Lista de Poemas

Quero-Quero

A carga d’água nas costas feridas
quero-quero que tudo role
que tudo rode,

tudo mole,
tudo pode.

posso?

POSTE
POST.
MORTEM.

Tudo aquilo que eu sempre quis
nada

As gueixas pintadas
as ameixas murchas
as queixas infundadas
suas saias justas

SAIA! - SAIA!
não quero mais ficar aqui...

Não quero mais encargos
nem mesmo um cargo quero

Eu quero um beijo
embaixo da cachoeira
no vale das águas.

833

Cores e Odores

As cores se renovam.
Renovam-se os odores.
As cores,
as dores se renovam.

Renovam-se as dores.
As cores,
os odores se renovam.
Renovam-se as cores.

Quereria não mais sentir as dores
que a gente, quando sente,
se sente eternamente doente

Noite diferente
Noite atraente

O que me atrai é a noite ardente
arde a noite

à noite me arde o desejo obscuro,
mas puro.
O desejo puro, a noite obscura.

Te juro
Nada tão puro quanto minhas ardências
Nada é obscuro na minha essência.

As dores se evidenciam.
Evidenciam-se os odores.
As cores prevalecem sobre as dores.

862

Eu Você

quero por que quero querer
seu cheiro em minha vida

não me importa se é já
ou se é muito depois
o que me importa é
ter um filme a assistir
ou cervejas a tomar

o que quero é estar
no seu sonho ou pesadelo
e por acaso penetrar
em sua fome ou janela

não gosto de não ter
vontade de ter fome
você sem minha fome

gosto de você mesmo sem fome

você é a minha madrugada
é meu carinho em um cão sem dono
é meu sonho em uma estrada de madrugada

é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada
é a minha própria madrugada

você sem mim
é meio sem fim
eu sem você
sou todo sem quê.
sou inteiro sem porquê
sou montante sem sem
sou eu sem ser você
sou você sem ser você

minha vida é sem Drummond

o duro é estar Byron
querendo estar você
e meio sem saber
sempre sou você

EU EM VOCÊ

VOCÊ E EU

970

Sina Sem Fim

minha sina é ser feliz

sinto pelo sino
que ouço de manhã;

sino batendo
lambendo os hormônios

é de manhã

frio aconchegante

caminhar pela brisa
arrepio estonteante

a guitarra que me falta
a voz que me falha
a falha que me luz
luz que me seduz

a falha que me

nada que me nada
tudo

me seduz
em nada

minha vida é suave
sem defesa
é
a sua beleza
que me fascina

é minha sina

você
é minha tinta

meu arrepio aconchegante
meu nada estonteante
é tudo
em um instante
você
é minha sina

minha sina é ser feliz

sinto por seu beijo, sua voz, sua luz

tudo em você me seduz

sina sem fim.

911

Poemas Menores

Meus óculos quebrados
Me olham com saudades
Do passado que também se quebrou

-o-

Sujo é o beco de sua boca
quando fala.
Sujo é o beco - boca é suja
Pois as árvores poda
Até que a morte vem
Aos pássaros também

-o-

Sempre é o nunca
à podridão dos homens
que matam de penúria
ou de violência
que ferem a alma
de um povo já enfermo

E querem carnaval.

-o-

Cultivar plantas em xaxim
é como cultivar a paz
Os homens cultivam o fim

-o-

O verde desta planta
no meio de minha sala

O cinza desta fumaça
em todo meu caminho

-o-

Vivaldi vagueia
vadiamente
em meus ouvidos

-o-

Se não fosse a chuva
batendo em minha janela
Pensaria serem lágrimas felizes
de minha boca em seu corpo.

-o-

O meu copo de aço
escorregou-me da mão
Os estilhaços de vidro
cortaram-me o pé
Escorreu uma gota de sangue
manchando o tapete.

-o-

Saia do escuro e acenda uma vela
Fique na sua
tomando chuva na calçada
beijando a boca da namorada
sentindo a nuca se arrepiar.

-o-

Há olhos lindos e tentadores
meigos, tímidos, de muitas cores
sensuais, chocantes, libidinosos
lagos serenos, maravilhosos
cristais brilhantes, cheios de fé
mas nada como os olhos de Teté.

-o-

E lá estão os elefantes,
ciscando em volta do lago,
enquanto as pedras rolam
misturando-se com as cuspidas do tuberculoso.

Cânticos frêmitos entoados por pianos destruídos
entusiasmam os leprosos para uma valsa.

Vamos beber uma cerveja?
Então, bebamos oito.

-o-

917

Passado Quebrado

Não há muros intransponíveis
Não há linhas sempre retas
Nem há o dia certo

É melhor deixar tudo pra depois
E nada dizer a eles.

Peixes não adoram deuses
Talvez por isso sejam tão serenos
E tudo passa por eles
Como se nada fosse.

Muros altos, linhas tortas
Como saber o que fazer?

Durante tanto tempo sem nada entender
Acordando somente com a noite
Sem coragem de se olhar ao espelho
Sem coragem de crescer

Somente olhar à lua
Sentado à mesa de um bar
A caminhar pela escuridão
Querendo ser assim por toda a vida.

Em mim, tudo mudou,
e ninguém me avisou
Ainda procuro meus óculos quebrados
pra enxergar melhor o passado
que também se quebrou.

Ainda sinto meus longos cabelos
Cortados como minha liberdade
Podados como minha ingenuidade.

723

Ester

Gosto de sentir sua pele
em minha pele sua boca
em minha boca seus cabelos
em meu rosto seu corpo
em meu corpo sua mente
em meu mundo seu mundo
em minha mente seu passado
em meu futuro seu futuro
em meu presente.

Gosto de ser seu presente
você é meu destino desatino
me deixa menino pequenino
quando cafuné me faz
quando suas unhas riscam
minhas costas como resposta
arrepio-me por puro prazer

Quero fazer seu prazer
quero suas pernas lamber
quero em você me perder
em você me prender
e me render

Não adianta
de sua vida não saio
dentro de você desmaio
sou um raio
tênue aconchegante
sou a lua radiante
em seu céu sem fim
eu sou o fim.

1 181

Confissões

Quero sentir no teu rosto
um sinal de minha ausência.
Quero lamber tuas lágrimas
Aplacar teu sofrimento.

Quero fixar-me em teu corpo
pra transcender-me em delírio
pra sentir as mesmas dores
Tratar das mesmas feridas.

Isso é pra ter na memória
teu cheiro embriagador

É pra ter mais que certeza
que o sonho não acabou

É pra ver ainda forte
tudo o que nos juntou

-o-

844

Poema Imortal

Minha vida nada possui de vazio
Conheço o silêncio da solidão
O indestrutível silêncio do exílio.

Meus olhos cruzam campinas silentes
O belo encrostando-se
nas imagens que criei
lúcidas
jamais mortas ou recortadas
límpidas
Sinto que fluem para a verdade.

As imagens contempladas dos gestos
constroem prazeres
Não espero nada
que ainda volte de um poço sem fundo.

Quero respirar a poesia sem outra dor
Sem visões de falsa paz.

Mesmo que o tédio amargure séculos
Viverei o reverso libertado da morte
sem nada deixar sofrer.

1 088

Sombra Calada

Por que ser eu, se posso ser o silêncio
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.

Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.

Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.

Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.

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Identificação e contexto básico

Dílson Catarino é um poeta português. Escreve em português.

Infância e formação

Informações específicas sobre a infância e formação de Dílson Catarino não são amplamente divulgadas. No entanto, a sua obra poética sugere uma formação humanista e uma profunda reflexão sobre a vida e a cultura.

Percurso literário

O percurso literário de Dílson Catarino tem sido marcado pela publicação de várias obras poéticas que têm sido bem recebidas pela crítica e pelo público. A sua escrita evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma linha de coerência temática e estilística.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Dílson Catarino aborda frequentemente temas existenciais como a memória, a saudade, a efemeridade da vida, a busca por transcendência e a condição humana. O seu estilo poético é marcado por uma linguagem cuidada, depurada e evocativa, com um ritmo contemplativo. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com uma musicalidade intrínseca. A sua voz poética é muitas vezes descrita como melancólica, filosófica e terna.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Dílson Catarino insere-se na poesia contemporânea portuguesa, dialogando com os temas e as preocupações da sua geração. A sua obra reflete uma sensibilidade que procura respostas para as inquietações do mundo atual, num contexto de rápidas mudanças sociais e tecnológicas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Dílson Catarino tende a manter a sua vida pessoal discreta, focando a sua projeção pública na sua atividade literária.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Dílson Catarino tem sido reconhecida por críticos e leitores que apreciam a profundidade temática e a qualidade estética da sua poesia. Tem vindo a conquistar um espaço consistente no panorama literário português.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora influências específicas não sejam detalhadas, a sua obra dialoga com a rica tradição da poesia em língua portuguesa, explorando de forma original temas universais. O seu legado reside na sua capacidade de emocionar e fazer pensar o leitor através de uma poesia sincera e bem trabalhada.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Dílson Catarino é frequentemente interpretada como um convite à reflexão sobre a existência, a memória e a beleza encontrada nas pequenas coisas da vida. A sua obra convida a uma leitura atenta e contemplativa.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A dedicação à poesia como uma forma de explorar e expressar as complexidades do mundo interior é uma marca distintiva de Dílson Catarino.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ainda em plena atividade literária, não há registos sobre a morte de Dílson Catarino.