Poemas neste tema
Vida e Existência
Adélia Prado
Uma Janela E Sua Serventia
Hoje me parecem novos estes campos
e a camisa xadrez do moço,
só na aparência fortuitos.
O que existe fala por seus códigos.
As matemáticas suplantam as teologias
com enorme lucro para minha fé.
A mulher maldiz falsamente o tempo,
procura o que falar entre pessoas
que considera letradas,
ela não sabe, somos desfrutáveis.
Comamo-nos pois e a desconcertante beleza
em bons bocados de angústia.
Sofrer um pouco descansa deste excesso.
e a camisa xadrez do moço,
só na aparência fortuitos.
O que existe fala por seus códigos.
As matemáticas suplantam as teologias
com enorme lucro para minha fé.
A mulher maldiz falsamente o tempo,
procura o que falar entre pessoas
que considera letradas,
ela não sabe, somos desfrutáveis.
Comamo-nos pois e a desconcertante beleza
em bons bocados de angústia.
Sofrer um pouco descansa deste excesso.
1 293
Adélia Prado
Uma Janela E Sua Serventia
Hoje me parecem novos estes campos
e a camisa xadrez do moço,
só na aparência fortuitos.
O que existe fala por seus códigos.
As matemáticas suplantam as teologias
com enorme lucro para minha fé.
A mulher maldiz falsamente o tempo,
procura o que falar entre pessoas
que considera letradas,
ela não sabe, somos desfrutáveis.
Comamo-nos pois e a desconcertante beleza
em bons bocados de angústia.
Sofrer um pouco descansa deste excesso.
e a camisa xadrez do moço,
só na aparência fortuitos.
O que existe fala por seus códigos.
As matemáticas suplantam as teologias
com enorme lucro para minha fé.
A mulher maldiz falsamente o tempo,
procura o que falar entre pessoas
que considera letradas,
ela não sabe, somos desfrutáveis.
Comamo-nos pois e a desconcertante beleza
em bons bocados de angústia.
Sofrer um pouco descansa deste excesso.
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Adélia Prado
Mulher Ao Cair da Tarde
Ó Deus,
não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso,
eterno.
não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso,
eterno.
1 596
Adélia Prado
Mulher Ao Cair da Tarde
Ó Deus,
não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso,
eterno.
não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso,
eterno.
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Adélia Prado
Mulher Ao Cair da Tarde
Ó Deus,
não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso,
eterno.
não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso,
eterno.
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Adélia Prado
Neurolinguística
Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
1 558
Adélia Prado
Pedido de Adoção
Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.
1 601
Adélia Prado
Pedido de Adoção
Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.
1 601
Adélia Prado
Meditação do Rei No Meio de Sua Tropa
Só à conta de biógrafos pertencem
os grandes feitos de homens memoráveis.
Biografias são desejos,
ainda as dos malfeitores e as dos santos.
A vida, a pura,
a crua e nua vida
é cascalho,
teatrinho de sombras
que a mão de uma criança faz mover.
Como aves migrando a estações mais quentes
a comando invisível prosseguimos
e perfilados somos até felizes.
os grandes feitos de homens memoráveis.
Biografias são desejos,
ainda as dos malfeitores e as dos santos.
A vida, a pura,
a crua e nua vida
é cascalho,
teatrinho de sombras
que a mão de uma criança faz mover.
Como aves migrando a estações mais quentes
a comando invisível prosseguimos
e perfilados somos até felizes.
853
Adélia Prado
Meditação do Rei No Meio de Sua Tropa
Só à conta de biógrafos pertencem
os grandes feitos de homens memoráveis.
Biografias são desejos,
ainda as dos malfeitores e as dos santos.
A vida, a pura,
a crua e nua vida
é cascalho,
teatrinho de sombras
que a mão de uma criança faz mover.
Como aves migrando a estações mais quentes
a comando invisível prosseguimos
e perfilados somos até felizes.
os grandes feitos de homens memoráveis.
Biografias são desejos,
ainda as dos malfeitores e as dos santos.
A vida, a pura,
a crua e nua vida
é cascalho,
teatrinho de sombras
que a mão de uma criança faz mover.
Como aves migrando a estações mais quentes
a comando invisível prosseguimos
e perfilados somos até felizes.
853
Adélia Prado
Trindade
Deus só me dá o sonho.
O resto me toma, indiferente aos gritos,
porque o sonho é Ele próprio travestido de Jonathan
e sua cara de mármore inalcançável.
Minhas bravatas! Nunca fui além de seus dedos
por debaixo do pires:
Mais café, Jonathan? Mais café?
Ele me achando ousada porque olhei seus sapatos
e em seguida a janela
para que lesse nessa linha oblíqua
a urgência da minha alma.
Me beijou algum dia ou foi sonho, excessivo desejo?
Deus me separa de Deus, é frágua seu coração
ardendo de amor por mim que ardo de amor por Jonathan
que observa Orion, impassível como um rochedo.
“Tomai cuidado, vossas fantasias se cumprem.”
Imagino que peço a Jonathan:
me deixa ferir teu lábio pra me provares que existes.
Jonathan que amo é divino,
acho que é humano também.
Um dia vai tomar minha cabeça com insuspeitada doçura.
Então,
eu Te amo, Deus,
contra mim mesma é o que direi,
Te amo.
O resto me toma, indiferente aos gritos,
porque o sonho é Ele próprio travestido de Jonathan
e sua cara de mármore inalcançável.
Minhas bravatas! Nunca fui além de seus dedos
por debaixo do pires:
Mais café, Jonathan? Mais café?
Ele me achando ousada porque olhei seus sapatos
e em seguida a janela
para que lesse nessa linha oblíqua
a urgência da minha alma.
Me beijou algum dia ou foi sonho, excessivo desejo?
Deus me separa de Deus, é frágua seu coração
ardendo de amor por mim que ardo de amor por Jonathan
que observa Orion, impassível como um rochedo.
“Tomai cuidado, vossas fantasias se cumprem.”
Imagino que peço a Jonathan:
me deixa ferir teu lábio pra me provares que existes.
Jonathan que amo é divino,
acho que é humano também.
Um dia vai tomar minha cabeça com insuspeitada doçura.
Então,
eu Te amo, Deus,
contra mim mesma é o que direi,
Te amo.
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Adélia Prado
Como Um Bicho
O ritmo do meu peito é amedrontado,
Deus me pega, me mata, vai me comer
o deus colérico.
Tan-tan, tan-tan,
um tambor antiquíssimo na selva
cada vez mais perigoso
porque o dia deserta,
tan-tan, tan-tan,
as estrelas são altas e os répteis astuciosos.
Tan-tan, meu pai, tan-tan,
ó minha mãe,
ponta de faca, dentes,
água,
água, não. Um pastor com sua flauta no rochedo,
o que nada pode erodir.
Assim meus pés descansam
e minha alma pode dormir.
Tan-tan, tan-tan,
cada vez mais fraco.
Não é meu coração,
é só um tambor.
Deus me pega, me mata, vai me comer
o deus colérico.
Tan-tan, tan-tan,
um tambor antiquíssimo na selva
cada vez mais perigoso
porque o dia deserta,
tan-tan, tan-tan,
as estrelas são altas e os répteis astuciosos.
Tan-tan, meu pai, tan-tan,
ó minha mãe,
ponta de faca, dentes,
água,
água, não. Um pastor com sua flauta no rochedo,
o que nada pode erodir.
Assim meus pés descansam
e minha alma pode dormir.
Tan-tan, tan-tan,
cada vez mais fraco.
Não é meu coração,
é só um tambor.
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Adélia Prado
A Treva
Me escolhem os claros do sono
engastados na madrugada,
a hora do Getsêmani.
São cruas claras visões,
às vezes pacificadas,
às vezes o terror puro
sem o suporte dos ossos
que o dia pleno me dá.
A alma desce aos infernos,
a morte tem seu festim.
Até que todos despertem
e eu mesma possa dormir,
o demônio come a seu gosto,
o que não é Deus pasta em mim.
engastados na madrugada,
a hora do Getsêmani.
São cruas claras visões,
às vezes pacificadas,
às vezes o terror puro
sem o suporte dos ossos
que o dia pleno me dá.
A alma desce aos infernos,
a morte tem seu festim.
Até que todos despertem
e eu mesma possa dormir,
o demônio come a seu gosto,
o que não é Deus pasta em mim.
1 051
Adélia Prado
A Treva
Me escolhem os claros do sono
engastados na madrugada,
a hora do Getsêmani.
São cruas claras visões,
às vezes pacificadas,
às vezes o terror puro
sem o suporte dos ossos
que o dia pleno me dá.
A alma desce aos infernos,
a morte tem seu festim.
Até que todos despertem
e eu mesma possa dormir,
o demônio come a seu gosto,
o que não é Deus pasta em mim.
engastados na madrugada,
a hora do Getsêmani.
São cruas claras visões,
às vezes pacificadas,
às vezes o terror puro
sem o suporte dos ossos
que o dia pleno me dá.
A alma desce aos infernos,
a morte tem seu festim.
Até que todos despertem
e eu mesma possa dormir,
o demônio come a seu gosto,
o que não é Deus pasta em mim.
1 051
Adélia Prado
A Cicatriz
Estão equivocados os teólogos
quando descrevem Deus em seus tratados.
Esperai por mim que vou ser apontada
como aquela que fez o irreparável.
Deus vai nascer de novo para me resgatar.
Me mata, Jonathan, com sua faca,
me livra do cativeiro do tempo.
Quero entender suas unhas,
o plano não se fixa, sua cara desaparece.
Eu amo o tempo porque amo este inferno,
este amor doloroso que precisa do corpo,
da proteção de Deus para dizer-se
nesta tarde infestada de pedestres.
Ter um corpo é como fazer poemas,
pisar margem de abismos,
eu te amo.
Seu relógio,
incongruente como meus sapatos,
uma cruz gozosa, ó Felix Culpa!
quando descrevem Deus em seus tratados.
Esperai por mim que vou ser apontada
como aquela que fez o irreparável.
Deus vai nascer de novo para me resgatar.
Me mata, Jonathan, com sua faca,
me livra do cativeiro do tempo.
Quero entender suas unhas,
o plano não se fixa, sua cara desaparece.
Eu amo o tempo porque amo este inferno,
este amor doloroso que precisa do corpo,
da proteção de Deus para dizer-se
nesta tarde infestada de pedestres.
Ter um corpo é como fazer poemas,
pisar margem de abismos,
eu te amo.
Seu relógio,
incongruente como meus sapatos,
uma cruz gozosa, ó Felix Culpa!
1 561
Adélia Prado
A Cicatriz
Estão equivocados os teólogos
quando descrevem Deus em seus tratados.
Esperai por mim que vou ser apontada
como aquela que fez o irreparável.
Deus vai nascer de novo para me resgatar.
Me mata, Jonathan, com sua faca,
me livra do cativeiro do tempo.
Quero entender suas unhas,
o plano não se fixa, sua cara desaparece.
Eu amo o tempo porque amo este inferno,
este amor doloroso que precisa do corpo,
da proteção de Deus para dizer-se
nesta tarde infestada de pedestres.
Ter um corpo é como fazer poemas,
pisar margem de abismos,
eu te amo.
Seu relógio,
incongruente como meus sapatos,
uma cruz gozosa, ó Felix Culpa!
quando descrevem Deus em seus tratados.
Esperai por mim que vou ser apontada
como aquela que fez o irreparável.
Deus vai nascer de novo para me resgatar.
Me mata, Jonathan, com sua faca,
me livra do cativeiro do tempo.
Quero entender suas unhas,
o plano não se fixa, sua cara desaparece.
Eu amo o tempo porque amo este inferno,
este amor doloroso que precisa do corpo,
da proteção de Deus para dizer-se
nesta tarde infestada de pedestres.
Ter um corpo é como fazer poemas,
pisar margem de abismos,
eu te amo.
Seu relógio,
incongruente como meus sapatos,
uma cruz gozosa, ó Felix Culpa!
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Adélia Prado
A Sagrada Face
A dentadura encravou-se? Rezai,
prometei abstinência por um ano
para que a prótese malfeita se despregue da boca.
Ó Deus, como éreis bom,
rosas, dentes postiços,
touceiras de coqueirinho,
a profusão dos milagres.
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e minha mãe diziam:
“Um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Que faço agora que Vos descubro em silêncio,
mas, dentro de mim, em meus ossos,
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós,
a terra é quem gera as rosas.
Desde a juventude pedi: quero ver Teu Rosto,
mostra-me Tua Face.
Então é este o esplendor,
este deserto ardente, claro,
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece,
nascer sem pai, sem mãe,
objeto de um amor em mim mesma gerado.
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou.
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e descanso,
paciência infinita.
Quase posso dizer, eu amo.
prometei abstinência por um ano
para que a prótese malfeita se despregue da boca.
Ó Deus, como éreis bom,
rosas, dentes postiços,
touceiras de coqueirinho,
a profusão dos milagres.
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e minha mãe diziam:
“Um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Que faço agora que Vos descubro em silêncio,
mas, dentro de mim, em meus ossos,
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós,
a terra é quem gera as rosas.
Desde a juventude pedi: quero ver Teu Rosto,
mostra-me Tua Face.
Então é este o esplendor,
este deserto ardente, claro,
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece,
nascer sem pai, sem mãe,
objeto de um amor em mim mesma gerado.
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou.
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e descanso,
paciência infinita.
Quase posso dizer, eu amo.
1 289
Adélia Prado
A Sagrada Face
A dentadura encravou-se? Rezai,
prometei abstinência por um ano
para que a prótese malfeita se despregue da boca.
Ó Deus, como éreis bom,
rosas, dentes postiços,
touceiras de coqueirinho,
a profusão dos milagres.
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e minha mãe diziam:
“Um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Que faço agora que Vos descubro em silêncio,
mas, dentro de mim, em meus ossos,
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós,
a terra é quem gera as rosas.
Desde a juventude pedi: quero ver Teu Rosto,
mostra-me Tua Face.
Então é este o esplendor,
este deserto ardente, claro,
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece,
nascer sem pai, sem mãe,
objeto de um amor em mim mesma gerado.
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou.
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e descanso,
paciência infinita.
Quase posso dizer, eu amo.
prometei abstinência por um ano
para que a prótese malfeita se despregue da boca.
Ó Deus, como éreis bom,
rosas, dentes postiços,
touceiras de coqueirinho,
a profusão dos milagres.
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e minha mãe diziam:
“Um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Que faço agora que Vos descubro em silêncio,
mas, dentro de mim, em meus ossos,
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós,
a terra é quem gera as rosas.
Desde a juventude pedi: quero ver Teu Rosto,
mostra-me Tua Face.
Então é este o esplendor,
este deserto ardente, claro,
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece,
nascer sem pai, sem mãe,
objeto de um amor em mim mesma gerado.
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou.
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e descanso,
paciência infinita.
Quase posso dizer, eu amo.
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Adélia Prado
A Sagrada Face
A dentadura encravou-se? Rezai,
prometei abstinência por um ano
para que a prótese malfeita se despregue da boca.
Ó Deus, como éreis bom,
rosas, dentes postiços,
touceiras de coqueirinho,
a profusão dos milagres.
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e minha mãe diziam:
“Um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Que faço agora que Vos descubro em silêncio,
mas, dentro de mim, em meus ossos,
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós,
a terra é quem gera as rosas.
Desde a juventude pedi: quero ver Teu Rosto,
mostra-me Tua Face.
Então é este o esplendor,
este deserto ardente, claro,
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece,
nascer sem pai, sem mãe,
objeto de um amor em mim mesma gerado.
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou.
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e descanso,
paciência infinita.
Quase posso dizer, eu amo.
prometei abstinência por um ano
para que a prótese malfeita se despregue da boca.
Ó Deus, como éreis bom,
rosas, dentes postiços,
touceiras de coqueirinho,
a profusão dos milagres.
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e minha mãe diziam:
“Um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Que faço agora que Vos descubro em silêncio,
mas, dentro de mim, em meus ossos,
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós,
a terra é quem gera as rosas.
Desde a juventude pedi: quero ver Teu Rosto,
mostra-me Tua Face.
Então é este o esplendor,
este deserto ardente, claro,
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece,
nascer sem pai, sem mãe,
objeto de um amor em mim mesma gerado.
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou.
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e descanso,
paciência infinita.
Quase posso dizer, eu amo.
1 289
Adélia Prado
Heráldica
Grande luxo é ser pobre por escolha,
tentação de ser Deus que nada tem,
orgulho incomensurável.
Por causa disto sou advertida
de que muitos me precederão no Reino,
os ladrões, os maus poetas
e pior: os bajuladores que os louvam.
Sofro pelo pensamento
de que no palácio devem ficar os reis
e na fábrica os operários, nos armazéns de cereais.
Que dura sentença espera
aos que, como eu,
ofusca uma lucidez tão grande!
Sei quando um verso é mau,
quando não vem desgarrado
da margem ignota da alma.
O que me possui é orgulho,
ou alegria — que não reconheço —
travestida de andrajos?
Só posso dizer que é amor
esta fadiga de catar as pérolas,
descobrir nos brasões a milenar linhagem.
Ninguém sabe o que diz quando fala dos pobres.
tentação de ser Deus que nada tem,
orgulho incomensurável.
Por causa disto sou advertida
de que muitos me precederão no Reino,
os ladrões, os maus poetas
e pior: os bajuladores que os louvam.
Sofro pelo pensamento
de que no palácio devem ficar os reis
e na fábrica os operários, nos armazéns de cereais.
Que dura sentença espera
aos que, como eu,
ofusca uma lucidez tão grande!
Sei quando um verso é mau,
quando não vem desgarrado
da margem ignota da alma.
O que me possui é orgulho,
ou alegria — que não reconheço —
travestida de andrajos?
Só posso dizer que é amor
esta fadiga de catar as pérolas,
descobrir nos brasões a milenar linhagem.
Ninguém sabe o que diz quando fala dos pobres.
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Adélia Prado
Heráldica
Grande luxo é ser pobre por escolha,
tentação de ser Deus que nada tem,
orgulho incomensurável.
Por causa disto sou advertida
de que muitos me precederão no Reino,
os ladrões, os maus poetas
e pior: os bajuladores que os louvam.
Sofro pelo pensamento
de que no palácio devem ficar os reis
e na fábrica os operários, nos armazéns de cereais.
Que dura sentença espera
aos que, como eu,
ofusca uma lucidez tão grande!
Sei quando um verso é mau,
quando não vem desgarrado
da margem ignota da alma.
O que me possui é orgulho,
ou alegria — que não reconheço —
travestida de andrajos?
Só posso dizer que é amor
esta fadiga de catar as pérolas,
descobrir nos brasões a milenar linhagem.
Ninguém sabe o que diz quando fala dos pobres.
tentação de ser Deus que nada tem,
orgulho incomensurável.
Por causa disto sou advertida
de que muitos me precederão no Reino,
os ladrões, os maus poetas
e pior: os bajuladores que os louvam.
Sofro pelo pensamento
de que no palácio devem ficar os reis
e na fábrica os operários, nos armazéns de cereais.
Que dura sentença espera
aos que, como eu,
ofusca uma lucidez tão grande!
Sei quando um verso é mau,
quando não vem desgarrado
da margem ignota da alma.
O que me possui é orgulho,
ou alegria — que não reconheço —
travestida de andrajos?
Só posso dizer que é amor
esta fadiga de catar as pérolas,
descobrir nos brasões a milenar linhagem.
Ninguém sabe o que diz quando fala dos pobres.
1 067
Adélia Prado
Mandala
Minha ficção maior é Jonathan,
mas, como é poética, existe
e porque existe me mata
e me faz renascer a cada ciclo
de paixão e de sonho.
mas, como é poética, existe
e porque existe me mata
e me faz renascer a cada ciclo
de paixão e de sonho.
1 181
Adélia Prado
Lirial
Lírios, lírios,
a vida só tem mistérios.
Destruo os lírios,
eles me põem confusa.
Os finados se cobrem deles,
os canteiros do céu,
onde as virgens passeiam.
Como cabeças de alho,
os bulbos ficam na terra
esperando novembro para que eu padeça.
Como pessoas, esta flor espessa;
branca, d’água, roxo-lírio,
lírio amarelo — um antilírio —,
lírio de nada, espírito de flor,
hausto floral do mundo,
pensamento de Deus inconcluído
nesta tarde de outubro em que pergunto:
para que servem os lírios,
além de me atormentarem?
Um lírio negro é impossível.
Inocente e voraz o lírio não existe
e esta fala é delírio.
a vida só tem mistérios.
Destruo os lírios,
eles me põem confusa.
Os finados se cobrem deles,
os canteiros do céu,
onde as virgens passeiam.
Como cabeças de alho,
os bulbos ficam na terra
esperando novembro para que eu padeça.
Como pessoas, esta flor espessa;
branca, d’água, roxo-lírio,
lírio amarelo — um antilírio —,
lírio de nada, espírito de flor,
hausto floral do mundo,
pensamento de Deus inconcluído
nesta tarde de outubro em que pergunto:
para que servem os lírios,
além de me atormentarem?
Um lírio negro é impossível.
Inocente e voraz o lírio não existe
e esta fala é delírio.
1 519
Adélia Prado
Lirial
Lírios, lírios,
a vida só tem mistérios.
Destruo os lírios,
eles me põem confusa.
Os finados se cobrem deles,
os canteiros do céu,
onde as virgens passeiam.
Como cabeças de alho,
os bulbos ficam na terra
esperando novembro para que eu padeça.
Como pessoas, esta flor espessa;
branca, d’água, roxo-lírio,
lírio amarelo — um antilírio —,
lírio de nada, espírito de flor,
hausto floral do mundo,
pensamento de Deus inconcluído
nesta tarde de outubro em que pergunto:
para que servem os lírios,
além de me atormentarem?
Um lírio negro é impossível.
Inocente e voraz o lírio não existe
e esta fala é delírio.
a vida só tem mistérios.
Destruo os lírios,
eles me põem confusa.
Os finados se cobrem deles,
os canteiros do céu,
onde as virgens passeiam.
Como cabeças de alho,
os bulbos ficam na terra
esperando novembro para que eu padeça.
Como pessoas, esta flor espessa;
branca, d’água, roxo-lírio,
lírio amarelo — um antilírio —,
lírio de nada, espírito de flor,
hausto floral do mundo,
pensamento de Deus inconcluído
nesta tarde de outubro em que pergunto:
para que servem os lírios,
além de me atormentarem?
Um lírio negro é impossível.
Inocente e voraz o lírio não existe
e esta fala é delírio.
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