Poemas neste tema
Vida e Existência
Carlos Drummond de Andrade
O Céu Livre da Fazenda
Das loucas festas na fazenda da Jaguara
não resta mais nem um cristal trincado.
Matas e lagoas não recordam
o que ali se bebeu e se dançou
enquanto o antigo dono Antônio de Abreu Guimarães
carpia em penitência portuguesa seus pecados
de contrabandista de ouro e diamantes.
As obras pias que a Jaguara devia sustentar
morreram com os festejos. Tempos rotos.
Na torre da igreja da fazenda
a suinara é o epílogo de tudo.
A ganância e a vaidade se ausentaram
destes sítios. Nem mesmo ingleses
escoram mais galerias de Morro Velho com madeiras
cortadas na Jaguara. A natureza
recompõe seus prestígios onde o homem
parou de depredar. A garça branca
pousa delicada nos espelhos d’água remansosa, onde a presença
não se percebe mais da garça rósea.
E vem o gaturamo cantarilho
nas roçadas de milho, o quero-quero
circunvoando juncos. Multicor,
a plumagem do socozinho vai cruzando
o voo horizontal das jaçanãs.
Repara, homem do asfalto, a seriema
a preparar, no capim alto, seus disfarces,
e a corruíra-do-brejo, a viuvinha,
o lenhador-de-olho-branco, a saracura,
todas essas aves que só existem
nas gravuras dos livros, na empalhada
vitrina dos museus... porque matamos
o que era vida alada em nossa volta.
Ou não repares nada. Tenho medo
de convidar-te a ver o livre espaço
da Jaguara, e teu instinto predatório
novamente açular-se, tua fome
de frequentador de restaurante cinco estrelas
cobiçar a carne tenra e não sabida
que neste lugar-refúgio se compraz
em ter forma voante e livre-azul.
Neste lugar habito em pensamento
quando Marcus Vinícius e Marco Antônio
me emprestam seus binóculos científicos
e apontam para o sabiá-laranjeira
construindo seu ninho; o carcará
metuendo, que não assusta colibris;
e cento e oito mais espécies que aqui vivem
em seus ecossistemas primitivos,
sobrantes por milagre.
Ouço, na gravação, suas linguagens.
Estão perto de mim, reis-fazendeiros
das plantas e dos bichos-alimento.
Já não é a Jaguara voluptuosa,
mas o simples refúgio, ilha de vida,
enquanto a vida nega-se a si mesma
na exacerbação das técnicas de lucro.
Pequeno paraíso vegetal
ou resto de paraíso... à sombra austera
da torre onde a suinara tem sua noite.
não resta mais nem um cristal trincado.
Matas e lagoas não recordam
o que ali se bebeu e se dançou
enquanto o antigo dono Antônio de Abreu Guimarães
carpia em penitência portuguesa seus pecados
de contrabandista de ouro e diamantes.
As obras pias que a Jaguara devia sustentar
morreram com os festejos. Tempos rotos.
Na torre da igreja da fazenda
a suinara é o epílogo de tudo.
A ganância e a vaidade se ausentaram
destes sítios. Nem mesmo ingleses
escoram mais galerias de Morro Velho com madeiras
cortadas na Jaguara. A natureza
recompõe seus prestígios onde o homem
parou de depredar. A garça branca
pousa delicada nos espelhos d’água remansosa, onde a presença
não se percebe mais da garça rósea.
E vem o gaturamo cantarilho
nas roçadas de milho, o quero-quero
circunvoando juncos. Multicor,
a plumagem do socozinho vai cruzando
o voo horizontal das jaçanãs.
Repara, homem do asfalto, a seriema
a preparar, no capim alto, seus disfarces,
e a corruíra-do-brejo, a viuvinha,
o lenhador-de-olho-branco, a saracura,
todas essas aves que só existem
nas gravuras dos livros, na empalhada
vitrina dos museus... porque matamos
o que era vida alada em nossa volta.
Ou não repares nada. Tenho medo
de convidar-te a ver o livre espaço
da Jaguara, e teu instinto predatório
novamente açular-se, tua fome
de frequentador de restaurante cinco estrelas
cobiçar a carne tenra e não sabida
que neste lugar-refúgio se compraz
em ter forma voante e livre-azul.
Neste lugar habito em pensamento
quando Marcus Vinícius e Marco Antônio
me emprestam seus binóculos científicos
e apontam para o sabiá-laranjeira
construindo seu ninho; o carcará
metuendo, que não assusta colibris;
e cento e oito mais espécies que aqui vivem
em seus ecossistemas primitivos,
sobrantes por milagre.
Ouço, na gravação, suas linguagens.
Estão perto de mim, reis-fazendeiros
das plantas e dos bichos-alimento.
Já não é a Jaguara voluptuosa,
mas o simples refúgio, ilha de vida,
enquanto a vida nega-se a si mesma
na exacerbação das técnicas de lucro.
Pequeno paraíso vegetal
ou resto de paraíso... à sombra austera
da torre onde a suinara tem sua noite.
1 332
Carlos Drummond de Andrade
Soneto do Pássaro
Batem as asas? Rosa aberta, a saia
esculpe, no seu giro, o corpo leve.
Entre músculos suaves, uma alfaia,
selada, tremeluz à vista breve.
O que, mal percebido, se descreve
em termos de pelúcia ou de cambraia,
o que é fogo sutil, soprado em neve,
curva de coxa atlântica na praia,
vira mulher ou pássaro? No rosto,
essa mesma expressão aérea ou grave,
esse indeciso traço de sol-posto,
de fuga, que há no bico de uma ave.
O mais é jeito humano ou desumano,
conforme a inclinação de meu engano.
esculpe, no seu giro, o corpo leve.
Entre músculos suaves, uma alfaia,
selada, tremeluz à vista breve.
O que, mal percebido, se descreve
em termos de pelúcia ou de cambraia,
o que é fogo sutil, soprado em neve,
curva de coxa atlântica na praia,
vira mulher ou pássaro? No rosto,
essa mesma expressão aérea ou grave,
esse indeciso traço de sol-posto,
de fuga, que há no bico de uma ave.
O mais é jeito humano ou desumano,
conforme a inclinação de meu engano.
1 565
Carlos Drummond de Andrade
Canto Negro
À beira do negro poço
debruço-me, nada alcanço.
Decerto perdi os olhos
que tinha quando criança.
Decerto os perdi. Com eles
é que te encarava, preto,
gravura de cama e padre,
talhada em pele, no medo.
Ai, preto, que ris em mim,
nesta roupinha de luto
e nesta noite sem causa,
com saudade das ambacas
que nunca vi, e aonde fui
num cabelo de sovaco.
Preto que vivi, chupando
já não sei que seios moles
mais claros no busto preto
no longo corredor preto
entre volutas de preto
cachimbo em preta cozinha.
Já não sei onde te escondes
que não me encontro nas tuas
dobras de manto mortal.
Já não sei, negro, em que vaso,
que vão ou que labirinto
de mim, te esquivas a mim,
e zombas desta gelada
calma vã de suíça e de alma
em que me pranteio, branco,
brinco, bronco, triste blau
de neutro brasão escócio…
Meu preto, o bom era o nosso.
O mau era o nosso. E amávamos
a comum essência triste
que transmutava os carinhos
numa visguenta doçura
de vulva negro-amaranto,
barata! que vosso preço,
ó corpos de antigamente,
somente estava no dom
de vós mesmos ao desejo,
num entregar-se sem pejo
de terra pisada.
Amada,talvez não, mas que cobiça
tu me despertavas, linha
que subindo pelo artelho,
enovelando-se no joelho,
dava ao mistério das coxas
uma ardente pulcritude,
uma graça, uma virtude
que nem sei como acabava
entre as moitas e coágulos
da letárgica bacia
onde a gente se pasmava,
se perdia, se afogava
e depois se ressarcia.
Bacia negra, o clarão
que súbito entremostravas
ilumina toda a vida
e por sobre a vida entreabre
um coalho fixo lunar,
neste amarelo descor
das posses de todo dia,
sol preto sobre água fria.
Vejo os garotos na escola,
preto-branco-branco-preto,
vejo pés pretos e uns brancos
dentes de marfim mordente,
o alvor do riso escondendo
outra negridão maior,
o negro central, o negro
que enegrece teu negrume
e que nada mais resume
além dessa solitude
que do branco vai ao preto
e do preto volta pleno
de soluços e resmungos,
como um rancor de si mesmo…
Como um rancor de si mesmo,
vem do preto essa ternura,
essa onda amarga, esse bafo
a rodar pelas calçadas,
famélica voz perdida
numa garrafa de breu,
de pranto ou coisa nenhuma:
esse estar e não estar,
esse não estar já sendo,
esse ir como esse refluir,
dançar de umbigo, litúrgico,
sofrer, brunir bem a roupa
que só um anjo vestira,
se é que os anjos se mirassem,
essa nostalgia rara
de um país antes dos outros,
antes do mito e do sol,
onde as coisas nem de brancas
fossem chamadas, lançando-se
definitivas eternas
coisas bem antes dos homens.
À beira do negro poço
debruço-me; e nele vejo,
agora que não sou moço,
um passarinho e um desejo.
debruço-me, nada alcanço.
Decerto perdi os olhos
que tinha quando criança.
Decerto os perdi. Com eles
é que te encarava, preto,
gravura de cama e padre,
talhada em pele, no medo.
Ai, preto, que ris em mim,
nesta roupinha de luto
e nesta noite sem causa,
com saudade das ambacas
que nunca vi, e aonde fui
num cabelo de sovaco.
Preto que vivi, chupando
já não sei que seios moles
mais claros no busto preto
no longo corredor preto
entre volutas de preto
cachimbo em preta cozinha.
Já não sei onde te escondes
que não me encontro nas tuas
dobras de manto mortal.
Já não sei, negro, em que vaso,
que vão ou que labirinto
de mim, te esquivas a mim,
e zombas desta gelada
calma vã de suíça e de alma
em que me pranteio, branco,
brinco, bronco, triste blau
de neutro brasão escócio…
Meu preto, o bom era o nosso.
O mau era o nosso. E amávamos
a comum essência triste
que transmutava os carinhos
numa visguenta doçura
de vulva negro-amaranto,
barata! que vosso preço,
ó corpos de antigamente,
somente estava no dom
de vós mesmos ao desejo,
num entregar-se sem pejo
de terra pisada.
Amada,talvez não, mas que cobiça
tu me despertavas, linha
que subindo pelo artelho,
enovelando-se no joelho,
dava ao mistério das coxas
uma ardente pulcritude,
uma graça, uma virtude
que nem sei como acabava
entre as moitas e coágulos
da letárgica bacia
onde a gente se pasmava,
se perdia, se afogava
e depois se ressarcia.
Bacia negra, o clarão
que súbito entremostravas
ilumina toda a vida
e por sobre a vida entreabre
um coalho fixo lunar,
neste amarelo descor
das posses de todo dia,
sol preto sobre água fria.
Vejo os garotos na escola,
preto-branco-branco-preto,
vejo pés pretos e uns brancos
dentes de marfim mordente,
o alvor do riso escondendo
outra negridão maior,
o negro central, o negro
que enegrece teu negrume
e que nada mais resume
além dessa solitude
que do branco vai ao preto
e do preto volta pleno
de soluços e resmungos,
como um rancor de si mesmo…
Como um rancor de si mesmo,
vem do preto essa ternura,
essa onda amarga, esse bafo
a rodar pelas calçadas,
famélica voz perdida
numa garrafa de breu,
de pranto ou coisa nenhuma:
esse estar e não estar,
esse não estar já sendo,
esse ir como esse refluir,
dançar de umbigo, litúrgico,
sofrer, brunir bem a roupa
que só um anjo vestira,
se é que os anjos se mirassem,
essa nostalgia rara
de um país antes dos outros,
antes do mito e do sol,
onde as coisas nem de brancas
fossem chamadas, lançando-se
definitivas eternas
coisas bem antes dos homens.
À beira do negro poço
debruço-me; e nele vejo,
agora que não sou moço,
um passarinho e um desejo.
1 514
Carlos Drummond de Andrade
Canto Negro
À beira do negro poço
debruço-me, nada alcanço.
Decerto perdi os olhos
que tinha quando criança.
Decerto os perdi. Com eles
é que te encarava, preto,
gravura de cama e padre,
talhada em pele, no medo.
Ai, preto, que ris em mim,
nesta roupinha de luto
e nesta noite sem causa,
com saudade das ambacas
que nunca vi, e aonde fui
num cabelo de sovaco.
Preto que vivi, chupando
já não sei que seios moles
mais claros no busto preto
no longo corredor preto
entre volutas de preto
cachimbo em preta cozinha.
Já não sei onde te escondes
que não me encontro nas tuas
dobras de manto mortal.
Já não sei, negro, em que vaso,
que vão ou que labirinto
de mim, te esquivas a mim,
e zombas desta gelada
calma vã de suíça e de alma
em que me pranteio, branco,
brinco, bronco, triste blau
de neutro brasão escócio…
Meu preto, o bom era o nosso.
O mau era o nosso. E amávamos
a comum essência triste
que transmutava os carinhos
numa visguenta doçura
de vulva negro-amaranto,
barata! que vosso preço,
ó corpos de antigamente,
somente estava no dom
de vós mesmos ao desejo,
num entregar-se sem pejo
de terra pisada.
Amada,talvez não, mas que cobiça
tu me despertavas, linha
que subindo pelo artelho,
enovelando-se no joelho,
dava ao mistério das coxas
uma ardente pulcritude,
uma graça, uma virtude
que nem sei como acabava
entre as moitas e coágulos
da letárgica bacia
onde a gente se pasmava,
se perdia, se afogava
e depois se ressarcia.
Bacia negra, o clarão
que súbito entremostravas
ilumina toda a vida
e por sobre a vida entreabre
um coalho fixo lunar,
neste amarelo descor
das posses de todo dia,
sol preto sobre água fria.
Vejo os garotos na escola,
preto-branco-branco-preto,
vejo pés pretos e uns brancos
dentes de marfim mordente,
o alvor do riso escondendo
outra negridão maior,
o negro central, o negro
que enegrece teu negrume
e que nada mais resume
além dessa solitude
que do branco vai ao preto
e do preto volta pleno
de soluços e resmungos,
como um rancor de si mesmo…
Como um rancor de si mesmo,
vem do preto essa ternura,
essa onda amarga, esse bafo
a rodar pelas calçadas,
famélica voz perdida
numa garrafa de breu,
de pranto ou coisa nenhuma:
esse estar e não estar,
esse não estar já sendo,
esse ir como esse refluir,
dançar de umbigo, litúrgico,
sofrer, brunir bem a roupa
que só um anjo vestira,
se é que os anjos se mirassem,
essa nostalgia rara
de um país antes dos outros,
antes do mito e do sol,
onde as coisas nem de brancas
fossem chamadas, lançando-se
definitivas eternas
coisas bem antes dos homens.
À beira do negro poço
debruço-me; e nele vejo,
agora que não sou moço,
um passarinho e um desejo.
debruço-me, nada alcanço.
Decerto perdi os olhos
que tinha quando criança.
Decerto os perdi. Com eles
é que te encarava, preto,
gravura de cama e padre,
talhada em pele, no medo.
Ai, preto, que ris em mim,
nesta roupinha de luto
e nesta noite sem causa,
com saudade das ambacas
que nunca vi, e aonde fui
num cabelo de sovaco.
Preto que vivi, chupando
já não sei que seios moles
mais claros no busto preto
no longo corredor preto
entre volutas de preto
cachimbo em preta cozinha.
Já não sei onde te escondes
que não me encontro nas tuas
dobras de manto mortal.
Já não sei, negro, em que vaso,
que vão ou que labirinto
de mim, te esquivas a mim,
e zombas desta gelada
calma vã de suíça e de alma
em que me pranteio, branco,
brinco, bronco, triste blau
de neutro brasão escócio…
Meu preto, o bom era o nosso.
O mau era o nosso. E amávamos
a comum essência triste
que transmutava os carinhos
numa visguenta doçura
de vulva negro-amaranto,
barata! que vosso preço,
ó corpos de antigamente,
somente estava no dom
de vós mesmos ao desejo,
num entregar-se sem pejo
de terra pisada.
Amada,talvez não, mas que cobiça
tu me despertavas, linha
que subindo pelo artelho,
enovelando-se no joelho,
dava ao mistério das coxas
uma ardente pulcritude,
uma graça, uma virtude
que nem sei como acabava
entre as moitas e coágulos
da letárgica bacia
onde a gente se pasmava,
se perdia, se afogava
e depois se ressarcia.
Bacia negra, o clarão
que súbito entremostravas
ilumina toda a vida
e por sobre a vida entreabre
um coalho fixo lunar,
neste amarelo descor
das posses de todo dia,
sol preto sobre água fria.
Vejo os garotos na escola,
preto-branco-branco-preto,
vejo pés pretos e uns brancos
dentes de marfim mordente,
o alvor do riso escondendo
outra negridão maior,
o negro central, o negro
que enegrece teu negrume
e que nada mais resume
além dessa solitude
que do branco vai ao preto
e do preto volta pleno
de soluços e resmungos,
como um rancor de si mesmo…
Como um rancor de si mesmo,
vem do preto essa ternura,
essa onda amarga, esse bafo
a rodar pelas calçadas,
famélica voz perdida
numa garrafa de breu,
de pranto ou coisa nenhuma:
esse estar e não estar,
esse não estar já sendo,
esse ir como esse refluir,
dançar de umbigo, litúrgico,
sofrer, brunir bem a roupa
que só um anjo vestira,
se é que os anjos se mirassem,
essa nostalgia rara
de um país antes dos outros,
antes do mito e do sol,
onde as coisas nem de brancas
fossem chamadas, lançando-se
definitivas eternas
coisas bem antes dos homens.
À beira do negro poço
debruço-me; e nele vejo,
agora que não sou moço,
um passarinho e um desejo.
1 514
Carlos Drummond de Andrade
Canto Negro
À beira do negro poço
debruço-me, nada alcanço.
Decerto perdi os olhos
que tinha quando criança.
Decerto os perdi. Com eles
é que te encarava, preto,
gravura de cama e padre,
talhada em pele, no medo.
Ai, preto, que ris em mim,
nesta roupinha de luto
e nesta noite sem causa,
com saudade das ambacas
que nunca vi, e aonde fui
num cabelo de sovaco.
Preto que vivi, chupando
já não sei que seios moles
mais claros no busto preto
no longo corredor preto
entre volutas de preto
cachimbo em preta cozinha.
Já não sei onde te escondes
que não me encontro nas tuas
dobras de manto mortal.
Já não sei, negro, em que vaso,
que vão ou que labirinto
de mim, te esquivas a mim,
e zombas desta gelada
calma vã de suíça e de alma
em que me pranteio, branco,
brinco, bronco, triste blau
de neutro brasão escócio…
Meu preto, o bom era o nosso.
O mau era o nosso. E amávamos
a comum essência triste
que transmutava os carinhos
numa visguenta doçura
de vulva negro-amaranto,
barata! que vosso preço,
ó corpos de antigamente,
somente estava no dom
de vós mesmos ao desejo,
num entregar-se sem pejo
de terra pisada.
Amada,talvez não, mas que cobiça
tu me despertavas, linha
que subindo pelo artelho,
enovelando-se no joelho,
dava ao mistério das coxas
uma ardente pulcritude,
uma graça, uma virtude
que nem sei como acabava
entre as moitas e coágulos
da letárgica bacia
onde a gente se pasmava,
se perdia, se afogava
e depois se ressarcia.
Bacia negra, o clarão
que súbito entremostravas
ilumina toda a vida
e por sobre a vida entreabre
um coalho fixo lunar,
neste amarelo descor
das posses de todo dia,
sol preto sobre água fria.
Vejo os garotos na escola,
preto-branco-branco-preto,
vejo pés pretos e uns brancos
dentes de marfim mordente,
o alvor do riso escondendo
outra negridão maior,
o negro central, o negro
que enegrece teu negrume
e que nada mais resume
além dessa solitude
que do branco vai ao preto
e do preto volta pleno
de soluços e resmungos,
como um rancor de si mesmo…
Como um rancor de si mesmo,
vem do preto essa ternura,
essa onda amarga, esse bafo
a rodar pelas calçadas,
famélica voz perdida
numa garrafa de breu,
de pranto ou coisa nenhuma:
esse estar e não estar,
esse não estar já sendo,
esse ir como esse refluir,
dançar de umbigo, litúrgico,
sofrer, brunir bem a roupa
que só um anjo vestira,
se é que os anjos se mirassem,
essa nostalgia rara
de um país antes dos outros,
antes do mito e do sol,
onde as coisas nem de brancas
fossem chamadas, lançando-se
definitivas eternas
coisas bem antes dos homens.
À beira do negro poço
debruço-me; e nele vejo,
agora que não sou moço,
um passarinho e um desejo.
debruço-me, nada alcanço.
Decerto perdi os olhos
que tinha quando criança.
Decerto os perdi. Com eles
é que te encarava, preto,
gravura de cama e padre,
talhada em pele, no medo.
Ai, preto, que ris em mim,
nesta roupinha de luto
e nesta noite sem causa,
com saudade das ambacas
que nunca vi, e aonde fui
num cabelo de sovaco.
Preto que vivi, chupando
já não sei que seios moles
mais claros no busto preto
no longo corredor preto
entre volutas de preto
cachimbo em preta cozinha.
Já não sei onde te escondes
que não me encontro nas tuas
dobras de manto mortal.
Já não sei, negro, em que vaso,
que vão ou que labirinto
de mim, te esquivas a mim,
e zombas desta gelada
calma vã de suíça e de alma
em que me pranteio, branco,
brinco, bronco, triste blau
de neutro brasão escócio…
Meu preto, o bom era o nosso.
O mau era o nosso. E amávamos
a comum essência triste
que transmutava os carinhos
numa visguenta doçura
de vulva negro-amaranto,
barata! que vosso preço,
ó corpos de antigamente,
somente estava no dom
de vós mesmos ao desejo,
num entregar-se sem pejo
de terra pisada.
Amada,talvez não, mas que cobiça
tu me despertavas, linha
que subindo pelo artelho,
enovelando-se no joelho,
dava ao mistério das coxas
uma ardente pulcritude,
uma graça, uma virtude
que nem sei como acabava
entre as moitas e coágulos
da letárgica bacia
onde a gente se pasmava,
se perdia, se afogava
e depois se ressarcia.
Bacia negra, o clarão
que súbito entremostravas
ilumina toda a vida
e por sobre a vida entreabre
um coalho fixo lunar,
neste amarelo descor
das posses de todo dia,
sol preto sobre água fria.
Vejo os garotos na escola,
preto-branco-branco-preto,
vejo pés pretos e uns brancos
dentes de marfim mordente,
o alvor do riso escondendo
outra negridão maior,
o negro central, o negro
que enegrece teu negrume
e que nada mais resume
além dessa solitude
que do branco vai ao preto
e do preto volta pleno
de soluços e resmungos,
como um rancor de si mesmo…
Como um rancor de si mesmo,
vem do preto essa ternura,
essa onda amarga, esse bafo
a rodar pelas calçadas,
famélica voz perdida
numa garrafa de breu,
de pranto ou coisa nenhuma:
esse estar e não estar,
esse não estar já sendo,
esse ir como esse refluir,
dançar de umbigo, litúrgico,
sofrer, brunir bem a roupa
que só um anjo vestira,
se é que os anjos se mirassem,
essa nostalgia rara
de um país antes dos outros,
antes do mito e do sol,
onde as coisas nem de brancas
fossem chamadas, lançando-se
definitivas eternas
coisas bem antes dos homens.
À beira do negro poço
debruço-me; e nele vejo,
agora que não sou moço,
um passarinho e um desejo.
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Carlos Drummond de Andrade
Balanço
A pobreza do eu
a opulência do mundo
A opulência do eu
a pobreza do mundo
A pobreza de tudo
a opulência de tudo
A incerteza de tudo
na certeza de nada.
a opulência do mundo
A opulência do eu
a pobreza do mundo
A pobreza de tudo
a opulência de tudo
A incerteza de tudo
na certeza de nada.
2 431
Carlos Drummond de Andrade
Balanço
A pobreza do eu
a opulência do mundo
A opulência do eu
a pobreza do mundo
A pobreza de tudo
a opulência de tudo
A incerteza de tudo
na certeza de nada.
a opulência do mundo
A opulência do eu
a pobreza do mundo
A pobreza de tudo
a opulência de tudo
A incerteza de tudo
na certeza de nada.
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Carlos Drummond de Andrade
A Um Contemporâneo
I — o sábio sorriso
Alceu e Tristão: o nome
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.
Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.
Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.
Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem da espera esperança.
Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.
II — alceu na safira dos oitent’anos
E chega o momento de olhar para o amigo
devagar, bem nos olhos
e sorrir para ele, sem dizer
nenhum desses vanilóquios de todo dia.
Dizemos alguma coisa para a fonte?
Alguma coisa para o ar?
Chega o momento de sentir
o amigo em estado de natureza,
e toda a limpidez
e toda a transparência
da alma se projeta
no que parece um vulto e é uma essência.
Alceu da Casa Azul do Cosme Velho,
onde ricocheteavam as “balas de Floriano”
na Revolta da Armada
sem que a paz do jardim se anuviasse.
Alceu menino penetrando
a mina profunda e sinuosa do morro
como depois penetraria as almas
ansiosas de verdade,
essa alguma verdade pelo menos
que nossos dedos tentam alcançar
entre liquens, lagartos, seixos-navalha.
“Sou um terrível
(guardo tua palavra de há 40 anos)
pesquisador de almas.
Amo as almas como o avarento
ama suas moedas.
Ainda não cheguei à caridade
de amá-las por amor, só por amor,
amo-as por avidez do mistério,
insatisfação do que já sei,
do que já vi e desfolhei.”
A mina desemboca
no ponto matinal
em que a luz espadana
sobre a frente e o dorso da vida.
Alceu, chegaste às cores da manhã
no alto do Corcovado
sobre a cidade dos homens confusos,
sobre as suas rixas e descaminhos,
suas angústias disfarçadas em dança e tóxico,
suas esperanças machucadas,
suas frustrações latejantes na mudez,
a cidade geral — o mundo é uma cidade,
uma aldeia global, a casa em crise.
Na claridade que te envolve
és cada vez menos uma pessoa,
estátua bordada, professor
supostamente aposentado,
com CPF, cartão do IFP,
domiciliado entre palmeiras.
És cada vez, cada vez mais
o pensamento aberto
à comunicação dos seres pelo amor
que exclui injustiça e as formas todas
de inumano tornar o ser humano.
Alceu, fiel ao nome
do cantor de Mitilene que à alegria
juntava o amor à liberdade,
e ensinas a maravilhosa devoção
do homem a seu destino criador,
sem as peias do medo e as farpas do ódio.
Alceu, amigo de fitar nos olhos
como se fita na árvore antiga
o primeiro verdor de sombra e sumo.
Alceu jovial e forte
— força de testemunhar, e proclamar
o que filtrado foi na consciência,
Alceu fraterno e puro, na safira
dos oitent’anos,
na graça
da vida plena,
que é doação e luta e paz no coração.
Alceu e Tristão: o nome
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.
Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.
Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.
Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem da espera esperança.
Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.
II — alceu na safira dos oitent’anos
E chega o momento de olhar para o amigo
devagar, bem nos olhos
e sorrir para ele, sem dizer
nenhum desses vanilóquios de todo dia.
Dizemos alguma coisa para a fonte?
Alguma coisa para o ar?
Chega o momento de sentir
o amigo em estado de natureza,
e toda a limpidez
e toda a transparência
da alma se projeta
no que parece um vulto e é uma essência.
Alceu da Casa Azul do Cosme Velho,
onde ricocheteavam as “balas de Floriano”
na Revolta da Armada
sem que a paz do jardim se anuviasse.
Alceu menino penetrando
a mina profunda e sinuosa do morro
como depois penetraria as almas
ansiosas de verdade,
essa alguma verdade pelo menos
que nossos dedos tentam alcançar
entre liquens, lagartos, seixos-navalha.
“Sou um terrível
(guardo tua palavra de há 40 anos)
pesquisador de almas.
Amo as almas como o avarento
ama suas moedas.
Ainda não cheguei à caridade
de amá-las por amor, só por amor,
amo-as por avidez do mistério,
insatisfação do que já sei,
do que já vi e desfolhei.”
A mina desemboca
no ponto matinal
em que a luz espadana
sobre a frente e o dorso da vida.
Alceu, chegaste às cores da manhã
no alto do Corcovado
sobre a cidade dos homens confusos,
sobre as suas rixas e descaminhos,
suas angústias disfarçadas em dança e tóxico,
suas esperanças machucadas,
suas frustrações latejantes na mudez,
a cidade geral — o mundo é uma cidade,
uma aldeia global, a casa em crise.
Na claridade que te envolve
és cada vez menos uma pessoa,
estátua bordada, professor
supostamente aposentado,
com CPF, cartão do IFP,
domiciliado entre palmeiras.
És cada vez, cada vez mais
o pensamento aberto
à comunicação dos seres pelo amor
que exclui injustiça e as formas todas
de inumano tornar o ser humano.
Alceu, fiel ao nome
do cantor de Mitilene que à alegria
juntava o amor à liberdade,
e ensinas a maravilhosa devoção
do homem a seu destino criador,
sem as peias do medo e as farpas do ódio.
Alceu, amigo de fitar nos olhos
como se fita na árvore antiga
o primeiro verdor de sombra e sumo.
Alceu jovial e forte
— força de testemunhar, e proclamar
o que filtrado foi na consciência,
Alceu fraterno e puro, na safira
dos oitent’anos,
na graça
da vida plena,
que é doação e luta e paz no coração.
1 140
Carlos Drummond de Andrade
A Um Contemporâneo
I — o sábio sorriso
Alceu e Tristão: o nome
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.
Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.
Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.
Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem da espera esperança.
Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.
II — alceu na safira dos oitent’anos
E chega o momento de olhar para o amigo
devagar, bem nos olhos
e sorrir para ele, sem dizer
nenhum desses vanilóquios de todo dia.
Dizemos alguma coisa para a fonte?
Alguma coisa para o ar?
Chega o momento de sentir
o amigo em estado de natureza,
e toda a limpidez
e toda a transparência
da alma se projeta
no que parece um vulto e é uma essência.
Alceu da Casa Azul do Cosme Velho,
onde ricocheteavam as “balas de Floriano”
na Revolta da Armada
sem que a paz do jardim se anuviasse.
Alceu menino penetrando
a mina profunda e sinuosa do morro
como depois penetraria as almas
ansiosas de verdade,
essa alguma verdade pelo menos
que nossos dedos tentam alcançar
entre liquens, lagartos, seixos-navalha.
“Sou um terrível
(guardo tua palavra de há 40 anos)
pesquisador de almas.
Amo as almas como o avarento
ama suas moedas.
Ainda não cheguei à caridade
de amá-las por amor, só por amor,
amo-as por avidez do mistério,
insatisfação do que já sei,
do que já vi e desfolhei.”
A mina desemboca
no ponto matinal
em que a luz espadana
sobre a frente e o dorso da vida.
Alceu, chegaste às cores da manhã
no alto do Corcovado
sobre a cidade dos homens confusos,
sobre as suas rixas e descaminhos,
suas angústias disfarçadas em dança e tóxico,
suas esperanças machucadas,
suas frustrações latejantes na mudez,
a cidade geral — o mundo é uma cidade,
uma aldeia global, a casa em crise.
Na claridade que te envolve
és cada vez menos uma pessoa,
estátua bordada, professor
supostamente aposentado,
com CPF, cartão do IFP,
domiciliado entre palmeiras.
És cada vez, cada vez mais
o pensamento aberto
à comunicação dos seres pelo amor
que exclui injustiça e as formas todas
de inumano tornar o ser humano.
Alceu, fiel ao nome
do cantor de Mitilene que à alegria
juntava o amor à liberdade,
e ensinas a maravilhosa devoção
do homem a seu destino criador,
sem as peias do medo e as farpas do ódio.
Alceu, amigo de fitar nos olhos
como se fita na árvore antiga
o primeiro verdor de sombra e sumo.
Alceu jovial e forte
— força de testemunhar, e proclamar
o que filtrado foi na consciência,
Alceu fraterno e puro, na safira
dos oitent’anos,
na graça
da vida plena,
que é doação e luta e paz no coração.
Alceu e Tristão: o nome
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.
Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.
Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.
Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem da espera esperança.
Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.
II — alceu na safira dos oitent’anos
E chega o momento de olhar para o amigo
devagar, bem nos olhos
e sorrir para ele, sem dizer
nenhum desses vanilóquios de todo dia.
Dizemos alguma coisa para a fonte?
Alguma coisa para o ar?
Chega o momento de sentir
o amigo em estado de natureza,
e toda a limpidez
e toda a transparência
da alma se projeta
no que parece um vulto e é uma essência.
Alceu da Casa Azul do Cosme Velho,
onde ricocheteavam as “balas de Floriano”
na Revolta da Armada
sem que a paz do jardim se anuviasse.
Alceu menino penetrando
a mina profunda e sinuosa do morro
como depois penetraria as almas
ansiosas de verdade,
essa alguma verdade pelo menos
que nossos dedos tentam alcançar
entre liquens, lagartos, seixos-navalha.
“Sou um terrível
(guardo tua palavra de há 40 anos)
pesquisador de almas.
Amo as almas como o avarento
ama suas moedas.
Ainda não cheguei à caridade
de amá-las por amor, só por amor,
amo-as por avidez do mistério,
insatisfação do que já sei,
do que já vi e desfolhei.”
A mina desemboca
no ponto matinal
em que a luz espadana
sobre a frente e o dorso da vida.
Alceu, chegaste às cores da manhã
no alto do Corcovado
sobre a cidade dos homens confusos,
sobre as suas rixas e descaminhos,
suas angústias disfarçadas em dança e tóxico,
suas esperanças machucadas,
suas frustrações latejantes na mudez,
a cidade geral — o mundo é uma cidade,
uma aldeia global, a casa em crise.
Na claridade que te envolve
és cada vez menos uma pessoa,
estátua bordada, professor
supostamente aposentado,
com CPF, cartão do IFP,
domiciliado entre palmeiras.
És cada vez, cada vez mais
o pensamento aberto
à comunicação dos seres pelo amor
que exclui injustiça e as formas todas
de inumano tornar o ser humano.
Alceu, fiel ao nome
do cantor de Mitilene que à alegria
juntava o amor à liberdade,
e ensinas a maravilhosa devoção
do homem a seu destino criador,
sem as peias do medo e as farpas do ódio.
Alceu, amigo de fitar nos olhos
como se fita na árvore antiga
o primeiro verdor de sombra e sumo.
Alceu jovial e forte
— força de testemunhar, e proclamar
o que filtrado foi na consciência,
Alceu fraterno e puro, na safira
dos oitent’anos,
na graça
da vida plena,
que é doação e luta e paz no coração.
1 140
Carlos Drummond de Andrade
Canções de Alinhavo
I
Chove nos campos de Cachoeira
e Dalcídio Jurandir já morreu.
Chove sobre a campa de Dalcídio Jurandir
e sobre qualquer outra campa, indiferentemente.
A chuva não é um epílogo,
tampouco significa sentença ou esquecimento.
Falei em Dalcídio Jurandir
como poderia falar em Rui Barbosa
ou no preto Benvindo da minha terra
ou em Atahualpa.
Sobre todos os mortos cai a chuva
com esse jeito cinzento de cair.
Confesso que a chuva me dói: ferida,
lei injusta que me atinge a liberdade.
Chover a semana inteira é nunca ter havido sol
nem azul nem carmesim nem esperança.
É eu não ter nascido e sentir
que tudo foi roto para nunca mais.
Nos campos de Cachoeira-vida
chove irremissivelmente.
II
Stéphane Mallarmé esgotou a taça do incognoscível.
Nada sobrou para nós senão o cotidiano
que avilta, deprime. Real, se existes fora
da órbita dos almanaques, não sei. Há de haver uma região
de todas as coisas. E nela nos encontraremos
como antes em cafés, bares, livrarias
hoje proscritos do planeta. E nos reconheceremos todos,
Aníbal Machado entre os dominicais. E, Martine Carol a seu lado,
são dois alpinistas escalando a vertente
de uma favela. As nádegas de Martine,
meigas ao tato do escritor que a ampara na subida.
O som do candomblé infiltra-se na assembleia de amigos.
Deve ser isso o eterno?
III
Assustou-se o Cônego Monteiro possuído pelo Maligno
à espera de morrer, explodindo maldições
contra tudo e todos, principalmente a Mulher.
Era um velho bibliófilo pobre, a tarde escorria
sobre lombadas carcomidas, sua batina
tinha velhice de catedral. Conversávamos.
Por fim, na cama de hospital, revirando-se,
olhar aceso, língua a desmanchar-se em labaredas,
ele renegava os serões literários, as magnas academias
e anunciava sua próxima chegada ao Inferno.
Que homem nele era o principal, eu não atinava.
Minha visita foi revelação do que se reserva aos santos,
expiação de pecados que não cometeram
mas desejariam, quem sabe, cometer
e Deus não permitiu. Persignei-me sem convicção.
O Cônego sorriu. O Diabo sorria em suas rugas.
IV
Passeio no Antigo Testamento sempre que possível
entre duas crônicas de jornal
com hora marcada de entrega.
O que me seduz nesses capítulos
é Jeová em sua pujança
castigando as criaturas infames e as outras: igualmente.
Parece que todos os deuses eram assim
e por isto se faziam amar
entre mortais instigados pelo terror.
Gostaria de ver Milton Campos debatendo polidamente com Deus
as razões de sua fereza. Talvez o demudasse
de tanta crueldade. Vejo
florir a primeira violeta africana
no vaso do balcão, presente de Marcelo Garcia.
Sestro de flores: aparecem quando não esperadas.
Deveríamos esperá-las sempre e com urgência,
reclamando nova floração a cada momento do dia.
Moisés me intriga. Rei ou servo do Senhor?
V
Condenado a escrever fatalmente o mesmo poema
e ele não alcança perfil definitivo.
Talvez nem exista. Perseguem-me quimeras.
O problema não é inventar. É ser inventado
hora após hora e nunca ficar pronta
nossa edição convincente. O hotel de Barra do Piraí
era ao mesmo tempo locomotiva e hospedaria.
O trem passava, fumegante, no refeitório,
as paredes com aves empalhadas iam até o mato virgem.
Tínhamos medo de a composição sair sem apitar
e ficarmos irremediavelmente ali, lugar sem definição.
Jamais poema algum se desprenderia da ambição de poema.
Compreenda quem possa. Naquele tempo não usava
existirem mulheres. Tudo abstração. Sofria-se muito.
Entre Schopenhauer e Albino Forjaz de Sampaio,
leituras ardiam na pele. Quem sabia de Freud?
A Avenida Atlântica situa essas coisas numa palidez de galáxia.
VI
O Vampiro resume as assombrações que me visitavam
no tempo de imagens. Enfrento-o cara a cara,
aperto-lhe a mão, proponho-lhe em desafio minha carótida.
Ele quer outra coisa. Sempre outra coisa me rogavam
sem que dissessem e eu soubesse qual.
Crime, loucura, danação,
todas hipóteses. Nunca descobri a verdadeira.
Lúcia Branco, o piano, tentou iniciar-me na Rosa-Cruz,
um dia invoquei, mudos, os espíritos.
Não sou digno, eu sei, de transcendência,
e há rios no atlas que fluem contra o oceano,
voltam ao fio d’água, explicam-se pelo arrependimento.
Compreendo: são o avesso do rio.
Mas a vida não é o avesso da vida. É o avesso absoluto
se tentamos codificá-la. Cerejas ao marasquino, você gosta?
Devorei potes inteiros, e os fantasmas insistindo
com o pedido indecifrável.
O Vampiro aceita café. Iremos juntos ao cinema do bairro.
VII
O homem sem convicções pode passar a vida honradamente.
Alguém o prova, é só olhar-se no espelho
com vaidade perversa.
Passar a vida será viver? Que é honradamente?
Rodrigo Melo Franco de Andrade não conheceu descanso
enquanto ruíam campanários, pinturas parietais descascavam
e ele consumia os olhos na escrita miúda
de impugnações e embargos
ao vandalismo e à traficância dos simoníacos.
Chega a hora de escalpelar ilusões,
e esta ainda é uma ilusão, que nos embala no espaço inabitado.
Perder, aprendi, também é melodioso. Declaro-me guerreiro vencido.
São guerras surdas, explosões no centro mesmo da Terra.
Imbricado em tudo isto, distingue-se talvez o violino
que revive a Idade de Ouro
e a prolonga no caos.
Adagietto, maior delícia para ouvidos surdos
que adivinham a seu modo a tessitura lenta.
Não sinto falta de grandes timbres orquestrais.
O entardecer me basta.
VIII
Aparição, diurna aparição,
à luz opõe sua neblina: desde sempre
me sei parceiro deste jogo, sem que o entenda.
Projeção de lado oculto de mim mesmo
ou fenômeno visual como o arco-íris,
pouco importa. Este fantasma existe.
Chamei Abgar Renault para comprová-lo. Comprovou.
Exibe-se na Praça Paris ao meio-dia.
No Corcovado mostra-se. Na Lagoa
Rodrigo de Freitas, vago espéculo.
As coisas injustificadas adoram ser injustificadas.
Esta, ou este não sei quê, mantém-se imóvel.
Eis que algo se mexe
impressentido em sua nebulosidade: pulvínulo.
Penso, terceira hipótese: amigos mortos
revezam-se, divertem-se em vapor.
Um dia os chamarei pelos nomes. O meu, entre eles.
E se alegrarão vendo que os reconheci.
E me alegrarei vendo que afinal me conheço.
O dia-sol invade todos os cubículos.
IX
L’indifferent de Watteau é um gato acordado. Os gatos
são indiferença armada. Inútil considerá-los
superfícies elásticas de veludo e macieza de existir.
Tantas vezes me arranhei ao contato deles que hoje
eu próprio me arranho e firo, felino maquinal.
Penso o gato e sua destreza, o gato e seu magnetismo.
Sua imobilidade contém todas as circunstâncias
e ângulos de ataque. Assim me seduz
o possível de um gato dormindo. Mulheres que nunca me olharam
levam consigo gestos de paixão, de morte e êxtase.
Mas os gestos pensados são mármore. O gato é mármore.
A vida toda espero desprender-se — um minuto! — a estátua,
e, a menos que me torne igualmente estátua, jamais saberei
o interior da mudez. A pouca ciência da vida
não esclarece os fatos inexistentes, muito mais poderosos
que a história do homem em fascículos. Datas, como vos desprezo
em vossa arrogância de marcos da finitude.
Uma noite, em companhia de Emílio Guimarães Moura,
identifiquei o sertão. Eram duas pupilas de fogo
e hálito de terra seca em boca desdentada.
X
Alfa, Beta e Gama de Pégaso no céu de outubro
presidem com sabedoria o destino do passante
velado pela nebulosa de Andrômeda.
Grato é saber que nada se decide aqui embaixo
nas avenidas do homem e sua perplexidade.
Que o dedo anular, ao mover-se,
é ditado por um sistema de estrelas. Nossa casa, nossa comida,
o firmamento. Abandono-me a vós, constelações.
E a ti, nobre Virgílio,
peço-te que me conduzas à Nubécula Mínor,
de onde ficarei mirando a Terra e seus erros abolidos.
Será soberbo desatar-me de laços precários
que em mim e a mim me prendem e turvam
a condição de coisa natural. Não serei mais eu,
nenhum fervor ou mágoa me percorrendo. Plenitude
sideral do inexistente indivíduo
reconciliado com a matéria primeira.
A alegria, sem este ou qualquer nome. Alegria
que nem se sabe alegria, de tão perfeita.
Minha canção de alinhavo resolve-se entre cirros.
Chove nos campos de Cachoeira
e Dalcídio Jurandir já morreu.
Chove sobre a campa de Dalcídio Jurandir
e sobre qualquer outra campa, indiferentemente.
A chuva não é um epílogo,
tampouco significa sentença ou esquecimento.
Falei em Dalcídio Jurandir
como poderia falar em Rui Barbosa
ou no preto Benvindo da minha terra
ou em Atahualpa.
Sobre todos os mortos cai a chuva
com esse jeito cinzento de cair.
Confesso que a chuva me dói: ferida,
lei injusta que me atinge a liberdade.
Chover a semana inteira é nunca ter havido sol
nem azul nem carmesim nem esperança.
É eu não ter nascido e sentir
que tudo foi roto para nunca mais.
Nos campos de Cachoeira-vida
chove irremissivelmente.
II
Stéphane Mallarmé esgotou a taça do incognoscível.
Nada sobrou para nós senão o cotidiano
que avilta, deprime. Real, se existes fora
da órbita dos almanaques, não sei. Há de haver uma região
de todas as coisas. E nela nos encontraremos
como antes em cafés, bares, livrarias
hoje proscritos do planeta. E nos reconheceremos todos,
Aníbal Machado entre os dominicais. E, Martine Carol a seu lado,
são dois alpinistas escalando a vertente
de uma favela. As nádegas de Martine,
meigas ao tato do escritor que a ampara na subida.
O som do candomblé infiltra-se na assembleia de amigos.
Deve ser isso o eterno?
III
Assustou-se o Cônego Monteiro possuído pelo Maligno
à espera de morrer, explodindo maldições
contra tudo e todos, principalmente a Mulher.
Era um velho bibliófilo pobre, a tarde escorria
sobre lombadas carcomidas, sua batina
tinha velhice de catedral. Conversávamos.
Por fim, na cama de hospital, revirando-se,
olhar aceso, língua a desmanchar-se em labaredas,
ele renegava os serões literários, as magnas academias
e anunciava sua próxima chegada ao Inferno.
Que homem nele era o principal, eu não atinava.
Minha visita foi revelação do que se reserva aos santos,
expiação de pecados que não cometeram
mas desejariam, quem sabe, cometer
e Deus não permitiu. Persignei-me sem convicção.
O Cônego sorriu. O Diabo sorria em suas rugas.
IV
Passeio no Antigo Testamento sempre que possível
entre duas crônicas de jornal
com hora marcada de entrega.
O que me seduz nesses capítulos
é Jeová em sua pujança
castigando as criaturas infames e as outras: igualmente.
Parece que todos os deuses eram assim
e por isto se faziam amar
entre mortais instigados pelo terror.
Gostaria de ver Milton Campos debatendo polidamente com Deus
as razões de sua fereza. Talvez o demudasse
de tanta crueldade. Vejo
florir a primeira violeta africana
no vaso do balcão, presente de Marcelo Garcia.
Sestro de flores: aparecem quando não esperadas.
Deveríamos esperá-las sempre e com urgência,
reclamando nova floração a cada momento do dia.
Moisés me intriga. Rei ou servo do Senhor?
V
Condenado a escrever fatalmente o mesmo poema
e ele não alcança perfil definitivo.
Talvez nem exista. Perseguem-me quimeras.
O problema não é inventar. É ser inventado
hora após hora e nunca ficar pronta
nossa edição convincente. O hotel de Barra do Piraí
era ao mesmo tempo locomotiva e hospedaria.
O trem passava, fumegante, no refeitório,
as paredes com aves empalhadas iam até o mato virgem.
Tínhamos medo de a composição sair sem apitar
e ficarmos irremediavelmente ali, lugar sem definição.
Jamais poema algum se desprenderia da ambição de poema.
Compreenda quem possa. Naquele tempo não usava
existirem mulheres. Tudo abstração. Sofria-se muito.
Entre Schopenhauer e Albino Forjaz de Sampaio,
leituras ardiam na pele. Quem sabia de Freud?
A Avenida Atlântica situa essas coisas numa palidez de galáxia.
VI
O Vampiro resume as assombrações que me visitavam
no tempo de imagens. Enfrento-o cara a cara,
aperto-lhe a mão, proponho-lhe em desafio minha carótida.
Ele quer outra coisa. Sempre outra coisa me rogavam
sem que dissessem e eu soubesse qual.
Crime, loucura, danação,
todas hipóteses. Nunca descobri a verdadeira.
Lúcia Branco, o piano, tentou iniciar-me na Rosa-Cruz,
um dia invoquei, mudos, os espíritos.
Não sou digno, eu sei, de transcendência,
e há rios no atlas que fluem contra o oceano,
voltam ao fio d’água, explicam-se pelo arrependimento.
Compreendo: são o avesso do rio.
Mas a vida não é o avesso da vida. É o avesso absoluto
se tentamos codificá-la. Cerejas ao marasquino, você gosta?
Devorei potes inteiros, e os fantasmas insistindo
com o pedido indecifrável.
O Vampiro aceita café. Iremos juntos ao cinema do bairro.
VII
O homem sem convicções pode passar a vida honradamente.
Alguém o prova, é só olhar-se no espelho
com vaidade perversa.
Passar a vida será viver? Que é honradamente?
Rodrigo Melo Franco de Andrade não conheceu descanso
enquanto ruíam campanários, pinturas parietais descascavam
e ele consumia os olhos na escrita miúda
de impugnações e embargos
ao vandalismo e à traficância dos simoníacos.
Chega a hora de escalpelar ilusões,
e esta ainda é uma ilusão, que nos embala no espaço inabitado.
Perder, aprendi, também é melodioso. Declaro-me guerreiro vencido.
São guerras surdas, explosões no centro mesmo da Terra.
Imbricado em tudo isto, distingue-se talvez o violino
que revive a Idade de Ouro
e a prolonga no caos.
Adagietto, maior delícia para ouvidos surdos
que adivinham a seu modo a tessitura lenta.
Não sinto falta de grandes timbres orquestrais.
O entardecer me basta.
VIII
Aparição, diurna aparição,
à luz opõe sua neblina: desde sempre
me sei parceiro deste jogo, sem que o entenda.
Projeção de lado oculto de mim mesmo
ou fenômeno visual como o arco-íris,
pouco importa. Este fantasma existe.
Chamei Abgar Renault para comprová-lo. Comprovou.
Exibe-se na Praça Paris ao meio-dia.
No Corcovado mostra-se. Na Lagoa
Rodrigo de Freitas, vago espéculo.
As coisas injustificadas adoram ser injustificadas.
Esta, ou este não sei quê, mantém-se imóvel.
Eis que algo se mexe
impressentido em sua nebulosidade: pulvínulo.
Penso, terceira hipótese: amigos mortos
revezam-se, divertem-se em vapor.
Um dia os chamarei pelos nomes. O meu, entre eles.
E se alegrarão vendo que os reconheci.
E me alegrarei vendo que afinal me conheço.
O dia-sol invade todos os cubículos.
IX
L’indifferent de Watteau é um gato acordado. Os gatos
são indiferença armada. Inútil considerá-los
superfícies elásticas de veludo e macieza de existir.
Tantas vezes me arranhei ao contato deles que hoje
eu próprio me arranho e firo, felino maquinal.
Penso o gato e sua destreza, o gato e seu magnetismo.
Sua imobilidade contém todas as circunstâncias
e ângulos de ataque. Assim me seduz
o possível de um gato dormindo. Mulheres que nunca me olharam
levam consigo gestos de paixão, de morte e êxtase.
Mas os gestos pensados são mármore. O gato é mármore.
A vida toda espero desprender-se — um minuto! — a estátua,
e, a menos que me torne igualmente estátua, jamais saberei
o interior da mudez. A pouca ciência da vida
não esclarece os fatos inexistentes, muito mais poderosos
que a história do homem em fascículos. Datas, como vos desprezo
em vossa arrogância de marcos da finitude.
Uma noite, em companhia de Emílio Guimarães Moura,
identifiquei o sertão. Eram duas pupilas de fogo
e hálito de terra seca em boca desdentada.
X
Alfa, Beta e Gama de Pégaso no céu de outubro
presidem com sabedoria o destino do passante
velado pela nebulosa de Andrômeda.
Grato é saber que nada se decide aqui embaixo
nas avenidas do homem e sua perplexidade.
Que o dedo anular, ao mover-se,
é ditado por um sistema de estrelas. Nossa casa, nossa comida,
o firmamento. Abandono-me a vós, constelações.
E a ti, nobre Virgílio,
peço-te que me conduzas à Nubécula Mínor,
de onde ficarei mirando a Terra e seus erros abolidos.
Será soberbo desatar-me de laços precários
que em mim e a mim me prendem e turvam
a condição de coisa natural. Não serei mais eu,
nenhum fervor ou mágoa me percorrendo. Plenitude
sideral do inexistente indivíduo
reconciliado com a matéria primeira.
A alegria, sem este ou qualquer nome. Alegria
que nem se sabe alegria, de tão perfeita.
Minha canção de alinhavo resolve-se entre cirros.
1 608
Carlos Drummond de Andrade
Canções de Alinhavo
I
Chove nos campos de Cachoeira
e Dalcídio Jurandir já morreu.
Chove sobre a campa de Dalcídio Jurandir
e sobre qualquer outra campa, indiferentemente.
A chuva não é um epílogo,
tampouco significa sentença ou esquecimento.
Falei em Dalcídio Jurandir
como poderia falar em Rui Barbosa
ou no preto Benvindo da minha terra
ou em Atahualpa.
Sobre todos os mortos cai a chuva
com esse jeito cinzento de cair.
Confesso que a chuva me dói: ferida,
lei injusta que me atinge a liberdade.
Chover a semana inteira é nunca ter havido sol
nem azul nem carmesim nem esperança.
É eu não ter nascido e sentir
que tudo foi roto para nunca mais.
Nos campos de Cachoeira-vida
chove irremissivelmente.
II
Stéphane Mallarmé esgotou a taça do incognoscível.
Nada sobrou para nós senão o cotidiano
que avilta, deprime. Real, se existes fora
da órbita dos almanaques, não sei. Há de haver uma região
de todas as coisas. E nela nos encontraremos
como antes em cafés, bares, livrarias
hoje proscritos do planeta. E nos reconheceremos todos,
Aníbal Machado entre os dominicais. E, Martine Carol a seu lado,
são dois alpinistas escalando a vertente
de uma favela. As nádegas de Martine,
meigas ao tato do escritor que a ampara na subida.
O som do candomblé infiltra-se na assembleia de amigos.
Deve ser isso o eterno?
III
Assustou-se o Cônego Monteiro possuído pelo Maligno
à espera de morrer, explodindo maldições
contra tudo e todos, principalmente a Mulher.
Era um velho bibliófilo pobre, a tarde escorria
sobre lombadas carcomidas, sua batina
tinha velhice de catedral. Conversávamos.
Por fim, na cama de hospital, revirando-se,
olhar aceso, língua a desmanchar-se em labaredas,
ele renegava os serões literários, as magnas academias
e anunciava sua próxima chegada ao Inferno.
Que homem nele era o principal, eu não atinava.
Minha visita foi revelação do que se reserva aos santos,
expiação de pecados que não cometeram
mas desejariam, quem sabe, cometer
e Deus não permitiu. Persignei-me sem convicção.
O Cônego sorriu. O Diabo sorria em suas rugas.
IV
Passeio no Antigo Testamento sempre que possível
entre duas crônicas de jornal
com hora marcada de entrega.
O que me seduz nesses capítulos
é Jeová em sua pujança
castigando as criaturas infames e as outras: igualmente.
Parece que todos os deuses eram assim
e por isto se faziam amar
entre mortais instigados pelo terror.
Gostaria de ver Milton Campos debatendo polidamente com Deus
as razões de sua fereza. Talvez o demudasse
de tanta crueldade. Vejo
florir a primeira violeta africana
no vaso do balcão, presente de Marcelo Garcia.
Sestro de flores: aparecem quando não esperadas.
Deveríamos esperá-las sempre e com urgência,
reclamando nova floração a cada momento do dia.
Moisés me intriga. Rei ou servo do Senhor?
V
Condenado a escrever fatalmente o mesmo poema
e ele não alcança perfil definitivo.
Talvez nem exista. Perseguem-me quimeras.
O problema não é inventar. É ser inventado
hora após hora e nunca ficar pronta
nossa edição convincente. O hotel de Barra do Piraí
era ao mesmo tempo locomotiva e hospedaria.
O trem passava, fumegante, no refeitório,
as paredes com aves empalhadas iam até o mato virgem.
Tínhamos medo de a composição sair sem apitar
e ficarmos irremediavelmente ali, lugar sem definição.
Jamais poema algum se desprenderia da ambição de poema.
Compreenda quem possa. Naquele tempo não usava
existirem mulheres. Tudo abstração. Sofria-se muito.
Entre Schopenhauer e Albino Forjaz de Sampaio,
leituras ardiam na pele. Quem sabia de Freud?
A Avenida Atlântica situa essas coisas numa palidez de galáxia.
VI
O Vampiro resume as assombrações que me visitavam
no tempo de imagens. Enfrento-o cara a cara,
aperto-lhe a mão, proponho-lhe em desafio minha carótida.
Ele quer outra coisa. Sempre outra coisa me rogavam
sem que dissessem e eu soubesse qual.
Crime, loucura, danação,
todas hipóteses. Nunca descobri a verdadeira.
Lúcia Branco, o piano, tentou iniciar-me na Rosa-Cruz,
um dia invoquei, mudos, os espíritos.
Não sou digno, eu sei, de transcendência,
e há rios no atlas que fluem contra o oceano,
voltam ao fio d’água, explicam-se pelo arrependimento.
Compreendo: são o avesso do rio.
Mas a vida não é o avesso da vida. É o avesso absoluto
se tentamos codificá-la. Cerejas ao marasquino, você gosta?
Devorei potes inteiros, e os fantasmas insistindo
com o pedido indecifrável.
O Vampiro aceita café. Iremos juntos ao cinema do bairro.
VII
O homem sem convicções pode passar a vida honradamente.
Alguém o prova, é só olhar-se no espelho
com vaidade perversa.
Passar a vida será viver? Que é honradamente?
Rodrigo Melo Franco de Andrade não conheceu descanso
enquanto ruíam campanários, pinturas parietais descascavam
e ele consumia os olhos na escrita miúda
de impugnações e embargos
ao vandalismo e à traficância dos simoníacos.
Chega a hora de escalpelar ilusões,
e esta ainda é uma ilusão, que nos embala no espaço inabitado.
Perder, aprendi, também é melodioso. Declaro-me guerreiro vencido.
São guerras surdas, explosões no centro mesmo da Terra.
Imbricado em tudo isto, distingue-se talvez o violino
que revive a Idade de Ouro
e a prolonga no caos.
Adagietto, maior delícia para ouvidos surdos
que adivinham a seu modo a tessitura lenta.
Não sinto falta de grandes timbres orquestrais.
O entardecer me basta.
VIII
Aparição, diurna aparição,
à luz opõe sua neblina: desde sempre
me sei parceiro deste jogo, sem que o entenda.
Projeção de lado oculto de mim mesmo
ou fenômeno visual como o arco-íris,
pouco importa. Este fantasma existe.
Chamei Abgar Renault para comprová-lo. Comprovou.
Exibe-se na Praça Paris ao meio-dia.
No Corcovado mostra-se. Na Lagoa
Rodrigo de Freitas, vago espéculo.
As coisas injustificadas adoram ser injustificadas.
Esta, ou este não sei quê, mantém-se imóvel.
Eis que algo se mexe
impressentido em sua nebulosidade: pulvínulo.
Penso, terceira hipótese: amigos mortos
revezam-se, divertem-se em vapor.
Um dia os chamarei pelos nomes. O meu, entre eles.
E se alegrarão vendo que os reconheci.
E me alegrarei vendo que afinal me conheço.
O dia-sol invade todos os cubículos.
IX
L’indifferent de Watteau é um gato acordado. Os gatos
são indiferença armada. Inútil considerá-los
superfícies elásticas de veludo e macieza de existir.
Tantas vezes me arranhei ao contato deles que hoje
eu próprio me arranho e firo, felino maquinal.
Penso o gato e sua destreza, o gato e seu magnetismo.
Sua imobilidade contém todas as circunstâncias
e ângulos de ataque. Assim me seduz
o possível de um gato dormindo. Mulheres que nunca me olharam
levam consigo gestos de paixão, de morte e êxtase.
Mas os gestos pensados são mármore. O gato é mármore.
A vida toda espero desprender-se — um minuto! — a estátua,
e, a menos que me torne igualmente estátua, jamais saberei
o interior da mudez. A pouca ciência da vida
não esclarece os fatos inexistentes, muito mais poderosos
que a história do homem em fascículos. Datas, como vos desprezo
em vossa arrogância de marcos da finitude.
Uma noite, em companhia de Emílio Guimarães Moura,
identifiquei o sertão. Eram duas pupilas de fogo
e hálito de terra seca em boca desdentada.
X
Alfa, Beta e Gama de Pégaso no céu de outubro
presidem com sabedoria o destino do passante
velado pela nebulosa de Andrômeda.
Grato é saber que nada se decide aqui embaixo
nas avenidas do homem e sua perplexidade.
Que o dedo anular, ao mover-se,
é ditado por um sistema de estrelas. Nossa casa, nossa comida,
o firmamento. Abandono-me a vós, constelações.
E a ti, nobre Virgílio,
peço-te que me conduzas à Nubécula Mínor,
de onde ficarei mirando a Terra e seus erros abolidos.
Será soberbo desatar-me de laços precários
que em mim e a mim me prendem e turvam
a condição de coisa natural. Não serei mais eu,
nenhum fervor ou mágoa me percorrendo. Plenitude
sideral do inexistente indivíduo
reconciliado com a matéria primeira.
A alegria, sem este ou qualquer nome. Alegria
que nem se sabe alegria, de tão perfeita.
Minha canção de alinhavo resolve-se entre cirros.
Chove nos campos de Cachoeira
e Dalcídio Jurandir já morreu.
Chove sobre a campa de Dalcídio Jurandir
e sobre qualquer outra campa, indiferentemente.
A chuva não é um epílogo,
tampouco significa sentença ou esquecimento.
Falei em Dalcídio Jurandir
como poderia falar em Rui Barbosa
ou no preto Benvindo da minha terra
ou em Atahualpa.
Sobre todos os mortos cai a chuva
com esse jeito cinzento de cair.
Confesso que a chuva me dói: ferida,
lei injusta que me atinge a liberdade.
Chover a semana inteira é nunca ter havido sol
nem azul nem carmesim nem esperança.
É eu não ter nascido e sentir
que tudo foi roto para nunca mais.
Nos campos de Cachoeira-vida
chove irremissivelmente.
II
Stéphane Mallarmé esgotou a taça do incognoscível.
Nada sobrou para nós senão o cotidiano
que avilta, deprime. Real, se existes fora
da órbita dos almanaques, não sei. Há de haver uma região
de todas as coisas. E nela nos encontraremos
como antes em cafés, bares, livrarias
hoje proscritos do planeta. E nos reconheceremos todos,
Aníbal Machado entre os dominicais. E, Martine Carol a seu lado,
são dois alpinistas escalando a vertente
de uma favela. As nádegas de Martine,
meigas ao tato do escritor que a ampara na subida.
O som do candomblé infiltra-se na assembleia de amigos.
Deve ser isso o eterno?
III
Assustou-se o Cônego Monteiro possuído pelo Maligno
à espera de morrer, explodindo maldições
contra tudo e todos, principalmente a Mulher.
Era um velho bibliófilo pobre, a tarde escorria
sobre lombadas carcomidas, sua batina
tinha velhice de catedral. Conversávamos.
Por fim, na cama de hospital, revirando-se,
olhar aceso, língua a desmanchar-se em labaredas,
ele renegava os serões literários, as magnas academias
e anunciava sua próxima chegada ao Inferno.
Que homem nele era o principal, eu não atinava.
Minha visita foi revelação do que se reserva aos santos,
expiação de pecados que não cometeram
mas desejariam, quem sabe, cometer
e Deus não permitiu. Persignei-me sem convicção.
O Cônego sorriu. O Diabo sorria em suas rugas.
IV
Passeio no Antigo Testamento sempre que possível
entre duas crônicas de jornal
com hora marcada de entrega.
O que me seduz nesses capítulos
é Jeová em sua pujança
castigando as criaturas infames e as outras: igualmente.
Parece que todos os deuses eram assim
e por isto se faziam amar
entre mortais instigados pelo terror.
Gostaria de ver Milton Campos debatendo polidamente com Deus
as razões de sua fereza. Talvez o demudasse
de tanta crueldade. Vejo
florir a primeira violeta africana
no vaso do balcão, presente de Marcelo Garcia.
Sestro de flores: aparecem quando não esperadas.
Deveríamos esperá-las sempre e com urgência,
reclamando nova floração a cada momento do dia.
Moisés me intriga. Rei ou servo do Senhor?
V
Condenado a escrever fatalmente o mesmo poema
e ele não alcança perfil definitivo.
Talvez nem exista. Perseguem-me quimeras.
O problema não é inventar. É ser inventado
hora após hora e nunca ficar pronta
nossa edição convincente. O hotel de Barra do Piraí
era ao mesmo tempo locomotiva e hospedaria.
O trem passava, fumegante, no refeitório,
as paredes com aves empalhadas iam até o mato virgem.
Tínhamos medo de a composição sair sem apitar
e ficarmos irremediavelmente ali, lugar sem definição.
Jamais poema algum se desprenderia da ambição de poema.
Compreenda quem possa. Naquele tempo não usava
existirem mulheres. Tudo abstração. Sofria-se muito.
Entre Schopenhauer e Albino Forjaz de Sampaio,
leituras ardiam na pele. Quem sabia de Freud?
A Avenida Atlântica situa essas coisas numa palidez de galáxia.
VI
O Vampiro resume as assombrações que me visitavam
no tempo de imagens. Enfrento-o cara a cara,
aperto-lhe a mão, proponho-lhe em desafio minha carótida.
Ele quer outra coisa. Sempre outra coisa me rogavam
sem que dissessem e eu soubesse qual.
Crime, loucura, danação,
todas hipóteses. Nunca descobri a verdadeira.
Lúcia Branco, o piano, tentou iniciar-me na Rosa-Cruz,
um dia invoquei, mudos, os espíritos.
Não sou digno, eu sei, de transcendência,
e há rios no atlas que fluem contra o oceano,
voltam ao fio d’água, explicam-se pelo arrependimento.
Compreendo: são o avesso do rio.
Mas a vida não é o avesso da vida. É o avesso absoluto
se tentamos codificá-la. Cerejas ao marasquino, você gosta?
Devorei potes inteiros, e os fantasmas insistindo
com o pedido indecifrável.
O Vampiro aceita café. Iremos juntos ao cinema do bairro.
VII
O homem sem convicções pode passar a vida honradamente.
Alguém o prova, é só olhar-se no espelho
com vaidade perversa.
Passar a vida será viver? Que é honradamente?
Rodrigo Melo Franco de Andrade não conheceu descanso
enquanto ruíam campanários, pinturas parietais descascavam
e ele consumia os olhos na escrita miúda
de impugnações e embargos
ao vandalismo e à traficância dos simoníacos.
Chega a hora de escalpelar ilusões,
e esta ainda é uma ilusão, que nos embala no espaço inabitado.
Perder, aprendi, também é melodioso. Declaro-me guerreiro vencido.
São guerras surdas, explosões no centro mesmo da Terra.
Imbricado em tudo isto, distingue-se talvez o violino
que revive a Idade de Ouro
e a prolonga no caos.
Adagietto, maior delícia para ouvidos surdos
que adivinham a seu modo a tessitura lenta.
Não sinto falta de grandes timbres orquestrais.
O entardecer me basta.
VIII
Aparição, diurna aparição,
à luz opõe sua neblina: desde sempre
me sei parceiro deste jogo, sem que o entenda.
Projeção de lado oculto de mim mesmo
ou fenômeno visual como o arco-íris,
pouco importa. Este fantasma existe.
Chamei Abgar Renault para comprová-lo. Comprovou.
Exibe-se na Praça Paris ao meio-dia.
No Corcovado mostra-se. Na Lagoa
Rodrigo de Freitas, vago espéculo.
As coisas injustificadas adoram ser injustificadas.
Esta, ou este não sei quê, mantém-se imóvel.
Eis que algo se mexe
impressentido em sua nebulosidade: pulvínulo.
Penso, terceira hipótese: amigos mortos
revezam-se, divertem-se em vapor.
Um dia os chamarei pelos nomes. O meu, entre eles.
E se alegrarão vendo que os reconheci.
E me alegrarei vendo que afinal me conheço.
O dia-sol invade todos os cubículos.
IX
L’indifferent de Watteau é um gato acordado. Os gatos
são indiferença armada. Inútil considerá-los
superfícies elásticas de veludo e macieza de existir.
Tantas vezes me arranhei ao contato deles que hoje
eu próprio me arranho e firo, felino maquinal.
Penso o gato e sua destreza, o gato e seu magnetismo.
Sua imobilidade contém todas as circunstâncias
e ângulos de ataque. Assim me seduz
o possível de um gato dormindo. Mulheres que nunca me olharam
levam consigo gestos de paixão, de morte e êxtase.
Mas os gestos pensados são mármore. O gato é mármore.
A vida toda espero desprender-se — um minuto! — a estátua,
e, a menos que me torne igualmente estátua, jamais saberei
o interior da mudez. A pouca ciência da vida
não esclarece os fatos inexistentes, muito mais poderosos
que a história do homem em fascículos. Datas, como vos desprezo
em vossa arrogância de marcos da finitude.
Uma noite, em companhia de Emílio Guimarães Moura,
identifiquei o sertão. Eram duas pupilas de fogo
e hálito de terra seca em boca desdentada.
X
Alfa, Beta e Gama de Pégaso no céu de outubro
presidem com sabedoria o destino do passante
velado pela nebulosa de Andrômeda.
Grato é saber que nada se decide aqui embaixo
nas avenidas do homem e sua perplexidade.
Que o dedo anular, ao mover-se,
é ditado por um sistema de estrelas. Nossa casa, nossa comida,
o firmamento. Abandono-me a vós, constelações.
E a ti, nobre Virgílio,
peço-te que me conduzas à Nubécula Mínor,
de onde ficarei mirando a Terra e seus erros abolidos.
Será soberbo desatar-me de laços precários
que em mim e a mim me prendem e turvam
a condição de coisa natural. Não serei mais eu,
nenhum fervor ou mágoa me percorrendo. Plenitude
sideral do inexistente indivíduo
reconciliado com a matéria primeira.
A alegria, sem este ou qualquer nome. Alegria
que nem se sabe alegria, de tão perfeita.
Minha canção de alinhavo resolve-se entre cirros.
1 608
Carlos Drummond de Andrade
Canções de Alinhavo
I
Chove nos campos de Cachoeira
e Dalcídio Jurandir já morreu.
Chove sobre a campa de Dalcídio Jurandir
e sobre qualquer outra campa, indiferentemente.
A chuva não é um epílogo,
tampouco significa sentença ou esquecimento.
Falei em Dalcídio Jurandir
como poderia falar em Rui Barbosa
ou no preto Benvindo da minha terra
ou em Atahualpa.
Sobre todos os mortos cai a chuva
com esse jeito cinzento de cair.
Confesso que a chuva me dói: ferida,
lei injusta que me atinge a liberdade.
Chover a semana inteira é nunca ter havido sol
nem azul nem carmesim nem esperança.
É eu não ter nascido e sentir
que tudo foi roto para nunca mais.
Nos campos de Cachoeira-vida
chove irremissivelmente.
II
Stéphane Mallarmé esgotou a taça do incognoscível.
Nada sobrou para nós senão o cotidiano
que avilta, deprime. Real, se existes fora
da órbita dos almanaques, não sei. Há de haver uma região
de todas as coisas. E nela nos encontraremos
como antes em cafés, bares, livrarias
hoje proscritos do planeta. E nos reconheceremos todos,
Aníbal Machado entre os dominicais. E, Martine Carol a seu lado,
são dois alpinistas escalando a vertente
de uma favela. As nádegas de Martine,
meigas ao tato do escritor que a ampara na subida.
O som do candomblé infiltra-se na assembleia de amigos.
Deve ser isso o eterno?
III
Assustou-se o Cônego Monteiro possuído pelo Maligno
à espera de morrer, explodindo maldições
contra tudo e todos, principalmente a Mulher.
Era um velho bibliófilo pobre, a tarde escorria
sobre lombadas carcomidas, sua batina
tinha velhice de catedral. Conversávamos.
Por fim, na cama de hospital, revirando-se,
olhar aceso, língua a desmanchar-se em labaredas,
ele renegava os serões literários, as magnas academias
e anunciava sua próxima chegada ao Inferno.
Que homem nele era o principal, eu não atinava.
Minha visita foi revelação do que se reserva aos santos,
expiação de pecados que não cometeram
mas desejariam, quem sabe, cometer
e Deus não permitiu. Persignei-me sem convicção.
O Cônego sorriu. O Diabo sorria em suas rugas.
IV
Passeio no Antigo Testamento sempre que possível
entre duas crônicas de jornal
com hora marcada de entrega.
O que me seduz nesses capítulos
é Jeová em sua pujança
castigando as criaturas infames e as outras: igualmente.
Parece que todos os deuses eram assim
e por isto se faziam amar
entre mortais instigados pelo terror.
Gostaria de ver Milton Campos debatendo polidamente com Deus
as razões de sua fereza. Talvez o demudasse
de tanta crueldade. Vejo
florir a primeira violeta africana
no vaso do balcão, presente de Marcelo Garcia.
Sestro de flores: aparecem quando não esperadas.
Deveríamos esperá-las sempre e com urgência,
reclamando nova floração a cada momento do dia.
Moisés me intriga. Rei ou servo do Senhor?
V
Condenado a escrever fatalmente o mesmo poema
e ele não alcança perfil definitivo.
Talvez nem exista. Perseguem-me quimeras.
O problema não é inventar. É ser inventado
hora após hora e nunca ficar pronta
nossa edição convincente. O hotel de Barra do Piraí
era ao mesmo tempo locomotiva e hospedaria.
O trem passava, fumegante, no refeitório,
as paredes com aves empalhadas iam até o mato virgem.
Tínhamos medo de a composição sair sem apitar
e ficarmos irremediavelmente ali, lugar sem definição.
Jamais poema algum se desprenderia da ambição de poema.
Compreenda quem possa. Naquele tempo não usava
existirem mulheres. Tudo abstração. Sofria-se muito.
Entre Schopenhauer e Albino Forjaz de Sampaio,
leituras ardiam na pele. Quem sabia de Freud?
A Avenida Atlântica situa essas coisas numa palidez de galáxia.
VI
O Vampiro resume as assombrações que me visitavam
no tempo de imagens. Enfrento-o cara a cara,
aperto-lhe a mão, proponho-lhe em desafio minha carótida.
Ele quer outra coisa. Sempre outra coisa me rogavam
sem que dissessem e eu soubesse qual.
Crime, loucura, danação,
todas hipóteses. Nunca descobri a verdadeira.
Lúcia Branco, o piano, tentou iniciar-me na Rosa-Cruz,
um dia invoquei, mudos, os espíritos.
Não sou digno, eu sei, de transcendência,
e há rios no atlas que fluem contra o oceano,
voltam ao fio d’água, explicam-se pelo arrependimento.
Compreendo: são o avesso do rio.
Mas a vida não é o avesso da vida. É o avesso absoluto
se tentamos codificá-la. Cerejas ao marasquino, você gosta?
Devorei potes inteiros, e os fantasmas insistindo
com o pedido indecifrável.
O Vampiro aceita café. Iremos juntos ao cinema do bairro.
VII
O homem sem convicções pode passar a vida honradamente.
Alguém o prova, é só olhar-se no espelho
com vaidade perversa.
Passar a vida será viver? Que é honradamente?
Rodrigo Melo Franco de Andrade não conheceu descanso
enquanto ruíam campanários, pinturas parietais descascavam
e ele consumia os olhos na escrita miúda
de impugnações e embargos
ao vandalismo e à traficância dos simoníacos.
Chega a hora de escalpelar ilusões,
e esta ainda é uma ilusão, que nos embala no espaço inabitado.
Perder, aprendi, também é melodioso. Declaro-me guerreiro vencido.
São guerras surdas, explosões no centro mesmo da Terra.
Imbricado em tudo isto, distingue-se talvez o violino
que revive a Idade de Ouro
e a prolonga no caos.
Adagietto, maior delícia para ouvidos surdos
que adivinham a seu modo a tessitura lenta.
Não sinto falta de grandes timbres orquestrais.
O entardecer me basta.
VIII
Aparição, diurna aparição,
à luz opõe sua neblina: desde sempre
me sei parceiro deste jogo, sem que o entenda.
Projeção de lado oculto de mim mesmo
ou fenômeno visual como o arco-íris,
pouco importa. Este fantasma existe.
Chamei Abgar Renault para comprová-lo. Comprovou.
Exibe-se na Praça Paris ao meio-dia.
No Corcovado mostra-se. Na Lagoa
Rodrigo de Freitas, vago espéculo.
As coisas injustificadas adoram ser injustificadas.
Esta, ou este não sei quê, mantém-se imóvel.
Eis que algo se mexe
impressentido em sua nebulosidade: pulvínulo.
Penso, terceira hipótese: amigos mortos
revezam-se, divertem-se em vapor.
Um dia os chamarei pelos nomes. O meu, entre eles.
E se alegrarão vendo que os reconheci.
E me alegrarei vendo que afinal me conheço.
O dia-sol invade todos os cubículos.
IX
L’indifferent de Watteau é um gato acordado. Os gatos
são indiferença armada. Inútil considerá-los
superfícies elásticas de veludo e macieza de existir.
Tantas vezes me arranhei ao contato deles que hoje
eu próprio me arranho e firo, felino maquinal.
Penso o gato e sua destreza, o gato e seu magnetismo.
Sua imobilidade contém todas as circunstâncias
e ângulos de ataque. Assim me seduz
o possível de um gato dormindo. Mulheres que nunca me olharam
levam consigo gestos de paixão, de morte e êxtase.
Mas os gestos pensados são mármore. O gato é mármore.
A vida toda espero desprender-se — um minuto! — a estátua,
e, a menos que me torne igualmente estátua, jamais saberei
o interior da mudez. A pouca ciência da vida
não esclarece os fatos inexistentes, muito mais poderosos
que a história do homem em fascículos. Datas, como vos desprezo
em vossa arrogância de marcos da finitude.
Uma noite, em companhia de Emílio Guimarães Moura,
identifiquei o sertão. Eram duas pupilas de fogo
e hálito de terra seca em boca desdentada.
X
Alfa, Beta e Gama de Pégaso no céu de outubro
presidem com sabedoria o destino do passante
velado pela nebulosa de Andrômeda.
Grato é saber que nada se decide aqui embaixo
nas avenidas do homem e sua perplexidade.
Que o dedo anular, ao mover-se,
é ditado por um sistema de estrelas. Nossa casa, nossa comida,
o firmamento. Abandono-me a vós, constelações.
E a ti, nobre Virgílio,
peço-te que me conduzas à Nubécula Mínor,
de onde ficarei mirando a Terra e seus erros abolidos.
Será soberbo desatar-me de laços precários
que em mim e a mim me prendem e turvam
a condição de coisa natural. Não serei mais eu,
nenhum fervor ou mágoa me percorrendo. Plenitude
sideral do inexistente indivíduo
reconciliado com a matéria primeira.
A alegria, sem este ou qualquer nome. Alegria
que nem se sabe alegria, de tão perfeita.
Minha canção de alinhavo resolve-se entre cirros.
Chove nos campos de Cachoeira
e Dalcídio Jurandir já morreu.
Chove sobre a campa de Dalcídio Jurandir
e sobre qualquer outra campa, indiferentemente.
A chuva não é um epílogo,
tampouco significa sentença ou esquecimento.
Falei em Dalcídio Jurandir
como poderia falar em Rui Barbosa
ou no preto Benvindo da minha terra
ou em Atahualpa.
Sobre todos os mortos cai a chuva
com esse jeito cinzento de cair.
Confesso que a chuva me dói: ferida,
lei injusta que me atinge a liberdade.
Chover a semana inteira é nunca ter havido sol
nem azul nem carmesim nem esperança.
É eu não ter nascido e sentir
que tudo foi roto para nunca mais.
Nos campos de Cachoeira-vida
chove irremissivelmente.
II
Stéphane Mallarmé esgotou a taça do incognoscível.
Nada sobrou para nós senão o cotidiano
que avilta, deprime. Real, se existes fora
da órbita dos almanaques, não sei. Há de haver uma região
de todas as coisas. E nela nos encontraremos
como antes em cafés, bares, livrarias
hoje proscritos do planeta. E nos reconheceremos todos,
Aníbal Machado entre os dominicais. E, Martine Carol a seu lado,
são dois alpinistas escalando a vertente
de uma favela. As nádegas de Martine,
meigas ao tato do escritor que a ampara na subida.
O som do candomblé infiltra-se na assembleia de amigos.
Deve ser isso o eterno?
III
Assustou-se o Cônego Monteiro possuído pelo Maligno
à espera de morrer, explodindo maldições
contra tudo e todos, principalmente a Mulher.
Era um velho bibliófilo pobre, a tarde escorria
sobre lombadas carcomidas, sua batina
tinha velhice de catedral. Conversávamos.
Por fim, na cama de hospital, revirando-se,
olhar aceso, língua a desmanchar-se em labaredas,
ele renegava os serões literários, as magnas academias
e anunciava sua próxima chegada ao Inferno.
Que homem nele era o principal, eu não atinava.
Minha visita foi revelação do que se reserva aos santos,
expiação de pecados que não cometeram
mas desejariam, quem sabe, cometer
e Deus não permitiu. Persignei-me sem convicção.
O Cônego sorriu. O Diabo sorria em suas rugas.
IV
Passeio no Antigo Testamento sempre que possível
entre duas crônicas de jornal
com hora marcada de entrega.
O que me seduz nesses capítulos
é Jeová em sua pujança
castigando as criaturas infames e as outras: igualmente.
Parece que todos os deuses eram assim
e por isto se faziam amar
entre mortais instigados pelo terror.
Gostaria de ver Milton Campos debatendo polidamente com Deus
as razões de sua fereza. Talvez o demudasse
de tanta crueldade. Vejo
florir a primeira violeta africana
no vaso do balcão, presente de Marcelo Garcia.
Sestro de flores: aparecem quando não esperadas.
Deveríamos esperá-las sempre e com urgência,
reclamando nova floração a cada momento do dia.
Moisés me intriga. Rei ou servo do Senhor?
V
Condenado a escrever fatalmente o mesmo poema
e ele não alcança perfil definitivo.
Talvez nem exista. Perseguem-me quimeras.
O problema não é inventar. É ser inventado
hora após hora e nunca ficar pronta
nossa edição convincente. O hotel de Barra do Piraí
era ao mesmo tempo locomotiva e hospedaria.
O trem passava, fumegante, no refeitório,
as paredes com aves empalhadas iam até o mato virgem.
Tínhamos medo de a composição sair sem apitar
e ficarmos irremediavelmente ali, lugar sem definição.
Jamais poema algum se desprenderia da ambição de poema.
Compreenda quem possa. Naquele tempo não usava
existirem mulheres. Tudo abstração. Sofria-se muito.
Entre Schopenhauer e Albino Forjaz de Sampaio,
leituras ardiam na pele. Quem sabia de Freud?
A Avenida Atlântica situa essas coisas numa palidez de galáxia.
VI
O Vampiro resume as assombrações que me visitavam
no tempo de imagens. Enfrento-o cara a cara,
aperto-lhe a mão, proponho-lhe em desafio minha carótida.
Ele quer outra coisa. Sempre outra coisa me rogavam
sem que dissessem e eu soubesse qual.
Crime, loucura, danação,
todas hipóteses. Nunca descobri a verdadeira.
Lúcia Branco, o piano, tentou iniciar-me na Rosa-Cruz,
um dia invoquei, mudos, os espíritos.
Não sou digno, eu sei, de transcendência,
e há rios no atlas que fluem contra o oceano,
voltam ao fio d’água, explicam-se pelo arrependimento.
Compreendo: são o avesso do rio.
Mas a vida não é o avesso da vida. É o avesso absoluto
se tentamos codificá-la. Cerejas ao marasquino, você gosta?
Devorei potes inteiros, e os fantasmas insistindo
com o pedido indecifrável.
O Vampiro aceita café. Iremos juntos ao cinema do bairro.
VII
O homem sem convicções pode passar a vida honradamente.
Alguém o prova, é só olhar-se no espelho
com vaidade perversa.
Passar a vida será viver? Que é honradamente?
Rodrigo Melo Franco de Andrade não conheceu descanso
enquanto ruíam campanários, pinturas parietais descascavam
e ele consumia os olhos na escrita miúda
de impugnações e embargos
ao vandalismo e à traficância dos simoníacos.
Chega a hora de escalpelar ilusões,
e esta ainda é uma ilusão, que nos embala no espaço inabitado.
Perder, aprendi, também é melodioso. Declaro-me guerreiro vencido.
São guerras surdas, explosões no centro mesmo da Terra.
Imbricado em tudo isto, distingue-se talvez o violino
que revive a Idade de Ouro
e a prolonga no caos.
Adagietto, maior delícia para ouvidos surdos
que adivinham a seu modo a tessitura lenta.
Não sinto falta de grandes timbres orquestrais.
O entardecer me basta.
VIII
Aparição, diurna aparição,
à luz opõe sua neblina: desde sempre
me sei parceiro deste jogo, sem que o entenda.
Projeção de lado oculto de mim mesmo
ou fenômeno visual como o arco-íris,
pouco importa. Este fantasma existe.
Chamei Abgar Renault para comprová-lo. Comprovou.
Exibe-se na Praça Paris ao meio-dia.
No Corcovado mostra-se. Na Lagoa
Rodrigo de Freitas, vago espéculo.
As coisas injustificadas adoram ser injustificadas.
Esta, ou este não sei quê, mantém-se imóvel.
Eis que algo se mexe
impressentido em sua nebulosidade: pulvínulo.
Penso, terceira hipótese: amigos mortos
revezam-se, divertem-se em vapor.
Um dia os chamarei pelos nomes. O meu, entre eles.
E se alegrarão vendo que os reconheci.
E me alegrarei vendo que afinal me conheço.
O dia-sol invade todos os cubículos.
IX
L’indifferent de Watteau é um gato acordado. Os gatos
são indiferença armada. Inútil considerá-los
superfícies elásticas de veludo e macieza de existir.
Tantas vezes me arranhei ao contato deles que hoje
eu próprio me arranho e firo, felino maquinal.
Penso o gato e sua destreza, o gato e seu magnetismo.
Sua imobilidade contém todas as circunstâncias
e ângulos de ataque. Assim me seduz
o possível de um gato dormindo. Mulheres que nunca me olharam
levam consigo gestos de paixão, de morte e êxtase.
Mas os gestos pensados são mármore. O gato é mármore.
A vida toda espero desprender-se — um minuto! — a estátua,
e, a menos que me torne igualmente estátua, jamais saberei
o interior da mudez. A pouca ciência da vida
não esclarece os fatos inexistentes, muito mais poderosos
que a história do homem em fascículos. Datas, como vos desprezo
em vossa arrogância de marcos da finitude.
Uma noite, em companhia de Emílio Guimarães Moura,
identifiquei o sertão. Eram duas pupilas de fogo
e hálito de terra seca em boca desdentada.
X
Alfa, Beta e Gama de Pégaso no céu de outubro
presidem com sabedoria o destino do passante
velado pela nebulosa de Andrômeda.
Grato é saber que nada se decide aqui embaixo
nas avenidas do homem e sua perplexidade.
Que o dedo anular, ao mover-se,
é ditado por um sistema de estrelas. Nossa casa, nossa comida,
o firmamento. Abandono-me a vós, constelações.
E a ti, nobre Virgílio,
peço-te que me conduzas à Nubécula Mínor,
de onde ficarei mirando a Terra e seus erros abolidos.
Será soberbo desatar-me de laços precários
que em mim e a mim me prendem e turvam
a condição de coisa natural. Não serei mais eu,
nenhum fervor ou mágoa me percorrendo. Plenitude
sideral do inexistente indivíduo
reconciliado com a matéria primeira.
A alegria, sem este ou qualquer nome. Alegria
que nem se sabe alegria, de tão perfeita.
Minha canção de alinhavo resolve-se entre cirros.
1 608
Carlos Drummond de Andrade
Mortos Que Andam
Meu Deus, os mortos que andam!
Que nos seguem os passos
e não falam.
Aparecem no bar, no teatro, na biblioteca.
Não nos fitam,
não nos interrogam,
não nos cobram nada.
Acompanham, fiscalizam
nosso caminho e jeito de caminhar,
nossa incômoda sensação de estar vivos
e sentir que nos seguem, nos cercam,
imprescritíveis. E não falam.
Que nos seguem os passos
e não falam.
Aparecem no bar, no teatro, na biblioteca.
Não nos fitam,
não nos interrogam,
não nos cobram nada.
Acompanham, fiscalizam
nosso caminho e jeito de caminhar,
nossa incômoda sensação de estar vivos
e sentir que nos seguem, nos cercam,
imprescritíveis. E não falam.
1 535
Carlos Drummond de Andrade
Mortos Que Andam
Meu Deus, os mortos que andam!
Que nos seguem os passos
e não falam.
Aparecem no bar, no teatro, na biblioteca.
Não nos fitam,
não nos interrogam,
não nos cobram nada.
Acompanham, fiscalizam
nosso caminho e jeito de caminhar,
nossa incômoda sensação de estar vivos
e sentir que nos seguem, nos cercam,
imprescritíveis. E não falam.
Que nos seguem os passos
e não falam.
Aparecem no bar, no teatro, na biblioteca.
Não nos fitam,
não nos interrogam,
não nos cobram nada.
Acompanham, fiscalizam
nosso caminho e jeito de caminhar,
nossa incômoda sensação de estar vivos
e sentir que nos seguem, nos cercam,
imprescritíveis. E não falam.
1 535
Carlos Drummond de Andrade
A Mesa
E não gostavas de festa…
Ó velho, que festa grande
hoje te faria a gente.
E teus filhos que não bebem
e o que gosta de beber,
em torno da mesa larga,
largavam as tristes dietas,
esqueciam seus fricotes,
e tudo era farra honesta
acabando em confidência.
Ai, velho, ouvirias coisas
de arrepiar teus noventa.
E daí, não te assustávamos,
porque, com riso na boca,
e a nédia galinha, o vinho
português de boa pinta,
e mais o que alguém faria
de mil coisas naturais
e fartamente poria
em mil terrinas da China,
já logo te insinuávamos
que era tudo brincadeira.
Pois sim. Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais,
quando não seja de amantes).
E, pois, todo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim… Puxa,
grandessíssimos safados,
me saíram bem melhor
que as encomendas. De resto,
filho de peixe… Calavas,
com agudo sobrecenho
interrogavas em ti
uma lembrança saudosa
e não de todo remota
e rindo por dentro e vendo
que lançaras uma ponte
dos passos loucos do avô
à incontinência dos netos,
sabendo que toda carne
aspira à degradação,
mas numa via de fogo
e sob um arco sexual,
tossias. Hem, hem, meninos,
não sejam bobos. Meninos?
Uns marmanjos cinquentões,
calvos, vividos, usados,
mas resguardando no peito
essa alvura de garoto,
essa fuga para o mato,
essa gula defendida
e o desejo muito simples
de pedir à mãe que cosa,
mais do que nossa camisa,
nossa alma frouxa, rasgada…
Ai, grande jantar mineiro
que seria esse… Comíamos,
e comer abria fome,
e comida era pretexto.
E nem mesmo precisávamos
ter apetite, que as coisas
deixavam-se espostejar,
e amanhã é que eram elas.
Nunca desdenhe o tutu.
Vá lá mais um torresminho.
E quanto ao peru? Farofa
há de ser acompanhada
de uma boa cachacinha,
não desfazendo em cerveja,
essa grande camarada.
Ind’outro dia… Comer
guarda tamanha importância
que só o prato revele
o melhor, o mais humano
dos seres em sua treva?
Beber é pois tão sagrado
que só bebido meu mano
me desata seu queixume,
abrindo-me sua palma?
Sorver, papar: que comida
mais cheirosa, mais profunda
no seu tronco luso-árabe,
e que bebida mais santa
que a todos nos une em um
tal centímano glutão,
parlapatão e bonzão!
E nem falta a irmã que foi
mais cedo que os outros e era
rosa de nome e nascera
em dia tal como o de hoje
para enfeitar tua data.
Seu nome sabe a camélia,
e sendo uma rosa-amélia,
flor muito mais delicada
que qualquer das rosas-rosa,
viveu bem mais do que o nome,
porém no íntimo claustrava
a rosa esparsa. A teu lado,
vê: recobrou-se-lhe o viço.
Aqui sentou-se o mais velho.
Tipo do manso, do sonso,
não servia para padre,
amava casos bandalhos;
depois o tempo fez dele
o que faz de qualquer um;
e à medida que envelhece,
vai estranhamente sendo
retrato teu sem ser tu,
de sorte que se o diviso
de repente, sem anúncio,
és tu que me reapareces
noutro velho de sessenta.
Este outro aqui é doutor,
o bacharel da família,
mas suas letras mais doutas
são as escritas no sangue,
ou sobre a casca das árvores.
Sabe o nome da florzinha
e não esquece o da fruta
mais rara que se prepara
num casamento genético.
Mora nele a nostalgia,
citadino, do ar agreste,
e, camponês, do letrado.
Então vira patriarca.
Mais adiante vês aquele
que de ti herdou a dura
vontade, o duro estoicismo.
Mas, não quis te repetir.
Achou não valer a pena
reproduzir sobre a terra
o que a terra engolirá.
Amou. E ama. E amará.
Só não quer que seu amor
seja uma prisão de dois,
um contrato, entre bocejos
e quatro pés de chinelo.
Feroz a um breve contato,
à segunda vista, seco,
à terceira vista, lhano,
dir-se-ia que ele tem medo
de ser, fatalmente, humano.
Dir-se-ia que ele tem raiva,
mas que mel transcende a raiva,
e que sábios, ardilosos
recursos de se enganar
quanto a si mesmo: exercita
uma força que não sabe
chamar-se, apenas, bondade.
Esta calou-se. Não quis
manter com palavras novas
o colóquio subterrâneo
que num sussurro percorre
a gente mais desatada.
Calou-se, não te aborreças.
Se tanto assim a querias,
algo nela ainda te quer,
à maneira atravessada
que é própria de nosso jeito.
(Não ser feliz tudo explica.)
Bem sei como são penosos
esses lances de família,
e discutir neste instante
seria matar a festa,
matando-te — não se morre
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.
Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres.
Estamos todos como éramos
antes de ser, e ninguém
dirá que ficou faltando
algum dos teus. Por exemplo:
ali ao canto da mesa,
não por humilde, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incômodas
posições de tipo gauche,
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranquilo: trabalho.
Afinal, a boa vida
ficou apenas: a vida
(e nem era assim tão boa
e nem se fez muito má).
Pois ele sou eu. Repara:
tenho todos os defeitos
que não farejei em ti,
e nem os tenho que tinhas,
quanto mais as qualidades.
Não importa: sou teu filho
com ser uma negativa
maneira de te afirmar.
Lá que brigamos, brigamos,
opa! que não foi brinquedo,
mas os caminhos do amor,
só amor sabe trilhá-los.
Tão ralo prazer te dei,
nenhum, talvez… ou senão,
esperança de prazer,
é, pode ser que te desse
a neutra satisfação
de alguém sentir que seu filho,
de tão inútil, seria
sequer um sujeito ruim.
Não sou um sujeito ruim.
Descansa, se o suspeitavas,
mas não sou lá essas coisas.
Alguns afetos recortam
o meu coração chateado.
Se me chateio? demais.
Esse é meu mal. Não herdei
de ti essa balda. Bem,
não me olhes tão longo tempo,
que há muitos a ver ainda.
Há oito. E todos minúsculos,
todos frustrados. Que flora
mais triste fomos achar
para ornamento de mesa!
Qual nada. De tão remotos,
de tão puros e esquecidos
no chão que suga e transforma,
são anjos. Que luminosos!
que raios de amor radiam,
e em meio a vagos cristais,
o cristal deles retine,
reverbera a própria sombra.
São anjos que se dignaram
participar do banquete,
alisar o tamborete,
viver vida de menino.
São anjos; e mal sabias
que um mortal devolve a Deus
algo de sua divina
substância aérea e sensível,
se tem um filho e se o perde.
Conta: catorze na mesa.
Ou trinta? serão cinquenta,
que sei? se chegam mais outros,
uma carne cada dia
multiplicada, cruzada
a outras carnes de amor.
São cinquenta pecadores,
se pecado é ter nascido
e provar, entre pecados,
os que nos foram legados.
A procissão de teus netos,
alongando-se em bisnetos,
veio pedir tua bênção
e comer de teu jantar.
Repara um pouquinho nesta,
no queixo, no olhar, no gesto,
e na consciência profunda
e na graça menineira,
e dize, depois de tudo,
se não é, entre meus erros,
uma imprevista verdade.
Esta é minha explicação,
meu verso melhor ou único,
meu tudo enchendo meu nada.
Agora a mesa repleta
está maior do que a casa.
Falamos de boca cheia,
xingamo-nos mutuamente,
rimos, ai, de arrebentar,
esquecemos o respeito
terrível, inibidor,
e toda a alegria nossa,
ressecada em tantos negros
bródios comemorativos
(não convém lembrar agora),
os gestos acumulados
de efusão fraterna, atados
(não convém lembrar agora),
as fina-e-meigas palavras
que ditas naquele tempo
teriam mudado a vida
(não convém mudar agora),
vem tudo à mesa e se espalha
qual inédita vitualha.
Oh que ceia mais celeste
e que gozo mais do chão!
Quem preparou? que inconteste
vocação de sacrifício
pôs a mesa, teve os filhos?
quem se apagou? quem pagou
a pena deste trabalho?
quem foi a mão invisível
que traçou este arabesco
de flor em torno ao pudim,
como se traça uma auréola?
quem tem auréola? quem não
a tem, pois que, sendo de ouro,
cuida logo em reparti-la,
e se pensa melhor faz?
quem senta do lado esquerdo,
assim curvada? que branca,
mas que branca mais que branca
tarja de cabelos brancos
retira a cor das laranjas,
anula o pó do café,
cassa o brilho aos serafins?
quem é toda luz e é branca?
Decerto não pressentias
como o branco pode ser
uma tinta mais diversa
da mesma brancura… Alvura
elaborada na ausência
de ti, mas ficou perfeita,
concreta, fria, lunar.
Como pode nossa festa
ser de um só que não de dois?
Os dois ora estais reunidos
numa aliança bem maior
que o simples elo da terra.
Estais juntos nesta mesa
de madeira mais de lei
que qualquer lei da república.
Estais acima de nós,
acima deste jantar
para o qual vos convocamos
por muito — enfim — vos querermos
e, amando, nos iludirmos
junto da mesa
vazia.
Ó velho, que festa grande
hoje te faria a gente.
E teus filhos que não bebem
e o que gosta de beber,
em torno da mesa larga,
largavam as tristes dietas,
esqueciam seus fricotes,
e tudo era farra honesta
acabando em confidência.
Ai, velho, ouvirias coisas
de arrepiar teus noventa.
E daí, não te assustávamos,
porque, com riso na boca,
e a nédia galinha, o vinho
português de boa pinta,
e mais o que alguém faria
de mil coisas naturais
e fartamente poria
em mil terrinas da China,
já logo te insinuávamos
que era tudo brincadeira.
Pois sim. Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais,
quando não seja de amantes).
E, pois, todo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim… Puxa,
grandessíssimos safados,
me saíram bem melhor
que as encomendas. De resto,
filho de peixe… Calavas,
com agudo sobrecenho
interrogavas em ti
uma lembrança saudosa
e não de todo remota
e rindo por dentro e vendo
que lançaras uma ponte
dos passos loucos do avô
à incontinência dos netos,
sabendo que toda carne
aspira à degradação,
mas numa via de fogo
e sob um arco sexual,
tossias. Hem, hem, meninos,
não sejam bobos. Meninos?
Uns marmanjos cinquentões,
calvos, vividos, usados,
mas resguardando no peito
essa alvura de garoto,
essa fuga para o mato,
essa gula defendida
e o desejo muito simples
de pedir à mãe que cosa,
mais do que nossa camisa,
nossa alma frouxa, rasgada…
Ai, grande jantar mineiro
que seria esse… Comíamos,
e comer abria fome,
e comida era pretexto.
E nem mesmo precisávamos
ter apetite, que as coisas
deixavam-se espostejar,
e amanhã é que eram elas.
Nunca desdenhe o tutu.
Vá lá mais um torresminho.
E quanto ao peru? Farofa
há de ser acompanhada
de uma boa cachacinha,
não desfazendo em cerveja,
essa grande camarada.
Ind’outro dia… Comer
guarda tamanha importância
que só o prato revele
o melhor, o mais humano
dos seres em sua treva?
Beber é pois tão sagrado
que só bebido meu mano
me desata seu queixume,
abrindo-me sua palma?
Sorver, papar: que comida
mais cheirosa, mais profunda
no seu tronco luso-árabe,
e que bebida mais santa
que a todos nos une em um
tal centímano glutão,
parlapatão e bonzão!
E nem falta a irmã que foi
mais cedo que os outros e era
rosa de nome e nascera
em dia tal como o de hoje
para enfeitar tua data.
Seu nome sabe a camélia,
e sendo uma rosa-amélia,
flor muito mais delicada
que qualquer das rosas-rosa,
viveu bem mais do que o nome,
porém no íntimo claustrava
a rosa esparsa. A teu lado,
vê: recobrou-se-lhe o viço.
Aqui sentou-se o mais velho.
Tipo do manso, do sonso,
não servia para padre,
amava casos bandalhos;
depois o tempo fez dele
o que faz de qualquer um;
e à medida que envelhece,
vai estranhamente sendo
retrato teu sem ser tu,
de sorte que se o diviso
de repente, sem anúncio,
és tu que me reapareces
noutro velho de sessenta.
Este outro aqui é doutor,
o bacharel da família,
mas suas letras mais doutas
são as escritas no sangue,
ou sobre a casca das árvores.
Sabe o nome da florzinha
e não esquece o da fruta
mais rara que se prepara
num casamento genético.
Mora nele a nostalgia,
citadino, do ar agreste,
e, camponês, do letrado.
Então vira patriarca.
Mais adiante vês aquele
que de ti herdou a dura
vontade, o duro estoicismo.
Mas, não quis te repetir.
Achou não valer a pena
reproduzir sobre a terra
o que a terra engolirá.
Amou. E ama. E amará.
Só não quer que seu amor
seja uma prisão de dois,
um contrato, entre bocejos
e quatro pés de chinelo.
Feroz a um breve contato,
à segunda vista, seco,
à terceira vista, lhano,
dir-se-ia que ele tem medo
de ser, fatalmente, humano.
Dir-se-ia que ele tem raiva,
mas que mel transcende a raiva,
e que sábios, ardilosos
recursos de se enganar
quanto a si mesmo: exercita
uma força que não sabe
chamar-se, apenas, bondade.
Esta calou-se. Não quis
manter com palavras novas
o colóquio subterrâneo
que num sussurro percorre
a gente mais desatada.
Calou-se, não te aborreças.
Se tanto assim a querias,
algo nela ainda te quer,
à maneira atravessada
que é própria de nosso jeito.
(Não ser feliz tudo explica.)
Bem sei como são penosos
esses lances de família,
e discutir neste instante
seria matar a festa,
matando-te — não se morre
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.
Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres.
Estamos todos como éramos
antes de ser, e ninguém
dirá que ficou faltando
algum dos teus. Por exemplo:
ali ao canto da mesa,
não por humilde, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incômodas
posições de tipo gauche,
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranquilo: trabalho.
Afinal, a boa vida
ficou apenas: a vida
(e nem era assim tão boa
e nem se fez muito má).
Pois ele sou eu. Repara:
tenho todos os defeitos
que não farejei em ti,
e nem os tenho que tinhas,
quanto mais as qualidades.
Não importa: sou teu filho
com ser uma negativa
maneira de te afirmar.
Lá que brigamos, brigamos,
opa! que não foi brinquedo,
mas os caminhos do amor,
só amor sabe trilhá-los.
Tão ralo prazer te dei,
nenhum, talvez… ou senão,
esperança de prazer,
é, pode ser que te desse
a neutra satisfação
de alguém sentir que seu filho,
de tão inútil, seria
sequer um sujeito ruim.
Não sou um sujeito ruim.
Descansa, se o suspeitavas,
mas não sou lá essas coisas.
Alguns afetos recortam
o meu coração chateado.
Se me chateio? demais.
Esse é meu mal. Não herdei
de ti essa balda. Bem,
não me olhes tão longo tempo,
que há muitos a ver ainda.
Há oito. E todos minúsculos,
todos frustrados. Que flora
mais triste fomos achar
para ornamento de mesa!
Qual nada. De tão remotos,
de tão puros e esquecidos
no chão que suga e transforma,
são anjos. Que luminosos!
que raios de amor radiam,
e em meio a vagos cristais,
o cristal deles retine,
reverbera a própria sombra.
São anjos que se dignaram
participar do banquete,
alisar o tamborete,
viver vida de menino.
São anjos; e mal sabias
que um mortal devolve a Deus
algo de sua divina
substância aérea e sensível,
se tem um filho e se o perde.
Conta: catorze na mesa.
Ou trinta? serão cinquenta,
que sei? se chegam mais outros,
uma carne cada dia
multiplicada, cruzada
a outras carnes de amor.
São cinquenta pecadores,
se pecado é ter nascido
e provar, entre pecados,
os que nos foram legados.
A procissão de teus netos,
alongando-se em bisnetos,
veio pedir tua bênção
e comer de teu jantar.
Repara um pouquinho nesta,
no queixo, no olhar, no gesto,
e na consciência profunda
e na graça menineira,
e dize, depois de tudo,
se não é, entre meus erros,
uma imprevista verdade.
Esta é minha explicação,
meu verso melhor ou único,
meu tudo enchendo meu nada.
Agora a mesa repleta
está maior do que a casa.
Falamos de boca cheia,
xingamo-nos mutuamente,
rimos, ai, de arrebentar,
esquecemos o respeito
terrível, inibidor,
e toda a alegria nossa,
ressecada em tantos negros
bródios comemorativos
(não convém lembrar agora),
os gestos acumulados
de efusão fraterna, atados
(não convém lembrar agora),
as fina-e-meigas palavras
que ditas naquele tempo
teriam mudado a vida
(não convém mudar agora),
vem tudo à mesa e se espalha
qual inédita vitualha.
Oh que ceia mais celeste
e que gozo mais do chão!
Quem preparou? que inconteste
vocação de sacrifício
pôs a mesa, teve os filhos?
quem se apagou? quem pagou
a pena deste trabalho?
quem foi a mão invisível
que traçou este arabesco
de flor em torno ao pudim,
como se traça uma auréola?
quem tem auréola? quem não
a tem, pois que, sendo de ouro,
cuida logo em reparti-la,
e se pensa melhor faz?
quem senta do lado esquerdo,
assim curvada? que branca,
mas que branca mais que branca
tarja de cabelos brancos
retira a cor das laranjas,
anula o pó do café,
cassa o brilho aos serafins?
quem é toda luz e é branca?
Decerto não pressentias
como o branco pode ser
uma tinta mais diversa
da mesma brancura… Alvura
elaborada na ausência
de ti, mas ficou perfeita,
concreta, fria, lunar.
Como pode nossa festa
ser de um só que não de dois?
Os dois ora estais reunidos
numa aliança bem maior
que o simples elo da terra.
Estais juntos nesta mesa
de madeira mais de lei
que qualquer lei da república.
Estais acima de nós,
acima deste jantar
para o qual vos convocamos
por muito — enfim — vos querermos
e, amando, nos iludirmos
junto da mesa
vazia.
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Carlos Drummond de Andrade
A Mesa
E não gostavas de festa…
Ó velho, que festa grande
hoje te faria a gente.
E teus filhos que não bebem
e o que gosta de beber,
em torno da mesa larga,
largavam as tristes dietas,
esqueciam seus fricotes,
e tudo era farra honesta
acabando em confidência.
Ai, velho, ouvirias coisas
de arrepiar teus noventa.
E daí, não te assustávamos,
porque, com riso na boca,
e a nédia galinha, o vinho
português de boa pinta,
e mais o que alguém faria
de mil coisas naturais
e fartamente poria
em mil terrinas da China,
já logo te insinuávamos
que era tudo brincadeira.
Pois sim. Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais,
quando não seja de amantes).
E, pois, todo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim… Puxa,
grandessíssimos safados,
me saíram bem melhor
que as encomendas. De resto,
filho de peixe… Calavas,
com agudo sobrecenho
interrogavas em ti
uma lembrança saudosa
e não de todo remota
e rindo por dentro e vendo
que lançaras uma ponte
dos passos loucos do avô
à incontinência dos netos,
sabendo que toda carne
aspira à degradação,
mas numa via de fogo
e sob um arco sexual,
tossias. Hem, hem, meninos,
não sejam bobos. Meninos?
Uns marmanjos cinquentões,
calvos, vividos, usados,
mas resguardando no peito
essa alvura de garoto,
essa fuga para o mato,
essa gula defendida
e o desejo muito simples
de pedir à mãe que cosa,
mais do que nossa camisa,
nossa alma frouxa, rasgada…
Ai, grande jantar mineiro
que seria esse… Comíamos,
e comer abria fome,
e comida era pretexto.
E nem mesmo precisávamos
ter apetite, que as coisas
deixavam-se espostejar,
e amanhã é que eram elas.
Nunca desdenhe o tutu.
Vá lá mais um torresminho.
E quanto ao peru? Farofa
há de ser acompanhada
de uma boa cachacinha,
não desfazendo em cerveja,
essa grande camarada.
Ind’outro dia… Comer
guarda tamanha importância
que só o prato revele
o melhor, o mais humano
dos seres em sua treva?
Beber é pois tão sagrado
que só bebido meu mano
me desata seu queixume,
abrindo-me sua palma?
Sorver, papar: que comida
mais cheirosa, mais profunda
no seu tronco luso-árabe,
e que bebida mais santa
que a todos nos une em um
tal centímano glutão,
parlapatão e bonzão!
E nem falta a irmã que foi
mais cedo que os outros e era
rosa de nome e nascera
em dia tal como o de hoje
para enfeitar tua data.
Seu nome sabe a camélia,
e sendo uma rosa-amélia,
flor muito mais delicada
que qualquer das rosas-rosa,
viveu bem mais do que o nome,
porém no íntimo claustrava
a rosa esparsa. A teu lado,
vê: recobrou-se-lhe o viço.
Aqui sentou-se o mais velho.
Tipo do manso, do sonso,
não servia para padre,
amava casos bandalhos;
depois o tempo fez dele
o que faz de qualquer um;
e à medida que envelhece,
vai estranhamente sendo
retrato teu sem ser tu,
de sorte que se o diviso
de repente, sem anúncio,
és tu que me reapareces
noutro velho de sessenta.
Este outro aqui é doutor,
o bacharel da família,
mas suas letras mais doutas
são as escritas no sangue,
ou sobre a casca das árvores.
Sabe o nome da florzinha
e não esquece o da fruta
mais rara que se prepara
num casamento genético.
Mora nele a nostalgia,
citadino, do ar agreste,
e, camponês, do letrado.
Então vira patriarca.
Mais adiante vês aquele
que de ti herdou a dura
vontade, o duro estoicismo.
Mas, não quis te repetir.
Achou não valer a pena
reproduzir sobre a terra
o que a terra engolirá.
Amou. E ama. E amará.
Só não quer que seu amor
seja uma prisão de dois,
um contrato, entre bocejos
e quatro pés de chinelo.
Feroz a um breve contato,
à segunda vista, seco,
à terceira vista, lhano,
dir-se-ia que ele tem medo
de ser, fatalmente, humano.
Dir-se-ia que ele tem raiva,
mas que mel transcende a raiva,
e que sábios, ardilosos
recursos de se enganar
quanto a si mesmo: exercita
uma força que não sabe
chamar-se, apenas, bondade.
Esta calou-se. Não quis
manter com palavras novas
o colóquio subterrâneo
que num sussurro percorre
a gente mais desatada.
Calou-se, não te aborreças.
Se tanto assim a querias,
algo nela ainda te quer,
à maneira atravessada
que é própria de nosso jeito.
(Não ser feliz tudo explica.)
Bem sei como são penosos
esses lances de família,
e discutir neste instante
seria matar a festa,
matando-te — não se morre
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.
Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres.
Estamos todos como éramos
antes de ser, e ninguém
dirá que ficou faltando
algum dos teus. Por exemplo:
ali ao canto da mesa,
não por humilde, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incômodas
posições de tipo gauche,
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranquilo: trabalho.
Afinal, a boa vida
ficou apenas: a vida
(e nem era assim tão boa
e nem se fez muito má).
Pois ele sou eu. Repara:
tenho todos os defeitos
que não farejei em ti,
e nem os tenho que tinhas,
quanto mais as qualidades.
Não importa: sou teu filho
com ser uma negativa
maneira de te afirmar.
Lá que brigamos, brigamos,
opa! que não foi brinquedo,
mas os caminhos do amor,
só amor sabe trilhá-los.
Tão ralo prazer te dei,
nenhum, talvez… ou senão,
esperança de prazer,
é, pode ser que te desse
a neutra satisfação
de alguém sentir que seu filho,
de tão inútil, seria
sequer um sujeito ruim.
Não sou um sujeito ruim.
Descansa, se o suspeitavas,
mas não sou lá essas coisas.
Alguns afetos recortam
o meu coração chateado.
Se me chateio? demais.
Esse é meu mal. Não herdei
de ti essa balda. Bem,
não me olhes tão longo tempo,
que há muitos a ver ainda.
Há oito. E todos minúsculos,
todos frustrados. Que flora
mais triste fomos achar
para ornamento de mesa!
Qual nada. De tão remotos,
de tão puros e esquecidos
no chão que suga e transforma,
são anjos. Que luminosos!
que raios de amor radiam,
e em meio a vagos cristais,
o cristal deles retine,
reverbera a própria sombra.
São anjos que se dignaram
participar do banquete,
alisar o tamborete,
viver vida de menino.
São anjos; e mal sabias
que um mortal devolve a Deus
algo de sua divina
substância aérea e sensível,
se tem um filho e se o perde.
Conta: catorze na mesa.
Ou trinta? serão cinquenta,
que sei? se chegam mais outros,
uma carne cada dia
multiplicada, cruzada
a outras carnes de amor.
São cinquenta pecadores,
se pecado é ter nascido
e provar, entre pecados,
os que nos foram legados.
A procissão de teus netos,
alongando-se em bisnetos,
veio pedir tua bênção
e comer de teu jantar.
Repara um pouquinho nesta,
no queixo, no olhar, no gesto,
e na consciência profunda
e na graça menineira,
e dize, depois de tudo,
se não é, entre meus erros,
uma imprevista verdade.
Esta é minha explicação,
meu verso melhor ou único,
meu tudo enchendo meu nada.
Agora a mesa repleta
está maior do que a casa.
Falamos de boca cheia,
xingamo-nos mutuamente,
rimos, ai, de arrebentar,
esquecemos o respeito
terrível, inibidor,
e toda a alegria nossa,
ressecada em tantos negros
bródios comemorativos
(não convém lembrar agora),
os gestos acumulados
de efusão fraterna, atados
(não convém lembrar agora),
as fina-e-meigas palavras
que ditas naquele tempo
teriam mudado a vida
(não convém mudar agora),
vem tudo à mesa e se espalha
qual inédita vitualha.
Oh que ceia mais celeste
e que gozo mais do chão!
Quem preparou? que inconteste
vocação de sacrifício
pôs a mesa, teve os filhos?
quem se apagou? quem pagou
a pena deste trabalho?
quem foi a mão invisível
que traçou este arabesco
de flor em torno ao pudim,
como se traça uma auréola?
quem tem auréola? quem não
a tem, pois que, sendo de ouro,
cuida logo em reparti-la,
e se pensa melhor faz?
quem senta do lado esquerdo,
assim curvada? que branca,
mas que branca mais que branca
tarja de cabelos brancos
retira a cor das laranjas,
anula o pó do café,
cassa o brilho aos serafins?
quem é toda luz e é branca?
Decerto não pressentias
como o branco pode ser
uma tinta mais diversa
da mesma brancura… Alvura
elaborada na ausência
de ti, mas ficou perfeita,
concreta, fria, lunar.
Como pode nossa festa
ser de um só que não de dois?
Os dois ora estais reunidos
numa aliança bem maior
que o simples elo da terra.
Estais juntos nesta mesa
de madeira mais de lei
que qualquer lei da república.
Estais acima de nós,
acima deste jantar
para o qual vos convocamos
por muito — enfim — vos querermos
e, amando, nos iludirmos
junto da mesa
vazia.
Ó velho, que festa grande
hoje te faria a gente.
E teus filhos que não bebem
e o que gosta de beber,
em torno da mesa larga,
largavam as tristes dietas,
esqueciam seus fricotes,
e tudo era farra honesta
acabando em confidência.
Ai, velho, ouvirias coisas
de arrepiar teus noventa.
E daí, não te assustávamos,
porque, com riso na boca,
e a nédia galinha, o vinho
português de boa pinta,
e mais o que alguém faria
de mil coisas naturais
e fartamente poria
em mil terrinas da China,
já logo te insinuávamos
que era tudo brincadeira.
Pois sim. Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais,
quando não seja de amantes).
E, pois, todo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim… Puxa,
grandessíssimos safados,
me saíram bem melhor
que as encomendas. De resto,
filho de peixe… Calavas,
com agudo sobrecenho
interrogavas em ti
uma lembrança saudosa
e não de todo remota
e rindo por dentro e vendo
que lançaras uma ponte
dos passos loucos do avô
à incontinência dos netos,
sabendo que toda carne
aspira à degradação,
mas numa via de fogo
e sob um arco sexual,
tossias. Hem, hem, meninos,
não sejam bobos. Meninos?
Uns marmanjos cinquentões,
calvos, vividos, usados,
mas resguardando no peito
essa alvura de garoto,
essa fuga para o mato,
essa gula defendida
e o desejo muito simples
de pedir à mãe que cosa,
mais do que nossa camisa,
nossa alma frouxa, rasgada…
Ai, grande jantar mineiro
que seria esse… Comíamos,
e comer abria fome,
e comida era pretexto.
E nem mesmo precisávamos
ter apetite, que as coisas
deixavam-se espostejar,
e amanhã é que eram elas.
Nunca desdenhe o tutu.
Vá lá mais um torresminho.
E quanto ao peru? Farofa
há de ser acompanhada
de uma boa cachacinha,
não desfazendo em cerveja,
essa grande camarada.
Ind’outro dia… Comer
guarda tamanha importância
que só o prato revele
o melhor, o mais humano
dos seres em sua treva?
Beber é pois tão sagrado
que só bebido meu mano
me desata seu queixume,
abrindo-me sua palma?
Sorver, papar: que comida
mais cheirosa, mais profunda
no seu tronco luso-árabe,
e que bebida mais santa
que a todos nos une em um
tal centímano glutão,
parlapatão e bonzão!
E nem falta a irmã que foi
mais cedo que os outros e era
rosa de nome e nascera
em dia tal como o de hoje
para enfeitar tua data.
Seu nome sabe a camélia,
e sendo uma rosa-amélia,
flor muito mais delicada
que qualquer das rosas-rosa,
viveu bem mais do que o nome,
porém no íntimo claustrava
a rosa esparsa. A teu lado,
vê: recobrou-se-lhe o viço.
Aqui sentou-se o mais velho.
Tipo do manso, do sonso,
não servia para padre,
amava casos bandalhos;
depois o tempo fez dele
o que faz de qualquer um;
e à medida que envelhece,
vai estranhamente sendo
retrato teu sem ser tu,
de sorte que se o diviso
de repente, sem anúncio,
és tu que me reapareces
noutro velho de sessenta.
Este outro aqui é doutor,
o bacharel da família,
mas suas letras mais doutas
são as escritas no sangue,
ou sobre a casca das árvores.
Sabe o nome da florzinha
e não esquece o da fruta
mais rara que se prepara
num casamento genético.
Mora nele a nostalgia,
citadino, do ar agreste,
e, camponês, do letrado.
Então vira patriarca.
Mais adiante vês aquele
que de ti herdou a dura
vontade, o duro estoicismo.
Mas, não quis te repetir.
Achou não valer a pena
reproduzir sobre a terra
o que a terra engolirá.
Amou. E ama. E amará.
Só não quer que seu amor
seja uma prisão de dois,
um contrato, entre bocejos
e quatro pés de chinelo.
Feroz a um breve contato,
à segunda vista, seco,
à terceira vista, lhano,
dir-se-ia que ele tem medo
de ser, fatalmente, humano.
Dir-se-ia que ele tem raiva,
mas que mel transcende a raiva,
e que sábios, ardilosos
recursos de se enganar
quanto a si mesmo: exercita
uma força que não sabe
chamar-se, apenas, bondade.
Esta calou-se. Não quis
manter com palavras novas
o colóquio subterrâneo
que num sussurro percorre
a gente mais desatada.
Calou-se, não te aborreças.
Se tanto assim a querias,
algo nela ainda te quer,
à maneira atravessada
que é própria de nosso jeito.
(Não ser feliz tudo explica.)
Bem sei como são penosos
esses lances de família,
e discutir neste instante
seria matar a festa,
matando-te — não se morre
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.
Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres.
Estamos todos como éramos
antes de ser, e ninguém
dirá que ficou faltando
algum dos teus. Por exemplo:
ali ao canto da mesa,
não por humilde, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incômodas
posições de tipo gauche,
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranquilo: trabalho.
Afinal, a boa vida
ficou apenas: a vida
(e nem era assim tão boa
e nem se fez muito má).
Pois ele sou eu. Repara:
tenho todos os defeitos
que não farejei em ti,
e nem os tenho que tinhas,
quanto mais as qualidades.
Não importa: sou teu filho
com ser uma negativa
maneira de te afirmar.
Lá que brigamos, brigamos,
opa! que não foi brinquedo,
mas os caminhos do amor,
só amor sabe trilhá-los.
Tão ralo prazer te dei,
nenhum, talvez… ou senão,
esperança de prazer,
é, pode ser que te desse
a neutra satisfação
de alguém sentir que seu filho,
de tão inútil, seria
sequer um sujeito ruim.
Não sou um sujeito ruim.
Descansa, se o suspeitavas,
mas não sou lá essas coisas.
Alguns afetos recortam
o meu coração chateado.
Se me chateio? demais.
Esse é meu mal. Não herdei
de ti essa balda. Bem,
não me olhes tão longo tempo,
que há muitos a ver ainda.
Há oito. E todos minúsculos,
todos frustrados. Que flora
mais triste fomos achar
para ornamento de mesa!
Qual nada. De tão remotos,
de tão puros e esquecidos
no chão que suga e transforma,
são anjos. Que luminosos!
que raios de amor radiam,
e em meio a vagos cristais,
o cristal deles retine,
reverbera a própria sombra.
São anjos que se dignaram
participar do banquete,
alisar o tamborete,
viver vida de menino.
São anjos; e mal sabias
que um mortal devolve a Deus
algo de sua divina
substância aérea e sensível,
se tem um filho e se o perde.
Conta: catorze na mesa.
Ou trinta? serão cinquenta,
que sei? se chegam mais outros,
uma carne cada dia
multiplicada, cruzada
a outras carnes de amor.
São cinquenta pecadores,
se pecado é ter nascido
e provar, entre pecados,
os que nos foram legados.
A procissão de teus netos,
alongando-se em bisnetos,
veio pedir tua bênção
e comer de teu jantar.
Repara um pouquinho nesta,
no queixo, no olhar, no gesto,
e na consciência profunda
e na graça menineira,
e dize, depois de tudo,
se não é, entre meus erros,
uma imprevista verdade.
Esta é minha explicação,
meu verso melhor ou único,
meu tudo enchendo meu nada.
Agora a mesa repleta
está maior do que a casa.
Falamos de boca cheia,
xingamo-nos mutuamente,
rimos, ai, de arrebentar,
esquecemos o respeito
terrível, inibidor,
e toda a alegria nossa,
ressecada em tantos negros
bródios comemorativos
(não convém lembrar agora),
os gestos acumulados
de efusão fraterna, atados
(não convém lembrar agora),
as fina-e-meigas palavras
que ditas naquele tempo
teriam mudado a vida
(não convém mudar agora),
vem tudo à mesa e se espalha
qual inédita vitualha.
Oh que ceia mais celeste
e que gozo mais do chão!
Quem preparou? que inconteste
vocação de sacrifício
pôs a mesa, teve os filhos?
quem se apagou? quem pagou
a pena deste trabalho?
quem foi a mão invisível
que traçou este arabesco
de flor em torno ao pudim,
como se traça uma auréola?
quem tem auréola? quem não
a tem, pois que, sendo de ouro,
cuida logo em reparti-la,
e se pensa melhor faz?
quem senta do lado esquerdo,
assim curvada? que branca,
mas que branca mais que branca
tarja de cabelos brancos
retira a cor das laranjas,
anula o pó do café,
cassa o brilho aos serafins?
quem é toda luz e é branca?
Decerto não pressentias
como o branco pode ser
uma tinta mais diversa
da mesma brancura… Alvura
elaborada na ausência
de ti, mas ficou perfeita,
concreta, fria, lunar.
Como pode nossa festa
ser de um só que não de dois?
Os dois ora estais reunidos
numa aliança bem maior
que o simples elo da terra.
Estais juntos nesta mesa
de madeira mais de lei
que qualquer lei da república.
Estais acima de nós,
acima deste jantar
para o qual vos convocamos
por muito — enfim — vos querermos
e, amando, nos iludirmos
junto da mesa
vazia.
2 127
Carlos Drummond de Andrade
O Minuto Depois
Nudez, último véu da alma
que ainda assim prossegue absconsa.
A linguagem fértil do corpo
não a detecta nem decifra.
Mais além da pele, dos músculos,
dos nervos, do sangue, dos ossos,
recusa o íntimo contato,
o casamento floral, o abraço
divinizante da matéria
inebriada para sempre
pela sublime conjunção.
Ai de nós, mendigos famintos:
pressentimos só as migalhas
desse banquete além das nuvens
contingentes de nossa carne.
E por isso a volúpia é triste
um minuto depois do êxtase.
que ainda assim prossegue absconsa.
A linguagem fértil do corpo
não a detecta nem decifra.
Mais além da pele, dos músculos,
dos nervos, do sangue, dos ossos,
recusa o íntimo contato,
o casamento floral, o abraço
divinizante da matéria
inebriada para sempre
pela sublime conjunção.
Ai de nós, mendigos famintos:
pressentimos só as migalhas
desse banquete além das nuvens
contingentes de nossa carne.
E por isso a volúpia é triste
um minuto depois do êxtase.
1 179
Carlos Drummond de Andrade
O Outro
Como decifrar pictogramas de há dez mil anos
se nem sei decifrar
minha escrita interior?
Interrogo signos dúbios
e suas variações calidoscópicas
a cada segundo de observação.
A verdade essencial
é o desconhecido que me habita
e a cada amanhecer me dá um soco.
Por ele sou também observado
com ironia, desprezo, incompreensão.
E assim vivemos, se ao confronto se chama viver,
unidos, impossibilitados de desligamento,
acomodados, adversos,
roídos de infernal curiosidade.
se nem sei decifrar
minha escrita interior?
Interrogo signos dúbios
e suas variações calidoscópicas
a cada segundo de observação.
A verdade essencial
é o desconhecido que me habita
e a cada amanhecer me dá um soco.
Por ele sou também observado
com ironia, desprezo, incompreensão.
E assim vivemos, se ao confronto se chama viver,
unidos, impossibilitados de desligamento,
acomodados, adversos,
roídos de infernal curiosidade.
2 012
Carlos Drummond de Andrade
Flor Experiente
Uma flor matizada
entreabre-se em meus dedos.
Já sou terra estrumada
— é um de meus segredos.
Careceu vida lenta
e, mais que lenta, peca,
para a cor que ornamenta
esta epiderme seca.
Assino-me no cálice
de estrias fraternais.
O pensamento cale-se.
É jardim, nada mais.
entreabre-se em meus dedos.
Já sou terra estrumada
— é um de meus segredos.
Careceu vida lenta
e, mais que lenta, peca,
para a cor que ornamenta
esta epiderme seca.
Assino-me no cálice
de estrias fraternais.
O pensamento cale-se.
É jardim, nada mais.
1 469
Carlos Drummond de Andrade
Flor Experiente
Uma flor matizada
entreabre-se em meus dedos.
Já sou terra estrumada
— é um de meus segredos.
Careceu vida lenta
e, mais que lenta, peca,
para a cor que ornamenta
esta epiderme seca.
Assino-me no cálice
de estrias fraternais.
O pensamento cale-se.
É jardim, nada mais.
entreabre-se em meus dedos.
Já sou terra estrumada
— é um de meus segredos.
Careceu vida lenta
e, mais que lenta, peca,
para a cor que ornamenta
esta epiderme seca.
Assino-me no cálice
de estrias fraternais.
O pensamento cale-se.
É jardim, nada mais.
1 469
Carlos Drummond de Andrade
Combate
Nem eu posso com Deus nem pode ele comigo.
Essa peleja é vã, essa luta no escuro
entre mim e seu nome.
Não me persegue Deus no dia claro.
Arma, à noite, emboscadas.
Enredo-me, debato-me, invectivo
e me liberto, escalavrado.
De manhã, à hora do café, sou eu quem desafia.
Volta-me as costas, sequer me escuta,
e o dia não é creditado a nenhum dos contendores.
Deus golpeia à traição.
Também uso para com ele táticas covardes.
E o vencedor (se vencedor houver) não sentirá prazer
pela vitória equívoca.
Essa peleja é vã, essa luta no escuro
entre mim e seu nome.
Não me persegue Deus no dia claro.
Arma, à noite, emboscadas.
Enredo-me, debato-me, invectivo
e me liberto, escalavrado.
De manhã, à hora do café, sou eu quem desafia.
Volta-me as costas, sequer me escuta,
e o dia não é creditado a nenhum dos contendores.
Deus golpeia à traição.
Também uso para com ele táticas covardes.
E o vencedor (se vencedor houver) não sentirá prazer
pela vitória equívoca.
1 225
Carlos Drummond de Andrade
Pintor de Mulher
A Augusto Rodrigues
Este pintor
sabe o corpo feminino e seus possíveis
de linha e de volume reinventados.
Sabe a melodia do corpo em variações entrecruzadas.
Lê o código do corpo, de A ao infinito
dos signos e das curvas que dão vontade de morrer
de santo orgasmo e de beleza.
Este pintor
sabe o corpo feminino e seus possíveis
de linha e de volume reinventados.
Sabe a melodia do corpo em variações entrecruzadas.
Lê o código do corpo, de A ao infinito
dos signos e das curvas que dão vontade de morrer
de santo orgasmo e de beleza.
1 353