Desolação funda e tranqüila
Ao longe paira, paira perto...
Embaixo se abre amplo deserto...
E nem, sequer, um ruído tento
Ao longe paira, paira perto,
Nem mesmo sopra um débil vento.
E nem, sequer, um ruído lento
Quebra, por fim, tal solidão,
Nem mesmo sopra um débil vento,
Fazendo erguer o pó do chão...
Quebra, por fim, tal solidão
Grande tropel que, em marcha insana,
Fazendo erguer o pó do chão,
Vem caminhando — é a caravana!
Grande tropel que, em marcha insana,
Pela planície zombadora
Vem caminhando — é a Caravana
Morta de sede abrasadora!...
Pela planície zombadora
Ei-la que passa e segue adiante,
Morta de sede abrasadora,
Penosamente, vacilante...
Ei-la que passa e segue adiante...
E, sombra, agora, além se desfaz,
Penosamente, vacilante...
Tristeza cruel volve tenaz.
Embaixo se abre amplo deserto:
Desolação funda e tranqüila
Ao longe paira, paira perto...
Embaixo se abre amplo deserto...
E nem, sequer, um ruído tento
Ao longe paira, paira perto,
Nem mesmo sopra um débil vento.
E nem, sequer, um ruído lento
Quebra, por fim, tal solidão,
Nem mesmo sopra um débil vento,
Fazendo erguer o pó do chão...
Quebra, por fim, tal solidão
Grande tropel que, em marcha insana,
Fazendo erguer o pó do chão,
Vem caminhando — é a caravana!
Grande tropel que, em marcha insana,
Pela planície zombadora
Vem caminhando — é a Caravana
Morta de sede abrasadora!...
Pela planície zombadora
Ei-la que passa e segue adiante,
Morta de sede abrasadora,
Penosamente, vacilante...
Ei-la que passa e segue adiante...
E, sombra, agora, além se desfaz,
Penosamente, vacilante...
Tristeza cruel volve tenaz.
1 038
Félix Pacheco
Ofertório
Cerca-te a nobre fronte uma auréola bendita.
Na nostalgia azul dos teus olhares leio
Uma Balada atroz com Lágrimas escrita.
És para mim, ó Mãe, o vigoroso esteio
Que sustenta de pé a velha e augusta Cripta,
A colunata de oiro erguida em frágil seio,
Para amparar a Torre Astral dos Meus Cismares,
E impedir que ela tombe, em pó desfeita, em ruínas.
A tua voz espalha, em ondas, pelos ares,
Suaves, doridos sons de aflitivas surdinas,
Enchendo o Oceano, enchendo os Céus, enchendo os Mundos.
Como um Réquiem cantado através de neblinas.
Vieste para extinguir os tormentos profundos!
Vieste para apagar as velhas cicatrizes,
Para descortinar o Céu aos moribundos!
Vieste para aliviar a Dor dos infelizes!
Vieste para espancar as Trevas de MinhAlma,
Para arrancar à Dor as rígidas raízes!
Arcanjo de asa branca e protetora espalma,
Emissário de Deus, ó Mãe, tu me trouxeste,
Como uma Bênção do Alto, a esplendorosa calma.
Abrandas a Agonia, exterminas a Peste,
Escravizas o Leão ao teu olhar piedoso,
E o Corvo teme, e o Tigre, a alvura que te veste.
Arcanjo, Santa, Lírio, Estrela, Sol glorioso,
Filtro que os Corações Humanos fortalece,
Tamareira que ensombra o deserto arenoso,
Mater! Suprema Força! Acolhe minha prece!
Na nostalgia azul dos teus olhares leio
Uma Balada atroz com Lágrimas escrita.
És para mim, ó Mãe, o vigoroso esteio
Que sustenta de pé a velha e augusta Cripta,
A colunata de oiro erguida em frágil seio,
Para amparar a Torre Astral dos Meus Cismares,
E impedir que ela tombe, em pó desfeita, em ruínas.
A tua voz espalha, em ondas, pelos ares,
Suaves, doridos sons de aflitivas surdinas,
Enchendo o Oceano, enchendo os Céus, enchendo os Mundos.
Como um Réquiem cantado através de neblinas.
Vieste para extinguir os tormentos profundos!
Vieste para apagar as velhas cicatrizes,
Para descortinar o Céu aos moribundos!
Vieste para aliviar a Dor dos infelizes!
Vieste para espancar as Trevas de MinhAlma,
Para arrancar à Dor as rígidas raízes!
Arcanjo de asa branca e protetora espalma,
Emissário de Deus, ó Mãe, tu me trouxeste,
Como uma Bênção do Alto, a esplendorosa calma.
Abrandas a Agonia, exterminas a Peste,
Escravizas o Leão ao teu olhar piedoso,
E o Corvo teme, e o Tigre, a alvura que te veste.
Arcanjo, Santa, Lírio, Estrela, Sol glorioso,
Filtro que os Corações Humanos fortalece,
Tamareira que ensombra o deserto arenoso,
Mater! Suprema Força! Acolhe minha prece!
982
Ernâni Rosas
Depois de te Sonhar
Depois de Te sonhar Mistério ido
e .seguir-Te e ouvir-Te em Hora leda,
de vesti teu Ser a raios de Astro e Olvido,
de Antigüidade o teu perfil de Moeda.
Parei depois de haver corrido tanto
e amado e urdido Horas de Sonho-Asa?
constelada de azul fulgor de brasa
por Tardes enlaivadas de quebranto...
Sonho em Cristal teu corpo de Champagne?
mansa luz que morrendo sem alarde,
não há sol de crepúsculo, que a estranhe...
Acordas do teu Sono, para Mim!
nos meus olhos à sombra, para a Tarde...
por que surges em Sonhos num jardim?
e .seguir-Te e ouvir-Te em Hora leda,
de vesti teu Ser a raios de Astro e Olvido,
de Antigüidade o teu perfil de Moeda.
Parei depois de haver corrido tanto
e amado e urdido Horas de Sonho-Asa?
constelada de azul fulgor de brasa
por Tardes enlaivadas de quebranto...
Sonho em Cristal teu corpo de Champagne?
mansa luz que morrendo sem alarde,
não há sol de crepúsculo, que a estranhe...
Acordas do teu Sono, para Mim!
nos meus olhos à sombra, para a Tarde...
por que surges em Sonhos num jardim?
1 148
Félix Pacheco
Símbolo dos Símbolos
Caveira! Tu conténs a Síntese do Mundo!
Trazes dentro de ti o impalpável Mistério.
És o louro mudado em tinhorão funéreo,
És o Azul transformado em báratro profundo!
Destronados Satãs de olhar meditabundo,
Andam dentro de ti como num cemitério,
E os Faustos doutorais, de aspecto mudo e sério,
Descem do informe Caos ao tenebroso fundo.
Cabalístico signo exótico do Nada,
Sofres, e a tua Dor, Caveira, é sufocada,
Gemes, e o teu gemido esvai-se em Ironia...
Resta-te agora só, depois de tantas glórias,
A lembrança cruel das passadas vitórias
E essa amar a expressão de funda nostalgia!
Trazes dentro de ti o impalpável Mistério.
És o louro mudado em tinhorão funéreo,
És o Azul transformado em báratro profundo!
Destronados Satãs de olhar meditabundo,
Andam dentro de ti como num cemitério,
E os Faustos doutorais, de aspecto mudo e sério,
Descem do informe Caos ao tenebroso fundo.
Cabalístico signo exótico do Nada,
Sofres, e a tua Dor, Caveira, é sufocada,
Gemes, e o teu gemido esvai-se em Ironia...
Resta-te agora só, depois de tantas glórias,
A lembrança cruel das passadas vitórias
E essa amar a expressão de funda nostalgia!
1 029
Félix Pacheco
Símbolo dos Símbolos
Caveira! Tu conténs a Síntese do Mundo!
Trazes dentro de ti o impalpável Mistério.
És o louro mudado em tinhorão funéreo,
És o Azul transformado em báratro profundo!
Destronados Satãs de olhar meditabundo,
Andam dentro de ti como num cemitério,
E os Faustos doutorais, de aspecto mudo e sério,
Descem do informe Caos ao tenebroso fundo.
Cabalístico signo exótico do Nada,
Sofres, e a tua Dor, Caveira, é sufocada,
Gemes, e o teu gemido esvai-se em Ironia...
Resta-te agora só, depois de tantas glórias,
A lembrança cruel das passadas vitórias
E essa amar a expressão de funda nostalgia!
Trazes dentro de ti o impalpável Mistério.
És o louro mudado em tinhorão funéreo,
És o Azul transformado em báratro profundo!
Destronados Satãs de olhar meditabundo,
Andam dentro de ti como num cemitério,
E os Faustos doutorais, de aspecto mudo e sério,
Descem do informe Caos ao tenebroso fundo.
Cabalístico signo exótico do Nada,
Sofres, e a tua Dor, Caveira, é sufocada,
Gemes, e o teu gemido esvai-se em Ironia...
Resta-te agora só, depois de tantas glórias,
A lembrança cruel das passadas vitórias
E essa amar a expressão de funda nostalgia!
1 029
Félix Pacheco
Símbolo dos Símbolos
Caveira! Tu conténs a Síntese do Mundo!
Trazes dentro de ti o impalpável Mistério.
És o louro mudado em tinhorão funéreo,
És o Azul transformado em báratro profundo!
Destronados Satãs de olhar meditabundo,
Andam dentro de ti como num cemitério,
E os Faustos doutorais, de aspecto mudo e sério,
Descem do informe Caos ao tenebroso fundo.
Cabalístico signo exótico do Nada,
Sofres, e a tua Dor, Caveira, é sufocada,
Gemes, e o teu gemido esvai-se em Ironia...
Resta-te agora só, depois de tantas glórias,
A lembrança cruel das passadas vitórias
E essa amar a expressão de funda nostalgia!
Trazes dentro de ti o impalpável Mistério.
És o louro mudado em tinhorão funéreo,
És o Azul transformado em báratro profundo!
Destronados Satãs de olhar meditabundo,
Andam dentro de ti como num cemitério,
E os Faustos doutorais, de aspecto mudo e sério,
Descem do informe Caos ao tenebroso fundo.
Cabalístico signo exótico do Nada,
Sofres, e a tua Dor, Caveira, é sufocada,
Gemes, e o teu gemido esvai-se em Ironia...
Resta-te agora só, depois de tantas glórias,
A lembrança cruel das passadas vitórias
E essa amar a expressão de funda nostalgia!
1 029
Everaldo Moreira Verás
Possessão
Me lembro quando tua mão pousou sobre minha mão.
O quarto, no escuro, tinha sido a cela escolhida.
A madrugada branca nos disse
que nunca mais o dia raiava.
Aí,
te apertei contra mim,
o lençol quente nos uniu.
Na rua, a luz do poste marcava, no chão,
a hora estranha de esquecer a fuga.
Baixinho murmurei o teu segredo
e a voz era doce mentira de amor.
Então,
entrei no teu corpo virgem
a tua alma me possui depois,
quase chuvamente mulher.
O quarto, no escuro, tinha sido a cela escolhida.
A madrugada branca nos disse
que nunca mais o dia raiava.
Aí,
te apertei contra mim,
o lençol quente nos uniu.
Na rua, a luz do poste marcava, no chão,
a hora estranha de esquecer a fuga.
Baixinho murmurei o teu segredo
e a voz era doce mentira de amor.
Então,
entrei no teu corpo virgem
a tua alma me possui depois,
quase chuvamente mulher.
920
Eduardo Guimaraens
Doçura de Estar Só
Doçura de estar só quando a alma torce as mãos!
— Oh! doçura que tu, Silêncio, unicamente
sabes dar a quem sonha e sofre em ser o Ausente,
ao lento perpassar destes instantes vãos!
Doçura de estar só quando alguém pensa em nós!
De amar e de evocar, pelo esplendor secreto
e pálido de uma hora em que ao Seu lábio inquieto
floresce, como um lírio estranho, a Sua voz!
E os lustres de cristal! E as teclas de marfim!
E os candelabros que, olvidados, se apagaram
E a saudade, acordando as vozes que calaram!
Doçura de estar só quando finda o festim!
Doçura de estar só, calado e sem ninguém!
Dolência de um murmúrio em flor que a sombra exala,
sob o fulgor da noite aureolada de opala
que uma urna de astros de ouro ao seio azul sustém!
Doçura de estar sós Silêncio e solidão!
Ó fantasma que vens do sonho e do abandono,
dá-me que eu durma ao pé de ti do mesmo sono!
Fecha entre as tuas mãos as minhas mãos de irmão!
— Oh! doçura que tu, Silêncio, unicamente
sabes dar a quem sonha e sofre em ser o Ausente,
ao lento perpassar destes instantes vãos!
Doçura de estar só quando alguém pensa em nós!
De amar e de evocar, pelo esplendor secreto
e pálido de uma hora em que ao Seu lábio inquieto
floresce, como um lírio estranho, a Sua voz!
E os lustres de cristal! E as teclas de marfim!
E os candelabros que, olvidados, se apagaram
E a saudade, acordando as vozes que calaram!
Doçura de estar só quando finda o festim!
Doçura de estar só, calado e sem ninguém!
Dolência de um murmúrio em flor que a sombra exala,
sob o fulgor da noite aureolada de opala
que uma urna de astros de ouro ao seio azul sustém!
Doçura de estar sós Silêncio e solidão!
Ó fantasma que vens do sonho e do abandono,
dá-me que eu durma ao pé de ti do mesmo sono!
Fecha entre as tuas mãos as minhas mãos de irmão!
1 118
Eduardo Guimaraens
Doçura de Estar Só
Doçura de estar só quando a alma torce as mãos!
— Oh! doçura que tu, Silêncio, unicamente
sabes dar a quem sonha e sofre em ser o Ausente,
ao lento perpassar destes instantes vãos!
Doçura de estar só quando alguém pensa em nós!
De amar e de evocar, pelo esplendor secreto
e pálido de uma hora em que ao Seu lábio inquieto
floresce, como um lírio estranho, a Sua voz!
E os lustres de cristal! E as teclas de marfim!
E os candelabros que, olvidados, se apagaram
E a saudade, acordando as vozes que calaram!
Doçura de estar só quando finda o festim!
Doçura de estar só, calado e sem ninguém!
Dolência de um murmúrio em flor que a sombra exala,
sob o fulgor da noite aureolada de opala
que uma urna de astros de ouro ao seio azul sustém!
Doçura de estar sós Silêncio e solidão!
Ó fantasma que vens do sonho e do abandono,
dá-me que eu durma ao pé de ti do mesmo sono!
Fecha entre as tuas mãos as minhas mãos de irmão!
— Oh! doçura que tu, Silêncio, unicamente
sabes dar a quem sonha e sofre em ser o Ausente,
ao lento perpassar destes instantes vãos!
Doçura de estar só quando alguém pensa em nós!
De amar e de evocar, pelo esplendor secreto
e pálido de uma hora em que ao Seu lábio inquieto
floresce, como um lírio estranho, a Sua voz!
E os lustres de cristal! E as teclas de marfim!
E os candelabros que, olvidados, se apagaram
E a saudade, acordando as vozes que calaram!
Doçura de estar só quando finda o festim!
Doçura de estar só, calado e sem ninguém!
Dolência de um murmúrio em flor que a sombra exala,
sob o fulgor da noite aureolada de opala
que uma urna de astros de ouro ao seio azul sustém!
Doçura de estar sós Silêncio e solidão!
Ó fantasma que vens do sonho e do abandono,
dá-me que eu durma ao pé de ti do mesmo sono!
Fecha entre as tuas mãos as minhas mãos de irmão!
1 118
Cruz Filho
A Ilusão do Sapo
A Alf. Castro
Aos pinchos, pela sombra, indolente e moroso,
O batráquio estacou do grande poço à borda,
E um momento quedou, como quem se recorda,
Surpreso ante a visão do tanque silencioso.
Ao fundo, onde do céu, que de nuvens se borda,
Reflexa a imagem vê — pelo céu luminoso
Vê da Lua pairar o áureo disco radioso:
E o disforme animal de júbilo transborda...
Um momento quedou, mudo e perplexo. Ao centro,
A tentá-lo, a ilusão do astro de ouro flutua,
E o monstro eis que se arroja, a súbitas, lá dentro!
E a água convulsionou-se entre encíclias ondeantes,
Num naufrágio de luz em que perece a Lua
Dissolvida em rubis, topázios e diamantes.
Aos pinchos, pela sombra, indolente e moroso,
O batráquio estacou do grande poço à borda,
E um momento quedou, como quem se recorda,
Surpreso ante a visão do tanque silencioso.
Ao fundo, onde do céu, que de nuvens se borda,
Reflexa a imagem vê — pelo céu luminoso
Vê da Lua pairar o áureo disco radioso:
E o disforme animal de júbilo transborda...
Um momento quedou, mudo e perplexo. Ao centro,
A tentá-lo, a ilusão do astro de ouro flutua,
E o monstro eis que se arroja, a súbitas, lá dentro!
E a água convulsionou-se entre encíclias ondeantes,
Num naufrágio de luz em que perece a Lua
Dissolvida em rubis, topázios e diamantes.
812
César William
Labirinto
Libertei-me da muralha,
Agora sou escravo das profecias.
Estou nutrindo-me de migalha
Em cada canto das periferias.
Agora sou hálito infame
No cume da cumplicidade.
Entre mil doenças... "Derrame"...
A centelha da humanidade.
Continuo perdido
À procura de outra "muralha"
Agora sou parto ferido
Nutrindo-me de nova migalha...
De nada adiantaram as leituras
Se agora sou somente vestígio
em um ermo de mil amarguras
Não sei mais o que fazer (perdi o prestígio)
Sou agora o único sobrevivente
Deste labirinto medonho.
Preciso de um verso urgente
Para findar este sonho...
Agora sou escravo das profecias.
Estou nutrindo-me de migalha
Em cada canto das periferias.
Agora sou hálito infame
No cume da cumplicidade.
Entre mil doenças... "Derrame"...
A centelha da humanidade.
Continuo perdido
À procura de outra "muralha"
Agora sou parto ferido
Nutrindo-me de nova migalha...
De nada adiantaram as leituras
Se agora sou somente vestígio
em um ermo de mil amarguras
Não sei mais o que fazer (perdi o prestígio)
Sou agora o único sobrevivente
Deste labirinto medonho.
Preciso de um verso urgente
Para findar este sonho...
785
Danilo Melo
Náuseas
Saltitante entre as marquises
O desespero revelado de cada dia
Aqui jaz a substância humana
Armazenada em programas de computador
E a carne meus amigos,
A carne finge que é bela.
Crônicas do massacre urbano e livre
O amor enlatado e vendido com etiquetas de 1a qualidade
Aqui descreve-se a moral do ocidente escrita em boas maneiras.
Promíscua continua a poesia procurando a existência
Deserto é o coração, o homem permanece cheio
Todo o cosmo ri de mim quando faço poemas
minha linguagem é de um mundo atrasado
Preocupado eternamente com a morte, em vez da vida.
Sente-se fome de si, e náusea.
O desespero revelado de cada dia
Aqui jaz a substância humana
Armazenada em programas de computador
E a carne meus amigos,
A carne finge que é bela.
Crônicas do massacre urbano e livre
O amor enlatado e vendido com etiquetas de 1a qualidade
Aqui descreve-se a moral do ocidente escrita em boas maneiras.
Promíscua continua a poesia procurando a existência
Deserto é o coração, o homem permanece cheio
Todo o cosmo ri de mim quando faço poemas
minha linguagem é de um mundo atrasado
Preocupado eternamente com a morte, em vez da vida.
Sente-se fome de si, e náusea.
427
Danilo Melo
Náuseas
Saltitante entre as marquises
O desespero revelado de cada dia
Aqui jaz a substância humana
Armazenada em programas de computador
E a carne meus amigos,
A carne finge que é bela.
Crônicas do massacre urbano e livre
O amor enlatado e vendido com etiquetas de 1a qualidade
Aqui descreve-se a moral do ocidente escrita em boas maneiras.
Promíscua continua a poesia procurando a existência
Deserto é o coração, o homem permanece cheio
Todo o cosmo ri de mim quando faço poemas
minha linguagem é de um mundo atrasado
Preocupado eternamente com a morte, em vez da vida.
Sente-se fome de si, e náusea.
O desespero revelado de cada dia
Aqui jaz a substância humana
Armazenada em programas de computador
E a carne meus amigos,
A carne finge que é bela.
Crônicas do massacre urbano e livre
O amor enlatado e vendido com etiquetas de 1a qualidade
Aqui descreve-se a moral do ocidente escrita em boas maneiras.
Promíscua continua a poesia procurando a existência
Deserto é o coração, o homem permanece cheio
Todo o cosmo ri de mim quando faço poemas
minha linguagem é de um mundo atrasado
Preocupado eternamente com a morte, em vez da vida.
Sente-se fome de si, e náusea.
427
Ferro do Lago
Soneto
As horas escorrem lentas
na goteira dos segundos:
dentro das tardes cinzentas
erram lamentos profundos.
As estrelas sonolentas
são olhos de moribundos,
refletem lutas cruentas
desenroladas nos mundos...
Sou triste, porém me oculto
dos outros, no desencanto
que é meu e de mais ninguém:
não quero, em meio ao tumulto
dos tristes, sorver o espanto
que os encarcera também.
na goteira dos segundos:
dentro das tardes cinzentas
erram lamentos profundos.
As estrelas sonolentas
são olhos de moribundos,
refletem lutas cruentas
desenroladas nos mundos...
Sou triste, porém me oculto
dos outros, no desencanto
que é meu e de mais ninguém:
não quero, em meio ao tumulto
dos tristes, sorver o espanto
que os encarcera também.
931
Ferro do Lago
Soneto
As horas escorrem lentas
na goteira dos segundos:
dentro das tardes cinzentas
erram lamentos profundos.
As estrelas sonolentas
são olhos de moribundos,
refletem lutas cruentas
desenroladas nos mundos...
Sou triste, porém me oculto
dos outros, no desencanto
que é meu e de mais ninguém:
não quero, em meio ao tumulto
dos tristes, sorver o espanto
que os encarcera também.
na goteira dos segundos:
dentro das tardes cinzentas
erram lamentos profundos.
As estrelas sonolentas
são olhos de moribundos,
refletem lutas cruentas
desenroladas nos mundos...
Sou triste, porém me oculto
dos outros, no desencanto
que é meu e de mais ninguém:
não quero, em meio ao tumulto
dos tristes, sorver o espanto
que os encarcera também.
931
Dário Veloso
No Reino Das Sombras
Plenilúnio. O luar molha as colunas dóricas...
junto ao pronaos medito, evocando o teu rosto,
Que saudade de ti, dessa tarde de agosto,
De tintas outonais e visões alegóricas!
Saudade!... O coração lembra idades históricas...
Na Atlântida eras tu pitonisa... Ao sol posto,
Dizias da alma irmã os arcanos... Teu rosto
Banhava-se na luz das estrelas simbólicas...
Tantas vezes perdida! Imerso em luz ou treva,
De vida em vida, à flor do céu, te procurava,
Na dor da solidão... E, quando a Lua eleva
A lâmpada votiva, eu te procuro ainda,
— Alma branca, alma irmã, alma em flor, alma eslava,
Na poeira de sóis da solitude infinda.
junto ao pronaos medito, evocando o teu rosto,
Que saudade de ti, dessa tarde de agosto,
De tintas outonais e visões alegóricas!
Saudade!... O coração lembra idades históricas...
Na Atlântida eras tu pitonisa... Ao sol posto,
Dizias da alma irmã os arcanos... Teu rosto
Banhava-se na luz das estrelas simbólicas...
Tantas vezes perdida! Imerso em luz ou treva,
De vida em vida, à flor do céu, te procurava,
Na dor da solidão... E, quando a Lua eleva
A lâmpada votiva, eu te procuro ainda,
— Alma branca, alma irmã, alma em flor, alma eslava,
Na poeira de sóis da solitude infinda.
1 164
Dário Veloso
No Reino Das Sombras
Plenilúnio. O luar molha as colunas dóricas...
junto ao pronaos medito, evocando o teu rosto,
Que saudade de ti, dessa tarde de agosto,
De tintas outonais e visões alegóricas!
Saudade!... O coração lembra idades históricas...
Na Atlântida eras tu pitonisa... Ao sol posto,
Dizias da alma irmã os arcanos... Teu rosto
Banhava-se na luz das estrelas simbólicas...
Tantas vezes perdida! Imerso em luz ou treva,
De vida em vida, à flor do céu, te procurava,
Na dor da solidão... E, quando a Lua eleva
A lâmpada votiva, eu te procuro ainda,
— Alma branca, alma irmã, alma em flor, alma eslava,
Na poeira de sóis da solitude infinda.
junto ao pronaos medito, evocando o teu rosto,
Que saudade de ti, dessa tarde de agosto,
De tintas outonais e visões alegóricas!
Saudade!... O coração lembra idades históricas...
Na Atlântida eras tu pitonisa... Ao sol posto,
Dizias da alma irmã os arcanos... Teu rosto
Banhava-se na luz das estrelas simbólicas...
Tantas vezes perdida! Imerso em luz ou treva,
De vida em vida, à flor do céu, te procurava,
Na dor da solidão... E, quando a Lua eleva
A lâmpada votiva, eu te procuro ainda,
— Alma branca, alma irmã, alma em flor, alma eslava,
Na poeira de sóis da solitude infinda.
1 164
Domingos do Nascimento
Meu Lar!
Eu sou da terra dos lírios bravos
Que pendem a haste por sobre o mar.
Por entre lírios vermelham cravos...
Branco e vermelho... fico a cismar!
Fico a cismar nos lírios e nos cravos
Que pendem a haste por sobre o mar.
Minha casita branca de neve,
Com telhas rubras, era um primor.
Minha casita que encantos teve...
Hoje tapera, sem riso ou flor!
Fico a cismar na graça que já teve...
Com telhas rubras, era um primor!
Olha as moçoilas subindo os montes,
Chapéu de palha, saiote curto!
Belas morenas descendo às fontes,
Bilhas à coifa, pezinho a furto...
Fico a cismar nas moças lá dos montes,
Chapéu de palha, saiote curto.
E a minha dama era alva de neve,
De lábios rubros, botão de flor.
A minha dama que olhos já teve,
Escrava agora de outro senhor!
Fico a cismar nos olhos que já teve,
De lábios rubros, botão de flor.
Eu sou da terra dos brancos lírios,
Dos lindos mares, bravos, chorosos...
No céu escuro crepitam círios,
E os ventos gemem, tristes, saudosos!
Fico a cismar que velam tantos círios
Os lindos mares, bravos, chorosos...
A dor eterna seja contigo,
Coração fiel, mar tormentoso
Meu companheiro, meu velho amigo!
Quando te sinto soberbo e iroso,
Fico a cismar em ti, que estás comigo.
Coração fiel, mar tormentoso
Eu sou da terra dos liriais...
... Branca de neve... seios de amora...
— Que lindo rastro nos areais!
A noite foge, resplende a aurora...
Fico a cismar por sobre os areais:
— Branca de neve... seios de amora...
O mar soluça beijando a praia...
— Não mais te beijo, botão de flor,
A onda ruge, a onda desmaia...
Gemo... Saudades de tanto amor!
Fico a cismar se aquela flor desmaia...
... Não mais te beijo, botão de flor!
Que pendem a haste por sobre o mar.
Por entre lírios vermelham cravos...
Branco e vermelho... fico a cismar!
Fico a cismar nos lírios e nos cravos
Que pendem a haste por sobre o mar.
Minha casita branca de neve,
Com telhas rubras, era um primor.
Minha casita que encantos teve...
Hoje tapera, sem riso ou flor!
Fico a cismar na graça que já teve...
Com telhas rubras, era um primor!
Olha as moçoilas subindo os montes,
Chapéu de palha, saiote curto!
Belas morenas descendo às fontes,
Bilhas à coifa, pezinho a furto...
Fico a cismar nas moças lá dos montes,
Chapéu de palha, saiote curto.
E a minha dama era alva de neve,
De lábios rubros, botão de flor.
A minha dama que olhos já teve,
Escrava agora de outro senhor!
Fico a cismar nos olhos que já teve,
De lábios rubros, botão de flor.
Eu sou da terra dos brancos lírios,
Dos lindos mares, bravos, chorosos...
No céu escuro crepitam círios,
E os ventos gemem, tristes, saudosos!
Fico a cismar que velam tantos círios
Os lindos mares, bravos, chorosos...
A dor eterna seja contigo,
Coração fiel, mar tormentoso
Meu companheiro, meu velho amigo!
Quando te sinto soberbo e iroso,
Fico a cismar em ti, que estás comigo.
Coração fiel, mar tormentoso
Eu sou da terra dos liriais...
... Branca de neve... seios de amora...
— Que lindo rastro nos areais!
A noite foge, resplende a aurora...
Fico a cismar por sobre os areais:
— Branca de neve... seios de amora...
O mar soluça beijando a praia...
— Não mais te beijo, botão de flor,
A onda ruge, a onda desmaia...
Gemo... Saudades de tanto amor!
Fico a cismar se aquela flor desmaia...
... Não mais te beijo, botão de flor!
943
Domingos do Nascimento
Meu Lar!
Eu sou da terra dos lírios bravos
Que pendem a haste por sobre o mar.
Por entre lírios vermelham cravos...
Branco e vermelho... fico a cismar!
Fico a cismar nos lírios e nos cravos
Que pendem a haste por sobre o mar.
Minha casita branca de neve,
Com telhas rubras, era um primor.
Minha casita que encantos teve...
Hoje tapera, sem riso ou flor!
Fico a cismar na graça que já teve...
Com telhas rubras, era um primor!
Olha as moçoilas subindo os montes,
Chapéu de palha, saiote curto!
Belas morenas descendo às fontes,
Bilhas à coifa, pezinho a furto...
Fico a cismar nas moças lá dos montes,
Chapéu de palha, saiote curto.
E a minha dama era alva de neve,
De lábios rubros, botão de flor.
A minha dama que olhos já teve,
Escrava agora de outro senhor!
Fico a cismar nos olhos que já teve,
De lábios rubros, botão de flor.
Eu sou da terra dos brancos lírios,
Dos lindos mares, bravos, chorosos...
No céu escuro crepitam círios,
E os ventos gemem, tristes, saudosos!
Fico a cismar que velam tantos círios
Os lindos mares, bravos, chorosos...
A dor eterna seja contigo,
Coração fiel, mar tormentoso
Meu companheiro, meu velho amigo!
Quando te sinto soberbo e iroso,
Fico a cismar em ti, que estás comigo.
Coração fiel, mar tormentoso
Eu sou da terra dos liriais...
... Branca de neve... seios de amora...
— Que lindo rastro nos areais!
A noite foge, resplende a aurora...
Fico a cismar por sobre os areais:
— Branca de neve... seios de amora...
O mar soluça beijando a praia...
— Não mais te beijo, botão de flor,
A onda ruge, a onda desmaia...
Gemo... Saudades de tanto amor!
Fico a cismar se aquela flor desmaia...
... Não mais te beijo, botão de flor!
Que pendem a haste por sobre o mar.
Por entre lírios vermelham cravos...
Branco e vermelho... fico a cismar!
Fico a cismar nos lírios e nos cravos
Que pendem a haste por sobre o mar.
Minha casita branca de neve,
Com telhas rubras, era um primor.
Minha casita que encantos teve...
Hoje tapera, sem riso ou flor!
Fico a cismar na graça que já teve...
Com telhas rubras, era um primor!
Olha as moçoilas subindo os montes,
Chapéu de palha, saiote curto!
Belas morenas descendo às fontes,
Bilhas à coifa, pezinho a furto...
Fico a cismar nas moças lá dos montes,
Chapéu de palha, saiote curto.
E a minha dama era alva de neve,
De lábios rubros, botão de flor.
A minha dama que olhos já teve,
Escrava agora de outro senhor!
Fico a cismar nos olhos que já teve,
De lábios rubros, botão de flor.
Eu sou da terra dos brancos lírios,
Dos lindos mares, bravos, chorosos...
No céu escuro crepitam círios,
E os ventos gemem, tristes, saudosos!
Fico a cismar que velam tantos círios
Os lindos mares, bravos, chorosos...
A dor eterna seja contigo,
Coração fiel, mar tormentoso
Meu companheiro, meu velho amigo!
Quando te sinto soberbo e iroso,
Fico a cismar em ti, que estás comigo.
Coração fiel, mar tormentoso
Eu sou da terra dos liriais...
... Branca de neve... seios de amora...
— Que lindo rastro nos areais!
A noite foge, resplende a aurora...
Fico a cismar por sobre os areais:
— Branca de neve... seios de amora...
O mar soluça beijando a praia...
— Não mais te beijo, botão de flor,
A onda ruge, a onda desmaia...
Gemo... Saudades de tanto amor!
Fico a cismar se aquela flor desmaia...
... Não mais te beijo, botão de flor!
943
Everaldo Moreira Verás
Descer
A noite foi toda de desordem.
Tu sangravas o suor sedento
que vinha das entranhas de mim.
E a boca engolia o beijo
como se isso fosse o último adeus.
Os seios ardiam (pudins de morango)
e eu os devorei ansiosamente homem
temendo chegar a madrugada.
Percorri teu corpo quase em chamas
minha cabeça parecia um rolo compressor.
E fui descendo
descendo
descendo
até enlouquecer na entrada daquele túnel vivo.
Nunca, nunca um homem desceu tanto!
Tu sangravas o suor sedento
que vinha das entranhas de mim.
E a boca engolia o beijo
como se isso fosse o último adeus.
Os seios ardiam (pudins de morango)
e eu os devorei ansiosamente homem
temendo chegar a madrugada.
Percorri teu corpo quase em chamas
minha cabeça parecia um rolo compressor.
E fui descendo
descendo
descendo
até enlouquecer na entrada daquele túnel vivo.
Nunca, nunca um homem desceu tanto!
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