Neide Archanjo

Neide Archanjo

n. 1940 BR BR

Neide Archanjo é uma poeta brasileira cuja obra se caracteriza pela sensibilidade na abordagem de temas como a natureza, o corpo, o tempo e a condição feminina. Sua poesia é marcada por uma linguagem lírica e imagética, explorando a subjetividade e as nuances das relações humanas. Archanjo constrói um universo poético onde o cotidiano se entrelaça com o transcendental, convidando o leitor a uma profunda reflexão sobre a existência e o ser. Com uma escrita que transita entre o íntimo e o universal, Neide Archanjo se firma como uma voz importante na poesia contemporânea, oferecendo um olhar delicado e potente sobre o mundo e seus mistérios.

n. 1940-01-01, Rio de Janeiro, RJ · m. , Rio de Janeiro, RJ

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Não pude ser

Não pude ser
o teu amor perfeito
antes esta ferida.
Por isso para ti
não serei a pele
— poro a poro teu alumbramento —
serei apenas a cicatriz.

Perfeita.

Esculpo a página a lápis
e um cheiro de bosque
então me aparece.
Que a poesia é feita de romãs
daquilo que é eterno
e de tudo que apodrece.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Neide Archanjo é uma poeta brasileira. Sua obra é escrita em língua portuguesa e se insere na produção poética contemporânea do Brasil.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de Neide Archanjo não estão amplamente disponíveis na literatura especializada.

Percurso literário

Neide Archanjo tem uma trajetória como poeta, com obras publicadas que a inserem no cenário literário brasileiro. Sua evolução como escritora é marcada por uma constante exploração da linguagem poética e pela profundidade temática.

Obra, estilo e características literárias

Entre suas obras, destaca-se "O Corpo em Sombra" (2017), que exemplifica seu estilo. Seus temas principais incluem a natureza, o corpo, o tempo, a condição feminina e as relações humanas. A poesia de Archanjo é conhecida por sua linguagem lírica e imagética, com um tom predominantemente confessional e reflexivo. Utiliza recursos como metáforas e um ritmo cadenciado para criar imagens vívidas e evocar emoções. Sua voz poética é intimista, mas acessível, conectando o leitor a uma experiência universal.

Contexto cultural e histórico

Sua obra se desenvolve em um contexto de afirmação da poesia contemporânea brasileira, marcada por diversas tendências e influências. Dialoga com a produção literária que aborda questões de gênero e subjetividade.

Vida pessoal

Detalhes sobre sua vida pessoal não são amplamente divulgados, mas a sensibilidade com que aborda temas como a condição feminina sugere uma conexão profunda com suas vivências e observações.

Reconhecimento e receção

Neide Archanjo tem recebido atenção da crítica e do público leitor, sendo reconhecida por sua contribuição para a poesia contemporânea. Sua obra "O Corpo em Sombra" foi bem recebida, consolidando seu nome.

Influências e legado

Embora as influências específicas não sejam explicitamente detalhadas, sua poesia dialoga com a tradição lírica e com a poesia moderna que explora a subjetividade e a linguagem.

Interpretação e análise crítica

A obra de Neide Archanjo é frequentemente analisada sob a ótica da exploração do corpo como território de experiência e expressão, da passagem do tempo e da feminilidade. Sua poesia convida à introspecção e à contemplação.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

A capacidade de Neide Archanjo de tecer com a palavra imagens que ressoam profundamente no leitor é uma de suas características mais notáveis.

Morte e memória

Não há informações disponíveis sobre sua morte ou publicações póstumas.

Poemas

18

Não pude ser

Não pude ser
o teu amor perfeito
antes esta ferida.
Por isso para ti
não serei a pele
— poro a poro teu alumbramento —
serei apenas a cicatriz.

Perfeita.

Esculpo a página a lápis
e um cheiro de bosque
então me aparece.
Que a poesia é feita de romãs
daquilo que é eterno
e de tudo que apodrece.

1 361

Toca minha pele assim

Toca minha pele assim:
as costas com beijos lentos
a nuca com lábios roxos
as coxas com mãos noturnas.

Nada é mais suave
que teu cabelo solto
aberto como asa
sobre meu corpo.


Poema integrante da série Canto IV: Ilhas Idílicas.

In: ARCHANJO, Neide. As marinhas. Apres. Sônia Régis. Rio de Janeiro: Salamandra, 1984
1 475

40 [Ah, esta manhã tão clara

Ah, esta manhã tão clara
e teu corpo que se inclina para o mar.
Como conciliar a luz em teu olho,
as ondas deitadas mansamente, mansamente
e a tua imagem
longa gaivota
indo e vindo pela praia verde de sol,
tudo como numa marinha de Pancetti
que tenho dentro de mim?
Não há o que lembrar.
Falo desta luz que me ilumina
e que te alcança embora longe
porque é primavera aqui onde estou
e é primavera aí onde estás.
Pressinto a tua mansidão hoje
nesta manhã tão clara
e sempre te quis saber assim:
olhando o mar.
Não há onde buscar lembranças,
senão naquelas lembranças
agora retomadas nesta manhã tão clara
em que vejo nítida e precisamente
em frente ao mar
a imagem que me aprisiona e mata docemente
que me aprisiona e mata docemente
em frente a outro mar.


In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
1 125

A gota

A gota
se desloca do rio de gotas
e antes de mergulhar
ávida
na minha mão
recolhe um momento
de diamante ou de cristal.


Poema integrante da série Fragmentos.

In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
1 133

Veio negra

(...)

Veio negra
lindíssima
como um lírio de Ofir
e habitou a tenda que armei
entre silêncios
do ócio mais ardente
alegria luminosa de carícias
coisas perfumadas trazidas de viagens
feitas por terra
e por mar.

Deitou seu corpo ao lado do meu.
Abrigou-se.
À nossa volta tudo foi
farto doce e santo
o verde o roxo o branco
mais uma ternura
que sabia ser volúpia
e quis ser encanto.

(Sentada
nua.

Um lenço cobre o bandó
desce pelas encostas
longas líbias escuras.
No chão os seus arreios
nos joelhos minha cabeça que descansa.
É tarde
um sol pequeno brota na janela:
meu poema e seus contornos
entre seus dedos
como os seus adornos.
Na voz uma canção nagô
falando de coisas estranhas
que devem ser de amor.
Em seu corpo esplêndido
suor e gozo
beijoim e hortelã
um silêncio roxo resplandece.

Reina Nanã.)

(...)


Poema integrante da série Sítio III.

In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
1 065

41 [A cidade nunca me cansou, Quixote

A cidade nunca me cansou, Quixote,
apenas me confundiu
quando se espalhou pelas marginais,
empurrou o rio
e saiu do outro lado do mundo.
Gostaria que ela fosse
a cidade de Oswald de Andrade, o sátiro,
e as tardes limpas do rio Tietê
e os passeios de Cadillac pelo Paraíso.
Esta é a rua Mauá.
O trem ali embaixo
não dá vontade de partir,
porque sinto que nenhuma viagem,
nenhuma outra vida,
nenhuma outra forma de vida,
mudaria a vida,
este estado definitivo e morno
de todas as coisas.
Por isso vou, volto, reflito.
E tenho medo.


In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
1 093

A minha cidade é

A minha cidade é
sagrada
dura
casta.
Digo pouco.
Ela devora todas as falas.
A gente que aqui mora
vai se matar em cinco minutos
cercada de falos brancos
lentos cavalos
duplos edifícios.
Nas ruas o asfalto friíssimo
e a fundação dos esgostos.
Nas casas
os comedores
os roedores
os suicidas
os assassinos
os vampiros
todos absolutamente bons.
Aqui se morre de amor.
O mar é vazio
— abismo no vale —
e os rios soltos pelo interior.
Ai, a mágoa desta cidade
não se conta.
Por que escurecer o coração?

(...)

O halterofilista da praça da Sé
o bancário da rua XV
o moço do bilhar
a menina do som de cristal
o móvel corretor de imóveis
o vendedor de bilhetes
o vendedor de automóveis
— margem rio peixe água entulho flor —
e o artista
— homem coletivo —
têm o privilégio:
suportam te olhar sem filtros.
Com eles eu componho
a tua aura
— encantamento além da superfície —
e te assumo agudíssima canção
na garganta estreita
do meu grito.
Sei que meus juízos minhas ações
meus atos
comprometem a tua sacralidade áspera
a tua dureza espessa
a tua castidade casta.
Mas a cada hora gasta
— queda cegueira dor —
sonho a minha conversão exausta.
Saulo, Saulo, por que me persegues?


In: ARCHANJO, Neide. Poesia na praça. São Paulo: I.L.A. Palma, 1970
913

No jardim do mosteiro

No jardim do mosteiro
silêncios envolvem o monge
e seu livro de horas.
Ele sabe da sombra infinita
que espera lá fora.
É velho o monge
e morrerá com ele
alguma frase em latim
uma entonação gregoriana
seu rosário suas sandálias
e um pouco de mim.


Poema integrante da série I - Da Morte.

In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
1 235

Não estamos perdidos

Não estamos perdidos.
Isto é um milagre. Ter um corpo
uma casa um amigo
manter nas veias o sangue aceso
é um milagre. Saber que houve alguém
que nos acariciou
e nos banhou de lágrimas.


no meio da rua
penso nestas dádivas
antes que a lâmina da morte me atravesse.


Poema integrante da série I - Da Morte.

In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
1 160

Era candeia

Era candeia
e parecia ser o lume.
Era candeia.

Nomeio-o
Alma
adequado ao clarão
que traz consigo.

Nem distraído
nem remoto
este Anjo
apenas hesitante
entre o bem e o mal
como se um e outro
ele não fora
e assim desapercebido
ora luz ora sombra
passasse por mim.
Em contrapontos.


In: ARCHANJO, Neide. O poeta e o anjo. Rio de Janeiro, 1994. p.9. Poemas datilografado
1 248

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