Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Elielson Rodrigues
Putrefação
Quando a putrefação
ultrapassa tua pele,
quando deixa teu coração
e toma conta de tudo.
Quando teu corpo apodrece
e todos olham sem fazer nada,
E você descobre que merece
tudo que acontece na tua vida.
Não há Mártir que aguente,
contemplar sua propria morte,
Ver seu corpo em correntes,
e esperar a sua sorte.
Sua vida acaba antes do meio,
e começa no seu fim,
Morte, vivo no teu seio,
me diz... o que farás de mim?
ultrapassa tua pele,
quando deixa teu coração
e toma conta de tudo.
Quando teu corpo apodrece
e todos olham sem fazer nada,
E você descobre que merece
tudo que acontece na tua vida.
Não há Mártir que aguente,
contemplar sua propria morte,
Ver seu corpo em correntes,
e esperar a sua sorte.
Sua vida acaba antes do meio,
e começa no seu fim,
Morte, vivo no teu seio,
me diz... o que farás de mim?
1 013
Eduardo Martins
Haicai
Solidão
Noite. Às horas mortas
o vento perpassa lento
pelas ermas portas.
Noturno
Na sala de estudo
um grilo preto de trilo
metálico, agudo.
Noite. Às horas mortas
o vento perpassa lento
pelas ermas portas.
Noturno
Na sala de estudo
um grilo preto de trilo
metálico, agudo.
1 039
Edmundo de Bettencourt
Sugestão
Entro na igreja majestosa e calma,
erro na sombra sob as arcarias.
Anda no ar silêncio, e a minha alma
toma a frieza das colunas frias...
Numa capela triste aonde espalma,
dourado lustre, chamas fugidias,
tocam-me o peito as sete duma palma,
a evocar-me de Cristo as agonias.
Começa o som do órgão, morno, errante,
o aroma do incenso penetrante
como as garras aduncas do tormento.
E já o desejo acre de esquecer,
ao longe o mundo eu só escutar e ver,
coração me nasce brando e lento. . .
erro na sombra sob as arcarias.
Anda no ar silêncio, e a minha alma
toma a frieza das colunas frias...
Numa capela triste aonde espalma,
dourado lustre, chamas fugidias,
tocam-me o peito as sete duma palma,
a evocar-me de Cristo as agonias.
Começa o som do órgão, morno, errante,
o aroma do incenso penetrante
como as garras aduncas do tormento.
E já o desejo acre de esquecer,
ao longe o mundo eu só escutar e ver,
coração me nasce brando e lento. . .
1 117
Diamond
Casca de ovo
Lembro bem lá da fazenda
Inaugurava a manha, no retiro
A canção dos latões ávidos de leite
Bezerrada apartada, um mugido de saudade
Cheiro forte de café, assando broa de milho
Queijo de coalho Estrela do Sul, estrela dalva já se foi
A dança das cozinheira, os psiu, psiu...silencio
Crianças ainda dormem, mas devem estudar
Mamãe toda zelosa comanda um pelotão
Chinelo não faz barulho, sete horas acordar
Arde no nariz, a fumaça do carro que nos vai levar
Os meninos para a escola, preparando seu futuro
E o boi vai pra degola, nem pensar em chorar
O cachorro preguiçoso se estica na varanda
Se ajeita pra esperar a gurizada voltar
Ai que saudade eu tenho, deste cantinho celeste
Do amor do meu cachorro, da varanda de chão frio
Da curva da estradinha, por onde eu via chegar
Meu Pai levantando poeira, na guia do Chevrolet
Bolso cheio de balas para a molecada agradar
O café, o cavalo e o boi, personagens do lugar
Pena que o tempo passou, que ausências tão doidas
Dos chinelos da mamãe, da canção do luar
Da cozinheira assustada, os quitutes e empadinhas
Que só o forno de lenha sabia formar. As mangueiras do pomar
Para doer e maltratar, por vezes esqueço como o rosto do Pai
Das fogueiras de São João, do domingo lá na missa.
Incenso, sol e sininho da capela branquinha
Restou-me a saudade, num prédio em frente ao mar
Daqueles a quem mais amei, daquele singelo lugar
Bem perto da porteira que ainda vai pro cafezal,
três cruzes resumem tudo
Guardam estórias, amores e cuidados. Não perdi tudo porem
Divina Generosidade, entendendo a minha dor
Me restaram três porta retratos e o direito de sonhar
Inaugurava a manha, no retiro
A canção dos latões ávidos de leite
Bezerrada apartada, um mugido de saudade
Cheiro forte de café, assando broa de milho
Queijo de coalho Estrela do Sul, estrela dalva já se foi
A dança das cozinheira, os psiu, psiu...silencio
Crianças ainda dormem, mas devem estudar
Mamãe toda zelosa comanda um pelotão
Chinelo não faz barulho, sete horas acordar
Arde no nariz, a fumaça do carro que nos vai levar
Os meninos para a escola, preparando seu futuro
E o boi vai pra degola, nem pensar em chorar
O cachorro preguiçoso se estica na varanda
Se ajeita pra esperar a gurizada voltar
Ai que saudade eu tenho, deste cantinho celeste
Do amor do meu cachorro, da varanda de chão frio
Da curva da estradinha, por onde eu via chegar
Meu Pai levantando poeira, na guia do Chevrolet
Bolso cheio de balas para a molecada agradar
O café, o cavalo e o boi, personagens do lugar
Pena que o tempo passou, que ausências tão doidas
Dos chinelos da mamãe, da canção do luar
Da cozinheira assustada, os quitutes e empadinhas
Que só o forno de lenha sabia formar. As mangueiras do pomar
Para doer e maltratar, por vezes esqueço como o rosto do Pai
Das fogueiras de São João, do domingo lá na missa.
Incenso, sol e sininho da capela branquinha
Restou-me a saudade, num prédio em frente ao mar
Daqueles a quem mais amei, daquele singelo lugar
Bem perto da porteira que ainda vai pro cafezal,
três cruzes resumem tudo
Guardam estórias, amores e cuidados. Não perdi tudo porem
Divina Generosidade, entendendo a minha dor
Me restaram três porta retratos e o direito de sonhar
943
Dílson Catarino
Eu Você
quero por que quero querer
seu cheiro em minha vida
não me importa se é já
ou se é muito depois
o que me importa é
ter um filme a assistir
ou cervejas a tomar
o que quero é estar
no seu sonho ou pesadelo
e por acaso penetrar
em sua fome ou janela
não gosto de não ter
vontade de ter fome
você sem minha fome
gosto de você mesmo sem fome
você é a minha madrugada
é meu carinho em um cão sem dono
é meu sonho em uma estrada de madrugada
é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada
é a minha própria madrugada
você sem mim
é meio sem fim
eu sem você
sou todo sem quê.
sou inteiro sem porquê
sou montante sem sem
sou eu sem ser você
sou você sem ser você
minha vida é sem Drummond
o duro é estar Byron
querendo estar você
e meio sem saber
sempre sou você
EU EM VOCÊ
VOCÊ E EU
seu cheiro em minha vida
não me importa se é já
ou se é muito depois
o que me importa é
ter um filme a assistir
ou cervejas a tomar
o que quero é estar
no seu sonho ou pesadelo
e por acaso penetrar
em sua fome ou janela
não gosto de não ter
vontade de ter fome
você sem minha fome
gosto de você mesmo sem fome
você é a minha madrugada
é meu carinho em um cão sem dono
é meu sonho em uma estrada de madrugada
é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada
é a minha própria madrugada
você sem mim
é meio sem fim
eu sem você
sou todo sem quê.
sou inteiro sem porquê
sou montante sem sem
sou eu sem ser você
sou você sem ser você
minha vida é sem Drummond
o duro é estar Byron
querendo estar você
e meio sem saber
sempre sou você
EU EM VOCÊ
VOCÊ E EU
1 000
Dílson Catarino
Eu Você
quero por que quero querer
seu cheiro em minha vida
não me importa se é já
ou se é muito depois
o que me importa é
ter um filme a assistir
ou cervejas a tomar
o que quero é estar
no seu sonho ou pesadelo
e por acaso penetrar
em sua fome ou janela
não gosto de não ter
vontade de ter fome
você sem minha fome
gosto de você mesmo sem fome
você é a minha madrugada
é meu carinho em um cão sem dono
é meu sonho em uma estrada de madrugada
é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada
é a minha própria madrugada
você sem mim
é meio sem fim
eu sem você
sou todo sem quê.
sou inteiro sem porquê
sou montante sem sem
sou eu sem ser você
sou você sem ser você
minha vida é sem Drummond
o duro é estar Byron
querendo estar você
e meio sem saber
sempre sou você
EU EM VOCÊ
VOCÊ E EU
seu cheiro em minha vida
não me importa se é já
ou se é muito depois
o que me importa é
ter um filme a assistir
ou cervejas a tomar
o que quero é estar
no seu sonho ou pesadelo
e por acaso penetrar
em sua fome ou janela
não gosto de não ter
vontade de ter fome
você sem minha fome
gosto de você mesmo sem fome
você é a minha madrugada
é meu carinho em um cão sem dono
é meu sonho em uma estrada de madrugada
é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada
é a minha própria madrugada
você sem mim
é meio sem fim
eu sem você
sou todo sem quê.
sou inteiro sem porquê
sou montante sem sem
sou eu sem ser você
sou você sem ser você
minha vida é sem Drummond
o duro é estar Byron
querendo estar você
e meio sem saber
sempre sou você
EU EM VOCÊ
VOCÊ E EU
1 000
João de Deus de Nogueira Ramos
Omissão
Uma noviça, jovem de talento
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver uma figura.
Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
Que pertencia a soror Anna Rosa,
Tido em conta de um belo original!
A soro costumava, por decência
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.
Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.
Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte
Pintasse apenas o que tinha à vista
Que é o preceito e o primor da arte.
Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai, filha,
Que falta essencial!... Pobre criança!
Que pena! O colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso... Confesso com tristeza...
Que enorme, que enormíssimo defeito!"
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver uma figura.
Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
Que pertencia a soror Anna Rosa,
Tido em conta de um belo original!
A soro costumava, por decência
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.
Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.
Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte
Pintasse apenas o que tinha à vista
Que é o preceito e o primor da arte.
Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai, filha,
Que falta essencial!... Pobre criança!
Que pena! O colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso... Confesso com tristeza...
Que enorme, que enormíssimo defeito!"
1 643
Donizete Galvão
Ex-Voto
mercê de um celerado que consigo se desavinha e no meio do caminho
de sua vida achou-se em beco desprovido de fé e o corpo afligido por
dores padecendo de conturbação dos miolos pensar desembestado
visões de dilaceramento euforias desconformes desacorçôo venetas
arrepio de frio aguadilha na boca e estômago embrulhado e procurando
o não sabe o que veio dar em paragens del Rei e aqui se apegou no intento
embora baldado de que seu coração encontre a pacificação
de sua vida achou-se em beco desprovido de fé e o corpo afligido por
dores padecendo de conturbação dos miolos pensar desembestado
visões de dilaceramento euforias desconformes desacorçôo venetas
arrepio de frio aguadilha na boca e estômago embrulhado e procurando
o não sabe o que veio dar em paragens del Rei e aqui se apegou no intento
embora baldado de que seu coração encontre a pacificação
1 155
Donizete Galvão
Ex-Voto
mercê de um celerado que consigo se desavinha e no meio do caminho
de sua vida achou-se em beco desprovido de fé e o corpo afligido por
dores padecendo de conturbação dos miolos pensar desembestado
visões de dilaceramento euforias desconformes desacorçôo venetas
arrepio de frio aguadilha na boca e estômago embrulhado e procurando
o não sabe o que veio dar em paragens del Rei e aqui se apegou no intento
embora baldado de que seu coração encontre a pacificação
de sua vida achou-se em beco desprovido de fé e o corpo afligido por
dores padecendo de conturbação dos miolos pensar desembestado
visões de dilaceramento euforias desconformes desacorçôo venetas
arrepio de frio aguadilha na boca e estômago embrulhado e procurando
o não sabe o que veio dar em paragens del Rei e aqui se apegou no intento
embora baldado de que seu coração encontre a pacificação
1 155
Diamond
Mosaico
Cada uma em seu lugar
Como cores, mil palavras
O ladrilheiro dos poemas
E seu trabalho para acomodar
Em forma de verso e prosa
Há um verbo para sonhar
A mensagem corajosa
Dizendo que vou amar
Você por toda minha vida
Enquanto a vida durar
Para amigos muito especiais.
Para o dia dezenove e
Para toda a vida
Como cores, mil palavras
O ladrilheiro dos poemas
E seu trabalho para acomodar
Em forma de verso e prosa
Há um verbo para sonhar
A mensagem corajosa
Dizendo que vou amar
Você por toda minha vida
Enquanto a vida durar
Para amigos muito especiais.
Para o dia dezenove e
Para toda a vida
1 156
Diamond
O Mar
Lambendo com gosto a areia,
Nesse amor de vai e vem,
Num gozo de muita espuma,
Molha o meu amor, também.
Nesse amor de vai e vem,
Num gozo de muita espuma,
Molha o meu amor, também.
961
Donizete Galvão
O poeta em pânico
" Quem me ouvirá?
Quem me verá?
Quem me há de tocar?"
(Murilo Mendes, A poesia em pânico)
Escrever poesia no Brasil é viver em claustrofobia. O poeta respira um ar rarefeito. Tudo se fecha a sua volta: ele está em pânico. Habita uma espécie de limbo, zona fantasma, onde nada do que produz encontra eco ou ressonância. Como no poema de Murilo Mendes, pode dizer "vivi entre os homens/ que não me viram, não me ouviram / Nem me consolaram".
Convertido numa espécie de alquimista, cumprindo a profecia de Giulio Argan, investe em uma busca que, todos sabem, resultará em fracasso.
O poeta insiste: quer ganhar visibilidade. Quer chegar até as estantes das livrarias e das bibliotecas. Quer ser lido, comentado pelos seus pares e pela crítica. Extenuado pela tensão quase insuportável de construir uma obra, deve converter-se também em seu próprio agente literário, assessor de imprensa, e distribuidor, sem ter o menor jeito para estas tarefas. A que situações ridículas tem de submeter-se, para ver seu livro editado, aquele que não é multimídia, ídolo pop ou instant celebrity.
Deve criar uma carapaça anti-rejeição e fazer como Sylvia Plath, que enviou 45 contos à revista Seventeen antes de ter um deles aceito? Os editores, com as raras exceções dos apaixonados pela poesia, fogem dos autores como se estes tivessem sarna. Devolvem originais em cartas padronizadas com a indefectível "nossa programação já está completa". E deve estar mesmo, para os próximos 10 anos. Claro que para o livro do cantor de rock, para os poemas eróticos de uma estrela de TV ou para crônicas requentadas de colunistas dos grandes jornais há sempre uma grande flexibilidade nesta rígida programação editorial.
A pergunta básica é: tem espaço garantido na mídia? Então, é só publicar.
Ou até mesmo pode-se fabricar um escritor. Unanimemente, vai merecer páginas dos cadernos de cultura, resenhas e até entrevista em talk show. Para os demais, brande-se o espectro da falta de mercado. Como fica aquele que trabalha apenas com literatura, não tem padrinhos nem cultiva amigos nas editorias? Escreve um livro e cria um escândalo para que a coisa ganhe o tão falado "gancho jornalístico"?
Quem escreve poesia não está aspirando chegar à lista dos mais vendidos.
Viu, entretanto, serem dissolvidos os raros espaços de que podia dispor.
Estes espaços foram engolidos pela máquina promocional e pelo jornalismo de release. Clips, comics, escândalos, moda e TV ocupam todas as páginas.
O escritor sabe que a discórdia entre poesia e mercado é profunda. Mas quer ser tratado com um mínimo de dignidade.
Em uma época em que todo mundo precisa ser bonito, rico, saudável e feliz e tudo deve ser leve e divertido, que interesse pode despertar o espelho perverso do poeta? Quem quer se ver como uma retorcida figura saída de um quadro de Francis Bacon? Com a linguagem contaminada pela publicidade, pelo entretenimento barato e pela psicologia de auto-ajuda, a tentativa de devolver vigor, intensidade e frescor à língua soa hermética e gera mal-estar.
A poesia, além de inútil, é também indesejada.
O poeta, entretanto, insiste em escrever seus poemas. Não lhe resta outra alternativa. Poderia buscar o suicídio, a santidade, o vício: estas "outras tantas formas da falta de talento" de que falou Cioran. Está preso a uma obsessão nunca sublimada. Quer, através da língua, assegurar a permanência enquanto tudo se desfaz. Pouco importam os mecanismos que o movem: exibicionismo, narcisismo, paranóia, depressão. Usa de artifícios, filtra e depura para transformar o desprezo, a humilhação e a decomposição do corpo e da mente em matéria poética. Pois, como disse Borges,"meus instrumentos de trabalho são a humilhação e a angústia". Entre tantos indiferentes deve haver uns poucos que, como na brilhante defesa da poesia feita por Octavio Paz, terão ouvidos para essa outra voz.
Leia obra poética de Donizete Galvão
Quem me verá?
Quem me há de tocar?"
(Murilo Mendes, A poesia em pânico)
Escrever poesia no Brasil é viver em claustrofobia. O poeta respira um ar rarefeito. Tudo se fecha a sua volta: ele está em pânico. Habita uma espécie de limbo, zona fantasma, onde nada do que produz encontra eco ou ressonância. Como no poema de Murilo Mendes, pode dizer "vivi entre os homens/ que não me viram, não me ouviram / Nem me consolaram".
Convertido numa espécie de alquimista, cumprindo a profecia de Giulio Argan, investe em uma busca que, todos sabem, resultará em fracasso.
O poeta insiste: quer ganhar visibilidade. Quer chegar até as estantes das livrarias e das bibliotecas. Quer ser lido, comentado pelos seus pares e pela crítica. Extenuado pela tensão quase insuportável de construir uma obra, deve converter-se também em seu próprio agente literário, assessor de imprensa, e distribuidor, sem ter o menor jeito para estas tarefas. A que situações ridículas tem de submeter-se, para ver seu livro editado, aquele que não é multimídia, ídolo pop ou instant celebrity.
Deve criar uma carapaça anti-rejeição e fazer como Sylvia Plath, que enviou 45 contos à revista Seventeen antes de ter um deles aceito? Os editores, com as raras exceções dos apaixonados pela poesia, fogem dos autores como se estes tivessem sarna. Devolvem originais em cartas padronizadas com a indefectível "nossa programação já está completa". E deve estar mesmo, para os próximos 10 anos. Claro que para o livro do cantor de rock, para os poemas eróticos de uma estrela de TV ou para crônicas requentadas de colunistas dos grandes jornais há sempre uma grande flexibilidade nesta rígida programação editorial.
A pergunta básica é: tem espaço garantido na mídia? Então, é só publicar.
Ou até mesmo pode-se fabricar um escritor. Unanimemente, vai merecer páginas dos cadernos de cultura, resenhas e até entrevista em talk show. Para os demais, brande-se o espectro da falta de mercado. Como fica aquele que trabalha apenas com literatura, não tem padrinhos nem cultiva amigos nas editorias? Escreve um livro e cria um escândalo para que a coisa ganhe o tão falado "gancho jornalístico"?
Quem escreve poesia não está aspirando chegar à lista dos mais vendidos.
Viu, entretanto, serem dissolvidos os raros espaços de que podia dispor.
Estes espaços foram engolidos pela máquina promocional e pelo jornalismo de release. Clips, comics, escândalos, moda e TV ocupam todas as páginas.
O escritor sabe que a discórdia entre poesia e mercado é profunda. Mas quer ser tratado com um mínimo de dignidade.
Em uma época em que todo mundo precisa ser bonito, rico, saudável e feliz e tudo deve ser leve e divertido, que interesse pode despertar o espelho perverso do poeta? Quem quer se ver como uma retorcida figura saída de um quadro de Francis Bacon? Com a linguagem contaminada pela publicidade, pelo entretenimento barato e pela psicologia de auto-ajuda, a tentativa de devolver vigor, intensidade e frescor à língua soa hermética e gera mal-estar.
A poesia, além de inútil, é também indesejada.
O poeta, entretanto, insiste em escrever seus poemas. Não lhe resta outra alternativa. Poderia buscar o suicídio, a santidade, o vício: estas "outras tantas formas da falta de talento" de que falou Cioran. Está preso a uma obsessão nunca sublimada. Quer, através da língua, assegurar a permanência enquanto tudo se desfaz. Pouco importam os mecanismos que o movem: exibicionismo, narcisismo, paranóia, depressão. Usa de artifícios, filtra e depura para transformar o desprezo, a humilhação e a decomposição do corpo e da mente em matéria poética. Pois, como disse Borges,"meus instrumentos de trabalho são a humilhação e a angústia". Entre tantos indiferentes deve haver uns poucos que, como na brilhante defesa da poesia feita por Octavio Paz, terão ouvidos para essa outra voz.
Leia obra poética de Donizete Galvão
1 381
Donizete Galvão
O poeta em pânico
" Quem me ouvirá?
Quem me verá?
Quem me há de tocar?"
(Murilo Mendes, A poesia em pânico)
Escrever poesia no Brasil é viver em claustrofobia. O poeta respira um ar rarefeito. Tudo se fecha a sua volta: ele está em pânico. Habita uma espécie de limbo, zona fantasma, onde nada do que produz encontra eco ou ressonância. Como no poema de Murilo Mendes, pode dizer "vivi entre os homens/ que não me viram, não me ouviram / Nem me consolaram".
Convertido numa espécie de alquimista, cumprindo a profecia de Giulio Argan, investe em uma busca que, todos sabem, resultará em fracasso.
O poeta insiste: quer ganhar visibilidade. Quer chegar até as estantes das livrarias e das bibliotecas. Quer ser lido, comentado pelos seus pares e pela crítica. Extenuado pela tensão quase insuportável de construir uma obra, deve converter-se também em seu próprio agente literário, assessor de imprensa, e distribuidor, sem ter o menor jeito para estas tarefas. A que situações ridículas tem de submeter-se, para ver seu livro editado, aquele que não é multimídia, ídolo pop ou instant celebrity.
Deve criar uma carapaça anti-rejeição e fazer como Sylvia Plath, que enviou 45 contos à revista Seventeen antes de ter um deles aceito? Os editores, com as raras exceções dos apaixonados pela poesia, fogem dos autores como se estes tivessem sarna. Devolvem originais em cartas padronizadas com a indefectível "nossa programação já está completa". E deve estar mesmo, para os próximos 10 anos. Claro que para o livro do cantor de rock, para os poemas eróticos de uma estrela de TV ou para crônicas requentadas de colunistas dos grandes jornais há sempre uma grande flexibilidade nesta rígida programação editorial.
A pergunta básica é: tem espaço garantido na mídia? Então, é só publicar.
Ou até mesmo pode-se fabricar um escritor. Unanimemente, vai merecer páginas dos cadernos de cultura, resenhas e até entrevista em talk show. Para os demais, brande-se o espectro da falta de mercado. Como fica aquele que trabalha apenas com literatura, não tem padrinhos nem cultiva amigos nas editorias? Escreve um livro e cria um escândalo para que a coisa ganhe o tão falado "gancho jornalístico"?
Quem escreve poesia não está aspirando chegar à lista dos mais vendidos.
Viu, entretanto, serem dissolvidos os raros espaços de que podia dispor.
Estes espaços foram engolidos pela máquina promocional e pelo jornalismo de release. Clips, comics, escândalos, moda e TV ocupam todas as páginas.
O escritor sabe que a discórdia entre poesia e mercado é profunda. Mas quer ser tratado com um mínimo de dignidade.
Em uma época em que todo mundo precisa ser bonito, rico, saudável e feliz e tudo deve ser leve e divertido, que interesse pode despertar o espelho perverso do poeta? Quem quer se ver como uma retorcida figura saída de um quadro de Francis Bacon? Com a linguagem contaminada pela publicidade, pelo entretenimento barato e pela psicologia de auto-ajuda, a tentativa de devolver vigor, intensidade e frescor à língua soa hermética e gera mal-estar.
A poesia, além de inútil, é também indesejada.
O poeta, entretanto, insiste em escrever seus poemas. Não lhe resta outra alternativa. Poderia buscar o suicídio, a santidade, o vício: estas "outras tantas formas da falta de talento" de que falou Cioran. Está preso a uma obsessão nunca sublimada. Quer, através da língua, assegurar a permanência enquanto tudo se desfaz. Pouco importam os mecanismos que o movem: exibicionismo, narcisismo, paranóia, depressão. Usa de artifícios, filtra e depura para transformar o desprezo, a humilhação e a decomposição do corpo e da mente em matéria poética. Pois, como disse Borges,"meus instrumentos de trabalho são a humilhação e a angústia". Entre tantos indiferentes deve haver uns poucos que, como na brilhante defesa da poesia feita por Octavio Paz, terão ouvidos para essa outra voz.
Leia obra poética de Donizete Galvão
Quem me verá?
Quem me há de tocar?"
(Murilo Mendes, A poesia em pânico)
Escrever poesia no Brasil é viver em claustrofobia. O poeta respira um ar rarefeito. Tudo se fecha a sua volta: ele está em pânico. Habita uma espécie de limbo, zona fantasma, onde nada do que produz encontra eco ou ressonância. Como no poema de Murilo Mendes, pode dizer "vivi entre os homens/ que não me viram, não me ouviram / Nem me consolaram".
Convertido numa espécie de alquimista, cumprindo a profecia de Giulio Argan, investe em uma busca que, todos sabem, resultará em fracasso.
O poeta insiste: quer ganhar visibilidade. Quer chegar até as estantes das livrarias e das bibliotecas. Quer ser lido, comentado pelos seus pares e pela crítica. Extenuado pela tensão quase insuportável de construir uma obra, deve converter-se também em seu próprio agente literário, assessor de imprensa, e distribuidor, sem ter o menor jeito para estas tarefas. A que situações ridículas tem de submeter-se, para ver seu livro editado, aquele que não é multimídia, ídolo pop ou instant celebrity.
Deve criar uma carapaça anti-rejeição e fazer como Sylvia Plath, que enviou 45 contos à revista Seventeen antes de ter um deles aceito? Os editores, com as raras exceções dos apaixonados pela poesia, fogem dos autores como se estes tivessem sarna. Devolvem originais em cartas padronizadas com a indefectível "nossa programação já está completa". E deve estar mesmo, para os próximos 10 anos. Claro que para o livro do cantor de rock, para os poemas eróticos de uma estrela de TV ou para crônicas requentadas de colunistas dos grandes jornais há sempre uma grande flexibilidade nesta rígida programação editorial.
A pergunta básica é: tem espaço garantido na mídia? Então, é só publicar.
Ou até mesmo pode-se fabricar um escritor. Unanimemente, vai merecer páginas dos cadernos de cultura, resenhas e até entrevista em talk show. Para os demais, brande-se o espectro da falta de mercado. Como fica aquele que trabalha apenas com literatura, não tem padrinhos nem cultiva amigos nas editorias? Escreve um livro e cria um escândalo para que a coisa ganhe o tão falado "gancho jornalístico"?
Quem escreve poesia não está aspirando chegar à lista dos mais vendidos.
Viu, entretanto, serem dissolvidos os raros espaços de que podia dispor.
Estes espaços foram engolidos pela máquina promocional e pelo jornalismo de release. Clips, comics, escândalos, moda e TV ocupam todas as páginas.
O escritor sabe que a discórdia entre poesia e mercado é profunda. Mas quer ser tratado com um mínimo de dignidade.
Em uma época em que todo mundo precisa ser bonito, rico, saudável e feliz e tudo deve ser leve e divertido, que interesse pode despertar o espelho perverso do poeta? Quem quer se ver como uma retorcida figura saída de um quadro de Francis Bacon? Com a linguagem contaminada pela publicidade, pelo entretenimento barato e pela psicologia de auto-ajuda, a tentativa de devolver vigor, intensidade e frescor à língua soa hermética e gera mal-estar.
A poesia, além de inútil, é também indesejada.
O poeta, entretanto, insiste em escrever seus poemas. Não lhe resta outra alternativa. Poderia buscar o suicídio, a santidade, o vício: estas "outras tantas formas da falta de talento" de que falou Cioran. Está preso a uma obsessão nunca sublimada. Quer, através da língua, assegurar a permanência enquanto tudo se desfaz. Pouco importam os mecanismos que o movem: exibicionismo, narcisismo, paranóia, depressão. Usa de artifícios, filtra e depura para transformar o desprezo, a humilhação e a decomposição do corpo e da mente em matéria poética. Pois, como disse Borges,"meus instrumentos de trabalho são a humilhação e a angústia". Entre tantos indiferentes deve haver uns poucos que, como na brilhante defesa da poesia feita por Octavio Paz, terão ouvidos para essa outra voz.
Leia obra poética de Donizete Galvão
1 381
Dílson Catarino
Quero-Quero
A carga d’água nas costas feridas
quero-quero que tudo role
que tudo rode,
tudo mole,
tudo pode.
posso?
POSTE
POST.
MORTEM.
Tudo aquilo que eu sempre quis
nada
As gueixas pintadas
as ameixas murchas
as queixas infundadas
suas saias justas
SAIA! - SAIA!
não quero mais ficar aqui...
Não quero mais encargos
nem mesmo um cargo quero
Eu quero um beijo
embaixo da cachoeira
no vale das águas.
quero-quero que tudo role
que tudo rode,
tudo mole,
tudo pode.
posso?
POSTE
POST.
MORTEM.
Tudo aquilo que eu sempre quis
nada
As gueixas pintadas
as ameixas murchas
as queixas infundadas
suas saias justas
SAIA! - SAIA!
não quero mais ficar aqui...
Não quero mais encargos
nem mesmo um cargo quero
Eu quero um beijo
embaixo da cachoeira
no vale das águas.
870
Deborah Brennand
Anjo da Noite
Dá-me a ilha de Samos como brinde de noivado
BENGIERD
E sendo o ser todo ser
eu, vetusta ou jovem lusa,
dei o meu olhar de claridade
à vastidão única das brumas
e só no coração uma saudade
era de havidos campos,
campos quase não vistos,
ó enamorado de minha formosura.
Sombria ou ruiva foi a cabeleira
o pouso da coroa em garras.
Abutre no alvor da minha fronte
cravando unhas de diamantes
assim em disse que as mulheres
não deviam usar trajes escarlates.
Talvez dez dias e oito noites passassem
nas distantes florestas de Lorvão.
E o meu reino era cinzento em culpas,
o meu legado agouro e mal.
Ó enamorado da minha póstuma formosura,
por que de mim tão pouco sabes?
BENGIERD
E sendo o ser todo ser
eu, vetusta ou jovem lusa,
dei o meu olhar de claridade
à vastidão única das brumas
e só no coração uma saudade
era de havidos campos,
campos quase não vistos,
ó enamorado de minha formosura.
Sombria ou ruiva foi a cabeleira
o pouso da coroa em garras.
Abutre no alvor da minha fronte
cravando unhas de diamantes
assim em disse que as mulheres
não deviam usar trajes escarlates.
Talvez dez dias e oito noites passassem
nas distantes florestas de Lorvão.
E o meu reino era cinzento em culpas,
o meu legado agouro e mal.
Ó enamorado da minha póstuma formosura,
por que de mim tão pouco sabes?
1 096
Deborah Brennand
Anjo da Noite
Dá-me a ilha de Samos como brinde de noivado
BENGIERD
E sendo o ser todo ser
eu, vetusta ou jovem lusa,
dei o meu olhar de claridade
à vastidão única das brumas
e só no coração uma saudade
era de havidos campos,
campos quase não vistos,
ó enamorado de minha formosura.
Sombria ou ruiva foi a cabeleira
o pouso da coroa em garras.
Abutre no alvor da minha fronte
cravando unhas de diamantes
assim em disse que as mulheres
não deviam usar trajes escarlates.
Talvez dez dias e oito noites passassem
nas distantes florestas de Lorvão.
E o meu reino era cinzento em culpas,
o meu legado agouro e mal.
Ó enamorado da minha póstuma formosura,
por que de mim tão pouco sabes?
BENGIERD
E sendo o ser todo ser
eu, vetusta ou jovem lusa,
dei o meu olhar de claridade
à vastidão única das brumas
e só no coração uma saudade
era de havidos campos,
campos quase não vistos,
ó enamorado de minha formosura.
Sombria ou ruiva foi a cabeleira
o pouso da coroa em garras.
Abutre no alvor da minha fronte
cravando unhas de diamantes
assim em disse que as mulheres
não deviam usar trajes escarlates.
Talvez dez dias e oito noites passassem
nas distantes florestas de Lorvão.
E o meu reino era cinzento em culpas,
o meu legado agouro e mal.
Ó enamorado da minha póstuma formosura,
por que de mim tão pouco sabes?
1 096
Dílson Catarino
Cores e Odores
As cores se renovam.
Renovam-se os odores.
As cores,
as dores se renovam.
Renovam-se as dores.
As cores,
os odores se renovam.
Renovam-se as cores.
Quereria não mais sentir as dores
que a gente, quando sente,
se sente eternamente doente
Noite diferente
Noite atraente
O que me atrai é a noite ardente
arde a noite
à noite me arde o desejo obscuro,
mas puro.
O desejo puro, a noite obscura.
Te juro
Nada tão puro quanto minhas ardências
Nada é obscuro na minha essência.
As dores se evidenciam.
Evidenciam-se os odores.
As cores prevalecem sobre as dores.
Renovam-se os odores.
As cores,
as dores se renovam.
Renovam-se as dores.
As cores,
os odores se renovam.
Renovam-se as cores.
Quereria não mais sentir as dores
que a gente, quando sente,
se sente eternamente doente
Noite diferente
Noite atraente
O que me atrai é a noite ardente
arde a noite
à noite me arde o desejo obscuro,
mas puro.
O desejo puro, a noite obscura.
Te juro
Nada tão puro quanto minhas ardências
Nada é obscuro na minha essência.
As dores se evidenciam.
Evidenciam-se os odores.
As cores prevalecem sobre as dores.
897
Dom Francisco Manuel de Melo
Soneto II
Alegria Custosa
Enfim que aquela hora é já chegada,
Que até nos passos traz preço e ventura,
Tão merecida de uma fé tão Pura,
E de um tão limpo amor tão esperada.
Ela tardou em vir, como rogada
Da viva saudade, que ainda dura.
Ora bem pode vir, e estar segura,
Que há de ser possuída a desejada.
Senhora, se com lágrimas convinha
sentir somente o mal, e agora o canto,
É digno de outra glória verdadeira;
Não cuideis que é fraqueza da alma minha,
Mas que, de costumada sempre ao pranto,
Não sabe festejar de outra maneira.
Enfim que aquela hora é já chegada,
Que até nos passos traz preço e ventura,
Tão merecida de uma fé tão Pura,
E de um tão limpo amor tão esperada.
Ela tardou em vir, como rogada
Da viva saudade, que ainda dura.
Ora bem pode vir, e estar segura,
Que há de ser possuída a desejada.
Senhora, se com lágrimas convinha
sentir somente o mal, e agora o canto,
É digno de outra glória verdadeira;
Não cuideis que é fraqueza da alma minha,
Mas que, de costumada sempre ao pranto,
Não sabe festejar de outra maneira.
1 325
Dom Francisco Manuel de Melo
Soneto II
Alegria Custosa
Enfim que aquela hora é já chegada,
Que até nos passos traz preço e ventura,
Tão merecida de uma fé tão Pura,
E de um tão limpo amor tão esperada.
Ela tardou em vir, como rogada
Da viva saudade, que ainda dura.
Ora bem pode vir, e estar segura,
Que há de ser possuída a desejada.
Senhora, se com lágrimas convinha
sentir somente o mal, e agora o canto,
É digno de outra glória verdadeira;
Não cuideis que é fraqueza da alma minha,
Mas que, de costumada sempre ao pranto,
Não sabe festejar de outra maneira.
Enfim que aquela hora é já chegada,
Que até nos passos traz preço e ventura,
Tão merecida de uma fé tão Pura,
E de um tão limpo amor tão esperada.
Ela tardou em vir, como rogada
Da viva saudade, que ainda dura.
Ora bem pode vir, e estar segura,
Que há de ser possuída a desejada.
Senhora, se com lágrimas convinha
sentir somente o mal, e agora o canto,
É digno de outra glória verdadeira;
Não cuideis que é fraqueza da alma minha,
Mas que, de costumada sempre ao pranto,
Não sabe festejar de outra maneira.
1 325
Diamond
Gorda! Eu?
Hoje, lá na praia
Nesse domingo blue
A vi com um carrinho de bebe
Tão lindo seu filhinho
Não quis me aproximar, baby
Mas de longe observei que
Continuas a mais linda mulher
Que eu conheci, three years ago
O cabelo, outra cor, melhor
Um pouco mais gorda, talvez
O busto um pouco maior
O mesmo lindo sorriso
Os mesmos olhos azuis
Nenhuma saudade de mim
Nesse domingo blue
A vi com um carrinho de bebe
Tão lindo seu filhinho
Não quis me aproximar, baby
Mas de longe observei que
Continuas a mais linda mulher
Que eu conheci, three years ago
O cabelo, outra cor, melhor
Um pouco mais gorda, talvez
O busto um pouco maior
O mesmo lindo sorriso
Os mesmos olhos azuis
Nenhuma saudade de mim
968
Daniel Gabarra
Daniel Oliveira e Gabarra
Há um amigo
Há um Amigo Te conheço, não sei quanto Vejo parte
de ti, tento encaixá-las Não sei se te conheço em
parte ou apenas, o que tu queres que eu conheça. Te compreendo,
acho que te entendo Vejo o que me mostras e te considero por isto Uma amizade
Homeopática e creio que inteira. Bom tê-lo como Amigo.
Há um Amigo Te conheço, não sei quanto Vejo parte
de ti, tento encaixá-las Não sei se te conheço em
parte ou apenas, o que tu queres que eu conheça. Te compreendo,
acho que te entendo Vejo o que me mostras e te considero por isto Uma amizade
Homeopática e creio que inteira. Bom tê-lo como Amigo.
527
Dimas Macedo
Palavras
Para me suportar
a mim mesmo me basto.
Para não me morrer de tédio
mergulho-me palavras.
Sou pétalas de sons
murmuradas ao vento.
Desnecessito-me no hábito.
Desminto-me
nos braços de Évora.
Devoro-me nuns lábios
que não teriam sido.
Sendo-me anjo
o amanhã será outro dia.
Ou um sopro de palavras
perdidas. Ou o nada.
a mim mesmo me basto.
Para não me morrer de tédio
mergulho-me palavras.
Sou pétalas de sons
murmuradas ao vento.
Desnecessito-me no hábito.
Desminto-me
nos braços de Évora.
Devoro-me nuns lábios
que não teriam sido.
Sendo-me anjo
o amanhã será outro dia.
Ou um sopro de palavras
perdidas. Ou o nada.
908
Duarte Galvão
Tocador de Piana
Negro tocador de canções
são lamentos febris sem eco
na noite das casuarinas dizem ...
Ah! mas dizem tanta coisa sem sentido
Negro tocador ...
A vida permanece num beco
sem saída, e a idéia dos sermões
morre no próprio templo.
Geme, pois, tuas canções tristes,
apertando nos lábios a "piana"
Na noite das casuarinas
Não morrem teus lamentos,
digo-te: outro negro tocador
anônimo, de olhos vendados ou não,
tocará outras canções tristes!
são lamentos febris sem eco
na noite das casuarinas dizem ...
Ah! mas dizem tanta coisa sem sentido
Negro tocador ...
A vida permanece num beco
sem saída, e a idéia dos sermões
morre no próprio templo.
Geme, pois, tuas canções tristes,
apertando nos lábios a "piana"
Na noite das casuarinas
Não morrem teus lamentos,
digo-te: outro negro tocador
anônimo, de olhos vendados ou não,
tocará outras canções tristes!
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