Poemas neste tema
Vida e Existência
José Saramago
Protopoema
Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos nós cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de repente não sei se as águas nascem de mim, ou para mim fluem.
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que vagarosamente deslizam sobre a película luminosa dos olhos.
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e firme pulsar de coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu corpo despido brilha debaixo do sol, entre o esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas da memória e o vulto subitamente anunciado do futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que as aves digam nos ramos por que são altos os choupos e rumorosas as suas folhas.
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem, sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas verticais circundam.
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se juntarem às mãos.
Depois saberei tudo.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de repente não sei se as águas nascem de mim, ou para mim fluem.
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que vagarosamente deslizam sobre a película luminosa dos olhos.
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e firme pulsar de coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu corpo despido brilha debaixo do sol, entre o esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas da memória e o vulto subitamente anunciado do futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que as aves digam nos ramos por que são altos os choupos e rumorosas as suas folhas.
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem, sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas verticais circundam.
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se juntarem às mãos.
Depois saberei tudo.
1 499
José Saramago
Uma Só Prece
Uma só prece faço, mas não a Deus,
Que não sei onde está, se me conhece.
À memória da vida me encomendo,
Uns dizem que fatal, outros criada.
Quando o Destino não tem, nem Deus teria,
Outro poder que não lhes fosse dado.
Faço pois uma prece, e que ma oiça
A sombra que serei, resumo e resto
De quanto homem fez, foi e perdeu.
Num gesto já não meu, só de abandono,
O braço que hoje prende há-de cair.
Renasça então na palma que arrefece
A lembrança das rosas e dos seios.
Outra herança não fica que mereça
A partilha de bens na eternidade.
O seio é quanto basta, a rosa sobra
Por memória da vida terminada.
Que não sei onde está, se me conhece.
À memória da vida me encomendo,
Uns dizem que fatal, outros criada.
Quando o Destino não tem, nem Deus teria,
Outro poder que não lhes fosse dado.
Faço pois uma prece, e que ma oiça
A sombra que serei, resumo e resto
De quanto homem fez, foi e perdeu.
Num gesto já não meu, só de abandono,
O braço que hoje prende há-de cair.
Renasça então na palma que arrefece
A lembrança das rosas e dos seios.
Outra herança não fica que mereça
A partilha de bens na eternidade.
O seio é quanto basta, a rosa sobra
Por memória da vida terminada.
1 199
José Saramago
Uma Só Prece
Uma só prece faço, mas não a Deus,
Que não sei onde está, se me conhece.
À memória da vida me encomendo,
Uns dizem que fatal, outros criada.
Quando o Destino não tem, nem Deus teria,
Outro poder que não lhes fosse dado.
Faço pois uma prece, e que ma oiça
A sombra que serei, resumo e resto
De quanto homem fez, foi e perdeu.
Num gesto já não meu, só de abandono,
O braço que hoje prende há-de cair.
Renasça então na palma que arrefece
A lembrança das rosas e dos seios.
Outra herança não fica que mereça
A partilha de bens na eternidade.
O seio é quanto basta, a rosa sobra
Por memória da vida terminada.
Que não sei onde está, se me conhece.
À memória da vida me encomendo,
Uns dizem que fatal, outros criada.
Quando o Destino não tem, nem Deus teria,
Outro poder que não lhes fosse dado.
Faço pois uma prece, e que ma oiça
A sombra que serei, resumo e resto
De quanto homem fez, foi e perdeu.
Num gesto já não meu, só de abandono,
O braço que hoje prende há-de cair.
Renasça então na palma que arrefece
A lembrança das rosas e dos seios.
Outra herança não fica que mereça
A partilha de bens na eternidade.
O seio é quanto basta, a rosa sobra
Por memória da vida terminada.
1 199
José Saramago
Uma Só Prece
Uma só prece faço, mas não a Deus,
Que não sei onde está, se me conhece.
À memória da vida me encomendo,
Uns dizem que fatal, outros criada.
Quando o Destino não tem, nem Deus teria,
Outro poder que não lhes fosse dado.
Faço pois uma prece, e que ma oiça
A sombra que serei, resumo e resto
De quanto homem fez, foi e perdeu.
Num gesto já não meu, só de abandono,
O braço que hoje prende há-de cair.
Renasça então na palma que arrefece
A lembrança das rosas e dos seios.
Outra herança não fica que mereça
A partilha de bens na eternidade.
O seio é quanto basta, a rosa sobra
Por memória da vida terminada.
Que não sei onde está, se me conhece.
À memória da vida me encomendo,
Uns dizem que fatal, outros criada.
Quando o Destino não tem, nem Deus teria,
Outro poder que não lhes fosse dado.
Faço pois uma prece, e que ma oiça
A sombra que serei, resumo e resto
De quanto homem fez, foi e perdeu.
Num gesto já não meu, só de abandono,
O braço que hoje prende há-de cair.
Renasça então na palma que arrefece
A lembrança das rosas e dos seios.
Outra herança não fica que mereça
A partilha de bens na eternidade.
O seio é quanto basta, a rosa sobra
Por memória da vida terminada.
1 199
José Saramago
Uma Só Prece
Uma só prece faço, mas não a Deus,
Que não sei onde está, se me conhece.
À memória da vida me encomendo,
Uns dizem que fatal, outros criada.
Quando o Destino não tem, nem Deus teria,
Outro poder que não lhes fosse dado.
Faço pois uma prece, e que ma oiça
A sombra que serei, resumo e resto
De quanto homem fez, foi e perdeu.
Num gesto já não meu, só de abandono,
O braço que hoje prende há-de cair.
Renasça então na palma que arrefece
A lembrança das rosas e dos seios.
Outra herança não fica que mereça
A partilha de bens na eternidade.
O seio é quanto basta, a rosa sobra
Por memória da vida terminada.
Que não sei onde está, se me conhece.
À memória da vida me encomendo,
Uns dizem que fatal, outros criada.
Quando o Destino não tem, nem Deus teria,
Outro poder que não lhes fosse dado.
Faço pois uma prece, e que ma oiça
A sombra que serei, resumo e resto
De quanto homem fez, foi e perdeu.
Num gesto já não meu, só de abandono,
O braço que hoje prende há-de cair.
Renasça então na palma que arrefece
A lembrança das rosas e dos seios.
Outra herança não fica que mereça
A partilha de bens na eternidade.
O seio é quanto basta, a rosa sobra
Por memória da vida terminada.
1 199
José Saramago
Uma Só Prece
Uma só prece faço, mas não a Deus,
Que não sei onde está, se me conhece.
À memória da vida me encomendo,
Uns dizem que fatal, outros criada.
Quando o Destino não tem, nem Deus teria,
Outro poder que não lhes fosse dado.
Faço pois uma prece, e que ma oiça
A sombra que serei, resumo e resto
De quanto homem fez, foi e perdeu.
Num gesto já não meu, só de abandono,
O braço que hoje prende há-de cair.
Renasça então na palma que arrefece
A lembrança das rosas e dos seios.
Outra herança não fica que mereça
A partilha de bens na eternidade.
O seio é quanto basta, a rosa sobra
Por memória da vida terminada.
Que não sei onde está, se me conhece.
À memória da vida me encomendo,
Uns dizem que fatal, outros criada.
Quando o Destino não tem, nem Deus teria,
Outro poder que não lhes fosse dado.
Faço pois uma prece, e que ma oiça
A sombra que serei, resumo e resto
De quanto homem fez, foi e perdeu.
Num gesto já não meu, só de abandono,
O braço que hoje prende há-de cair.
Renasça então na palma que arrefece
A lembrança das rosas e dos seios.
Outra herança não fica que mereça
A partilha de bens na eternidade.
O seio é quanto basta, a rosa sobra
Por memória da vida terminada.
1 199
José Saramago
Uma Só Prece
Uma só prece faço, mas não a Deus,
Que não sei onde está, se me conhece.
À memória da vida me encomendo,
Uns dizem que fatal, outros criada.
Quando o Destino não tem, nem Deus teria,
Outro poder que não lhes fosse dado.
Faço pois uma prece, e que ma oiça
A sombra que serei, resumo e resto
De quanto homem fez, foi e perdeu.
Num gesto já não meu, só de abandono,
O braço que hoje prende há-de cair.
Renasça então na palma que arrefece
A lembrança das rosas e dos seios.
Outra herança não fica que mereça
A partilha de bens na eternidade.
O seio é quanto basta, a rosa sobra
Por memória da vida terminada.
Que não sei onde está, se me conhece.
À memória da vida me encomendo,
Uns dizem que fatal, outros criada.
Quando o Destino não tem, nem Deus teria,
Outro poder que não lhes fosse dado.
Faço pois uma prece, e que ma oiça
A sombra que serei, resumo e resto
De quanto homem fez, foi e perdeu.
Num gesto já não meu, só de abandono,
O braço que hoje prende há-de cair.
Renasça então na palma que arrefece
A lembrança das rosas e dos seios.
Outra herança não fica que mereça
A partilha de bens na eternidade.
O seio é quanto basta, a rosa sobra
Por memória da vida terminada.
1 199
José Saramago
Elegia À Moda Antiga
Nem tão tarde que me farte
Nem que me raive de cedo
Quando o mundo não tiver
Nada mais por descobrir
Quando o amor se acabar
Morra com ele o desejo
De ficar a ver as sobras
Os restos da vida cheia
Parado à beira do rio
Onde as águas não descansam
No outro lado milagres
E margens verdes eternas
Enterro os dedos no lodo
Quatrocentas gerações
Um grande sonho pairando
Enquanto o céu se carrega
Ai o destino dos homens
Ai o destino de mim
Corta-se a voz ao para encontrar
Consolo só no fim
Nem que me raive de cedo
Quando o mundo não tiver
Nada mais por descobrir
Quando o amor se acabar
Morra com ele o desejo
De ficar a ver as sobras
Os restos da vida cheia
Parado à beira do rio
Onde as águas não descansam
No outro lado milagres
E margens verdes eternas
Enterro os dedos no lodo
Quatrocentas gerações
Um grande sonho pairando
Enquanto o céu se carrega
Ai o destino dos homens
Ai o destino de mim
Corta-se a voz ao para encontrar
Consolo só no fim
1 102
José Saramago
Elegia À Moda Antiga
Nem tão tarde que me farte
Nem que me raive de cedo
Quando o mundo não tiver
Nada mais por descobrir
Quando o amor se acabar
Morra com ele o desejo
De ficar a ver as sobras
Os restos da vida cheia
Parado à beira do rio
Onde as águas não descansam
No outro lado milagres
E margens verdes eternas
Enterro os dedos no lodo
Quatrocentas gerações
Um grande sonho pairando
Enquanto o céu se carrega
Ai o destino dos homens
Ai o destino de mim
Corta-se a voz ao para encontrar
Consolo só no fim
Nem que me raive de cedo
Quando o mundo não tiver
Nada mais por descobrir
Quando o amor se acabar
Morra com ele o desejo
De ficar a ver as sobras
Os restos da vida cheia
Parado à beira do rio
Onde as águas não descansam
No outro lado milagres
E margens verdes eternas
Enterro os dedos no lodo
Quatrocentas gerações
Um grande sonho pairando
Enquanto o céu se carrega
Ai o destino dos homens
Ai o destino de mim
Corta-se a voz ao para encontrar
Consolo só no fim
1 102
José Saramago
Elegia À Moda Antiga
Nem tão tarde que me farte
Nem que me raive de cedo
Quando o mundo não tiver
Nada mais por descobrir
Quando o amor se acabar
Morra com ele o desejo
De ficar a ver as sobras
Os restos da vida cheia
Parado à beira do rio
Onde as águas não descansam
No outro lado milagres
E margens verdes eternas
Enterro os dedos no lodo
Quatrocentas gerações
Um grande sonho pairando
Enquanto o céu se carrega
Ai o destino dos homens
Ai o destino de mim
Corta-se a voz ao para encontrar
Consolo só no fim
Nem que me raive de cedo
Quando o mundo não tiver
Nada mais por descobrir
Quando o amor se acabar
Morra com ele o desejo
De ficar a ver as sobras
Os restos da vida cheia
Parado à beira do rio
Onde as águas não descansam
No outro lado milagres
E margens verdes eternas
Enterro os dedos no lodo
Quatrocentas gerações
Um grande sonho pairando
Enquanto o céu se carrega
Ai o destino dos homens
Ai o destino de mim
Corta-se a voz ao para encontrar
Consolo só no fim
1 102
José Saramago
Hora
Vou no caminho esparso, à luz difusa
Do longo amanhecer: o sol não falta
Ao encontro marcado no silêncio
Da noite que se afasta.
A certeza do sol, a madrugada,
O meu corpo de terra, descoberto
Nesta rosa doirada que da morte
Traz a vida tão perto.
Do longo amanhecer: o sol não falta
Ao encontro marcado no silêncio
Da noite que se afasta.
A certeza do sol, a madrugada,
O meu corpo de terra, descoberto
Nesta rosa doirada que da morte
Traz a vida tão perto.
1 286
José Saramago
Hora
Vou no caminho esparso, à luz difusa
Do longo amanhecer: o sol não falta
Ao encontro marcado no silêncio
Da noite que se afasta.
A certeza do sol, a madrugada,
O meu corpo de terra, descoberto
Nesta rosa doirada que da morte
Traz a vida tão perto.
Do longo amanhecer: o sol não falta
Ao encontro marcado no silêncio
Da noite que se afasta.
A certeza do sol, a madrugada,
O meu corpo de terra, descoberto
Nesta rosa doirada que da morte
Traz a vida tão perto.
1 286
José Saramago
Hora
Vou no caminho esparso, à luz difusa
Do longo amanhecer: o sol não falta
Ao encontro marcado no silêncio
Da noite que se afasta.
A certeza do sol, a madrugada,
O meu corpo de terra, descoberto
Nesta rosa doirada que da morte
Traz a vida tão perto.
Do longo amanhecer: o sol não falta
Ao encontro marcado no silêncio
Da noite que se afasta.
A certeza do sol, a madrugada,
O meu corpo de terra, descoberto
Nesta rosa doirada que da morte
Traz a vida tão perto.
1 286
José Saramago
Disseram Que Havia Sol
Disseram que havia sol
Que todo o céu descobria
Que nas ramagens pousavam
Os cantos das aves loucas
Disseram que havia risos
Que as rosas se desdobravam
Que no silêncio dos campos
Se davam corpos e bocas
Mais disseram que era tarde
Que a tarde já descaía
Que ao amor não lhe bastavam
Estas nossas vidas poucas
E disseram que ao acento
De tão geral harmonia
Faltava a simples canção
Das nossas gargantas roucas
Ó meu amor estas vozes
São os avisos do tempo
Que todo o céu descobria
Que nas ramagens pousavam
Os cantos das aves loucas
Disseram que havia risos
Que as rosas se desdobravam
Que no silêncio dos campos
Se davam corpos e bocas
Mais disseram que era tarde
Que a tarde já descaía
Que ao amor não lhe bastavam
Estas nossas vidas poucas
E disseram que ao acento
De tão geral harmonia
Faltava a simples canção
Das nossas gargantas roucas
Ó meu amor estas vozes
São os avisos do tempo
1 186
José Saramago
Passa No Pensamento
Passa no pensamento a passo
Um animal cavalo
Em vez de laço e pasto a foice
Na venta trespassada
Enquanto o braço abusa do cansaço
Do cavalo animal à chicotada
Entre as pernas do bicho a cicatriz
Que o animal não quis
E a pata almofadada de modo que não sofra
A pedra da calçada
E sentadas nas bermas as velhas abrem coxas
Entre as coxas cabeças decepadas
Com as línguas de fora escarnecentes
E tenazes nos dentes
A rua tem donzelas nas janelas
Que é esse o lugar delas
Enquanto o animal torce o pescoço
A ver se cai a urna que transporta
E não cabe na porta
Levantaram-se as velhas dos passeios
As cabeças rolaram penduradas
Da tripa umbilical
As donzelas taparam as orelhas
E mostraram os seios
Ao cavalo animal
Numa bandeja de prata
Uma menina de branco
Cinta de fina escarlata
Traz o membro do cavalo
Enquanto o morto descansa
Vão buscá-lo
Um animal cavalo
Em vez de laço e pasto a foice
Na venta trespassada
Enquanto o braço abusa do cansaço
Do cavalo animal à chicotada
Entre as pernas do bicho a cicatriz
Que o animal não quis
E a pata almofadada de modo que não sofra
A pedra da calçada
E sentadas nas bermas as velhas abrem coxas
Entre as coxas cabeças decepadas
Com as línguas de fora escarnecentes
E tenazes nos dentes
A rua tem donzelas nas janelas
Que é esse o lugar delas
Enquanto o animal torce o pescoço
A ver se cai a urna que transporta
E não cabe na porta
Levantaram-se as velhas dos passeios
As cabeças rolaram penduradas
Da tripa umbilical
As donzelas taparam as orelhas
E mostraram os seios
Ao cavalo animal
Numa bandeja de prata
Uma menina de branco
Cinta de fina escarlata
Traz o membro do cavalo
Enquanto o morto descansa
Vão buscá-lo
992
José Saramago
Teu Corpo de Terra E Água
Teu corpo de terra e água
Onde a quilha do meu barco
Onde a relha do arado
Abrem rotas e caminho
Teu ventre de seivas brancas
Tuas rosas paralelas
Tuas colunas teu centro
Teu fogo de verde pinho
Tua boca verdadeira
Teu destino minha alma
Tua balança de prata
Teus olhos de mel e vinho
Bem que o mundo não seria
Se o nosso amor lhe faltasse
Mas as manhãs que não temos
São nossos lençóis de linho
Onde a quilha do meu barco
Onde a relha do arado
Abrem rotas e caminho
Teu ventre de seivas brancas
Tuas rosas paralelas
Tuas colunas teu centro
Teu fogo de verde pinho
Tua boca verdadeira
Teu destino minha alma
Tua balança de prata
Teus olhos de mel e vinho
Bem que o mundo não seria
Se o nosso amor lhe faltasse
Mas as manhãs que não temos
São nossos lençóis de linho
1 193
José Saramago
Palma Com Palma
Palma com palma,
Coração e coração, e gosto de alma
No mais fundo do corpo revelado.
Já a pele não separa, que as palavras
São espelhos rigorosos da verdade
E todas se articulam deste lado.
Linhas mestras da mão abram caminho
Onde possam caber os passos firmes
Da rainha e do rei desta cidade.
Coração e coração, e gosto de alma
No mais fundo do corpo revelado.
Já a pele não separa, que as palavras
São espelhos rigorosos da verdade
E todas se articulam deste lado.
Linhas mestras da mão abram caminho
Onde possam caber os passos firmes
Da rainha e do rei desta cidade.
1 136
José Saramago
Ó Tristeza da Pedra
Ó tristeza da pedra
Ó tristeza da pedra, tão fechada
Na montanha da noite e na lonjura
Que a separa do rio.
Ó alma viajante sobre a espada,
Quanto mais adiante, mais escura,
No cortante do fio.
Ó meu corpo de torre e de palmeira,
Agora derrubado porque a força
Se verteu como o vinho.
Minha cama vazia, minha esteira,
Minha fonte queimada de que a corça
Já recusa o caminho.
Ó flor de três pétalas, trevo branco
Sobre a terra vermelha, fim do mundo
Quando o mundo começa.
Ó miséria sombria, pobre manco,
Do orvalho do trevo, agora imundo,
Faz um espelho e confessa.
Ó tristeza da pedra, tão fechada
Na montanha da noite e na lonjura
Que a separa do rio.
Ó alma viajante sobre a espada,
Quanto mais adiante, mais escura,
No cortante do fio.
Ó meu corpo de torre e de palmeira,
Agora derrubado porque a força
Se verteu como o vinho.
Minha cama vazia, minha esteira,
Minha fonte queimada de que a corça
Já recusa o caminho.
Ó flor de três pétalas, trevo branco
Sobre a terra vermelha, fim do mundo
Quando o mundo começa.
Ó miséria sombria, pobre manco,
Do orvalho do trevo, agora imundo,
Faz um espelho e confessa.
1 103
José Saramago
Eu Luminoso Não Sou
Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se no fundo do poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se no fundo do poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.
998
José Saramago
Lá No Centro do Mar
Lá no centro do mar, lá nos confins
Onde nascem os ventos, onde o sol
Sobre as águas doiradas se demora;
Lá no espaço das fontes e verduras,
Dos brandos animais, da terra virgem,
Onde cantam as aves naturais:
Meu amor, minha ilha descoberta,
É de longe, da vida naufragada,
Que descanso nas praias do teu ventre,
Enquanto lentamente as mãos do vento,
Ao passar sobre o peito e as colinas,
Erguem ondas de fogo em movimento.
Onde nascem os ventos, onde o sol
Sobre as águas doiradas se demora;
Lá no espaço das fontes e verduras,
Dos brandos animais, da terra virgem,
Onde cantam as aves naturais:
Meu amor, minha ilha descoberta,
É de longe, da vida naufragada,
Que descanso nas praias do teu ventre,
Enquanto lentamente as mãos do vento,
Ao passar sobre o peito e as colinas,
Erguem ondas de fogo em movimento.
1 181
José Saramago
Tenho a Alma Queimada
Tenho a alma queimada
Por saliva de sapo
Fingindo que descubro
Tapo
A palavra me infecta
Sob a pele da aparência
Deito o certo remédio
Paciência
Neste mal não se vive
Mas também ninguém morre
Quando a ave não voa
Corre
Quem às estrelas não chega
Pode vê-las da terra
Quem não tem voz de cantar
Berra
Por saliva de sapo
Fingindo que descubro
Tapo
A palavra me infecta
Sob a pele da aparência
Deito o certo remédio
Paciência
Neste mal não se vive
Mas também ninguém morre
Quando a ave não voa
Corre
Quem às estrelas não chega
Pode vê-las da terra
Quem não tem voz de cantar
Berra
1 083
José Saramago
É Um Livro de Boa-Fé
É um livro de boa-fé, disse Montaigne.
Ninguém sabe o que esta frase quer dizer, declara o professor, enxugando os olhos, e chama um contínuo para que lhe traga um copo doutra água.
Entretanto o aluno mais novo saiu pela janela e teve todas as revelações do Buda.
Mas quando chegou debaixo do salgueiro estava uma mulher deitada e nua, que repousava a cabeça num livro de páginas brancas.
Estava também o infinito, era azul depois de um caminho vermelho, e branco depois de uma cortina dourada.
Então o professor disse que faltava um aluno e que não valia a pena continuar a aula.
Desde aí o salgueiro ficou sendo um lugar de peregrinação.
Mas só eleitos capazes de sair voando de uma aula poderiam ver os dois corpos deitados, e até hoje ninguém os viu, embora lá estejam movendo-se infinitamente.
Por isso a história começa sem começar e acaba sem acabar.
Como qualquer coisa que se parecesse muito com o infinito.
Ninguém sabe o que esta frase quer dizer, declara o professor, enxugando os olhos, e chama um contínuo para que lhe traga um copo doutra água.
Entretanto o aluno mais novo saiu pela janela e teve todas as revelações do Buda.
Mas quando chegou debaixo do salgueiro estava uma mulher deitada e nua, que repousava a cabeça num livro de páginas brancas.
Estava também o infinito, era azul depois de um caminho vermelho, e branco depois de uma cortina dourada.
Então o professor disse que faltava um aluno e que não valia a pena continuar a aula.
Desde aí o salgueiro ficou sendo um lugar de peregrinação.
Mas só eleitos capazes de sair voando de uma aula poderiam ver os dois corpos deitados, e até hoje ninguém os viu, embora lá estejam movendo-se infinitamente.
Por isso a história começa sem começar e acaba sem acabar.
Como qualquer coisa que se parecesse muito com o infinito.
994
José Saramago
Estou Onde o Verso Faço
Estou onde o verso faço, e erro o verso
Porque a fuga do tempo, ao núcleo escasso,
Tira a carne do fruto até ao osso.
Rilho no fel o dente e o desafio,
Tal, vagaroso, o bicho em jaula morde,
No travor do caroço, a memória do mel.
Porque a fuga do tempo, ao núcleo escasso,
Tira a carne do fruto até ao osso.
Rilho no fel o dente e o desafio,
Tal, vagaroso, o bicho em jaula morde,
No travor do caroço, a memória do mel.
1 121
José Saramago
Onde
Onde os olhos se fecham; onde o tempo
Faz ressoar o búzio do silêncio;
Onde o claro desmaio se dissolve
No aroma dos nardos e do sexo;
Onde os membros são laços, e as bocas
Não respiram, arquejam violentas;
Onde os dedos retraçam novas órbitas
Pelo espaço dos corpos e dos astros;
Onde a breve agonia; onde na pele
Se confunde o suor; onde o amor.
Faz ressoar o búzio do silêncio;
Onde o claro desmaio se dissolve
No aroma dos nardos e do sexo;
Onde os membros são laços, e as bocas
Não respiram, arquejam violentas;
Onde os dedos retraçam novas órbitas
Pelo espaço dos corpos e dos astros;
Onde a breve agonia; onde na pele
Se confunde o suor; onde o amor.
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