Renato Rezende

Renato Rezende

n. 1964 BR BR

Renato Rezende é um poeta brasileiro contemporâneo, conhecido por sua poesia que transita entre o lirismo introspectivo e a observação atenta do cotidiano. Sua obra explora a delicadeza das relações humanas, a efemeridade do tempo e a busca por sentido em meio à banalidade da vida moderna. Com uma linguagem acessível, mas carregada de sensibilidade, Rezende tem se destacado na cena literária brasileira recente.

n. 1964-04-08, Poços de Caldas, Brasil

138 764 Visualizações

Zelig

Como se não bastasse
ser gente
é preciso ser também
médico, professor, gerente.
Tudo bem. O Sr. Souza
é gerente de compras.
A Dona Raimunda
tem como profissão
alugar o corpo.
Me perguntam o que sou.
Poeta e pintor, eu digo,
ou aprendiz de mendigo.
(Algo que de si mesmo
duvida).
Meu nome é Zelig
e às vezes São Francisco.
Indefinível, sem qualidades
disassocio-me do meu corpo
que alguns chamam de veículo.
Me despeço do meu destino.
Sou metade vazio
e oco no meio
(a melhor parte de mim mesmo
onde sou mais inteiro).
Me espero no que restará
do fundo do meu próprio abismo.

O sol no mar infinito.


Rio de Janeiro, 7 de março 1997
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Renato Rezende é um poeta brasileiro contemporâneo. Sua obra se insere no cenário da poesia brasileira atual, marcada por uma produção prolífica e uma voz lírica singular. A nacionalidade brasileira é um elemento fundamental em sua identidade e em sua produção literária, que dialoga com a cultura e a realidade do país.

Infância e formação

As informações detalhadas sobre a infância e formação de Renato Rezende não são amplamente divulgadas publicamente, mas é possível inferir que sua trajetória como poeta foi moldada por uma sensibilidade apurada para as nuances do mundo e das relações humanas. A formação literária, seja através de estudos formais ou do autodidatismo e da leitura constante, é um pilar para qualquer escritor, e no caso de Rezende, contribui para a sofisticação de sua linguagem poética.

Percurso literário

O percurso literário de Renato Rezende é marcado por uma presença consistente no meio poético, com a publicação de diversos livros que consolidaram sua voz. Sua escrita evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma linha de coerência temática e estilística, ao mesmo tempo em que explorava novas abordagens e aprofundava sua reflexão sobre os temas caros à sua obra. A participação em antologias e a divulgação de seus poemas em plataformas literárias indicam um engajamento ativo com a comunidade poética.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Renato Rezende é caracterizada por um lirismo introspectivo e uma observação detalhada do cotidiano. Seus poemas frequentemente abordam temas como o amor, a passagem do tempo, a solidão, a memória e a beleza encontrada nas coisas simples da vida. O estilo de Rezende é marcado pela clareza e pela delicadeza da linguagem, sem sacrificar a profundidade emocional e a capacidade de evocar imagens sensíveis. Ele utiliza recursos poéticos de forma sutil, construindo versos que ressoam com o leitor por sua autenticidade e humanidade. A forma poética utilizada por ele varia, mas há uma inclinação para o verso livre, que permite maior fluidez e aproximação da linguagem falada, mantendo a musicalidade intrínseca à poesia.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Como poeta contemporâneo, Renato Rezende faz parte de um cenário literário dinâmico, que dialoga com as transformações sociais, tecnológicas e culturais do século XXI. Sua obra reflete, de forma sutil, as ansiedades e as reflexões de seu tempo, abordando a maneira como vivemos, nos relacionamos e percebemos o mundo na era moderna. Ele se insere em uma geração de escritores que buscam reinterpretar as tradições poéticas, mas com um olhar voltado para as experiências contemporâneas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As informações sobre a vida pessoal de Renato Rezende são escassas na esfera pública, priorizando-se a divulgação de sua obra literária. O foco na poesia sugere que o autor prefere manter um certo distanciamento entre sua vida privada e sua expressão artística, permitindo que os poemas falem por si mesmos e que o leitor crie sua própria conexão com os temas abordados.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Renato Rezende tem crescido no meio literário brasileiro. Sua obra tem sido bem recebida por críticos e leitores, que apreciam a sensibilidade, a originalidade e a profundidade de sua poesia. A participação em antologias e a publicação de livros por editoras respeitáveis indicam um lugar consolidado na literatura contemporânea do país. A receção de sua obra é marcada pela admiração de sua capacidade de tocar em temas universais com uma voz autêntica e um estilo cativante.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora não haja referências explícitas a influências diretas em sua obra, é provável que Renato Rezende tenha sido influenciado pela rica tradição da poesia brasileira, bem como por poetas de outras nacionalidades que exploram o lirismo e a introspecção. Seu legado reside na contribuição para a renovação da poesia contemporânea, oferecendo aos leitores uma poesia que é ao mesmo tempo acessível e profundamente tocante, reafirmando a força da palavra poética para expressar a complexidade da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Renato Rezende convida a múltiplas interpretações, pois se debruça sobre temas existenciais universais de forma pessoal e íntima. A crítica tem destacado a capacidade do autor em transformar o banal em poético, explorando as sutilezas das emoções e das relações. Seus poemas podem ser vistos como reflexões sobre a efemeridade da vida, a busca por conexão e a beleza inerente à própria existência.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por se tratar de um autor contemporâneo cuja obra é o foco principal, as curiosidades e aspetos menos conhecidos de sua vida pessoal não são amplamente divulgados. A dedicação à escrita e a exploração dos meandros da alma humana parecem ser os pilares de sua atuação como poeta.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Como Renato Rezende é um autor contemporâneo, não há informações sobre sua morte. Sua memória está intrinsecamente ligada à sua obra, que continua a ser divulgada, lida e apreciada, garantindo sua presença e relevância no panorama literário brasileiro.

Poemas

146

Zelig

Como se não bastasse
ser gente
é preciso ser também
médico, professor, gerente.
Tudo bem. O Sr. Souza
é gerente de compras.
A Dona Raimunda
tem como profissão
alugar o corpo.
Me perguntam o que sou.
Poeta e pintor, eu digo,
ou aprendiz de mendigo.
(Algo que de si mesmo
duvida).
Meu nome é Zelig
e às vezes São Francisco.
Indefinível, sem qualidades
disassocio-me do meu corpo
que alguns chamam de veículo.
Me despeço do meu destino.
Sou metade vazio
e oco no meio
(a melhor parte de mim mesmo
onde sou mais inteiro).
Me espero no que restará
do fundo do meu próprio abismo.

O sol no mar infinito.


Rio de Janeiro, 7 de março 1997
993

[Ensaios]

Saberei renascer em vida?

De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.

Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.

Ensaios.

Vou perder o medo de ficar louco.

Começar a ser o que eu sou.

Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto

Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.

Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.

Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.

Por acaso eu sou eu.

Eu:

Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.

Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.

Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.

Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.

Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.

Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.

É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.

AMA ET FAC UT VIS

Tenho sido meticulosamente destruído.

Era uma casa abandonada, sem telhado

e as vacas

a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):

era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.

Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.

Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.

Eu vivo minha vida como se eu não existisse.

A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.

Não me importo com o que possa vir a acontecer.

Eu só sossegarei com o silêncio.

Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.

Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.

Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
845

[Santo]

—é essa a humanidade que pulsa agora.

Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.

Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.

Minha querida devoradora de corações,

Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.

Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.

A palavra do erotismo é o espírito! O salto.

(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).

Tigre,

Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida

Então posso ser o homem

da sua morte?

E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?

Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.

Sim, a matéria salva.

É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.

Eu não estou escrevendo isso.

Eu não estou sentado nessa sala.

Eu estou aqui

(para vocês),
mas eu não estou aqui.

O coração é meu órgão sexual.

Quero gozar o tempo todo.

Amor divino: castidade absoluta.

Eu sou o homem e eu sou a mulher.

Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.

Quanto mais santo mais no mundo?
1 136

[Tento-Carolina]

Quero ser rei e quero servir

Meu Deus, está tudo pegando fogo

É da minha ferida que escorre o meu Amor

Prestar atenção nos vazios, nos imensos vazios que existem entre
todas as pessoas, os momentos, as palavras, as coisas.
Praticamente tudo é vazio

Só dias maravilhosos?

Encantei-me por uma árvore em frente ao
templo de Shiva. Era uma árvore comum, mas
com extraordinárias pequenas sementes
vermelhas que salpicavam o chão. Vivas,
lustrosas, rijas. Peguei um punhado e as trouxe
para cá; coloquei algumas numa pequena caixa
de mármore incrustado de pedras para Lakshmi.
No mês passado, caminhando na rua que sobe o
morro, encontrei as mesmas sementes! E apenas
hoje percebi e comprovei que a árvore no quintal
do prédio diante da minha janela (ao lado da
mangueira, perto da buganvília) é ela. A menos
de 10 metros da minha janela, da minha cama.
Como nascem dentro de cachos espiralados que
só se abrem no chão, nunca percebi as sementes
antes. Mas agora, atento, vejo os pontos
vermelhos entre a folhagem.

bead tree, bois de condori, peacock
flower-fence, colales, coral bean tree,
culalis, false wili wili, falso-sândalo,
kaikes, la’aulopa,
lera, lerendamu, lopa, metekam, olhode-dragão, paina, pitipitio, pomea, red
sandalwood tree,
redbeadtree, segavé, telengtúngd,
telentundalel,
vaivai,
vaivainivavalangi,
tento-carolina

O mundo manifesto.

O amor é uma chama que deve consumir tudo,
mas em mim sendo facilmente extinguida pelos caminhões
de areia dos pensamentos e sentimentos cotidianos

desistir do plano, como parte da estratégia;
desistir da estratégia

Tudo é impuro e belo

Tudo é perfeito e imperfeito

(Senti-me o que sou, sem mais, uma pessoa entre outras, finita e autorizada)

Teria a coragem de dizer que não me sinto, freqüentemente, uma pessoa?

Viver no limite daquilo que me limita.

(ontem, na festa da Carol, me vi
novamente tomando atitudes herdadas da minha mãe, e pela
primeira vez não me senti ridícula e tola, mas me aceitei, aceitando
assim minha mãe, e, novamente, assim, me aceitando)

deixar de vir a ser para ser—o que sou

todo futuro já aconteceu

Alço o coração ao alto, os braços abertos—sei que Deus quer me ajudar.

Eu não quero a redenção; eu já sou redimida,

Vim aprender a amar
Ah, olhar transparente!

Maravilha das maravilhas

salva:

Deleitar-se com a vida
Depois de sacrificá-la

Amor de perdição
692

[Filtros]

Eu criei uma ilusão, um véu, há muitas camadas de tecido,
muito filtro, entre eu e a vida.
Mas uma vida humana não é justamente a experiência desses
filtros?
A vida—experiência absurda—não é sempre necessariamente
mediada?
A vida humana só é se mediada.

Somos todos vazios,
Sem existência fixa.

A gente vai sempre virando

apenas mais uma vida,
perdida

ARRISCAR TUDO

Todos os recursos

Concentrar todos os esforços

Lançar tudo fora

Um homem deve dedicar sua vida àquilo pelo qual se esquece

se perde

diante do abismo

pisa

no vazio

Nada tem sentido

Tudo é um fim em si mesmo.
Derreter no coração todos os sentidos.

Nesta terra não há jardim que não tenha sido construído sobre os quintos dos infernos.

A pessoa nunca é em termos absolutos. Nenhum de nós é.

Somos sempre em termos relativos. Em relação ao outro: espelhos uns dos outros. Poderíamos ser qualquer um de nós.

Isso é ser livre?

Toda pessoa que se preze é uma fracassada.

Na Noruega há um Joe Doe que passa os dias olhando pela janela a neve cair, sem vontade de sair de casa. Ele teria coisas para fazer, responder emails e telefonemas, o trabalho se acumulando. Eu não me importo com isso, não o julgo, não o condeno. Acho que ele tem todo o tempo do mundo, o direito a todo esse tempo: não sinto ansiedade, nem culpa, não me envolvo. Agora eu sou esse Joe Doe no Rio de Janeiro:

No meio da tarde, levanto e saio: nada realmente para fazer, apenas a atração pela luz e pelo abismo. Apenas o descaso pelo falatório.
[Essa é a imagem da minha vida].
Mas não saio com a experiência de um vazio interno, um oco. Não é para o exílio que saio, e sim para a VIDA. Agora, quando saio, carrego o mundo comigo: sou eu o vivo, são eles os mortos.
[Não. O Amor nos une a todos: somos todos vivos e mortos: homo caritas est].
844

[Bússola]

De vez em quando, é bom andar na corda bamba.

Viver é passar por um intestino.

As luzes douradas.
Fogaréu azul.

Não dá para fazer mais nada.

Tenho certeza que algo existe em mim. Só não sei se esse algo sou eu.

Sou em essência alguém ou sou apenas um lugar, um ponto de confluência de palavras e corpos?

Meu carro parado no acostamento da estrada movimentada me provoca uma angustiante sensação de movimento.

Passo pelas coisas ou são as coisas que passam por mim, me atravessam? Atravesso?

O que em mim é?

Imagine a Mariana, por exemplo. Ela está lá, agora, sendo a Mariana. Para mim, ela só existe de vez em quando, quando por alguma razão me lembro dela. Para ela, ela existe o tempo todo. Para mim, eu existo o tempo todo. Mas e se eu conseguir existir para mim como a Mariana existe para mim, ou como eu existo para a Mariana: de vez em quando? Então, quando sair da sala, por exemplo, onde sou eu para os outros, e for ao banheiro, no banheiro serei apenas nada, um ser mijante. E se eu fizer desses intervalos minha vida? E se eu alternar sempre sendo e não-sendo? E se eu carregasse o rosto no bolso?

O desejo é minha bússola
Nosso único norte. O desejo:

Lá onde menos temos controle
é que somos mais o que somos.

O que em mim prefere
na cama uma mulher a um homem
Quando fica com fome, come
coisas cozidas, digere. O que em mim
quando corre sente tremer o corpo?

O maior problema da minha vida é que eu desenvolvi o hábito de abrir janelas à tarde.

Sempre de olho no extraordinário, sempre caindo pelas brechas do calendário, sempre olhando para longe

Eu pareço um balão que está sempre querendo se soltar do chão

Pensei em ir à praia

pensei seriamente em ir à praia

capaz ainda de ir á praia no final da tarde

(não por prazer,
mas por amor):

O mar eternamente batendo na praia

—isso sim é liberdade!:

Na areia, parecia um animal morto,

uma carcaça
mas era uma jaca podre.

O coração aberto como uma concha.
726

[Furniture]

Vamos para os Alpes franceses na primavera? Vamos para a França nos tempos medievais? Vamos nos deitar na grama, entre rosas, tendo um castelo ao fundo e suaves nuvens sobre nós?

Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.

Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.

Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.

Mas o que não é sempre não é nunca?

(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)

O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.

I’m cooking

Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.

Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.

Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.

A explosão no aqui e agora.

As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.

(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).

E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais

Sou enfim um corpo neutro
outro

Did you pay a lot for your furniture?

Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.

Sempre habitei uma tenda.

O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.

Nômade.

Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.

Descartáveis.

Uma vida descartável.

Tirar-se a vida como se tira uma calça.

Ah, o deserto.

A árvore da vida enraíza-se por dentro.
762

[Ossos]

Eu fazia, fazia e continuava com a sensação de ser nada. Vazio. Enquanto você, sem fazer nada, era. É. Me ensina a ser, assim, já sendo—sem esse constante vir a ser.

Segure o Amor e solte todo o resto.

Solta.

Tudo é perfeito habitando o Amor,

Amor,

Eu te mando pelo correio um grande coração de chocolate, para você devorar de olhos fechados, como se fosse o meu próprio coração apaixonado.

[depois me manda de volta,
num potinho,
o resultado do meu amor no seu sistema digestivo]

eu te amo desta forma ardente porque sei que nosso amor nunca
vai se realizar

eu te amo porque você é impossível
eu te faço impossível para poder te amar

eu gozo no impossível

eu quero o impossível

[eu sou um poeta místico?]

(Fecho os olhos e me deito sob o sol, fora do tempo, sem história ou linguagem)

Meus olhos estão leves, como se flutuassem fora do corpo.

Sou um homem casto e uma mulher devassa

Com doçura imagino ser devorado por demônios, enormes insetos cegos com garras, até que só restem os ossos, o esqueleto ardente

O sol explode no centro do meu coeur.

O mago ordenou entoando em língua de mortos

que cortassem meu corpo
limpassem meus ossos
recobrindo tudo
com carne nova

Vi o corpo todo em fogo. É preciso incendiar o corpo. Preciso
explodir no aqui.
Emergir do lado de lá.

Como reinventar-se? Como dar nascimento a si mesmo?

Não na linguagem, mas no próprio ser?

O corpo é a linguagem.

Quem inspira e expira em mim agora são meus pés.
1 047

[Pessoa]

A pessoa que olha para si mesma e diz,

Deus, eu preciso sair de mim!

(Eu preciso entrar em mim)

O que se pede?:

Que você brote em mim.

Eu já percebia essas coisas em você desde que nos conhecemos. Noque diz respeito aos relacionamentos, você me parecia ser uma pessoa que dá um passo a frente e dois para trás. Confesso que isso me dava uma certa vontade (ou impulso) de provocar, uma coisa meio: “quero ver se ele sai do sério...”. Mas não pense que era um jogo ou algo assim, não era nada de caso pensado, só um impulso provocado (sem intenção, creio eu) por aquele seu jeito. E talvez aquele seu jeito nunca tenha realmente mudado. Acho perfeitamente normal querer e não querer. Você pode não querer intimidade, mas pode querer se aproximar de alguém de vez em quando, se sentir atraído e sentir que é capaz de atrair. Você pode não querer morder a maçã e acabar com o caroço nas mãos, mas pode querer ter maçãs por perto às vezes, cheirar, apreciar e até dar uma mordidinha. Por que não?

Acordo no meio da noite gritando
minha vida está acabando!

Preso no corpo, no corredor do tempo, um segundo de cada vez—
a via estreita. .

EU QUERO!

Às vezes me dou conta como minha vida é intrinsecamente inseparável de mim; ou seja, como o que eu sou é a expressão fiel do que sou. Minha vida é a expressão exata do que sou, em traço e pulsão, do que sou em semente e potência. Para libertar-me e viver eu preciso de fato morrer, ou seja, libertar-me do que existe em mim que dá expressão material à minha vida, erradicar o que mais irredutivelmente em mim sou eu. Para enfim brotar em mim: eu sendo, aquilo que se É.

Aqui poderia viver, uma vez que aqui vivo

Se o tempo passa,
é porque já passou

Primeira premonição da Morte:

O homem que eu fui
E a mulher que eu fui;
E os homens que eu não fui
E as mulheres que eu não fui;
Somam-se agora ao meu corpo.

Nosso assombro é a nossa alegria.

(O que está vivo, está morto)

Deus é doido

(E todos eles ressuscitaram e retornaram às suas vidas)

O espírito deve se apossar do corpo e fazer dele um corpo divino— um corpo de ouro.

O Amor é dentro e fora; no interior e ao redor do corpo

Quando sou AMOR estou na ETERNIDADE

A distância mais potente de queda
739

[Abgrund]

Tudo vale a pena

Tout enfant, j’ai senti dans mon coeur deux sentiments
contradictoires: l’horreur de la vie et l’extase de la vie.

Abyssus infinitudinis

Imagino usar sempre um hábito azul.

Caitanya Atman

Tudo é consciência

Caitanya Caitanya

A poesia em chamas

incapaz de explicar sua própria estranheza

[Poesia]

Arrombar a roda da linguagem.

UM DIA EU SILENCIO

Eu confundo vida e morte?

A morte não é.

Volta: um salto para a terra.

A linguagem são todas as máscaras.
O silêncio profundo é essa balbúrdia.

Poesia:

Eu me enlaço com o mundo pelo amor.

O prazer aos porcos, eu quero o amor.

Tudo o que está acontecendo não está acontecendo comigo.

(escrevo no escuro, olhos atentos, sem enxergar nada
no leito do papel
sombras)

Abyssus infinitudinis

A sensação de que todo o meu dia—toda a minha vida—está sendo mastigada, na boca, e depois regurgitada: enfim apta para ser vivida.

como se purificada, humanizada, feita ouro

Em casa, uma coleção de bocas
dentes
pernas
olhos

(a coisa mais linda
são olhos de gente)

ninguém de fato existe—fragmentos

coletados

colados por algum tempo, só aparência

o conteúdo é sempre o mesmo

cacos de espelho

o mundo inteiro meu espelho

eu não sou inteligente.

A inteligência é que pousa em mim, pensando.
O pensamento é que se pensa.

Sou todas as Consciências.

Doidivanas

Indivíduo imprudente, estouvado; adoidado, doidelo, girolas.

E agora?

Cala a boca e trabalha.

[Cala a boca e ama]

727

Livros

7

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.