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Poemas neste tema

Vida e Existência

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Uma Situação Insustentável

Tanto se falou dos defuntos
na família de Ostrogodo
que ocorreu uma coisa curiosa,
digna de ser estabelecida.

Falavam tanto dos mortos
perto do fogo todo dia,
do primo Carlos, de Felipe,
de Carlota, monja defunta,
de Candelario sepultado,
enfim, não terminavam nunca
de recordar o que não vivia.

Foi então que naquela casa
de escuros pátios e laranjeiras,
no salão de piano negro,
nos corredores sepulcrais,
se instalaram muitos defuntos
que se sentiram em sua casa.

Lentamente, como afogados
naqueles jardins cinzentos
pululavam como morcegos,
dobravam-se como guarda-chuvas
para dormir ou meditar
e deixavam nos sofás
um cheiro acre de tumba,
uma aura que invadiu a casa,
um abano insuportável
de seda cor de naufrágio.

A família Ostrogodo apenas
sim se atrevia a respirar:
era tão puro seu respeito
aos aspectos da morte.

E se aminorados sofriam
ninguém lhes escutou um sussurro.

(Porque falando de economia
aquela invasão silenciosa
não lhes gastava os bolsos:
os mortos não comem nem fumam,
sem dúvida isto é satisfatório,
mas na verdade ocupavam
mais e mais lugares na casa.)

Pendiam dos cortinados,
sentavam-se nas floreiras,
disputavam a poltrona
de Dom Filiberto Ostrogodo,
e ocupavam por longo tempo
o banheiro, talvez polindo
os dentes de suas caveiras:
o certo é que aquela família
se foi retirando do fogo,
da sala de jantar, do dormitório.
E conservando seu decoro
foram-se todos ao jardim
sem protestar dos defuntos,
mostrando uma triste alegria.

À sombra de uma laranjeira
comiam como refugiados
da fronteira perigosa
de uma batalha perdida.
Mas até ali chegaram eles
a pendurar-se das ramagens,
sérios defuntos circunspectos
que se achavam superiores
e não se dignavam a falar
com os benignos Ostrogodos.

Até que de tanto morrer
eles se uniram aos outros
emudecendo e falecendo
naquela casa mortal
que ficou sem ninguém um dia,
sem portas, sem casa, sem luz,
sem laranjeiras e defuntos.

724
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Uma Situação Insustentável

Tanto se falou dos defuntos
na família de Ostrogodo
que ocorreu uma coisa curiosa,
digna de ser estabelecida.

Falavam tanto dos mortos
perto do fogo todo dia,
do primo Carlos, de Felipe,
de Carlota, monja defunta,
de Candelario sepultado,
enfim, não terminavam nunca
de recordar o que não vivia.

Foi então que naquela casa
de escuros pátios e laranjeiras,
no salão de piano negro,
nos corredores sepulcrais,
se instalaram muitos defuntos
que se sentiram em sua casa.

Lentamente, como afogados
naqueles jardins cinzentos
pululavam como morcegos,
dobravam-se como guarda-chuvas
para dormir ou meditar
e deixavam nos sofás
um cheiro acre de tumba,
uma aura que invadiu a casa,
um abano insuportável
de seda cor de naufrágio.

A família Ostrogodo apenas
sim se atrevia a respirar:
era tão puro seu respeito
aos aspectos da morte.

E se aminorados sofriam
ninguém lhes escutou um sussurro.

(Porque falando de economia
aquela invasão silenciosa
não lhes gastava os bolsos:
os mortos não comem nem fumam,
sem dúvida isto é satisfatório,
mas na verdade ocupavam
mais e mais lugares na casa.)

Pendiam dos cortinados,
sentavam-se nas floreiras,
disputavam a poltrona
de Dom Filiberto Ostrogodo,
e ocupavam por longo tempo
o banheiro, talvez polindo
os dentes de suas caveiras:
o certo é que aquela família
se foi retirando do fogo,
da sala de jantar, do dormitório.
E conservando seu decoro
foram-se todos ao jardim
sem protestar dos defuntos,
mostrando uma triste alegria.

À sombra de uma laranjeira
comiam como refugiados
da fronteira perigosa
de uma batalha perdida.
Mas até ali chegaram eles
a pendurar-se das ramagens,
sérios defuntos circunspectos
que se achavam superiores
e não se dignavam a falar
com os benignos Ostrogodos.

Até que de tanto morrer
eles se uniram aos outros
emudecendo e falecendo
naquela casa mortal
que ficou sem ninguém um dia,
sem portas, sem casa, sem luz,
sem laranjeiras e defuntos.

724
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Juntos Nós

Como és pura ao sol ou pela noite caída,
que triunfal desmedida a tua órbita de branco,
e o teu peito de pão, alto de clima,
a tua coroa de árvores negras, bem amada,
e o teu nariz de animal solitário, de ovelha selvagem
que cheira a sombra e a precipitada fuga tirânica.

Agora, que armas esplêndidas são minhas mãos,
digna a sua pá de osso e o seu lírio de unhas,
e o lugar do meu rosto, e a renda da minha alma
situam-se no alicerce da força terrestre.
Que puro o meu olhar de nocturna influência,
caído de olhos obscuros e de feroz acicate,
a minha simétrica estátua de pernas gémeas
sobe até estrelas húmidas todas as manhãs,
e a minha boca de exílio morde a carne e a uva,
os meus braços de varão, o meu peito tatuado
em que penetra o cabelo como asa de estanho,
o meu rosto branco feito para a profundidade do sol,
o meu cabelo feito de ritos, de minerais negros,
a minha testa, penetrante como golpe ou caminho,
a minha pele de filho maduro, destinado ao arado,
os meus olhos de ávido, de casamento rápido,
a minha língua amiga branda do dique e do navio,
os meus dentes de horário branco, de equidade sistemática,
a pele que faz à minha frente um vazio de gelos
e nas minhas costas roda, e voa nas minhas pálpebras,
e reentra sobre o meu mais profundo estímulo,
e cresce até às rosas nos meus dedos,
no meu queixo de osso e nos meus pés de riqueza.

E tu como um mês de estrela, como um beijo fixo,
como estrutura de asa, ou começos de outono,
menina, minha defensora, minha amorosa,
a luz faz a sua cama sob as tuas grandes pálpebras,
douradas como bois, e a pomba redonda
muitas vezes faz os seus ninhos brancos em ti.

Feita de onda em lingotes e pinças brancas,
a tua saúde de maçã enfurecida estende-se sem limite,
o trémulo tonel em que o teu estômago ouve,
as tuas mãos filhas da farinha e do céu.
Como és parecida com o mais longo beijo,
o seu fixo abalo parece alimentar-te,
e o seu impulso de brasa, de bandeira esvoaçante,
vai latejando nos teus domínios e subindo num tremor,
e então a tua cabeça adelgaça-se em cabelos,
e a sua forma guerreira, o seu círculo seco,
desaba subitamente em fios lineares
como fios de espadas ou heranças do fumo.
1 299
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ode Com Um Lamento

Oh menina entre as rosas, oh pressão de pombas,
oh presídio de peixes e rosais,
a tua alma é uma garrafa cheia de sal sedento
e um sino cheio de uvas é a tua pele.

Por desgraça não tenho para te dar senão unhas
ou pestanas, ou pianos derretidos,
ou sonhos que me saem do coração aos borbotões,
sonhos poeirentos que correm como ginetes negros,
sonhos cheios de velocidade e desgraças.

Só te posso amar com beijos e papoilas,
com grinaldas molhadas de chuva,
olhando cavalos cinzentos e cães amarelos.
Só te posso amar com ondas atrás de mim,
entre vagos golpes de enxofre e águas ensimesmadas,
nadando contra os cemitérios que correm em certos rios
com pasto molhado crescendo sobre os tristes túmulos de gesso,
nadando através de corações submersos
e pálidos róis de crianças insepultas.

Há muita morte, muitos acontecimentos fúnebres
nas minhas desamparadas paixões e desolados beijos,
há a água que me cai na cabeça,
enquanto o cabelo me cresce,
uma água como o tempo, uma água negra imparável,
com uma voz nocturna, com um grito
de pássaros na chuva, com uma interminável
sombra de asa molhada que me protege os ossos:
enquanto me visto, enquanto
interminavelmente me olho nos espelhos e nos vidros,
ouço que alguém me segue e chama soluçante
com uma voz triste apodrecida pelo tempo.

Tu estás de pé sobre a terra, cheia
de dentes e relâmpagos.
Propagas os beijos e matas as formigas.
Choras de saúde, de cebola, de abelha,
de abecedário em fogo.
És como uma espada azul e verde
e ondulas ao tocar-te, como um rio.

Vem até à minha alma vestida de branco, com um ramo
de ensanguentadas rosas e taças de cinzas,
vem com uma maçã e um cavalo,
porque ali há uma sala obscura e um candelabro partido,
umas cadeiras retorcidas que esperam o inverno,
e uma pomba morta, com um número.
1 528
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ode Com Um Lamento

Oh menina entre as rosas, oh pressão de pombas,
oh presídio de peixes e rosais,
a tua alma é uma garrafa cheia de sal sedento
e um sino cheio de uvas é a tua pele.

Por desgraça não tenho para te dar senão unhas
ou pestanas, ou pianos derretidos,
ou sonhos que me saem do coração aos borbotões,
sonhos poeirentos que correm como ginetes negros,
sonhos cheios de velocidade e desgraças.

Só te posso amar com beijos e papoilas,
com grinaldas molhadas de chuva,
olhando cavalos cinzentos e cães amarelos.
Só te posso amar com ondas atrás de mim,
entre vagos golpes de enxofre e águas ensimesmadas,
nadando contra os cemitérios que correm em certos rios
com pasto molhado crescendo sobre os tristes túmulos de gesso,
nadando através de corações submersos
e pálidos róis de crianças insepultas.

Há muita morte, muitos acontecimentos fúnebres
nas minhas desamparadas paixões e desolados beijos,
há a água que me cai na cabeça,
enquanto o cabelo me cresce,
uma água como o tempo, uma água negra imparável,
com uma voz nocturna, com um grito
de pássaros na chuva, com uma interminável
sombra de asa molhada que me protege os ossos:
enquanto me visto, enquanto
interminavelmente me olho nos espelhos e nos vidros,
ouço que alguém me segue e chama soluçante
com uma voz triste apodrecida pelo tempo.

Tu estás de pé sobre a terra, cheia
de dentes e relâmpagos.
Propagas os beijos e matas as formigas.
Choras de saúde, de cebola, de abelha,
de abecedário em fogo.
És como uma espada azul e verde
e ondulas ao tocar-te, como um rio.

Vem até à minha alma vestida de branco, com um ramo
de ensanguentadas rosas e taças de cinzas,
vem com uma maçã e um cavalo,
porque ali há uma sala obscura e um candelabro partido,
umas cadeiras retorcidas que esperam o inverno,
e uma pomba morta, com um número.
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