Poemas neste tema
Vida e Existência
Pablo Neruda
Manhã Com Ar
Do ar livre prisioneiro vai
um homem no meio da manhã
como um globo de cristal.
Que pode saber e conhecer
se está encerrado como um peixe
entre o espaço e o silêncio,
se as folhagens inocentes
lhe escondem as moscas do mal?
Ê meu dever de sacerdote,
de geógrafo arrependido,
de naturalista enganado,
abrir os olhos do viageiro.
Paro no meio do caminho
e detenho sua bicicleta:
Olvidas, digo-lhe, vilão,
ignorante cheio de oxigênio,
o tugúrio das desditas
e os rincões humilhados?
Ignoras que ali com punhal,
aqui com garrote e pedrada,
mais além com revólver negro
e em Chicago com tenazes
se assassinam as alimárias,
se despedaçam as pombas
e se degolam as melancias?
Arrepende-te do oxigênio,
disse ao viageiro surpreendido,
não se tem direito de entregar a vida
à exclusiva transparência.
E preciso entrar na casa escura,
entrar no beco da morte,
tocar o sangue e o terror,
compartir o mal espantoso.
O transeunte me cravou
seus dois olhos incompreensivos
e se afastou na luz do sol
sem responder nem compreender.
E me deixou — triste de mim —
Falando só pelo caminho.
um homem no meio da manhã
como um globo de cristal.
Que pode saber e conhecer
se está encerrado como um peixe
entre o espaço e o silêncio,
se as folhagens inocentes
lhe escondem as moscas do mal?
Ê meu dever de sacerdote,
de geógrafo arrependido,
de naturalista enganado,
abrir os olhos do viageiro.
Paro no meio do caminho
e detenho sua bicicleta:
Olvidas, digo-lhe, vilão,
ignorante cheio de oxigênio,
o tugúrio das desditas
e os rincões humilhados?
Ignoras que ali com punhal,
aqui com garrote e pedrada,
mais além com revólver negro
e em Chicago com tenazes
se assassinam as alimárias,
se despedaçam as pombas
e se degolam as melancias?
Arrepende-te do oxigênio,
disse ao viageiro surpreendido,
não se tem direito de entregar a vida
à exclusiva transparência.
E preciso entrar na casa escura,
entrar no beco da morte,
tocar o sangue e o terror,
compartir o mal espantoso.
O transeunte me cravou
seus dois olhos incompreensivos
e se afastou na luz do sol
sem responder nem compreender.
E me deixou — triste de mim —
Falando só pelo caminho.
1 029
Pablo Neruda
(H.V.)
Aconteceu-me com aquele fulano
recomendado, conhecido apenas,
passageiro do barco, o mesmo barco
em que viajei fatigado de rostos.
Quis não o ver, foi impossível.
Impus-me outro dever contra minha vida:
ser amistoso invés de indiferente
por causa de sua rápida mulher,
alta e bela, com frutos e com olhos.
Agora vejo minha equivocação
no seu triste relato de viajante.
Fui provincianamente generoso.
Não cresceu sua mesquinha condição
por minha mão de amigo, naquele barco,
sua desconfiança em si seguiu mais forte
como se alguém pudesse convencer
aos que não acreditaram em si mesmos
que não se desprezem em suas guerras
contra a própria sombra. Assim nasceram.
recomendado, conhecido apenas,
passageiro do barco, o mesmo barco
em que viajei fatigado de rostos.
Quis não o ver, foi impossível.
Impus-me outro dever contra minha vida:
ser amistoso invés de indiferente
por causa de sua rápida mulher,
alta e bela, com frutos e com olhos.
Agora vejo minha equivocação
no seu triste relato de viajante.
Fui provincianamente generoso.
Não cresceu sua mesquinha condição
por minha mão de amigo, naquele barco,
sua desconfiança em si seguiu mais forte
como se alguém pudesse convencer
aos que não acreditaram em si mesmos
que não se desprezem em suas guerras
contra a própria sombra. Assim nasceram.
1 123
Pablo Neruda
O Frango Hieroglífico
Tão enguiçado era meu amigo
que não suportava o crepúsculo.
Era uma injuria pessoal
a aproximação da sombra,
a dúvida crítica do dia.
Meu pobre amigo ainda que herdeiro
de possessões terrenais
podia mudar de estação
buscando o país da neve
ou as palmeiras de Sumatra:
porém, como evitar ao dia
o crepúsculo inevitável?
Tentou soníferos verdes
e álcoois extravagantes
nadou em espuma de cerveja
recorreu a médicos, leu
farmacopéias e almanaques,
escolheu o amor a essa hora,
porém tudo resultou inútil:
quase deixava de pulsar
ou palpitava demasiado
seu coração que rechaçava
o advento fatal
do crepúsculo de cada dia.
Penosa vida que arrastou
meu amigo desinteressado.
Com C. B. íamos, com ele,
a um restaurante de Paris
a essa hora para que se visse
a aproximação da noite.
Nosso amigo pensou encontrar
um hieroglífico inquietante
num manjar que lhe ofereciam.
E ato contínuo, iracundo,
jogou o frango hieroglífico
na cabeça do benigno
maitre d’hôtel do restaurante.
Enquanto se fechava o crepúsculo
como um leque celeste
sobre as torres de Paris,
descia o molho sobre os olhos
do serviçal desorientado.
Chegou a noite e outro dia
e sobre nosso atormentado,
que fazer? Caiu o olvido escuro
como um crepúsculo de chumbo.
C. B me recorda esta história
em uma carta que conservo.
que não suportava o crepúsculo.
Era uma injuria pessoal
a aproximação da sombra,
a dúvida crítica do dia.
Meu pobre amigo ainda que herdeiro
de possessões terrenais
podia mudar de estação
buscando o país da neve
ou as palmeiras de Sumatra:
porém, como evitar ao dia
o crepúsculo inevitável?
Tentou soníferos verdes
e álcoois extravagantes
nadou em espuma de cerveja
recorreu a médicos, leu
farmacopéias e almanaques,
escolheu o amor a essa hora,
porém tudo resultou inútil:
quase deixava de pulsar
ou palpitava demasiado
seu coração que rechaçava
o advento fatal
do crepúsculo de cada dia.
Penosa vida que arrastou
meu amigo desinteressado.
Com C. B. íamos, com ele,
a um restaurante de Paris
a essa hora para que se visse
a aproximação da noite.
Nosso amigo pensou encontrar
um hieroglífico inquietante
num manjar que lhe ofereciam.
E ato contínuo, iracundo,
jogou o frango hieroglífico
na cabeça do benigno
maitre d’hôtel do restaurante.
Enquanto se fechava o crepúsculo
como um leque celeste
sobre as torres de Paris,
descia o molho sobre os olhos
do serviçal desorientado.
Chegou a noite e outro dia
e sobre nosso atormentado,
que fazer? Caiu o olvido escuro
como um crepúsculo de chumbo.
C. B me recorda esta história
em uma carta que conservo.
797
Pablo Neruda
Enigmas Para Intranquilos
Pelos dias do ano que virá
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
1 219
Pablo Neruda
Enigmas Para Intranquilos
Pelos dias do ano que virá
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
1 219
Pablo Neruda
Enigmas Para Intranquilos
Pelos dias do ano que virá
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
1 219
Pablo Neruda
Outra Coisa
Sucedem-se tão poucas coisas
que devo sempre recontá-las.
Ninguém me dá asfodelos
e ninguém me faz suspirar.
Porque cheguei à encruzilhada
de um arrevesado destino
quando se apagam os relógios
e cai o céu sobre o céu
até que o dia moribundo
tira a lua para passear.
Até quando se desenreda
esta beleza equinocial
que de verde passa à redonda,
de onda marinha à catarata,
de sol soberbo à lua branca,
de solidão a capitólio,
sem que se altere a equação
do mundo em que não ocorre nada.
Não ocorre nada senão um dia
que como exemplar estudante
se senta com seus galardões
atrás de outro dia premiado,
até que o coro semanal
se converteu num anel
que nem a noite transfigura
porque chega tão adornada,
tão portentosa como sempre.
Vamos ver se pescam peixes loucos
que subam como ornitorrincos
pelas paredes de minha casa
e rompam o novo equilíbrio
que me persegue e me atormenta.
que devo sempre recontá-las.
Ninguém me dá asfodelos
e ninguém me faz suspirar.
Porque cheguei à encruzilhada
de um arrevesado destino
quando se apagam os relógios
e cai o céu sobre o céu
até que o dia moribundo
tira a lua para passear.
Até quando se desenreda
esta beleza equinocial
que de verde passa à redonda,
de onda marinha à catarata,
de sol soberbo à lua branca,
de solidão a capitólio,
sem que se altere a equação
do mundo em que não ocorre nada.
Não ocorre nada senão um dia
que como exemplar estudante
se senta com seus galardões
atrás de outro dia premiado,
até que o coro semanal
se converteu num anel
que nem a noite transfigura
porque chega tão adornada,
tão portentosa como sempre.
Vamos ver se pescam peixes loucos
que subam como ornitorrincos
pelas paredes de minha casa
e rompam o novo equilíbrio
que me persegue e me atormenta.
1 171
Pablo Neruda
Outra Coisa
Sucedem-se tão poucas coisas
que devo sempre recontá-las.
Ninguém me dá asfodelos
e ninguém me faz suspirar.
Porque cheguei à encruzilhada
de um arrevesado destino
quando se apagam os relógios
e cai o céu sobre o céu
até que o dia moribundo
tira a lua para passear.
Até quando se desenreda
esta beleza equinocial
que de verde passa à redonda,
de onda marinha à catarata,
de sol soberbo à lua branca,
de solidão a capitólio,
sem que se altere a equação
do mundo em que não ocorre nada.
Não ocorre nada senão um dia
que como exemplar estudante
se senta com seus galardões
atrás de outro dia premiado,
até que o coro semanal
se converteu num anel
que nem a noite transfigura
porque chega tão adornada,
tão portentosa como sempre.
Vamos ver se pescam peixes loucos
que subam como ornitorrincos
pelas paredes de minha casa
e rompam o novo equilíbrio
que me persegue e me atormenta.
que devo sempre recontá-las.
Ninguém me dá asfodelos
e ninguém me faz suspirar.
Porque cheguei à encruzilhada
de um arrevesado destino
quando se apagam os relógios
e cai o céu sobre o céu
até que o dia moribundo
tira a lua para passear.
Até quando se desenreda
esta beleza equinocial
que de verde passa à redonda,
de onda marinha à catarata,
de sol soberbo à lua branca,
de solidão a capitólio,
sem que se altere a equação
do mundo em que não ocorre nada.
Não ocorre nada senão um dia
que como exemplar estudante
se senta com seus galardões
atrás de outro dia premiado,
até que o coro semanal
se converteu num anel
que nem a noite transfigura
porque chega tão adornada,
tão portentosa como sempre.
Vamos ver se pescam peixes loucos
que subam como ornitorrincos
pelas paredes de minha casa
e rompam o novo equilíbrio
que me persegue e me atormenta.
1 171
Pablo Neruda
Filosofia
Fica provada a certeza
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
1 183
Pablo Neruda
Filosofia
Fica provada a certeza
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
1 183
Pablo Neruda
Rechaça Os Relâmpagos
Centelha, tu me dedicaste
a lentidão de meus trabalhos:
com a advertência equinocial
da tua fosfórica ameaça
recolhi minhas preferências,
renunciei ao que não tinha
e encontrei a meus pés e a meus olhos
as abundâncias do outono.
Me ensinou o raio a ser tranquilo,
a não perder luz no céu,
a procurar dentro de mim
as galerias da terra,
a cavar no solo duro
até encontrar na dureza
o mesmo lugar que buscava,
agonizando, o meteoro.
Aprendi a velocidade
para deixá-la no espaço
e de meu lento movimento
fiz uma escola desnecessária
como uma tertúlia de peixes
cujo passeio cotidiano
se desenvolve entre ameaças,
Este é o estilo das profundezas,
do manifesto submarino.
E não o penso desdenhar
por uma lei da centelha:
cada um com seu sinal,
com o que teve neste mundo,
e me remeto à minha verdade
porque me falta uma mentira.
a lentidão de meus trabalhos:
com a advertência equinocial
da tua fosfórica ameaça
recolhi minhas preferências,
renunciei ao que não tinha
e encontrei a meus pés e a meus olhos
as abundâncias do outono.
Me ensinou o raio a ser tranquilo,
a não perder luz no céu,
a procurar dentro de mim
as galerias da terra,
a cavar no solo duro
até encontrar na dureza
o mesmo lugar que buscava,
agonizando, o meteoro.
Aprendi a velocidade
para deixá-la no espaço
e de meu lento movimento
fiz uma escola desnecessária
como uma tertúlia de peixes
cujo passeio cotidiano
se desenvolve entre ameaças,
Este é o estilo das profundezas,
do manifesto submarino.
E não o penso desdenhar
por uma lei da centelha:
cada um com seu sinal,
com o que teve neste mundo,
e me remeto à minha verdade
porque me falta uma mentira.
1 159
Pablo Neruda
Rechaça Os Relâmpagos
Centelha, tu me dedicaste
a lentidão de meus trabalhos:
com a advertência equinocial
da tua fosfórica ameaça
recolhi minhas preferências,
renunciei ao que não tinha
e encontrei a meus pés e a meus olhos
as abundâncias do outono.
Me ensinou o raio a ser tranquilo,
a não perder luz no céu,
a procurar dentro de mim
as galerias da terra,
a cavar no solo duro
até encontrar na dureza
o mesmo lugar que buscava,
agonizando, o meteoro.
Aprendi a velocidade
para deixá-la no espaço
e de meu lento movimento
fiz uma escola desnecessária
como uma tertúlia de peixes
cujo passeio cotidiano
se desenvolve entre ameaças,
Este é o estilo das profundezas,
do manifesto submarino.
E não o penso desdenhar
por uma lei da centelha:
cada um com seu sinal,
com o que teve neste mundo,
e me remeto à minha verdade
porque me falta uma mentira.
a lentidão de meus trabalhos:
com a advertência equinocial
da tua fosfórica ameaça
recolhi minhas preferências,
renunciei ao que não tinha
e encontrei a meus pés e a meus olhos
as abundâncias do outono.
Me ensinou o raio a ser tranquilo,
a não perder luz no céu,
a procurar dentro de mim
as galerias da terra,
a cavar no solo duro
até encontrar na dureza
o mesmo lugar que buscava,
agonizando, o meteoro.
Aprendi a velocidade
para deixá-la no espaço
e de meu lento movimento
fiz uma escola desnecessária
como uma tertúlia de peixes
cujo passeio cotidiano
se desenvolve entre ameaças,
Este é o estilo das profundezas,
do manifesto submarino.
E não o penso desdenhar
por uma lei da centelha:
cada um com seu sinal,
com o que teve neste mundo,
e me remeto à minha verdade
porque me falta uma mentira.
1 159
Pablo Neruda
1
Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,
pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz com que do fundo salte o filho da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiram os pássaros,
e em mim penetrava a noite sua invasão feroz.
Para sobreviver te forjei como uma arma,
uma flecha em meu arco, uma pedra em minha fisga.
Mas eis que cai a hora da vingança, e eu te amo.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávida e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher mia, persistirei em tua graça.
Mia sede, mia ânsia sem fim, meu caminho indeciso!
Escuros leitos por onde a sede eterna segue,
e onde a fadiga segue, e a dor é infinita.
pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz com que do fundo salte o filho da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiram os pássaros,
e em mim penetrava a noite sua invasão feroz.
Para sobreviver te forjei como uma arma,
uma flecha em meu arco, uma pedra em minha fisga.
Mas eis que cai a hora da vingança, e eu te amo.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávida e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher mia, persistirei em tua graça.
Mia sede, mia ânsia sem fim, meu caminho indeciso!
Escuros leitos por onde a sede eterna segue,
e onde a fadiga segue, e a dor é infinita.
1 216
Pablo Neruda
Todos
Todos
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
1 182
Pablo Neruda
Todos
Todos
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
1 182
Pablo Neruda
Todos
Todos
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
1 182
Pablo Neruda
Conheci Ao Mexicano
Conheci ao mexicano Tihuatín
faz alguns séculos, em Jalapa,
e depois, cada vez, ao encontrá-lo
na Colômbia, em Iquique, em Arequipa,
comecei a suspeitar de sua existência.
Tinha-me parecido estranho
seu chapéu, quando aquele homem,
oleiro de ofício, vivia da argila
mexicana e depois tomou-se arquiteto,
mordomo de uma ferragem na Venezuela,
mineiro e aguazil na Guatemala.
Como, pensei, com a mesma idade,
só trezentos anos,
eu, com o mesmo ofício, ensimesmado
em minha fábrica de sinos,
a bater sempre pedras ou metais
para que alguém ouça meus sinos
e conheça minha voz,
minha única voz,
este homem, desde mortos anos
por rios que não existem,
muda de ofício?
Então compreendi que ele era eu,
que éramos um sobrevivente a mais
entre outros de perto ou daqui,
outros de linhagens iguais enterrados
com as mãos sujas de areia,
nascendo sempre em qualquer parte,
dispostos a um trabalho interminável.
faz alguns séculos, em Jalapa,
e depois, cada vez, ao encontrá-lo
na Colômbia, em Iquique, em Arequipa,
comecei a suspeitar de sua existência.
Tinha-me parecido estranho
seu chapéu, quando aquele homem,
oleiro de ofício, vivia da argila
mexicana e depois tomou-se arquiteto,
mordomo de uma ferragem na Venezuela,
mineiro e aguazil na Guatemala.
Como, pensei, com a mesma idade,
só trezentos anos,
eu, com o mesmo ofício, ensimesmado
em minha fábrica de sinos,
a bater sempre pedras ou metais
para que alguém ouça meus sinos
e conheça minha voz,
minha única voz,
este homem, desde mortos anos
por rios que não existem,
muda de ofício?
Então compreendi que ele era eu,
que éramos um sobrevivente a mais
entre outros de perto ou daqui,
outros de linhagens iguais enterrados
com as mãos sujas de areia,
nascendo sempre em qualquer parte,
dispostos a um trabalho interminável.
1 161
Pablo Neruda
Conheci Ao Mexicano
Conheci ao mexicano Tihuatín
faz alguns séculos, em Jalapa,
e depois, cada vez, ao encontrá-lo
na Colômbia, em Iquique, em Arequipa,
comecei a suspeitar de sua existência.
Tinha-me parecido estranho
seu chapéu, quando aquele homem,
oleiro de ofício, vivia da argila
mexicana e depois tomou-se arquiteto,
mordomo de uma ferragem na Venezuela,
mineiro e aguazil na Guatemala.
Como, pensei, com a mesma idade,
só trezentos anos,
eu, com o mesmo ofício, ensimesmado
em minha fábrica de sinos,
a bater sempre pedras ou metais
para que alguém ouça meus sinos
e conheça minha voz,
minha única voz,
este homem, desde mortos anos
por rios que não existem,
muda de ofício?
Então compreendi que ele era eu,
que éramos um sobrevivente a mais
entre outros de perto ou daqui,
outros de linhagens iguais enterrados
com as mãos sujas de areia,
nascendo sempre em qualquer parte,
dispostos a um trabalho interminável.
faz alguns séculos, em Jalapa,
e depois, cada vez, ao encontrá-lo
na Colômbia, em Iquique, em Arequipa,
comecei a suspeitar de sua existência.
Tinha-me parecido estranho
seu chapéu, quando aquele homem,
oleiro de ofício, vivia da argila
mexicana e depois tomou-se arquiteto,
mordomo de uma ferragem na Venezuela,
mineiro e aguazil na Guatemala.
Como, pensei, com a mesma idade,
só trezentos anos,
eu, com o mesmo ofício, ensimesmado
em minha fábrica de sinos,
a bater sempre pedras ou metais
para que alguém ouça meus sinos
e conheça minha voz,
minha única voz,
este homem, desde mortos anos
por rios que não existem,
muda de ofício?
Então compreendi que ele era eu,
que éramos um sobrevivente a mais
entre outros de perto ou daqui,
outros de linhagens iguais enterrados
com as mãos sujas de areia,
nascendo sempre em qualquer parte,
dispostos a um trabalho interminável.
1 161
Pablo Neruda
Conheci Ao Mexicano
Conheci ao mexicano Tihuatín
faz alguns séculos, em Jalapa,
e depois, cada vez, ao encontrá-lo
na Colômbia, em Iquique, em Arequipa,
comecei a suspeitar de sua existência.
Tinha-me parecido estranho
seu chapéu, quando aquele homem,
oleiro de ofício, vivia da argila
mexicana e depois tomou-se arquiteto,
mordomo de uma ferragem na Venezuela,
mineiro e aguazil na Guatemala.
Como, pensei, com a mesma idade,
só trezentos anos,
eu, com o mesmo ofício, ensimesmado
em minha fábrica de sinos,
a bater sempre pedras ou metais
para que alguém ouça meus sinos
e conheça minha voz,
minha única voz,
este homem, desde mortos anos
por rios que não existem,
muda de ofício?
Então compreendi que ele era eu,
que éramos um sobrevivente a mais
entre outros de perto ou daqui,
outros de linhagens iguais enterrados
com as mãos sujas de areia,
nascendo sempre em qualquer parte,
dispostos a um trabalho interminável.
faz alguns séculos, em Jalapa,
e depois, cada vez, ao encontrá-lo
na Colômbia, em Iquique, em Arequipa,
comecei a suspeitar de sua existência.
Tinha-me parecido estranho
seu chapéu, quando aquele homem,
oleiro de ofício, vivia da argila
mexicana e depois tomou-se arquiteto,
mordomo de uma ferragem na Venezuela,
mineiro e aguazil na Guatemala.
Como, pensei, com a mesma idade,
só trezentos anos,
eu, com o mesmo ofício, ensimesmado
em minha fábrica de sinos,
a bater sempre pedras ou metais
para que alguém ouça meus sinos
e conheça minha voz,
minha única voz,
este homem, desde mortos anos
por rios que não existem,
muda de ofício?
Então compreendi que ele era eu,
que éramos um sobrevivente a mais
entre outros de perto ou daqui,
outros de linhagens iguais enterrados
com as mãos sujas de areia,
nascendo sempre em qualquer parte,
dispostos a um trabalho interminável.
1 161
Pablo Neruda
8
Abelha branca zumbe, ébria de mel em minh’alma
e te torce em lentas espirais de fumo.
Sou o desesperado, a palavra sem eco,
o que perdeu tudo, e o que tudo teve.
Última amarra, estala em ti minha ansiedade última.
Em minha terra deserta és a última rosa.
Ah silenciosa!
Cerra teus olhos profundos. Lá esvoaça a noite.
Ah! Despe teu corpo de estátua temerosa.
Tens olhos profundos onde se agita a noite.
Frescos braços de flor e regaço de rosa.
Teus seios parecem os caracóis brancos.
Veio dormir em teu ventre uma mariposa de sombra.
Ah silenciosa!
Eis aqui a solitude de onde estás ausente.
Chove. O vento do mar caça gaivotas errantes.
A água anda descalça pelas ruas molhadas.
Daquela árvore queixam-se, meio enfermas, as folhas.
Abelha branca, ausente, zunindo em minha alma.
Renasces no tempo, delgada e silenciosa.
Ah silenciosa!
e te torce em lentas espirais de fumo.
Sou o desesperado, a palavra sem eco,
o que perdeu tudo, e o que tudo teve.
Última amarra, estala em ti minha ansiedade última.
Em minha terra deserta és a última rosa.
Ah silenciosa!
Cerra teus olhos profundos. Lá esvoaça a noite.
Ah! Despe teu corpo de estátua temerosa.
Tens olhos profundos onde se agita a noite.
Frescos braços de flor e regaço de rosa.
Teus seios parecem os caracóis brancos.
Veio dormir em teu ventre uma mariposa de sombra.
Ah silenciosa!
Eis aqui a solitude de onde estás ausente.
Chove. O vento do mar caça gaivotas errantes.
A água anda descalça pelas ruas molhadas.
Daquela árvore queixam-se, meio enfermas, as folhas.
Abelha branca, ausente, zunindo em minha alma.
Renasces no tempo, delgada e silenciosa.
Ah silenciosa!
1 320
Pablo Neruda
Saúde, Dizemos Cada Dia
Saúde, dizemos cada dia,
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
1 284
Pablo Neruda
Saúde, Dizemos Cada Dia
Saúde, dizemos cada dia,
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
1 284
Pablo Neruda
Declaro Quatro Cães
Declaro quatro cães:
um já está enterrado no jardim,
outros dois me surpreendem,
pequenos destruidores selvagens,
de patas grossas e presas duras
como agulhas de rocha.
E uma cadela grenhuda,
distante,
ruiva em sua cortesia.
Não se sentem seus passos
de ouro suave,
nem sua presença distante.
Só ladra tarde da noite
para certos fantasmas,
para que só certos ausentes
escolhidos
a ouçam nos caminhos
ou em outros lugares escuros.
um já está enterrado no jardim,
outros dois me surpreendem,
pequenos destruidores selvagens,
de patas grossas e presas duras
como agulhas de rocha.
E uma cadela grenhuda,
distante,
ruiva em sua cortesia.
Não se sentem seus passos
de ouro suave,
nem sua presença distante.
Só ladra tarde da noite
para certos fantasmas,
para que só certos ausentes
escolhidos
a ouçam nos caminhos
ou em outros lugares escuros.
1 055
Pablo Neruda
Pedro É o Quando
Pedro é o quando e o como,
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
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