Poemas neste tema
Vida e Existência
Affonso Romano de Sant'Anna
Viva Fera
Não me canso de estudar a morte.
Como é fértil e reverbera novos ângulos
conforme a hora em que a entrevejo
na minha trajetória.
Preencho-a de significados vários.
Ela cresce, me fascina, me enriquece,
me habita viva feito fera
que parece domesticada e, no entanto,
soberana
– mansamente me devora.
Como é fértil e reverbera novos ângulos
conforme a hora em que a entrevejo
na minha trajetória.
Preencho-a de significados vários.
Ela cresce, me fascina, me enriquece,
me habita viva feito fera
que parece domesticada e, no entanto,
soberana
– mansamente me devora.
1 083
Affonso Romano de Sant'Anna
Grécia, 1987
1
Fui visitar a Grécia
e ela não estava lá.
Estava nos livros
estava nos mitos
no British Museum,
Nova York, Washington
Louvre, São Petersburgo Berlim.
Fui visitar a Grécia
e tive que inventá-la em mim.
2
Centenas de adolescentes gregos
desembarcam junto ao canal de Corinto:
eram náiades de blue jeans.
Os jovens vinham de Esparta
mas não traziam discos e dardos
exercitavam os músculos modernos
carregando enormes rádios
tocando rock
como os negros de Nova York.
3
Em torno do templo de Apolo em Corinto
casas com antenas de tevê
tentam captar mensagens de outros deuses
de outro Olimpo.
4
Ali de cima contemplamos o vale
o Templo de Micenas a tumba fabulosa
de onde o explorador tirou
toneladas de ouro e glória.
Mais discreto o chofer do ônibus
colhe rúculas junto à estrada
para uma anti-histórica salada.
5
Delfos.
Só sobrou o que era sólido:
– a pedra
e a densa porosidade
dos mitos.
6
No teatro de Epidauros
se a pessoa se coloca
no círculo assinalado
e acende um fósforo
no topo da arquibancada
ouve-se o estalido da combustão
com certo assombro.
No centro destes textos
ponho o coração batendo aceso.
Há eco? Ouvidos?
Ou em torno de Epidauros
só há silêncio e escombro?
Fui visitar a Grécia
e ela não estava lá.
Estava nos livros
estava nos mitos
no British Museum,
Nova York, Washington
Louvre, São Petersburgo Berlim.
Fui visitar a Grécia
e tive que inventá-la em mim.
2
Centenas de adolescentes gregos
desembarcam junto ao canal de Corinto:
eram náiades de blue jeans.
Os jovens vinham de Esparta
mas não traziam discos e dardos
exercitavam os músculos modernos
carregando enormes rádios
tocando rock
como os negros de Nova York.
3
Em torno do templo de Apolo em Corinto
casas com antenas de tevê
tentam captar mensagens de outros deuses
de outro Olimpo.
4
Ali de cima contemplamos o vale
o Templo de Micenas a tumba fabulosa
de onde o explorador tirou
toneladas de ouro e glória.
Mais discreto o chofer do ônibus
colhe rúculas junto à estrada
para uma anti-histórica salada.
5
Delfos.
Só sobrou o que era sólido:
– a pedra
e a densa porosidade
dos mitos.
6
No teatro de Epidauros
se a pessoa se coloca
no círculo assinalado
e acende um fósforo
no topo da arquibancada
ouve-se o estalido da combustão
com certo assombro.
No centro destes textos
ponho o coração batendo aceso.
Há eco? Ouvidos?
Ou em torno de Epidauros
só há silêncio e escombro?
1 003
Affonso Romano de Sant'Anna
Grécia, 1987
1
Fui visitar a Grécia
e ela não estava lá.
Estava nos livros
estava nos mitos
no British Museum,
Nova York, Washington
Louvre, São Petersburgo Berlim.
Fui visitar a Grécia
e tive que inventá-la em mim.
2
Centenas de adolescentes gregos
desembarcam junto ao canal de Corinto:
eram náiades de blue jeans.
Os jovens vinham de Esparta
mas não traziam discos e dardos
exercitavam os músculos modernos
carregando enormes rádios
tocando rock
como os negros de Nova York.
3
Em torno do templo de Apolo em Corinto
casas com antenas de tevê
tentam captar mensagens de outros deuses
de outro Olimpo.
4
Ali de cima contemplamos o vale
o Templo de Micenas a tumba fabulosa
de onde o explorador tirou
toneladas de ouro e glória.
Mais discreto o chofer do ônibus
colhe rúculas junto à estrada
para uma anti-histórica salada.
5
Delfos.
Só sobrou o que era sólido:
– a pedra
e a densa porosidade
dos mitos.
6
No teatro de Epidauros
se a pessoa se coloca
no círculo assinalado
e acende um fósforo
no topo da arquibancada
ouve-se o estalido da combustão
com certo assombro.
No centro destes textos
ponho o coração batendo aceso.
Há eco? Ouvidos?
Ou em torno de Epidauros
só há silêncio e escombro?
Fui visitar a Grécia
e ela não estava lá.
Estava nos livros
estava nos mitos
no British Museum,
Nova York, Washington
Louvre, São Petersburgo Berlim.
Fui visitar a Grécia
e tive que inventá-la em mim.
2
Centenas de adolescentes gregos
desembarcam junto ao canal de Corinto:
eram náiades de blue jeans.
Os jovens vinham de Esparta
mas não traziam discos e dardos
exercitavam os músculos modernos
carregando enormes rádios
tocando rock
como os negros de Nova York.
3
Em torno do templo de Apolo em Corinto
casas com antenas de tevê
tentam captar mensagens de outros deuses
de outro Olimpo.
4
Ali de cima contemplamos o vale
o Templo de Micenas a tumba fabulosa
de onde o explorador tirou
toneladas de ouro e glória.
Mais discreto o chofer do ônibus
colhe rúculas junto à estrada
para uma anti-histórica salada.
5
Delfos.
Só sobrou o que era sólido:
– a pedra
e a densa porosidade
dos mitos.
6
No teatro de Epidauros
se a pessoa se coloca
no círculo assinalado
e acende um fósforo
no topo da arquibancada
ouve-se o estalido da combustão
com certo assombro.
No centro destes textos
ponho o coração batendo aceso.
Há eco? Ouvidos?
Ou em torno de Epidauros
só há silêncio e escombro?
1 003
Affonso Romano de Sant'Anna
Cena Na Lagoa
Movida por dez braços
– múltipla flecha –
uma canoa avança
no crepúsculo da lagoa.
Atletas conduzem
a centopeia aquática
com seus potentes músculos
fecundando o ocaso.
Anoitece.
Com duas mãos
(apenas)
também remo
(parado)
na escuridão.
– múltipla flecha –
uma canoa avança
no crepúsculo da lagoa.
Atletas conduzem
a centopeia aquática
com seus potentes músculos
fecundando o ocaso.
Anoitece.
Com duas mãos
(apenas)
também remo
(parado)
na escuridão.
1 036
Affonso Romano de Sant'Anna
Ristorante Etruria
Essa bela garçonete etrusca
com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.
com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.
1 205
Affonso Romano de Sant'Anna
Ristorante Etruria
Essa bela garçonete etrusca
com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.
com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.
1 205
Affonso Romano de Sant'Anna
Entendimento
Estou cada vez mais entendendo a eternidade
e o que chamam inveja humana.
Não sei aonde isto pode me levar.
Entender certas coisas é libertar-se
como quem, mudo, canta um hino.
Sou isto e não aquilo.
Contemplo meu instante no olho
e me ilumino.
e o que chamam inveja humana.
Não sei aonde isto pode me levar.
Entender certas coisas é libertar-se
como quem, mudo, canta um hino.
Sou isto e não aquilo.
Contemplo meu instante no olho
e me ilumino.
1 128
Affonso Romano de Sant'Anna
Mais Beleza, Senhor
Tio Lemos, humilde servo e pastor,
em sua vida tão despossuída
inda dizia: – Chega de bênção, Senhor!
Na Toscana, neste azul outonal
banqueteando com o corpo e o espírito
sorvendo a glória artística dos santos
quase chego a dizer: – Chega de bênção, Senhor!
Porém, minha alma insaciável
parece nunca se bastar, e implora:
– Mais beleza, mais beleza, Senhor!
E o Senhor impaciente, ordena:
– Entra nesta igreja de Orvieto
e ante os afrescos de Lucca Signorelli
ajoelha e chora.
em sua vida tão despossuída
inda dizia: – Chega de bênção, Senhor!
Na Toscana, neste azul outonal
banqueteando com o corpo e o espírito
sorvendo a glória artística dos santos
quase chego a dizer: – Chega de bênção, Senhor!
Porém, minha alma insaciável
parece nunca se bastar, e implora:
– Mais beleza, mais beleza, Senhor!
E o Senhor impaciente, ordena:
– Entra nesta igreja de Orvieto
e ante os afrescos de Lucca Signorelli
ajoelha e chora.
1 055
Affonso Romano de Sant'Anna
O Olho do Jaguar
No Castelo de Chavin, no Peru
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
1 015
Affonso Romano de Sant'Anna
O Olho do Jaguar
No Castelo de Chavin, no Peru
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
1 015
Affonso Romano de Sant'Anna
O Éden Possível
Do lado de fora da Mesquita de Oman, em Jerusalém,
muçulmanos com suas longas roupas
e sandálias de plástico
depois de passarem pelos guardas israelenses
e suas metralhadoras
repousam sob a árvore
se assentam com suas famílias domesticamente no chão
e comem e dormem.
Este sol oriental a tudo aplastra.
A garrafa de água mineral que uma mãe ergue
e dá aos filhos, tem no rótulo a palavra: “Éden”.
muçulmanos com suas longas roupas
e sandálias de plástico
depois de passarem pelos guardas israelenses
e suas metralhadoras
repousam sob a árvore
se assentam com suas famílias domesticamente no chão
e comem e dormem.
Este sol oriental a tudo aplastra.
A garrafa de água mineral que uma mãe ergue
e dá aos filhos, tem no rótulo a palavra: “Éden”.
1 044
Affonso Romano de Sant'Anna
Carta a Virgílio
Caro Virgílio:
atrasado 2066 anos
chego à sua Mântova
e hospedo-me no Hotel Dante.
Sou um pobre homem
do Caminho Novo das Gerais
sentado nesta praça medieval
em tempos a que chamam pós-modernos.
E imagino de que brincava você, menino,
nas ruas da outrora Mântova
naquela Roma Imperial.
Em minha cidade, além dos jogos secretos
com as ninfas-meninas
havia a amarelinha, o arco, o finco,
o mês de agosto com pandorgas
que os chineses no seu tempo já alçavam.
Olho o céu. Uma lua crescente
– a mesma que você via –
é a única ligação entre nós
além da poesia.
atrasado 2066 anos
chego à sua Mântova
e hospedo-me no Hotel Dante.
Sou um pobre homem
do Caminho Novo das Gerais
sentado nesta praça medieval
em tempos a que chamam pós-modernos.
E imagino de que brincava você, menino,
nas ruas da outrora Mântova
naquela Roma Imperial.
Em minha cidade, além dos jogos secretos
com as ninfas-meninas
havia a amarelinha, o arco, o finco,
o mês de agosto com pandorgas
que os chineses no seu tempo já alçavam.
Olho o céu. Uma lua crescente
– a mesma que você via –
é a única ligação entre nós
além da poesia.
530
Affonso Romano de Sant'Anna
Carta a Virgílio
Caro Virgílio:
atrasado 2066 anos
chego à sua Mântova
e hospedo-me no Hotel Dante.
Sou um pobre homem
do Caminho Novo das Gerais
sentado nesta praça medieval
em tempos a que chamam pós-modernos.
E imagino de que brincava você, menino,
nas ruas da outrora Mântova
naquela Roma Imperial.
Em minha cidade, além dos jogos secretos
com as ninfas-meninas
havia a amarelinha, o arco, o finco,
o mês de agosto com pandorgas
que os chineses no seu tempo já alçavam.
Olho o céu. Uma lua crescente
– a mesma que você via –
é a única ligação entre nós
além da poesia.
atrasado 2066 anos
chego à sua Mântova
e hospedo-me no Hotel Dante.
Sou um pobre homem
do Caminho Novo das Gerais
sentado nesta praça medieval
em tempos a que chamam pós-modernos.
E imagino de que brincava você, menino,
nas ruas da outrora Mântova
naquela Roma Imperial.
Em minha cidade, além dos jogos secretos
com as ninfas-meninas
havia a amarelinha, o arco, o finco,
o mês de agosto com pandorgas
que os chineses no seu tempo já alçavam.
Olho o céu. Uma lua crescente
– a mesma que você via –
é a única ligação entre nós
além da poesia.
530
Affonso Romano de Sant'Anna
Carta a Virgílio
Caro Virgílio:
atrasado 2066 anos
chego à sua Mântova
e hospedo-me no Hotel Dante.
Sou um pobre homem
do Caminho Novo das Gerais
sentado nesta praça medieval
em tempos a que chamam pós-modernos.
E imagino de que brincava você, menino,
nas ruas da outrora Mântova
naquela Roma Imperial.
Em minha cidade, além dos jogos secretos
com as ninfas-meninas
havia a amarelinha, o arco, o finco,
o mês de agosto com pandorgas
que os chineses no seu tempo já alçavam.
Olho o céu. Uma lua crescente
– a mesma que você via –
é a única ligação entre nós
além da poesia.
atrasado 2066 anos
chego à sua Mântova
e hospedo-me no Hotel Dante.
Sou um pobre homem
do Caminho Novo das Gerais
sentado nesta praça medieval
em tempos a que chamam pós-modernos.
E imagino de que brincava você, menino,
nas ruas da outrora Mântova
naquela Roma Imperial.
Em minha cidade, além dos jogos secretos
com as ninfas-meninas
havia a amarelinha, o arco, o finco,
o mês de agosto com pandorgas
que os chineses no seu tempo já alçavam.
Olho o céu. Uma lua crescente
– a mesma que você via –
é a única ligação entre nós
além da poesia.
530
Affonso Romano de Sant'Anna
Dilema
Sempre que volto de viagem
a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.
a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.
1 158
Affonso Romano de Sant'Anna
Repassando
Interessado no passado estou.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.
O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.
O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.
O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.
O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.
1 139
Affonso Romano de Sant'Anna
Repassando
Interessado no passado estou.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.
O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.
O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.
O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.
O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.
1 139
Affonso Romano de Sant'Anna
Repassando
Interessado no passado estou.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.
O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.
O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.
O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.
O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.
1 139
Affonso Romano de Sant'Anna
Conferindo o Tempo
Estamos, meu vizinho e eu,
envelhecendo
no espelho do elevador.
É uma operação diária e complicada.
Um no outro, conferimos nosso avanço
comentando a decrepitude dos mais velhos.
O elevador desce, e avançamos sorrindo
como se houvesse flores no abismo.
envelhecendo
no espelho do elevador.
É uma operação diária e complicada.
Um no outro, conferimos nosso avanço
comentando a decrepitude dos mais velhos.
O elevador desce, e avançamos sorrindo
como se houvesse flores no abismo.
1 015
Affonso Romano de Sant'Anna
Conferindo o Tempo
Estamos, meu vizinho e eu,
envelhecendo
no espelho do elevador.
É uma operação diária e complicada.
Um no outro, conferimos nosso avanço
comentando a decrepitude dos mais velhos.
O elevador desce, e avançamos sorrindo
como se houvesse flores no abismo.
envelhecendo
no espelho do elevador.
É uma operação diária e complicada.
Um no outro, conferimos nosso avanço
comentando a decrepitude dos mais velhos.
O elevador desce, e avançamos sorrindo
como se houvesse flores no abismo.
1 015
Affonso Romano de Sant'Anna
Morte do Vizinho
Meu vizinho acaba de se jogar do 15.º andar
e seu corpo caiu no playground
nesta ensolarada manhã de verão.
Estava com depressão, dizem.
Vi-o algumas vezes de bermuda no corredor.
Sei que escrevia sobre Freud.
Seu corpo ainda está lá em baixo.
Se eu tivesse ido à janela há pouco
o teria surpreendido em pleno voo
e lhe estendido a mão.
Estendo-lhe, tardio, o poema
que não interrompe a queda
mas é o gesto possível que antecede o baque.
e seu corpo caiu no playground
nesta ensolarada manhã de verão.
Estava com depressão, dizem.
Vi-o algumas vezes de bermuda no corredor.
Sei que escrevia sobre Freud.
Seu corpo ainda está lá em baixo.
Se eu tivesse ido à janela há pouco
o teria surpreendido em pleno voo
e lhe estendido a mão.
Estendo-lhe, tardio, o poema
que não interrompe a queda
mas é o gesto possível que antecede o baque.
1 160
Affonso Romano de Sant'Anna
Desenhos de Picasso
“Eu não procuro, eu acho” (Picasso)
O que mostram (escondem)
entre as pernas
as mulheres de Picasso?
Relaxadas, entreabertas, entregues
dadivosas musas mudas
como se fossem gregas lascivas
espanholas carnudas
(ou baianas ociosas?)
nelas o sexo é uma fruta
que o pintor ousado morde.
O que acha (procura)
entre as pernas das mulheres
o pincel de Picasso
por essas vulvas entreabertas
e clitóris expostos
num labirinto de formas?
Ali,
o minotauro
insaciavelmente goza.
O que mostram (escondem)
entre as pernas
as mulheres de Picasso?
Relaxadas, entreabertas, entregues
dadivosas musas mudas
como se fossem gregas lascivas
espanholas carnudas
(ou baianas ociosas?)
nelas o sexo é uma fruta
que o pintor ousado morde.
O que acha (procura)
entre as pernas das mulheres
o pincel de Picasso
por essas vulvas entreabertas
e clitóris expostos
num labirinto de formas?
Ali,
o minotauro
insaciavelmente goza.
1 064
Affonso Romano de Sant'Anna
Preparação
olhava a tarde sem compromisso.
Sentado ao meio-fio
ciscava metafísicas
com um gravetinho na mão.
No fundo do quintal
no sótão e no porão
vislumbrei os primeiros mistérios.
As coisas essenciais
eram-me servidas.
A mim cabia apenas preencher o dia
com um ou outro dever
e uma vaga poesia.
Sentado ao meio-fio
ciscava metafísicas
com um gravetinho na mão.
No fundo do quintal
no sótão e no porão
vislumbrei os primeiros mistérios.
As coisas essenciais
eram-me servidas.
A mim cabia apenas preencher o dia
com um ou outro dever
e uma vaga poesia.
1 118
Affonso Romano de Sant'Anna
Preparação
olhava a tarde sem compromisso.
Sentado ao meio-fio
ciscava metafísicas
com um gravetinho na mão.
No fundo do quintal
no sótão e no porão
vislumbrei os primeiros mistérios.
As coisas essenciais
eram-me servidas.
A mim cabia apenas preencher o dia
com um ou outro dever
e uma vaga poesia.
Sentado ao meio-fio
ciscava metafísicas
com um gravetinho na mão.
No fundo do quintal
no sótão e no porão
vislumbrei os primeiros mistérios.
As coisas essenciais
eram-me servidas.
A mim cabia apenas preencher o dia
com um ou outro dever
e uma vaga poesia.
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