Poemas neste tema
Vida e Existência
Carlos Drummond de Andrade
Ombro
Se triste é ir para o colégio distante,
fica mais triste ainda
ao ver Sebastião Ramos chorando no ombro de meu pai:
“Estou perdido! Nunca mais levanto!
A quebra dessa casa é a minha morte”.
O fragor do trem martela seu desespero,
ou seu desespero rilha nos trilhos
e, na caldeira, queima?
Ei, Sebastião Ramos, faz assim não na minha frente!
Também estou perdido: morte no internato.
Morrer vivo o ano inteiro é mais morrer
embora ninguém perceba
e ficarei sem ombro
para acalentar a minha morte.
Ó Sebastião Ramos, você roubou meu ombro.
fica mais triste ainda
ao ver Sebastião Ramos chorando no ombro de meu pai:
“Estou perdido! Nunca mais levanto!
A quebra dessa casa é a minha morte”.
O fragor do trem martela seu desespero,
ou seu desespero rilha nos trilhos
e, na caldeira, queima?
Ei, Sebastião Ramos, faz assim não na minha frente!
Também estou perdido: morte no internato.
Morrer vivo o ano inteiro é mais morrer
embora ninguém perceba
e ficarei sem ombro
para acalentar a minha morte.
Ó Sebastião Ramos, você roubou meu ombro.
1 263
Carlos Drummond de Andrade
Ombro
Se triste é ir para o colégio distante,
fica mais triste ainda
ao ver Sebastião Ramos chorando no ombro de meu pai:
“Estou perdido! Nunca mais levanto!
A quebra dessa casa é a minha morte”.
O fragor do trem martela seu desespero,
ou seu desespero rilha nos trilhos
e, na caldeira, queima?
Ei, Sebastião Ramos, faz assim não na minha frente!
Também estou perdido: morte no internato.
Morrer vivo o ano inteiro é mais morrer
embora ninguém perceba
e ficarei sem ombro
para acalentar a minha morte.
Ó Sebastião Ramos, você roubou meu ombro.
fica mais triste ainda
ao ver Sebastião Ramos chorando no ombro de meu pai:
“Estou perdido! Nunca mais levanto!
A quebra dessa casa é a minha morte”.
O fragor do trem martela seu desespero,
ou seu desespero rilha nos trilhos
e, na caldeira, queima?
Ei, Sebastião Ramos, faz assim não na minha frente!
Também estou perdido: morte no internato.
Morrer vivo o ano inteiro é mais morrer
embora ninguém perceba
e ficarei sem ombro
para acalentar a minha morte.
Ó Sebastião Ramos, você roubou meu ombro.
1 263
Carlos Drummond de Andrade
Inventor
Entre Deus, que comanda,
e guris, que obedecem,
entre aulas a dar
o mês inteiro, a vida inteira, a inteira eternidade
(não cresça o Brasil afastado da ciência,
nem do Senhor acima de toda ciência)
e sob a esperança do Paraíso,
o padre português, no confessionário,
antes que o pecador
debulhe seus pecados
indaga:
“Quantas vezes mexeste no pirulito?”.
Finda a obrigação,
recolhe-se ao quarto ascético,
dedica-se ao aperfeiçoamento
de sua invenção, o ovoscópio,
que identifica os ovos chocos
e os separa dos bons,
assim como Deus, no Juízo Final,
vai separar as almas santas e as corruptas.
e guris, que obedecem,
entre aulas a dar
o mês inteiro, a vida inteira, a inteira eternidade
(não cresça o Brasil afastado da ciência,
nem do Senhor acima de toda ciência)
e sob a esperança do Paraíso,
o padre português, no confessionário,
antes que o pecador
debulhe seus pecados
indaga:
“Quantas vezes mexeste no pirulito?”.
Finda a obrigação,
recolhe-se ao quarto ascético,
dedica-se ao aperfeiçoamento
de sua invenção, o ovoscópio,
que identifica os ovos chocos
e os separa dos bons,
assim como Deus, no Juízo Final,
vai separar as almas santas e as corruptas.
1 141
Carlos Drummond de Andrade
Inventor
Entre Deus, que comanda,
e guris, que obedecem,
entre aulas a dar
o mês inteiro, a vida inteira, a inteira eternidade
(não cresça o Brasil afastado da ciência,
nem do Senhor acima de toda ciência)
e sob a esperança do Paraíso,
o padre português, no confessionário,
antes que o pecador
debulhe seus pecados
indaga:
“Quantas vezes mexeste no pirulito?”.
Finda a obrigação,
recolhe-se ao quarto ascético,
dedica-se ao aperfeiçoamento
de sua invenção, o ovoscópio,
que identifica os ovos chocos
e os separa dos bons,
assim como Deus, no Juízo Final,
vai separar as almas santas e as corruptas.
e guris, que obedecem,
entre aulas a dar
o mês inteiro, a vida inteira, a inteira eternidade
(não cresça o Brasil afastado da ciência,
nem do Senhor acima de toda ciência)
e sob a esperança do Paraíso,
o padre português, no confessionário,
antes que o pecador
debulhe seus pecados
indaga:
“Quantas vezes mexeste no pirulito?”.
Finda a obrigação,
recolhe-se ao quarto ascético,
dedica-se ao aperfeiçoamento
de sua invenção, o ovoscópio,
que identifica os ovos chocos
e os separa dos bons,
assim como Deus, no Juízo Final,
vai separar as almas santas e as corruptas.
1 141
Carlos Drummond de Andrade
Gosto de Terra
Na casa de Chiquito a mesa é farta,
mas Chiquito prefere comer terra.
Olho espantado para ele.
“Terra tem um gosto…” Me convida.
Recuso. “Gosto de quê?” “Ora, de terra,
de raiz, de profundo, de Japão.
Você vai mastigando, vai sentindo
o outro lado do mundo. Experimenta.
Só um torrãozinho.” Que fazer?
Insiste, mas resisto.
Prefiro comer nuvem, chego ao céu
melhor que o aeroplano de Bleriot.
mas Chiquito prefere comer terra.
Olho espantado para ele.
“Terra tem um gosto…” Me convida.
Recuso. “Gosto de quê?” “Ora, de terra,
de raiz, de profundo, de Japão.
Você vai mastigando, vai sentindo
o outro lado do mundo. Experimenta.
Só um torrãozinho.” Que fazer?
Insiste, mas resisto.
Prefiro comer nuvem, chego ao céu
melhor que o aeroplano de Bleriot.
1 388
Carlos Drummond de Andrade
Resistência
O tísico
não tosse.
Não precisa tossir
para provar que continua tísico.
Rosto esverdinhado, barba por fazer,
pescoço envolto em lã xadrez,
roupa de brim dançante no esqueleto,
o tísico da cidade quando morre?
Cumprimentado de longe,
ninguém lhe aperta a mão.
Alguém já viu micróbios passeando
em seus ossudos dedos pré-defuntos.
Sua voz mal ouvida é som de longe,
de onde ninguém volta, ou só voltou
em véus de assombração. Terá morrido
o tísico, e transita,
pausado, de brim cáqui, em dia azul?
Morre de congestão o velho indagador,
de ataque morre súbito o fortudo
professor de ginástica. Morrem outros
de 20 anos, rapazes não marcados.
O tísico, vai tossindo, enterra todos.
não tosse.
Não precisa tossir
para provar que continua tísico.
Rosto esverdinhado, barba por fazer,
pescoço envolto em lã xadrez,
roupa de brim dançante no esqueleto,
o tísico da cidade quando morre?
Cumprimentado de longe,
ninguém lhe aperta a mão.
Alguém já viu micróbios passeando
em seus ossudos dedos pré-defuntos.
Sua voz mal ouvida é som de longe,
de onde ninguém volta, ou só voltou
em véus de assombração. Terá morrido
o tísico, e transita,
pausado, de brim cáqui, em dia azul?
Morre de congestão o velho indagador,
de ataque morre súbito o fortudo
professor de ginástica. Morrem outros
de 20 anos, rapazes não marcados.
O tísico, vai tossindo, enterra todos.
1 381
Carlos Drummond de Andrade
Resistência
O tísico
não tosse.
Não precisa tossir
para provar que continua tísico.
Rosto esverdinhado, barba por fazer,
pescoço envolto em lã xadrez,
roupa de brim dançante no esqueleto,
o tísico da cidade quando morre?
Cumprimentado de longe,
ninguém lhe aperta a mão.
Alguém já viu micróbios passeando
em seus ossudos dedos pré-defuntos.
Sua voz mal ouvida é som de longe,
de onde ninguém volta, ou só voltou
em véus de assombração. Terá morrido
o tísico, e transita,
pausado, de brim cáqui, em dia azul?
Morre de congestão o velho indagador,
de ataque morre súbito o fortudo
professor de ginástica. Morrem outros
de 20 anos, rapazes não marcados.
O tísico, vai tossindo, enterra todos.
não tosse.
Não precisa tossir
para provar que continua tísico.
Rosto esverdinhado, barba por fazer,
pescoço envolto em lã xadrez,
roupa de brim dançante no esqueleto,
o tísico da cidade quando morre?
Cumprimentado de longe,
ninguém lhe aperta a mão.
Alguém já viu micróbios passeando
em seus ossudos dedos pré-defuntos.
Sua voz mal ouvida é som de longe,
de onde ninguém volta, ou só voltou
em véus de assombração. Terá morrido
o tísico, e transita,
pausado, de brim cáqui, em dia azul?
Morre de congestão o velho indagador,
de ataque morre súbito o fortudo
professor de ginástica. Morrem outros
de 20 anos, rapazes não marcados.
O tísico, vai tossindo, enterra todos.
1 381
Carlos Drummond de Andrade
Os Velhos
Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre! —
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável
de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nas felpudas redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milênios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre! —
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável
de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nas felpudas redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milênios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.
1 780
Carlos Drummond de Andrade
Os Velhos
Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre! —
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável
de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nas felpudas redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milênios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre! —
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável
de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nas felpudas redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milênios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.
1 780
Carlos Drummond de Andrade
A Decadência do Ocidente
No ano de 18,
plangem veteranos;
“Nosso jornalzinho
não é mais aquele.
Foi-se a Academia
de jovens talentos.
Os restantes árcades
jogam futebol.
Agora, estilistas,
só na arte do pé.
Somem os poetas,
vão-se os prosadores.
Não há mais cultura
e, se depender
dessa geração
de racha-piões,
que irá restar
do nosso idioma
e nossa tradição?
Ah, nos velhos tempos
isso aqui andava
cheio dos Camões,
dos Ruis, dos Bilacs
e dos Castros Lopes...”
plangem veteranos;
“Nosso jornalzinho
não é mais aquele.
Foi-se a Academia
de jovens talentos.
Os restantes árcades
jogam futebol.
Agora, estilistas,
só na arte do pé.
Somem os poetas,
vão-se os prosadores.
Não há mais cultura
e, se depender
dessa geração
de racha-piões,
que irá restar
do nosso idioma
e nossa tradição?
Ah, nos velhos tempos
isso aqui andava
cheio dos Camões,
dos Ruis, dos Bilacs
e dos Castros Lopes...”
1 069
Carlos Drummond de Andrade
Estreia Literária
Desde antes de Homero
a aurora de dedos róseos
pousava todas as manhãs
por obrigação.
Não assim tão róseos.
Nossa aurora particular baixa num vapor
de frio do alto da serra, e mal nos vemos,
errantes, no recreio, em meio a rolos
de névoa.
Outra aurora eu namoro: a Colegial.
Quatro páginas. Quinzenal. 300 réis.
“Periódico da Divisão dos Maiores.”
Quero escrever, quero emitir clarões
de astro-rei literário em suas edições.
Dão-me, que esplendor, primeira página,
primeira, soberbíssima coluna.
É a glória, entre muros, mas a glória.
Contemplo, extasiado,
o meu próprio talento em letras públicas.
Ler? Não leio não.
Quero é sentir meu nome, com a notinha:
“Aluno do segundo ginasial”.
Já são quatro da tarde.
Até agora ninguém
veio gabar-me a nobre criação.
Ninguém gastou 300 réis para me ler?
Será que meu escrito
não é lá uma peça tão sublime?
Decido-me a encará-lo mais a fundo.
Vou me ler a mim mesmo. Decepção.
O padre-redator introduziu
certas mimosas flores estilísticas
no meu jardim de verbos e adjetivos.
Aquilo não é meu. Antes assim,
ninguém me admirar.
a aurora de dedos róseos
pousava todas as manhãs
por obrigação.
Não assim tão róseos.
Nossa aurora particular baixa num vapor
de frio do alto da serra, e mal nos vemos,
errantes, no recreio, em meio a rolos
de névoa.
Outra aurora eu namoro: a Colegial.
Quatro páginas. Quinzenal. 300 réis.
“Periódico da Divisão dos Maiores.”
Quero escrever, quero emitir clarões
de astro-rei literário em suas edições.
Dão-me, que esplendor, primeira página,
primeira, soberbíssima coluna.
É a glória, entre muros, mas a glória.
Contemplo, extasiado,
o meu próprio talento em letras públicas.
Ler? Não leio não.
Quero é sentir meu nome, com a notinha:
“Aluno do segundo ginasial”.
Já são quatro da tarde.
Até agora ninguém
veio gabar-me a nobre criação.
Ninguém gastou 300 réis para me ler?
Será que meu escrito
não é lá uma peça tão sublime?
Decido-me a encará-lo mais a fundo.
Vou me ler a mim mesmo. Decepção.
O padre-redator introduziu
certas mimosas flores estilísticas
no meu jardim de verbos e adjetivos.
Aquilo não é meu. Antes assim,
ninguém me admirar.
1 261
Carlos Drummond de Andrade
Marcas de Gado Na Alma
Bicanca, Sapo Inchado, Caveira Elétrica,
Pistola Dupla, Zé Macaco, Apara Aí,
Quisira,
Marreco,
Massa Bruta…
Ainda bem que o apelido de Anarquista
tem certa dignidade assustadora.
Isso consola?
Pistola Dupla, Zé Macaco, Apara Aí,
Quisira,
Marreco,
Massa Bruta…
Ainda bem que o apelido de Anarquista
tem certa dignidade assustadora.
Isso consola?
988
Carlos Drummond de Andrade
Livraria Alves
Primeira livraria, Rua da Bahia.
A Carne de Jesus, por Almáquio Diniz
(não leiam! obra excomungada pela Igreja)
rutila no aquário da vitrina.
Terror visual na tarde de domingo.
Volto para o colégio. O título sacrílego
relampeja na consciência.
Livraria, lugar de danação,
lugar de descoberta.
Um dia, quando? Vou entrar naquela casa,
vou comprar
um livro mais terrível que o de Almáquio
e nele me perder — e me encontrar.
A Carne de Jesus, por Almáquio Diniz
(não leiam! obra excomungada pela Igreja)
rutila no aquário da vitrina.
Terror visual na tarde de domingo.
Volto para o colégio. O título sacrílego
relampeja na consciência.
Livraria, lugar de danação,
lugar de descoberta.
Um dia, quando? Vou entrar naquela casa,
vou comprar
um livro mais terrível que o de Almáquio
e nele me perder — e me encontrar.
1 359
Carlos Drummond de Andrade
Livraria Alves
Primeira livraria, Rua da Bahia.
A Carne de Jesus, por Almáquio Diniz
(não leiam! obra excomungada pela Igreja)
rutila no aquário da vitrina.
Terror visual na tarde de domingo.
Volto para o colégio. O título sacrílego
relampeja na consciência.
Livraria, lugar de danação,
lugar de descoberta.
Um dia, quando? Vou entrar naquela casa,
vou comprar
um livro mais terrível que o de Almáquio
e nele me perder — e me encontrar.
A Carne de Jesus, por Almáquio Diniz
(não leiam! obra excomungada pela Igreja)
rutila no aquário da vitrina.
Terror visual na tarde de domingo.
Volto para o colégio. O título sacrílego
relampeja na consciência.
Livraria, lugar de danação,
lugar de descoberta.
Um dia, quando? Vou entrar naquela casa,
vou comprar
um livro mais terrível que o de Almáquio
e nele me perder — e me encontrar.
1 359
Carlos Drummond de Andrade
Primeiro Dia
Resumo do Brasil no pátio de areia fina.
Sotaques e risos estranhos.
Continente de almas a descobrir
palmo a palmo, rosto a rosto,
número a número,
ferida a ferida.
Mal nos conhecemos, a palavra-mistério
na pergunta-sussurro
é pedrada na testa:
— Você gosta de foder?
Sotaques e risos estranhos.
Continente de almas a descobrir
palmo a palmo, rosto a rosto,
número a número,
ferida a ferida.
Mal nos conhecemos, a palavra-mistério
na pergunta-sussurro
é pedrada na testa:
— Você gosta de foder?
1 191
Carlos Drummond de Andrade
Morte de Noivo
Suicida-se o noivo de Carmela,
antes noivo de Isaura.
Desfeito o primeiro compromisso,
Carmela esperava-o do alto da sacada.
Para entrar, não precisa bater palmas
o amor. De uma rua
a outra rua, transita, pesquisando.
É Carmela a escolhida. E agora o noivo mata-se
com insabido veneno, sem uma palavra.
Duas moças vivendo a morte muda.
Nenhuma vai ao enterro. Proibido
chorar em público morte de infiel.
Cada uma em seu quarto solteiríssimo,
escurecido em quarto de viúva.
Isaura: Se não havia de ser meu,
nenhum dedo terá sua aliança.
Carmela: Todas duas fomos derrotadas
ou ninguém perdeu,
ganhou ninguém?
As fronhas são esponjas
de lágrimas secretas.
antes noivo de Isaura.
Desfeito o primeiro compromisso,
Carmela esperava-o do alto da sacada.
Para entrar, não precisa bater palmas
o amor. De uma rua
a outra rua, transita, pesquisando.
É Carmela a escolhida. E agora o noivo mata-se
com insabido veneno, sem uma palavra.
Duas moças vivendo a morte muda.
Nenhuma vai ao enterro. Proibido
chorar em público morte de infiel.
Cada uma em seu quarto solteiríssimo,
escurecido em quarto de viúva.
Isaura: Se não havia de ser meu,
nenhum dedo terá sua aliança.
Carmela: Todas duas fomos derrotadas
ou ninguém perdeu,
ganhou ninguém?
As fronhas são esponjas
de lágrimas secretas.
1 198
Carlos Drummond de Andrade
Lorena
Lorena, contemplado com malícia,
deixa-se estar, languidamente efebo.
Bailam, sob a atração de luz ambígua,
em seu redor, mutucas de desejo.
E Lorena sorri, sua cabeça
responde não aos gestos insistentes.
Que matéria excitante para o arpejo
noturno, antes-depois da penitência!
Dormir sonham os Grandes com Lorena,
mas onde? quando? se este ano letivo
dura uma eternidade, pelo menos,
e depois vem o tempo, o tempo livre
de viajar na coxa das mulheres,
e Lorena se esgarça na lembrança?
deixa-se estar, languidamente efebo.
Bailam, sob a atração de luz ambígua,
em seu redor, mutucas de desejo.
E Lorena sorri, sua cabeça
responde não aos gestos insistentes.
Que matéria excitante para o arpejo
noturno, antes-depois da penitência!
Dormir sonham os Grandes com Lorena,
mas onde? quando? se este ano letivo
dura uma eternidade, pelo menos,
e depois vem o tempo, o tempo livre
de viajar na coxa das mulheres,
e Lorena se esgarça na lembrança?
776
Carlos Drummond de Andrade
Lorena
Lorena, contemplado com malícia,
deixa-se estar, languidamente efebo.
Bailam, sob a atração de luz ambígua,
em seu redor, mutucas de desejo.
E Lorena sorri, sua cabeça
responde não aos gestos insistentes.
Que matéria excitante para o arpejo
noturno, antes-depois da penitência!
Dormir sonham os Grandes com Lorena,
mas onde? quando? se este ano letivo
dura uma eternidade, pelo menos,
e depois vem o tempo, o tempo livre
de viajar na coxa das mulheres,
e Lorena se esgarça na lembrança?
deixa-se estar, languidamente efebo.
Bailam, sob a atração de luz ambígua,
em seu redor, mutucas de desejo.
E Lorena sorri, sua cabeça
responde não aos gestos insistentes.
Que matéria excitante para o arpejo
noturno, antes-depois da penitência!
Dormir sonham os Grandes com Lorena,
mas onde? quando? se este ano letivo
dura uma eternidade, pelo menos,
e depois vem o tempo, o tempo livre
de viajar na coxa das mulheres,
e Lorena se esgarça na lembrança?
776
Carlos Drummond de Andrade
Fim da Casa Paterna
I
E chega a hora negra de estudar.
Hora de viajar
rumo à sabedoria do colégio.
Além, muito além de mato e serra,
fica o internato sem doçura.
Risos perguntando, maliciosos
no pátio de recreio, imprevisível.
O colchão diferente.
O despertar em série (nunca mais
acordo individualmente, soberano).
A fisionomia indecifrável
dos padres professores.
Até o céu diferente: céu de exílio.
Eu sei, que nunca vi, e tenho medo.
Vou dobrar-me
à regra nova de viver.
Ser outro que não eu, até agora
musicalmente agasalhado
na voz de minha mãe, que cura doenças,
escorado
no bronze de meu pai, que afasta os raios.
Ou vou ser — talvez isso — apenas eu
unicamente eu, a revelar-me
na sozinha aventura em terra estranha?
Agora me retalha
o canivete desta descoberta:
eu não quero ser eu, prefiro continuar
objeto de família.
II
A “condução” me espera:
o cavalo arreado, o alforje
da matalotagem,
o burrinho de carga,
o camarada-escudeiro, que irá
na retaguarda,
meu pai-imperador, o Abre-Caminho.
Os olhos se despedem da paisagem
que não me retribui.
A casa, a própria casa me ignora.
Nenhuma xícara ou porta me deseja
boa viagem.
Só o lenço de minha mãe fala comigo
e já se recolheu.
III
São oito léguas compridas
no universo sem estradas.
São morros de não acaba
e trilhas de tropa lenta
a nos barrar a passagem.
Pequenos rios de barro
sem iaras, sem canoas
e uns solitários coqueiros
vigiando mortas casas
de falecidas fazendas.
Ou são mergulhos na lama
de patas que não têm pressa
de chegar a Santa Bárbara.
Quando termina a viagem,
se por acaso termina,
pois vai sempre se adiando
o pouso que o pai promete
a consolar o menino?
Que imenso país é este
das Minas fora do mapa
contido no meu caderno?
Que Minas sem fim nem traço
de resmungo entre raríssimos
roceiros que apenas roçam
mão na aba do chapéu
em saudação de passante?
O cavalgar inexperto
martiriza o corpo exausto.
Se bem que macia a seda,
deixa o traseiro esfolado.
Até que afinal, hosana!
apeando em São Gonçalo
diante da suspirada
venda de Augusto Pessoa,
meu pai, descansando, estende-me
o copo quente e divino
de uma cerveja Fidalga.
Bebi. Bebemos. Avante.
IV
Tenho que assimilar a singularidade
do trem de ferro.
Sua bufante locomotiva, seus estertores,
seus rangidos, a angustiante
ou festiva mensagem do seu apito.
Ah, seus assentos conjugados de palhinha
sobre o estofo.
Nunca viajei em bloco, a vida
começa a complicar-se.
Novidade intrigante, o sabonete
preso na corrente.
Minha terra era livre, e meu quarto infinito.
E chega a hora negra de estudar.
Hora de viajar
rumo à sabedoria do colégio.
Além, muito além de mato e serra,
fica o internato sem doçura.
Risos perguntando, maliciosos
no pátio de recreio, imprevisível.
O colchão diferente.
O despertar em série (nunca mais
acordo individualmente, soberano).
A fisionomia indecifrável
dos padres professores.
Até o céu diferente: céu de exílio.
Eu sei, que nunca vi, e tenho medo.
Vou dobrar-me
à regra nova de viver.
Ser outro que não eu, até agora
musicalmente agasalhado
na voz de minha mãe, que cura doenças,
escorado
no bronze de meu pai, que afasta os raios.
Ou vou ser — talvez isso — apenas eu
unicamente eu, a revelar-me
na sozinha aventura em terra estranha?
Agora me retalha
o canivete desta descoberta:
eu não quero ser eu, prefiro continuar
objeto de família.
II
A “condução” me espera:
o cavalo arreado, o alforje
da matalotagem,
o burrinho de carga,
o camarada-escudeiro, que irá
na retaguarda,
meu pai-imperador, o Abre-Caminho.
Os olhos se despedem da paisagem
que não me retribui.
A casa, a própria casa me ignora.
Nenhuma xícara ou porta me deseja
boa viagem.
Só o lenço de minha mãe fala comigo
e já se recolheu.
III
São oito léguas compridas
no universo sem estradas.
São morros de não acaba
e trilhas de tropa lenta
a nos barrar a passagem.
Pequenos rios de barro
sem iaras, sem canoas
e uns solitários coqueiros
vigiando mortas casas
de falecidas fazendas.
Ou são mergulhos na lama
de patas que não têm pressa
de chegar a Santa Bárbara.
Quando termina a viagem,
se por acaso termina,
pois vai sempre se adiando
o pouso que o pai promete
a consolar o menino?
Que imenso país é este
das Minas fora do mapa
contido no meu caderno?
Que Minas sem fim nem traço
de resmungo entre raríssimos
roceiros que apenas roçam
mão na aba do chapéu
em saudação de passante?
O cavalgar inexperto
martiriza o corpo exausto.
Se bem que macia a seda,
deixa o traseiro esfolado.
Até que afinal, hosana!
apeando em São Gonçalo
diante da suspirada
venda de Augusto Pessoa,
meu pai, descansando, estende-me
o copo quente e divino
de uma cerveja Fidalga.
Bebi. Bebemos. Avante.
IV
Tenho que assimilar a singularidade
do trem de ferro.
Sua bufante locomotiva, seus estertores,
seus rangidos, a angustiante
ou festiva mensagem do seu apito.
Ah, seus assentos conjugados de palhinha
sobre o estofo.
Nunca viajei em bloco, a vida
começa a complicar-se.
Novidade intrigante, o sabonete
preso na corrente.
Minha terra era livre, e meu quarto infinito.
1 692
Carlos Drummond de Andrade
Os Charadistas
Passam a vida lenta decifrando
novíssimas,
sincopadas,
logogrifos.
Mandam soluções para o Almanaque Bertrand
e quedam à espera do navio de Lisboa que não vem,
não atracará nunca no Rio Doce,
trazendo em nova edição os nomes dos aficionados
triunfadores.
Chega a besta rústica do Correio.
Na mala, do volume encharcado de chuva,
não salta nenhuma vitória para a cidade,
salvo no ano esplendoroso de 1909
em que Juquinha Gago tirou menção honrosa.
Pobre (rico?) de mim,
que nunca fui além das cartas enigmáticas,
sem conclusão e sem prêmio,
mas também não sou nunca derrotado.
novíssimas,
sincopadas,
logogrifos.
Mandam soluções para o Almanaque Bertrand
e quedam à espera do navio de Lisboa que não vem,
não atracará nunca no Rio Doce,
trazendo em nova edição os nomes dos aficionados
triunfadores.
Chega a besta rústica do Correio.
Na mala, do volume encharcado de chuva,
não salta nenhuma vitória para a cidade,
salvo no ano esplendoroso de 1909
em que Juquinha Gago tirou menção honrosa.
Pobre (rico?) de mim,
que nunca fui além das cartas enigmáticas,
sem conclusão e sem prêmio,
mas também não sou nunca derrotado.
599
Carlos Drummond de Andrade
A Norma E o Domingo
Comportei-me mal,
perdi o domingo.
Posso saber tudo
das ciências todas,
dar quinau em aula,
espantar a sábios
professores mil:
comportei-me mal,
não saio domingo.
Fico vendo mosca
zanzar e zombar
de minha prisão.
Um azul bocejo
derrama-se leve
em pó de fubá
no pátio deserto.
Não há futebol,
não quero leitura,
conversa não quero,
vai-se meu domingo.
Lá fora a cidade
é mais provocante
e seu pálio aberto
recobre ignorantes
dóceis ao preceito.
Que aventura doida
no domingo livre
estarão desfiando,
enquanto eu sozinho
contemplo escorrer
a lesma infindável
do meu não domingo?
Digo nomes feios
(calado, está visto).
Não vá ser-me imposta
a perda total
de quantos domingos
Deus for programando
em Minas Gerais.
Abomino a ordem
que confisca tempo,
que confisca vida
e ensaia tão cedo
a prisão perpétua
do comportamento.
perdi o domingo.
Posso saber tudo
das ciências todas,
dar quinau em aula,
espantar a sábios
professores mil:
comportei-me mal,
não saio domingo.
Fico vendo mosca
zanzar e zombar
de minha prisão.
Um azul bocejo
derrama-se leve
em pó de fubá
no pátio deserto.
Não há futebol,
não quero leitura,
conversa não quero,
vai-se meu domingo.
Lá fora a cidade
é mais provocante
e seu pálio aberto
recobre ignorantes
dóceis ao preceito.
Que aventura doida
no domingo livre
estarão desfiando,
enquanto eu sozinho
contemplo escorrer
a lesma infindável
do meu não domingo?
Digo nomes feios
(calado, está visto).
Não vá ser-me imposta
a perda total
de quantos domingos
Deus for programando
em Minas Gerais.
Abomino a ordem
que confisca tempo,
que confisca vida
e ensaia tão cedo
a prisão perpétua
do comportamento.
1 557
Carlos Drummond de Andrade
A Norma E o Domingo
Comportei-me mal,
perdi o domingo.
Posso saber tudo
das ciências todas,
dar quinau em aula,
espantar a sábios
professores mil:
comportei-me mal,
não saio domingo.
Fico vendo mosca
zanzar e zombar
de minha prisão.
Um azul bocejo
derrama-se leve
em pó de fubá
no pátio deserto.
Não há futebol,
não quero leitura,
conversa não quero,
vai-se meu domingo.
Lá fora a cidade
é mais provocante
e seu pálio aberto
recobre ignorantes
dóceis ao preceito.
Que aventura doida
no domingo livre
estarão desfiando,
enquanto eu sozinho
contemplo escorrer
a lesma infindável
do meu não domingo?
Digo nomes feios
(calado, está visto).
Não vá ser-me imposta
a perda total
de quantos domingos
Deus for programando
em Minas Gerais.
Abomino a ordem
que confisca tempo,
que confisca vida
e ensaia tão cedo
a prisão perpétua
do comportamento.
perdi o domingo.
Posso saber tudo
das ciências todas,
dar quinau em aula,
espantar a sábios
professores mil:
comportei-me mal,
não saio domingo.
Fico vendo mosca
zanzar e zombar
de minha prisão.
Um azul bocejo
derrama-se leve
em pó de fubá
no pátio deserto.
Não há futebol,
não quero leitura,
conversa não quero,
vai-se meu domingo.
Lá fora a cidade
é mais provocante
e seu pálio aberto
recobre ignorantes
dóceis ao preceito.
Que aventura doida
no domingo livre
estarão desfiando,
enquanto eu sozinho
contemplo escorrer
a lesma infindável
do meu não domingo?
Digo nomes feios
(calado, está visto).
Não vá ser-me imposta
a perda total
de quantos domingos
Deus for programando
em Minas Gerais.
Abomino a ordem
que confisca tempo,
que confisca vida
e ensaia tão cedo
a prisão perpétua
do comportamento.
1 557
Carlos Drummond de Andrade
Segundo Dia
Sou anarquista. Declaro honestamente.
(A tarde vai cerzindo no recreio
o pano de entrecortada confissão.)
Espanto, susto. Como?
O quê? Por quê? Explica essa besteira.
A solução é a anarquia. Sou
anarquista. Nem de longe vocês captam
o sublime anarquismo. Sou.
Com muita honra. Mas vocês, que são?
Vocês são uns carneiros
de lã obediente.
Zombam de mim. Me vaiam: Anarquista
a-nar-quis-tá a-nar-quis-tá-tá!
(Medo de mim, oculto em gozação?)
O bicho mau, o monstro repelente
conspurcando o jardim de Santo Inácio.
Avançam. Topo a briga. Me estraçalho
lutando contra todos. Furor mil.
Morro ensanguentado. Não. Não mato algum
nem me tocam sequer.
Negro e veloz, chegou a tempo
o Padre, e me salva do massacre,
porém não do apelido: o Anarquista.
(A tarde vai cerzindo no recreio
o pano de entrecortada confissão.)
Espanto, susto. Como?
O quê? Por quê? Explica essa besteira.
A solução é a anarquia. Sou
anarquista. Nem de longe vocês captam
o sublime anarquismo. Sou.
Com muita honra. Mas vocês, que são?
Vocês são uns carneiros
de lã obediente.
Zombam de mim. Me vaiam: Anarquista
a-nar-quis-tá a-nar-quis-tá-tá!
(Medo de mim, oculto em gozação?)
O bicho mau, o monstro repelente
conspurcando o jardim de Santo Inácio.
Avançam. Topo a briga. Me estraçalho
lutando contra todos. Furor mil.
Morro ensanguentado. Não. Não mato algum
nem me tocam sequer.
Negro e veloz, chegou a tempo
o Padre, e me salva do massacre,
porém não do apelido: o Anarquista.
1 045
Carlos Drummond de Andrade
Figuras
O Meirinho, o Meirão. Um é craque na bola,
o outro, caricaturista. A vontade que sinto
de ter nascido J. Carlos e vencê-lo.
Dos três irmãos Lins, Ivan ainda não conhece
Auguste Comte e já se mostra sábio.
Capanema, o estudante
três vezes estudante, e completo.
O completo vadio,
ignoro se sou. Sei que não sei
estudar, e isto é grave. Jamais aprenderei.
Vou rasgando papéis pelo pátio varrido.
Todos riem baixinho. Volto-me,
pressentimento.
Atrás de mim Padre Piquet vem, passo a passo,
pousa em meu ombro a punição.
o outro, caricaturista. A vontade que sinto
de ter nascido J. Carlos e vencê-lo.
Dos três irmãos Lins, Ivan ainda não conhece
Auguste Comte e já se mostra sábio.
Capanema, o estudante
três vezes estudante, e completo.
O completo vadio,
ignoro se sou. Sei que não sei
estudar, e isto é grave. Jamais aprenderei.
Vou rasgando papéis pelo pátio varrido.
Todos riem baixinho. Volto-me,
pressentimento.
Atrás de mim Padre Piquet vem, passo a passo,
pousa em meu ombro a punição.
1 078