Poemas neste tema
Vida e Existência
Herberto Helder
5B
Os tubos de que é feito o corpo,
os tubos violentos,
os turvos tubos de chumbo,
enche-os o ouro lírico, sensível, alquímico:
o luxo o luxo
— e só então o corpo é monstruoso.
os tubos violentos,
os turvos tubos de chumbo,
enche-os o ouro lírico, sensível, alquímico:
o luxo o luxo
— e só então o corpo é monstruoso.
743
José Mário Rodrigues
A SOLIDÃO E SEU CORPO
Toda solidão tem o seu corpo
às vezes apenas desejado
às vezes apenas na lembrança
de um tempo ido e que ficou marcado.
Toda solidão tem seu descanso
sem o desassossego de pensar
não repousa o corpo noutro corpo
mas tem o sono para flutuar.
Toda solidão é pesada e fria
e fica leve e se consome
e deixa cicatriz quando quer posse
e beija um corpo sem saber seu nome.
às vezes apenas desejado
às vezes apenas na lembrança
de um tempo ido e que ficou marcado.
Toda solidão tem seu descanso
sem o desassossego de pensar
não repousa o corpo noutro corpo
mas tem o sono para flutuar.
Toda solidão é pesada e fria
e fica leve e se consome
e deixa cicatriz quando quer posse
e beija um corpo sem saber seu nome.
716
José Mário Rodrigues
A SOLIDÃO E SEU CORPO
Toda solidão tem o seu corpo
às vezes apenas desejado
às vezes apenas na lembrança
de um tempo ido e que ficou marcado.
Toda solidão tem seu descanso
sem o desassossego de pensar
não repousa o corpo noutro corpo
mas tem o sono para flutuar.
Toda solidão é pesada e fria
e fica leve e se consome
e deixa cicatriz quando quer posse
e beija um corpo sem saber seu nome.
às vezes apenas desejado
às vezes apenas na lembrança
de um tempo ido e que ficou marcado.
Toda solidão tem seu descanso
sem o desassossego de pensar
não repousa o corpo noutro corpo
mas tem o sono para flutuar.
Toda solidão é pesada e fria
e fica leve e se consome
e deixa cicatriz quando quer posse
e beija um corpo sem saber seu nome.
716
Ana Marques Gastão
Coração sexual
Não existe órgão tão sexual como o coração,
e, no entanto, Lisboa tem vergonha do poço
e do orifício, do labor do ofício, de um entra
e sai peregrino, implodindo de oprimido.
A ser quase coração, afirma-se no combate
dos glóbulos felinos entre o verbo carmim
de encarnado e o azul de um nobre fardo, mas
o labirinto passa pelo corpo de curta mente;
tudo se faz, nada se sente, viaja-se pela rede
das veias, artérias, do oxigénio vendido ao
interesse dos demais. Tu assim em meu ouvido,
as buzinas estalando, zumbindo, e eu dizendo
em modo hi-phone, «está lá, não oiço, diz-me
onde estás?» Lisboa não anda a pé, perde o
autocarro, esconde-se no assento do carro,
o músculo pulsando no furor dos sentidos,
caminhando por entre pontes cavadas e portões.
Lisboa de qualquer barco, do leito sem jeito,
atada ao faz que sim de um telemóvel, também
quando se grita por maior salário, não sabendo
quando passará a turbulência. Quem nos dera um
fingido verdadeiro discurso, o tal amor venenoso
da aorta ascendente surgindo; que o espírito
empurrasse o corpo, numa variação de beijo
caído sem sombra de ideal; quem nos dera esse
circuito, essa pressão, esse bombear, esse ser de
roda do outro para ser mais feliz. O que conta é,
porém, o excesso de realismo – o «não posso,
talvez um dia um café», esse tão brando, fácil,
elegante e puro sentir do «não estás cá e eu aqui»,
mas já nem do fixo se telefona, do auscultador
resta a dor, e da janela sobram as cavidades do cais.
e, no entanto, Lisboa tem vergonha do poço
e do orifício, do labor do ofício, de um entra
e sai peregrino, implodindo de oprimido.
A ser quase coração, afirma-se no combate
dos glóbulos felinos entre o verbo carmim
de encarnado e o azul de um nobre fardo, mas
o labirinto passa pelo corpo de curta mente;
tudo se faz, nada se sente, viaja-se pela rede
das veias, artérias, do oxigénio vendido ao
interesse dos demais. Tu assim em meu ouvido,
as buzinas estalando, zumbindo, e eu dizendo
em modo hi-phone, «está lá, não oiço, diz-me
onde estás?» Lisboa não anda a pé, perde o
autocarro, esconde-se no assento do carro,
o músculo pulsando no furor dos sentidos,
caminhando por entre pontes cavadas e portões.
Lisboa de qualquer barco, do leito sem jeito,
atada ao faz que sim de um telemóvel, também
quando se grita por maior salário, não sabendo
quando passará a turbulência. Quem nos dera um
fingido verdadeiro discurso, o tal amor venenoso
da aorta ascendente surgindo; que o espírito
empurrasse o corpo, numa variação de beijo
caído sem sombra de ideal; quem nos dera esse
circuito, essa pressão, esse bombear, esse ser de
roda do outro para ser mais feliz. O que conta é,
porém, o excesso de realismo – o «não posso,
talvez um dia um café», esse tão brando, fácil,
elegante e puro sentir do «não estás cá e eu aqui»,
mas já nem do fixo se telefona, do auscultador
resta a dor, e da janela sobram as cavidades do cais.
720
Isabel Mendes Ferreira
fosse este mar
fosse este mar capaz de te ser ilharga continente mapa sem naufrágios. água da minha sede. sede de uma só morada. nudez nupcial e núcleo e passagem. este mar de rompante a ser penugem e nome de oásis. olfacto oleoso doce e pacífico no entanto a norte do meu olhar. nascente e morrente prolixo e pretexto de chover no teu peito em pigmentos de luz e sombra . fosse este mar o único pormenor persistente e personagem da ida sem volta das voltas sem prazo. e eu barco. e eu perpendicular no pino de um pretérito sempre presente. sem correntes nem ressonâncias. apenas renascença. deste mar.
727
José Mário Rodrigues
A IMORTALIDADE
Oh! Minha paixão
pobre, insegura, desenfreada paixão
fique apenas mais um pouco.
Não há tempo a perder.
um reator atômico
vai desfazer nossas lembranças.
Dessa lagoa,
desses peixes
e do verde nada restará.
E quando tudo não mais estiver,
não existirá o caos
mas uma fumaça no ar.
E isso é o que vão chamar de imortalidade.
pobre, insegura, desenfreada paixão
fique apenas mais um pouco.
Não há tempo a perder.
um reator atômico
vai desfazer nossas lembranças.
Dessa lagoa,
desses peixes
e do verde nada restará.
E quando tudo não mais estiver,
não existirá o caos
mas uma fumaça no ar.
E isso é o que vão chamar de imortalidade.
636
José Mário Rodrigues
A IMORTALIDADE
Oh! Minha paixão
pobre, insegura, desenfreada paixão
fique apenas mais um pouco.
Não há tempo a perder.
um reator atômico
vai desfazer nossas lembranças.
Dessa lagoa,
desses peixes
e do verde nada restará.
E quando tudo não mais estiver,
não existirá o caos
mas uma fumaça no ar.
E isso é o que vão chamar de imortalidade.
pobre, insegura, desenfreada paixão
fique apenas mais um pouco.
Não há tempo a perder.
um reator atômico
vai desfazer nossas lembranças.
Dessa lagoa,
desses peixes
e do verde nada restará.
E quando tudo não mais estiver,
não existirá o caos
mas uma fumaça no ar.
E isso é o que vão chamar de imortalidade.
636
Daniel Francoy
Para pichar nos muros da cidade sitiada
Agora não há mais nada entre nós e o fim do mundo.
Toda quarentena é falha.
Eu tenho medo do ar que você respira.
A contagem dos mortos é sempre imprecisa.
Agora vivemos a vida adiada.
Há algo mais do que pássaros e ratos aqui.
Não confie no lucro anunciado.
Há homens com rifles nas esquinas.
Tudo o que conheci está sepultado.
Você ainda acredita que há dias sem mortos?
Toda quarentena é falha.
Eu tenho medo do ar que você respira.
A contagem dos mortos é sempre imprecisa.
Agora vivemos a vida adiada.
Há algo mais do que pássaros e ratos aqui.
Não confie no lucro anunciado.
Há homens com rifles nas esquinas.
Tudo o que conheci está sepultado.
Você ainda acredita que há dias sem mortos?
683
Isabel Mendes Ferreira
emagrecer o movimento
emagrecer o movimento que enche de surpresa as mãos cheias. de fascínios e desígnios. desenhar um caos ao mesmo tempo dócil e desamparado. encostar a porta ao espelho das águas. silenciar a tua mão no meu peito e depois lançar um pássaro de ópio à terra. não querer voltar a ser outro porto. perder todas as chaves. e deixar o riso ladrar como animal. fome de folhas. feroz fulgor dos contrários.
_________________._______________________
(em desfeito pano de sons e poeiras. pontos redondos na anca do sono. onde a natureza é cometa e declive.) e o contrário continua a ser
uma frase de entendimento. aberta à essência dos conflitos.
_________________._______________________
(em desfeito pano de sons e poeiras. pontos redondos na anca do sono. onde a natureza é cometa e declive.) e o contrário continua a ser
uma frase de entendimento. aberta à essência dos conflitos.
547
Daniel Francoy
UMA ALDEIA VIZINHA
Imagino uma aldeia vizinha de Pompeia
e o assombro da erupção: um crepúsculo
forte, rútilo, escarlate, e depois a nuvem
avançando – cinza, lenta, maciça –
sem ninguém desconfiar do que ocorria
no outro lado da cordilheira
e de que a sombra que soprava
era a poeira de uma cidade desfeita.
Eis que os homens dizimados
no ar revolto, tornados fuligem,
logo revestiram a epiderme dos sobreviventes;
fantasma que se tornou nítido na manhã
seguinte, ao despertar:
em cada lençol jazia um vulto de carvão.
Depois, imagino que foi horrível se banhar.
Perceber a sujeira que se desprendia do corpo
descendo em redemoinhos, água
escura, oleosa – enfim, refratária
ao instinto da branca espuma.
e o assombro da erupção: um crepúsculo
forte, rútilo, escarlate, e depois a nuvem
avançando – cinza, lenta, maciça –
sem ninguém desconfiar do que ocorria
no outro lado da cordilheira
e de que a sombra que soprava
era a poeira de uma cidade desfeita.
Eis que os homens dizimados
no ar revolto, tornados fuligem,
logo revestiram a epiderme dos sobreviventes;
fantasma que se tornou nítido na manhã
seguinte, ao despertar:
em cada lençol jazia um vulto de carvão.
Depois, imagino que foi horrível se banhar.
Perceber a sujeira que se desprendia do corpo
descendo em redemoinhos, água
escura, oleosa – enfim, refratária
ao instinto da branca espuma.
788
Daniel Francoy
UMA ALDEIA VIZINHA
Imagino uma aldeia vizinha de Pompeia
e o assombro da erupção: um crepúsculo
forte, rútilo, escarlate, e depois a nuvem
avançando – cinza, lenta, maciça –
sem ninguém desconfiar do que ocorria
no outro lado da cordilheira
e de que a sombra que soprava
era a poeira de uma cidade desfeita.
Eis que os homens dizimados
no ar revolto, tornados fuligem,
logo revestiram a epiderme dos sobreviventes;
fantasma que se tornou nítido na manhã
seguinte, ao despertar:
em cada lençol jazia um vulto de carvão.
Depois, imagino que foi horrível se banhar.
Perceber a sujeira que se desprendia do corpo
descendo em redemoinhos, água
escura, oleosa – enfim, refratária
ao instinto da branca espuma.
e o assombro da erupção: um crepúsculo
forte, rútilo, escarlate, e depois a nuvem
avançando – cinza, lenta, maciça –
sem ninguém desconfiar do que ocorria
no outro lado da cordilheira
e de que a sombra que soprava
era a poeira de uma cidade desfeita.
Eis que os homens dizimados
no ar revolto, tornados fuligem,
logo revestiram a epiderme dos sobreviventes;
fantasma que se tornou nítido na manhã
seguinte, ao despertar:
em cada lençol jazia um vulto de carvão.
Depois, imagino que foi horrível se banhar.
Perceber a sujeira que se desprendia do corpo
descendo em redemoinhos, água
escura, oleosa – enfim, refratária
ao instinto da branca espuma.
788
Yone Giannetti Fonseca
POEMA PARA O FILHO QUE SE CASA
Que este sonho inaugurado
Em tua carne, em teus atos,
Não se dissolva, abstrato,
Ao contacto dos cactos.
Que este intervalo de orvalho
Em seu sorriso espelhado,
Mesmo exaurido, restaure
Futuras noites de barro.
E nas urgências vividas
Em teu sonhar acordado,
Um pouco, muito persista
Desta brasa, desta brisa.
Que no sonho consumado
Nos embaraços dos laços,
Reste um desfrute de vida
Como fruto da saudade.
Em tua carne, em teus atos,
Não se dissolva, abstrato,
Ao contacto dos cactos.
Que este intervalo de orvalho
Em seu sorriso espelhado,
Mesmo exaurido, restaure
Futuras noites de barro.
E nas urgências vividas
Em teu sonhar acordado,
Um pouco, muito persista
Desta brasa, desta brisa.
Que no sonho consumado
Nos embaraços dos laços,
Reste um desfrute de vida
Como fruto da saudade.
1 242
Isabel Mendes Ferreira
nada ressuscitará
nada ressuscitará. nem a montanha. apenas um breve
desmaio. de minúsculas ervas. de poeiras. sem espelho.
e tudo se liga tudo se completa. em múltiplas gradações de uma geografia labiríntica. que não decifro. antes crio.
re.crio. re.inicio. como se sibila fosse não sendo rosto nem ruga nem mapa de areia. as coisas estranhas estranham-se pela metade visível. breve asa de búzio amazónico.
desmaio. de minúsculas ervas. de poeiras. sem espelho.
e tudo se liga tudo se completa. em múltiplas gradações de uma geografia labiríntica. que não decifro. antes crio.
re.crio. re.inicio. como se sibila fosse não sendo rosto nem ruga nem mapa de areia. as coisas estranhas estranham-se pela metade visível. breve asa de búzio amazónico.
664
Isabel Mendes Ferreira
nada ressuscitará
nada ressuscitará. nem a montanha. apenas um breve
desmaio. de minúsculas ervas. de poeiras. sem espelho.
e tudo se liga tudo se completa. em múltiplas gradações de uma geografia labiríntica. que não decifro. antes crio.
re.crio. re.inicio. como se sibila fosse não sendo rosto nem ruga nem mapa de areia. as coisas estranhas estranham-se pela metade visível. breve asa de búzio amazónico.
desmaio. de minúsculas ervas. de poeiras. sem espelho.
e tudo se liga tudo se completa. em múltiplas gradações de uma geografia labiríntica. que não decifro. antes crio.
re.crio. re.inicio. como se sibila fosse não sendo rosto nem ruga nem mapa de areia. as coisas estranhas estranham-se pela metade visível. breve asa de búzio amazónico.
664
Isabel Mendes Ferreira
respiro-te devagar
respiro-te devagar
tenho medo da memória
da música e da inclinação da garganta
suspensos os dedos
curvos os beijos
o teu peito podia ser um navio.
então é devagar que eu chego
ao abrigo das palavras
debaixo de chuva
perdida no bosque.
não acordes. a tua presença é mais doce
quando te beijo doce. simplesmente.
tenho medo da memória
da música e da inclinação da garganta
suspensos os dedos
curvos os beijos
o teu peito podia ser um navio.
então é devagar que eu chego
ao abrigo das palavras
debaixo de chuva
perdida no bosque.
não acordes. a tua presença é mais doce
quando te beijo doce. simplesmente.
1 276
Isabel Mendes Ferreira
daqui não partem
daqui não partem. antes chegam navios como braços.
amarrados a um destino de névoas e de lâminas. como fado
ou luminoso adeus adentro da música..
aqui só o silêncio indígeno que prende a alma ao corpo e este à sombra.
____________________embate de universos dentro de pequenos barcos. como estrelas ou antúrios.
__________________trânsito cego no mar amoroso que sangrante e febril é alegria e cartilagem de ave.
daqui não partem. aterram ossos.
ascendem anjos. mudos. falsos navios no olhar. narrativas de escarpas .
muros que não desvendo.
amarrados a um destino de névoas e de lâminas. como fado
ou luminoso adeus adentro da música..
aqui só o silêncio indígeno que prende a alma ao corpo e este à sombra.
____________________embate de universos dentro de pequenos barcos. como estrelas ou antúrios.
__________________trânsito cego no mar amoroso que sangrante e febril é alegria e cartilagem de ave.
daqui não partem. aterram ossos.
ascendem anjos. mudos. falsos navios no olhar. narrativas de escarpas .
muros que não desvendo.
687
Josely Vianna Baptista
RESTIS
Um vento anima os panos e as cortinas oscilam,
fronhas de linho (sono) áspero quebradiço; o sol passeia
a casa (o rosto adormecido), e em velatura a luz
vai desenhando as coisas: tranças brancas no espelho,
relógios deslustrados, cascas apodrecendo em seus volteios
curvos, vidros ao rés do chão reverberando, réstias.
Filamentos dourados unem o alto e o baixo
– horizonte invisível, abraço em leito alvo:
velame de outros corpos na memória amorosa.
fronhas de linho (sono) áspero quebradiço; o sol passeia
a casa (o rosto adormecido), e em velatura a luz
vai desenhando as coisas: tranças brancas no espelho,
relógios deslustrados, cascas apodrecendo em seus volteios
curvos, vidros ao rés do chão reverberando, réstias.
Filamentos dourados unem o alto e o baixo
– horizonte invisível, abraço em leito alvo:
velame de outros corpos na memória amorosa.
748
Daniel Francoy
UMA TERRA COMO ESSA
Não chamo deserto uma terra como essa.
Sob o sol que brilha como calcário
não vislumbro os ferozes e magros
homens cobertos de negro, abutres
que caminham e não encontro
as serpentes e os escorpiões
e tampouco a noite reverbera
o enluarado uivo dos chacais
ou o riso das hienas à espreita.
Por isso me pergunto onde estou
quando me encontro sob a canícula, sem
que o meu corpo projete sombra,
a garganta incendiada, o rosto fustigado
por uma das muitas tempestades de areia
que se erguem do ventre da terra
ou quando observo com que velocidade
desaparecem os sinais dos meus passos.
Sob o sol que brilha como calcário
não vislumbro os ferozes e magros
homens cobertos de negro, abutres
que caminham e não encontro
as serpentes e os escorpiões
e tampouco a noite reverbera
o enluarado uivo dos chacais
ou o riso das hienas à espreita.
Por isso me pergunto onde estou
quando me encontro sob a canícula, sem
que o meu corpo projete sombra,
a garganta incendiada, o rosto fustigado
por uma das muitas tempestades de areia
que se erguem do ventre da terra
ou quando observo com que velocidade
desaparecem os sinais dos meus passos.
774
José Mário Rodrigues
Lamento
Lá se vai Maria da Penha
subindo aos céus num trem de nuvens.
Lá se foi Margarida Alves
pelas veredas dos canaviais
na dança desnorteada dos ventos.
Não lamento as respirações interrompidas
sobre as pedras.
A morte é limpa e afirmativa
e suas vidas tiveram sentido.
Lamento os que ficam
sem sentido algum
e inúteis, covardes e impassíveis,
esperam apodrecer em seus domínios.
subindo aos céus num trem de nuvens.
Lá se foi Margarida Alves
pelas veredas dos canaviais
na dança desnorteada dos ventos.
Não lamento as respirações interrompidas
sobre as pedras.
A morte é limpa e afirmativa
e suas vidas tiveram sentido.
Lamento os que ficam
sem sentido algum
e inúteis, covardes e impassíveis,
esperam apodrecer em seus domínios.
756
José Mário Rodrigues
Lamento
Lá se vai Maria da Penha
subindo aos céus num trem de nuvens.
Lá se foi Margarida Alves
pelas veredas dos canaviais
na dança desnorteada dos ventos.
Não lamento as respirações interrompidas
sobre as pedras.
A morte é limpa e afirmativa
e suas vidas tiveram sentido.
Lamento os que ficam
sem sentido algum
e inúteis, covardes e impassíveis,
esperam apodrecer em seus domínios.
subindo aos céus num trem de nuvens.
Lá se foi Margarida Alves
pelas veredas dos canaviais
na dança desnorteada dos ventos.
Não lamento as respirações interrompidas
sobre as pedras.
A morte é limpa e afirmativa
e suas vidas tiveram sentido.
Lamento os que ficam
sem sentido algum
e inúteis, covardes e impassíveis,
esperam apodrecer em seus domínios.
756
Herberto Helder
5B
As varas frias que batem nos meus lugares levantam
os dias de espuma, as varas cor de malva
nos lugares altos
levantam o enxofre na treva.
Ei-la, a criança louca
— uma rotação turquesa, nos buracos estrelas centrífugas
com membros.
Sei agora onde me alcança o vergão de sal:
no mamilo rosa esquerda, em cima
das válvulas negras. Arranca-se o nervo ao espelho,
arranca-se a veia à palavra: não fica
o rosto, a criança não fica no abismo sonoro.
Louca sob essas varas de gelo, lufadas
redondas
onde ela se volta, a cabeça radiosamente com membros.
Os salões do mundo são atravessados por cometas drapejantes.
E explode a espuma no filme
sideral. O talento tumultuoso de uma camélia
debaixo das varas. E ao meio,
eu — inocente, inocente. Largo na testa
para a loucura e o baptismo.
Arte de redacção: ver isto,
ver a morte — dar-lhe um nome de diamante com o nervo
dentro. Aveia selvagem trespassando a acerba
massa
dos vocábulos. E nos lugares visuais do paraíso,
assinar: o demoníaco — com todas as letras
doces.
os dias de espuma, as varas cor de malva
nos lugares altos
levantam o enxofre na treva.
Ei-la, a criança louca
— uma rotação turquesa, nos buracos estrelas centrífugas
com membros.
Sei agora onde me alcança o vergão de sal:
no mamilo rosa esquerda, em cima
das válvulas negras. Arranca-se o nervo ao espelho,
arranca-se a veia à palavra: não fica
o rosto, a criança não fica no abismo sonoro.
Louca sob essas varas de gelo, lufadas
redondas
onde ela se volta, a cabeça radiosamente com membros.
Os salões do mundo são atravessados por cometas drapejantes.
E explode a espuma no filme
sideral. O talento tumultuoso de uma camélia
debaixo das varas. E ao meio,
eu — inocente, inocente. Largo na testa
para a loucura e o baptismo.
Arte de redacção: ver isto,
ver a morte — dar-lhe um nome de diamante com o nervo
dentro. Aveia selvagem trespassando a acerba
massa
dos vocábulos. E nos lugares visuais do paraíso,
assinar: o demoníaco — com todas as letras
doces.
569
Ana Marques Gastão
Assunção
Não há ciência para nós, nem o corpo é semente dispersa
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha
sombra para lá da superfície do tempo, escreve-se a noite
a toda a largura do mundo que prossegue sem nos ver.
Nada pode fixar-se ou ganhar forma, pois forma já não
temos quando tuas asas curvas desenham o movimento
do fogo. Aperto-te contra mim; nada do que se possa dizer
convém à dor de carne suada, morre-se de um beijo com
um grito dentro e a paisagem, límpida, pode quebrar-se
em nossas mãos. Sobrevive-nos a cor incendiada, porém,
porque só o irrepetível se eterniza e só o humano é divino.
Ergue-me, assim, de uma vida cheia de sangue.
Deixa-me ir, primeiro os pés, a luminescência, depois
o tronco, húmido, levitando nas entranhas de água, a cabeça
já sem rosto pregada a uma estrela cadente na cicatriz
de um chão sacro. Vê como a alucinação traz meu coração
de sal ao desastre da boca, áspero lugar, crepúsculo primeiro,
falha. Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado
à distância do lápis. Empurra-me agora, vagarosamente,
sem despedidas trágicas ou poemas flutuantes, sob a linha
recta da voz. O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo,
criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas.
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha
sombra para lá da superfície do tempo, escreve-se a noite
a toda a largura do mundo que prossegue sem nos ver.
Nada pode fixar-se ou ganhar forma, pois forma já não
temos quando tuas asas curvas desenham o movimento
do fogo. Aperto-te contra mim; nada do que se possa dizer
convém à dor de carne suada, morre-se de um beijo com
um grito dentro e a paisagem, límpida, pode quebrar-se
em nossas mãos. Sobrevive-nos a cor incendiada, porém,
porque só o irrepetível se eterniza e só o humano é divino.
Ergue-me, assim, de uma vida cheia de sangue.
Deixa-me ir, primeiro os pés, a luminescência, depois
o tronco, húmido, levitando nas entranhas de água, a cabeça
já sem rosto pregada a uma estrela cadente na cicatriz
de um chão sacro. Vê como a alucinação traz meu coração
de sal ao desastre da boca, áspero lugar, crepúsculo primeiro,
falha. Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado
à distância do lápis. Empurra-me agora, vagarosamente,
sem despedidas trágicas ou poemas flutuantes, sob a linha
recta da voz. O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo,
criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas.
723
Ana Marques Gastão
Assunção
Não há ciência para nós, nem o corpo é semente dispersa
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha
sombra para lá da superfície do tempo, escreve-se a noite
a toda a largura do mundo que prossegue sem nos ver.
Nada pode fixar-se ou ganhar forma, pois forma já não
temos quando tuas asas curvas desenham o movimento
do fogo. Aperto-te contra mim; nada do que se possa dizer
convém à dor de carne suada, morre-se de um beijo com
um grito dentro e a paisagem, límpida, pode quebrar-se
em nossas mãos. Sobrevive-nos a cor incendiada, porém,
porque só o irrepetível se eterniza e só o humano é divino.
Ergue-me, assim, de uma vida cheia de sangue.
Deixa-me ir, primeiro os pés, a luminescência, depois
o tronco, húmido, levitando nas entranhas de água, a cabeça
já sem rosto pregada a uma estrela cadente na cicatriz
de um chão sacro. Vê como a alucinação traz meu coração
de sal ao desastre da boca, áspero lugar, crepúsculo primeiro,
falha. Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado
à distância do lápis. Empurra-me agora, vagarosamente,
sem despedidas trágicas ou poemas flutuantes, sob a linha
recta da voz. O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo,
criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas.
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha
sombra para lá da superfície do tempo, escreve-se a noite
a toda a largura do mundo que prossegue sem nos ver.
Nada pode fixar-se ou ganhar forma, pois forma já não
temos quando tuas asas curvas desenham o movimento
do fogo. Aperto-te contra mim; nada do que se possa dizer
convém à dor de carne suada, morre-se de um beijo com
um grito dentro e a paisagem, límpida, pode quebrar-se
em nossas mãos. Sobrevive-nos a cor incendiada, porém,
porque só o irrepetível se eterniza e só o humano é divino.
Ergue-me, assim, de uma vida cheia de sangue.
Deixa-me ir, primeiro os pés, a luminescência, depois
o tronco, húmido, levitando nas entranhas de água, a cabeça
já sem rosto pregada a uma estrela cadente na cicatriz
de um chão sacro. Vê como a alucinação traz meu coração
de sal ao desastre da boca, áspero lugar, crepúsculo primeiro,
falha. Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado
à distância do lápis. Empurra-me agora, vagarosamente,
sem despedidas trágicas ou poemas flutuantes, sob a linha
recta da voz. O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo,
criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas.
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Isabel Mendes Ferreira
há uma criança profunda
há uma criança profunda e implacável sempre que as fibras do teu corpo de areia se desenrolam em nascentes sibilas e tristes. como a floresta em dias de bruma e em noites de colher pérolas índicas. tudo se abre e fecha como elemento supremo das marés. é a velocidade da vida. poderosa e absolutamente mínima. há uma criança veloz dentro dos teus olhos de monge. predominância do fogo.___________desmesura de naufrágios em cada partitura.
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