Poemas neste tema
Vida e Existência
Renato Rezende
07.04.05
As luzes azuis.
Percebo que a iluminação é menos um mergulhar (numa realidade maior) e mais um
explodir de dentro para fora.
É uma pressão que vem de dentro.
Que me expulsa de mim mesmo.
A parte que resiste sou eu. É preciso permitir que essa outra energia (que não é o eu que
estou acostumado a ser) tome posse.
Percebo que a iluminação é menos um mergulhar (numa realidade maior) e mais um
explodir de dentro para fora.
É uma pressão que vem de dentro.
Que me expulsa de mim mesmo.
A parte que resiste sou eu. É preciso permitir que essa outra energia (que não é o eu que
estou acostumado a ser) tome posse.
967
Renato Rezende
Rosa Ao Crepúsculo
Então vou escrever sobre essa moça sobre quem vou escrever.
Essa moça tem pernas e coxas e braços e, sobretudo, uma barriga. E dentro da barriga ela
tem um estômago. E tudo isso me comove e me faz escrever sobre ela.
Porque escrever sobre ela é escrever sobre mim.
E eu rezo—eu rezo mesmo—para poder escrever sobre mim.
É que eu preciso, mas tenho medo.
Mas eu escrevo.
E escrevo sobre mim escrevendo sobre a moça.
Que sou eu.
Que nem nome tem.
Mas que tem cabelos e pernas, e cabelos nas pernas, e um calcanhar que dói depois de tanto
andar no sapato vermelho de salto.
Meu Deus, ela é completa!
Ela tem um calcanhar.
E agora queria me ajoelhar e beijar seu calcanhar.
Seu calcanhar duro e machucado.
Ela é pobre.
Ela está no ponto de ônibus, parada.
São seis horas da tarde, mais ou menos.
Eu a encontro no ponto de ônibus, parada.
Eu sou um homem bonito.
Eu estou segurando uma pasta.
O dia está bonito e se acaba.
Há algumas pessoas no ponto de ônibus.
Ela dá um passo à frente, como se fosse averiguar se seu ônibus está chegando—mas é
fingimento dela—e recua e vem a mim e pergunta se o Lapa já passou.
(Respiro aliviado.
Já escrevi o bastante para deixar de sentir angústia.)
Ela me perguntou isso e ficou lá, atrás dos seus olhos amarelos, esperando resposta.
Essa moça tem pernas e coxas e braços e, sobretudo, uma barriga. E dentro da barriga ela
tem um estômago. E tudo isso me comove e me faz escrever sobre ela.
Porque escrever sobre ela é escrever sobre mim.
E eu rezo—eu rezo mesmo—para poder escrever sobre mim.
É que eu preciso, mas tenho medo.
Mas eu escrevo.
E escrevo sobre mim escrevendo sobre a moça.
Que sou eu.
Que nem nome tem.
Mas que tem cabelos e pernas, e cabelos nas pernas, e um calcanhar que dói depois de tanto
andar no sapato vermelho de salto.
Meu Deus, ela é completa!
Ela tem um calcanhar.
E agora queria me ajoelhar e beijar seu calcanhar.
Seu calcanhar duro e machucado.
Ela é pobre.
Ela está no ponto de ônibus, parada.
São seis horas da tarde, mais ou menos.
Eu a encontro no ponto de ônibus, parada.
Eu sou um homem bonito.
Eu estou segurando uma pasta.
O dia está bonito e se acaba.
Há algumas pessoas no ponto de ônibus.
Ela dá um passo à frente, como se fosse averiguar se seu ônibus está chegando—mas é
fingimento dela—e recua e vem a mim e pergunta se o Lapa já passou.
(Respiro aliviado.
Já escrevi o bastante para deixar de sentir angústia.)
Ela me perguntou isso e ficou lá, atrás dos seus olhos amarelos, esperando resposta.
1 027
Renato Rezende
Rosa Ao Crepúsculo
Então vou escrever sobre essa moça sobre quem vou escrever.
Essa moça tem pernas e coxas e braços e, sobretudo, uma barriga. E dentro da barriga ela
tem um estômago. E tudo isso me comove e me faz escrever sobre ela.
Porque escrever sobre ela é escrever sobre mim.
E eu rezo—eu rezo mesmo—para poder escrever sobre mim.
É que eu preciso, mas tenho medo.
Mas eu escrevo.
E escrevo sobre mim escrevendo sobre a moça.
Que sou eu.
Que nem nome tem.
Mas que tem cabelos e pernas, e cabelos nas pernas, e um calcanhar que dói depois de tanto
andar no sapato vermelho de salto.
Meu Deus, ela é completa!
Ela tem um calcanhar.
E agora queria me ajoelhar e beijar seu calcanhar.
Seu calcanhar duro e machucado.
Ela é pobre.
Ela está no ponto de ônibus, parada.
São seis horas da tarde, mais ou menos.
Eu a encontro no ponto de ônibus, parada.
Eu sou um homem bonito.
Eu estou segurando uma pasta.
O dia está bonito e se acaba.
Há algumas pessoas no ponto de ônibus.
Ela dá um passo à frente, como se fosse averiguar se seu ônibus está chegando—mas é
fingimento dela—e recua e vem a mim e pergunta se o Lapa já passou.
(Respiro aliviado.
Já escrevi o bastante para deixar de sentir angústia.)
Ela me perguntou isso e ficou lá, atrás dos seus olhos amarelos, esperando resposta.
Essa moça tem pernas e coxas e braços e, sobretudo, uma barriga. E dentro da barriga ela
tem um estômago. E tudo isso me comove e me faz escrever sobre ela.
Porque escrever sobre ela é escrever sobre mim.
E eu rezo—eu rezo mesmo—para poder escrever sobre mim.
É que eu preciso, mas tenho medo.
Mas eu escrevo.
E escrevo sobre mim escrevendo sobre a moça.
Que sou eu.
Que nem nome tem.
Mas que tem cabelos e pernas, e cabelos nas pernas, e um calcanhar que dói depois de tanto
andar no sapato vermelho de salto.
Meu Deus, ela é completa!
Ela tem um calcanhar.
E agora queria me ajoelhar e beijar seu calcanhar.
Seu calcanhar duro e machucado.
Ela é pobre.
Ela está no ponto de ônibus, parada.
São seis horas da tarde, mais ou menos.
Eu a encontro no ponto de ônibus, parada.
Eu sou um homem bonito.
Eu estou segurando uma pasta.
O dia está bonito e se acaba.
Há algumas pessoas no ponto de ônibus.
Ela dá um passo à frente, como se fosse averiguar se seu ônibus está chegando—mas é
fingimento dela—e recua e vem a mim e pergunta se o Lapa já passou.
(Respiro aliviado.
Já escrevi o bastante para deixar de sentir angústia.)
Ela me perguntou isso e ficou lá, atrás dos seus olhos amarelos, esperando resposta.
1 027
Renato Rezende
Asas
Como uma borboleta às vezes voa baixo
e acaba
atropelada
nas ruas desta cidade;
luz e azul
estagnados
estampados
no negro do asfalto;
anjo crucificado
entre carros que passam,
minha vida
morna e delicada
beijou a parede e o asfalto, trêmula
nas encostas do precipício.
Sento-me rente
à calçada
na raíz de uma enorme árvore, só
entre a sarjeta e o asfalto,
entre o tempo e a morte.
Ó alta e sábia árvore.
Ó árvore,
eu beijo tua casca--
tua grossa, antiga casca.
Imagino que esta árvore mágica
poderia destruir a cidade
e transformá-la novamente em mata.
Imagino e sou salvo.
No meio da mata Atlântica
no tempo vegetal
como uma larva
eu subo a alta árvore
até o céu.
O céu anil
das asas de uma borboleta livre
sobre o mar terrestre.
Subo e sou
luz e crisálida,
um pouco já raio e êxtase.
Quero vertigens transparentes,
quero o grande salto d'alma.
Deus, será que dava, de onde eu caio
fazer-me santo rápido,
algum tipo de pássaro,
dar-me asas?
Rio de Janeiro, 4 de maio 1997
e acaba
atropelada
nas ruas desta cidade;
luz e azul
estagnados
estampados
no negro do asfalto;
anjo crucificado
entre carros que passam,
minha vida
morna e delicada
beijou a parede e o asfalto, trêmula
nas encostas do precipício.
Sento-me rente
à calçada
na raíz de uma enorme árvore, só
entre a sarjeta e o asfalto,
entre o tempo e a morte.
Ó alta e sábia árvore.
Ó árvore,
eu beijo tua casca--
tua grossa, antiga casca.
Imagino que esta árvore mágica
poderia destruir a cidade
e transformá-la novamente em mata.
Imagino e sou salvo.
No meio da mata Atlântica
no tempo vegetal
como uma larva
eu subo a alta árvore
até o céu.
O céu anil
das asas de uma borboleta livre
sobre o mar terrestre.
Subo e sou
luz e crisálida,
um pouco já raio e êxtase.
Quero vertigens transparentes,
quero o grande salto d'alma.
Deus, será que dava, de onde eu caio
fazer-me santo rápido,
algum tipo de pássaro,
dar-me asas?
Rio de Janeiro, 4 de maio 1997
1 041
Renato Rezende
Cego, Surdo E Mudo
Ver outra vez com os mesmos olhos
o mil vezes visto e revisto?
Por que
caminhar sem fim na planície,
ouvir com os antigos ouvidos
os mesmos ruídos e vozes
sem respostas, as velhas melodias tristes,
falar com novas palavras e versos
o mil vezes dito
e sempre mal compreendido; enfim
por que buscar o corpo do outro
para um amor sem muito sentido
ou um gozo breve e tosco?
Não quero nada disso; quero o vazio
que traga o novo.
o mil vezes visto e revisto?
Por que
caminhar sem fim na planície,
ouvir com os antigos ouvidos
os mesmos ruídos e vozes
sem respostas, as velhas melodias tristes,
falar com novas palavras e versos
o mil vezes dito
e sempre mal compreendido; enfim
por que buscar o corpo do outro
para um amor sem muito sentido
ou um gozo breve e tosco?
Não quero nada disso; quero o vazio
que traga o novo.
712
Renato Rezende
Odysseus
One day, taking a coffee break, he noticed a book someone had forgotten on a table.
Surprised, he saw the book was written on his native language. He brought it to the kitchen and
tried to read while working. But he didn't have a chance. At the end of the day he took the book
home. He was excited.
It was the story of Odysseus and during the night, reading it in his room, he felt his heart
being overwhelmed by beauty. He read all night long and the next day he didn't show up for work.
Instead, he went for a walk with no directions. It was the beginning of spring and everything was
beautiful, everyone looked happy. He was surprised he hadn't really noticed the spring before. He
walked to a park in the top of a hill and sat down.
He stayed there for a long time. From there he could see the whole city and the suburbs. He
remembered some passages of the book; the beauty of it had remained with him. He had a strange
feeling; he felt his heart was so big he could fit the whole world in it. Suddenly he stood up and
shouted: I'm Odysseus!
Poderia ser em sueco: En dag under en kaffepaus lade han marke till en bok som någon hade glömt på ett bord. Till
sin förvåning såg han att boken var skriven på hans eget modersmål. Han tog den med sig till köket och försökte läsa
medan han arbetade. Men det gick inte alls. När dagen var slut tog han med sig boken hem. Han var entusiastisk. Det
var berättelsen om Odysseus och under natten medan han läste boken i sitt rum, kände han att hans hjärta var
överväldigat av dess skönhet. Han läste hela natten och nästa dag gick han inte till sitt arbete. Istället tog han en
promenad utan mål. Våren hade just börjat och allt var väckert, alla såg lyckliga ut. Det förvånade honom att han inte
lagt märke till våren tidigare. Han gick till en park på en kulle och satte sig ned. Han stannade där länge. Därifrån
kunde han se hela staden och förstäderna. Han erinrade sig några avsnitt ur boken, dess skönhet hade förblivit hos
honom. Han hade en underlig känsla, han kände att hans hjärta var så stort att det rymde hela världen. Plötsligt reste
han sig upp och skrek: Jag är Odysseus!
Surprised, he saw the book was written on his native language. He brought it to the kitchen and
tried to read while working. But he didn't have a chance. At the end of the day he took the book
home. He was excited.
It was the story of Odysseus and during the night, reading it in his room, he felt his heart
being overwhelmed by beauty. He read all night long and the next day he didn't show up for work.
Instead, he went for a walk with no directions. It was the beginning of spring and everything was
beautiful, everyone looked happy. He was surprised he hadn't really noticed the spring before. He
walked to a park in the top of a hill and sat down.
He stayed there for a long time. From there he could see the whole city and the suburbs. He
remembered some passages of the book; the beauty of it had remained with him. He had a strange
feeling; he felt his heart was so big he could fit the whole world in it. Suddenly he stood up and
shouted: I'm Odysseus!
Poderia ser em sueco: En dag under en kaffepaus lade han marke till en bok som någon hade glömt på ett bord. Till
sin förvåning såg han att boken var skriven på hans eget modersmål. Han tog den med sig till köket och försökte läsa
medan han arbetade. Men det gick inte alls. När dagen var slut tog han med sig boken hem. Han var entusiastisk. Det
var berättelsen om Odysseus och under natten medan han läste boken i sitt rum, kände han att hans hjärta var
överväldigat av dess skönhet. Han läste hela natten och nästa dag gick han inte till sitt arbete. Istället tog han en
promenad utan mål. Våren hade just börjat och allt var väckert, alla såg lyckliga ut. Det förvånade honom att han inte
lagt märke till våren tidigare. Han gick till en park på en kulle och satte sig ned. Han stannade där länge. Därifrån
kunde han se hela staden och förstäderna. Han erinrade sig några avsnitt ur boken, dess skönhet hade förblivit hos
honom. Han hade en underlig känsla, han kände att hans hjärta var så stort att det rymde hela världen. Plötsligt reste
han sig upp och skrek: Jag är Odysseus!
980
Renato Rezende
] Corpo [
Partindo do princípio, eu desisto
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
1 017
Renato Rezende
] Corpo [
Partindo do princípio, eu desisto
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
1 017
Renato Rezende
] Corpo [
Partindo do princípio, eu desisto
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
1 017
Renato Rezende
Balada Das Barcas
As barcas
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
947
Renato Rezende
Balada Das Barcas
As barcas
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
947
Renato Rezende
Sem Amarras
O amor se faz, entre lágrimas e beijos, mas o gozo
muito intenso surpreende, tem tal força
que é bem mais que a triunfante satisfação
da expectativa dos nossos desejos, dispensa
paradoxalmente a presença da amada, o rosto
delicado e adorado, o corpo com suas bocas
adoradas, olhos, membros, beijos e abraços.
Eu não acreditava, mas agora
o outro deixa de ser, estou só, e o amor voa solto
finalmente sem asas ou amarras.
muito intenso surpreende, tem tal força
que é bem mais que a triunfante satisfação
da expectativa dos nossos desejos, dispensa
paradoxalmente a presença da amada, o rosto
delicado e adorado, o corpo com suas bocas
adoradas, olhos, membros, beijos e abraços.
Eu não acreditava, mas agora
o outro deixa de ser, estou só, e o amor voa solto
finalmente sem asas ou amarras.
1 141
Renato Rezende
O Outro Em Mim
Presta atenção: a vida inteira
esperando que um dia alguém nos dê a mão.
Na juventude, para mim, era uma sombra feminina
que eu levava para todos os cantos, e amava.
Eu amava estonteantemente aquela menina.
Nunca veio, nunca virá, meu próprio espelho.
Estamos essencialmente sós neste mundo. Mas não tão
sós a ponto de poder fazer de cada momento
um momento sem qualquer desejo,
puro e pleno.
(ROMPER TODOS OS ESPELHOS)
esperando que um dia alguém nos dê a mão.
Na juventude, para mim, era uma sombra feminina
que eu levava para todos os cantos, e amava.
Eu amava estonteantemente aquela menina.
Nunca veio, nunca virá, meu próprio espelho.
Estamos essencialmente sós neste mundo. Mas não tão
sós a ponto de poder fazer de cada momento
um momento sem qualquer desejo,
puro e pleno.
(ROMPER TODOS OS ESPELHOS)
739
Renato Rezende
Fine Art
O menino de 17 anos
caminhou até mim
e conversou comigo um pouco.
Bonito, puro, doce
como eu também era doce
aos 17, e não sabia.
Amo-o
como se fosse uma pintura,
uma fotografia em preto e branco
(me seduz
uma coreografia que já não danço).
Sorrio,
enquanto ele me empurra para morte.
Nova York, maio 1996
caminhou até mim
e conversou comigo um pouco.
Bonito, puro, doce
como eu também era doce
aos 17, e não sabia.
Amo-o
como se fosse uma pintura,
uma fotografia em preto e branco
(me seduz
uma coreografia que já não danço).
Sorrio,
enquanto ele me empurra para morte.
Nova York, maio 1996
727
Renato Rezende
Fine Art
O menino de 17 anos
caminhou até mim
e conversou comigo um pouco.
Bonito, puro, doce
como eu também era doce
aos 17, e não sabia.
Amo-o
como se fosse uma pintura,
uma fotografia em preto e branco
(me seduz
uma coreografia que já não danço).
Sorrio,
enquanto ele me empurra para morte.
Nova York, maio 1996
caminhou até mim
e conversou comigo um pouco.
Bonito, puro, doce
como eu também era doce
aos 17, e não sabia.
Amo-o
como se fosse uma pintura,
uma fotografia em preto e branco
(me seduz
uma coreografia que já não danço).
Sorrio,
enquanto ele me empurra para morte.
Nova York, maio 1996
727
Renato Rezende
Fine Art
O menino de 17 anos
caminhou até mim
e conversou comigo um pouco.
Bonito, puro, doce
como eu também era doce
aos 17, e não sabia.
Amo-o
como se fosse uma pintura,
uma fotografia em preto e branco
(me seduz
uma coreografia que já não danço).
Sorrio,
enquanto ele me empurra para morte.
Nova York, maio 1996
caminhou até mim
e conversou comigo um pouco.
Bonito, puro, doce
como eu também era doce
aos 17, e não sabia.
Amo-o
como se fosse uma pintura,
uma fotografia em preto e branco
(me seduz
uma coreografia que já não danço).
Sorrio,
enquanto ele me empurra para morte.
Nova York, maio 1996
727
Renato Rezende
Águas Além da Mente
Anseio por nadar nu
e para sempre
no lago que existe
dentro, e além
da minha própria mente.
A água deste lago
é dourada, azul.
Nela eu me torno
puro—e um.
Me lembro de uma vez estar ao lado de um lago
e sentir desejo de ser ele.
Me lembro de sentir-me excluído da natureza.
O verde, os pássaros, o sapo
parecem ser um
com o lago e o céu.
Talvez estejam para sempre submersos
nas águas de uma mente em silêncio.
Mas, e eu? No meio do caminho, entre
o pó e o êxtase, os pés e as asas.
Escrevo: Anseio pelas verdadeiras águas.
Nova York, 20 de fevereiro 1996
e para sempre
no lago que existe
dentro, e além
da minha própria mente.
A água deste lago
é dourada, azul.
Nela eu me torno
puro—e um.
Me lembro de uma vez estar ao lado de um lago
e sentir desejo de ser ele.
Me lembro de sentir-me excluído da natureza.
O verde, os pássaros, o sapo
parecem ser um
com o lago e o céu.
Talvez estejam para sempre submersos
nas águas de uma mente em silêncio.
Mas, e eu? No meio do caminho, entre
o pó e o êxtase, os pés e as asas.
Escrevo: Anseio pelas verdadeiras águas.
Nova York, 20 de fevereiro 1996
1 013
Renato Rezende
Poemas
Sou ainda muito moço,
mas quando me lembro
dos tantos momentos que já vivi na minha vida
sinto que todo o passado tem sido um sonho
desaparecendo,
e quero mesmo que desapareça
e somente sobre a essência,
o supra-sumo
como cápsulas de amor preservadas em poemas.
Nova York, 23 de julho 1995
mas quando me lembro
dos tantos momentos que já vivi na minha vida
sinto que todo o passado tem sido um sonho
desaparecendo,
e quero mesmo que desapareça
e somente sobre a essência,
o supra-sumo
como cápsulas de amor preservadas em poemas.
Nova York, 23 de julho 1995
1 101
Renato Rezende
Poemas
Sou ainda muito moço,
mas quando me lembro
dos tantos momentos que já vivi na minha vida
sinto que todo o passado tem sido um sonho
desaparecendo,
e quero mesmo que desapareça
e somente sobre a essência,
o supra-sumo
como cápsulas de amor preservadas em poemas.
Nova York, 23 de julho 1995
mas quando me lembro
dos tantos momentos que já vivi na minha vida
sinto que todo o passado tem sido um sonho
desaparecendo,
e quero mesmo que desapareça
e somente sobre a essência,
o supra-sumo
como cápsulas de amor preservadas em poemas.
Nova York, 23 de julho 1995
1 101
Renato Rezende
Poemas
Sou ainda muito moço,
mas quando me lembro
dos tantos momentos que já vivi na minha vida
sinto que todo o passado tem sido um sonho
desaparecendo,
e quero mesmo que desapareça
e somente sobre a essência,
o supra-sumo
como cápsulas de amor preservadas em poemas.
Nova York, 23 de julho 1995
mas quando me lembro
dos tantos momentos que já vivi na minha vida
sinto que todo o passado tem sido um sonho
desaparecendo,
e quero mesmo que desapareça
e somente sobre a essência,
o supra-sumo
como cápsulas de amor preservadas em poemas.
Nova York, 23 de julho 1995
1 101
Renato Rezende
Formigas
Talvez isso ajude a compreender o Destino
ou a Graça:
Num pátio de mármore, duas formigas
tentam escalar uma pilastra.
Mas não conseguem.
Uma desiste.
A outra prossegue,
insiste.
Até que eu
pego essa formiga com a mão
e a coloco um palmo acima do chão.
Bombaím, novembro 1991
ou a Graça:
Num pátio de mármore, duas formigas
tentam escalar uma pilastra.
Mas não conseguem.
Uma desiste.
A outra prossegue,
insiste.
Até que eu
pego essa formiga com a mão
e a coloco um palmo acima do chão.
Bombaím, novembro 1991
991
Renato Rezende
Formigas
Talvez isso ajude a compreender o Destino
ou a Graça:
Num pátio de mármore, duas formigas
tentam escalar uma pilastra.
Mas não conseguem.
Uma desiste.
A outra prossegue,
insiste.
Até que eu
pego essa formiga com a mão
e a coloco um palmo acima do chão.
Bombaím, novembro 1991
ou a Graça:
Num pátio de mármore, duas formigas
tentam escalar uma pilastra.
Mas não conseguem.
Uma desiste.
A outra prossegue,
insiste.
Até que eu
pego essa formiga com a mão
e a coloco um palmo acima do chão.
Bombaím, novembro 1991
991