Poemas neste tema
Vida e Existência
Hélia Correia
23.
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
1 212
Hélia Correia
23.
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
1 212
Golgona Anghel
Não me interessa
Não me interessa o que
dizem os dissidentes da ditadura.
Mas confesso que gostava dos chocolates Toblerone
que a minha tia me trazia no Natal.
Não acredito nos detidos políticos,
nem me impressionam os miúdos descalços
que mostram os dentes para as máquinas Minolta
dos turistas italianos.
Não vou pedir asilo.
Desconheço os avanços
ou retrocessos económicos do meu país.
Já falei de Drácula que chegue.
Já apanhei morangos na Andaluzia.
Já fui cigana, já fui puta.
Escusam de mo perguntar outra vez.
O que me preocupa – e isso, sim, pode ser relevante
para o fim da história – é saber
quando é que me transformei,
eu que era uma loba solitária,
neste caniche de apartamento que vos fala agora?
dizem os dissidentes da ditadura.
Mas confesso que gostava dos chocolates Toblerone
que a minha tia me trazia no Natal.
Não acredito nos detidos políticos,
nem me impressionam os miúdos descalços
que mostram os dentes para as máquinas Minolta
dos turistas italianos.
Não vou pedir asilo.
Desconheço os avanços
ou retrocessos económicos do meu país.
Já falei de Drácula que chegue.
Já apanhei morangos na Andaluzia.
Já fui cigana, já fui puta.
Escusam de mo perguntar outra vez.
O que me preocupa – e isso, sim, pode ser relevante
para o fim da história – é saber
quando é que me transformei,
eu que era uma loba solitária,
neste caniche de apartamento que vos fala agora?
813
Golgona Anghel
O seu andar às voltas
O seu andar às voltas,
hesitante como qualquer principiante,
o epicentro das suas mentiras,
o campo magnético do seu prazer,
o pólo norte do seu sexo,
essa sua melancolia de magnólia
gravada no horizonte de tantas Hiroshimas
seriam um desastre em Mishima.
Mas esse dente à morcego
a provar a couraça da minha paciência, essa
mania de acordarmos todos os dias,
de não termos nada e possuir tudo,
eis o que nos une para a eternidade.
Para além dos complexos freudianos,
fora das restrições genéticas,
debaixo de qualquer suspeita
arrumada à pressa nos livros de cabeceira.
Quando me perguntam por nós
não hesito em fundamentar a minha resposta
invocando as musas gregas e os seus curadores,
dando exemplos pertinentes
como este:
ibamus obscuri sola sub nocte.
As milhares de mónadas da minha história psíquica
giram ciclicamente em torno da sua franja,
passam horas
contemplando a sua saia solar
no ondear ligeiro das searas.
Quando não há searas,
ligo a ventoinha e a saia flutua na mesma.
Haverá certamente uma altura em que
os anais do google irão disponibilizar on-line
os ficheiros secretos do nosso destino.
Alguém contará, então,
com a voz distorcida pela censura,
que me abandonava vezes sem conta
com o exagero das hipérboles,
que voltava depois
com o remorso tácito dos pontos suspensivos,
até quando?
que noite após noite me abastecia de requintados
pesadelos, flores de plástico e pastilhas Trident,
até que um dia,
pegou no tempo que nos restava juntos
e foi dar um passeio à parte mais negra da floresta.
hesitante como qualquer principiante,
o epicentro das suas mentiras,
o campo magnético do seu prazer,
o pólo norte do seu sexo,
essa sua melancolia de magnólia
gravada no horizonte de tantas Hiroshimas
seriam um desastre em Mishima.
Mas esse dente à morcego
a provar a couraça da minha paciência, essa
mania de acordarmos todos os dias,
de não termos nada e possuir tudo,
eis o que nos une para a eternidade.
Para além dos complexos freudianos,
fora das restrições genéticas,
debaixo de qualquer suspeita
arrumada à pressa nos livros de cabeceira.
Quando me perguntam por nós
não hesito em fundamentar a minha resposta
invocando as musas gregas e os seus curadores,
dando exemplos pertinentes
como este:
ibamus obscuri sola sub nocte.
As milhares de mónadas da minha história psíquica
giram ciclicamente em torno da sua franja,
passam horas
contemplando a sua saia solar
no ondear ligeiro das searas.
Quando não há searas,
ligo a ventoinha e a saia flutua na mesma.
Haverá certamente uma altura em que
os anais do google irão disponibilizar on-line
os ficheiros secretos do nosso destino.
Alguém contará, então,
com a voz distorcida pela censura,
que me abandonava vezes sem conta
com o exagero das hipérboles,
que voltava depois
com o remorso tácito dos pontos suspensivos,
até quando?
que noite após noite me abastecia de requintados
pesadelos, flores de plástico e pastilhas Trident,
até que um dia,
pegou no tempo que nos restava juntos
e foi dar um passeio à parte mais negra da floresta.
878
Golgona Anghel
O seu andar às voltas
O seu andar às voltas,
hesitante como qualquer principiante,
o epicentro das suas mentiras,
o campo magnético do seu prazer,
o pólo norte do seu sexo,
essa sua melancolia de magnólia
gravada no horizonte de tantas Hiroshimas
seriam um desastre em Mishima.
Mas esse dente à morcego
a provar a couraça da minha paciência, essa
mania de acordarmos todos os dias,
de não termos nada e possuir tudo,
eis o que nos une para a eternidade.
Para além dos complexos freudianos,
fora das restrições genéticas,
debaixo de qualquer suspeita
arrumada à pressa nos livros de cabeceira.
Quando me perguntam por nós
não hesito em fundamentar a minha resposta
invocando as musas gregas e os seus curadores,
dando exemplos pertinentes
como este:
ibamus obscuri sola sub nocte.
As milhares de mónadas da minha história psíquica
giram ciclicamente em torno da sua franja,
passam horas
contemplando a sua saia solar
no ondear ligeiro das searas.
Quando não há searas,
ligo a ventoinha e a saia flutua na mesma.
Haverá certamente uma altura em que
os anais do google irão disponibilizar on-line
os ficheiros secretos do nosso destino.
Alguém contará, então,
com a voz distorcida pela censura,
que me abandonava vezes sem conta
com o exagero das hipérboles,
que voltava depois
com o remorso tácito dos pontos suspensivos,
até quando?
que noite após noite me abastecia de requintados
pesadelos, flores de plástico e pastilhas Trident,
até que um dia,
pegou no tempo que nos restava juntos
e foi dar um passeio à parte mais negra da floresta.
hesitante como qualquer principiante,
o epicentro das suas mentiras,
o campo magnético do seu prazer,
o pólo norte do seu sexo,
essa sua melancolia de magnólia
gravada no horizonte de tantas Hiroshimas
seriam um desastre em Mishima.
Mas esse dente à morcego
a provar a couraça da minha paciência, essa
mania de acordarmos todos os dias,
de não termos nada e possuir tudo,
eis o que nos une para a eternidade.
Para além dos complexos freudianos,
fora das restrições genéticas,
debaixo de qualquer suspeita
arrumada à pressa nos livros de cabeceira.
Quando me perguntam por nós
não hesito em fundamentar a minha resposta
invocando as musas gregas e os seus curadores,
dando exemplos pertinentes
como este:
ibamus obscuri sola sub nocte.
As milhares de mónadas da minha história psíquica
giram ciclicamente em torno da sua franja,
passam horas
contemplando a sua saia solar
no ondear ligeiro das searas.
Quando não há searas,
ligo a ventoinha e a saia flutua na mesma.
Haverá certamente uma altura em que
os anais do google irão disponibilizar on-line
os ficheiros secretos do nosso destino.
Alguém contará, então,
com a voz distorcida pela censura,
que me abandonava vezes sem conta
com o exagero das hipérboles,
que voltava depois
com o remorso tácito dos pontos suspensivos,
até quando?
que noite após noite me abastecia de requintados
pesadelos, flores de plástico e pastilhas Trident,
até que um dia,
pegou no tempo que nos restava juntos
e foi dar um passeio à parte mais negra da floresta.
878
Golgona Anghel
Quando a paixão recuperar a vista
Quando a paixão recuperar a vista
o antigo caminho dos lobos,
a coruja e os seus monólogos,
partículas de sal,
ínfimos movimentos de sombras,
afastarão para sempre os nossos corpos.
Com ou sem licença para fazer obras,
o horizonte montará o seu palco de fim de contas.
Esta comédia de vésperas
que o cansaço tem mal encenado.
A vida será uma soma de mensagens erradas e
de músicas que não conseguimos ouvir até ao fim.
Lembrar-me-ás uma loja de souvenirs
com barcos engarrafados e colares de conchas.
Berloques e berlindes, lápis do México 86, porta-chaves da expo 98.
Enfim, demasiada poeira para tão curto caminho.
Entretanto, está sol e, olha,
parece que as cegonhas adiaram o voo para o sul.
Um pouco como eu, esquecem de ir embora.
As coisas solidificam para não mudarem de lugar.
o antigo caminho dos lobos,
a coruja e os seus monólogos,
partículas de sal,
ínfimos movimentos de sombras,
afastarão para sempre os nossos corpos.
Com ou sem licença para fazer obras,
o horizonte montará o seu palco de fim de contas.
Esta comédia de vésperas
que o cansaço tem mal encenado.
A vida será uma soma de mensagens erradas e
de músicas que não conseguimos ouvir até ao fim.
Lembrar-me-ás uma loja de souvenirs
com barcos engarrafados e colares de conchas.
Berloques e berlindes, lápis do México 86, porta-chaves da expo 98.
Enfim, demasiada poeira para tão curto caminho.
Entretanto, está sol e, olha,
parece que as cegonhas adiaram o voo para o sul.
Um pouco como eu, esquecem de ir embora.
As coisas solidificam para não mudarem de lugar.
970
Golgona Anghel
Quando a paixão recuperar a vista
Quando a paixão recuperar a vista
o antigo caminho dos lobos,
a coruja e os seus monólogos,
partículas de sal,
ínfimos movimentos de sombras,
afastarão para sempre os nossos corpos.
Com ou sem licença para fazer obras,
o horizonte montará o seu palco de fim de contas.
Esta comédia de vésperas
que o cansaço tem mal encenado.
A vida será uma soma de mensagens erradas e
de músicas que não conseguimos ouvir até ao fim.
Lembrar-me-ás uma loja de souvenirs
com barcos engarrafados e colares de conchas.
Berloques e berlindes, lápis do México 86, porta-chaves da expo 98.
Enfim, demasiada poeira para tão curto caminho.
Entretanto, está sol e, olha,
parece que as cegonhas adiaram o voo para o sul.
Um pouco como eu, esquecem de ir embora.
As coisas solidificam para não mudarem de lugar.
o antigo caminho dos lobos,
a coruja e os seus monólogos,
partículas de sal,
ínfimos movimentos de sombras,
afastarão para sempre os nossos corpos.
Com ou sem licença para fazer obras,
o horizonte montará o seu palco de fim de contas.
Esta comédia de vésperas
que o cansaço tem mal encenado.
A vida será uma soma de mensagens erradas e
de músicas que não conseguimos ouvir até ao fim.
Lembrar-me-ás uma loja de souvenirs
com barcos engarrafados e colares de conchas.
Berloques e berlindes, lápis do México 86, porta-chaves da expo 98.
Enfim, demasiada poeira para tão curto caminho.
Entretanto, está sol e, olha,
parece que as cegonhas adiaram o voo para o sul.
Um pouco como eu, esquecem de ir embora.
As coisas solidificam para não mudarem de lugar.
970
Golgona Anghel
O desenho era tão simples
O desenho era tão simples
que ninguém se deu ao trabalho de ler as instruções até ao fim.
Bastava seguir a intuição.
Abrir o bico e agarrar o primeiro anzol
que a necessidade atirava no escuro.
Sigam as luzes, diziam lá em cima.
Mas, cá em baixo, a rede era tão larga
que os grandes peixes conseguiam passar.
Questão de olhómetro,
asseguravam os mais experientes.
Seria então preciso
baixar o tom,
esperar deitado para poupar nas calorias,
abreviar os gestos,
desligar os motores,
reduzir o desperdício,
concentrar a fé
num só lugar:
julgar que o fumo dos cigarros
acaba sempre por confundir-se com as nuvens.
que ninguém se deu ao trabalho de ler as instruções até ao fim.
Bastava seguir a intuição.
Abrir o bico e agarrar o primeiro anzol
que a necessidade atirava no escuro.
Sigam as luzes, diziam lá em cima.
Mas, cá em baixo, a rede era tão larga
que os grandes peixes conseguiam passar.
Questão de olhómetro,
asseguravam os mais experientes.
Seria então preciso
baixar o tom,
esperar deitado para poupar nas calorias,
abreviar os gestos,
desligar os motores,
reduzir o desperdício,
concentrar a fé
num só lugar:
julgar que o fumo dos cigarros
acaba sempre por confundir-se com as nuvens.
858
Golgona Anghel
O desenho era tão simples
O desenho era tão simples
que ninguém se deu ao trabalho de ler as instruções até ao fim.
Bastava seguir a intuição.
Abrir o bico e agarrar o primeiro anzol
que a necessidade atirava no escuro.
Sigam as luzes, diziam lá em cima.
Mas, cá em baixo, a rede era tão larga
que os grandes peixes conseguiam passar.
Questão de olhómetro,
asseguravam os mais experientes.
Seria então preciso
baixar o tom,
esperar deitado para poupar nas calorias,
abreviar os gestos,
desligar os motores,
reduzir o desperdício,
concentrar a fé
num só lugar:
julgar que o fumo dos cigarros
acaba sempre por confundir-se com as nuvens.
que ninguém se deu ao trabalho de ler as instruções até ao fim.
Bastava seguir a intuição.
Abrir o bico e agarrar o primeiro anzol
que a necessidade atirava no escuro.
Sigam as luzes, diziam lá em cima.
Mas, cá em baixo, a rede era tão larga
que os grandes peixes conseguiam passar.
Questão de olhómetro,
asseguravam os mais experientes.
Seria então preciso
baixar o tom,
esperar deitado para poupar nas calorias,
abreviar os gestos,
desligar os motores,
reduzir o desperdício,
concentrar a fé
num só lugar:
julgar que o fumo dos cigarros
acaba sempre por confundir-se com as nuvens.
858
José Bento
2. OITAVA
Entre magra y gordinha é a figura
que deve ter a dama se é formosa;
e a meio entre a alvura e a negrura
é a cor de todas mais graciosa;
a meio entre a dureza e a brandura
é a carne de fêmea mais gostosa.
Enfim, há-de ter em tudo o meio,
pois o melhor de tudo é o do meio.
que deve ter a dama se é formosa;
e a meio entre a alvura e a negrura
é a cor de todas mais graciosa;
a meio entre a dureza e a brandura
é a carne de fêmea mais gostosa.
Enfim, há-de ter em tudo o meio,
pois o melhor de tudo é o do meio.
1 131
Golgona Anghel
Os pássaros estão a cair como pedras do céu
Os pássaros estão a cair como pedras do céu
Sobra um pintassilgo na nossa cozinha
a abanar a sua gaiola com as asas.
Mas o protagonista tranquiliza-o
com um dardo.
Vou apenas na página cinquenta do livro
e já matei toda a gente.
Avanço na leitura como
um carniceiro desliza na carne,
afastando os corpos com a ponta metálica
das botas, apoiando a minha bengala
em umbigos e bocas abertas.
Com é possível,
viver normalmente, sentir-me bem até
e, no entanto, usar uma faca em vez e caneta,
pensar em ti,
imaginar-te por dentro,
provar-te com o dedo,
como se prova uma melancia no supermercado?
Tenho medo de tornar-me um maníaco.
Perder a cabeça. Entrar em ti
um dia e sair do outro lado
com o teu coração espetado na ponta
de uma varinha mágica.
Tenho vergonha de...
Regresso a pé, apanho chuva,
desprezo putas, cumprimento desconhecidos.
Regresso encolhido de frio,
com a cara suja, os pés molhados.
Dás-me uma sopa quente
e adormeço na cadeira da cozinha
encostado na porta do forno
enquanto me passas a ferro a camisa
para o dia seguinte.
Sobra um pintassilgo na nossa cozinha
a abanar a sua gaiola com as asas.
Mas o protagonista tranquiliza-o
com um dardo.
Vou apenas na página cinquenta do livro
e já matei toda a gente.
Avanço na leitura como
um carniceiro desliza na carne,
afastando os corpos com a ponta metálica
das botas, apoiando a minha bengala
em umbigos e bocas abertas.
Com é possível,
viver normalmente, sentir-me bem até
e, no entanto, usar uma faca em vez e caneta,
pensar em ti,
imaginar-te por dentro,
provar-te com o dedo,
como se prova uma melancia no supermercado?
Tenho medo de tornar-me um maníaco.
Perder a cabeça. Entrar em ti
um dia e sair do outro lado
com o teu coração espetado na ponta
de uma varinha mágica.
Tenho vergonha de...
Regresso a pé, apanho chuva,
desprezo putas, cumprimento desconhecidos.
Regresso encolhido de frio,
com a cara suja, os pés molhados.
Dás-me uma sopa quente
e adormeço na cadeira da cozinha
encostado na porta do forno
enquanto me passas a ferro a camisa
para o dia seguinte.
1 083
Golgona Anghel
Sacrifiquei sem nenhum remorso
Sacrifiquei sem nenhum remorso
os talheres de prata, o açúcar e os licores franceses.
Contudo, não precisei de empurrar nenhuma velha
para avançar na fila.
Quando apanhei o caminho certo,
a sorte abriu, sem hesitar, as pernas.
A partir daí foi fácil:
hoje, um ovo, amanhã, uma vaca.
Tudo isso, no pantanal do Oeste,
bem longe das grandes metrópoles
e do brilho das montras,
mas onde aprendi a cultivar a leveza
e a ouvir o canto do galo
que, por estes lados da madrugada,
tanto serve de despertador
como para a canja.
os talheres de prata, o açúcar e os licores franceses.
Contudo, não precisei de empurrar nenhuma velha
para avançar na fila.
Quando apanhei o caminho certo,
a sorte abriu, sem hesitar, as pernas.
A partir daí foi fácil:
hoje, um ovo, amanhã, uma vaca.
Tudo isso, no pantanal do Oeste,
bem longe das grandes metrópoles
e do brilho das montras,
mas onde aprendi a cultivar a leveza
e a ouvir o canto do galo
que, por estes lados da madrugada,
tanto serve de despertador
como para a canja.
837
José Bento
Primeiro é abraçá-la
Primeiro é abraçá-la e apalpá-la,
e num instante com beijos entretê-la.
Primeiro é provocá-la e encendê-la.
depois lutar com ela e derrubá-la.
Primeiro é insistir e arregaçá-la,
as pernas pondo entre as pernas dela.
Primeiro é acabar isto com ela,
depois vem o deleite de gozá-la.
Não fazer, como soem os casados,
mais que chegar e achá-la preparada:
de tão doce, dá fome verdadeira.
Hão-de ser os deleites desejados;
se não, não dão prazer nem valem nada,
pois não há quem o barato comprar queira.
e num instante com beijos entretê-la.
Primeiro é provocá-la e encendê-la.
depois lutar com ela e derrubá-la.
Primeiro é insistir e arregaçá-la,
as pernas pondo entre as pernas dela.
Primeiro é acabar isto com ela,
depois vem o deleite de gozá-la.
Não fazer, como soem os casados,
mais que chegar e achá-la preparada:
de tão doce, dá fome verdadeira.
Hão-de ser os deleites desejados;
se não, não dão prazer nem valem nada,
pois não há quem o barato comprar queira.
1 186
José Bento
8
Vento as saias ergueu da minha vida:
a sapatilha vi, muito encarnada,
e a calcinha estreita e esticada,
com a formosa liga bem cingida.
Meus olhos foram logo de corrida
pra ver a coisa enfim que mais agrada;
porém, pela camisa delicada
foi-lhes a doce vista proibida.
Ó camisa cruel e rigorosa!
Por que razão ver não me deixaste
o que não te importava eu visse e tenta?
Mas julgo deve ser tão bela coisa
que por ela até te enamoraste,
e por isso a escondes por ciumenta?
a sapatilha vi, muito encarnada,
e a calcinha estreita e esticada,
com a formosa liga bem cingida.
Meus olhos foram logo de corrida
pra ver a coisa enfim que mais agrada;
porém, pela camisa delicada
foi-lhes a doce vista proibida.
Ó camisa cruel e rigorosa!
Por que razão ver não me deixaste
o que não te importava eu visse e tenta?
Mas julgo deve ser tão bela coisa
que por ela até te enamoraste,
e por isso a escondes por ciumenta?
1 078
Golgona Anghel
Vim porque me pagavam
Vim porque me pagavam,
e eu queria comprar o futuro a prestações.
Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras
de lata.
A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quantos mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.
Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.
Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.
Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória.
e eu queria comprar o futuro a prestações.
Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras
de lata.
A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quantos mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.
Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.
Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.
Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória.
1 133
José Bento
12
Esse chegar de repente e abraça-la,
esse pôr-se a lutar ele com ela,
esse cruzar suas pernas com as dela,
aquele poder mais ele e derrubá-la;
aquele vir abaixo, e ele sobre ela,
e ela cobrir-se e ele destapá-la,
esse pegar na lança e espetá-la,
e esse teimar dela até metê-la;
esse jogo de lombos e cadeiras,
e as palavras tão meigas e amorosas
que um ao outro murmuram, apressado;
esse voltar e andar de mil maneiras,
e fazer neste transe outras mil coisas
nas legítimas perdem os casados.
esse pôr-se a lutar ele com ela,
esse cruzar suas pernas com as dela,
aquele poder mais ele e derrubá-la;
aquele vir abaixo, e ele sobre ela,
e ela cobrir-se e ele destapá-la,
esse pegar na lança e espetá-la,
e esse teimar dela até metê-la;
esse jogo de lombos e cadeiras,
e as palavras tão meigas e amorosas
que um ao outro murmuram, apressado;
esse voltar e andar de mil maneiras,
e fazer neste transe outras mil coisas
nas legítimas perdem os casados.
1 149
Golgona Anghel
Antigamente os bisontes eram gente
Antigamente os bisontes eram gente
e namoravam as raparigas
mais bonitas da aldeia.
Os judeus tinham cauda e
os homens menstruavam duas vezes por mês.
Ninguém se queixava de nada.
Tudo tinha o seu lugar.
Líamos Tolstoi num Skoda,
Hölderlin num Trabant descapotável,
Joyce num Aston Martin,
Camões num UMM.
As grandes emoções
vinham de palavras longas:
australopitecos, jerusalamaleques,
extremaunçãoparaumapernadepau, etc.
Isto explica tanta coisa,
mas não vem nos livros de história.
A história faz apenas ecoar o passado.
Como um búzio.
O passado é o lugar onde os nossos ex
se juntam aos mamutes, à Céline Dion
e ao Windows XP.
e namoravam as raparigas
mais bonitas da aldeia.
Os judeus tinham cauda e
os homens menstruavam duas vezes por mês.
Ninguém se queixava de nada.
Tudo tinha o seu lugar.
Líamos Tolstoi num Skoda,
Hölderlin num Trabant descapotável,
Joyce num Aston Martin,
Camões num UMM.
As grandes emoções
vinham de palavras longas:
australopitecos, jerusalamaleques,
extremaunçãoparaumapernadepau, etc.
Isto explica tanta coisa,
mas não vem nos livros de história.
A história faz apenas ecoar o passado.
Como um búzio.
O passado é o lugar onde os nossos ex
se juntam aos mamutes, à Céline Dion
e ao Windows XP.
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Golgona Anghel
Antigamente os bisontes eram gente
Antigamente os bisontes eram gente
e namoravam as raparigas
mais bonitas da aldeia.
Os judeus tinham cauda e
os homens menstruavam duas vezes por mês.
Ninguém se queixava de nada.
Tudo tinha o seu lugar.
Líamos Tolstoi num Skoda,
Hölderlin num Trabant descapotável,
Joyce num Aston Martin,
Camões num UMM.
As grandes emoções
vinham de palavras longas:
australopitecos, jerusalamaleques,
extremaunçãoparaumapernadepau, etc.
Isto explica tanta coisa,
mas não vem nos livros de história.
A história faz apenas ecoar o passado.
Como um búzio.
O passado é o lugar onde os nossos ex
se juntam aos mamutes, à Céline Dion
e ao Windows XP.
e namoravam as raparigas
mais bonitas da aldeia.
Os judeus tinham cauda e
os homens menstruavam duas vezes por mês.
Ninguém se queixava de nada.
Tudo tinha o seu lugar.
Líamos Tolstoi num Skoda,
Hölderlin num Trabant descapotável,
Joyce num Aston Martin,
Camões num UMM.
As grandes emoções
vinham de palavras longas:
australopitecos, jerusalamaleques,
extremaunçãoparaumapernadepau, etc.
Isto explica tanta coisa,
mas não vem nos livros de história.
A história faz apenas ecoar o passado.
Como um búzio.
O passado é o lugar onde os nossos ex
se juntam aos mamutes, à Céline Dion
e ao Windows XP.
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Golgona Anghel
Vivemos submersos num plasma nutritivo
Vivemos submersos num plasma nutritivo
que nos garante um crescimento rápido e de excepção
com talentos singulares,
e sonhos que não precisam de ser actualizados -
basta apenas afinar a sua desordem estética.
Temos aceso a uma vida desprovida de acasos,
onde colónias de bactérias sangram invejosas,
esmagadas a milhas pela radiação do nosso olhar.
Dotados de um sistema automático
de identificação e resolução de erros,
dirigimos à distância um código sentimental simplificado.
Acumulamos dados, analisamos sinais.
Não conseguimos conceber um desastre maior
que a falta de bateria no comando.
que nos garante um crescimento rápido e de excepção
com talentos singulares,
e sonhos que não precisam de ser actualizados -
basta apenas afinar a sua desordem estética.
Temos aceso a uma vida desprovida de acasos,
onde colónias de bactérias sangram invejosas,
esmagadas a milhas pela radiação do nosso olhar.
Dotados de um sistema automático
de identificação e resolução de erros,
dirigimos à distância um código sentimental simplificado.
Acumulamos dados, analisamos sinais.
Não conseguimos conceber um desastre maior
que a falta de bateria no comando.
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Golgona Anghel
Floribunda, minha querida
Floribunda, minha querida, vim desligar-te das máquinas.
Tens aqui duas bolachas e um sumo para o caminho.
Não havia de pêra como tu querias,
se bem que lá em cima (ou em baixo, conforme)
pouco importa.
Ouvi dizer que sobre a alma tens um calhau e
sobre o calhau um balde de tinta
que te pinta de pobre e te julga inútil.
Sempre foste um mau negócio.
Permaneces igual.
Estragaste o autoclismo cá do sítio
como estragavas os meus dias de folga.
Mas nada te toca.
Moldas em vão estas cruzes de espera.
Na apatia dos crepúsculos,
o Inverno inventa a tua última palavra.
Escuta.
É por ti que os grilos cantam
e a noite se prepara para regressar
no interior das gavetas.
Tens aqui duas bolachas e um sumo para o caminho.
Não havia de pêra como tu querias,
se bem que lá em cima (ou em baixo, conforme)
pouco importa.
Ouvi dizer que sobre a alma tens um calhau e
sobre o calhau um balde de tinta
que te pinta de pobre e te julga inútil.
Sempre foste um mau negócio.
Permaneces igual.
Estragaste o autoclismo cá do sítio
como estragavas os meus dias de folga.
Mas nada te toca.
Moldas em vão estas cruzes de espera.
Na apatia dos crepúsculos,
o Inverno inventa a tua última palavra.
Escuta.
É por ti que os grilos cantam
e a noite se prepara para regressar
no interior das gavetas.
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Golgona Anghel
Somos daqueles que limpam os ouvidos
Somos daqueles que limpam os ouvidos
com a chave do Mercedes
e fazem estalar os dedos,
às escuras, nas salas de cinema;
filhos das vindimas e da apanha da azeitona,
homens, quando a noite usa decote.
Somos, hoje, a melhor geração
de cansados profissionais, os mais vendidos autores do acaso.
Treinamos predadores de moscas,
limpamos passados, fígados gordos, rins cheios de diamantes.
Temos as mãos trémulas, é certo,
mas arrumamos,
seguros,
o dominó, no pátio do Alzheimer,
pois é a nós que procura a seta.
De maneira que não adianta muito termos pressa:
um dia, alguém chamará por nós
e nos marcará no peito
o número da sorte
com o ferro quente
com que se conta,
na Primavera,
o gado.
com a chave do Mercedes
e fazem estalar os dedos,
às escuras, nas salas de cinema;
filhos das vindimas e da apanha da azeitona,
homens, quando a noite usa decote.
Somos, hoje, a melhor geração
de cansados profissionais, os mais vendidos autores do acaso.
Treinamos predadores de moscas,
limpamos passados, fígados gordos, rins cheios de diamantes.
Temos as mãos trémulas, é certo,
mas arrumamos,
seguros,
o dominó, no pátio do Alzheimer,
pois é a nós que procura a seta.
De maneira que não adianta muito termos pressa:
um dia, alguém chamará por nós
e nos marcará no peito
o número da sorte
com o ferro quente
com que se conta,
na Primavera,
o gado.
903
Golgona Anghel
Somos daqueles que limpam os ouvidos
Somos daqueles que limpam os ouvidos
com a chave do Mercedes
e fazem estalar os dedos,
às escuras, nas salas de cinema;
filhos das vindimas e da apanha da azeitona,
homens, quando a noite usa decote.
Somos, hoje, a melhor geração
de cansados profissionais, os mais vendidos autores do acaso.
Treinamos predadores de moscas,
limpamos passados, fígados gordos, rins cheios de diamantes.
Temos as mãos trémulas, é certo,
mas arrumamos,
seguros,
o dominó, no pátio do Alzheimer,
pois é a nós que procura a seta.
De maneira que não adianta muito termos pressa:
um dia, alguém chamará por nós
e nos marcará no peito
o número da sorte
com o ferro quente
com que se conta,
na Primavera,
o gado.
com a chave do Mercedes
e fazem estalar os dedos,
às escuras, nas salas de cinema;
filhos das vindimas e da apanha da azeitona,
homens, quando a noite usa decote.
Somos, hoje, a melhor geração
de cansados profissionais, os mais vendidos autores do acaso.
Treinamos predadores de moscas,
limpamos passados, fígados gordos, rins cheios de diamantes.
Temos as mãos trémulas, é certo,
mas arrumamos,
seguros,
o dominó, no pátio do Alzheimer,
pois é a nós que procura a seta.
De maneira que não adianta muito termos pressa:
um dia, alguém chamará por nós
e nos marcará no peito
o número da sorte
com o ferro quente
com que se conta,
na Primavera,
o gado.
903
Golgona Anghel
Somos daqueles que limpam os ouvidos
Somos daqueles que limpam os ouvidos
com a chave do Mercedes
e fazem estalar os dedos,
às escuras, nas salas de cinema;
filhos das vindimas e da apanha da azeitona,
homens, quando a noite usa decote.
Somos, hoje, a melhor geração
de cansados profissionais, os mais vendidos autores do acaso.
Treinamos predadores de moscas,
limpamos passados, fígados gordos, rins cheios de diamantes.
Temos as mãos trémulas, é certo,
mas arrumamos,
seguros,
o dominó, no pátio do Alzheimer,
pois é a nós que procura a seta.
De maneira que não adianta muito termos pressa:
um dia, alguém chamará por nós
e nos marcará no peito
o número da sorte
com o ferro quente
com que se conta,
na Primavera,
o gado.
com a chave do Mercedes
e fazem estalar os dedos,
às escuras, nas salas de cinema;
filhos das vindimas e da apanha da azeitona,
homens, quando a noite usa decote.
Somos, hoje, a melhor geração
de cansados profissionais, os mais vendidos autores do acaso.
Treinamos predadores de moscas,
limpamos passados, fígados gordos, rins cheios de diamantes.
Temos as mãos trémulas, é certo,
mas arrumamos,
seguros,
o dominó, no pátio do Alzheimer,
pois é a nós que procura a seta.
De maneira que não adianta muito termos pressa:
um dia, alguém chamará por nós
e nos marcará no peito
o número da sorte
com o ferro quente
com que se conta,
na Primavera,
o gado.
903
Golgona Anghel
Estou estendido no meu leito de morte
Estou estendido no meu leito de morte,
rodeado de chás da Malásia e ovas de esturjão.
Tenho as mãos fracas.
Mal consigo fazer abanar os cubos de gelo no copo.
Queria, talvez, mais carne, mais sol e mais sabor.
Respiro por enquanto por um tubo.
Transpiro Bushmills.
Chamo-te de tempo a tempos
e a minha voz faz eco.
Tens uma televisão só para ti,
mas não ouves bem, nem usas aparelho.
Com as ancas grossas de beduína,
saltas de uma crónica da expansão ultramarina,
para me limpares o pó dos cornos e trocares os lençóis azedos.
O teu ofício é seres parda, solta na fala,
simplória nos gestos.
Não lavras nem crias.
Os vidros tremem quando falas.
Os gatos fogem quando chegas.
Queres-me morto.
Só não és perigosa
porque és uma preguiçosa de merda
e te faltam a auto-disciplina,
frieza e distanciamento necessários.
Queres mais é umas férias na Disneylândia.
Queres de mim tudo menos a cadela e a porra desta vida.
Queres de mim um colar de margaridas,
uma nuvem
e um par de sapatos puma.
rodeado de chás da Malásia e ovas de esturjão.
Tenho as mãos fracas.
Mal consigo fazer abanar os cubos de gelo no copo.
Queria, talvez, mais carne, mais sol e mais sabor.
Respiro por enquanto por um tubo.
Transpiro Bushmills.
Chamo-te de tempo a tempos
e a minha voz faz eco.
Tens uma televisão só para ti,
mas não ouves bem, nem usas aparelho.
Com as ancas grossas de beduína,
saltas de uma crónica da expansão ultramarina,
para me limpares o pó dos cornos e trocares os lençóis azedos.
O teu ofício é seres parda, solta na fala,
simplória nos gestos.
Não lavras nem crias.
Os vidros tremem quando falas.
Os gatos fogem quando chegas.
Queres-me morto.
Só não és perigosa
porque és uma preguiçosa de merda
e te faltam a auto-disciplina,
frieza e distanciamento necessários.
Queres mais é umas férias na Disneylândia.
Queres de mim tudo menos a cadela e a porra desta vida.
Queres de mim um colar de margaridas,
uma nuvem
e um par de sapatos puma.
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