Lista de Poemas

Táxi

ou poema de amor passageiro

At the violet hour, when the eyes and back
turn upward from the desk, when the human engine waits
like a taxi throbbing waiting...

T.S. Eliot ("The waste land", 215-217)

Depois de tirar e enrolar no bolso minha gravata colorida;
depois do pique, atravessando ruas & portas,
bebendo a luz da tarde refletida em caras que nunca mais verei;
depois da ginástica bancária,
dos trambiques dados,
dos chopes na esquina;
de ter avistado as chapinhas de cerveja encravadas no asfalto
e o poema alucinado e cínico,
inscrito no corpo crivado de signos & senhas;

depois disso tudo:

de ter esquecido o dia,
sentir-me refeito e repleto, pronto para outra,
- me vejo aqui parado, esperando,
com o olhar atento, ansioso,
como se pela primeira vez,
à beira da calçada ou à beira de mim,
como se de repente
não pudesse perder o que exatamente não sei
nem saberia...

...TÁXI!
Êiii!... Aqui!
(Dou com a mão)

TUDO COMEÇA SUBITAMENTE ONDE ESTOU

- Ó Fortaleza, multidão de portas e postes batendo com sua luz
adolescente no olho da eternidade!
Fortaleza de 300 mil bocas ardentes como o sol,
famintas de amor e tragos de farinha.
Fortaleza de prédios mal-acabados, espetando a noite furiosa e redonda.
Fortaleza, avenida de neon, deslizando para todos os desejos.
Fortaleza, Bezerra de Menezes, seis mãos indo e voltando,
e uma dor viajando, num só sentido, no banco traseiro de um táxi,
para onde vamos?
Fortaleza, solidão escamosa, suor noturno, revelação.

EU TE PERCORRO

Eu, fiapo da mente de Deus que um dia avistei,
caminhando, sim, com o Universo inteiro,
que era sua própria cabeça iluminada,
pensando estrelas e galáxias
e as mais recôndidas nebulosas...

- Quem mais saberia disso?

(Este Táxi,
a rua rolando rente,
os telhados correndo, pensos, de um lado e outro,
a lata de lixo solitária,
as árvores caladas,
rostos e estrelas entrevistos da janela,
teu corpo passageiro,
tudo isso à tua frente ou dentro de ti,
que passa ou permanece no teu olhar-vida,
é o pensamento infinito de Deus
girando suas formas no espaço,
borbulhando mínimo e visível,
invisível e total,
surgindo
e desaparecendo,
transformando-se e ressurgindo
nas neuras insondáveis do tempo.)

Ó pensamento rugoso de Deus sobre os muros!
Sílabas soltas que são papéis pelas calçadas;
palavras, pés que transitam apressados
ruas, frases repentinas;

dias como sentenças cortando /
a cidade indiferente:

relâmpagos de sentido cruzando

o corpo

dentro da noite

dilacerantes
metáforas
dilaceradas

Balbucios

Orações entrecortadas

Gagueira fluente de tudo

- Ó áspera Linguagem em que viajamos sedentos de tradução!

No banco traseiro do carro, vamos nós, Moema e eu,
beijando já seus lábios levemente rachados
pelo sol da praia.

E porque em qualquer esquina posso me acabar
numa trombada,
e por certo sua dor será igual à minha,
{a alma espremida por entre ferragens}
- não importa onde,
você bem pode me entender, Steve,
lá na distante 175, Flower Rd., em Huntington, NY.

Ou se passo as mãos nas coxas de Moema
e percebo, excitado,
o tesão maior de Deus movendo as estrelas e todas as coisas,
você também me compreende, Affonso,
no alto de um edifício em Ipanema,
recitando Nietzsche, "a emoção é a vitória contra o tédio",
enquanto compõe para o JB a última crônica carnavalesca
da Nova República.

E você, metaleiro anônimo, lá de Cajazeiras, na Paraíba,
que não pôde ir ao Rock in Rio
curtir o Whitesnakes, o Queen, o heavymetal,
mas viu na TV,
e ficou ferido da maior solidão sonora do mundo,
- você também me entende, ó meu, no teu silêncio.
........................................................

Ok, minha filha, vamos nós,
zanzando neste Táxi muito louco,
por dentro da cidade,
rodando e girando,
girando e rodando
por aí, sempre.

Sim, passageiros somos,
turistas do instante.
Make it new, say. Sei.

Por isso, sinta minha língua afiada
sussurrando no teu ouvido,
enquanto dedilho sobre tua calcinha
uma ode que Arquíloco não fez
para sua esquiva Neóbula,
de cabeleira fugaz como essa noite.

Ah, tua mão direita, ávida borboleta esmaltada!
Sim, a mais pura sabedoria nasce do amor
entre um homem e uma mulher.

(Claro, há homovariações da verdade. Que importa?)
Os lábios ardentes, tocando-se, sabem mais;
abraçados, os corpos, idênticos ou não,
conhecem mais. Mais - o que seja: oh!
- fisgada de Deus adorando (de qualquer forma)
suas criaturas.

Confira o lance:

toda sabedoria passa pela carne;
toda iluminação atravessa os sentidos;
toda visão viaja pelo corpo,
- ponte de sangue sensitivo entre o céu e a terra,
vertigem da consciência esbarrando
nas paredes das costelas,
pequeno cais nervoso de todas as sensações
à beira do nada
- oceano calado te espreitando,
as amarras do corpo
partindo-se a cada minuto
do porto de si mesmo...

E eu aqui, sábio com as mãos entre tuas coxas,
soprando ávido
no teu ouvido
a lição luminosa:
sessenta e nove

E tua língua veloz: love
love
logos.

Mais depressa!
Direto para um motel na Praia do Futuro.

Por cima de tudo:
buracos,
quebra-molas,
pedras,
calçadas,
transeuntes,

principalmente por cima desta hora que atravesso
com um estremecimento súbito das portas e da alma.

Porque tudo é tremor, companheiro.
A vida treme onde bate - no centro ou nas bordas: - não importa.
Minha mão treme tocando de leve os peitos de Moema;
o carro treme transitando por entre trilhos e temores;
as luzes de neon estremecem ao golpear rostos súbitos pelas calçadas;
a avenida treme sob pneus e pensamentos sobressaltados;
a cidade toda estremece subindo pelos edifícios,
sacudida por ondas e gestos na maré das ruas;
treme a noite com suas estrelas pulsando solidão e distância.
Ruge e estremece a Via Láctea
feito um animal ferido (Ursa Maior?)
fugindo pelo infinito,
sangrando luz e abismos
por onde passa...

Porque o frio espreita
e o silêncio devora,
ESTREMECEMOS TODOS
a cada instante,

homens -
máquinas -
coisas -

com os músculos,
as fibras
e a febre dos circuitos
- em cruel expectativa...

Em frente, o Mercado São Sebastião
- fim e começo da avenida,
entrada e saída desta hora indiferente,
correndo pela pista de sentido duplo para o infinito.

Mercado São Sebastião por onde passo:
- bagaços de laranja, cascas de banana,
tocos de cigarro, papéis e jornais sujos,
rolando pelas coxias da lembrança.

Tudo ali - solto - gestos desgarrados do tempo.

Eu te penetro, suburbano labirinto, por entre acres
balcões, sentindo a respiração ofegante
das alfaces e frutas
- sobre minha pele -
querendo juntas docemente apodrecer ali.

E ver por trás das balanças homens de camiseta
2 867

Haicai

Tristeza

Uma árvore torta.
Uma ave cantando grave.
A tarde já morta.

Outono

Folhas. Ventania.
Cajus se despencam nus:
apodrece o dia.

2 695

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Identificação e contexto básico

Adriano Espínola é um poeta português contemporâneo, nascido em Lisboa. Sua obra poética se insere no panorama da poesia portuguesa recente, explorando temas e linguagens que dialogam com a contemporaneidade.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação específica de Adriano Espínola não são amplamente divulgadas em fontes públicas. Presume-se que tenha tido acesso a uma formação que lhe permitiu desenvolver uma sensibilidade apurada para a linguagem e para as artes.

Percurso literário

O percurso literário de Adriano Espínola é marcado pela sua atividade como poeta, com publicações que têm vindo a construir um corpo de obra consistente. Sua escrita evolui explorando novas formas de expressão poética e abordando temáticas relevantes para o contexto atual.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Adriano Espínola é caracterizada por uma linguagem que combina a precisão conceptual com a expressividade lírica. Aborda temas como a identidade, a memória, a cidade, o corpo e as relações humanas, frequentemente com um olhar introspectivo e crítico. O seu estilo pode variar entre o verso livre e formas mais experimentais, explorando a musicalidade e o ritmo das palavras para criar imagens vívidas e evocar sensações. A voz poética de Espínola é muitas vezes pessoal e confessional, mas ressoa com preocupações universais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Adriano Espínola insere-se no contexto cultural e histórico da poesia portuguesa contemporânea, um período marcado pela diversidade de estilos e pela interação com as realidades sociais, políticas e tecnológicas do século XXI. A sua obra reflete as inquietações e as dinâmicas da sociedade atual.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Adriano Espínola, como relações afetivas ou aspetos da sua intimidade, não são publicamente detalhados. No entanto, a sua poesia frequentemente evoca experiências e sentimentos que sugerem uma vida interior rica e uma profunda capacidade de observação.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Adriano Espínola tem vindo a crescer no meio literário português, com a publicação de livros que recebem atenção crítica e de leitores. A sua posição na poesia contemporânea é consolidada pela originalidade do seu discurso e pela qualidade da sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências que moldaram Adriano Espínola podem incluir poetas da tradição literária portuguesa e internacional, bem como outras formas de arte e pensamento contemporâneo. O seu legado reside na sua contribuição para a renovação da linguagem poética e na sua capacidade de expressar as complexidades do mundo atual.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Adriano Espínola oferece um terreno fértil para a interpretação crítica, abordando temas existenciais e sociais com profundidade. As suas reflexões sobre a identidade, a memória e a relação com o espaço urbano convidam a análises que exploram as suas dimensões filosóficas e psicológicas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da vida ou da obra de Adriano Espínola podem estar relacionados com hábitos de escrita específicos, manuscritos inéditos ou episódios curiosos que não são amplamente divulgados, mas que poderiam enriquecer a compreensão do seu perfil artístico.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Como poeta contemporâneo, a questão da morte e memória, no que diz respeito à sua própria figura, é algo para o futuro. No entanto, a sua obra aborda frequentemente a memória como um tema central.