Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Manuel Sobrinho
Trovas
Amigos, quantos tiveres,
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...
Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.
Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista
És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...
É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...
Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.
Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista
És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...
É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.
803
Myriam Fraga
Maria Bonita
Esta noite em Angico
A brisa é calma.
No silêncio farfalham
Minhas anáguas
Como farfalham asas
E no escuro minha carne
Cheira a mato.
Vem meu amor e lavra
Este roçado
Como quem quebra
Um cântaro,
Como quem lava
A casa;
Águas frescas na tarde.
Tuas limpas carícias,
Teus dedos como pássaros
E teu corpo que arde
Como estrelas
No espaço.
Não quero tua candeia,
Só meus sonhos acesos
E eu te direi de nácar,
Terciopelo,
Coisas antigas, pelo de
Leoa; voz de cego na feira.
Não quero teu braseiro,
Tua intensa
Cintilação que queima
Meus vestidos
Só quero a tua volta,
Tua presença
Iluminando a noite
Que me cerca
Como uma luz acesa
No postigo.
Que sabes de minha vida
Além da morte
Inquieta que me ronda?
Que sabes desta chita
Destes panos
Que envolvem minha nudez
Como uma chama?
São teus olhos
Carvões que me devoram,
São teus beijos
Fosforescências de mel,
Travo forte das frutas.
Teus dedos como setas
Apontam meu destino:
Meu caminho,
Na planta de teus pés;
Meu horizonte,
No risco de tuas mãos
E meus cabelos
Esparsos sobre a relva
Em que me habitas.
Sou teu medo, teu sangue,
Sou teu sono,
Tua alpercata
De couro,
Teu olho cego, miragem
Dos vidros
Com que miras
A mira do mosquete.
Sou teu sabre,
Facão com que degolas.
Sou o gosto do sal,
Veneno que espalharam
No prato.
Sou a colher de prata
Azinhavrada. Sou teu laço.
Teu lenço
No pescoço.
Sou teu chapéu de couro
Constelado
Com estrelas de prata,
Sou a ponta
De teu punhal buscando
O peito dos macacos.
Sou teu braço,
A cartucheira cruzada
Sobre o peito,
sou teu leito
De angico e alecrim
Sou a almofada
Em que deitas a face,
O cheiro agreste
Dos homens que mataste.
Sou a bainha
E a lâmina é meu resgate.
Sou tua fera. Sussuarana
No escuro — bote e salto.
Jaguatirica acesa nestes altos
Mundéus de teu alarme.
Sou o parto
Da morte que te espreita.
Sou teu guia
Tua estrela, teu rastro, tua corja.
Sou tua mãe que chora,
Sou tua filha. Teu cachorro fiel,
Tua égua parida.
Sou a roseta na carne,
O lombo nas esporas.
Sou montaria e cavalo,
Fúria e faca.
Ferro em brasa na espádua
Sou teu gado,
Tua mulher, tua terra,
Tua alma,
Tua roça. Coivara
Que incendeias e apagas,
Tua casa.
Areia no sapato.
Sou a rede
Aberta como um fruto,
Sou soluço. Fome escura
De poço. Sou a caça
Abatida. Lebre e gato,
Coisas quentes ao tato.
Vem, meu dono, meu sócio,
Meu comparsa.
Desarma o teu cansaço,
Desata a cartucheira,
A noite é farta
Como besta no cio,
A noite é vasta.
Vem devagar
E habita meu silêncio
Como se habita
Um claustro.
Teus beijos como
Lâminas. Como espadas.
Pasto de aves meu corpo
Que trabalhas
Como quem corta e lavra.
Desata a cartucheira,
Teu campo de batalha
Sou eu.
Por um momento
Esquece o que te mata
— Fúria e falta —
E enquanto a noite é calma
Vem e apaga
Na pele de meu peito
Esta fome sem data.
A brisa é calma.
No silêncio farfalham
Minhas anáguas
Como farfalham asas
E no escuro minha carne
Cheira a mato.
Vem meu amor e lavra
Este roçado
Como quem quebra
Um cântaro,
Como quem lava
A casa;
Águas frescas na tarde.
Tuas limpas carícias,
Teus dedos como pássaros
E teu corpo que arde
Como estrelas
No espaço.
Não quero tua candeia,
Só meus sonhos acesos
E eu te direi de nácar,
Terciopelo,
Coisas antigas, pelo de
Leoa; voz de cego na feira.
Não quero teu braseiro,
Tua intensa
Cintilação que queima
Meus vestidos
Só quero a tua volta,
Tua presença
Iluminando a noite
Que me cerca
Como uma luz acesa
No postigo.
Que sabes de minha vida
Além da morte
Inquieta que me ronda?
Que sabes desta chita
Destes panos
Que envolvem minha nudez
Como uma chama?
São teus olhos
Carvões que me devoram,
São teus beijos
Fosforescências de mel,
Travo forte das frutas.
Teus dedos como setas
Apontam meu destino:
Meu caminho,
Na planta de teus pés;
Meu horizonte,
No risco de tuas mãos
E meus cabelos
Esparsos sobre a relva
Em que me habitas.
Sou teu medo, teu sangue,
Sou teu sono,
Tua alpercata
De couro,
Teu olho cego, miragem
Dos vidros
Com que miras
A mira do mosquete.
Sou teu sabre,
Facão com que degolas.
Sou o gosto do sal,
Veneno que espalharam
No prato.
Sou a colher de prata
Azinhavrada. Sou teu laço.
Teu lenço
No pescoço.
Sou teu chapéu de couro
Constelado
Com estrelas de prata,
Sou a ponta
De teu punhal buscando
O peito dos macacos.
Sou teu braço,
A cartucheira cruzada
Sobre o peito,
sou teu leito
De angico e alecrim
Sou a almofada
Em que deitas a face,
O cheiro agreste
Dos homens que mataste.
Sou a bainha
E a lâmina é meu resgate.
Sou tua fera. Sussuarana
No escuro — bote e salto.
Jaguatirica acesa nestes altos
Mundéus de teu alarme.
Sou o parto
Da morte que te espreita.
Sou teu guia
Tua estrela, teu rastro, tua corja.
Sou tua mãe que chora,
Sou tua filha. Teu cachorro fiel,
Tua égua parida.
Sou a roseta na carne,
O lombo nas esporas.
Sou montaria e cavalo,
Fúria e faca.
Ferro em brasa na espádua
Sou teu gado,
Tua mulher, tua terra,
Tua alma,
Tua roça. Coivara
Que incendeias e apagas,
Tua casa.
Areia no sapato.
Sou a rede
Aberta como um fruto,
Sou soluço. Fome escura
De poço. Sou a caça
Abatida. Lebre e gato,
Coisas quentes ao tato.
Vem, meu dono, meu sócio,
Meu comparsa.
Desarma o teu cansaço,
Desata a cartucheira,
A noite é farta
Como besta no cio,
A noite é vasta.
Vem devagar
E habita meu silêncio
Como se habita
Um claustro.
Teus beijos como
Lâminas. Como espadas.
Pasto de aves meu corpo
Que trabalhas
Como quem corta e lavra.
Desata a cartucheira,
Teu campo de batalha
Sou eu.
Por um momento
Esquece o que te mata
— Fúria e falta —
E enquanto a noite é calma
Vem e apaga
Na pele de meu peito
Esta fome sem data.
2 199
Myriam Fraga
Maria Bonita
Esta noite em Angico
A brisa é calma.
No silêncio farfalham
Minhas anáguas
Como farfalham asas
E no escuro minha carne
Cheira a mato.
Vem meu amor e lavra
Este roçado
Como quem quebra
Um cântaro,
Como quem lava
A casa;
Águas frescas na tarde.
Tuas limpas carícias,
Teus dedos como pássaros
E teu corpo que arde
Como estrelas
No espaço.
Não quero tua candeia,
Só meus sonhos acesos
E eu te direi de nácar,
Terciopelo,
Coisas antigas, pelo de
Leoa; voz de cego na feira.
Não quero teu braseiro,
Tua intensa
Cintilação que queima
Meus vestidos
Só quero a tua volta,
Tua presença
Iluminando a noite
Que me cerca
Como uma luz acesa
No postigo.
Que sabes de minha vida
Além da morte
Inquieta que me ronda?
Que sabes desta chita
Destes panos
Que envolvem minha nudez
Como uma chama?
São teus olhos
Carvões que me devoram,
São teus beijos
Fosforescências de mel,
Travo forte das frutas.
Teus dedos como setas
Apontam meu destino:
Meu caminho,
Na planta de teus pés;
Meu horizonte,
No risco de tuas mãos
E meus cabelos
Esparsos sobre a relva
Em que me habitas.
Sou teu medo, teu sangue,
Sou teu sono,
Tua alpercata
De couro,
Teu olho cego, miragem
Dos vidros
Com que miras
A mira do mosquete.
Sou teu sabre,
Facão com que degolas.
Sou o gosto do sal,
Veneno que espalharam
No prato.
Sou a colher de prata
Azinhavrada. Sou teu laço.
Teu lenço
No pescoço.
Sou teu chapéu de couro
Constelado
Com estrelas de prata,
Sou a ponta
De teu punhal buscando
O peito dos macacos.
Sou teu braço,
A cartucheira cruzada
Sobre o peito,
sou teu leito
De angico e alecrim
Sou a almofada
Em que deitas a face,
O cheiro agreste
Dos homens que mataste.
Sou a bainha
E a lâmina é meu resgate.
Sou tua fera. Sussuarana
No escuro — bote e salto.
Jaguatirica acesa nestes altos
Mundéus de teu alarme.
Sou o parto
Da morte que te espreita.
Sou teu guia
Tua estrela, teu rastro, tua corja.
Sou tua mãe que chora,
Sou tua filha. Teu cachorro fiel,
Tua égua parida.
Sou a roseta na carne,
O lombo nas esporas.
Sou montaria e cavalo,
Fúria e faca.
Ferro em brasa na espádua
Sou teu gado,
Tua mulher, tua terra,
Tua alma,
Tua roça. Coivara
Que incendeias e apagas,
Tua casa.
Areia no sapato.
Sou a rede
Aberta como um fruto,
Sou soluço. Fome escura
De poço. Sou a caça
Abatida. Lebre e gato,
Coisas quentes ao tato.
Vem, meu dono, meu sócio,
Meu comparsa.
Desarma o teu cansaço,
Desata a cartucheira,
A noite é farta
Como besta no cio,
A noite é vasta.
Vem devagar
E habita meu silêncio
Como se habita
Um claustro.
Teus beijos como
Lâminas. Como espadas.
Pasto de aves meu corpo
Que trabalhas
Como quem corta e lavra.
Desata a cartucheira,
Teu campo de batalha
Sou eu.
Por um momento
Esquece o que te mata
— Fúria e falta —
E enquanto a noite é calma
Vem e apaga
Na pele de meu peito
Esta fome sem data.
A brisa é calma.
No silêncio farfalham
Minhas anáguas
Como farfalham asas
E no escuro minha carne
Cheira a mato.
Vem meu amor e lavra
Este roçado
Como quem quebra
Um cântaro,
Como quem lava
A casa;
Águas frescas na tarde.
Tuas limpas carícias,
Teus dedos como pássaros
E teu corpo que arde
Como estrelas
No espaço.
Não quero tua candeia,
Só meus sonhos acesos
E eu te direi de nácar,
Terciopelo,
Coisas antigas, pelo de
Leoa; voz de cego na feira.
Não quero teu braseiro,
Tua intensa
Cintilação que queima
Meus vestidos
Só quero a tua volta,
Tua presença
Iluminando a noite
Que me cerca
Como uma luz acesa
No postigo.
Que sabes de minha vida
Além da morte
Inquieta que me ronda?
Que sabes desta chita
Destes panos
Que envolvem minha nudez
Como uma chama?
São teus olhos
Carvões que me devoram,
São teus beijos
Fosforescências de mel,
Travo forte das frutas.
Teus dedos como setas
Apontam meu destino:
Meu caminho,
Na planta de teus pés;
Meu horizonte,
No risco de tuas mãos
E meus cabelos
Esparsos sobre a relva
Em que me habitas.
Sou teu medo, teu sangue,
Sou teu sono,
Tua alpercata
De couro,
Teu olho cego, miragem
Dos vidros
Com que miras
A mira do mosquete.
Sou teu sabre,
Facão com que degolas.
Sou o gosto do sal,
Veneno que espalharam
No prato.
Sou a colher de prata
Azinhavrada. Sou teu laço.
Teu lenço
No pescoço.
Sou teu chapéu de couro
Constelado
Com estrelas de prata,
Sou a ponta
De teu punhal buscando
O peito dos macacos.
Sou teu braço,
A cartucheira cruzada
Sobre o peito,
sou teu leito
De angico e alecrim
Sou a almofada
Em que deitas a face,
O cheiro agreste
Dos homens que mataste.
Sou a bainha
E a lâmina é meu resgate.
Sou tua fera. Sussuarana
No escuro — bote e salto.
Jaguatirica acesa nestes altos
Mundéus de teu alarme.
Sou o parto
Da morte que te espreita.
Sou teu guia
Tua estrela, teu rastro, tua corja.
Sou tua mãe que chora,
Sou tua filha. Teu cachorro fiel,
Tua égua parida.
Sou a roseta na carne,
O lombo nas esporas.
Sou montaria e cavalo,
Fúria e faca.
Ferro em brasa na espádua
Sou teu gado,
Tua mulher, tua terra,
Tua alma,
Tua roça. Coivara
Que incendeias e apagas,
Tua casa.
Areia no sapato.
Sou a rede
Aberta como um fruto,
Sou soluço. Fome escura
De poço. Sou a caça
Abatida. Lebre e gato,
Coisas quentes ao tato.
Vem, meu dono, meu sócio,
Meu comparsa.
Desarma o teu cansaço,
Desata a cartucheira,
A noite é farta
Como besta no cio,
A noite é vasta.
Vem devagar
E habita meu silêncio
Como se habita
Um claustro.
Teus beijos como
Lâminas. Como espadas.
Pasto de aves meu corpo
Que trabalhas
Como quem corta e lavra.
Desata a cartucheira,
Teu campo de batalha
Sou eu.
Por um momento
Esquece o que te mata
— Fúria e falta —
E enquanto a noite é calma
Vem e apaga
Na pele de meu peito
Esta fome sem data.
2 199
Mario Ribeiro Martins
Sonhador
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
1 142
Mario Ribeiro Martins
Sonhador
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
1 142
Matheus Tonello
Eclipse Solar
Foi num dia límpido de verão
Que tudo chegou ao seu fim
Tendo o Sol como testemunha
Você disse: -Eu não te quero pra mim!
Neste dia, as pombas não voaram para o sul
O vento parou de soprar ao norte
O dia perdeu todo seu encanto
Para mim, só restou a morte.
O Sol neste dia se escondeu por completo
E logo cessou de brilhar
Se escondeu por trás da formosa Lua
E em prantos, pôs-se inteiramente a chorar!
Que tudo chegou ao seu fim
Tendo o Sol como testemunha
Você disse: -Eu não te quero pra mim!
Neste dia, as pombas não voaram para o sul
O vento parou de soprar ao norte
O dia perdeu todo seu encanto
Para mim, só restou a morte.
O Sol neste dia se escondeu por completo
E logo cessou de brilhar
Se escondeu por trás da formosa Lua
E em prantos, pôs-se inteiramente a chorar!
1 325
Mario Ribeiro Martins
Qual dos Dois?
Abandonou-me a vida displicente,
fria, calada, sem medo e sem dó...
Aquela cuja vida tão somente,
era meu coração, o meu Jacó.
Agora, eu subo os montes tristemente,
olho o rico passado, como Jó...
Ouço as desilusões na minha frente,
que gritam com desprezo: SIGA SÓ.
Como seguir assim sem coração?
pois eu o dei com tanta devoção,
com tanta devoção que não pensei.
Ó montanhas, ó gritos, ó passado,
respondei-me: FUI EU ABANDONADO?
OU TIVE O PARAÍSO E REJEITEI?
fria, calada, sem medo e sem dó...
Aquela cuja vida tão somente,
era meu coração, o meu Jacó.
Agora, eu subo os montes tristemente,
olho o rico passado, como Jó...
Ouço as desilusões na minha frente,
que gritam com desprezo: SIGA SÓ.
Como seguir assim sem coração?
pois eu o dei com tanta devoção,
com tanta devoção que não pensei.
Ó montanhas, ó gritos, ó passado,
respondei-me: FUI EU ABANDONADO?
OU TIVE O PARAÍSO E REJEITEI?
968
Mario Ribeiro Martins
Qual dos Dois?
Abandonou-me a vida displicente,
fria, calada, sem medo e sem dó...
Aquela cuja vida tão somente,
era meu coração, o meu Jacó.
Agora, eu subo os montes tristemente,
olho o rico passado, como Jó...
Ouço as desilusões na minha frente,
que gritam com desprezo: SIGA SÓ.
Como seguir assim sem coração?
pois eu o dei com tanta devoção,
com tanta devoção que não pensei.
Ó montanhas, ó gritos, ó passado,
respondei-me: FUI EU ABANDONADO?
OU TIVE O PARAÍSO E REJEITEI?
fria, calada, sem medo e sem dó...
Aquela cuja vida tão somente,
era meu coração, o meu Jacó.
Agora, eu subo os montes tristemente,
olho o rico passado, como Jó...
Ouço as desilusões na minha frente,
que gritam com desprezo: SIGA SÓ.
Como seguir assim sem coração?
pois eu o dei com tanta devoção,
com tanta devoção que não pensei.
Ó montanhas, ó gritos, ó passado,
respondei-me: FUI EU ABANDONADO?
OU TIVE O PARAÍSO E REJEITEI?
968
Mário Pederneiras
Trecho Final
Meia tinta de cor dos ocasos do Outono
Sonho que uma ilusão sobre a vida nos tece
E perfume sutil de uma folha de trevo,
São, decerto, a feição deste livro que escrevo
Neste ambiente de silêncio e sono
Nesta indolência de quem convalesce.
Meu livro é um jardim na doçura do Outono
E que a sombra amacia
De carinho e de afago
Da luz serena do final do dia;
É um velho jardim dolente e triste
Com um velho local de silêncio e de sono
Já sem luz de verão que o doire e tisne,
Mas onde ainda existe
O orgulho de um Cisne
E a água triste de um Lago.
Sonho que uma ilusão sobre a vida nos tece
E perfume sutil de uma folha de trevo,
São, decerto, a feição deste livro que escrevo
Neste ambiente de silêncio e sono
Nesta indolência de quem convalesce.
Meu livro é um jardim na doçura do Outono
E que a sombra amacia
De carinho e de afago
Da luz serena do final do dia;
É um velho jardim dolente e triste
Com um velho local de silêncio e de sono
Já sem luz de verão que o doire e tisne,
Mas onde ainda existe
O orgulho de um Cisne
E a água triste de um Lago.
1 469
Mário Simões
Corpos e Almas
Oh, Se eu pudesse esquecer,
Do que já vi e volto a ver,
E que também nunca soubesse,
Do que me lembra e não me esquece!
E já que outra não posso ter,
Só tenho olhos para te ver.
O meu grito embriagado,
Cantou bem alto por todo lado,
Cerrados meus lábios, recordam,
O ar que atrofia os que choram,
O vento húmido escondeu o meu destino,
Minhas coisas de enlevo e de menino,
Nem um sonho palpável eu vejo
Para dissipar os braços do desejo.
Para quebrar os delírios minha alma canta,
À peganhenta calma que mata,
Última lembrança do segredo,
Lembrando-me que esta luz sumida,
É o subir a baixar a vida.
O negrume do céu que baixa e clama,
Aos jardins para lhes regar a chama,
O mundo novo nos espera um só aceno,
As vozes de rebate entram em combate ameno.
E o grito audaz da revolta,
É o espirito sereno que solta.
Os rouxinóis enlevados na saudade,
Que se quedem no desleixo da obscuridade,
Felizes, desgraçadas, e sem idade!....
(In livro Culpas Mortais)
Do que já vi e volto a ver,
E que também nunca soubesse,
Do que me lembra e não me esquece!
E já que outra não posso ter,
Só tenho olhos para te ver.
O meu grito embriagado,
Cantou bem alto por todo lado,
Cerrados meus lábios, recordam,
O ar que atrofia os que choram,
O vento húmido escondeu o meu destino,
Minhas coisas de enlevo e de menino,
Nem um sonho palpável eu vejo
Para dissipar os braços do desejo.
Para quebrar os delírios minha alma canta,
À peganhenta calma que mata,
Última lembrança do segredo,
Lembrando-me que esta luz sumida,
É o subir a baixar a vida.
O negrume do céu que baixa e clama,
Aos jardins para lhes regar a chama,
O mundo novo nos espera um só aceno,
As vozes de rebate entram em combate ameno.
E o grito audaz da revolta,
É o espirito sereno que solta.
Os rouxinóis enlevados na saudade,
Que se quedem no desleixo da obscuridade,
Felizes, desgraçadas, e sem idade!....
(In livro Culpas Mortais)
789
Mario Ribeiro Martins
O Triste
Ei-la, tristonha, como nunca esteve:
Face pálida, cabisbaixa, rosto decaído.
Fui eu? Perguntou meu coração e não conteve...
Sim. Fui eu... ingrato, injusto, distraído.
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
e eu pobre, com o coração dorido.
Sofri o amor...sofri a dor...ah! ela susteve
meu amor, meu ser, meu triste dolorido!
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
mas perto de mim, ela manteve
aquele amor que vem da alma apetecida.
Ei-la agora alegre como nunca esteve,
ei-la disposta a se manter como manteve
perto de mim, O TRISTE MAIS FELIZ DA VIDA.
Face pálida, cabisbaixa, rosto decaído.
Fui eu? Perguntou meu coração e não conteve...
Sim. Fui eu... ingrato, injusto, distraído.
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
e eu pobre, com o coração dorido.
Sofri o amor...sofri a dor...ah! ela susteve
meu amor, meu ser, meu triste dolorido!
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
mas perto de mim, ela manteve
aquele amor que vem da alma apetecida.
Ei-la agora alegre como nunca esteve,
ei-la disposta a se manter como manteve
perto de mim, O TRISTE MAIS FELIZ DA VIDA.
880
Mario Ribeiro Martins
O Triste
Ei-la, tristonha, como nunca esteve:
Face pálida, cabisbaixa, rosto decaído.
Fui eu? Perguntou meu coração e não conteve...
Sim. Fui eu... ingrato, injusto, distraído.
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
e eu pobre, com o coração dorido.
Sofri o amor...sofri a dor...ah! ela susteve
meu amor, meu ser, meu triste dolorido!
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
mas perto de mim, ela manteve
aquele amor que vem da alma apetecida.
Ei-la agora alegre como nunca esteve,
ei-la disposta a se manter como manteve
perto de mim, O TRISTE MAIS FELIZ DA VIDA.
Face pálida, cabisbaixa, rosto decaído.
Fui eu? Perguntou meu coração e não conteve...
Sim. Fui eu... ingrato, injusto, distraído.
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
e eu pobre, com o coração dorido.
Sofri o amor...sofri a dor...ah! ela susteve
meu amor, meu ser, meu triste dolorido!
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
mas perto de mim, ela manteve
aquele amor que vem da alma apetecida.
Ei-la agora alegre como nunca esteve,
ei-la disposta a se manter como manteve
perto de mim, O TRISTE MAIS FELIZ DA VIDA.
880
Murillo Mendes
Gilda
Não ponha o nome de Gilda
na sua filha, coitada,
Se tem filha pra nascer
Ou filha pra batisar.
Minha mãe se chama Gilda,
Não se casou com meu pai.
Sempre lhe sobra desgraça,
Não tem tempo de escolher.
Também eu me chamo Gilda,
E, pra dizer a verdade
Sou pouco mais infeliz.
Sou menos do que mulher,
Sou uma mulher qualquer.
Ando à-toa pelo mundo.
Sem força pra me matar.
Minha filha é também Gilda,
Pro costume não perder
É casada com o espelho
E amigada com o José.
Qualquer dia Gilda foge
Ou se mata em Paquetá
Com José ou sem José.
Já comprei lenço de renda
Pra chorar com mais apuro
E aos jornais telefonei.
Se Gilda enfim não morrer,
Se Gilda tiver uma filha
Não põe o nome de Gilda,
Na menina, que não deixo.
Quem ganha o nome de Gilda
Vira Gilda sem querer.
Não ponha o nome de Gilda
No corpo de uma mulher.
na sua filha, coitada,
Se tem filha pra nascer
Ou filha pra batisar.
Minha mãe se chama Gilda,
Não se casou com meu pai.
Sempre lhe sobra desgraça,
Não tem tempo de escolher.
Também eu me chamo Gilda,
E, pra dizer a verdade
Sou pouco mais infeliz.
Sou menos do que mulher,
Sou uma mulher qualquer.
Ando à-toa pelo mundo.
Sem força pra me matar.
Minha filha é também Gilda,
Pro costume não perder
É casada com o espelho
E amigada com o José.
Qualquer dia Gilda foge
Ou se mata em Paquetá
Com José ou sem José.
Já comprei lenço de renda
Pra chorar com mais apuro
E aos jornais telefonei.
Se Gilda enfim não morrer,
Se Gilda tiver uma filha
Não põe o nome de Gilda,
Na menina, que não deixo.
Quem ganha o nome de Gilda
Vira Gilda sem querer.
Não ponha o nome de Gilda
No corpo de uma mulher.
1 636
Mário Pederneiras
Caminho Errado
(fragmento)
Eu preferia ter nascido
Um pesado burguês redondo e manso,
Alimentado e rude;
Desses que vivem a vender saúde,
Cuja vida, incolor e sem sentido,
É um cômodo vale de descanso.
Dos que da farta messe dos acervos
Sentimentais, que lhes parecem fúteis,
E o gozo de viver tornam lerdo, enfadonho
Suprimem logo, por banais e inúteis,
O Sonho,
O Coração e os Nervos.
E assim vazios,
Só com o bem-estar e o asco
Dos outros bens, que o ouro lhes trouxe,
Vão por largos e plácidos desvios
Seguindo a vida, qual se a Vida fosse
A secular Estrada de Damasco.
Sem perceber, nem distinguir aspectos
De Luz, de Cor, que só parecem turvos
A seus olhos parados;
Que vivem como bem-aventurados
E que se são internamente curvos,
Nunca deixam de ser externamente retos.
Felizes os que assim nasceram
E que da Vida a perigosa aléia
Percorrem toda sem um desaponto ...
Viver assim... Sem Deus e sem Idéia,
Ou ter um Deus que receberam pronto
Idéias que os outros conceberam.
A esses não estorva o passo,
A almejada ração de uma alegria...
Não distinguem a Cor do Sol e do Mormaço.
E o Dia... é sempre o mesmo Dia.
Eu preferia ter nascido
Um pesado burguês redondo e manso,
Alimentado e rude;
Desses que vivem a vender saúde,
Cuja vida, incolor e sem sentido,
É um cômodo vale de descanso.
Dos que da farta messe dos acervos
Sentimentais, que lhes parecem fúteis,
E o gozo de viver tornam lerdo, enfadonho
Suprimem logo, por banais e inúteis,
O Sonho,
O Coração e os Nervos.
E assim vazios,
Só com o bem-estar e o asco
Dos outros bens, que o ouro lhes trouxe,
Vão por largos e plácidos desvios
Seguindo a vida, qual se a Vida fosse
A secular Estrada de Damasco.
Sem perceber, nem distinguir aspectos
De Luz, de Cor, que só parecem turvos
A seus olhos parados;
Que vivem como bem-aventurados
E que se são internamente curvos,
Nunca deixam de ser externamente retos.
Felizes os que assim nasceram
E que da Vida a perigosa aléia
Percorrem toda sem um desaponto ...
Viver assim... Sem Deus e sem Idéia,
Ou ter um Deus que receberam pronto
Idéias que os outros conceberam.
A esses não estorva o passo,
A almejada ração de uma alegria...
Não distinguem a Cor do Sol e do Mormaço.
E o Dia... é sempre o mesmo Dia.
1 248
Mário Pederneiras
Íntimo
(fragmento)
A boa vida é esta:
O sossego normal deste meu quarto,
Em luz e paz imerso,
Onde as horas reparto
Entre o — do ganha-pão — rude trabalho
E o Culto do meu Verso,
Que me dá e atesta
A certeza orgulhosa do que valho.
E numa esfera assim, clara e discreta,
Que um bem-estar pacífico resuma,
Ter, como eu tenho, quando leio e escrevo,
O suave enlevo,
De uma
Doce figura feminina e casta
Que, alegremente e carinhosa, arrasta
A vida heróica de mulher de Poeta.
Não que o Poeta seja um mau, um triste
Merecedor de insultos e de apodos,
De ódio e menoscabo...
Nele, ao contrário, só doçura existe,
Mas porque é um pobre diabo
Que sofre mais que todos.
A boa vida é esta:
O sossego normal deste meu quarto,
Em luz e paz imerso,
Onde as horas reparto
Entre o — do ganha-pão — rude trabalho
E o Culto do meu Verso,
Que me dá e atesta
A certeza orgulhosa do que valho.
E numa esfera assim, clara e discreta,
Que um bem-estar pacífico resuma,
Ter, como eu tenho, quando leio e escrevo,
O suave enlevo,
De uma
Doce figura feminina e casta
Que, alegremente e carinhosa, arrasta
A vida heróica de mulher de Poeta.
Não que o Poeta seja um mau, um triste
Merecedor de insultos e de apodos,
De ódio e menoscabo...
Nele, ao contrário, só doçura existe,
Mas porque é um pobre diabo
Que sofre mais que todos.
1 134
Mario Ribeiro Martins
Os Idos
Quando nos tempos idos, mas lembrados,
meu coração fervia nas paixões,
os meus versos riquíssimos, amados,
eram versos de amor, de corações.
Mas hoje são meus versos repassados,
de tristezas, misérias, ilusões.
Meus dias de velhice, desfibrados,
não me trazem senão recordações.
A musa me fugiu do coração
e a dor se apoderou da minha vida:
SÓ FAÇO VERSOS TRISTES NESTA LIDA.
Muitos lerão meus versos e dirão,
e dirão para todos, com certeza:
ESTE VATE FOI FILHO DA TRISTEZA.
meu coração fervia nas paixões,
os meus versos riquíssimos, amados,
eram versos de amor, de corações.
Mas hoje são meus versos repassados,
de tristezas, misérias, ilusões.
Meus dias de velhice, desfibrados,
não me trazem senão recordações.
A musa me fugiu do coração
e a dor se apoderou da minha vida:
SÓ FAÇO VERSOS TRISTES NESTA LIDA.
Muitos lerão meus versos e dirão,
e dirão para todos, com certeza:
ESTE VATE FOI FILHO DA TRISTEZA.
1 105
Walkiria Lopes Cruz
Viva a Vida
São as virtudes da vida
que nos fazem presenciar novas surpresas
a cada dia
Viva a vida
Ame a vida
Aproveite a vida
Valorize a vida
VIDA... uma palavra tão fácil de escrever
Mas difícil de compreender
Muitos não dão valor
Vários outros a desperdiçam
Agora, há pessoas de bom senso
Vivem como se VIDA
tivesse o significado de LIBERDADE
E por tudo isso se alegram
E desfrutam, plenamente, de cada momento dela
Por isso eu repito
Ou melhor, eu grito
Viva a vida!
Ame a vida!
Aproveite a vida!
Valorize a vida!
que nos fazem presenciar novas surpresas
a cada dia
Viva a vida
Ame a vida
Aproveite a vida
Valorize a vida
VIDA... uma palavra tão fácil de escrever
Mas difícil de compreender
Muitos não dão valor
Vários outros a desperdiçam
Agora, há pessoas de bom senso
Vivem como se VIDA
tivesse o significado de LIBERDADE
E por tudo isso se alegram
E desfrutam, plenamente, de cada momento dela
Por isso eu repito
Ou melhor, eu grito
Viva a vida!
Ame a vida!
Aproveite a vida!
Valorize a vida!
914
Manuel Sobrinho
São Francisco
Ó triste e pobretã cidade maranhense!
Por que a eterna canção romântica das águas
Do velho Parnaíba onduloso não vence
Teu descontentamento e tuas fundas mágoas?
Por que já não te enfeita a pompa que outrora
ostentavas riqueza, orgulho e poderio?
Não vês que ao pé de ti o arvoredo se enflora
Ao beijo das manhãs translúcidas do estio?
Por que sofres assim? Por que definhas tanto?
Por que te pesa a cruz de tal adversidade?
Olha: a árvore remoça em teu subúrbio, e o canto
Das aves do teu céu traduz felicidade...
Por que tua cerviz dobras e não encaras
O céu, que nos dá força, em nosso desalento?
Vês? O Morro da Cruz e o Morro das Araras
Erguem a fronte larga à luz do firmamento...
Por que, perdendo a forma estética, te afeias,
Contrastando com tudo aí desse recanto,
Quando eu — que sou teu filho — eu sei que te rodeias
De infindáveis painéis do mais soberbo encanto?
Por que fazes, agora, humilde, curvaturas
A tudo o que enfrentaste, outrora, com denodo?
É que, nas asas do ouro, ontem galgaste alturas,
E hoje, rastejas, pobre e anônima, no lodo.
Por que a eterna canção romântica das águas
Do velho Parnaíba onduloso não vence
Teu descontentamento e tuas fundas mágoas?
Por que já não te enfeita a pompa que outrora
ostentavas riqueza, orgulho e poderio?
Não vês que ao pé de ti o arvoredo se enflora
Ao beijo das manhãs translúcidas do estio?
Por que sofres assim? Por que definhas tanto?
Por que te pesa a cruz de tal adversidade?
Olha: a árvore remoça em teu subúrbio, e o canto
Das aves do teu céu traduz felicidade...
Por que tua cerviz dobras e não encaras
O céu, que nos dá força, em nosso desalento?
Vês? O Morro da Cruz e o Morro das Araras
Erguem a fronte larga à luz do firmamento...
Por que, perdendo a forma estética, te afeias,
Contrastando com tudo aí desse recanto,
Quando eu — que sou teu filho — eu sei que te rodeias
De infindáveis painéis do mais soberbo encanto?
Por que fazes, agora, humilde, curvaturas
A tudo o que enfrentaste, outrora, com denodo?
É que, nas asas do ouro, ontem galgaste alturas,
E hoje, rastejas, pobre e anônima, no lodo.
745
Manuel Sobrinho
São Francisco
Ó triste e pobretã cidade maranhense!
Por que a eterna canção romântica das águas
Do velho Parnaíba onduloso não vence
Teu descontentamento e tuas fundas mágoas?
Por que já não te enfeita a pompa que outrora
ostentavas riqueza, orgulho e poderio?
Não vês que ao pé de ti o arvoredo se enflora
Ao beijo das manhãs translúcidas do estio?
Por que sofres assim? Por que definhas tanto?
Por que te pesa a cruz de tal adversidade?
Olha: a árvore remoça em teu subúrbio, e o canto
Das aves do teu céu traduz felicidade...
Por que tua cerviz dobras e não encaras
O céu, que nos dá força, em nosso desalento?
Vês? O Morro da Cruz e o Morro das Araras
Erguem a fronte larga à luz do firmamento...
Por que, perdendo a forma estética, te afeias,
Contrastando com tudo aí desse recanto,
Quando eu — que sou teu filho — eu sei que te rodeias
De infindáveis painéis do mais soberbo encanto?
Por que fazes, agora, humilde, curvaturas
A tudo o que enfrentaste, outrora, com denodo?
É que, nas asas do ouro, ontem galgaste alturas,
E hoje, rastejas, pobre e anônima, no lodo.
Por que a eterna canção romântica das águas
Do velho Parnaíba onduloso não vence
Teu descontentamento e tuas fundas mágoas?
Por que já não te enfeita a pompa que outrora
ostentavas riqueza, orgulho e poderio?
Não vês que ao pé de ti o arvoredo se enflora
Ao beijo das manhãs translúcidas do estio?
Por que sofres assim? Por que definhas tanto?
Por que te pesa a cruz de tal adversidade?
Olha: a árvore remoça em teu subúrbio, e o canto
Das aves do teu céu traduz felicidade...
Por que tua cerviz dobras e não encaras
O céu, que nos dá força, em nosso desalento?
Vês? O Morro da Cruz e o Morro das Araras
Erguem a fronte larga à luz do firmamento...
Por que, perdendo a forma estética, te afeias,
Contrastando com tudo aí desse recanto,
Quando eu — que sou teu filho — eu sei que te rodeias
De infindáveis painéis do mais soberbo encanto?
Por que fazes, agora, humilde, curvaturas
A tudo o que enfrentaste, outrora, com denodo?
É que, nas asas do ouro, ontem galgaste alturas,
E hoje, rastejas, pobre e anônima, no lodo.
745
Marcelo Perrone
Sonhos
Que são sonhos?Só sonhamos dormindo?E a nossa imaginação?Será que é de lá que vêm os sonhos?
E se um sonho parece torna-se realidade?Ainda é sonho?Ou não é realidade?Não fora sonho, talvez?
Será?
Será que estou sonhando?Ou talvez esteja realizando?Meu sonho é realidade?
Minha realidade é sonho.
Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-
E se um sonho parece torna-se realidade?Ainda é sonho?Ou não é realidade?Não fora sonho, talvez?
Será?
Será que estou sonhando?Ou talvez esteja realizando?Meu sonho é realidade?
Minha realidade é sonho.
Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-
924
Marcelo Reis
Entorpecer
Entorpecer
Vida, se tu pudesses ser bebericada
Em xícaras de fumaça,
Lá estaria eu, entorpecido
Pelas nuvens do mesmo líquido
Eu poderia voar até o teu colo
Até o teu beijo e até o teu olhar
E penetrar no manto da noite
Para te encarar verdadeiramente
Vida, te quis face a face
E para isso dancei uma valsa,
Uma valsa com a Morte
A doce, inofensiva e serena Morte
Tão fácil de se apaixonar, apaixonou-se
O que me restou foi levá-la para a cama
Lavar-lhe o corpo, oferecer-lhe um pouco de meu amor
E por fim molhar-lhe as pálpebras cansadas
Agora, Vida, que sucumbi a Morte de paixão,
Te quero imensa e fanaticamente
Cubra-me todas as pequenas noites frias
E me liberte nas grandes noites quentes
Ao comando de teus arcanjos
Estou submetido
E de ti, tenho certeza,
As cores todas se alimentam
Vida, se tu pudesses ser bebericada
Em xícaras de fumaça,
Lá estaria eu, entorpecido
Pelas nuvens do mesmo líquido
Eu poderia voar até o teu colo
Até o teu beijo e até o teu olhar
E penetrar no manto da noite
Para te encarar verdadeiramente
Vida, te quis face a face
E para isso dancei uma valsa,
Uma valsa com a Morte
A doce, inofensiva e serena Morte
Tão fácil de se apaixonar, apaixonou-se
O que me restou foi levá-la para a cama
Lavar-lhe o corpo, oferecer-lhe um pouco de meu amor
E por fim molhar-lhe as pálpebras cansadas
Agora, Vida, que sucumbi a Morte de paixão,
Te quero imensa e fanaticamente
Cubra-me todas as pequenas noites frias
E me liberte nas grandes noites quentes
Ao comando de teus arcanjos
Estou submetido
E de ti, tenho certeza,
As cores todas se alimentam
1 132
Marcelo Reis
Entorpecer
Entorpecer
Vida, se tu pudesses ser bebericada
Em xícaras de fumaça,
Lá estaria eu, entorpecido
Pelas nuvens do mesmo líquido
Eu poderia voar até o teu colo
Até o teu beijo e até o teu olhar
E penetrar no manto da noite
Para te encarar verdadeiramente
Vida, te quis face a face
E para isso dancei uma valsa,
Uma valsa com a Morte
A doce, inofensiva e serena Morte
Tão fácil de se apaixonar, apaixonou-se
O que me restou foi levá-la para a cama
Lavar-lhe o corpo, oferecer-lhe um pouco de meu amor
E por fim molhar-lhe as pálpebras cansadas
Agora, Vida, que sucumbi a Morte de paixão,
Te quero imensa e fanaticamente
Cubra-me todas as pequenas noites frias
E me liberte nas grandes noites quentes
Ao comando de teus arcanjos
Estou submetido
E de ti, tenho certeza,
As cores todas se alimentam
Vida, se tu pudesses ser bebericada
Em xícaras de fumaça,
Lá estaria eu, entorpecido
Pelas nuvens do mesmo líquido
Eu poderia voar até o teu colo
Até o teu beijo e até o teu olhar
E penetrar no manto da noite
Para te encarar verdadeiramente
Vida, te quis face a face
E para isso dancei uma valsa,
Uma valsa com a Morte
A doce, inofensiva e serena Morte
Tão fácil de se apaixonar, apaixonou-se
O que me restou foi levá-la para a cama
Lavar-lhe o corpo, oferecer-lhe um pouco de meu amor
E por fim molhar-lhe as pálpebras cansadas
Agora, Vida, que sucumbi a Morte de paixão,
Te quero imensa e fanaticamente
Cubra-me todas as pequenas noites frias
E me liberte nas grandes noites quentes
Ao comando de teus arcanjos
Estou submetido
E de ti, tenho certeza,
As cores todas se alimentam
1 132
Mario Ribeiro Martins
Obire Et Vincere
Vate exaltado, cuja força vibra,
no peito alegre, forte e encorajado.
O denodo mentor da tua fibra,
há de fazer-te sempre admirado.
Se em tua mão, ó homem, se equilibra,
a pena má, origem do pecado,
não deixes, com o vigor da tua fibra,
executar sequer um pontilhado.
Famoso menestrel de que me ufano,
as conquistas do teu esforço humano
serão eternamente inspiração.
O teu desejo de enfrentar a vida,
a luta ardente pra vencer a lida
SÃO FORÇAS VIVAS DO TEU CORAÇÃO.
no peito alegre, forte e encorajado.
O denodo mentor da tua fibra,
há de fazer-te sempre admirado.
Se em tua mão, ó homem, se equilibra,
a pena má, origem do pecado,
não deixes, com o vigor da tua fibra,
executar sequer um pontilhado.
Famoso menestrel de que me ufano,
as conquistas do teu esforço humano
serão eternamente inspiração.
O teu desejo de enfrentar a vida,
a luta ardente pra vencer a lida
SÃO FORÇAS VIVAS DO TEU CORAÇÃO.
933
Mário Pederneiras
Eterna
Intérmino que fosse o Caminho da Vida
E eterno o caminhar do nosso passo incerto,
Fosse na estrada larga ou fosse no deserto,
Sem lar, sem pão, sem paz, sem sol e sem guarida;
Intérmina que fosse a estrada percorrida.
Sob o Céu todo azul ou de nuvens coberto
E, o repouso fatal nunca estivesse perto
E a distância final nunca fosse vencida;
E vencendo ao caminho as urzes e os escolhos,
As lutas, o pavor, o cansaço do dia,
A fraqueza do passo, a tristeza dos olhos;
Meu pobre coração nessa eterna ansiedade,
Nesse eterno sofrer, eterno arrastaria
Esta triste, esta longa, esta eterna Saudade.
E eterno o caminhar do nosso passo incerto,
Fosse na estrada larga ou fosse no deserto,
Sem lar, sem pão, sem paz, sem sol e sem guarida;
Intérmina que fosse a estrada percorrida.
Sob o Céu todo azul ou de nuvens coberto
E, o repouso fatal nunca estivesse perto
E a distância final nunca fosse vencida;
E vencendo ao caminho as urzes e os escolhos,
As lutas, o pavor, o cansaço do dia,
A fraqueza do passo, a tristeza dos olhos;
Meu pobre coração nessa eterna ansiedade,
Nesse eterno sofrer, eterno arrastaria
Esta triste, esta longa, esta eterna Saudade.
1 516