Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Francisco Mangabeira
Regina
Em alegrias fortes prorrompa
Nervosamente meu coração,
Que se celebra, com toda a pompa,
Um desvairado festim pagão.
Corra um delírio pelo Universo,
Que nem um homem pense sequer,
E ocupe o loiro sólio do Verso
A Imagem Branca duma Mulher!
A um riso dela, deixem os filhos
Mortas nas chamas as próprias mães,
E aos seus Pés tremam fracos, sem brilhos,
Os astros, como se fossem cães!
Lancem blasfêmias todas as bocas,
Os ares sejam um escarcéu,
As aves fiquem mortas ou loucas,
E as nuvens todas ardam no céu!
Raios e roncos de trovoadas
Venham o espaço negro ferir...
E, entre essas raivas desordenadas,
Ela, no sólio, branca, a sorrir.
Para de beijos encher o Ardente
Corpo da minha Deusa Pagã,
Eu quereria ser Deus clemente,
E choraria não ser Satã.
De almas sangrentas e cancerosas
Se erija um trono descomunal,
Onde ela se erga, nas Mãos Formosas
Sustendo um rubro, quente punhal.
Soluce o vento pelos espaços,
O oceano ferva cheio de dor,
E esmague peitos, crânios e braços
Seu Grande Carro Triunfador.
Quando Esse Carro Sombrio e Horrendo
Por sobre o sangue morno passar,
Cantarei sendo Satã — e sendo
Deus, pelas trevas irei chorar.
Depois os corpos estreitamente
Unamos, deles fazendo um só.
E então o Carro furiosamente
Os pise, unindo-os no mesmo pó.
Nervosamente meu coração,
Que se celebra, com toda a pompa,
Um desvairado festim pagão.
Corra um delírio pelo Universo,
Que nem um homem pense sequer,
E ocupe o loiro sólio do Verso
A Imagem Branca duma Mulher!
A um riso dela, deixem os filhos
Mortas nas chamas as próprias mães,
E aos seus Pés tremam fracos, sem brilhos,
Os astros, como se fossem cães!
Lancem blasfêmias todas as bocas,
Os ares sejam um escarcéu,
As aves fiquem mortas ou loucas,
E as nuvens todas ardam no céu!
Raios e roncos de trovoadas
Venham o espaço negro ferir...
E, entre essas raivas desordenadas,
Ela, no sólio, branca, a sorrir.
Para de beijos encher o Ardente
Corpo da minha Deusa Pagã,
Eu quereria ser Deus clemente,
E choraria não ser Satã.
De almas sangrentas e cancerosas
Se erija um trono descomunal,
Onde ela se erga, nas Mãos Formosas
Sustendo um rubro, quente punhal.
Soluce o vento pelos espaços,
O oceano ferva cheio de dor,
E esmague peitos, crânios e braços
Seu Grande Carro Triunfador.
Quando Esse Carro Sombrio e Horrendo
Por sobre o sangue morno passar,
Cantarei sendo Satã — e sendo
Deus, pelas trevas irei chorar.
Depois os corpos estreitamente
Unamos, deles fazendo um só.
E então o Carro furiosamente
Os pise, unindo-os no mesmo pó.
1 080
Francisco Mangabeira
Regina
Em alegrias fortes prorrompa
Nervosamente meu coração,
Que se celebra, com toda a pompa,
Um desvairado festim pagão.
Corra um delírio pelo Universo,
Que nem um homem pense sequer,
E ocupe o loiro sólio do Verso
A Imagem Branca duma Mulher!
A um riso dela, deixem os filhos
Mortas nas chamas as próprias mães,
E aos seus Pés tremam fracos, sem brilhos,
Os astros, como se fossem cães!
Lancem blasfêmias todas as bocas,
Os ares sejam um escarcéu,
As aves fiquem mortas ou loucas,
E as nuvens todas ardam no céu!
Raios e roncos de trovoadas
Venham o espaço negro ferir...
E, entre essas raivas desordenadas,
Ela, no sólio, branca, a sorrir.
Para de beijos encher o Ardente
Corpo da minha Deusa Pagã,
Eu quereria ser Deus clemente,
E choraria não ser Satã.
De almas sangrentas e cancerosas
Se erija um trono descomunal,
Onde ela se erga, nas Mãos Formosas
Sustendo um rubro, quente punhal.
Soluce o vento pelos espaços,
O oceano ferva cheio de dor,
E esmague peitos, crânios e braços
Seu Grande Carro Triunfador.
Quando Esse Carro Sombrio e Horrendo
Por sobre o sangue morno passar,
Cantarei sendo Satã — e sendo
Deus, pelas trevas irei chorar.
Depois os corpos estreitamente
Unamos, deles fazendo um só.
E então o Carro furiosamente
Os pise, unindo-os no mesmo pó.
Nervosamente meu coração,
Que se celebra, com toda a pompa,
Um desvairado festim pagão.
Corra um delírio pelo Universo,
Que nem um homem pense sequer,
E ocupe o loiro sólio do Verso
A Imagem Branca duma Mulher!
A um riso dela, deixem os filhos
Mortas nas chamas as próprias mães,
E aos seus Pés tremam fracos, sem brilhos,
Os astros, como se fossem cães!
Lancem blasfêmias todas as bocas,
Os ares sejam um escarcéu,
As aves fiquem mortas ou loucas,
E as nuvens todas ardam no céu!
Raios e roncos de trovoadas
Venham o espaço negro ferir...
E, entre essas raivas desordenadas,
Ela, no sólio, branca, a sorrir.
Para de beijos encher o Ardente
Corpo da minha Deusa Pagã,
Eu quereria ser Deus clemente,
E choraria não ser Satã.
De almas sangrentas e cancerosas
Se erija um trono descomunal,
Onde ela se erga, nas Mãos Formosas
Sustendo um rubro, quente punhal.
Soluce o vento pelos espaços,
O oceano ferva cheio de dor,
E esmague peitos, crânios e braços
Seu Grande Carro Triunfador.
Quando Esse Carro Sombrio e Horrendo
Por sobre o sangue morno passar,
Cantarei sendo Satã — e sendo
Deus, pelas trevas irei chorar.
Depois os corpos estreitamente
Unamos, deles fazendo um só.
E então o Carro furiosamente
Os pise, unindo-os no mesmo pó.
1 080
Fontoura Xavier
Pomo do Mal
Dimanam do teu corpo as grandes digitales,
Os filtros da lascívia e o sensualismo bruto!
Tudo que em ti revive é torpe e dissoluto,
Tu és a encarnação da síntese dos males.
No entanto, toda a vez que o seio te perscruto,
A transbordar de amor como o prazer de um cálix
Assalta-me um desejo, ó glória das Onfales!
— Morder-te o coração como se morde um fruto!
Então, se dentro dele um mal que à dor excite
Conténs de mais que o pomo estéril do Asfaltite,
Eu beberia a dor nos estos do delírio!...
E podias-me ouvir, excêntrico, medonho,
Como um canto de morte ao ritmo dum sonho,
O poema da carne a dobres de martírio!...
Os filtros da lascívia e o sensualismo bruto!
Tudo que em ti revive é torpe e dissoluto,
Tu és a encarnação da síntese dos males.
No entanto, toda a vez que o seio te perscruto,
A transbordar de amor como o prazer de um cálix
Assalta-me um desejo, ó glória das Onfales!
— Morder-te o coração como se morde um fruto!
Então, se dentro dele um mal que à dor excite
Conténs de mais que o pomo estéril do Asfaltite,
Eu beberia a dor nos estos do delírio!...
E podias-me ouvir, excêntrico, medonho,
Como um canto de morte ao ritmo dum sonho,
O poema da carne a dobres de martírio!...
1 296
Fontoura Xavier
Pomo do Mal
Dimanam do teu corpo as grandes digitales,
Os filtros da lascívia e o sensualismo bruto!
Tudo que em ti revive é torpe e dissoluto,
Tu és a encarnação da síntese dos males.
No entanto, toda a vez que o seio te perscruto,
A transbordar de amor como o prazer de um cálix
Assalta-me um desejo, ó glória das Onfales!
— Morder-te o coração como se morde um fruto!
Então, se dentro dele um mal que à dor excite
Conténs de mais que o pomo estéril do Asfaltite,
Eu beberia a dor nos estos do delírio!...
E podias-me ouvir, excêntrico, medonho,
Como um canto de morte ao ritmo dum sonho,
O poema da carne a dobres de martírio!...
Os filtros da lascívia e o sensualismo bruto!
Tudo que em ti revive é torpe e dissoluto,
Tu és a encarnação da síntese dos males.
No entanto, toda a vez que o seio te perscruto,
A transbordar de amor como o prazer de um cálix
Assalta-me um desejo, ó glória das Onfales!
— Morder-te o coração como se morde um fruto!
Então, se dentro dele um mal que à dor excite
Conténs de mais que o pomo estéril do Asfaltite,
Eu beberia a dor nos estos do delírio!...
E podias-me ouvir, excêntrico, medonho,
Como um canto de morte ao ritmo dum sonho,
O poema da carne a dobres de martírio!...
1 296
José Lannes
Confissão
Vou caminhando para ti, Senhor!
Perdoa a minha confissão sincera:
Vou lentamente e não como quisera,
que mal se pode caminhar na dor.
Atraso-me, a sentir, no meu horror,
a dúvida, que tanto me lacera...
Mas eu bem sei que o teu amor espera:
Se o não fizesse, não seria amor.
Muitos clamam, Senhor, toda a descrença...
Mas eu que sei a solidão imensa
de uma alma, em treva, neste mundo a ansiar,
sofro e calo... E se o espírito escarninho
mofa: — "Não tem saída este caminho",
responde o coração: — "Hei de chegar!"
Perdoa a minha confissão sincera:
Vou lentamente e não como quisera,
que mal se pode caminhar na dor.
Atraso-me, a sentir, no meu horror,
a dúvida, que tanto me lacera...
Mas eu bem sei que o teu amor espera:
Se o não fizesse, não seria amor.
Muitos clamam, Senhor, toda a descrença...
Mas eu que sei a solidão imensa
de uma alma, em treva, neste mundo a ansiar,
sofro e calo... E se o espírito escarninho
mofa: — "Não tem saída este caminho",
responde o coração: — "Hei de chegar!"
971
José Lannes
Confissão
Vou caminhando para ti, Senhor!
Perdoa a minha confissão sincera:
Vou lentamente e não como quisera,
que mal se pode caminhar na dor.
Atraso-me, a sentir, no meu horror,
a dúvida, que tanto me lacera...
Mas eu bem sei que o teu amor espera:
Se o não fizesse, não seria amor.
Muitos clamam, Senhor, toda a descrença...
Mas eu que sei a solidão imensa
de uma alma, em treva, neste mundo a ansiar,
sofro e calo... E se o espírito escarninho
mofa: — "Não tem saída este caminho",
responde o coração: — "Hei de chegar!"
Perdoa a minha confissão sincera:
Vou lentamente e não como quisera,
que mal se pode caminhar na dor.
Atraso-me, a sentir, no meu horror,
a dúvida, que tanto me lacera...
Mas eu bem sei que o teu amor espera:
Se o não fizesse, não seria amor.
Muitos clamam, Senhor, toda a descrença...
Mas eu que sei a solidão imensa
de uma alma, em treva, neste mundo a ansiar,
sofro e calo... E se o espírito escarninho
mofa: — "Não tem saída este caminho",
responde o coração: — "Hei de chegar!"
971
José Lannes
Canção do Juramento
Fiz um dia um juramento
de nunca mais te querer;
de nem sequer um momento
outra vez teu pensamento
no coração acolher...
Era firme o juramento
de nunca mais te querer.
Mas apenas o fizera
mal de meus olhos! — te vi;
e como se nada houvera,
nem ainda te esquecera
o juramento esqueci ...
E mesmo do que fizera
duvidei, quando te vi.
O resultado estou vendo,
estou vendo, mas... em vão:
que sem remédio sofrendo
e sangue e fel escorrendo
tenho agora o coração.
Mas quem, amor, em te vendo
também não jurara em vão?
de nunca mais te querer;
de nem sequer um momento
outra vez teu pensamento
no coração acolher...
Era firme o juramento
de nunca mais te querer.
Mas apenas o fizera
mal de meus olhos! — te vi;
e como se nada houvera,
nem ainda te esquecera
o juramento esqueci ...
E mesmo do que fizera
duvidei, quando te vi.
O resultado estou vendo,
estou vendo, mas... em vão:
que sem remédio sofrendo
e sangue e fel escorrendo
tenho agora o coração.
Mas quem, amor, em te vendo
também não jurara em vão?
1 082
José Lannes
Canção do Juramento
Fiz um dia um juramento
de nunca mais te querer;
de nem sequer um momento
outra vez teu pensamento
no coração acolher...
Era firme o juramento
de nunca mais te querer.
Mas apenas o fizera
mal de meus olhos! — te vi;
e como se nada houvera,
nem ainda te esquecera
o juramento esqueci ...
E mesmo do que fizera
duvidei, quando te vi.
O resultado estou vendo,
estou vendo, mas... em vão:
que sem remédio sofrendo
e sangue e fel escorrendo
tenho agora o coração.
Mas quem, amor, em te vendo
também não jurara em vão?
de nunca mais te querer;
de nem sequer um momento
outra vez teu pensamento
no coração acolher...
Era firme o juramento
de nunca mais te querer.
Mas apenas o fizera
mal de meus olhos! — te vi;
e como se nada houvera,
nem ainda te esquecera
o juramento esqueci ...
E mesmo do que fizera
duvidei, quando te vi.
O resultado estou vendo,
estou vendo, mas... em vão:
que sem remédio sofrendo
e sangue e fel escorrendo
tenho agora o coração.
Mas quem, amor, em te vendo
também não jurara em vão?
1 082
Irineu Filho
Caravana
No alto do céu o sol fuzila...
Embaixo se abre amplo deserto:
Desolação funda e tranqüila
Ao longe paira, paira perto...
Embaixo se abre amplo deserto...
E nem, sequer, um ruído tento
Ao longe paira, paira perto,
Nem mesmo sopra um débil vento.
E nem, sequer, um ruído lento
Quebra, por fim, tal solidão,
Nem mesmo sopra um débil vento,
Fazendo erguer o pó do chão...
Quebra, por fim, tal solidão
Grande tropel que, em marcha insana,
Fazendo erguer o pó do chão,
Vem caminhando — é a caravana!
Grande tropel que, em marcha insana,
Pela planície zombadora
Vem caminhando — é a Caravana
Morta de sede abrasadora!...
Pela planície zombadora
Ei-la que passa e segue adiante,
Morta de sede abrasadora,
Penosamente, vacilante...
Ei-la que passa e segue adiante...
E, sombra, agora, além se desfaz,
Penosamente, vacilante...
Tristeza cruel volve tenaz.
Embaixo se abre amplo deserto:
Desolação funda e tranqüila
Ao longe paira, paira perto...
Embaixo se abre amplo deserto...
E nem, sequer, um ruído tento
Ao longe paira, paira perto,
Nem mesmo sopra um débil vento.
E nem, sequer, um ruído lento
Quebra, por fim, tal solidão,
Nem mesmo sopra um débil vento,
Fazendo erguer o pó do chão...
Quebra, por fim, tal solidão
Grande tropel que, em marcha insana,
Fazendo erguer o pó do chão,
Vem caminhando — é a caravana!
Grande tropel que, em marcha insana,
Pela planície zombadora
Vem caminhando — é a Caravana
Morta de sede abrasadora!...
Pela planície zombadora
Ei-la que passa e segue adiante,
Morta de sede abrasadora,
Penosamente, vacilante...
Ei-la que passa e segue adiante...
E, sombra, agora, além se desfaz,
Penosamente, vacilante...
Tristeza cruel volve tenaz.
1 045
Irineu Filho
Caravana
No alto do céu o sol fuzila...
Embaixo se abre amplo deserto:
Desolação funda e tranqüila
Ao longe paira, paira perto...
Embaixo se abre amplo deserto...
E nem, sequer, um ruído tento
Ao longe paira, paira perto,
Nem mesmo sopra um débil vento.
E nem, sequer, um ruído lento
Quebra, por fim, tal solidão,
Nem mesmo sopra um débil vento,
Fazendo erguer o pó do chão...
Quebra, por fim, tal solidão
Grande tropel que, em marcha insana,
Fazendo erguer o pó do chão,
Vem caminhando — é a caravana!
Grande tropel que, em marcha insana,
Pela planície zombadora
Vem caminhando — é a Caravana
Morta de sede abrasadora!...
Pela planície zombadora
Ei-la que passa e segue adiante,
Morta de sede abrasadora,
Penosamente, vacilante...
Ei-la que passa e segue adiante...
E, sombra, agora, além se desfaz,
Penosamente, vacilante...
Tristeza cruel volve tenaz.
Embaixo se abre amplo deserto:
Desolação funda e tranqüila
Ao longe paira, paira perto...
Embaixo se abre amplo deserto...
E nem, sequer, um ruído tento
Ao longe paira, paira perto,
Nem mesmo sopra um débil vento.
E nem, sequer, um ruído lento
Quebra, por fim, tal solidão,
Nem mesmo sopra um débil vento,
Fazendo erguer o pó do chão...
Quebra, por fim, tal solidão
Grande tropel que, em marcha insana,
Fazendo erguer o pó do chão,
Vem caminhando — é a caravana!
Grande tropel que, em marcha insana,
Pela planície zombadora
Vem caminhando — é a Caravana
Morta de sede abrasadora!...
Pela planície zombadora
Ei-la que passa e segue adiante,
Morta de sede abrasadora,
Penosamente, vacilante...
Ei-la que passa e segue adiante...
E, sombra, agora, além se desfaz,
Penosamente, vacilante...
Tristeza cruel volve tenaz.
1 045
Frutuoso Ferreira
Noite de Brahma
Corre a Noite de Brahma... A Eternidade avulta...
Aí junto à Porta de Oiro o grande Arcanjo exulta
Na voragem sem fim dos êxtases deiformes;
Estruge o vendaval dos céus pelagiformes
E o Arcanjo vencedor enfrenta os temporais,
Cheio desse esplendor das glórias eternais
E Ele vibra da epopéia azul dos cataclismas,
Nas lavas colossais dos Etnas das cismas.
Corre a Noite de Brahma... O espírito da Flor
Desdobra um madrigal — a apoteose do Amor,
O Amor — Guerreiro audaz — Sol de inefável luz,
Que se tornara um Deus, assim como Jesus:
Pompeiam céus, a flux, chispantes de arrebóis
E a Noite, em flor de Brahma acorda os seus Heróis;
Este que vem fulgindo assim como os cristais,
É um daqueles milhões de assinalados tais.
Aí junto à Porta de Oiro o grande Arcanjo exulta
Na voragem sem fim dos êxtases deiformes;
Estruge o vendaval dos céus pelagiformes
E o Arcanjo vencedor enfrenta os temporais,
Cheio desse esplendor das glórias eternais
E Ele vibra da epopéia azul dos cataclismas,
Nas lavas colossais dos Etnas das cismas.
Corre a Noite de Brahma... O espírito da Flor
Desdobra um madrigal — a apoteose do Amor,
O Amor — Guerreiro audaz — Sol de inefável luz,
Que se tornara um Deus, assim como Jesus:
Pompeiam céus, a flux, chispantes de arrebóis
E a Noite, em flor de Brahma acorda os seus Heróis;
Este que vem fulgindo assim como os cristais,
É um daqueles milhões de assinalados tais.
1 043
Francisco Miguel de Moura
Militância
semente que tentou florir
na rocha impossível, aqui.
por trás da farda
de brim cáqui floriano
preso na hierarquia.
por trás do capacete duro
uma cabeça ágil,
fervente,
por trás da violência de escravo
(no dever?)
há um homem ferido e acorrentado
(seja paz, seja guerra)
por trás dos olhos ligeiros
de lince, de lança
há o homem-fome,
o homem-faz-medo-a-criança
por trás, os olhos feridos
de distância
e o comum dia-a-dia.
tu vês (por profissão)
o campo de batalha
no inimigo-irmão.
saber ser leal ao dono
e diferes do cão.
embora tudo isto,
a cachaça e a sífilis
(e a gota de sangue do coração).
na rocha impossível, aqui.
por trás da farda
de brim cáqui floriano
preso na hierarquia.
por trás do capacete duro
uma cabeça ágil,
fervente,
por trás da violência de escravo
(no dever?)
há um homem ferido e acorrentado
(seja paz, seja guerra)
por trás dos olhos ligeiros
de lince, de lança
há o homem-fome,
o homem-faz-medo-a-criança
por trás, os olhos feridos
de distância
e o comum dia-a-dia.
tu vês (por profissão)
o campo de batalha
no inimigo-irmão.
saber ser leal ao dono
e diferes do cão.
embora tudo isto,
a cachaça e a sífilis
(e a gota de sangue do coração).
884
Goulart de Andrade
Kosmos
Tens a aurora na boca e a noite escura
Nos olhos; no cabelo em desalinho.
O mar bravo, a floresta, o torvelinho;
E as neves da montanha em tua alvura
Possuis na voz a música e a frescura
Da água corrente; o sussurrar do ninho
Na surdina sutil do teu carinho,
Em que o calor ao travo se mistura...
Cheiras como um vergel! Tens a tristeza
De uma tarde hibernal, em que anda imerso
Teu amor — meu algoz e minha presa —
Em tua alma e teu corpo acha meu verso
Todas as convulsões da natureza
E as harmonias todas do universo.
Nos olhos; no cabelo em desalinho.
O mar bravo, a floresta, o torvelinho;
E as neves da montanha em tua alvura
Possuis na voz a música e a frescura
Da água corrente; o sussurrar do ninho
Na surdina sutil do teu carinho,
Em que o calor ao travo se mistura...
Cheiras como um vergel! Tens a tristeza
De uma tarde hibernal, em que anda imerso
Teu amor — meu algoz e minha presa —
Em tua alma e teu corpo acha meu verso
Todas as convulsões da natureza
E as harmonias todas do universo.
1 419
Fontoura Xavier
Flor da Decadência
Sou como o guardião dos tempos do mosteiro!
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.
De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois um som cavado — a enxada do coveiro!
Minhalma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.
— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.
De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois um som cavado — a enxada do coveiro!
Minhalma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.
— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!
1 197
José Paulo Moreira da Fonseca
Paisagem Noturna
Era uma hora isenta de toda a melancolia,
uma certeza ainda mais densa
contra a qual nada havia a fazer.
Já o ouro se fôra,
restava aquele azul de vidro que acende as constelações
e o céu pareceu-me a pupila de um rei
morrendo, e a sombra iluminava as coisas
de um lívido rigor.
Senti-me aflito
como o homem a quem revelassem um segredo extremo
que a própria memória temeria não esquecer.
uma certeza ainda mais densa
contra a qual nada havia a fazer.
Já o ouro se fôra,
restava aquele azul de vidro que acende as constelações
e o céu pareceu-me a pupila de um rei
morrendo, e a sombra iluminava as coisas
de um lívido rigor.
Senti-me aflito
como o homem a quem revelassem um segredo extremo
que a própria memória temeria não esquecer.
1 056
Francisco Tribuzi
Sina
A gente grita, corre, sufoca e morre.
A gente canta, encanta, explode e pára.
A gente avança, recua, esbarra na rua.
A gente ama, trai, reclama e cai.
A gente come, some, chora a fome.
A gente ganha, sonha, acorda, esvai.
A gente cala, fala, escala e crê.
A gente reza, preza, é preso. E a fé?
A gente é medo doente da própria gente.
A gente canta, encanta, explode e pára.
A gente avança, recua, esbarra na rua.
A gente ama, trai, reclama e cai.
A gente come, some, chora a fome.
A gente ganha, sonha, acorda, esvai.
A gente cala, fala, escala e crê.
A gente reza, preza, é preso. E a fé?
A gente é medo doente da própria gente.
950
Guerra-Duval
Versos da Noite Má
Desmaiam alegrias e açucenas,
primaveras e rosas rosicler;
já autuneja o verde das verbenas
e o perfume pueril do vetiver.
Abrem os goivos tristes, goivos roxos,
como o viúvo pio roxo de mochos;
roreja sonolenta, lenta a chuva,
— triste noivado roxo de viúva...
A Noite cega, a imensa Noite impura
cobre a Luxúria e o Crime pelos mundos.
(A sombra desleal da Noite escura
lembra os teus olhos fúnebres, profundos!)
No campanário da última esperança
dobra a mortos o sino da Lembrança.
..........................................................
— É noite de assassinos esta noite,
E a minhalma não tem onde se acoitei
primaveras e rosas rosicler;
já autuneja o verde das verbenas
e o perfume pueril do vetiver.
Abrem os goivos tristes, goivos roxos,
como o viúvo pio roxo de mochos;
roreja sonolenta, lenta a chuva,
— triste noivado roxo de viúva...
A Noite cega, a imensa Noite impura
cobre a Luxúria e o Crime pelos mundos.
(A sombra desleal da Noite escura
lembra os teus olhos fúnebres, profundos!)
No campanário da última esperança
dobra a mortos o sino da Lembrança.
..........................................................
— É noite de assassinos esta noite,
E a minhalma não tem onde se acoitei
942
Gilberto Gil
Flora
Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora
Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora
Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora
Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora
Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora
Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora
Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora
Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora
Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora
Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora
Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora
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Iranildo Sampaio
Teoria da Última Ladeira
Nada tenho a dizer.
Deus está do outro lado, eu estou aqui, e o demônio,
astuto, talvez não tenha vindo.
Presto serviço a qualquer santo.
As circunstâncias de que me valho são neutras
e me fazem pensar noutras medidas.
Passo em revista as minhas incertezas.
Não sei refletir quando tudo me parece adverso.
Ninguém admite o efeito transitório do meu remédio abstrato.
Agora, vasculho as minhas intenções e me resumo a isto
que hoje sou.
Poeta de tantas agonias, divido-me em poemas comedidos,
e elaboro esse longo apocalipse de verdades esdrúxulas.
A certa altura, nem eu mesmo me entendo.
Meu quadro é irreversível.
Nunca violei qualquer segredo.
Ainda assim, dou graças ao meu Deus por tudo isto,
antes que o Diabo interceda em favor de seus súditos.
Meu horóscopo é outro.
O planeta que rege a minha sorte mudou de órbita.
De dia, arrumo estas idéias na cabeça em desordem.
De noite, desarrumo tudo e adormeço.
Se algo me aborrece, pouco importa.
O princípio é o meu.
Salgo a memória e corro novamente em busca do que quero.
Sei que tudo é inútil.
A ciência do bem é a mesma.
Tenho a força de minha gratidão a me amparar
diante do meu mundo.
Não posso aliciar as minhas mágoas.
No entanto, as cosias permanecem iguais, e eu saio
de casa a toda hora, com os mesmos propósitos.
Deus está do outro lado, eu estou aqui, e o demônio,
astuto, talvez não tenha vindo.
Presto serviço a qualquer santo.
As circunstâncias de que me valho são neutras
e me fazem pensar noutras medidas.
Passo em revista as minhas incertezas.
Não sei refletir quando tudo me parece adverso.
Ninguém admite o efeito transitório do meu remédio abstrato.
Agora, vasculho as minhas intenções e me resumo a isto
que hoje sou.
Poeta de tantas agonias, divido-me em poemas comedidos,
e elaboro esse longo apocalipse de verdades esdrúxulas.
A certa altura, nem eu mesmo me entendo.
Meu quadro é irreversível.
Nunca violei qualquer segredo.
Ainda assim, dou graças ao meu Deus por tudo isto,
antes que o Diabo interceda em favor de seus súditos.
Meu horóscopo é outro.
O planeta que rege a minha sorte mudou de órbita.
De dia, arrumo estas idéias na cabeça em desordem.
De noite, desarrumo tudo e adormeço.
Se algo me aborrece, pouco importa.
O princípio é o meu.
Salgo a memória e corro novamente em busca do que quero.
Sei que tudo é inútil.
A ciência do bem é a mesma.
Tenho a força de minha gratidão a me amparar
diante do meu mundo.
Não posso aliciar as minhas mágoas.
No entanto, as cosias permanecem iguais, e eu saio
de casa a toda hora, com os mesmos propósitos.
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Hardi Filho
Esdrúxulo
A prata, o caviar, a mesa elástica,
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
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Hardi Filho
Esdrúxulo
A prata, o caviar, a mesa elástica,
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
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Gonçalo Jácome
Predestinação
Não deplores viver sob o anátema triste
De um sofrer infinito, estranho visionário,
Pois a glória de um deus neste mundo consiste
Em ser como Jesus e subir ao Calvário.
Poeta! às altas regiões os teus vôos desferiste.
Teu espírito foi à terra refratário.
Contra os maus, com teu gládio, um dia te insurgiste,
Resigna-te afinal e cumpre o teu fadário.
Teu nobre coração será exposto às lanças,
Às perfídias brutais, às míseras vinganças,
E hás de errante morrer sem pouso e sem carinhos...
Mas por ti luzirão as noites estreladas,
Mas por ti vibrarão as almas delicadas,
Mas por ti clamarão as pedras dos caminhos.
De um sofrer infinito, estranho visionário,
Pois a glória de um deus neste mundo consiste
Em ser como Jesus e subir ao Calvário.
Poeta! às altas regiões os teus vôos desferiste.
Teu espírito foi à terra refratário.
Contra os maus, com teu gládio, um dia te insurgiste,
Resigna-te afinal e cumpre o teu fadário.
Teu nobre coração será exposto às lanças,
Às perfídias brutais, às míseras vinganças,
E hás de errante morrer sem pouso e sem carinhos...
Mas por ti luzirão as noites estreladas,
Mas por ti vibrarão as almas delicadas,
Mas por ti clamarão as pedras dos caminhos.
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Frutuoso Ferreira
15 de Novembro
Repúblicas dos céus tão belas, tão faustosas...
Oh! Quem vos concebera as formas grandiosas?
— Quem fora esse Escultor dos vossos alabastros
E o Fáon que acendera os fogos desses astros?
Sereias ou vestais de uns esplendores lácteos,
Em meio às amplidões de aéneos céus, eufráteus,
Por entre o oiro e o azul de siderais Elêusis,
Vossos seios, em flor, de apocalípticos deuses,
Entre a pompa a escander, dos arrebóis ardentes
E o deserto e o negror das noites arquialgentes:
— Quem vos alcandorara as negridões nevosas,
Repúblicas dos Céus... Valquírias... Nebulosas?...
Minh’alma é vaga e loira assim como as Quimeras,
Eu ouço a melopéia ardente das esferas,
Eu sigo no Infinito os grupos das visões
................................................................................
Eu sou como Aassvero, eu venho de outras plagas
Remotas, de outros céus azúleos como as vagas,
Exausto e já cansado atrás das harmonias,
Deixai banhar-me aí ao sol das Utopias,
Nas vossas regiões adúleas, peregrinas,
Quero beber a luz das vastidões divinas,
Repúblicas do Azul... Valquírias... Nebulosas...
Oh! Quem vos concebera as formas grandiosas?
— Quem fora esse Escultor dos vossos alabastros
E o Fáon que acendera os fogos desses astros?
Sereias ou vestais de uns esplendores lácteos,
Em meio às amplidões de aéneos céus, eufráteus,
Por entre o oiro e o azul de siderais Elêusis,
Vossos seios, em flor, de apocalípticos deuses,
Entre a pompa a escander, dos arrebóis ardentes
E o deserto e o negror das noites arquialgentes:
— Quem vos alcandorara as negridões nevosas,
Repúblicas dos Céus... Valquírias... Nebulosas?...
Minh’alma é vaga e loira assim como as Quimeras,
Eu ouço a melopéia ardente das esferas,
Eu sigo no Infinito os grupos das visões
................................................................................
Eu sou como Aassvero, eu venho de outras plagas
Remotas, de outros céus azúleos como as vagas,
Exausto e já cansado atrás das harmonias,
Deixai banhar-me aí ao sol das Utopias,
Nas vossas regiões adúleas, peregrinas,
Quero beber a luz das vastidões divinas,
Repúblicas do Azul... Valquírias... Nebulosas...
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