Murillo Mendes

Murillo Mendes

1901–1975 · viveu 74 anos BR BR

Murilo Mendes foi um dos poetas mais originais e influentes da literatura brasileira do século XX. Sua obra é marcada pela fusão do sagrado e do profano, do erudito e do popular, do humor e da melancolia. Percorreu diversas fases estilísticas, desde o lirismo inicial até experimentações vanguardistas. Sua poesia é um convite à contemplação do mistério da existência, à celebração da beleza e à reflexão sobre a fé, o amor e o tempo, tudo isso com uma linguagem inventiva e surpreendente.

n. 1901-05-13, Juiz de Fora · m. 1975-08-14, Lisboa

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O Utopista

Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro mundo.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Murilo Mendes, cujo nome completo era Murilo Ferreira Mendes, nasceu em 1901 em Juiz de Fora, Minas Gerais, e faleceu em 1975, no Rio de Janeiro. Foi um dos poetas mais singulares e inovadores da literatura brasileira do século XX. Sua nacionalidade era brasileira e escrevia em português.

Infância e formação

Criado em uma família de classe média, Murilo Mendes teve uma educação formal, mas sua formação intelectual foi profundamente marcada pela leitura, pela religiosidade e pelas influências artísticas e literárias de seu tempo. Aos dez anos, sofreu um acidente que o deixou com uma debilidade motora permanente em uma das pernas, o que o acompanhou por toda a vida.

Percurso literário

Seu percurso literário iniciou-se na década de 1920, com a publicação de "Poemas" em 1930, obra que o alçou à cena literária como um poeta de grande originalidade. Percorreu diversas fases, desde o lirismo inicial, passando pela influência do Modernismo e do Surrealismo, até um período de maior reflexão religiosa e existencial. Colaborou em diversas revistas e jornais literários, como a "Revista de Antropofagia" e "Orfeu". Atuou também como professor e diplomata.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Murilo Mendes é notável pela sua diversidade e pela constante reinvenção. Inicialmente associado à segunda geração do Modernismo brasileiro, sua poesia gradualmente incorporou elementos do Surrealismo, da metafísica e de uma religiosidade pessoal e sincrética. Temas centrais em sua obra incluem a fé, o amor, a morte, o tempo, a memória, a poesia como forma de conhecimento e a condição humana diante do mistério. Sua linguagem é marcada pela inventividade, pelo uso de imagens surpreendentes e pela capacidade de transitar entre o sagrado e o profano, o erudito e o popular, o humor e a melancolia. Experimentou com formas poéticas, utilizando tanto o verso livre quanto estruturas mais tradicionais, mas sempre com uma abordagem inovadora. O tom de sua voz poética varia do lírico ao irônico, do contemplativo ao visionário. Suas obras principais incluem "Poemas" (1930), "História do Brasil" (1932), "Tempo e Eternidade" (1935), "O Coração do Vento" (1947), "A Poesia em Surto" (1952), "Primeiras Estórias" (1956), "Os Grilos de São Lourenço" (1962), "A Confraria do Vinho" (1968) e "Trajetória" (1972).

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Murilo Mendes viveu em um período de grandes transformações no Brasil e no mundo, desde os anos iniciais do Modernismo brasileiro, passando pelas décadas de 1930 e 1940, marcadas por instabilidade política e ideológica, até o período pós-guerra. Manteve contato com importantes escritores e artistas de sua geração, como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Vinicius de Moraes. Sua religiosidade, muitas vezes questionada ou mal interpretada, o aproximou de discussões sobre a fé e a arte.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Murilo Mendes teve uma vida marcada por sua sensibilidade aguçada, sua profunda religiosidade (que se tornou mais intensa com o passar dos anos) e por uma certa melancolia, talvez acentuada pelas dificuldades físicas. Sua experiência como diplomata o levou a viver em diversos países, como Itália e Portugal, o que ampliou seu horizonte cultural e influenciou sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção É considerado um dos maiores poetas brasileiros. Recebeu diversos prêmios literários ao longo de sua carreira, incluindo o Prêmio Jabuti de Poesia. Sua obra é estudada em escolas e universidades, e sua recepção crítica tem sido consistentemente positiva, reconhecendo sua originalidade e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Murilo Mendes foi influenciado por poetas como Fernando Pessoa, Guillaume Apollinaire, Arthur Rimbaud e pela tradição mística e religiosa. Seu legado é imenso, tendo influenciado gerações de poetas brasileiros que buscaram a liberdade formal e a profundidade temática. Sua poesia continua a ser uma referência pela sua capacidade de dialogar com o transcendente e com o cotidiano.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Murilo Mendes tem sido interpretada sob diversas óticas: a da religiosidade, a do humor, a da crítica social sutil e a da exploração da linguagem. A complexidade de sua poesia permite múltiplas leituras e debates, especialmente em torno da sua relação com a fé e a criação poética.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Murilo Mendes possuía um senso de humor peculiar, que se manifesta em muitos de seus poemas, por vezes de forma irônica e irreverente. Sua proximidade com a Igreja Católica, especialmente em fases posteriores de sua vida, marcou profundamente sua obra, mas de uma forma nada ortodoxa, misturando o sagrado com elementos do cotidiano e do popular.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 1975, no Rio de Janeiro, deixando uma vasta obra que continua a ser celebrada. Publicações póstumas e antologias mantêm sua obra viva e acessível para novas gerações de leitores.

Poemas

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O Utopista

Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro mundo.

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Reflexão N 1

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
É a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.


Publicado no livro Mundo Enigma (1945). Poema integrante da série Os Quatro Elementos, 1935.

In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
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O Homem, a Luta e a Eternidade

Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!
Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.
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Canção do Exílio

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!


Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.

In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959

NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
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São Francisco de Assis de Ouro Preto

A Lúcio Costa


Solta, suspensa no espaço,
Clara vitória da forma
E de humana geometria
Inventando um molde abstrato;
Ao mesmo tempo, segura,
Recriada na razão,
Em número, peso, medida;
Balanço de reta e curva,
Levanta a alma, ligeira,
À sua Pátria natal;
Repouso da cruz cansada,
Signo de alta brancura;
Gerado, em recorte novo,
Por um bicho rastejante,
Mestiço de sombra e luz;
Aposento da Trindade
E mais da Virgem Maria
Que se conhecem no amor;
Traslado, em pedra vivente,
Do afeto de um sumo herói
Que junta o braço do Cristo
Ao do homem seu igual.


Publicado no livro Contemplação de Ouro Preto (1954).

In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
1 773

Cantiga de Malazarte

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.

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Murilo Menino

Eu quero montar o vento em pêlo,
Força do céu, cavalo poderoso
Que viaja quando entende, noite e dia.

Quero ouvir a flauta sem fim do Isidoro da flauta,
Quero que o preto velho Isidoro
Dê um concerto com minhas primas ao piano,
Lá no salão azul da baronesa.

Quero conhecer a mãe-d'água
Que no claro do rio penteia os cabelos
Com um pente de sete cores.

Salve salve minha rainha,
Ó clemente ó piedosa ó doce Virgem Maria,
? Como pode uma rainha ser também advogada.


Publicado no livro Poesia Liberdade (1947). Poema integrante da série Livro Primeiro: Ofício Humano, 1943.

In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
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Noite Carioca

Noite da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
tão gostosa.
que os estadistas europeus lamentam ter conhecido
[tão tarde.
Casais grudados nos portões de jasmineiros...
A baía de Guanabara, diferente das outras baías, é
[camarada,
recebe na sala de visita todos os navios do mundo
e não fecha a cara.
Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros,
as sonatas de Beethoven realejadas nos pianos dos
[bairros distintos
não são mais obras importantes do gênio imortal,
são valsas arrebentadas...
Perfume vira cheiro,
as mulatas de brutas ancas dançam o maxixe nos
[criouléus suarentos

O Pão de Açúcar é um cão de fila todo especial
que nunca se lembra de latir pros inimigos que
[transpõem a barra
e às 10 horas apaga os olhos pra dormir.


Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série Ângulos.

In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
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Modinha do Empregado de Banco

Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.

Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.

Também se o diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.

1 326

A Tentação

Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo:
"Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz".
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