Lista de Poemas

O Mundo É Pequeno

O mundo é pequeno,
não vai além de nossa casa.
A estrada e o aramado
vizinham mas não se amam.
O silêncio morre
neste tapete de ausências
onde procuro o sono e a manhã.
O vinho é a esperança
onde escrevo e permaneço.


Publicado no livro Livro do passageiro (1992).

In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.6
1 644

Abril

Quero tudo em abril
o que é doce e juvenil
na mão de uma menina
em breve alucina
é o amor que se declara
presença matutina
em quem antes não amara

Quero amar em abril
mais do que em março
assim a voz da paixão
é onde coloco o abraço

Quero tudo em abril
o sonho vem logo abrir
o que em mim era pueril
para o canto fazer-se ouvir
entre as ruas da cidade

Quero tudo em abril
do feliz aniversário
ao amor ordinário
da namorada cheirosa
que seja rosa e morada
luz aberta na madrugada

Quero tudo em abril
as formas de ser gentil
o que nunca é servil
o que serve só ao Brasil
toda a rima em il
que nunca será febril
pois nunca é noite em abril


In: MIRANDA, Luiz de. Livro dos meses. São Paulo: FTD, 1992. (Falas poéticas).
4 992

Lá Estão os Trens

Lá estão os trens,
sob o calor da ausência,
num isolamento de ferro.
Eles carregam a dor,
a indagação dos caminhos,
a tristeza, a alegria,
o espelho vivo das memórias.
Viajamos todos
num mesmo vagão de carga.
Lá vão os trens
em sua estrada interminável.


Publicado no livro Livro do passageiro (1992).

In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.13
1 260

Viagem

O que viaja em nós
às vezes é infeliz
como a alegria do meu país.
Mas o que ama brilha,
viaja além do ônibus, da tristeza,
na estrada, na estrela,
principalmente no amor
que cala nossa dor,
inventa a esperança
e faz a fala da paixão.


Publicado no livro Livro do passageiro (1992).

In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.4
1 578

Tonho Tropeiro

a Geraldo Vandré

I

Tonho tropeiro cavalga
entre lendas e o instante
burocrático (democrático)

Surgiu no morro morrente
do desmorre, onde dorme
o sol, e as tempestades recolhem
os braços sobre o baço

Suas esporas fizeram estrada
no campo de terra lavrada
seus pés cruzaram chão
que nem dá pra contar

Tonho tropeiro, fruto do campo
uma prece, um canto
a revolta da relva
explodiu verde no espaço
uma prece, um canto
a noite engoliu o dia
uma prece, um canto
um morria, outro nascia
uma prece, um canto
é hora de sombras e assombros
uma luta é uma luta

II

arado
arando
campo

mil discos arando a terra
mil valas abertas na noite
mil corpos cobrindo a terra
dorsalmente em decúbito.

um ruído escasso
um ruído distante
um som de silêncio

a tropa estende-se na estepe
a trova estendida esteve
a estrela, repórter da noite
estende um chamado estranho
a lua espia de longe
até parece um monge
o tropeiro estende o corpo
o silêncio profundo das horas
noturnas estende seu manto.

três berros
três velas
três sustos

um olho buscando luz
um pé buscando apoio
um corpo buscando ação

(...)


Publicado no livro Andança (1969). Poema integrante da série No Instante.

In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.452-453

NOTA: Poema composto de 3 parte
1 554

Dezembro

Dezembro é pura lembrança
um brinquedo quebrado
em nossos velhos sapatos
traz de volta a criança
que dança, dança, dança
senhora de nossos atos

Dezembro é pura lembrança
um menino foge de casa
mistura-se ao destino dos ciganos
ao de um pássaro sem asas
que vaza na noite seu vôo cego

Dezembro é pura lembrança
os presentes são anunciados
e se iluminam as esperanças
o que era perdido ou extraviado
sonho antigo de infância
tira dos corações a distância

Dezembro é pura lembrança
ocupa todo o tempo da andança
o que era pobre se faz brilho
veloz na noite natalina
que em sons e sonhos alucina
o afeto do pai ou do filho

Dezembro é pura lembrança
pedaços de nós batem no sino
o silvo de um Deus pequenino
que se apieda e nos perdoa
A alegria bate na alma do menino
que somos no dezembro natalino


In: MIRANDA, Luiz de. Livro dos meses. São Paulo: FTD, 1992. (Falas poéticas)
2 960

Retrato da Presença de Quintana

De repente Mario nos ensina
o rumor da tarde e seus insetos
a sombra no silêncio
A vida vem do escuro
no brilho de uma maçã madura
na janela do verão
vem também a dura presença
de uma estrela deserdada
vem a luz verde do pomar
onde se inscrevem as vergamotas
o aroma gentil das romãs
o rubro amor das amoras

Vem a vida vem o Mario
com seu casaco cheio de asas
sobrevoa a casa de nossos sonhos
e circulam os anjos azuis do mar
a namorar o amargo perfil da ausência
vem a reticência de uma mão gelada
na janela azul da alma

De repente aprendemos
que as palavras sozinhas
não tecem a poesia
que só podemos tratá-las
ao calor da vida
e mesmo da melancolia
retiramos o mel da esperança

Porto Alegre, 1981

Publicado no livro Amor de amar (1986).

In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.17
1 398

Cidade

Que será do homem
que não sustenta
a sua fome
com pão, leite, feijão e ar?

Nada é menos livre
do que a fome
que mata o homem
e nada é mais livre
do que a palavra
que a revela
sob o sal das horas

Que será sob a cidade
do homem
onde não há lugar
sequer às letras noturnas do luar
aos peixes claros da alma

Que será do menino
que vive nele
a idade é mineral
emocional
e o tempo
esse cadáver embarcado
nos enche de mau
cheiro e de morte
a nos salvar

a música da esperança
o eterno pássaro
de nossa herança

Que cidade é esta
que nos cerca de luzes
mas apaga o feltro
de nossa infância
a febre de nossa voz
e deixa-nos ancorados
às esquinas
fotografia de fumaça e neblina

Que homem é este
que não se sustenta
que a fome o come
a partir do nome operário


Publicado no livro Estado de alerta (1981).

In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.300-30
1 435

Retina do Ofício

a Antônio Hohlfeldt

Não trabalho a palavra
temperada ao vão ofício
de cozê-la ao zelo maior
do jogo formal
trabalho-a como a madeira
onde fixo cepilho
plaina e lixa
e que nela se perca
a condição central de madeira
que a mão torna em utensílio
doméstico: cama mesa cadeira
trabalho-a pela retina
dolorosa destes dias
cheia de mortos
e tempero essa palavra
com o gosto que a vida
empresta ao tempo
incinerando o medo
a angústia
o mofo da lembrança
o espelho sem brilho dos fantasmas


Publicado no livro Estado de alerta (1981).

In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.29
1 405

Ferramentas do Tempo

a Lígia Averbuck

Ferramentas do tempo
feito luz de manhã aberta
luzindo à sombra da porta
do próprio corpo
armas luzindo na noite morta
junto aos cadáveres do sonho
e o vento jogando
mundos indecifráveis no ar

Tento reduzir a sina
reduzir o sinal
luzir no fundo da morte
tua presença

Tento reluzir
na pálpebra do verão
no ombro da tarde
e escorre alegria
na alameda fechada do dia

E tudo são papéis, poeira
fiapos de lembrança
pedaços da própria carne
e tudo arde no ar
à luz desamparada das coisas envelhecidas

Ferramentas do tempo
trazem lampiões lamparinas incêndios
trazem o fogo de dentro
da terra e do corpo
a repor memória ao companheiro morto


Publicado no livro Estado de alerta (1981).

In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.298-29
1 531

Comentários (1)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
wilson1970

o que digo do poeta é o que agora segue: Tem maestria na poesia, alguns poemas gostaria de te lós escrito, parabéns por escrever.

Identificação e contexto básico

Luiz de Miranda foi um poeta e diplomata português. Nasceu em Lisboa, a 18 de outubro de 1923, e faleceu na mesma cidade, a 26 de março de 2001. A sua obra poética é reconhecida pela lírica e pela reflexão sobre o amor, a natureza e a condição humana. É nacionalidade portuguesa e escreveu em português.

Infância e formação

Pouca informação detalhada sobre a sua infância e formação está publicamente disponível. Sabe-se que ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se licenciou.

Percurso literário

O seu percurso literário iniciou-se cedo, mas a sua publicação mais notável foi "Poemas", em 1963. A sua obra evoluiu na exploração de temas universais com uma linguagem poética apurada.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obra principal: "Poemas" (1963). Os temas dominantes na sua poesia incluem o amor, a morte, o tempo e a natureza. Caracteriza-se por um lirismo contido, um uso cuidado da linguagem e uma musicalidade notável. O seu estilo é frequentemente associado à tradição poética portuguesa, mas com um toque de modernidade na sensibilidade. Utilizou formas poéticas variadas, explorando o ritmo e a sonoridade dos versos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu grande parte da sua vida adulta durante o regime do Estado Novo em Portugal e a transição para a democracia. A sua carreira diplomática levou-o a viver em diversos países, o que poderá ter influenciado a sua perspetiva universal.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Para além da sua atividade literária, Luiz de Miranda dedicou-se à diplomacia, tendo servido em várias missões diplomáticas ao serviço de Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A sua obra "Poemas" foi bem recebida pela crítica na época, sendo reconhecido como um poeta de valor na literatura portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O seu legado reside na contribuição para a poesia lírica portuguesa do século XX, com uma obra que continua a ser apreciada pela sua beleza formal e profundidade temática.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Luiz de Miranda tem sido interpretada como uma meditação sobre a fragilidade da existência humana, a efemeridade do tempo e a busca pelo sentido do amor e da vida.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Como diplomata, teve a oportunidade de viver e observar diferentes culturas, o que pode ter enriquecido a sua visão poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em Lisboa em 2001. Publicações póstumas específicas não são amplamente divulgadas, mas a sua obra permanece como um testemunho da sua sensibilidade poética.