Poemas neste tema
Vida e Existência
Martha Medeiros
parto do princípio
parto do princípio
que todo parto é natural
nascer de cócoras, na água ou com fórceps
é nascimento igual
cirurgia computadorizada
ou dar à luz entre índios
todos no fim são bem-vindos
morrer é que não é normal
que todo parto é natural
nascer de cócoras, na água ou com fórceps
é nascimento igual
cirurgia computadorizada
ou dar à luz entre índios
todos no fim são bem-vindos
morrer é que não é normal
1 159
Vinicius de Moraes
Velha História
Depois de atravessar muitos caminhos
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias...
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.
E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.
O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias...
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.
E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.
O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.
1 129
Vinicius de Moraes
Velha História
Depois de atravessar muitos caminhos
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias...
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.
E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.
O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias...
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.
E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.
O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.
1 129
Vinicius de Moraes
Purificação
Senhor, logo que eu vi a natureza
As lágrimas secaram.
Os meus olhos pousados na contemplação
Viveram o milagre de luz que explodia no céu.
Eu caminhei, Senhor.
Com as mãos espalmadas eu caminhei para a massa de seiva
Eu, Senhor, pobre massa sem seiva
Eu caminhei.
Nem senti a derrota tremenda
Do que era mau em mim.
A luz cresceu, cresceu interiormente
E toda me envolveu.
A ti, Senhor, gritei que estava puro
E na natureza ouvi a tua voz.
Pássaros cantaram no céu
Eu olhei para o céu e cantei e cantei.
Senti a alegria da vida
Que vivia nas flores pequenas
Senti a beleza da vida
Que morava na luz e morava no céu
E cantei e cantei.
A minha voz subiu até ti, Senhor
E tu me deste a paz.
Eu te peço, Senhor
Guarda meu coração no teu coração
Que ele é puro e simples.
Guarda a minha alma na tua alma
Que ela é bela, Senhor.
Guarda o meu espírito no teu espírito
Porque ele é a minha luz
E porque só a ti ele exalta e ama.
As lágrimas secaram.
Os meus olhos pousados na contemplação
Viveram o milagre de luz que explodia no céu.
Eu caminhei, Senhor.
Com as mãos espalmadas eu caminhei para a massa de seiva
Eu, Senhor, pobre massa sem seiva
Eu caminhei.
Nem senti a derrota tremenda
Do que era mau em mim.
A luz cresceu, cresceu interiormente
E toda me envolveu.
A ti, Senhor, gritei que estava puro
E na natureza ouvi a tua voz.
Pássaros cantaram no céu
Eu olhei para o céu e cantei e cantei.
Senti a alegria da vida
Que vivia nas flores pequenas
Senti a beleza da vida
Que morava na luz e morava no céu
E cantei e cantei.
A minha voz subiu até ti, Senhor
E tu me deste a paz.
Eu te peço, Senhor
Guarda meu coração no teu coração
Que ele é puro e simples.
Guarda a minha alma na tua alma
Que ela é bela, Senhor.
Guarda o meu espírito no teu espírito
Porque ele é a minha luz
E porque só a ti ele exalta e ama.
1 245
Vinicius de Moraes
Revolta
Alma que sofres pavorosamente
A dor de seres privilegiada
Abandona o teu pranto, sê contente
Antes que o horror da solidão te invada.
Deixa que a vida te possua ardente
Ó alma supremamente desgraçada.
Abandona, águia, a inóspita morada
Vem rastejar no chão como a serpente.
De que te vale o espaço se te cansa?
Quanto mais sobes mais o espaço avança...
Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.
V olta, ó alma, ao lugar de onde partiste
O mundo é bom, o espaço é muito triste...
Talvez tu possas ser feliz um dia.
A dor de seres privilegiada
Abandona o teu pranto, sê contente
Antes que o horror da solidão te invada.
Deixa que a vida te possua ardente
Ó alma supremamente desgraçada.
Abandona, águia, a inóspita morada
Vem rastejar no chão como a serpente.
De que te vale o espaço se te cansa?
Quanto mais sobes mais o espaço avança...
Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.
V olta, ó alma, ao lugar de onde partiste
O mundo é bom, o espaço é muito triste...
Talvez tu possas ser feliz um dia.
1 108
Vinicius de Moraes
Tarde
Na hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas
Meu espírito te sentiu.
Ele te sentiu imensamente triste
Imensamente sem Deus
Na tragédia da carne desfeita.
Ele te quis, hora sem tempo
Porque tu eras a sua imagem, sem Deus e sem tempo.
Ele te amou
E te plasmou na visão da manhã e do dia
Na visão de todas as horas
Ó hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas.
Meu espírito te sentiu.
Ele te sentiu imensamente triste
Imensamente sem Deus
Na tragédia da carne desfeita.
Ele te quis, hora sem tempo
Porque tu eras a sua imagem, sem Deus e sem tempo.
Ele te amou
E te plasmou na visão da manhã e do dia
Na visão de todas as horas
Ó hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas.
1 127
Martha Medeiros
não há encanto que não se desfaça
não há encanto que não se desfaça
não há disfarce que não venha à tona
não há madonna que não desmorone
não há sharon stone que não esmoreça
não há tão bela que não te coma
não há tão feia que não te mereça
não há disfarce que não venha à tona
não há madonna que não desmorone
não há sharon stone que não esmoreça
não há tão bela que não te coma
não há tão feia que não te mereça
1 087
Martha Medeiros
o homem do campo
o homem do campo
sem o apelo dos neons
dos elevadores e dos aviões
consegue olhar para dentro
o homem urbano
sem ovelhas, colheitas de arroz
sem figueiras nem estrelas
prefere espiar os outros apartamentos
sem o apelo dos neons
dos elevadores e dos aviões
consegue olhar para dentro
o homem urbano
sem ovelhas, colheitas de arroz
sem figueiras nem estrelas
prefere espiar os outros apartamentos
1 076
Martha Medeiros
entrei no teu apartamento, aquele
entrei no teu apartamento, aquele
ambiente sombrio
cujos móveis herdaram a poeira, solitários
não saía água das torneiras, a luz estava
cortada
e as janelas imensas não davam pra nada
entrei no teu apartamento, aquele
pedaço tão frio
cujos restos de pizza vagavam no assoalho
cujas cortinas do quarto não tinham
mais cor
e o banheiro jazia silencioso no corredor
entrei no teu apartamento, aquele buraco
vazio
onde uma cama restara sem colcha
ou lençol
onde um tapete esfiapado dormia sob
o chão
e o espelho atrás da porta refletia
a escuridão
entrei no teu apartamento, aquele espaço
servil
onde fios desencapados pendiam do teto
a umidade escorria e alagava a parede
e a memória, cansada, balançava na rede
ambiente sombrio
cujos móveis herdaram a poeira, solitários
não saía água das torneiras, a luz estava
cortada
e as janelas imensas não davam pra nada
entrei no teu apartamento, aquele
pedaço tão frio
cujos restos de pizza vagavam no assoalho
cujas cortinas do quarto não tinham
mais cor
e o banheiro jazia silencioso no corredor
entrei no teu apartamento, aquele buraco
vazio
onde uma cama restara sem colcha
ou lençol
onde um tapete esfiapado dormia sob
o chão
e o espelho atrás da porta refletia
a escuridão
entrei no teu apartamento, aquele espaço
servil
onde fios desencapados pendiam do teto
a umidade escorria e alagava a parede
e a memória, cansada, balançava na rede
1 078
Martha Medeiros
se você nunca levou um tiro
se você nunca levou um tiro
eu conto como é
não tem cronologia
primeiro o disparo, depois a dor
nada disso, você ouve o disparo muito depois
e bem fraquinho, só um eco
porque você não acredita no que aconteceu
aliás, esqueça a dor
tiro não dói
tiro é um impacto que você sente
e não sabe que é tiro
pensa que o sutiã arrebentou
que foi atingido pelo Cupido
que as artérias ficaram velozes de repente
você não sente o buraco que ficou
você não ouve sirenes
você sabe que algo aconteceu de importante
mas não é na morte que você pensa
você não repassa sua vida
como acontece com os afogados
você sabe que o tempo parou
mas não consegue chamar ninguém
a verdade é que você foi irremediavelmente
surpreendido
e é isto que é esquisito
todo o seu sangue converge para o mesmo
ponto
lá onde ficou a bala
todo o seu corpo vai dar boas-vindas a
este corpo estranho
e você se contrai
você enfraquece
não raciocina como todo mundo
não articula a voz
ainda não há medo
e já se passaram quatro segundos
nada é rápido, nada é dramático
um tiro é o que há de mais definitivo
não machuca, não rasga
não estraga
é só o parto prematuro
de uma nova vida que te traga
eu conto como é
não tem cronologia
primeiro o disparo, depois a dor
nada disso, você ouve o disparo muito depois
e bem fraquinho, só um eco
porque você não acredita no que aconteceu
aliás, esqueça a dor
tiro não dói
tiro é um impacto que você sente
e não sabe que é tiro
pensa que o sutiã arrebentou
que foi atingido pelo Cupido
que as artérias ficaram velozes de repente
você não sente o buraco que ficou
você não ouve sirenes
você sabe que algo aconteceu de importante
mas não é na morte que você pensa
você não repassa sua vida
como acontece com os afogados
você sabe que o tempo parou
mas não consegue chamar ninguém
a verdade é que você foi irremediavelmente
surpreendido
e é isto que é esquisito
todo o seu sangue converge para o mesmo
ponto
lá onde ficou a bala
todo o seu corpo vai dar boas-vindas a
este corpo estranho
e você se contrai
você enfraquece
não raciocina como todo mundo
não articula a voz
ainda não há medo
e já se passaram quatro segundos
nada é rápido, nada é dramático
um tiro é o que há de mais definitivo
não machuca, não rasga
não estraga
é só o parto prematuro
de uma nova vida que te traga
1 046
Martha Medeiros
se você nunca levou um tiro
se você nunca levou um tiro
eu conto como é
não tem cronologia
primeiro o disparo, depois a dor
nada disso, você ouve o disparo muito depois
e bem fraquinho, só um eco
porque você não acredita no que aconteceu
aliás, esqueça a dor
tiro não dói
tiro é um impacto que você sente
e não sabe que é tiro
pensa que o sutiã arrebentou
que foi atingido pelo Cupido
que as artérias ficaram velozes de repente
você não sente o buraco que ficou
você não ouve sirenes
você sabe que algo aconteceu de importante
mas não é na morte que você pensa
você não repassa sua vida
como acontece com os afogados
você sabe que o tempo parou
mas não consegue chamar ninguém
a verdade é que você foi irremediavelmente
surpreendido
e é isto que é esquisito
todo o seu sangue converge para o mesmo
ponto
lá onde ficou a bala
todo o seu corpo vai dar boas-vindas a
este corpo estranho
e você se contrai
você enfraquece
não raciocina como todo mundo
não articula a voz
ainda não há medo
e já se passaram quatro segundos
nada é rápido, nada é dramático
um tiro é o que há de mais definitivo
não machuca, não rasga
não estraga
é só o parto prematuro
de uma nova vida que te traga
eu conto como é
não tem cronologia
primeiro o disparo, depois a dor
nada disso, você ouve o disparo muito depois
e bem fraquinho, só um eco
porque você não acredita no que aconteceu
aliás, esqueça a dor
tiro não dói
tiro é um impacto que você sente
e não sabe que é tiro
pensa que o sutiã arrebentou
que foi atingido pelo Cupido
que as artérias ficaram velozes de repente
você não sente o buraco que ficou
você não ouve sirenes
você sabe que algo aconteceu de importante
mas não é na morte que você pensa
você não repassa sua vida
como acontece com os afogados
você sabe que o tempo parou
mas não consegue chamar ninguém
a verdade é que você foi irremediavelmente
surpreendido
e é isto que é esquisito
todo o seu sangue converge para o mesmo
ponto
lá onde ficou a bala
todo o seu corpo vai dar boas-vindas a
este corpo estranho
e você se contrai
você enfraquece
não raciocina como todo mundo
não articula a voz
ainda não há medo
e já se passaram quatro segundos
nada é rápido, nada é dramático
um tiro é o que há de mais definitivo
não machuca, não rasga
não estraga
é só o parto prematuro
de uma nova vida que te traga
1 046
Martha Medeiros
se você nunca levou um tiro
se você nunca levou um tiro
eu conto como é
não tem cronologia
primeiro o disparo, depois a dor
nada disso, você ouve o disparo muito depois
e bem fraquinho, só um eco
porque você não acredita no que aconteceu
aliás, esqueça a dor
tiro não dói
tiro é um impacto que você sente
e não sabe que é tiro
pensa que o sutiã arrebentou
que foi atingido pelo Cupido
que as artérias ficaram velozes de repente
você não sente o buraco que ficou
você não ouve sirenes
você sabe que algo aconteceu de importante
mas não é na morte que você pensa
você não repassa sua vida
como acontece com os afogados
você sabe que o tempo parou
mas não consegue chamar ninguém
a verdade é que você foi irremediavelmente
surpreendido
e é isto que é esquisito
todo o seu sangue converge para o mesmo
ponto
lá onde ficou a bala
todo o seu corpo vai dar boas-vindas a
este corpo estranho
e você se contrai
você enfraquece
não raciocina como todo mundo
não articula a voz
ainda não há medo
e já se passaram quatro segundos
nada é rápido, nada é dramático
um tiro é o que há de mais definitivo
não machuca, não rasga
não estraga
é só o parto prematuro
de uma nova vida que te traga
eu conto como é
não tem cronologia
primeiro o disparo, depois a dor
nada disso, você ouve o disparo muito depois
e bem fraquinho, só um eco
porque você não acredita no que aconteceu
aliás, esqueça a dor
tiro não dói
tiro é um impacto que você sente
e não sabe que é tiro
pensa que o sutiã arrebentou
que foi atingido pelo Cupido
que as artérias ficaram velozes de repente
você não sente o buraco que ficou
você não ouve sirenes
você sabe que algo aconteceu de importante
mas não é na morte que você pensa
você não repassa sua vida
como acontece com os afogados
você sabe que o tempo parou
mas não consegue chamar ninguém
a verdade é que você foi irremediavelmente
surpreendido
e é isto que é esquisito
todo o seu sangue converge para o mesmo
ponto
lá onde ficou a bala
todo o seu corpo vai dar boas-vindas a
este corpo estranho
e você se contrai
você enfraquece
não raciocina como todo mundo
não articula a voz
ainda não há medo
e já se passaram quatro segundos
nada é rápido, nada é dramático
um tiro é o que há de mais definitivo
não machuca, não rasga
não estraga
é só o parto prematuro
de uma nova vida que te traga
1 046
Martha Medeiros
uma moça casou de manhã
uma moça casou de manhã
como a atriz da novela havia feito
seu pretendente não era um galã
mas quase não tinha defeito
um homem casou apressado
para fugir do preconceito
mulher alguma era do seu agrado
de pernas depiladas não era afeito
uma balzaquiana casou com um vereador
que diziam não ser bom sujeito
tinha fama de ser mau pagador
que importa, ainda seria prefeito
um rapaz casou com uma garota
e ninguém entendeu direito
juravam que gostava de outra
dizem que gaguejou ao dizer aceito
uma menina casou com um senhor
que de um enfarto ainda não estava refeito
seu pai devia a ele um penhor
e lá se foi ela pro leito
casam-se fiéis e pecadores
porque fica melhor desse jeito
ninguém tem acesso aos bastidores
e o amor é um álibi perfeito
como a atriz da novela havia feito
seu pretendente não era um galã
mas quase não tinha defeito
um homem casou apressado
para fugir do preconceito
mulher alguma era do seu agrado
de pernas depiladas não era afeito
uma balzaquiana casou com um vereador
que diziam não ser bom sujeito
tinha fama de ser mau pagador
que importa, ainda seria prefeito
um rapaz casou com uma garota
e ninguém entendeu direito
juravam que gostava de outra
dizem que gaguejou ao dizer aceito
uma menina casou com um senhor
que de um enfarto ainda não estava refeito
seu pai devia a ele um penhor
e lá se foi ela pro leito
casam-se fiéis e pecadores
porque fica melhor desse jeito
ninguém tem acesso aos bastidores
e o amor é um álibi perfeito
772
Martha Medeiros
se contarmos todas as palavras que
se contarmos todas as palavras que
trocamos
daria para escrever um bom romance
eu nem te conhecia e contei meus absurdos
tu nem me conhecia e contou teus muitos
planos
se contarmos todos os olhares que trocamos
daria para encher um lago inteiro
eu nem te conhecia e contei o meu passado
tu nem me conhecia e contou teu desespero
se contarmos todos os silêncios que
trocamos
daria para povoar um edifício
eu nem te conhecia e contei meus vinte anos
tu nem me conhecia e contou teus sacrifícios
se contarmos todas as fantasias que trocamos
daria pra dizer que amantes fomos
mas o amor exige beijos e abraços
e não reconheceu o nosso encanto
trocamos
daria para escrever um bom romance
eu nem te conhecia e contei meus absurdos
tu nem me conhecia e contou teus muitos
planos
se contarmos todos os olhares que trocamos
daria para encher um lago inteiro
eu nem te conhecia e contei o meu passado
tu nem me conhecia e contou teu desespero
se contarmos todos os silêncios que
trocamos
daria para povoar um edifício
eu nem te conhecia e contei meus vinte anos
tu nem me conhecia e contou teus sacrifícios
se contarmos todas as fantasias que trocamos
daria pra dizer que amantes fomos
mas o amor exige beijos e abraços
e não reconheceu o nosso encanto
1 326
Martha Medeiros
narcisismo do avesso
narcisismo do avesso
costumo não gostar
das pessoas com as quais eu me pareço
costumo não gostar
das pessoas com as quais eu me pareço
1 179
Martha Medeiros
quem é você dentro de mim
quem é você dentro de mim
que não teme a opinião alheia
que se alimenta de dinamite
que explodindo não incendeia
quem é você por trás dos meus atos
que quando concordo suspeita
que quando aceito discorda
que quando adormeço não deita
quem é você escondida em meu corpo
que arranca as folhas da agenda
que vive fazendo a minha mala
que não reconhece a minha letra
quem é você invisível no espelho
que sempre me despenteia
que não teme a opinião alheia
que se alimenta de dinamite
que explodindo não incendeia
quem é você por trás dos meus atos
que quando concordo suspeita
que quando aceito discorda
que quando adormeço não deita
quem é você escondida em meu corpo
que arranca as folhas da agenda
que vive fazendo a minha mala
que não reconhece a minha letra
quem é você invisível no espelho
que sempre me despenteia
1 095
Martha Medeiros
quem é você dentro de mim
quem é você dentro de mim
que não teme a opinião alheia
que se alimenta de dinamite
que explodindo não incendeia
quem é você por trás dos meus atos
que quando concordo suspeita
que quando aceito discorda
que quando adormeço não deita
quem é você escondida em meu corpo
que arranca as folhas da agenda
que vive fazendo a minha mala
que não reconhece a minha letra
quem é você invisível no espelho
que sempre me despenteia
que não teme a opinião alheia
que se alimenta de dinamite
que explodindo não incendeia
quem é você por trás dos meus atos
que quando concordo suspeita
que quando aceito discorda
que quando adormeço não deita
quem é você escondida em meu corpo
que arranca as folhas da agenda
que vive fazendo a minha mala
que não reconhece a minha letra
quem é você invisível no espelho
que sempre me despenteia
1 095
Martha Medeiros
você não imagina o que imaginei pra nós
você não imagina o que imaginei pra nós
transas nos lugares mais insólitos
poeira, estrada, bebedeira, arame farpado
sexo, cheiro azedo, línguas inquietas
teu jeito canastrão, eu meio vadia
ninguém é dono de ninguém, ninguém é
de ferro
suspense, tudo muito suado, berros,
vertigem
e uma gargalhada lá no finalzinho da
história
ao nos vermos no espelho, casados
transas nos lugares mais insólitos
poeira, estrada, bebedeira, arame farpado
sexo, cheiro azedo, línguas inquietas
teu jeito canastrão, eu meio vadia
ninguém é dono de ninguém, ninguém é
de ferro
suspense, tudo muito suado, berros,
vertigem
e uma gargalhada lá no finalzinho da
história
ao nos vermos no espelho, casados
1 143
Martha Medeiros
pra morangos, digo sim
pra morangos, digo sim
pra ciganos, digo sim
pra candangos, digo não
pra fulanos, digo sim
pra sopranos, digo sim
pra capangas, digo não
pra moicanos, digo sim
pra romanos, digo sim
pra malandros, sim e não
pra ciganos, digo sim
pra candangos, digo não
pra fulanos, digo sim
pra sopranos, digo sim
pra capangas, digo não
pra moicanos, digo sim
pra romanos, digo sim
pra malandros, sim e não
1 260
Martha Medeiros
antes me adorava
antes me adorava
depois me suportou
antes de me enlouquecer
você voltou
depois de muito papo
antes de amanhecer
você me amou
depois de muitos beijos
durante a madrugada
antes do nada que ficou
depois me suportou
antes de me enlouquecer
você voltou
depois de muito papo
antes de amanhecer
você me amou
depois de muitos beijos
durante a madrugada
antes do nada que ficou
1 082
Martha Medeiros
tá bom, eu confesso
tá bom, eu confesso
não amei muitos homens
conheci pouca gente
fui demitida três vezes
nada deu muito certo
perdi minhas amigas
nunca tive dinheiro
sou fogo de palha
mas não espalha que eu nego
não amei muitos homens
conheci pouca gente
fui demitida três vezes
nada deu muito certo
perdi minhas amigas
nunca tive dinheiro
sou fogo de palha
mas não espalha que eu nego
1 109
Martha Medeiros
foram exatos treze segundos
foram exatos treze segundos
mais do que dura um orgasmo
menos que um comercial de tevê
“não posso mais viver com você
me apaixonei por outra mulher”
você disse pausado, com a voz embargada
e levou treze segundos
para dizer duas frases
tivesse mais pressa ou menos remorso
teria sido mais rápido
mas você estava angustiado
e levou treze segundos
pra desocupar meu lugar
como quem desfaz um negócio
tivesse escrito uma carta
haveria de ser mais sutil
tivesse telefonado
seria obrigado a um olá e a um adeus
mas olhando nos olhos
e sem divórcio ou fiasco
mudaste em treze segundos meu estado civil
desarrumando a vida
que eu havia inventado
mais do que dura um orgasmo
menos que um comercial de tevê
“não posso mais viver com você
me apaixonei por outra mulher”
você disse pausado, com a voz embargada
e levou treze segundos
para dizer duas frases
tivesse mais pressa ou menos remorso
teria sido mais rápido
mas você estava angustiado
e levou treze segundos
pra desocupar meu lugar
como quem desfaz um negócio
tivesse escrito uma carta
haveria de ser mais sutil
tivesse telefonado
seria obrigado a um olá e a um adeus
mas olhando nos olhos
e sem divórcio ou fiasco
mudaste em treze segundos meu estado civil
desarrumando a vida
que eu havia inventado
1 043
Martha Medeiros
no fundo sabemos
no fundo sabemos
que somos todos loucos
ninguém em sã consciência
se regraria dessa forma
sem saber afinal
para onde iremos
ninguém repetiria os mesmos passos
e aceitaria tão poucas escolhas
medicina engenharia arquitetura
música teatro escultura
homeopatia hipnose acupuntura
ninguém
a não ser por loucura
seria casado ou solteiro
trabalhador ou biscateiro
gremista ou colorado
entre londres e new york
entre o álcool e a gasolina
entre a vida e a pantomima
quem de nós arriscará
uma outra alternativa
a essa altura?
que somos todos loucos
ninguém em sã consciência
se regraria dessa forma
sem saber afinal
para onde iremos
ninguém repetiria os mesmos passos
e aceitaria tão poucas escolhas
medicina engenharia arquitetura
música teatro escultura
homeopatia hipnose acupuntura
ninguém
a não ser por loucura
seria casado ou solteiro
trabalhador ou biscateiro
gremista ou colorado
entre londres e new york
entre o álcool e a gasolina
entre a vida e a pantomima
quem de nós arriscará
uma outra alternativa
a essa altura?
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Martha Medeiros
no fundo sabemos
no fundo sabemos
que somos todos loucos
ninguém em sã consciência
se regraria dessa forma
sem saber afinal
para onde iremos
ninguém repetiria os mesmos passos
e aceitaria tão poucas escolhas
medicina engenharia arquitetura
música teatro escultura
homeopatia hipnose acupuntura
ninguém
a não ser por loucura
seria casado ou solteiro
trabalhador ou biscateiro
gremista ou colorado
entre londres e new york
entre o álcool e a gasolina
entre a vida e a pantomima
quem de nós arriscará
uma outra alternativa
a essa altura?
que somos todos loucos
ninguém em sã consciência
se regraria dessa forma
sem saber afinal
para onde iremos
ninguém repetiria os mesmos passos
e aceitaria tão poucas escolhas
medicina engenharia arquitetura
música teatro escultura
homeopatia hipnose acupuntura
ninguém
a não ser por loucura
seria casado ou solteiro
trabalhador ou biscateiro
gremista ou colorado
entre londres e new york
entre o álcool e a gasolina
entre a vida e a pantomima
quem de nós arriscará
uma outra alternativa
a essa altura?
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