Poemas neste tema
Vida e Existência
Pablo Neruda
Regressando
Eu tenho tantas mortes de perfil
que por isso não morro,
sou incapaz de fazê-lo,
me buscam e não me acham
e saio com o que quero,
com meu pobre destino
de cavalo perdido
nos porteiros solitários
do sul do Sul da América
— sopra um vento de ferro,
as árvores se dobram
desde seu nascimento,
devem beijar a terra,
a planície —
chega depois a neve
feita de mil espadas
que nunca terminam.
Eu tenho regressado
de onde estarei,
desde amanhã Sexta,
eu regressei
com todos os meus sinos
e fiquei plantado
procurando a pradaria,
beijando terra amarga
como o arbusto dobrado.
Porque é obrigatório
obedecer ao inverno,
deixar crescer o vento
também dentro de ti,
até que cai a neve,
unem-se o hoje e o dia,
o vento .e o passado,
cai o frio,
ao fim estamos sozinhos,
por fim nos calaremos.
Obrigado.
que por isso não morro,
sou incapaz de fazê-lo,
me buscam e não me acham
e saio com o que quero,
com meu pobre destino
de cavalo perdido
nos porteiros solitários
do sul do Sul da América
— sopra um vento de ferro,
as árvores se dobram
desde seu nascimento,
devem beijar a terra,
a planície —
chega depois a neve
feita de mil espadas
que nunca terminam.
Eu tenho regressado
de onde estarei,
desde amanhã Sexta,
eu regressei
com todos os meus sinos
e fiquei plantado
procurando a pradaria,
beijando terra amarga
como o arbusto dobrado.
Porque é obrigatório
obedecer ao inverno,
deixar crescer o vento
também dentro de ti,
até que cai a neve,
unem-se o hoje e o dia,
o vento .e o passado,
cai o frio,
ao fim estamos sozinhos,
por fim nos calaremos.
Obrigado.
1 192
Pablo Neruda
Regressando
Eu tenho tantas mortes de perfil
que por isso não morro,
sou incapaz de fazê-lo,
me buscam e não me acham
e saio com o que quero,
com meu pobre destino
de cavalo perdido
nos porteiros solitários
do sul do Sul da América
— sopra um vento de ferro,
as árvores se dobram
desde seu nascimento,
devem beijar a terra,
a planície —
chega depois a neve
feita de mil espadas
que nunca terminam.
Eu tenho regressado
de onde estarei,
desde amanhã Sexta,
eu regressei
com todos os meus sinos
e fiquei plantado
procurando a pradaria,
beijando terra amarga
como o arbusto dobrado.
Porque é obrigatório
obedecer ao inverno,
deixar crescer o vento
também dentro de ti,
até que cai a neve,
unem-se o hoje e o dia,
o vento .e o passado,
cai o frio,
ao fim estamos sozinhos,
por fim nos calaremos.
Obrigado.
que por isso não morro,
sou incapaz de fazê-lo,
me buscam e não me acham
e saio com o que quero,
com meu pobre destino
de cavalo perdido
nos porteiros solitários
do sul do Sul da América
— sopra um vento de ferro,
as árvores se dobram
desde seu nascimento,
devem beijar a terra,
a planície —
chega depois a neve
feita de mil espadas
que nunca terminam.
Eu tenho regressado
de onde estarei,
desde amanhã Sexta,
eu regressei
com todos os meus sinos
e fiquei plantado
procurando a pradaria,
beijando terra amarga
como o arbusto dobrado.
Porque é obrigatório
obedecer ao inverno,
deixar crescer o vento
também dentro de ti,
até que cai a neve,
unem-se o hoje e o dia,
o vento .e o passado,
cai o frio,
ao fim estamos sozinhos,
por fim nos calaremos.
Obrigado.
1 192
Pablo Neruda
XXXIII
E por que o sol é tão mau amigo
do caminhante do deserto?
E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?
São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?
Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?
do caminhante do deserto?
E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?
São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?
Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?
585
Pablo Neruda
XXXIII
E por que o sol é tão mau amigo
do caminhante do deserto?
E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?
São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?
Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?
do caminhante do deserto?
E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?
São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?
Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?
585
Pablo Neruda
XXXV
Não será nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?
Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?
A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?
Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?
A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
1 131
Pablo Neruda
XXXV
Não será nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?
Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?
A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?
Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?
A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
1 131
Pablo Neruda
XXXV
Não será nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?
Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?
A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?
Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?
A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
1 131
Pablo Neruda
Iv - a Terra
Amarelo, amarelo continua sendo
o cachorro que por trás do outono circula
fazendo entre as folhas circunferências de ouro,
ladrando para os dias desconhecidos.
Assim vereis o imprevisto de certas situações:
junto ao explorador das terríveis fronteiras
que abrem o infinito, eis aqui o predileto,
o animal perdido do outono.
O que pode mudar de terra a tempo, de sabor a estibordo,
de luz velocidade a circunstância terrestre?
Quem adivinhará a semente na sombra
se como cabeleiras as mesmas frondes
deixam cair orvalho sobre as mesmas ferraduras,
sobre as cabeças que o amor reúne,
sobre as cinzas de corações mortos?
Este mesmo planeta, o tapete de mil anos,
pode florescer mas não aceita a morte nem o repouso:
as cíclicas fechaduras da fertilidade
se abrem em cada primavera para as chaves do sol
e ressoam os frutos fazendo-se cascata,
sobe e desce o fulgor da terra para a boca
e o humano agradece a bondade de seu reino.
Louvada seja a velha terra cor de excremento,
suas cavidades, seus ovários sacrossantos,
as adegas da sabedoria que encerraram
cobre, petróleo, ímãs, ferragens, pureza,
o relâmpago que parecia descer desde o inferno
foi entesourado pela antiga mãe das raízes
e cada dia saiu o pão para nos saudar
sem se importar com o sangue e a morte que nós homens vestimos,
a maldita progênie que faz a luz do mundo.
o cachorro que por trás do outono circula
fazendo entre as folhas circunferências de ouro,
ladrando para os dias desconhecidos.
Assim vereis o imprevisto de certas situações:
junto ao explorador das terríveis fronteiras
que abrem o infinito, eis aqui o predileto,
o animal perdido do outono.
O que pode mudar de terra a tempo, de sabor a estibordo,
de luz velocidade a circunstância terrestre?
Quem adivinhará a semente na sombra
se como cabeleiras as mesmas frondes
deixam cair orvalho sobre as mesmas ferraduras,
sobre as cabeças que o amor reúne,
sobre as cinzas de corações mortos?
Este mesmo planeta, o tapete de mil anos,
pode florescer mas não aceita a morte nem o repouso:
as cíclicas fechaduras da fertilidade
se abrem em cada primavera para as chaves do sol
e ressoam os frutos fazendo-se cascata,
sobe e desce o fulgor da terra para a boca
e o humano agradece a bondade de seu reino.
Louvada seja a velha terra cor de excremento,
suas cavidades, seus ovários sacrossantos,
as adegas da sabedoria que encerraram
cobre, petróleo, ímãs, ferragens, pureza,
o relâmpago que parecia descer desde o inferno
foi entesourado pela antiga mãe das raízes
e cada dia saiu o pão para nos saudar
sem se importar com o sangue e a morte que nós homens vestimos,
a maldita progênie que faz a luz do mundo.
1 308
Pablo Neruda
Triste Canção Para Chatear Qualquer Um
Toda noite passei a vida
fazendo contas,
mas não de vacas,
mas não de libras,
mas não de francos,
mas não de dólares,
não, nada disso.
Toda vida passei a noite
fazendo contas,
mas não de carros,
mas não de gatos,
mas não de amores,
não.
Toda vida passei a luz
fazendo contas,
mas não de livros,
mas não de cachorros,
mas não de cifras,
não.
Toda lua passei a noite
fazendo contas,
mas não de beijos,
mas não de noivas,
mas não de camas,
não.
Toda noite passei as ondas
fazendo contas,
mas não de garrafas,
mas não de dentes,
mas não de copos,
não.
Toda guerra passei a paz
fazendo contas,
mas não de mortos,
mas não de flores,
não.
Toda chuva passei a terra
fazendo contas,
mas não de caminhos,
mas não de canções,
não.
Toda terra passei a sombra
fazendo contas,
mas não de cabelos,
não de rugas,
não de coisas perdidas,
não.
Toda morte passei a vida
fazendo contas:
mas de que se trata
não me lembro,
não.
Toda vida passei a morte
fazendo contas
e se saí perdendo
ou se saí ganhando
não sei, a terra
não sabe.
Et cetera.
fazendo contas,
mas não de vacas,
mas não de libras,
mas não de francos,
mas não de dólares,
não, nada disso.
Toda vida passei a noite
fazendo contas,
mas não de carros,
mas não de gatos,
mas não de amores,
não.
Toda vida passei a luz
fazendo contas,
mas não de livros,
mas não de cachorros,
mas não de cifras,
não.
Toda lua passei a noite
fazendo contas,
mas não de beijos,
mas não de noivas,
mas não de camas,
não.
Toda noite passei as ondas
fazendo contas,
mas não de garrafas,
mas não de dentes,
mas não de copos,
não.
Toda guerra passei a paz
fazendo contas,
mas não de mortos,
mas não de flores,
não.
Toda chuva passei a terra
fazendo contas,
mas não de caminhos,
mas não de canções,
não.
Toda terra passei a sombra
fazendo contas,
mas não de cabelos,
não de rugas,
não de coisas perdidas,
não.
Toda morte passei a vida
fazendo contas:
mas de que se trata
não me lembro,
não.
Toda vida passei a morte
fazendo contas
e se saí perdendo
ou se saí ganhando
não sei, a terra
não sabe.
Et cetera.
1 145
Pablo Neruda
Triste Canção Para Chatear Qualquer Um
Toda noite passei a vida
fazendo contas,
mas não de vacas,
mas não de libras,
mas não de francos,
mas não de dólares,
não, nada disso.
Toda vida passei a noite
fazendo contas,
mas não de carros,
mas não de gatos,
mas não de amores,
não.
Toda vida passei a luz
fazendo contas,
mas não de livros,
mas não de cachorros,
mas não de cifras,
não.
Toda lua passei a noite
fazendo contas,
mas não de beijos,
mas não de noivas,
mas não de camas,
não.
Toda noite passei as ondas
fazendo contas,
mas não de garrafas,
mas não de dentes,
mas não de copos,
não.
Toda guerra passei a paz
fazendo contas,
mas não de mortos,
mas não de flores,
não.
Toda chuva passei a terra
fazendo contas,
mas não de caminhos,
mas não de canções,
não.
Toda terra passei a sombra
fazendo contas,
mas não de cabelos,
não de rugas,
não de coisas perdidas,
não.
Toda morte passei a vida
fazendo contas:
mas de que se trata
não me lembro,
não.
Toda vida passei a morte
fazendo contas
e se saí perdendo
ou se saí ganhando
não sei, a terra
não sabe.
Et cetera.
fazendo contas,
mas não de vacas,
mas não de libras,
mas não de francos,
mas não de dólares,
não, nada disso.
Toda vida passei a noite
fazendo contas,
mas não de carros,
mas não de gatos,
mas não de amores,
não.
Toda vida passei a luz
fazendo contas,
mas não de livros,
mas não de cachorros,
mas não de cifras,
não.
Toda lua passei a noite
fazendo contas,
mas não de beijos,
mas não de noivas,
mas não de camas,
não.
Toda noite passei as ondas
fazendo contas,
mas não de garrafas,
mas não de dentes,
mas não de copos,
não.
Toda guerra passei a paz
fazendo contas,
mas não de mortos,
mas não de flores,
não.
Toda chuva passei a terra
fazendo contas,
mas não de caminhos,
mas não de canções,
não.
Toda terra passei a sombra
fazendo contas,
mas não de cabelos,
não de rugas,
não de coisas perdidas,
não.
Toda morte passei a vida
fazendo contas:
mas de que se trata
não me lembro,
não.
Toda vida passei a morte
fazendo contas
e se saí perdendo
ou se saí ganhando
não sei, a terra
não sabe.
Et cetera.
1 145
Pablo Neruda
Triste Canção Para Chatear Qualquer Um
Toda noite passei a vida
fazendo contas,
mas não de vacas,
mas não de libras,
mas não de francos,
mas não de dólares,
não, nada disso.
Toda vida passei a noite
fazendo contas,
mas não de carros,
mas não de gatos,
mas não de amores,
não.
Toda vida passei a luz
fazendo contas,
mas não de livros,
mas não de cachorros,
mas não de cifras,
não.
Toda lua passei a noite
fazendo contas,
mas não de beijos,
mas não de noivas,
mas não de camas,
não.
Toda noite passei as ondas
fazendo contas,
mas não de garrafas,
mas não de dentes,
mas não de copos,
não.
Toda guerra passei a paz
fazendo contas,
mas não de mortos,
mas não de flores,
não.
Toda chuva passei a terra
fazendo contas,
mas não de caminhos,
mas não de canções,
não.
Toda terra passei a sombra
fazendo contas,
mas não de cabelos,
não de rugas,
não de coisas perdidas,
não.
Toda morte passei a vida
fazendo contas:
mas de que se trata
não me lembro,
não.
Toda vida passei a morte
fazendo contas
e se saí perdendo
ou se saí ganhando
não sei, a terra
não sabe.
Et cetera.
fazendo contas,
mas não de vacas,
mas não de libras,
mas não de francos,
mas não de dólares,
não, nada disso.
Toda vida passei a noite
fazendo contas,
mas não de carros,
mas não de gatos,
mas não de amores,
não.
Toda vida passei a luz
fazendo contas,
mas não de livros,
mas não de cachorros,
mas não de cifras,
não.
Toda lua passei a noite
fazendo contas,
mas não de beijos,
mas não de noivas,
mas não de camas,
não.
Toda noite passei as ondas
fazendo contas,
mas não de garrafas,
mas não de dentes,
mas não de copos,
não.
Toda guerra passei a paz
fazendo contas,
mas não de mortos,
mas não de flores,
não.
Toda chuva passei a terra
fazendo contas,
mas não de caminhos,
mas não de canções,
não.
Toda terra passei a sombra
fazendo contas,
mas não de cabelos,
não de rugas,
não de coisas perdidas,
não.
Toda morte passei a vida
fazendo contas:
mas de que se trata
não me lembro,
não.
Toda vida passei a morte
fazendo contas
e se saí perdendo
ou se saí ganhando
não sei, a terra
não sabe.
Et cetera.
1 145
Pablo Neruda
Triste Canção Para Chatear Qualquer Um
Toda noite passei a vida
fazendo contas,
mas não de vacas,
mas não de libras,
mas não de francos,
mas não de dólares,
não, nada disso.
Toda vida passei a noite
fazendo contas,
mas não de carros,
mas não de gatos,
mas não de amores,
não.
Toda vida passei a luz
fazendo contas,
mas não de livros,
mas não de cachorros,
mas não de cifras,
não.
Toda lua passei a noite
fazendo contas,
mas não de beijos,
mas não de noivas,
mas não de camas,
não.
Toda noite passei as ondas
fazendo contas,
mas não de garrafas,
mas não de dentes,
mas não de copos,
não.
Toda guerra passei a paz
fazendo contas,
mas não de mortos,
mas não de flores,
não.
Toda chuva passei a terra
fazendo contas,
mas não de caminhos,
mas não de canções,
não.
Toda terra passei a sombra
fazendo contas,
mas não de cabelos,
não de rugas,
não de coisas perdidas,
não.
Toda morte passei a vida
fazendo contas:
mas de que se trata
não me lembro,
não.
Toda vida passei a morte
fazendo contas
e se saí perdendo
ou se saí ganhando
não sei, a terra
não sabe.
Et cetera.
fazendo contas,
mas não de vacas,
mas não de libras,
mas não de francos,
mas não de dólares,
não, nada disso.
Toda vida passei a noite
fazendo contas,
mas não de carros,
mas não de gatos,
mas não de amores,
não.
Toda vida passei a luz
fazendo contas,
mas não de livros,
mas não de cachorros,
mas não de cifras,
não.
Toda lua passei a noite
fazendo contas,
mas não de beijos,
mas não de noivas,
mas não de camas,
não.
Toda noite passei as ondas
fazendo contas,
mas não de garrafas,
mas não de dentes,
mas não de copos,
não.
Toda guerra passei a paz
fazendo contas,
mas não de mortos,
mas não de flores,
não.
Toda chuva passei a terra
fazendo contas,
mas não de caminhos,
mas não de canções,
não.
Toda terra passei a sombra
fazendo contas,
mas não de cabelos,
não de rugas,
não de coisas perdidas,
não.
Toda morte passei a vida
fazendo contas:
mas de que se trata
não me lembro,
não.
Toda vida passei a morte
fazendo contas
e se saí perdendo
ou se saí ganhando
não sei, a terra
não sabe.
Et cetera.
1 145
Pablo Neruda
Morte E Perseguição Dos Pardais
Eu estava na China
naqueles dias,
quando Mao Tsé-Tung, sem entusiasmo,
decretou o imediato
falecimento de todos os pardais.
Com a mesma admirável
disciplina
com que se construiu a grande muralha
a multichina se multiplicou
e cada chinês procurou o inimigo.
Os meninos, os soldados, os astrônomos,
as meninas, as soldadas, as astrônomas,
os aviadores, os coveiros,
os cozinheiros chineses, os poetas,
os inventores da pólvora, os
camponeses do arroz sagrado,
os inventores de brinquedos, os
políticos de sorriso chinês,
todos se dirigiram
ao pardal
e este caiu com milionária morte
até que o último, um pardal supremo,
foi fuzilado por Mao Tsé-Tung.
Com admirável disciplina então
cada chinês partiu com um pardal,
com um triste, pequeno cadáver de pardal
no bolso,
cada um
de setecentos e trinta
milhões de
cidadãos chineses
com um pardal em
cada um
de setecentos e trinta
milhões de bolsos,
todos marcharam entoando antigos
hinos de glória e guerra
para enterrar lá longe,
nas montanhas da Lua Verde
um por um os pardais mortos.
Durante dezessete anos seguidos
cada um em pequeno mausoléu,
ossário individual, tumba florida
ou rápido cemitério coletivo
um por um sucessivamente
ficaram sepultados
completamente os pardais chineses.
Mas aconteceu algo estranho.
Quando se foram os enterradores
cantaram os pequenos enterrados:
um trovão de pardais
passou trovejando pela terra chinesa:
a voz de uma trombeta planetária.
E aquela voz despertou os mortais,
os antigos mortos,
os séculos de chineses enterrados.
Voltaram às suas vidas
aos seus arados, à sua economia.
Não faço censuras. Deixem-me tranquilo.
Mas assim fica bem claro
porque há mais chineses e menos pardais
a cada dia no mundo.
naqueles dias,
quando Mao Tsé-Tung, sem entusiasmo,
decretou o imediato
falecimento de todos os pardais.
Com a mesma admirável
disciplina
com que se construiu a grande muralha
a multichina se multiplicou
e cada chinês procurou o inimigo.
Os meninos, os soldados, os astrônomos,
as meninas, as soldadas, as astrônomas,
os aviadores, os coveiros,
os cozinheiros chineses, os poetas,
os inventores da pólvora, os
camponeses do arroz sagrado,
os inventores de brinquedos, os
políticos de sorriso chinês,
todos se dirigiram
ao pardal
e este caiu com milionária morte
até que o último, um pardal supremo,
foi fuzilado por Mao Tsé-Tung.
Com admirável disciplina então
cada chinês partiu com um pardal,
com um triste, pequeno cadáver de pardal
no bolso,
cada um
de setecentos e trinta
milhões de
cidadãos chineses
com um pardal em
cada um
de setecentos e trinta
milhões de bolsos,
todos marcharam entoando antigos
hinos de glória e guerra
para enterrar lá longe,
nas montanhas da Lua Verde
um por um os pardais mortos.
Durante dezessete anos seguidos
cada um em pequeno mausoléu,
ossário individual, tumba florida
ou rápido cemitério coletivo
um por um sucessivamente
ficaram sepultados
completamente os pardais chineses.
Mas aconteceu algo estranho.
Quando se foram os enterradores
cantaram os pequenos enterrados:
um trovão de pardais
passou trovejando pela terra chinesa:
a voz de uma trombeta planetária.
E aquela voz despertou os mortais,
os antigos mortos,
os séculos de chineses enterrados.
Voltaram às suas vidas
aos seus arados, à sua economia.
Não faço censuras. Deixem-me tranquilo.
Mas assim fica bem claro
porque há mais chineses e menos pardais
a cada dia no mundo.
649
Pablo Neruda
XXVII
Morreram talvez de vergonha
estes trens que se extraviaram?
Quem nunca viu o aloés?
Onde plantaram os olhos
do camarada Paul Éluard?
Há lugar para uns espinhos?
perguntaram à roseira.
estes trens que se extraviaram?
Quem nunca viu o aloés?
Onde plantaram os olhos
do camarada Paul Éluard?
Há lugar para uns espinhos?
perguntaram à roseira.
570
Pablo Neruda
XXVII
Morreram talvez de vergonha
estes trens que se extraviaram?
Quem nunca viu o aloés?
Onde plantaram os olhos
do camarada Paul Éluard?
Há lugar para uns espinhos?
perguntaram à roseira.
estes trens que se extraviaram?
Quem nunca viu o aloés?
Onde plantaram os olhos
do camarada Paul Éluard?
Há lugar para uns espinhos?
perguntaram à roseira.
570
Pablo Neruda
Cabeça de Pássaros
O cavalheiro Marcenac
veio ver-me no final do dia
com mais brancura na cabeça
cheia de pássaros ainda.
Tem pombas amarelas
dentro de seu nobre crânio,
estas pombas circundam-no
dormindo no anfiteatro
de seu cerebelo-pombal,
e depois o íbis escarlate
passeia por sobre sua testa
uma besta ensanguentada.
Ah, que opulento privilégio!
Levar perdizes, codornizes,
proteger faisões vistosos
plumagens de ouro que repelem
o foguetório terreno,
mas também pardais, aves
azuis, calhandras, canários
e carpinteiros, pintarroxos,
carriças, diucas, rouxinóis.
Dentro de sua clara cabeça
que o tempo cobriu de luz
o cavalheiro Marcenac
com seu celeste passaredo
vai pelas ruas. E de repente
as pessoas imaginam ouvir
súbitos cânticos selvagens
ou clarinadas do amanhecer,
mas como ele não sabe disso
continua seu passo transitório
e por onde passa seguem-no
pálidos olhos assustados.
O cavalheiro Marcenac
já dormiu em Saint Denis:
há um grande silêncio na casa dele
porque sua cabeça está repousando.
veio ver-me no final do dia
com mais brancura na cabeça
cheia de pássaros ainda.
Tem pombas amarelas
dentro de seu nobre crânio,
estas pombas circundam-no
dormindo no anfiteatro
de seu cerebelo-pombal,
e depois o íbis escarlate
passeia por sobre sua testa
uma besta ensanguentada.
Ah, que opulento privilégio!
Levar perdizes, codornizes,
proteger faisões vistosos
plumagens de ouro que repelem
o foguetório terreno,
mas também pardais, aves
azuis, calhandras, canários
e carpinteiros, pintarroxos,
carriças, diucas, rouxinóis.
Dentro de sua clara cabeça
que o tempo cobriu de luz
o cavalheiro Marcenac
com seu celeste passaredo
vai pelas ruas. E de repente
as pessoas imaginam ouvir
súbitos cânticos selvagens
ou clarinadas do amanhecer,
mas como ele não sabe disso
continua seu passo transitório
e por onde passa seguem-no
pálidos olhos assustados.
O cavalheiro Marcenac
já dormiu em Saint Denis:
há um grande silêncio na casa dele
porque sua cabeça está repousando.
1 174
Pablo Neruda
Cabeça de Pássaros
O cavalheiro Marcenac
veio ver-me no final do dia
com mais brancura na cabeça
cheia de pássaros ainda.
Tem pombas amarelas
dentro de seu nobre crânio,
estas pombas circundam-no
dormindo no anfiteatro
de seu cerebelo-pombal,
e depois o íbis escarlate
passeia por sobre sua testa
uma besta ensanguentada.
Ah, que opulento privilégio!
Levar perdizes, codornizes,
proteger faisões vistosos
plumagens de ouro que repelem
o foguetório terreno,
mas também pardais, aves
azuis, calhandras, canários
e carpinteiros, pintarroxos,
carriças, diucas, rouxinóis.
Dentro de sua clara cabeça
que o tempo cobriu de luz
o cavalheiro Marcenac
com seu celeste passaredo
vai pelas ruas. E de repente
as pessoas imaginam ouvir
súbitos cânticos selvagens
ou clarinadas do amanhecer,
mas como ele não sabe disso
continua seu passo transitório
e por onde passa seguem-no
pálidos olhos assustados.
O cavalheiro Marcenac
já dormiu em Saint Denis:
há um grande silêncio na casa dele
porque sua cabeça está repousando.
veio ver-me no final do dia
com mais brancura na cabeça
cheia de pássaros ainda.
Tem pombas amarelas
dentro de seu nobre crânio,
estas pombas circundam-no
dormindo no anfiteatro
de seu cerebelo-pombal,
e depois o íbis escarlate
passeia por sobre sua testa
uma besta ensanguentada.
Ah, que opulento privilégio!
Levar perdizes, codornizes,
proteger faisões vistosos
plumagens de ouro que repelem
o foguetório terreno,
mas também pardais, aves
azuis, calhandras, canários
e carpinteiros, pintarroxos,
carriças, diucas, rouxinóis.
Dentro de sua clara cabeça
que o tempo cobriu de luz
o cavalheiro Marcenac
com seu celeste passaredo
vai pelas ruas. E de repente
as pessoas imaginam ouvir
súbitos cânticos selvagens
ou clarinadas do amanhecer,
mas como ele não sabe disso
continua seu passo transitório
e por onde passa seguem-no
pálidos olhos assustados.
O cavalheiro Marcenac
já dormiu em Saint Denis:
há um grande silêncio na casa dele
porque sua cabeça está repousando.
1 174
Pablo Neruda
Noite - XCVII
Há que voar neste tempo, aonde?
Sem asas, sem avião, voar sem dúvida:
já os passos passaram sem remédio,
não alçaram os pés do passageiro.
Há que voar a cada instante como
as águias, as moscas e os dias,
há que vencer os olhos de Saturno
e estabelecer ali novos sinos.
Já não bastam sapatos nem caminhos,
já não servem a terra aos errantes,
já cruzaram a noite as raízes,
e tu aparecerás em outra estrela
determinadamente transitória
por fim em papoula convertida.
Sem asas, sem avião, voar sem dúvida:
já os passos passaram sem remédio,
não alçaram os pés do passageiro.
Há que voar a cada instante como
as águias, as moscas e os dias,
há que vencer os olhos de Saturno
e estabelecer ali novos sinos.
Já não bastam sapatos nem caminhos,
já não servem a terra aos errantes,
já cruzaram a noite as raízes,
e tu aparecerás em outra estrela
determinadamente transitória
por fim em papoula convertida.
1 218
Pablo Neruda
Noite - XCVII
Há que voar neste tempo, aonde?
Sem asas, sem avião, voar sem dúvida:
já os passos passaram sem remédio,
não alçaram os pés do passageiro.
Há que voar a cada instante como
as águias, as moscas e os dias,
há que vencer os olhos de Saturno
e estabelecer ali novos sinos.
Já não bastam sapatos nem caminhos,
já não servem a terra aos errantes,
já cruzaram a noite as raízes,
e tu aparecerás em outra estrela
determinadamente transitória
por fim em papoula convertida.
Sem asas, sem avião, voar sem dúvida:
já os passos passaram sem remédio,
não alçaram os pés do passageiro.
Há que voar a cada instante como
as águias, as moscas e os dias,
há que vencer os olhos de Saturno
e estabelecer ali novos sinos.
Já não bastam sapatos nem caminhos,
já não servem a terra aos errantes,
já cruzaram a noite as raízes,
e tu aparecerás em outra estrela
determinadamente transitória
por fim em papoula convertida.
1 218
Pablo Neruda
Ii - As Invenções
Vês este pequeno objeto trissilábico?
É um cilindro subalterno da felicidade
e manejado, agora, por organismos coerentes
por controle remoto, estou, estais seguros
de uma eficácia tão resplandecente
que amadurecem as uvas em sua pressão ignota
e o trigo em pleno campo se converte em pão,
as águas dão à luz cavalos vermelhões
que galopam o ar sem prévio aviso,
grandes indústrias se movem como centopeias
deixando rodas e relógios nos lugares desabitados:
Senhores, adquiri meu produto terciário
sem mescla de algodão nem de substâncias lácteas:
concedo-vos um botão para mudar o mundo:
adquiri o trifásico antes que me arrependa!
É um cilindro subalterno da felicidade
e manejado, agora, por organismos coerentes
por controle remoto, estou, estais seguros
de uma eficácia tão resplandecente
que amadurecem as uvas em sua pressão ignota
e o trigo em pleno campo se converte em pão,
as águas dão à luz cavalos vermelhões
que galopam o ar sem prévio aviso,
grandes indústrias se movem como centopeias
deixando rodas e relógios nos lugares desabitados:
Senhores, adquiri meu produto terciário
sem mescla de algodão nem de substâncias lácteas:
concedo-vos um botão para mudar o mundo:
adquiri o trifásico antes que me arrependa!
1 014
Pablo Neruda
Ix - Celebração
Coloquemos os sapatos, a camisa listada,
o terno azul embora já brilhem os cotovelos,
coloquemos os fogos de bengala e de artifício,
coloquemos vinho e cerveja entre o pescoço e os pés,
porque devidamente devemos celebrar
este número imenso que custou tanto tempo,
tantos anos e dias em pacotes,
tantas horas, tantos milhões de minutos,
vamos celebrar esta inauguração.
Desengarrafemos todas as alegrias resguardadas
e busquemos alguma noiva perdida
que aceite uma festiva dentada.
Hoje é. Hoje chegou. Pisamos o tapete
do interrogativo milênio. O coração, a amêndoa
da época crescente, a uva definitiva
irá se depositando em nós,
e será a verdade tão esperada.
Enquanto isso uma folha da folhagem
acrescenta o começo da idade:
ramo a ramo se cruzará a ramagem,
folha a folha subirão os dias
e fruto a fruto chegará a paz:
a árvore da sorte se prepara
desde a encarniçada raiz que sobrevive
buscando a água, a verdade, a vida.
Hoje é hoje. Chegou esta manhã
preparada por muita escuridão:
não sabemos se é claro porém
este mundo recém-inaugurado:
nós o aclararemos, nós o escureceremos
até que seja dourado e queimado
como os grãos duros do milho:
para cada um, os recém-nascidos,
os sobreviventes, os cegos,
os mudos, os mancos e coxos,
para que vejam e para que falem,
para que sobrevivam e corram,
para que agarrem a futura fruta
do reino atual que deixamos aberto
tanto para o explorador como para a rainha,
tanto para o interrogante cosmonauta
como para o agricultor tradicional,
para as abelhas que chegam agora
para participar da colmeia
e sobretudo para os povos recentes,
para os povos crescentes desde agora
com as novas bandeiras que nasceram
em cada gota de sangue ou suor.
Hoje é hoje e ontem se foi, não há dúvida.
Hoje é também amanhã, e eu me fui
com algum ano frio que se foi,
se foi comigo e me levou naquele ano.
Disto não há dúvida. Minha ossatura
consistiu, às vezes, em palavras duras
como ossos ao ar e à chuva,
e pude celebrar o que acontece
deixando em vez de canto ou testemunho
um obstinado esqueleto de palavras.
o terno azul embora já brilhem os cotovelos,
coloquemos os fogos de bengala e de artifício,
coloquemos vinho e cerveja entre o pescoço e os pés,
porque devidamente devemos celebrar
este número imenso que custou tanto tempo,
tantos anos e dias em pacotes,
tantas horas, tantos milhões de minutos,
vamos celebrar esta inauguração.
Desengarrafemos todas as alegrias resguardadas
e busquemos alguma noiva perdida
que aceite uma festiva dentada.
Hoje é. Hoje chegou. Pisamos o tapete
do interrogativo milênio. O coração, a amêndoa
da época crescente, a uva definitiva
irá se depositando em nós,
e será a verdade tão esperada.
Enquanto isso uma folha da folhagem
acrescenta o começo da idade:
ramo a ramo se cruzará a ramagem,
folha a folha subirão os dias
e fruto a fruto chegará a paz:
a árvore da sorte se prepara
desde a encarniçada raiz que sobrevive
buscando a água, a verdade, a vida.
Hoje é hoje. Chegou esta manhã
preparada por muita escuridão:
não sabemos se é claro porém
este mundo recém-inaugurado:
nós o aclararemos, nós o escureceremos
até que seja dourado e queimado
como os grãos duros do milho:
para cada um, os recém-nascidos,
os sobreviventes, os cegos,
os mudos, os mancos e coxos,
para que vejam e para que falem,
para que sobrevivam e corram,
para que agarrem a futura fruta
do reino atual que deixamos aberto
tanto para o explorador como para a rainha,
tanto para o interrogante cosmonauta
como para o agricultor tradicional,
para as abelhas que chegam agora
para participar da colmeia
e sobretudo para os povos recentes,
para os povos crescentes desde agora
com as novas bandeiras que nasceram
em cada gota de sangue ou suor.
Hoje é hoje e ontem se foi, não há dúvida.
Hoje é também amanhã, e eu me fui
com algum ano frio que se foi,
se foi comigo e me levou naquele ano.
Disto não há dúvida. Minha ossatura
consistiu, às vezes, em palavras duras
como ossos ao ar e à chuva,
e pude celebrar o que acontece
deixando em vez de canto ou testemunho
um obstinado esqueleto de palavras.
1 092
Pablo Neruda
Ix - Celebração
Coloquemos os sapatos, a camisa listada,
o terno azul embora já brilhem os cotovelos,
coloquemos os fogos de bengala e de artifício,
coloquemos vinho e cerveja entre o pescoço e os pés,
porque devidamente devemos celebrar
este número imenso que custou tanto tempo,
tantos anos e dias em pacotes,
tantas horas, tantos milhões de minutos,
vamos celebrar esta inauguração.
Desengarrafemos todas as alegrias resguardadas
e busquemos alguma noiva perdida
que aceite uma festiva dentada.
Hoje é. Hoje chegou. Pisamos o tapete
do interrogativo milênio. O coração, a amêndoa
da época crescente, a uva definitiva
irá se depositando em nós,
e será a verdade tão esperada.
Enquanto isso uma folha da folhagem
acrescenta o começo da idade:
ramo a ramo se cruzará a ramagem,
folha a folha subirão os dias
e fruto a fruto chegará a paz:
a árvore da sorte se prepara
desde a encarniçada raiz que sobrevive
buscando a água, a verdade, a vida.
Hoje é hoje. Chegou esta manhã
preparada por muita escuridão:
não sabemos se é claro porém
este mundo recém-inaugurado:
nós o aclararemos, nós o escureceremos
até que seja dourado e queimado
como os grãos duros do milho:
para cada um, os recém-nascidos,
os sobreviventes, os cegos,
os mudos, os mancos e coxos,
para que vejam e para que falem,
para que sobrevivam e corram,
para que agarrem a futura fruta
do reino atual que deixamos aberto
tanto para o explorador como para a rainha,
tanto para o interrogante cosmonauta
como para o agricultor tradicional,
para as abelhas que chegam agora
para participar da colmeia
e sobretudo para os povos recentes,
para os povos crescentes desde agora
com as novas bandeiras que nasceram
em cada gota de sangue ou suor.
Hoje é hoje e ontem se foi, não há dúvida.
Hoje é também amanhã, e eu me fui
com algum ano frio que se foi,
se foi comigo e me levou naquele ano.
Disto não há dúvida. Minha ossatura
consistiu, às vezes, em palavras duras
como ossos ao ar e à chuva,
e pude celebrar o que acontece
deixando em vez de canto ou testemunho
um obstinado esqueleto de palavras.
o terno azul embora já brilhem os cotovelos,
coloquemos os fogos de bengala e de artifício,
coloquemos vinho e cerveja entre o pescoço e os pés,
porque devidamente devemos celebrar
este número imenso que custou tanto tempo,
tantos anos e dias em pacotes,
tantas horas, tantos milhões de minutos,
vamos celebrar esta inauguração.
Desengarrafemos todas as alegrias resguardadas
e busquemos alguma noiva perdida
que aceite uma festiva dentada.
Hoje é. Hoje chegou. Pisamos o tapete
do interrogativo milênio. O coração, a amêndoa
da época crescente, a uva definitiva
irá se depositando em nós,
e será a verdade tão esperada.
Enquanto isso uma folha da folhagem
acrescenta o começo da idade:
ramo a ramo se cruzará a ramagem,
folha a folha subirão os dias
e fruto a fruto chegará a paz:
a árvore da sorte se prepara
desde a encarniçada raiz que sobrevive
buscando a água, a verdade, a vida.
Hoje é hoje. Chegou esta manhã
preparada por muita escuridão:
não sabemos se é claro porém
este mundo recém-inaugurado:
nós o aclararemos, nós o escureceremos
até que seja dourado e queimado
como os grãos duros do milho:
para cada um, os recém-nascidos,
os sobreviventes, os cegos,
os mudos, os mancos e coxos,
para que vejam e para que falem,
para que sobrevivam e corram,
para que agarrem a futura fruta
do reino atual que deixamos aberto
tanto para o explorador como para a rainha,
tanto para o interrogante cosmonauta
como para o agricultor tradicional,
para as abelhas que chegam agora
para participar da colmeia
e sobretudo para os povos recentes,
para os povos crescentes desde agora
com as novas bandeiras que nasceram
em cada gota de sangue ou suor.
Hoje é hoje e ontem se foi, não há dúvida.
Hoje é também amanhã, e eu me fui
com algum ano frio que se foi,
se foi comigo e me levou naquele ano.
Disto não há dúvida. Minha ossatura
consistiu, às vezes, em palavras duras
como ossos ao ar e à chuva,
e pude celebrar o que acontece
deixando em vez de canto ou testemunho
um obstinado esqueleto de palavras.
1 092
Pablo Neruda
13
Tenho marcado com cruzes de fogo
o atlas branco de teu corpo.
Minha boca era uma aranha que cruzava escondendo-se.
Em ti, atrás de ti, temerosa, sedenta.
Histórias de se contar à beira do crepúsculo,
boneca triste e doce,para que não ficasses triste.
Um cisne, uma árvore, algo distante e alegre.
O tempo das uvas, o tempo maduro e frugal.
Eu que vivi em um porto de onde te amava.
A solitude cruzada de sono e silêncio.
Encurralado entre o mar e a tristeza.
Calado, delirante, entre dois gondoleiros imóveis.
Entre os lábios e a voz, algo vai morrendo.
Algo com asas de pássaro, algo de angústia e de olvido.
Assim como as redes não retêm a água.
Minha boneca, restam apenas gotas tremendo.
Entretanto, algo canta entre estas palavras fugazes.
Algo canta, algo sobe à minha boca ávida.
Ó, poder celebrar-te com todas as palavras de alegria.
Cantar, arder, fugir, como um campanário das mãos de um louco.
Minha triste ternura, que fazes de repente?
Ao atingir o vértice mais ousado e frio
meu coração se cerra como uma flor noturna.
o atlas branco de teu corpo.
Minha boca era uma aranha que cruzava escondendo-se.
Em ti, atrás de ti, temerosa, sedenta.
Histórias de se contar à beira do crepúsculo,
boneca triste e doce,para que não ficasses triste.
Um cisne, uma árvore, algo distante e alegre.
O tempo das uvas, o tempo maduro e frugal.
Eu que vivi em um porto de onde te amava.
A solitude cruzada de sono e silêncio.
Encurralado entre o mar e a tristeza.
Calado, delirante, entre dois gondoleiros imóveis.
Entre os lábios e a voz, algo vai morrendo.
Algo com asas de pássaro, algo de angústia e de olvido.
Assim como as redes não retêm a água.
Minha boneca, restam apenas gotas tremendo.
Entretanto, algo canta entre estas palavras fugazes.
Algo canta, algo sobe à minha boca ávida.
Ó, poder celebrar-te com todas as palavras de alegria.
Cantar, arder, fugir, como um campanário das mãos de um louco.
Minha triste ternura, que fazes de repente?
Ao atingir o vértice mais ousado e frio
meu coração se cerra como uma flor noturna.
1 393
Pablo Neruda
Charming
A encantadora família
com filhas esquisitamente excêntricas
vai se reunindo na tumba:
uns pela mão da coca,
outros debilitados pelas dívidas:
com olhos pálidos muito grandes
dirigem-se em fila ao mausoléu.
Algum demorou mais que o previsto
(extraviado num safári ou sauna ou cama),
tardio se juntou no crepúsculo
ao chá final da final família.
A generala austera
dirigia
e cada um contava sua história
de casais muito brigões
que simultaneamente trocavam
golpes de mão, prato ou cafeteira,
em Bombaim, Acapulco, Nice ou Rio.
A menor, olhos suaves e amarelos,
chegou a desvestir-se em todas as partes,
precipitadamente tempestuosa,
e um deles saía de um cárcere
condenado por roubos elegantes.
O mundo ia caminhando
porque o tempo imutável caminhava
de bracinho dado com a Reforma Agrária
e era difícil encontrar dinheiro
pendurado nas paredes: o relógio
já não marcava a hora sorrindo:
era outro rosto da tarde imóvel.
Não sei quando se foram:
não é meu papel anotar as saídas:
foi-se aquela família encantadora
e ninguém recorda mais sua existência:
A casa escura é um colégio claro
e na cripta uniram-se os dispersos.
Como se chamam, como se chamarão?
Ninguém pergunta mais, já não há memória,
já não há piedade, e só eu respondo
para mim mesmo, com certa ternura:
porque seres humanos e folhagens
acabam com suas cores, desfolham-se:
continuam assim as vidas e a terra.
com filhas esquisitamente excêntricas
vai se reunindo na tumba:
uns pela mão da coca,
outros debilitados pelas dívidas:
com olhos pálidos muito grandes
dirigem-se em fila ao mausoléu.
Algum demorou mais que o previsto
(extraviado num safári ou sauna ou cama),
tardio se juntou no crepúsculo
ao chá final da final família.
A generala austera
dirigia
e cada um contava sua história
de casais muito brigões
que simultaneamente trocavam
golpes de mão, prato ou cafeteira,
em Bombaim, Acapulco, Nice ou Rio.
A menor, olhos suaves e amarelos,
chegou a desvestir-se em todas as partes,
precipitadamente tempestuosa,
e um deles saía de um cárcere
condenado por roubos elegantes.
O mundo ia caminhando
porque o tempo imutável caminhava
de bracinho dado com a Reforma Agrária
e era difícil encontrar dinheiro
pendurado nas paredes: o relógio
já não marcava a hora sorrindo:
era outro rosto da tarde imóvel.
Não sei quando se foram:
não é meu papel anotar as saídas:
foi-se aquela família encantadora
e ninguém recorda mais sua existência:
A casa escura é um colégio claro
e na cripta uniram-se os dispersos.
Como se chamam, como se chamarão?
Ninguém pergunta mais, já não há memória,
já não há piedade, e só eu respondo
para mim mesmo, com certa ternura:
porque seres humanos e folhagens
acabam com suas cores, desfolham-se:
continuam assim as vidas e a terra.
1 034