Poemas neste tema
Vida e Existência
Adélia Prado
Citação de Isaías
A matéria de Deus é Seu amor.
Sua forma é Jonathan,
o que dói e perece
e me diz, com tremor da criação inteira:
“És preciosa aos meus olhos,
porque eu te aprecio e te amo,
permuto reinos por ti.”
Sua forma é Jonathan,
o que dói e perece
e me diz, com tremor da criação inteira:
“És preciosa aos meus olhos,
porque eu te aprecio e te amo,
permuto reinos por ti.”
1 237
Adélia Prado
O Holocausto
Uns calores no corpo inauguraram-se,
há avisos de que um ciclo se fecha
sobre o que em mim nunca mais
será rosa ou cetim.
No entanto, entre flores dessecadas
e fotografias — hoje tornadas risíveis —
perduram inalterados
cardumezinhos, corolas,
hastes dançando à viração da tarde.
Como é possível peixes tão pequeninos
e este amarelo, o amarelo?
Os peixinhos ficam na água e não se afogam!
Tomai minha vida, ainda direi a Deus
pra lhe provar minha alegria.
Hoje quero rir desta invenção engraçada:
“uma carroça cheia de diabos”.
Carroças são pacíficas
e a tais diabos gritos afugentam.
Na raiz da tristeza este anticorpo:
o que quer que seja o amarelo,
dele é feita minha alma e sua felicidade,
a beleza do mundo e a alma de Cristo.
há avisos de que um ciclo se fecha
sobre o que em mim nunca mais
será rosa ou cetim.
No entanto, entre flores dessecadas
e fotografias — hoje tornadas risíveis —
perduram inalterados
cardumezinhos, corolas,
hastes dançando à viração da tarde.
Como é possível peixes tão pequeninos
e este amarelo, o amarelo?
Os peixinhos ficam na água e não se afogam!
Tomai minha vida, ainda direi a Deus
pra lhe provar minha alegria.
Hoje quero rir desta invenção engraçada:
“uma carroça cheia de diabos”.
Carroças são pacíficas
e a tais diabos gritos afugentam.
Na raiz da tristeza este anticorpo:
o que quer que seja o amarelo,
dele é feita minha alma e sua felicidade,
a beleza do mundo e a alma de Cristo.
1 261
Adélia Prado
O Holocausto
Uns calores no corpo inauguraram-se,
há avisos de que um ciclo se fecha
sobre o que em mim nunca mais
será rosa ou cetim.
No entanto, entre flores dessecadas
e fotografias — hoje tornadas risíveis —
perduram inalterados
cardumezinhos, corolas,
hastes dançando à viração da tarde.
Como é possível peixes tão pequeninos
e este amarelo, o amarelo?
Os peixinhos ficam na água e não se afogam!
Tomai minha vida, ainda direi a Deus
pra lhe provar minha alegria.
Hoje quero rir desta invenção engraçada:
“uma carroça cheia de diabos”.
Carroças são pacíficas
e a tais diabos gritos afugentam.
Na raiz da tristeza este anticorpo:
o que quer que seja o amarelo,
dele é feita minha alma e sua felicidade,
a beleza do mundo e a alma de Cristo.
há avisos de que um ciclo se fecha
sobre o que em mim nunca mais
será rosa ou cetim.
No entanto, entre flores dessecadas
e fotografias — hoje tornadas risíveis —
perduram inalterados
cardumezinhos, corolas,
hastes dançando à viração da tarde.
Como é possível peixes tão pequeninos
e este amarelo, o amarelo?
Os peixinhos ficam na água e não se afogam!
Tomai minha vida, ainda direi a Deus
pra lhe provar minha alegria.
Hoje quero rir desta invenção engraçada:
“uma carroça cheia de diabos”.
Carroças são pacíficas
e a tais diabos gritos afugentam.
Na raiz da tristeza este anticorpo:
o que quer que seja o amarelo,
dele é feita minha alma e sua felicidade,
a beleza do mundo e a alma de Cristo.
1 261
Adélia Prado
O Holocausto
Uns calores no corpo inauguraram-se,
há avisos de que um ciclo se fecha
sobre o que em mim nunca mais
será rosa ou cetim.
No entanto, entre flores dessecadas
e fotografias — hoje tornadas risíveis —
perduram inalterados
cardumezinhos, corolas,
hastes dançando à viração da tarde.
Como é possível peixes tão pequeninos
e este amarelo, o amarelo?
Os peixinhos ficam na água e não se afogam!
Tomai minha vida, ainda direi a Deus
pra lhe provar minha alegria.
Hoje quero rir desta invenção engraçada:
“uma carroça cheia de diabos”.
Carroças são pacíficas
e a tais diabos gritos afugentam.
Na raiz da tristeza este anticorpo:
o que quer que seja o amarelo,
dele é feita minha alma e sua felicidade,
a beleza do mundo e a alma de Cristo.
há avisos de que um ciclo se fecha
sobre o que em mim nunca mais
será rosa ou cetim.
No entanto, entre flores dessecadas
e fotografias — hoje tornadas risíveis —
perduram inalterados
cardumezinhos, corolas,
hastes dançando à viração da tarde.
Como é possível peixes tão pequeninos
e este amarelo, o amarelo?
Os peixinhos ficam na água e não se afogam!
Tomai minha vida, ainda direi a Deus
pra lhe provar minha alegria.
Hoje quero rir desta invenção engraçada:
“uma carroça cheia de diabos”.
Carroças são pacíficas
e a tais diabos gritos afugentam.
Na raiz da tristeza este anticorpo:
o que quer que seja o amarelo,
dele é feita minha alma e sua felicidade,
a beleza do mundo e a alma de Cristo.
1 261
Adélia Prado
Biografia do Poeta
Era uma casa com árvores de óleo,
duas árvores grandes...
Assim começa meu amor por Jonathan,
com este belo relato.
Referia-se meu pai aos óleos como se recontasse:
‘Destes troncos que vês, Deus falou a Moisés.’
Pois bem. Duas árvores de óleo,
duas horas da tarde,
e um café que todo mundo,
àquela hora, fazia.
Uma voz intrometeu-se:
‘Você e seu irmão podem brincar aqui que não chateiam.’
Chamavam poeta ao que sabia rimar,
o mundo intimava.
Nem Salomão em sua glória foi mais feliz que eu.
Pode-se transformar em amor o horror às fezes?
Ainda que tênues,
desconforto e estranheza não devem permanecer
para que eu siga humana?
Queria ter inventado o ponto de cruz e o fermento
— pequena humilhação seguir receitas.
Borboletinhas, computadores,
fios dágua com peixes,
cabos telegráficos sob o mar.
Descubro que nunca vi a vera face de Deus.
Há mulheres no meu grupo que rezam sem alegria
e de cabo a rabo recitam o livro todo,
incluindo imprimatur, edições, prefácio,
endereço para comunicar as graças alcançadas.
Eu só quero dizer: Ó Beleza, adoro-Vos!
Treme meu corpo todo ao Vosso olhar.
duas árvores grandes...
Assim começa meu amor por Jonathan,
com este belo relato.
Referia-se meu pai aos óleos como se recontasse:
‘Destes troncos que vês, Deus falou a Moisés.’
Pois bem. Duas árvores de óleo,
duas horas da tarde,
e um café que todo mundo,
àquela hora, fazia.
Uma voz intrometeu-se:
‘Você e seu irmão podem brincar aqui que não chateiam.’
Chamavam poeta ao que sabia rimar,
o mundo intimava.
Nem Salomão em sua glória foi mais feliz que eu.
Pode-se transformar em amor o horror às fezes?
Ainda que tênues,
desconforto e estranheza não devem permanecer
para que eu siga humana?
Queria ter inventado o ponto de cruz e o fermento
— pequena humilhação seguir receitas.
Borboletinhas, computadores,
fios dágua com peixes,
cabos telegráficos sob o mar.
Descubro que nunca vi a vera face de Deus.
Há mulheres no meu grupo que rezam sem alegria
e de cabo a rabo recitam o livro todo,
incluindo imprimatur, edições, prefácio,
endereço para comunicar as graças alcançadas.
Eu só quero dizer: Ó Beleza, adoro-Vos!
Treme meu corpo todo ao Vosso olhar.
1 880
Adélia Prado
A Bela Adormecida
Estou alegre e o motivo
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja,
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja,
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.
1 667
Adélia Prado
A Bela Adormecida
Estou alegre e o motivo
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja,
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja,
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.
1 667
Adélia Prado
A Bela Adormecida
Estou alegre e o motivo
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja,
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja,
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.
1 667
Adélia Prado
A Bela Adormecida
Estou alegre e o motivo
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja,
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja,
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.
1 667
Adélia Prado
O Demônio Tenaz Que Não Existe
A glória de Deus é maior que este avião no céu.
E Seu amor, de onde o meu medo vem,
mar de delícias onde caem aviões e barcos naufragam,
eu sei, eu sei
e sei também a coisa desastrosa, ser o corpo do tempo,
existir,
o intermitente pavor.
Jonathan, a morte é amor
e por que, se tenho certeza, ainda temo?
Por que um peixe é feliz e eu não sou?
É esquisito ser gente.
Quando abri a porta de noite,
lá estava um sapo de pulsante papo,
um pacífico sapo.
Pensei: é Jonathan disfarçado, veio aqui me visitar.
Ainda assim empurrei-o com a vassoura
e fui ver televisão.
Sob céu estrelado, ficarei sem dormir, admirada.
O amor de Deus é Sua Beleza,
igualam-se.
Quero ser santa como santa é Agnes,
a que voa nas asas dos besouros,
cantando pra me acalmar com sua voz de menina:
“desvencilha-te das cadeias que te prendem o pescoço,
ó filhinha cativa de Sião”.
Os aviões causam medo porque Deus está neles.
Me abraça, Deus, com Teu braço de carne,
canta com Tua boca pra eu ficar inocente.
E Seu amor, de onde o meu medo vem,
mar de delícias onde caem aviões e barcos naufragam,
eu sei, eu sei
e sei também a coisa desastrosa, ser o corpo do tempo,
existir,
o intermitente pavor.
Jonathan, a morte é amor
e por que, se tenho certeza, ainda temo?
Por que um peixe é feliz e eu não sou?
É esquisito ser gente.
Quando abri a porta de noite,
lá estava um sapo de pulsante papo,
um pacífico sapo.
Pensei: é Jonathan disfarçado, veio aqui me visitar.
Ainda assim empurrei-o com a vassoura
e fui ver televisão.
Sob céu estrelado, ficarei sem dormir, admirada.
O amor de Deus é Sua Beleza,
igualam-se.
Quero ser santa como santa é Agnes,
a que voa nas asas dos besouros,
cantando pra me acalmar com sua voz de menina:
“desvencilha-te das cadeias que te prendem o pescoço,
ó filhinha cativa de Sião”.
Os aviões causam medo porque Deus está neles.
Me abraça, Deus, com Teu braço de carne,
canta com Tua boca pra eu ficar inocente.
1 366
Adélia Prado
O Demônio Tenaz Que Não Existe
A glória de Deus é maior que este avião no céu.
E Seu amor, de onde o meu medo vem,
mar de delícias onde caem aviões e barcos naufragam,
eu sei, eu sei
e sei também a coisa desastrosa, ser o corpo do tempo,
existir,
o intermitente pavor.
Jonathan, a morte é amor
e por que, se tenho certeza, ainda temo?
Por que um peixe é feliz e eu não sou?
É esquisito ser gente.
Quando abri a porta de noite,
lá estava um sapo de pulsante papo,
um pacífico sapo.
Pensei: é Jonathan disfarçado, veio aqui me visitar.
Ainda assim empurrei-o com a vassoura
e fui ver televisão.
Sob céu estrelado, ficarei sem dormir, admirada.
O amor de Deus é Sua Beleza,
igualam-se.
Quero ser santa como santa é Agnes,
a que voa nas asas dos besouros,
cantando pra me acalmar com sua voz de menina:
“desvencilha-te das cadeias que te prendem o pescoço,
ó filhinha cativa de Sião”.
Os aviões causam medo porque Deus está neles.
Me abraça, Deus, com Teu braço de carne,
canta com Tua boca pra eu ficar inocente.
E Seu amor, de onde o meu medo vem,
mar de delícias onde caem aviões e barcos naufragam,
eu sei, eu sei
e sei também a coisa desastrosa, ser o corpo do tempo,
existir,
o intermitente pavor.
Jonathan, a morte é amor
e por que, se tenho certeza, ainda temo?
Por que um peixe é feliz e eu não sou?
É esquisito ser gente.
Quando abri a porta de noite,
lá estava um sapo de pulsante papo,
um pacífico sapo.
Pensei: é Jonathan disfarçado, veio aqui me visitar.
Ainda assim empurrei-o com a vassoura
e fui ver televisão.
Sob céu estrelado, ficarei sem dormir, admirada.
O amor de Deus é Sua Beleza,
igualam-se.
Quero ser santa como santa é Agnes,
a que voa nas asas dos besouros,
cantando pra me acalmar com sua voz de menina:
“desvencilha-te das cadeias que te prendem o pescoço,
ó filhinha cativa de Sião”.
Os aviões causam medo porque Deus está neles.
Me abraça, Deus, com Teu braço de carne,
canta com Tua boca pra eu ficar inocente.
1 366
Adélia Prado
A Cólera Divina
Quando fui ferida,
por Deus, pelo diabo, ou por mim mesma
— ainda não sei —,
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir,
a festejar seu dono
— ele, um bicho que não é gente —,
tanto mais eu que posso perguntar:
por que razão me bates?
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas,
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.
por Deus, pelo diabo, ou por mim mesma
— ainda não sei —,
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir,
a festejar seu dono
— ele, um bicho que não é gente —,
tanto mais eu que posso perguntar:
por que razão me bates?
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas,
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.
1 181
Adélia Prado
A Cólera Divina
Quando fui ferida,
por Deus, pelo diabo, ou por mim mesma
— ainda não sei —,
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir,
a festejar seu dono
— ele, um bicho que não é gente —,
tanto mais eu que posso perguntar:
por que razão me bates?
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas,
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.
por Deus, pelo diabo, ou por mim mesma
— ainda não sei —,
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir,
a festejar seu dono
— ele, um bicho que não é gente —,
tanto mais eu que posso perguntar:
por que razão me bates?
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas,
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.
1 181
Adélia Prado
A Morte de D. Palma Outeiros Consolata
Ficou severo na morte o pobre corpo,
o rosto ancestralmente conhecido.
Olhei-a no caixão durante horas.
Depois da oração fúnebre,
da água benta aspergida,
depois do hino do mártir
cantado em sua memória,
vai suavizar-se o rosto, pensei,
a boca vai conformar-se
à alegria de quem sempre soube:
a vida é uma dor contínua, mas Deus é pai amoroso.
Em vão.
Chegou o filho de longe, o último,
a neta bastarda
por quem seus peitos velhos renasceram,
em vão.
D. Palma não abriu os olhos,
não ameaçou sorrir, os lábios colados.
Só uma pessoa falou: ‘Que semblante sereno!’
Mas não era verdade, eu não tive o sinal.
Um dia me ofereceu um livro,
o mais bonito e mais caro que
comprou em sua vida,
o livro cuja palavra
resgatou sua tristeza da astúcia de satanás.
Pois vou abri-lo ao acaso
pra que um novo mistério me conforte.
Eis, creia no que lhe digo, assim está:
“Cantemos um hino ao Senhor,
Cantemos um novo hino ao nosso Deus!”
o rosto ancestralmente conhecido.
Olhei-a no caixão durante horas.
Depois da oração fúnebre,
da água benta aspergida,
depois do hino do mártir
cantado em sua memória,
vai suavizar-se o rosto, pensei,
a boca vai conformar-se
à alegria de quem sempre soube:
a vida é uma dor contínua, mas Deus é pai amoroso.
Em vão.
Chegou o filho de longe, o último,
a neta bastarda
por quem seus peitos velhos renasceram,
em vão.
D. Palma não abriu os olhos,
não ameaçou sorrir, os lábios colados.
Só uma pessoa falou: ‘Que semblante sereno!’
Mas não era verdade, eu não tive o sinal.
Um dia me ofereceu um livro,
o mais bonito e mais caro que
comprou em sua vida,
o livro cuja palavra
resgatou sua tristeza da astúcia de satanás.
Pois vou abri-lo ao acaso
pra que um novo mistério me conforte.
Eis, creia no que lhe digo, assim está:
“Cantemos um hino ao Senhor,
Cantemos um novo hino ao nosso Deus!”
1 218
Adélia Prado
A Morte de D. Palma Outeiros Consolata
Ficou severo na morte o pobre corpo,
o rosto ancestralmente conhecido.
Olhei-a no caixão durante horas.
Depois da oração fúnebre,
da água benta aspergida,
depois do hino do mártir
cantado em sua memória,
vai suavizar-se o rosto, pensei,
a boca vai conformar-se
à alegria de quem sempre soube:
a vida é uma dor contínua, mas Deus é pai amoroso.
Em vão.
Chegou o filho de longe, o último,
a neta bastarda
por quem seus peitos velhos renasceram,
em vão.
D. Palma não abriu os olhos,
não ameaçou sorrir, os lábios colados.
Só uma pessoa falou: ‘Que semblante sereno!’
Mas não era verdade, eu não tive o sinal.
Um dia me ofereceu um livro,
o mais bonito e mais caro que
comprou em sua vida,
o livro cuja palavra
resgatou sua tristeza da astúcia de satanás.
Pois vou abri-lo ao acaso
pra que um novo mistério me conforte.
Eis, creia no que lhe digo, assim está:
“Cantemos um hino ao Senhor,
Cantemos um novo hino ao nosso Deus!”
o rosto ancestralmente conhecido.
Olhei-a no caixão durante horas.
Depois da oração fúnebre,
da água benta aspergida,
depois do hino do mártir
cantado em sua memória,
vai suavizar-se o rosto, pensei,
a boca vai conformar-se
à alegria de quem sempre soube:
a vida é uma dor contínua, mas Deus é pai amoroso.
Em vão.
Chegou o filho de longe, o último,
a neta bastarda
por quem seus peitos velhos renasceram,
em vão.
D. Palma não abriu os olhos,
não ameaçou sorrir, os lábios colados.
Só uma pessoa falou: ‘Que semblante sereno!’
Mas não era verdade, eu não tive o sinal.
Um dia me ofereceu um livro,
o mais bonito e mais caro que
comprou em sua vida,
o livro cuja palavra
resgatou sua tristeza da astúcia de satanás.
Pois vou abri-lo ao acaso
pra que um novo mistério me conforte.
Eis, creia no que lhe digo, assim está:
“Cantemos um hino ao Senhor,
Cantemos um novo hino ao nosso Deus!”
1 218
Adélia Prado
Em Português
Aranha, cortiça, pérola
e mais quatro que não falo
são palavras perfeitas.
Morrer é inexcedível.
Deus não tem peso algum.
Borboleta é atelobrob,
um sabão no tacho fervendo.
Tomara estas estranhezas
sejam psicologismos,
corruptelas devidas
ao pecado original.
Palavras, quero-as antes como coisas.
Minha cabeça se cansa
neste discurso infeliz.
Jonathan me falou:
‘Já tomou seu iogurte?’
Que doçura cobriu-me, que conforto!
As línguas são imperfeitas
pra que os poemas existam
e eu pergunte donde vêm
os insetos alados e este afeto,
seu braço roçando o meu.
e mais quatro que não falo
são palavras perfeitas.
Morrer é inexcedível.
Deus não tem peso algum.
Borboleta é atelobrob,
um sabão no tacho fervendo.
Tomara estas estranhezas
sejam psicologismos,
corruptelas devidas
ao pecado original.
Palavras, quero-as antes como coisas.
Minha cabeça se cansa
neste discurso infeliz.
Jonathan me falou:
‘Já tomou seu iogurte?’
Que doçura cobriu-me, que conforto!
As línguas são imperfeitas
pra que os poemas existam
e eu pergunte donde vêm
os insetos alados e este afeto,
seu braço roçando o meu.
1 231
Adélia Prado
Em Português
Aranha, cortiça, pérola
e mais quatro que não falo
são palavras perfeitas.
Morrer é inexcedível.
Deus não tem peso algum.
Borboleta é atelobrob,
um sabão no tacho fervendo.
Tomara estas estranhezas
sejam psicologismos,
corruptelas devidas
ao pecado original.
Palavras, quero-as antes como coisas.
Minha cabeça se cansa
neste discurso infeliz.
Jonathan me falou:
‘Já tomou seu iogurte?’
Que doçura cobriu-me, que conforto!
As línguas são imperfeitas
pra que os poemas existam
e eu pergunte donde vêm
os insetos alados e este afeto,
seu braço roçando o meu.
e mais quatro que não falo
são palavras perfeitas.
Morrer é inexcedível.
Deus não tem peso algum.
Borboleta é atelobrob,
um sabão no tacho fervendo.
Tomara estas estranhezas
sejam psicologismos,
corruptelas devidas
ao pecado original.
Palavras, quero-as antes como coisas.
Minha cabeça se cansa
neste discurso infeliz.
Jonathan me falou:
‘Já tomou seu iogurte?’
Que doçura cobriu-me, que conforto!
As línguas são imperfeitas
pra que os poemas existam
e eu pergunte donde vêm
os insetos alados e este afeto,
seu braço roçando o meu.
1 231
Adélia Prado
Prodígios
Hoje quase tive um êxtase
no meu querer intenso de um milagre:
que esta flor desabroche na minha frente,
que a luz pisque três vezes.
Assim sem mais, o pensamento de que vivo em pecado,
Cristo me advertindo:
“Quem olhar uma mulher cobiçando-a
já adulterou com ela em seu coração.”
Mas Jonathan nem é mulher
e quem hoje, senão às escondidas,
cumpre o preceito bíblico
de vergastar até o sangue
as costas do escravo ruim?
Ó andorinha,
pousa em meu ombro como um sinal.
Ó escorpião,
move tua cauda azul,
rodopia no céu, lua crescente.
Me diz, bíblia velha, onde está o erro.
“Quantas vezes no deserto O provocaram
e na solidão O afligiram.”
Estes poemas belíssimos
dizem de Deus:
“Matou os primogênitos no Egito.”
“Seu hálito queima como brasa.”
A lei me afasta de Jonathan
que me aproxima de Deus
porque é belo e me ama
e não teme tocar os meus
com seus lábios de carne.
Bons tempos em que se matava
a adúltera a pedradas.
O que segura o mar nos seus limites
tem carinho com o mar.
Por que não terá comigo que também sei bramir?
Amo Deus, amo Jonathan,
amo, amo, amo.
no meu querer intenso de um milagre:
que esta flor desabroche na minha frente,
que a luz pisque três vezes.
Assim sem mais, o pensamento de que vivo em pecado,
Cristo me advertindo:
“Quem olhar uma mulher cobiçando-a
já adulterou com ela em seu coração.”
Mas Jonathan nem é mulher
e quem hoje, senão às escondidas,
cumpre o preceito bíblico
de vergastar até o sangue
as costas do escravo ruim?
Ó andorinha,
pousa em meu ombro como um sinal.
Ó escorpião,
move tua cauda azul,
rodopia no céu, lua crescente.
Me diz, bíblia velha, onde está o erro.
“Quantas vezes no deserto O provocaram
e na solidão O afligiram.”
Estes poemas belíssimos
dizem de Deus:
“Matou os primogênitos no Egito.”
“Seu hálito queima como brasa.”
A lei me afasta de Jonathan
que me aproxima de Deus
porque é belo e me ama
e não teme tocar os meus
com seus lábios de carne.
Bons tempos em que se matava
a adúltera a pedradas.
O que segura o mar nos seus limites
tem carinho com o mar.
Por que não terá comigo que também sei bramir?
Amo Deus, amo Jonathan,
amo, amo, amo.
1 282
Adélia Prado
À Soleira
O que farei com este meu corpo inóspito
já que não respondes nem me abres a porta?
Tem pena de mim.
Não compreendo nada. Só Vos desejo
e meu desejo é como se eu miasse por Vós.
A florinha do mentrasto é tão sem galas
que minha carne se eriça, erotizada.
Existis, ó Deus, porque a beleza existe,
esta que vi primeiro com meus olhos mortais.
Parecerá blasfemo. Mas não chamam sagrado
o livro em que Jó fez imprimir suas dores,
amaldiçoando o dia do seu nascimento?
Por que não o meu, que o abençoo
e acho o degredo bom,
os penedos belos,
as poucas flores, dádivas?
já que não respondes nem me abres a porta?
Tem pena de mim.
Não compreendo nada. Só Vos desejo
e meu desejo é como se eu miasse por Vós.
A florinha do mentrasto é tão sem galas
que minha carne se eriça, erotizada.
Existis, ó Deus, porque a beleza existe,
esta que vi primeiro com meus olhos mortais.
Parecerá blasfemo. Mas não chamam sagrado
o livro em que Jó fez imprimir suas dores,
amaldiçoando o dia do seu nascimento?
Por que não o meu, que o abençoo
e acho o degredo bom,
os penedos belos,
as poucas flores, dádivas?
1 328
Adélia Prado
À Soleira
O que farei com este meu corpo inóspito
já que não respondes nem me abres a porta?
Tem pena de mim.
Não compreendo nada. Só Vos desejo
e meu desejo é como se eu miasse por Vós.
A florinha do mentrasto é tão sem galas
que minha carne se eriça, erotizada.
Existis, ó Deus, porque a beleza existe,
esta que vi primeiro com meus olhos mortais.
Parecerá blasfemo. Mas não chamam sagrado
o livro em que Jó fez imprimir suas dores,
amaldiçoando o dia do seu nascimento?
Por que não o meu, que o abençoo
e acho o degredo bom,
os penedos belos,
as poucas flores, dádivas?
já que não respondes nem me abres a porta?
Tem pena de mim.
Não compreendo nada. Só Vos desejo
e meu desejo é como se eu miasse por Vós.
A florinha do mentrasto é tão sem galas
que minha carne se eriça, erotizada.
Existis, ó Deus, porque a beleza existe,
esta que vi primeiro com meus olhos mortais.
Parecerá blasfemo. Mas não chamam sagrado
o livro em que Jó fez imprimir suas dores,
amaldiçoando o dia do seu nascimento?
Por que não o meu, que o abençoo
e acho o degredo bom,
os penedos belos,
as poucas flores, dádivas?
1 328
Adélia Prado
A Menina E a Fruta
Um dia, apanhando goiabas com a menina,
ela abaixou o galho e disse pro ar
— inconsciente de que me ensinava —
‘goiaba é uma fruta abençoada’.
Seu movimento e rosto iluminados
agitaram no ar poeira e Espírito:
o Reino é dentro de nós,
Deus nos habita.
Não há como escapar à fome da alegria!
ela abaixou o galho e disse pro ar
— inconsciente de que me ensinava —
‘goiaba é uma fruta abençoada’.
Seu movimento e rosto iluminados
agitaram no ar poeira e Espírito:
o Reino é dentro de nós,
Deus nos habita.
Não há como escapar à fome da alegria!
1 242
Adélia Prado
A Menina E a Fruta
Um dia, apanhando goiabas com a menina,
ela abaixou o galho e disse pro ar
— inconsciente de que me ensinava —
‘goiaba é uma fruta abençoada’.
Seu movimento e rosto iluminados
agitaram no ar poeira e Espírito:
o Reino é dentro de nós,
Deus nos habita.
Não há como escapar à fome da alegria!
ela abaixou o galho e disse pro ar
— inconsciente de que me ensinava —
‘goiaba é uma fruta abençoada’.
Seu movimento e rosto iluminados
agitaram no ar poeira e Espírito:
o Reino é dentro de nós,
Deus nos habita.
Não há como escapar à fome da alegria!
1 242
Adélia Prado
Signos
Se esvai de mim o nojo dos mortos.
Já consigo comer
na tarde que sucede aos enterros.
Não sei o que representa em mim esta coragem nova,
este sensível amor aos enfermeiros,
este ouvido sem ira para as tosses
e o que contêm os vasos sob camas e nádegas.
A veste nupcial tem graça como as mortalhas,
as invenções humanas comoventes.
Um rito para o himeneu,
outro pra alçar o corpo e sepultá-lo.
Os casamentos são tristes porque externam
à vista de testemunhas
a mais funda ânsia de perenidade,
os noivos sempre nus.
Os enterros são meio alegres,
todos olham no morto o irredutível
que só ele contempla sem ameaças.
Tudo é uma coisa só. Sombra do que será.
O que difere é Deus.
Já consigo comer
na tarde que sucede aos enterros.
Não sei o que representa em mim esta coragem nova,
este sensível amor aos enfermeiros,
este ouvido sem ira para as tosses
e o que contêm os vasos sob camas e nádegas.
A veste nupcial tem graça como as mortalhas,
as invenções humanas comoventes.
Um rito para o himeneu,
outro pra alçar o corpo e sepultá-lo.
Os casamentos são tristes porque externam
à vista de testemunhas
a mais funda ânsia de perenidade,
os noivos sempre nus.
Os enterros são meio alegres,
todos olham no morto o irredutível
que só ele contempla sem ameaças.
Tudo é uma coisa só. Sombra do que será.
O que difere é Deus.
763
Adélia Prado
Signos
Se esvai de mim o nojo dos mortos.
Já consigo comer
na tarde que sucede aos enterros.
Não sei o que representa em mim esta coragem nova,
este sensível amor aos enfermeiros,
este ouvido sem ira para as tosses
e o que contêm os vasos sob camas e nádegas.
A veste nupcial tem graça como as mortalhas,
as invenções humanas comoventes.
Um rito para o himeneu,
outro pra alçar o corpo e sepultá-lo.
Os casamentos são tristes porque externam
à vista de testemunhas
a mais funda ânsia de perenidade,
os noivos sempre nus.
Os enterros são meio alegres,
todos olham no morto o irredutível
que só ele contempla sem ameaças.
Tudo é uma coisa só. Sombra do que será.
O que difere é Deus.
Já consigo comer
na tarde que sucede aos enterros.
Não sei o que representa em mim esta coragem nova,
este sensível amor aos enfermeiros,
este ouvido sem ira para as tosses
e o que contêm os vasos sob camas e nádegas.
A veste nupcial tem graça como as mortalhas,
as invenções humanas comoventes.
Um rito para o himeneu,
outro pra alçar o corpo e sepultá-lo.
Os casamentos são tristes porque externam
à vista de testemunhas
a mais funda ânsia de perenidade,
os noivos sempre nus.
Os enterros são meio alegres,
todos olham no morto o irredutível
que só ele contempla sem ameaças.
Tudo é uma coisa só. Sombra do que será.
O que difere é Deus.
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