Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
Mediadora Branca
Inacessível próxima
sim do vagar e de um cimo
magia de sempre e nunca
água que nasce da água
Branco jardim na noite
um acorde entre ruínas
de novo a beleza branca
a transparência do corpo
Continuamente desnuda
azulada inalcançada
nada acumula ou retém
no seu redondo horizonte
Que mensageira tu és
que só o branco revelas
inundas como se nada
em teus relâmpagos brancos
Presença feita de ausência
do silêncio estrela branca
em ti permanece o idêntico
sem miragens nem figura
Solitária e povoada
glória imóvel vigília
branco palácio do ar
balança sobre o vazio
Quieta de sílabas altas
fonte do espaço presença
tudo se apaga e exalta
em tua branca morada
Uma água de distância
flui em tuas largas veias
Magia íntima música
pureza metal brancura
Na pausa de um grande círculo
transpareces repentina
centro de ser incêndio liso
viva palavra da vida
sim do vagar e de um cimo
magia de sempre e nunca
água que nasce da água
Branco jardim na noite
um acorde entre ruínas
de novo a beleza branca
a transparência do corpo
Continuamente desnuda
azulada inalcançada
nada acumula ou retém
no seu redondo horizonte
Que mensageira tu és
que só o branco revelas
inundas como se nada
em teus relâmpagos brancos
Presença feita de ausência
do silêncio estrela branca
em ti permanece o idêntico
sem miragens nem figura
Solitária e povoada
glória imóvel vigília
branco palácio do ar
balança sobre o vazio
Quieta de sílabas altas
fonte do espaço presença
tudo se apaga e exalta
em tua branca morada
Uma água de distância
flui em tuas largas veias
Magia íntima música
pureza metal brancura
Na pausa de um grande círculo
transpareces repentina
centro de ser incêndio liso
viva palavra da vida
966
António Ramos Rosa
Mediadora do Real
Suavidade e tumulto.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.
Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.
Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.
Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.
Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
1 221
António Ramos Rosa
Mediadora da Presença
E continua o fogo aqui
o fogo tácito
no seu som de espaço abrindo.
Aqui tão só aqui
o prodígio verde de um início
inesperado. Que frágil
a folhagem
e como abriga a veemência
da vigília. O simples
estar aqui
deixa livre a ausência.
A presença confunde-se com o vazio exacto.
o fogo tácito
no seu som de espaço abrindo.
Aqui tão só aqui
o prodígio verde de um início
inesperado. Que frágil
a folhagem
e como abriga a veemência
da vigília. O simples
estar aqui
deixa livre a ausência.
A presença confunde-se com o vazio exacto.
1 034
António Ramos Rosa
Mediadora Terrestre
A sua língua é um jovem animal.
O seu sono um fruto transparente.
Uma criança vive sobre os ombros.
Ó evidência de fábula terrestre!
Alegria branca. Solidão verde.
Vagar feliz. Vendaval claríssimo.
Maravilha contínua. Juventude
das pedras. Aliança intacta.
O seu sono um fruto transparente.
Uma criança vive sobre os ombros.
Ó evidência de fábula terrestre!
Alegria branca. Solidão verde.
Vagar feliz. Vendaval claríssimo.
Maravilha contínua. Juventude
das pedras. Aliança intacta.
1 003
António Ramos Rosa
Mediadora Irrevelada
Descalça e fulgurante
passageira das sombras.
Lâmpada sonâmbula
interrompendo as águas.
Não pousam pássaros
nos seus ombros escuros.
Corpo ainda aéreo
opaco e cristalino.
Não música nem pintura.
Eclipse do espelho.
Silenciosa energia
de um voo irrevelado.
passageira das sombras.
Lâmpada sonâmbula
interrompendo as águas.
Não pousam pássaros
nos seus ombros escuros.
Corpo ainda aéreo
opaco e cristalino.
Não música nem pintura.
Eclipse do espelho.
Silenciosa energia
de um voo irrevelado.
1 105
António Ramos Rosa
Qual É a Cena? Hesito À Luz Escassa
Qual é a cena? Hesito à luz escassa
Caminho para ela na distância
atravesso salas e salas
dispostas numa ordem regular
e decisiva
que não consigo definir Aqui
o espectáculo começou antes de mim
Quero tocá-la ou vê-la ou antes
quero-a quando ela deflagra
o meu andar é flexível: não desloco os objectos
Lenda ou narrativa vivi talvez o que em tempos me contaram
e o que escrevo agora Tudo se duplica
num movimento presente
As coisas não voltam para mim as faces cegas
e divididas
É um espaço que se move e desenvolve
Um sopro que vem de todos os lados
anima cada coisa
O meu desejo dela a distante figura
identifica-se
com o percurso obscuro em que já não me distingo
do ilimitado organismo dos sinais
Sou a diferença que caminha e que adere à distância
Cada palavra me separa e me diz o lugar
ou não lugar
em que vou falar-lhe É preciso que lhe fale
Ela não me vê e parece não me ouvir
Alguma vez caminhámos nesta cidade, nesta rede?
Alguma vez te perdeste com ela nesta rua?
O rumo repete-se mas desvia-se do passado
há uma recusa viva na sua face inabordável
Não é possível chegar Não é possível deter-me
É para o labirinto que falo e a linguagem responde-me
Assim posso entender o murmúrio das lâmpadas
cada palavra é um acto com que avanço no escuro
estou mais perto da terra de uma árvore de uma erva
e os meus dedos sentem as raízes do obscuro
Adiro a uma chama insubmissa ao sexo do repouso
o percurso é uma fábula o desesperado encanto
do para sempre perdido na maravilha obscura
Não há centro e a figura distancia-se
mas cada passo meu define uma distância solar
em que a figura dela por vezes é um canto
que se confunde com os meandros do labirinto
Caminho para ela na distância
atravesso salas e salas
dispostas numa ordem regular
e decisiva
que não consigo definir Aqui
o espectáculo começou antes de mim
Quero tocá-la ou vê-la ou antes
quero-a quando ela deflagra
o meu andar é flexível: não desloco os objectos
Lenda ou narrativa vivi talvez o que em tempos me contaram
e o que escrevo agora Tudo se duplica
num movimento presente
As coisas não voltam para mim as faces cegas
e divididas
É um espaço que se move e desenvolve
Um sopro que vem de todos os lados
anima cada coisa
O meu desejo dela a distante figura
identifica-se
com o percurso obscuro em que já não me distingo
do ilimitado organismo dos sinais
Sou a diferença que caminha e que adere à distância
Cada palavra me separa e me diz o lugar
ou não lugar
em que vou falar-lhe É preciso que lhe fale
Ela não me vê e parece não me ouvir
Alguma vez caminhámos nesta cidade, nesta rede?
Alguma vez te perdeste com ela nesta rua?
O rumo repete-se mas desvia-se do passado
há uma recusa viva na sua face inabordável
Não é possível chegar Não é possível deter-me
É para o labirinto que falo e a linguagem responde-me
Assim posso entender o murmúrio das lâmpadas
cada palavra é um acto com que avanço no escuro
estou mais perto da terra de uma árvore de uma erva
e os meus dedos sentem as raízes do obscuro
Adiro a uma chama insubmissa ao sexo do repouso
o percurso é uma fábula o desesperado encanto
do para sempre perdido na maravilha obscura
Não há centro e a figura distancia-se
mas cada passo meu define uma distância solar
em que a figura dela por vezes é um canto
que se confunde com os meandros do labirinto
1 024
António Ramos Rosa
Quem Sabe Quem a Guia Através de Que Desvios
Quem sabe quem a guia através de que desvios
e que surpresas? Segue um traçado
que deveria conduzi-la ao ponto
de sentir-se ilimitada
Ela não decide nada neste momento
deixa-se levar enquanto corre o contínuo solo
do mundo Um modo não reflexivo
de participação Talvez não deixe
de nomear os acontecimentos que constroem o seu
itinerário Transições
Por mais longe que pareça de uma paisagem comum
há sempre silhuetas fachadas conhecidas
sobreposições pontos de referência
Estará ela no interior da sua história?
Não é ela o real antes da divisão
da consciência e do real? Ela busca reencontrar
uma parte sua visível e durável
e será a resposta parcial à pergunta
que formulei ao seu contacto.
Ela desvia-se sempre e detém-se em plena rua
é um sinal de assombro
uma unificação imediata e coerente
Mas o cansaço toma-a e ela afasta-se sempre
da sua história Não consegue jamais
captar a relação da sua existência
Por isso procura-se a si mesma continuamente
Quase sempre as suas palavras os seus actos
parecem convergir para uma unidade Mas logo
se descobrem sem tomar forma (será esquecimento
o esquecimento da sua fatalidade?)
Procura despertar para quem a compreender
Mas será sempre alheia aos outros
O que a determina talvez seja o desejo
da semelhança Mas para si mesma
é um enigma fugidio
que brilha e foge na transparência opaca
a surpresa viva entre todos os sinais
e que surpresas? Segue um traçado
que deveria conduzi-la ao ponto
de sentir-se ilimitada
Ela não decide nada neste momento
deixa-se levar enquanto corre o contínuo solo
do mundo Um modo não reflexivo
de participação Talvez não deixe
de nomear os acontecimentos que constroem o seu
itinerário Transições
Por mais longe que pareça de uma paisagem comum
há sempre silhuetas fachadas conhecidas
sobreposições pontos de referência
Estará ela no interior da sua história?
Não é ela o real antes da divisão
da consciência e do real? Ela busca reencontrar
uma parte sua visível e durável
e será a resposta parcial à pergunta
que formulei ao seu contacto.
Ela desvia-se sempre e detém-se em plena rua
é um sinal de assombro
uma unificação imediata e coerente
Mas o cansaço toma-a e ela afasta-se sempre
da sua história Não consegue jamais
captar a relação da sua existência
Por isso procura-se a si mesma continuamente
Quase sempre as suas palavras os seus actos
parecem convergir para uma unidade Mas logo
se descobrem sem tomar forma (será esquecimento
o esquecimento da sua fatalidade?)
Procura despertar para quem a compreender
Mas será sempre alheia aos outros
O que a determina talvez seja o desejo
da semelhança Mas para si mesma
é um enigma fugidio
que brilha e foge na transparência opaca
a surpresa viva entre todos os sinais
1 030
António Ramos Rosa
Quem Sabe Quem a Guia Através de Que Desvios
Quem sabe quem a guia através de que desvios
e que surpresas? Segue um traçado
que deveria conduzi-la ao ponto
de sentir-se ilimitada
Ela não decide nada neste momento
deixa-se levar enquanto corre o contínuo solo
do mundo Um modo não reflexivo
de participação Talvez não deixe
de nomear os acontecimentos que constroem o seu
itinerário Transições
Por mais longe que pareça de uma paisagem comum
há sempre silhuetas fachadas conhecidas
sobreposições pontos de referência
Estará ela no interior da sua história?
Não é ela o real antes da divisão
da consciência e do real? Ela busca reencontrar
uma parte sua visível e durável
e será a resposta parcial à pergunta
que formulei ao seu contacto.
Ela desvia-se sempre e detém-se em plena rua
é um sinal de assombro
uma unificação imediata e coerente
Mas o cansaço toma-a e ela afasta-se sempre
da sua história Não consegue jamais
captar a relação da sua existência
Por isso procura-se a si mesma continuamente
Quase sempre as suas palavras os seus actos
parecem convergir para uma unidade Mas logo
se descobrem sem tomar forma (será esquecimento
o esquecimento da sua fatalidade?)
Procura despertar para quem a compreender
Mas será sempre alheia aos outros
O que a determina talvez seja o desejo
da semelhança Mas para si mesma
é um enigma fugidio
que brilha e foge na transparência opaca
a surpresa viva entre todos os sinais
e que surpresas? Segue um traçado
que deveria conduzi-la ao ponto
de sentir-se ilimitada
Ela não decide nada neste momento
deixa-se levar enquanto corre o contínuo solo
do mundo Um modo não reflexivo
de participação Talvez não deixe
de nomear os acontecimentos que constroem o seu
itinerário Transições
Por mais longe que pareça de uma paisagem comum
há sempre silhuetas fachadas conhecidas
sobreposições pontos de referência
Estará ela no interior da sua história?
Não é ela o real antes da divisão
da consciência e do real? Ela busca reencontrar
uma parte sua visível e durável
e será a resposta parcial à pergunta
que formulei ao seu contacto.
Ela desvia-se sempre e detém-se em plena rua
é um sinal de assombro
uma unificação imediata e coerente
Mas o cansaço toma-a e ela afasta-se sempre
da sua história Não consegue jamais
captar a relação da sua existência
Por isso procura-se a si mesma continuamente
Quase sempre as suas palavras os seus actos
parecem convergir para uma unidade Mas logo
se descobrem sem tomar forma (será esquecimento
o esquecimento da sua fatalidade?)
Procura despertar para quem a compreender
Mas será sempre alheia aos outros
O que a determina talvez seja o desejo
da semelhança Mas para si mesma
é um enigma fugidio
que brilha e foge na transparência opaca
a surpresa viva entre todos os sinais
1 030
António Ramos Rosa
Mediadora Imediata
Com as ancas da terra, num sopro
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
1 023
António Ramos Rosa
Mediadora Imediata
Com as ancas da terra, num sopro
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
1 023
António Ramos Rosa
Mediadora Das Alturas
Clara ligeireza
na mais clara distância.
Silêncio ardente e suave.
Subtil incêndio.
Que tão leve tumulto
nas ligeiras alturas!
Tão íntima e calada
no imponderável.
Nos ares constrói a fábula
de um suavíssimo surgir.
Que cálidas certezas
entre nuvens e ares!
Nascer sempre, nascer
em errantes delícias,
na fácil transparência.
Que grácil equilíbrio!
na mais clara distância.
Silêncio ardente e suave.
Subtil incêndio.
Que tão leve tumulto
nas ligeiras alturas!
Tão íntima e calada
no imponderável.
Nos ares constrói a fábula
de um suavíssimo surgir.
Que cálidas certezas
entre nuvens e ares!
Nascer sempre, nascer
em errantes delícias,
na fácil transparência.
Que grácil equilíbrio!
999
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Dias
Cada página um dia
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
992
António Ramos Rosa
O Corpo Isolado, Maciço Provocante: a Ilha Lisa
O corpo isolado, maciço provocante: a ilha lisa
a velocidade do corpo na brancura: a cor do vinho
uma imagem fixa que persiste: a língua negra
forma excessiva do dia vegetação branca: os arames tremem
a insistência de um silêncio insuportável: os olhos líquidos
Agora o punho quase submerso revolve a água: o sol vacila
um campo inerte iluminado: a torre verde
depois
o centro neutro
silencioso de uma escrita flexível e furtiva
reflexos
sobreposições de letras
números
leitura do mais longínquo ao mais próximo
da profundeza indistinta aos incertos jogos
de uma incessante superfície branca e negra
a velocidade do corpo na brancura: a cor do vinho
uma imagem fixa que persiste: a língua negra
forma excessiva do dia vegetação branca: os arames tremem
a insistência de um silêncio insuportável: os olhos líquidos
Agora o punho quase submerso revolve a água: o sol vacila
um campo inerte iluminado: a torre verde
depois
o centro neutro
silencioso de uma escrita flexível e furtiva
reflexos
sobreposições de letras
números
leitura do mais longínquo ao mais próximo
da profundeza indistinta aos incertos jogos
de uma incessante superfície branca e negra
1 042
António Ramos Rosa
Mediadora do Espaço
Dedos abertos ao sopro,
imensamente terrestre,
clara desordem ao vento.
Descalça, muda os caminhos
na viva avidez do ar.
Abre um mundo inesperado
que se propaga num arco.
Perfuma as formas, aflora.
Alma instantânea, dilata
e levanta, sol na água,
água de sol, livre, livre,
como um lúcido relâmpago.
Feliz energia de nada
faz a casa por viver
musical na coincidência
de com o espaço o secreto.
Quantos vales em seu corpo
de campo azul e silêncio!
Ó contínua suavidade
tão imediata e profusa!
Que frescura de distância
tão real e oferecida!
Fúria fresca de estar viva.
O sim total do presente.
imensamente terrestre,
clara desordem ao vento.
Descalça, muda os caminhos
na viva avidez do ar.
Abre um mundo inesperado
que se propaga num arco.
Perfuma as formas, aflora.
Alma instantânea, dilata
e levanta, sol na água,
água de sol, livre, livre,
como um lúcido relâmpago.
Feliz energia de nada
faz a casa por viver
musical na coincidência
de com o espaço o secreto.
Quantos vales em seu corpo
de campo azul e silêncio!
Ó contínua suavidade
tão imediata e profusa!
Que frescura de distância
tão real e oferecida!
Fúria fresca de estar viva.
O sim total do presente.
542
António Ramos Rosa
Mediadora Leve
De que suaves declives
ela desce, tão efémera
em sua fresca lucidez.
Imediata fluência
perfumada. Com um hálito
de espuma transparece
entre vertentes e vértices.
Não é mais que folha ou água.
Nada pesa e tudo queda
no seu círculo subtil:
cada vez mais leve o ar
entre a penumbra dos músculos.
Nada oculta sob as pedras
do vento. A claridade lisa.
O espaço escuta. Uma fábula
de calma profundidade.
Tão próxima sempre, aviva
o fulgor dos ângulos, o brilho
do pensamento das lâmpadas.
Rosa de um círculo latente.
Ninguém a espera e é esperada
no seu fluxo de inocência.
A densidade é mais leve.
Carne da luz e da alma.
Enquanto dura o seu estar
tudo é sossego e visão
ama-se a água na água.
Amam-se as veias da sombra.
ela desce, tão efémera
em sua fresca lucidez.
Imediata fluência
perfumada. Com um hálito
de espuma transparece
entre vertentes e vértices.
Não é mais que folha ou água.
Nada pesa e tudo queda
no seu círculo subtil:
cada vez mais leve o ar
entre a penumbra dos músculos.
Nada oculta sob as pedras
do vento. A claridade lisa.
O espaço escuta. Uma fábula
de calma profundidade.
Tão próxima sempre, aviva
o fulgor dos ângulos, o brilho
do pensamento das lâmpadas.
Rosa de um círculo latente.
Ninguém a espera e é esperada
no seu fluxo de inocência.
A densidade é mais leve.
Carne da luz e da alma.
Enquanto dura o seu estar
tudo é sossego e visão
ama-se a água na água.
Amam-se as veias da sombra.
1 119
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Frutos Nocturnos
Estão acesos os obscuros
frutos. É o espaço da noite.
As ruas ascendem por escadas verdes.
O viajante viu de longe cintilar um dorso.
Rede cinzenta e ainda azul
como se fosse a casa em oscilação tranquila.
Entre lâmpadas e sombras
respira-se o unânime.
Os ombros pulsam. O corpo confia
na música nocturna. Plenitude
de uma esfera de água. Opulência
suave. Cresce o fulgor dos frutos.
frutos. É o espaço da noite.
As ruas ascendem por escadas verdes.
O viajante viu de longe cintilar um dorso.
Rede cinzenta e ainda azul
como se fosse a casa em oscilação tranquila.
Entre lâmpadas e sombras
respira-se o unânime.
Os ombros pulsam. O corpo confia
na música nocturna. Plenitude
de uma esfera de água. Opulência
suave. Cresce o fulgor dos frutos.
1 082
António Ramos Rosa
Algo Se Precipita Ou Se Afasta
Algo se precipita ou se afasta
árvores que sobrevivem obscuras
não há ponte entre uma frase e outra
um cão vigia ou sonha no silêncio das ruas
no interior do texto
ela desloca-se
uma dupla superfície define o espaço
não há identidade entre o texto e a leitura
tudo é outro e outro
o que se repete é diferente e o diferente é o mesmo
Não é ainda o silêncio: espero pelas figuras
é antes um rumor o ruído de um organismo
um funcionamento obstinado e anónimo
eis a diferença a precária tensão que segrega o visível
Onde encontrar a figura senão nos interstícios
Ignoro se posso penetrar nessa zona proibida
Sei que alguém escreveu: «a impregnação de um sangue
oculto antes da ferida que abre a superfície»
A imagem aqui seria
a dança das figuras
Não se sabe ainda
a que fim se destinam tantos gestos lentos
palavras segregadas
frases inacabadas que se dirigem talvez a todos
olhares de súbito fixos
confundidos pelo mesmo desejo de uma semelhança
anónima e alheia
Não é a dança ainda
mas é como se fosse começar
árvores que sobrevivem obscuras
não há ponte entre uma frase e outra
um cão vigia ou sonha no silêncio das ruas
no interior do texto
ela desloca-se
uma dupla superfície define o espaço
não há identidade entre o texto e a leitura
tudo é outro e outro
o que se repete é diferente e o diferente é o mesmo
Não é ainda o silêncio: espero pelas figuras
é antes um rumor o ruído de um organismo
um funcionamento obstinado e anónimo
eis a diferença a precária tensão que segrega o visível
Onde encontrar a figura senão nos interstícios
Ignoro se posso penetrar nessa zona proibida
Sei que alguém escreveu: «a impregnação de um sangue
oculto antes da ferida que abre a superfície»
A imagem aqui seria
a dança das figuras
Não se sabe ainda
a que fim se destinam tantos gestos lentos
palavras segregadas
frases inacabadas que se dirigem talvez a todos
olhares de súbito fixos
confundidos pelo mesmo desejo de uma semelhança
anónima e alheia
Não é a dança ainda
mas é como se fosse começar
1 029
António Ramos Rosa
Mediadora do Opaco
Para o mínimo olhar a terra negativa,
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.
Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode
no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.
Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode
no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
1 044
António Ramos Rosa
Mediadora do Opaco
Para o mínimo olhar a terra negativa,
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.
Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode
no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.
Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode
no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
1 044
António Ramos Rosa
Violenta Vaga E o Esquecimento Subsequente
Violenta vaga e o esquecimento subsequente
Violência que é preciso discernir
de cada vez que a Figura se mostra
(Ela não é mais que um tecido vermelho
impelido pelo vento)
É pela violência repetida que se pode conquistar
as marcas legíveis da sua presença aqui
A corrente repele-a Mas que dizer
da luz
que a fere dos cabelos flutuantes
Ela deixa-se arrastar responde apenas
por movimentos de superfície
aos reflexos que se afastam dela
Ela repele as semelhanças Tudo
se torna esplendor ou linhas negras
Vidraças brilhantes palavras
de metal e aquele olhar (temor?
consentimento?) antes da calma
O corpo liquefeito consumido
Água diferente em que penetro
para chegar ao esquecido rectângulo
que lhe cobre o peito a boca os olhos
Violência que é preciso discernir
de cada vez que a Figura se mostra
(Ela não é mais que um tecido vermelho
impelido pelo vento)
É pela violência repetida que se pode conquistar
as marcas legíveis da sua presença aqui
A corrente repele-a Mas que dizer
da luz
que a fere dos cabelos flutuantes
Ela deixa-se arrastar responde apenas
por movimentos de superfície
aos reflexos que se afastam dela
Ela repele as semelhanças Tudo
se torna esplendor ou linhas negras
Vidraças brilhantes palavras
de metal e aquele olhar (temor?
consentimento?) antes da calma
O corpo liquefeito consumido
Água diferente em que penetro
para chegar ao esquecido rectângulo
que lhe cobre o peito a boca os olhos
525
António Ramos Rosa
Violenta Vaga E o Esquecimento Subsequente
Violenta vaga e o esquecimento subsequente
Violência que é preciso discernir
de cada vez que a Figura se mostra
(Ela não é mais que um tecido vermelho
impelido pelo vento)
É pela violência repetida que se pode conquistar
as marcas legíveis da sua presença aqui
A corrente repele-a Mas que dizer
da luz
que a fere dos cabelos flutuantes
Ela deixa-se arrastar responde apenas
por movimentos de superfície
aos reflexos que se afastam dela
Ela repele as semelhanças Tudo
se torna esplendor ou linhas negras
Vidraças brilhantes palavras
de metal e aquele olhar (temor?
consentimento?) antes da calma
O corpo liquefeito consumido
Água diferente em que penetro
para chegar ao esquecido rectângulo
que lhe cobre o peito a boca os olhos
Violência que é preciso discernir
de cada vez que a Figura se mostra
(Ela não é mais que um tecido vermelho
impelido pelo vento)
É pela violência repetida que se pode conquistar
as marcas legíveis da sua presença aqui
A corrente repele-a Mas que dizer
da luz
que a fere dos cabelos flutuantes
Ela deixa-se arrastar responde apenas
por movimentos de superfície
aos reflexos que se afastam dela
Ela repele as semelhanças Tudo
se torna esplendor ou linhas negras
Vidraças brilhantes palavras
de metal e aquele olhar (temor?
consentimento?) antes da calma
O corpo liquefeito consumido
Água diferente em que penetro
para chegar ao esquecido rectângulo
que lhe cobre o peito a boca os olhos
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António Ramos Rosa
Mediadora da Lucidez Espacial
Principia por
uma inclinação
leve
coincidência frágil
rumor aceso
de que silêncio outro?
entrar
escutar
onde não se erguem perguntas
em abandono límpido
num impulso de terra
em espacial lucidez.
uma inclinação
leve
coincidência frágil
rumor aceso
de que silêncio outro?
entrar
escutar
onde não se erguem perguntas
em abandono límpido
num impulso de terra
em espacial lucidez.
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António Ramos Rosa
Mediadora do Silêncio
Onde o incandescente
centro das flores?
Entre margens de água
onde a alma se encurva?
Voz próxima do chão
onde estremecem palavras
na indivisa espera
de um vinho negro.
Respiram minuciosas
entre detritos verdes
e lâmpadas quebradas.
Não dizem a palavra.
Calar, calar talvez.
Querer dizer é demais.
centro das flores?
Entre margens de água
onde a alma se encurva?
Voz próxima do chão
onde estremecem palavras
na indivisa espera
de um vinho negro.
Respiram minuciosas
entre detritos verdes
e lâmpadas quebradas.
Não dizem a palavra.
Calar, calar talvez.
Querer dizer é demais.
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