Poemas neste tema
Vida e Existência
Pablo Neruda
Ressurreição
Eu diminuo a cada dia que corre e que cai,
como se nascesse: é a aurora em meu sangue; sacudo a roupa,
se enredam os ramos do carvalho, coroa o orvalho com sete diademas minhas recém-nascidas orelhas,
no meio-dia reluzo como uma papoula em um traje de luto,
mais tarde a luz ferroviária que fugiu transmigrando os arquipélagos
se agarra a meus pés convidando-me a fugir com os trens
que alongam o dia do Chile por uma semana
e quando saciada a sombra com o luminoso alimento
estática se abre mostrando em seu seio moreno a ponta de Vênus
eu durmo feito noite, feito criança ou laranja,
extinto e prenhe do novo ditame do dia.
como se nascesse: é a aurora em meu sangue; sacudo a roupa,
se enredam os ramos do carvalho, coroa o orvalho com sete diademas minhas recém-nascidas orelhas,
no meio-dia reluzo como uma papoula em um traje de luto,
mais tarde a luz ferroviária que fugiu transmigrando os arquipélagos
se agarra a meus pés convidando-me a fugir com os trens
que alongam o dia do Chile por uma semana
e quando saciada a sombra com o luminoso alimento
estática se abre mostrando em seu seio moreno a ponta de Vênus
eu durmo feito noite, feito criança ou laranja,
extinto e prenhe do novo ditame do dia.
1 000
Pablo Neruda
XI - Os homens
Vê-se que nascemos para nos ouvir e nos ver,
para nos medir (quanto saltamos, quanto ganhamos,
ganhamos, etc.),para nos ignorar (sorrindo), para nos mentir,
para o acordo, para a indiferença ou para comer juntos.
Mas que ninguém não nos mostre a terra, adquirimos
olvido, olvido até os sonhos de ar,
e nos ficou somente um desejo de sangue e pó
na língua: engolimos a lembrança
entre vinho e cerveja, longe, longe daquilo,
longe daquilo, da mãe, da terra, da vida.
para nos medir (quanto saltamos, quanto ganhamos,
ganhamos, etc.),para nos ignorar (sorrindo), para nos mentir,
para o acordo, para a indiferença ou para comer juntos.
Mas que ninguém não nos mostre a terra, adquirimos
olvido, olvido até os sonhos de ar,
e nos ficou somente um desejo de sangue e pó
na língua: engolimos a lembrança
entre vinho e cerveja, longe, longe daquilo,
longe daquilo, da mãe, da terra, da vida.
1 121
Pablo Neruda
XI - Os homens
Vê-se que nascemos para nos ouvir e nos ver,
para nos medir (quanto saltamos, quanto ganhamos,
ganhamos, etc.),para nos ignorar (sorrindo), para nos mentir,
para o acordo, para a indiferença ou para comer juntos.
Mas que ninguém não nos mostre a terra, adquirimos
olvido, olvido até os sonhos de ar,
e nos ficou somente um desejo de sangue e pó
na língua: engolimos a lembrança
entre vinho e cerveja, longe, longe daquilo,
longe daquilo, da mãe, da terra, da vida.
para nos medir (quanto saltamos, quanto ganhamos,
ganhamos, etc.),para nos ignorar (sorrindo), para nos mentir,
para o acordo, para a indiferença ou para comer juntos.
Mas que ninguém não nos mostre a terra, adquirimos
olvido, olvido até os sonhos de ar,
e nos ficou somente um desejo de sangue e pó
na língua: engolimos a lembrança
entre vinho e cerveja, longe, longe daquilo,
longe daquilo, da mãe, da terra, da vida.
1 121
Pablo Neruda
Os dias
Quem separa o ontem da noite e do hoje que emprenhava sua taça?
E que lâmina de água incessante ou de bronze roído ou de gelo
impediu que acudisse meu peito às chamas que me
procriaram?
E quem sou? pergunto às ondas quando enfim naveguei sem navio
e pude me dar conta que o mar eu mesmo o levava nos olhos.
No entanto este dia que ardeu e consumiu sua distância
deixou para trás suas sombrias origens, olvidou a uterina treva,
e cresceu como a levedura levantando para cima os braços
até que desagregou a substância da luz que o favorecia,
e se foi separando do céu até que convertido outra vez em família da fumaça
se desfez na sombra que outra vez convertida em abelha
saía voando na luz de outro dia radiante e redondo.
E que lâmina de água incessante ou de bronze roído ou de gelo
impediu que acudisse meu peito às chamas que me
procriaram?
E quem sou? pergunto às ondas quando enfim naveguei sem navio
e pude me dar conta que o mar eu mesmo o levava nos olhos.
No entanto este dia que ardeu e consumiu sua distância
deixou para trás suas sombrias origens, olvidou a uterina treva,
e cresceu como a levedura levantando para cima os braços
até que desagregou a substância da luz que o favorecia,
e se foi separando do céu até que convertido outra vez em família da fumaça
se desfez na sombra que outra vez convertida em abelha
saía voando na luz de outro dia radiante e redondo.
554
Pablo Neruda
Os dias
Quem separa o ontem da noite e do hoje que emprenhava sua taça?
E que lâmina de água incessante ou de bronze roído ou de gelo
impediu que acudisse meu peito às chamas que me
procriaram?
E quem sou? pergunto às ondas quando enfim naveguei sem navio
e pude me dar conta que o mar eu mesmo o levava nos olhos.
No entanto este dia que ardeu e consumiu sua distância
deixou para trás suas sombrias origens, olvidou a uterina treva,
e cresceu como a levedura levantando para cima os braços
até que desagregou a substância da luz que o favorecia,
e se foi separando do céu até que convertido outra vez em família da fumaça
se desfez na sombra que outra vez convertida em abelha
saía voando na luz de outro dia radiante e redondo.
E que lâmina de água incessante ou de bronze roído ou de gelo
impediu que acudisse meu peito às chamas que me
procriaram?
E quem sou? pergunto às ondas quando enfim naveguei sem navio
e pude me dar conta que o mar eu mesmo o levava nos olhos.
No entanto este dia que ardeu e consumiu sua distância
deixou para trás suas sombrias origens, olvidou a uterina treva,
e cresceu como a levedura levantando para cima os braços
até que desagregou a substância da luz que o favorecia,
e se foi separando do céu até que convertido outra vez em família da fumaça
se desfez na sombra que outra vez convertida em abelha
saía voando na luz de outro dia radiante e redondo.
554
Pablo Neruda
Os dias
Quem separa o ontem da noite e do hoje que emprenhava sua taça?
E que lâmina de água incessante ou de bronze roído ou de gelo
impediu que acudisse meu peito às chamas que me
procriaram?
E quem sou? pergunto às ondas quando enfim naveguei sem navio
e pude me dar conta que o mar eu mesmo o levava nos olhos.
No entanto este dia que ardeu e consumiu sua distância
deixou para trás suas sombrias origens, olvidou a uterina treva,
e cresceu como a levedura levantando para cima os braços
até que desagregou a substância da luz que o favorecia,
e se foi separando do céu até que convertido outra vez em família da fumaça
se desfez na sombra que outra vez convertida em abelha
saía voando na luz de outro dia radiante e redondo.
E que lâmina de água incessante ou de bronze roído ou de gelo
impediu que acudisse meu peito às chamas que me
procriaram?
E quem sou? pergunto às ondas quando enfim naveguei sem navio
e pude me dar conta que o mar eu mesmo o levava nos olhos.
No entanto este dia que ardeu e consumiu sua distância
deixou para trás suas sombrias origens, olvidou a uterina treva,
e cresceu como a levedura levantando para cima os braços
até que desagregou a substância da luz que o favorecia,
e se foi separando do céu até que convertido outra vez em família da fumaça
se desfez na sombra que outra vez convertida em abelha
saía voando na luz de outro dia radiante e redondo.
554
Pablo Neruda
Os dias
Quem separa o ontem da noite e do hoje que emprenhava sua taça?
E que lâmina de água incessante ou de bronze roído ou de gelo
impediu que acudisse meu peito às chamas que me
procriaram?
E quem sou? pergunto às ondas quando enfim naveguei sem navio
e pude me dar conta que o mar eu mesmo o levava nos olhos.
No entanto este dia que ardeu e consumiu sua distância
deixou para trás suas sombrias origens, olvidou a uterina treva,
e cresceu como a levedura levantando para cima os braços
até que desagregou a substância da luz que o favorecia,
e se foi separando do céu até que convertido outra vez em família da fumaça
se desfez na sombra que outra vez convertida em abelha
saía voando na luz de outro dia radiante e redondo.
E que lâmina de água incessante ou de bronze roído ou de gelo
impediu que acudisse meu peito às chamas que me
procriaram?
E quem sou? pergunto às ondas quando enfim naveguei sem navio
e pude me dar conta que o mar eu mesmo o levava nos olhos.
No entanto este dia que ardeu e consumiu sua distância
deixou para trás suas sombrias origens, olvidou a uterina treva,
e cresceu como a levedura levantando para cima os braços
até que desagregou a substância da luz que o favorecia,
e se foi separando do céu até que convertido outra vez em família da fumaça
se desfez na sombra que outra vez convertida em abelha
saía voando na luz de outro dia radiante e redondo.
554
Pablo Neruda
Tarde - LVII
Mentem os que disseram que eu perdi a lua,
os que profetizaram meu porvir de areia,
asseveraram tantas coisas com línguas frias:
quiseram proibir a flor do universo.
“Já não cantará mais o âmbar insurgente
da sereia, não tem senão povo.”
E mastigavam seus incessantes papéis
patrocinando para minha guitarra o esquecimento.
Eu lhes lancei aos olhos as lanças deslumbrantes
de nosso amor cravando teu coração e o meu,
eu reclamei o jasmim que deixavam tuas pegadas,
eu me perdi de noite sem luz sob tuas pálpebras
e quando me envolveu a claridade
nasci de novo, dono de minha própria treva.
os que profetizaram meu porvir de areia,
asseveraram tantas coisas com línguas frias:
quiseram proibir a flor do universo.
“Já não cantará mais o âmbar insurgente
da sereia, não tem senão povo.”
E mastigavam seus incessantes papéis
patrocinando para minha guitarra o esquecimento.
Eu lhes lancei aos olhos as lanças deslumbrantes
de nosso amor cravando teu coração e o meu,
eu reclamei o jasmim que deixavam tuas pegadas,
eu me perdi de noite sem luz sob tuas pálpebras
e quando me envolveu a claridade
nasci de novo, dono de minha própria treva.
1 217
Pablo Neruda
IV - Os Homens
Somos torpes os transeuntes, nos atropelamos de cotovelos,
de pés, de calças, de maletas,
descemos do trem, do jato, do navio, descemos
com roupas amassadas e chapéus funestos.
Somos culpáveis, somos pecadores,
chegamos de hotéis estagnados ou da paz industrial,
esta é talvez a última camisa limpa,
perdemos a gravata,
mas ainda assim, deslocados, solenes,
filhos da puta considerados nos melhores ambientes,
ou simples taciturnos que não devemos nada a ninguém,
somos os mesmos e o mesmo diante do tempo,
diante da solidão: os pobres homens
que ganharam a vida e a morte trabalhando
de maneira normal ou burotrágica,
sentados ou amontoados nas estações do metrô,
nos barcos, nas minas, nos centros de estudo, nos cárceres,
nas universidades, nas fábricas de cerveja
(debaixo da roupa a mesma pele sedenta
e o cabelo, o mesmo cabelo, repartido em cores).
de pés, de calças, de maletas,
descemos do trem, do jato, do navio, descemos
com roupas amassadas e chapéus funestos.
Somos culpáveis, somos pecadores,
chegamos de hotéis estagnados ou da paz industrial,
esta é talvez a última camisa limpa,
perdemos a gravata,
mas ainda assim, deslocados, solenes,
filhos da puta considerados nos melhores ambientes,
ou simples taciturnos que não devemos nada a ninguém,
somos os mesmos e o mesmo diante do tempo,
diante da solidão: os pobres homens
que ganharam a vida e a morte trabalhando
de maneira normal ou burotrágica,
sentados ou amontoados nas estações do metrô,
nos barcos, nas minas, nos centros de estudo, nos cárceres,
nas universidades, nas fábricas de cerveja
(debaixo da roupa a mesma pele sedenta
e o cabelo, o mesmo cabelo, repartido em cores).
1 219
Pablo Neruda
Noite - XCVI
Penso, esta época em que tu me amaste
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.
Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.
Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros5.
E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.
5 Pipipasseiros – palavra composta, invenção nerudiana. (N.T.)
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.
Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.
Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros5.
E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.
5 Pipipasseiros – palavra composta, invenção nerudiana. (N.T.)
1 133
Pablo Neruda
Noite - XCVI
Penso, esta época em que tu me amaste
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.
Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.
Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros5.
E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.
5 Pipipasseiros – palavra composta, invenção nerudiana. (N.T.)
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.
Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.
Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros5.
E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.
5 Pipipasseiros – palavra composta, invenção nerudiana. (N.T.)
1 133
Pablo Neruda
Noite - XCVI
Penso, esta época em que tu me amaste
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.
Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.
Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros5.
E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.
5 Pipipasseiros – palavra composta, invenção nerudiana. (N.T.)
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.
Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.
Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros5.
E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.
5 Pipipasseiros – palavra composta, invenção nerudiana. (N.T.)
1 133
Pablo Neruda
LVIII
E o que palpitava na noite?
Eram planetas ou ferraduras?
Devo escolher esta manhã
entre o mar desnudo e o céu?
E por que o céu está vestido
tão cedo com suas neblinas?
O que me esperava em Ilha Negra?
A verdade verde ou o decoro?
Eram planetas ou ferraduras?
Devo escolher esta manhã
entre o mar desnudo e o céu?
E por que o céu está vestido
tão cedo com suas neblinas?
O que me esperava em Ilha Negra?
A verdade verde ou o decoro?
952
Pablo Neruda
Se Chama a Uma Porta
Se chama a uma porta de pedra
na costa, na areia,
com muitas mãos de água.
A rocha não responde.
Ninguém abrirá. Chamar é perder água,
perder tempo.
Se chama, ainda,
se bate
todo dia e ano,
todo o século, os séculos.
Pôr fim algo passou.
A pedra é outra.
Há uma curva sonora como um seio,
há um canal por onde passa a água,
a rocha não é a mesma e é a mesma.
Ali onde era duro o recife
a onda sobe suave pela porta
terrestre.
na costa, na areia,
com muitas mãos de água.
A rocha não responde.
Ninguém abrirá. Chamar é perder água,
perder tempo.
Se chama, ainda,
se bate
todo dia e ano,
todo o século, os séculos.
Pôr fim algo passou.
A pedra é outra.
Há uma curva sonora como um seio,
há um canal por onde passa a água,
a rocha não é a mesma e é a mesma.
Ali onde era duro o recife
a onda sobe suave pela porta
terrestre.
1 345
Pablo Neruda
Se Chama a Uma Porta
Se chama a uma porta de pedra
na costa, na areia,
com muitas mãos de água.
A rocha não responde.
Ninguém abrirá. Chamar é perder água,
perder tempo.
Se chama, ainda,
se bate
todo dia e ano,
todo o século, os séculos.
Pôr fim algo passou.
A pedra é outra.
Há uma curva sonora como um seio,
há um canal por onde passa a água,
a rocha não é a mesma e é a mesma.
Ali onde era duro o recife
a onda sobe suave pela porta
terrestre.
na costa, na areia,
com muitas mãos de água.
A rocha não responde.
Ninguém abrirá. Chamar é perder água,
perder tempo.
Se chama, ainda,
se bate
todo dia e ano,
todo o século, os séculos.
Pôr fim algo passou.
A pedra é outra.
Há uma curva sonora como um seio,
há um canal por onde passa a água,
a rocha não é a mesma e é a mesma.
Ali onde era duro o recife
a onda sobe suave pela porta
terrestre.
1 345
Pablo Neruda
Noite - LXXXIII
É bom, amor, sentir-te perto de mim na noite,
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.
Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.
Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos
algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.
Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.
Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos
algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.
1 323
Pablo Neruda
Lento
Dom Rápido Rodriguez
não me convém;
Dona Pirilampa Aguda
não é meu amor;
para andar com meus passos amarelos
tem que viver dentro
das coisas espessas:
— barro, madeira, quartzo,
metais,
construções de ladrilho
— tem que saber fechar os olhos
na luz,
os abrir na sombra,
esperar.
não me convém;
Dona Pirilampa Aguda
não é meu amor;
para andar com meus passos amarelos
tem que viver dentro
das coisas espessas:
— barro, madeira, quartzo,
metais,
construções de ladrilho
— tem que saber fechar os olhos
na luz,
os abrir na sombra,
esperar.
622
Pablo Neruda
LIX
Por que não nasci misterioso?
Por que cresci sem companhia?
Quem me mandou desvencilhar
as portas de meu próprio orgulho?
E quem saiu para viver por mim
quando eu dormia ou adoecia?
Que bandeira se desatou
ali onde não me esqueceram?
Por que cresci sem companhia?
Quem me mandou desvencilhar
as portas de meu próprio orgulho?
E quem saiu para viver por mim
quando eu dormia ou adoecia?
Que bandeira se desatou
ali onde não me esqueceram?
1 130
Pablo Neruda
XXI - Os homens
Eu, dos bosques, das ferrovias no inverno,
eu, conservador daquele inverno,
do barro
em uma rua tortuosa, miserável,
eu, poeta obscuro, recebi o beijo de pedra em minha face
e se purificaram minhas angústias.
eu, conservador daquele inverno,
do barro
em uma rua tortuosa, miserável,
eu, poeta obscuro, recebi o beijo de pedra em minha face
e se purificaram minhas angústias.
1 164
Pablo Neruda
XXI - Os homens
Eu, dos bosques, das ferrovias no inverno,
eu, conservador daquele inverno,
do barro
em uma rua tortuosa, miserável,
eu, poeta obscuro, recebi o beijo de pedra em minha face
e se purificaram minhas angústias.
eu, conservador daquele inverno,
do barro
em uma rua tortuosa, miserável,
eu, poeta obscuro, recebi o beijo de pedra em minha face
e se purificaram minhas angústias.
1 164
Pablo Neruda
Acontece
Bateram à minha porta em 6 de agosto,
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.
Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.
Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.
Que entrevista espaçosa e especial!
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.
Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.
Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.
Que entrevista espaçosa e especial!
1 429
Pablo Neruda
Final
Matilde, anos ou dias
dormidos, febris,
aqui ou ali,
cravando,
rompendo a espinha dorsal,
sangrando sangue verdadeiro,
despertando talvez
o perdido, dormido:
camas clínicas, janelas estrangeiras,
vestidos brancos
das sigilosas,
o torpor nos pés.
Depois estas viagens
e o meu mar de novo:
tua cabeça na cabeceira,
na luz
tuas mãos voadoras,
na minha luz,
sobre minha terra.
Foi tão belo viver
quando vivias!
O mundo é mais azul
e mais terrestre de noite,
quando durmo,
enorme, dentro de tuas breves mãos.
dormidos, febris,
aqui ou ali,
cravando,
rompendo a espinha dorsal,
sangrando sangue verdadeiro,
despertando talvez
o perdido, dormido:
camas clínicas, janelas estrangeiras,
vestidos brancos
das sigilosas,
o torpor nos pés.
Depois estas viagens
e o meu mar de novo:
tua cabeça na cabeceira,
na luz
tuas mãos voadoras,
na minha luz,
sobre minha terra.
Foi tão belo viver
quando vivias!
O mundo é mais azul
e mais terrestre de noite,
quando durmo,
enorme, dentro de tuas breves mãos.
1 416
Pablo Neruda
Final
Matilde, anos ou dias
dormidos, febris,
aqui ou ali,
cravando,
rompendo a espinha dorsal,
sangrando sangue verdadeiro,
despertando talvez
o perdido, dormido:
camas clínicas, janelas estrangeiras,
vestidos brancos
das sigilosas,
o torpor nos pés.
Depois estas viagens
e o meu mar de novo:
tua cabeça na cabeceira,
na luz
tuas mãos voadoras,
na minha luz,
sobre minha terra.
Foi tão belo viver
quando vivias!
O mundo é mais azul
e mais terrestre de noite,
quando durmo,
enorme, dentro de tuas breves mãos.
dormidos, febris,
aqui ou ali,
cravando,
rompendo a espinha dorsal,
sangrando sangue verdadeiro,
despertando talvez
o perdido, dormido:
camas clínicas, janelas estrangeiras,
vestidos brancos
das sigilosas,
o torpor nos pés.
Depois estas viagens
e o meu mar de novo:
tua cabeça na cabeceira,
na luz
tuas mãos voadoras,
na minha luz,
sobre minha terra.
Foi tão belo viver
quando vivias!
O mundo é mais azul
e mais terrestre de noite,
quando durmo,
enorme, dentro de tuas breves mãos.
1 416
Pablo Neruda
Meio-Dia - XXXV
Tua mão foi voando de meus olhos ao dia.
Entrou a luz como uma roseira aberta.
Areia e céu palpitavam como uma
culminante colmeia cortada nas turquesas.
Tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,
almotolias com azeites amarelos,
corolas, mananciais e, sobretudo, amor,
amor: tua mão pura preservou as colheres.
A tarde foi. A noite deslizou sigilosa
sobre o sonho do homem sua cápsula celeste.
Um triste olor selvagem soltou a madressilva.
E tua mão voltou de seu voo voando
a fechar sua plumagem que eu julguei perdida
sobre meus olhos devorados pela sombra.
Entrou a luz como uma roseira aberta.
Areia e céu palpitavam como uma
culminante colmeia cortada nas turquesas.
Tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,
almotolias com azeites amarelos,
corolas, mananciais e, sobretudo, amor,
amor: tua mão pura preservou as colheres.
A tarde foi. A noite deslizou sigilosa
sobre o sonho do homem sua cápsula celeste.
Um triste olor selvagem soltou a madressilva.
E tua mão voltou de seu voo voando
a fechar sua plumagem que eu julguei perdida
sobre meus olhos devorados pela sombra.
1 346