Poemas neste tema
Vida e Existência
Renato Rezende
Alhures
Sinto de uma vez por todas que minha vida—a vida—acabou. Durou o suficiente, e foi
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
1 032
Renato Rezende
Alhures
Sinto de uma vez por todas que minha vida—a vida—acabou. Durou o suficiente, e foi
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
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Renato Rezende
Alhures
Sinto de uma vez por todas que minha vida—a vida—acabou. Durou o suficiente, e foi
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
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Renato Rezende
Alhures
Sinto de uma vez por todas que minha vida—a vida—acabou. Durou o suficiente, e foi
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
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Renato Rezende
Alhures
Sinto de uma vez por todas que minha vida—a vida—acabou. Durou o suficiente, e foi
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
1 032
Renato Rezende
Bacia
Banho de bacia
de metal esmaltado azul
claro como o dia
que quase-acaba,
como a asa
de uma borboleta pousada
na fruta.
de metal esmaltado azul
claro como o dia
que quase-acaba,
como a asa
de uma borboleta pousada
na fruta.
1 163
Renato Rezende
Bacia
Banho de bacia
de metal esmaltado azul
claro como o dia
que quase-acaba,
como a asa
de uma borboleta pousada
na fruta.
de metal esmaltado azul
claro como o dia
que quase-acaba,
como a asa
de uma borboleta pousada
na fruta.
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Renato Rezende
Mercado de Frutas
Quando saí de casa hoje
a rua estava em silêncio
como se a vida geral se tivesse cansado
de tanta história
e se deixasse levar sem grandes vontades.
Lento, na calçada ao lado
passava um negro
quebrando o silêncio com uma doce toada.
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
E carregava umas vassouras imensas
que pareciam mesmo coisas antigas
do tempo dos escravos.
Parecia um Rio de Janeiro de outrora.
Era um momento raro,
o presente permitia
a vitória do passado.
Com especial cuidado
desci a rua
em direção à feira
do Largo do Machado.
Longe, fugia a voz do negro
como se acaba um longo beijo:
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
Com renovado cuidado
escolhi as frutas
que me sustentarão neste dia.
A cidade eterna e efêmera
navega em si mesma;
comigo em seu seio.
Rio de Janeiro, 7 de abril 1997
a rua estava em silêncio
como se a vida geral se tivesse cansado
de tanta história
e se deixasse levar sem grandes vontades.
Lento, na calçada ao lado
passava um negro
quebrando o silêncio com uma doce toada.
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
E carregava umas vassouras imensas
que pareciam mesmo coisas antigas
do tempo dos escravos.
Parecia um Rio de Janeiro de outrora.
Era um momento raro,
o presente permitia
a vitória do passado.
Com especial cuidado
desci a rua
em direção à feira
do Largo do Machado.
Longe, fugia a voz do negro
como se acaba um longo beijo:
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
Com renovado cuidado
escolhi as frutas
que me sustentarão neste dia.
A cidade eterna e efêmera
navega em si mesma;
comigo em seu seio.
Rio de Janeiro, 7 de abril 1997
981
Renato Rezende
Mercado de Frutas
Quando saí de casa hoje
a rua estava em silêncio
como se a vida geral se tivesse cansado
de tanta história
e se deixasse levar sem grandes vontades.
Lento, na calçada ao lado
passava um negro
quebrando o silêncio com uma doce toada.
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
E carregava umas vassouras imensas
que pareciam mesmo coisas antigas
do tempo dos escravos.
Parecia um Rio de Janeiro de outrora.
Era um momento raro,
o presente permitia
a vitória do passado.
Com especial cuidado
desci a rua
em direção à feira
do Largo do Machado.
Longe, fugia a voz do negro
como se acaba um longo beijo:
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
Com renovado cuidado
escolhi as frutas
que me sustentarão neste dia.
A cidade eterna e efêmera
navega em si mesma;
comigo em seu seio.
Rio de Janeiro, 7 de abril 1997
a rua estava em silêncio
como se a vida geral se tivesse cansado
de tanta história
e se deixasse levar sem grandes vontades.
Lento, na calçada ao lado
passava um negro
quebrando o silêncio com uma doce toada.
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
E carregava umas vassouras imensas
que pareciam mesmo coisas antigas
do tempo dos escravos.
Parecia um Rio de Janeiro de outrora.
Era um momento raro,
o presente permitia
a vitória do passado.
Com especial cuidado
desci a rua
em direção à feira
do Largo do Machado.
Longe, fugia a voz do negro
como se acaba um longo beijo:
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
Com renovado cuidado
escolhi as frutas
que me sustentarão neste dia.
A cidade eterna e efêmera
navega em si mesma;
comigo em seu seio.
Rio de Janeiro, 7 de abril 1997
981
Renato Rezende
Sopro
Este corpo onde agora moro
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
1 164
Renato Rezende
Sopro
Este corpo onde agora moro
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
1 164
Renato Rezende
Sopro
Este corpo onde agora moro
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
1 164
Renato Rezende
Os Antepassados
Meu tio José gostava de ficar
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
972
Renato Rezende
Os Antepassados
Meu tio José gostava de ficar
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
972
Renato Rezende
Os Antepassados
Meu tio José gostava de ficar
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
972
Renato Rezende
Paraíso Perdido (Ou Pré-Poema)
Nenhum de nós jamais pensaria
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
962
Renato Rezende
Paraíso Perdido (Ou Pré-Poema)
Nenhum de nós jamais pensaria
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
962
Renato Rezende
Paraíso Perdido (Ou Pré-Poema)
Nenhum de nós jamais pensaria
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
962
Renato Rezende
Paraíso Perdido (Ou Pré-Poema)
Nenhum de nós jamais pensaria
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
962
Renato Rezende
Para Uma Cruz Na Estrada
Carrego dentro de mim, esquecido
o filho dos meus pais,
o que um dia foi amado,
o que foi querido.
Acho que vindo do mar, de longe
por detrás do monte, escuto um ai:
Lá vai nosso filho
com sutilezas de menina.
Aonde ela vai
tão bem vestida?
-- Encontrar-se
com uma bala perdida.
Lá vai nosso filho
no Elevado.
Aonde ele vai
tão bem penteado?
-- Ser atropelado.
Ser negro, marginal, mendigo
travesti, bêbado, deficiente físico
caminhar ao lado da estrada
sob a tempestade
vestido num saco de lixo
e desaparecer imortalizado
entre os índices de sinistros.
(Para um dia retornar, pródigo
nos braços do Cristo).
Rio de Janeiro, 21 de janeiro 1998
o filho dos meus pais,
o que um dia foi amado,
o que foi querido.
Acho que vindo do mar, de longe
por detrás do monte, escuto um ai:
Lá vai nosso filho
com sutilezas de menina.
Aonde ela vai
tão bem vestida?
-- Encontrar-se
com uma bala perdida.
Lá vai nosso filho
no Elevado.
Aonde ele vai
tão bem penteado?
-- Ser atropelado.
Ser negro, marginal, mendigo
travesti, bêbado, deficiente físico
caminhar ao lado da estrada
sob a tempestade
vestido num saco de lixo
e desaparecer imortalizado
entre os índices de sinistros.
(Para um dia retornar, pródigo
nos braços do Cristo).
Rio de Janeiro, 21 de janeiro 1998
945
Renato Rezende
Para Uma Cruz Na Estrada
Carrego dentro de mim, esquecido
o filho dos meus pais,
o que um dia foi amado,
o que foi querido.
Acho que vindo do mar, de longe
por detrás do monte, escuto um ai:
Lá vai nosso filho
com sutilezas de menina.
Aonde ela vai
tão bem vestida?
-- Encontrar-se
com uma bala perdida.
Lá vai nosso filho
no Elevado.
Aonde ele vai
tão bem penteado?
-- Ser atropelado.
Ser negro, marginal, mendigo
travesti, bêbado, deficiente físico
caminhar ao lado da estrada
sob a tempestade
vestido num saco de lixo
e desaparecer imortalizado
entre os índices de sinistros.
(Para um dia retornar, pródigo
nos braços do Cristo).
Rio de Janeiro, 21 de janeiro 1998
o filho dos meus pais,
o que um dia foi amado,
o que foi querido.
Acho que vindo do mar, de longe
por detrás do monte, escuto um ai:
Lá vai nosso filho
com sutilezas de menina.
Aonde ela vai
tão bem vestida?
-- Encontrar-se
com uma bala perdida.
Lá vai nosso filho
no Elevado.
Aonde ele vai
tão bem penteado?
-- Ser atropelado.
Ser negro, marginal, mendigo
travesti, bêbado, deficiente físico
caminhar ao lado da estrada
sob a tempestade
vestido num saco de lixo
e desaparecer imortalizado
entre os índices de sinistros.
(Para um dia retornar, pródigo
nos braços do Cristo).
Rio de Janeiro, 21 de janeiro 1998
945
Renato Rezende
Estelita Lins Com Laranjeiras
Nesta esquina havia um mendigo
que queria sempre falar comigo.
Quando me via me chamava.
Ei, ei, preciso falar com você!
Mas eu passava apressado e deprimido.
E lá ficava ele, sentado
entre cocôs de cachorro e lixo.
Quem sabe ele era o anjo, um Zipruana
São Francisco de Assis, o próprio Jesus Cristo
que me levaria enfim ao Paraíso.
Talvez ele fosse o anjo do eu-redimido.
Talvez ele fosse o meu anjo prometido.
Duvido.
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro 1997
que queria sempre falar comigo.
Quando me via me chamava.
Ei, ei, preciso falar com você!
Mas eu passava apressado e deprimido.
E lá ficava ele, sentado
entre cocôs de cachorro e lixo.
Quem sabe ele era o anjo, um Zipruana
São Francisco de Assis, o próprio Jesus Cristo
que me levaria enfim ao Paraíso.
Talvez ele fosse o anjo do eu-redimido.
Talvez ele fosse o meu anjo prometido.
Duvido.
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro 1997
931
Renato Rezende
Asas
Como uma borboleta às vezes voa baixo
e acaba
atropelada
nas ruas desta cidade;
luz e azul
estagnados
estampados
no negro do asfalto;
anjo crucificado
entre carros que passam,
minha vida
morna e delicada
beijou a parede e o asfalto, trêmula
nas encostas do precipício.
Sento-me rente
à calçada
na raíz de uma enorme árvore, só
entre a sarjeta e o asfalto,
entre o tempo e a morte.
Ó alta e sábia árvore.
Ó árvore,
eu beijo tua casca--
tua grossa, antiga casca.
Imagino que esta árvore mágica
poderia destruir a cidade
e transformá-la novamente em mata.
Imagino e sou salvo.
No meio da mata Atlântica
no tempo vegetal
como uma larva
eu subo a alta árvore
até o céu.
O céu anil
das asas de uma borboleta livre
sobre o mar terrestre.
Subo e sou
luz e crisálida,
um pouco já raio e êxtase.
Quero vertigens transparentes,
quero o grande salto d'alma.
Deus, será que dava, de onde eu caio
fazer-me santo rápido,
algum tipo de pássaro,
dar-me asas?
Rio de Janeiro, 4 de maio 1997
e acaba
atropelada
nas ruas desta cidade;
luz e azul
estagnados
estampados
no negro do asfalto;
anjo crucificado
entre carros que passam,
minha vida
morna e delicada
beijou a parede e o asfalto, trêmula
nas encostas do precipício.
Sento-me rente
à calçada
na raíz de uma enorme árvore, só
entre a sarjeta e o asfalto,
entre o tempo e a morte.
Ó alta e sábia árvore.
Ó árvore,
eu beijo tua casca--
tua grossa, antiga casca.
Imagino que esta árvore mágica
poderia destruir a cidade
e transformá-la novamente em mata.
Imagino e sou salvo.
No meio da mata Atlântica
no tempo vegetal
como uma larva
eu subo a alta árvore
até o céu.
O céu anil
das asas de uma borboleta livre
sobre o mar terrestre.
Subo e sou
luz e crisálida,
um pouco já raio e êxtase.
Quero vertigens transparentes,
quero o grande salto d'alma.
Deus, será que dava, de onde eu caio
fazer-me santo rápido,
algum tipo de pássaro,
dar-me asas?
Rio de Janeiro, 4 de maio 1997
1 053
Renato Rezende
O Cofre
Quando morrer quero ir pro Céu.
E sei que vou. E sei que vou.
Cumprir a vida e voltar à Casa.
Voltar à Casa. Voltar à Casa.
Minha família guarda uma cama para mim
num quarto que é meu, com coisas que, embora há muito abandonadas
ainda são minhas, e se alegrariam com minha presença;
livros que jamais reli, velhas cartas, velhos poemas,
desenhos velhos,
uma caixa só de fotografias, coisas que, se desaparecessem
me deixariam perplexo e mudo, como se eu tivesse morrido um pouco.
Sei que desaparecem pouco a pouco,
assim como eu também morro. Mas, por enquanto,
lá estão elas
num armário de um quarto onde estou (não estando);
e esse saber me reconforta.
Lá está o banho quente
do meu corpo agora cansado.
Lá está a comida gostosa, à vontade
para quem está com fome agora, num hotel sujo
sem coragem de sair à rua, um refúgio
que mais parece um esconderijo, mas que facilmente poderia ser
um Palácio iluminado.
Olhando a chuva fina, contra a lua dourada
penso na vida que é minha
e se mascara em tantas vidas.
A casa da minha família
não é mais a minha casa.
Qualquer lugar, o mundo estranho
se torna o bom quarto, a cama, o travesseiro
para o coração arrombado,
como um velho cofre, de cobre, que pulsa
apesar de tudo
e que no fundo ainda pula
de alegria.
Rio de Janeiro, 19 de novembro 1998
E sei que vou. E sei que vou.
Cumprir a vida e voltar à Casa.
Voltar à Casa. Voltar à Casa.
Minha família guarda uma cama para mim
num quarto que é meu, com coisas que, embora há muito abandonadas
ainda são minhas, e se alegrariam com minha presença;
livros que jamais reli, velhas cartas, velhos poemas,
desenhos velhos,
uma caixa só de fotografias, coisas que, se desaparecessem
me deixariam perplexo e mudo, como se eu tivesse morrido um pouco.
Sei que desaparecem pouco a pouco,
assim como eu também morro. Mas, por enquanto,
lá estão elas
num armário de um quarto onde estou (não estando);
e esse saber me reconforta.
Lá está o banho quente
do meu corpo agora cansado.
Lá está a comida gostosa, à vontade
para quem está com fome agora, num hotel sujo
sem coragem de sair à rua, um refúgio
que mais parece um esconderijo, mas que facilmente poderia ser
um Palácio iluminado.
Olhando a chuva fina, contra a lua dourada
penso na vida que é minha
e se mascara em tantas vidas.
A casa da minha família
não é mais a minha casa.
Qualquer lugar, o mundo estranho
se torna o bom quarto, a cama, o travesseiro
para o coração arrombado,
como um velho cofre, de cobre, que pulsa
apesar de tudo
e que no fundo ainda pula
de alegria.
Rio de Janeiro, 19 de novembro 1998
741