Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
Figuras do Ar E da Terra
A língua liberta-se no silêncio e no espaço.
As graciosas folhas, as feridas nas colinas, os declives
incendeiam-se no azul. Alguma coisa se altera
subtil, inominável. Figuras do ar
enlaçam-se, dissipam-se, renovam-se.
É a hora da paixão das árvores e da inocência selvagem.
Entre o verde divisam-se flancos amorosos.
Uma espádua adormece na brancura dos murmúrios.
Sobre as coxas da terra caem as cascatas obscuras.
A vida ondula como uma árvore sob o sol.
Em suave indolência de seiva os músculos movem-se.
Respiram os contrários em formas simultâneas.
É uma fábula completa, é um país de silêncios.
Vibra, vibra o anel verde-negro da sombra.
Belo é o desejo e belo é o seu espaço.
As graciosas folhas, as feridas nas colinas, os declives
incendeiam-se no azul. Alguma coisa se altera
subtil, inominável. Figuras do ar
enlaçam-se, dissipam-se, renovam-se.
É a hora da paixão das árvores e da inocência selvagem.
Entre o verde divisam-se flancos amorosos.
Uma espádua adormece na brancura dos murmúrios.
Sobre as coxas da terra caem as cascatas obscuras.
A vida ondula como uma árvore sob o sol.
Em suave indolência de seiva os músculos movem-se.
Respiram os contrários em formas simultâneas.
É uma fábula completa, é um país de silêncios.
Vibra, vibra o anel verde-negro da sombra.
Belo é o desejo e belo é o seu espaço.
1 153
António Ramos Rosa
Um Cenário de Rochedos E de Mar
Um cenário de rochedos e de mar
(A água não cintila não reflecte)
é uma discreta superfície
ela
bruscamente vê-se figurada
pela presença de uma multidão
indivisível
Desliza ainda mas sem rosto
esperando vertical
Veloz caminha no ar negro e brilhante
afunda-se cada vez mais reduz-se
a um ponto luminoso
sem jamais desaparecer
Ouvem-se ao longe detonações surdas
de uma tempestade subterrânea
Eis o momento da primeira cintilação
A cena é apenas indicada nos limites
Não é o projecto de uma história
mas anuncia-o
Breves estilhas
segmentos separados poderiam reunir-se
noutro lado
Há o gesto de duas mãos que se encontram
os quartos o bosque uma sombria álea
o alvorecer numa praia deserta
Uma das mãos corre ao longo das pernas
à superfície do corpo buscando
apoderar-se de uma forma de um centro líquido
Surge uma clareira de ramos baixos
O gesto desfaz-se num refluxo
ouvem-se golpes passam sombras húmidas
traços cada vez mais desligados
antes que o outro desapareça sob o nome
Eis os nomes aprendidos em que se dissimula
o fundo sem nome em que ela se transforma
terra idêntica música ventre
tempestade matéria muro animal
azul vermelho chuva chão madeira…
(A água não cintila não reflecte)
é uma discreta superfície
ela
bruscamente vê-se figurada
pela presença de uma multidão
indivisível
Desliza ainda mas sem rosto
esperando vertical
Veloz caminha no ar negro e brilhante
afunda-se cada vez mais reduz-se
a um ponto luminoso
sem jamais desaparecer
Ouvem-se ao longe detonações surdas
de uma tempestade subterrânea
Eis o momento da primeira cintilação
A cena é apenas indicada nos limites
Não é o projecto de uma história
mas anuncia-o
Breves estilhas
segmentos separados poderiam reunir-se
noutro lado
Há o gesto de duas mãos que se encontram
os quartos o bosque uma sombria álea
o alvorecer numa praia deserta
Uma das mãos corre ao longo das pernas
à superfície do corpo buscando
apoderar-se de uma forma de um centro líquido
Surge uma clareira de ramos baixos
O gesto desfaz-se num refluxo
ouvem-se golpes passam sombras húmidas
traços cada vez mais desligados
antes que o outro desapareça sob o nome
Eis os nomes aprendidos em que se dissimula
o fundo sem nome em que ela se transforma
terra idêntica música ventre
tempestade matéria muro animal
azul vermelho chuva chão madeira…
1 071
António Ramos Rosa
Qual É a Cena? Hesito À Luz Escassa
Qual é a cena? Hesito à luz escassa
Caminho para ela na distância
atravesso salas e salas
dispostas numa ordem regular
e decisiva
que não consigo definir Aqui
o espectáculo começou antes de mim
Quero tocá-la ou vê-la ou antes
quero-a quando ela deflagra
o meu andar é flexível: não desloco os objectos
Lenda ou narrativa vivi talvez o que em tempos me contaram
e o que escrevo agora Tudo se duplica
num movimento presente
As coisas não voltam para mim as faces cegas
e divididas
É um espaço que se move e desenvolve
Um sopro que vem de todos os lados
anima cada coisa
O meu desejo dela a distante figura
identifica-se
com o percurso obscuro em que já não me distingo
do ilimitado organismo dos sinais
Sou a diferença que caminha e que adere à distância
Cada palavra me separa e me diz o lugar
ou não lugar
em que vou falar-lhe É preciso que lhe fale
Ela não me vê e parece não me ouvir
Alguma vez caminhámos nesta cidade, nesta rede?
Alguma vez te perdeste com ela nesta rua?
O rumo repete-se mas desvia-se do passado
há uma recusa viva na sua face inabordável
Não é possível chegar Não é possível deter-me
É para o labirinto que falo e a linguagem responde-me
Assim posso entender o murmúrio das lâmpadas
cada palavra é um acto com que avanço no escuro
estou mais perto da terra de uma árvore de uma erva
e os meus dedos sentem as raízes do obscuro
Adiro a uma chama insubmissa ao sexo do repouso
o percurso é uma fábula o desesperado encanto
do para sempre perdido na maravilha obscura
Não há centro e a figura distancia-se
mas cada passo meu define uma distância solar
em que a figura dela por vezes é um canto
que se confunde com os meandros do labirinto
Caminho para ela na distância
atravesso salas e salas
dispostas numa ordem regular
e decisiva
que não consigo definir Aqui
o espectáculo começou antes de mim
Quero tocá-la ou vê-la ou antes
quero-a quando ela deflagra
o meu andar é flexível: não desloco os objectos
Lenda ou narrativa vivi talvez o que em tempos me contaram
e o que escrevo agora Tudo se duplica
num movimento presente
As coisas não voltam para mim as faces cegas
e divididas
É um espaço que se move e desenvolve
Um sopro que vem de todos os lados
anima cada coisa
O meu desejo dela a distante figura
identifica-se
com o percurso obscuro em que já não me distingo
do ilimitado organismo dos sinais
Sou a diferença que caminha e que adere à distância
Cada palavra me separa e me diz o lugar
ou não lugar
em que vou falar-lhe É preciso que lhe fale
Ela não me vê e parece não me ouvir
Alguma vez caminhámos nesta cidade, nesta rede?
Alguma vez te perdeste com ela nesta rua?
O rumo repete-se mas desvia-se do passado
há uma recusa viva na sua face inabordável
Não é possível chegar Não é possível deter-me
É para o labirinto que falo e a linguagem responde-me
Assim posso entender o murmúrio das lâmpadas
cada palavra é um acto com que avanço no escuro
estou mais perto da terra de uma árvore de uma erva
e os meus dedos sentem as raízes do obscuro
Adiro a uma chama insubmissa ao sexo do repouso
o percurso é uma fábula o desesperado encanto
do para sempre perdido na maravilha obscura
Não há centro e a figura distancia-se
mas cada passo meu define uma distância solar
em que a figura dela por vezes é um canto
que se confunde com os meandros do labirinto
1 029
António Ramos Rosa
Nudez
Toquei um nome quando a luz amanhecia.
Era uma ferida menor do que um suspiro.
Ondulava um campo, um luminoso mar.
Nada podia faltar porque as palavras o diziam.
Imediata era a sede, o coração na espuma.
Cheguei e era o espaço, a suave inteligência
de um corpo. Eram pálpebras e lábios.
Era um pássaro, o pulsar de uma pedra, os dedos
como um sopro cálido, o vento nos cabelos.
Era leve a nudez e a frescura da sombra.
Nasci dormindo, sonhando, abrindo os olhos
num pleno descanso transparente. Conheci
a realidade completa do desejo, o diamante
da água. Voluptuosa, a folhagem estremecia.
Eu adormecia a teu lado como um puro esquecimento.
Tu erguias-te da penumbra vegetal. Uma mulher
nasce sem cessar. Tu ardias na aresta azul
do horizonte. Um pássaro cantava
no centro de uma árvore. Eu vibrava
numa terra imóvel, num país imenso.
Era uma ferida menor do que um suspiro.
Ondulava um campo, um luminoso mar.
Nada podia faltar porque as palavras o diziam.
Imediata era a sede, o coração na espuma.
Cheguei e era o espaço, a suave inteligência
de um corpo. Eram pálpebras e lábios.
Era um pássaro, o pulsar de uma pedra, os dedos
como um sopro cálido, o vento nos cabelos.
Era leve a nudez e a frescura da sombra.
Nasci dormindo, sonhando, abrindo os olhos
num pleno descanso transparente. Conheci
a realidade completa do desejo, o diamante
da água. Voluptuosa, a folhagem estremecia.
Eu adormecia a teu lado como um puro esquecimento.
Tu erguias-te da penumbra vegetal. Uma mulher
nasce sem cessar. Tu ardias na aresta azul
do horizonte. Um pássaro cantava
no centro de uma árvore. Eu vibrava
numa terra imóvel, num país imenso.
1 146
António Ramos Rosa
O Corpo Fugitivo
Avanço ou não avanço. Nada muda.
O fulgor de um animal furta-se aos sinais.
Violentos raios sinuosos, pulsações
de uma trama verde ilimitada.
Separar. Dizer. A noite cintilante.
O sopro incerto prepara um outro corpo
na deriva do fogo que corre em águas negras.
Vegetais se desenham as manchas mais escuras.
Em traços verticais compõe-se a transparência.
De uma frase a outra respiro o ar da ferida.
Membro a membro toco o corpo que inicio
no desejo de chegar ao vivo, num trabalho líquido.
É o mundo que se esvai, o corpo fugitivo,
todo o amor nos olhos claros se incendeia,
a altura arde, a nudez é imensa.
O fulgor de um animal furta-se aos sinais.
Violentos raios sinuosos, pulsações
de uma trama verde ilimitada.
Separar. Dizer. A noite cintilante.
O sopro incerto prepara um outro corpo
na deriva do fogo que corre em águas negras.
Vegetais se desenham as manchas mais escuras.
Em traços verticais compõe-se a transparência.
De uma frase a outra respiro o ar da ferida.
Membro a membro toco o corpo que inicio
no desejo de chegar ao vivo, num trabalho líquido.
É o mundo que se esvai, o corpo fugitivo,
todo o amor nos olhos claros se incendeia,
a altura arde, a nudez é imensa.
1 038
António Ramos Rosa
Fácil Escrever
Fácil escrever na inesperada leveza.
As mãos e as sombras numa folhagem única.
Portas acesas. Anéis ou astros.
As bocas seguem as alamedas sinuosas.
Multiplicam-se as luzes do teu vestido de ervas.
Uma cabeleira no flanco das colinas,
carícias deslumbradas, silenciosas folhas,
linhas de um corpo, linhas de um rio frágil e minúsculo,
corolas de veludo e barro, corolas de água.
Um gesto dissipa as letras, levanta o silêncio ágil.
Reflexos, raízes na água transparente,
monótonos caprichos de semelhanças leves.
Ao acaso libertam-se sombras mais profundas.
O olhar agora está ligado à terra.
Um animal levanta-se entre as pedras com as pedras.
As mãos e as sombras numa folhagem única.
Portas acesas. Anéis ou astros.
As bocas seguem as alamedas sinuosas.
Multiplicam-se as luzes do teu vestido de ervas.
Uma cabeleira no flanco das colinas,
carícias deslumbradas, silenciosas folhas,
linhas de um corpo, linhas de um rio frágil e minúsculo,
corolas de veludo e barro, corolas de água.
Um gesto dissipa as letras, levanta o silêncio ágil.
Reflexos, raízes na água transparente,
monótonos caprichos de semelhanças leves.
Ao acaso libertam-se sombras mais profundas.
O olhar agora está ligado à terra.
Um animal levanta-se entre as pedras com as pedras.
1 129
António Ramos Rosa
Mediadora Leve
De que suaves declives
ela desce, tão efémera
em sua fresca lucidez.
Imediata fluência
perfumada. Com um hálito
de espuma transparece
entre vertentes e vértices.
Não é mais que folha ou água.
Nada pesa e tudo queda
no seu círculo subtil:
cada vez mais leve o ar
entre a penumbra dos músculos.
Nada oculta sob as pedras
do vento. A claridade lisa.
O espaço escuta. Uma fábula
de calma profundidade.
Tão próxima sempre, aviva
o fulgor dos ângulos, o brilho
do pensamento das lâmpadas.
Rosa de um círculo latente.
Ninguém a espera e é esperada
no seu fluxo de inocência.
A densidade é mais leve.
Carne da luz e da alma.
Enquanto dura o seu estar
tudo é sossego e visão
ama-se a água na água.
Amam-se as veias da sombra.
ela desce, tão efémera
em sua fresca lucidez.
Imediata fluência
perfumada. Com um hálito
de espuma transparece
entre vertentes e vértices.
Não é mais que folha ou água.
Nada pesa e tudo queda
no seu círculo subtil:
cada vez mais leve o ar
entre a penumbra dos músculos.
Nada oculta sob as pedras
do vento. A claridade lisa.
O espaço escuta. Uma fábula
de calma profundidade.
Tão próxima sempre, aviva
o fulgor dos ângulos, o brilho
do pensamento das lâmpadas.
Rosa de um círculo latente.
Ninguém a espera e é esperada
no seu fluxo de inocência.
A densidade é mais leve.
Carne da luz e da alma.
Enquanto dura o seu estar
tudo é sossego e visão
ama-se a água na água.
Amam-se as veias da sombra.
1 132
António Ramos Rosa
Onde As Águas
Onde as águas se sublevam inesperadas, brancas
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
1 193
António Ramos Rosa
Quem Sabe Quem a Guia Através de Que Desvios
Quem sabe quem a guia através de que desvios
e que surpresas? Segue um traçado
que deveria conduzi-la ao ponto
de sentir-se ilimitada
Ela não decide nada neste momento
deixa-se levar enquanto corre o contínuo solo
do mundo Um modo não reflexivo
de participação Talvez não deixe
de nomear os acontecimentos que constroem o seu
itinerário Transições
Por mais longe que pareça de uma paisagem comum
há sempre silhuetas fachadas conhecidas
sobreposições pontos de referência
Estará ela no interior da sua história?
Não é ela o real antes da divisão
da consciência e do real? Ela busca reencontrar
uma parte sua visível e durável
e será a resposta parcial à pergunta
que formulei ao seu contacto.
Ela desvia-se sempre e detém-se em plena rua
é um sinal de assombro
uma unificação imediata e coerente
Mas o cansaço toma-a e ela afasta-se sempre
da sua história Não consegue jamais
captar a relação da sua existência
Por isso procura-se a si mesma continuamente
Quase sempre as suas palavras os seus actos
parecem convergir para uma unidade Mas logo
se descobrem sem tomar forma (será esquecimento
o esquecimento da sua fatalidade?)
Procura despertar para quem a compreender
Mas será sempre alheia aos outros
O que a determina talvez seja o desejo
da semelhança Mas para si mesma
é um enigma fugidio
que brilha e foge na transparência opaca
a surpresa viva entre todos os sinais
e que surpresas? Segue um traçado
que deveria conduzi-la ao ponto
de sentir-se ilimitada
Ela não decide nada neste momento
deixa-se levar enquanto corre o contínuo solo
do mundo Um modo não reflexivo
de participação Talvez não deixe
de nomear os acontecimentos que constroem o seu
itinerário Transições
Por mais longe que pareça de uma paisagem comum
há sempre silhuetas fachadas conhecidas
sobreposições pontos de referência
Estará ela no interior da sua história?
Não é ela o real antes da divisão
da consciência e do real? Ela busca reencontrar
uma parte sua visível e durável
e será a resposta parcial à pergunta
que formulei ao seu contacto.
Ela desvia-se sempre e detém-se em plena rua
é um sinal de assombro
uma unificação imediata e coerente
Mas o cansaço toma-a e ela afasta-se sempre
da sua história Não consegue jamais
captar a relação da sua existência
Por isso procura-se a si mesma continuamente
Quase sempre as suas palavras os seus actos
parecem convergir para uma unidade Mas logo
se descobrem sem tomar forma (será esquecimento
o esquecimento da sua fatalidade?)
Procura despertar para quem a compreender
Mas será sempre alheia aos outros
O que a determina talvez seja o desejo
da semelhança Mas para si mesma
é um enigma fugidio
que brilha e foge na transparência opaca
a surpresa viva entre todos os sinais
1 037
António Ramos Rosa
Quem Sabe Quem a Guia Através de Que Desvios
Quem sabe quem a guia através de que desvios
e que surpresas? Segue um traçado
que deveria conduzi-la ao ponto
de sentir-se ilimitada
Ela não decide nada neste momento
deixa-se levar enquanto corre o contínuo solo
do mundo Um modo não reflexivo
de participação Talvez não deixe
de nomear os acontecimentos que constroem o seu
itinerário Transições
Por mais longe que pareça de uma paisagem comum
há sempre silhuetas fachadas conhecidas
sobreposições pontos de referência
Estará ela no interior da sua história?
Não é ela o real antes da divisão
da consciência e do real? Ela busca reencontrar
uma parte sua visível e durável
e será a resposta parcial à pergunta
que formulei ao seu contacto.
Ela desvia-se sempre e detém-se em plena rua
é um sinal de assombro
uma unificação imediata e coerente
Mas o cansaço toma-a e ela afasta-se sempre
da sua história Não consegue jamais
captar a relação da sua existência
Por isso procura-se a si mesma continuamente
Quase sempre as suas palavras os seus actos
parecem convergir para uma unidade Mas logo
se descobrem sem tomar forma (será esquecimento
o esquecimento da sua fatalidade?)
Procura despertar para quem a compreender
Mas será sempre alheia aos outros
O que a determina talvez seja o desejo
da semelhança Mas para si mesma
é um enigma fugidio
que brilha e foge na transparência opaca
a surpresa viva entre todos os sinais
e que surpresas? Segue um traçado
que deveria conduzi-la ao ponto
de sentir-se ilimitada
Ela não decide nada neste momento
deixa-se levar enquanto corre o contínuo solo
do mundo Um modo não reflexivo
de participação Talvez não deixe
de nomear os acontecimentos que constroem o seu
itinerário Transições
Por mais longe que pareça de uma paisagem comum
há sempre silhuetas fachadas conhecidas
sobreposições pontos de referência
Estará ela no interior da sua história?
Não é ela o real antes da divisão
da consciência e do real? Ela busca reencontrar
uma parte sua visível e durável
e será a resposta parcial à pergunta
que formulei ao seu contacto.
Ela desvia-se sempre e detém-se em plena rua
é um sinal de assombro
uma unificação imediata e coerente
Mas o cansaço toma-a e ela afasta-se sempre
da sua história Não consegue jamais
captar a relação da sua existência
Por isso procura-se a si mesma continuamente
Quase sempre as suas palavras os seus actos
parecem convergir para uma unidade Mas logo
se descobrem sem tomar forma (será esquecimento
o esquecimento da sua fatalidade?)
Procura despertar para quem a compreender
Mas será sempre alheia aos outros
O que a determina talvez seja o desejo
da semelhança Mas para si mesma
é um enigma fugidio
que brilha e foge na transparência opaca
a surpresa viva entre todos os sinais
1 037
António Ramos Rosa
O Desejo do Início E do Silêncio
O desejo do início e do silêncio
para que o instante seja a fábula do instante
O silêncio para dizer as palavras anteriores
É o centro talvez a suspensão a perda
o fundo: a ausência de cor
fundo incessante que procuro defender
do assédio do sentido contra
as presenças acidentais e a agitação da superfície
Sigo-lhe a curva oculta até à interdição:
como transpor a parede circular
das coisas?
Lá fora a forma opaca
e provisória do ar as mesmas marcas
coloridas a distraída escrita
do acontecimento As pessoas passam
inscritas na janela com as casas e as árvores
e a árvore negra na curva, o céu oblíquo
Um olhar geral penetra-me e na ausência
de uma perspectiva já não sou
uma visão do mundo mas a subterrânea
corrente das intensidades do desejo
Aqui reina a imagem de um olho global
e é aqui que invento a metáfora da Figura
para que o instante seja a fábula do instante
O silêncio para dizer as palavras anteriores
É o centro talvez a suspensão a perda
o fundo: a ausência de cor
fundo incessante que procuro defender
do assédio do sentido contra
as presenças acidentais e a agitação da superfície
Sigo-lhe a curva oculta até à interdição:
como transpor a parede circular
das coisas?
Lá fora a forma opaca
e provisória do ar as mesmas marcas
coloridas a distraída escrita
do acontecimento As pessoas passam
inscritas na janela com as casas e as árvores
e a árvore negra na curva, o céu oblíquo
Um olhar geral penetra-me e na ausência
de uma perspectiva já não sou
uma visão do mundo mas a subterrânea
corrente das intensidades do desejo
Aqui reina a imagem de um olho global
e é aqui que invento a metáfora da Figura
1 005
António Ramos Rosa
Violenta Vaga E o Esquecimento Subsequente
Violenta vaga e o esquecimento subsequente
Violência que é preciso discernir
de cada vez que a Figura se mostra
(Ela não é mais que um tecido vermelho
impelido pelo vento)
É pela violência repetida que se pode conquistar
as marcas legíveis da sua presença aqui
A corrente repele-a Mas que dizer
da luz
que a fere dos cabelos flutuantes
Ela deixa-se arrastar responde apenas
por movimentos de superfície
aos reflexos que se afastam dela
Ela repele as semelhanças Tudo
se torna esplendor ou linhas negras
Vidraças brilhantes palavras
de metal e aquele olhar (temor?
consentimento?) antes da calma
O corpo liquefeito consumido
Água diferente em que penetro
para chegar ao esquecido rectângulo
que lhe cobre o peito a boca os olhos
Violência que é preciso discernir
de cada vez que a Figura se mostra
(Ela não é mais que um tecido vermelho
impelido pelo vento)
É pela violência repetida que se pode conquistar
as marcas legíveis da sua presença aqui
A corrente repele-a Mas que dizer
da luz
que a fere dos cabelos flutuantes
Ela deixa-se arrastar responde apenas
por movimentos de superfície
aos reflexos que se afastam dela
Ela repele as semelhanças Tudo
se torna esplendor ou linhas negras
Vidraças brilhantes palavras
de metal e aquele olhar (temor?
consentimento?) antes da calma
O corpo liquefeito consumido
Água diferente em que penetro
para chegar ao esquecido rectângulo
que lhe cobre o peito a boca os olhos
529
António Ramos Rosa
Violenta Vaga E o Esquecimento Subsequente
Violenta vaga e o esquecimento subsequente
Violência que é preciso discernir
de cada vez que a Figura se mostra
(Ela não é mais que um tecido vermelho
impelido pelo vento)
É pela violência repetida que se pode conquistar
as marcas legíveis da sua presença aqui
A corrente repele-a Mas que dizer
da luz
que a fere dos cabelos flutuantes
Ela deixa-se arrastar responde apenas
por movimentos de superfície
aos reflexos que se afastam dela
Ela repele as semelhanças Tudo
se torna esplendor ou linhas negras
Vidraças brilhantes palavras
de metal e aquele olhar (temor?
consentimento?) antes da calma
O corpo liquefeito consumido
Água diferente em que penetro
para chegar ao esquecido rectângulo
que lhe cobre o peito a boca os olhos
Violência que é preciso discernir
de cada vez que a Figura se mostra
(Ela não é mais que um tecido vermelho
impelido pelo vento)
É pela violência repetida que se pode conquistar
as marcas legíveis da sua presença aqui
A corrente repele-a Mas que dizer
da luz
que a fere dos cabelos flutuantes
Ela deixa-se arrastar responde apenas
por movimentos de superfície
aos reflexos que se afastam dela
Ela repele as semelhanças Tudo
se torna esplendor ou linhas negras
Vidraças brilhantes palavras
de metal e aquele olhar (temor?
consentimento?) antes da calma
O corpo liquefeito consumido
Água diferente em que penetro
para chegar ao esquecido rectângulo
que lhe cobre o peito a boca os olhos
529
António Ramos Rosa
Algo Se Precipita Ou Se Afasta
Algo se precipita ou se afasta
árvores que sobrevivem obscuras
não há ponte entre uma frase e outra
um cão vigia ou sonha no silêncio das ruas
no interior do texto
ela desloca-se
uma dupla superfície define o espaço
não há identidade entre o texto e a leitura
tudo é outro e outro
o que se repete é diferente e o diferente é o mesmo
Não é ainda o silêncio: espero pelas figuras
é antes um rumor o ruído de um organismo
um funcionamento obstinado e anónimo
eis a diferença a precária tensão que segrega o visível
Onde encontrar a figura senão nos interstícios
Ignoro se posso penetrar nessa zona proibida
Sei que alguém escreveu: «a impregnação de um sangue
oculto antes da ferida que abre a superfície»
A imagem aqui seria
a dança das figuras
Não se sabe ainda
a que fim se destinam tantos gestos lentos
palavras segregadas
frases inacabadas que se dirigem talvez a todos
olhares de súbito fixos
confundidos pelo mesmo desejo de uma semelhança
anónima e alheia
Não é a dança ainda
mas é como se fosse começar
árvores que sobrevivem obscuras
não há ponte entre uma frase e outra
um cão vigia ou sonha no silêncio das ruas
no interior do texto
ela desloca-se
uma dupla superfície define o espaço
não há identidade entre o texto e a leitura
tudo é outro e outro
o que se repete é diferente e o diferente é o mesmo
Não é ainda o silêncio: espero pelas figuras
é antes um rumor o ruído de um organismo
um funcionamento obstinado e anónimo
eis a diferença a precária tensão que segrega o visível
Onde encontrar a figura senão nos interstícios
Ignoro se posso penetrar nessa zona proibida
Sei que alguém escreveu: «a impregnação de um sangue
oculto antes da ferida que abre a superfície»
A imagem aqui seria
a dança das figuras
Não se sabe ainda
a que fim se destinam tantos gestos lentos
palavras segregadas
frases inacabadas que se dirigem talvez a todos
olhares de súbito fixos
confundidos pelo mesmo desejo de uma semelhança
anónima e alheia
Não é a dança ainda
mas é como se fosse começar
1 033
António Ramos Rosa
Mediadora do Espaço
Dedos abertos ao sopro,
imensamente terrestre,
clara desordem ao vento.
Descalça, muda os caminhos
na viva avidez do ar.
Abre um mundo inesperado
que se propaga num arco.
Perfuma as formas, aflora.
Alma instantânea, dilata
e levanta, sol na água,
água de sol, livre, livre,
como um lúcido relâmpago.
Feliz energia de nada
faz a casa por viver
musical na coincidência
de com o espaço o secreto.
Quantos vales em seu corpo
de campo azul e silêncio!
Ó contínua suavidade
tão imediata e profusa!
Que frescura de distância
tão real e oferecida!
Fúria fresca de estar viva.
O sim total do presente.
imensamente terrestre,
clara desordem ao vento.
Descalça, muda os caminhos
na viva avidez do ar.
Abre um mundo inesperado
que se propaga num arco.
Perfuma as formas, aflora.
Alma instantânea, dilata
e levanta, sol na água,
água de sol, livre, livre,
como um lúcido relâmpago.
Feliz energia de nada
faz a casa por viver
musical na coincidência
de com o espaço o secreto.
Quantos vales em seu corpo
de campo azul e silêncio!
Ó contínua suavidade
tão imediata e profusa!
Que frescura de distância
tão real e oferecida!
Fúria fresca de estar viva.
O sim total do presente.
550
António Ramos Rosa
Encontro No Vazio
Apenas uma luz ínfima num verde subterrâneo.
A textura mais secreta, o esplendor inerme.
Um corpo, um corpo ainda suavemente amoroso,
mas em ruínas, em cal, em transparência vazia.
Uma esfera partida em ombros e cabeças,
em volumes exíguos, em palavras esquecidas.
Tudo se perdeu no vazio, tudo se encontra no vazio.
Intacta é a matéria materna, a nocturna folhagem.
Fragilidade da montanha, aérea a brisa subterrânea.
Que idade recomeça no princípio da música?
Uma cálida cabeça ama as folhas de mercúrio
e sombra, a pausa harmoniosa, a linha de equilíbrio
e de repouso. Lentamente tudo se desloca
para uma luminosa boca de água e pedra.
Ó delicada pele, ó melodia nua do vazio!
A textura mais secreta, o esplendor inerme.
Um corpo, um corpo ainda suavemente amoroso,
mas em ruínas, em cal, em transparência vazia.
Uma esfera partida em ombros e cabeças,
em volumes exíguos, em palavras esquecidas.
Tudo se perdeu no vazio, tudo se encontra no vazio.
Intacta é a matéria materna, a nocturna folhagem.
Fragilidade da montanha, aérea a brisa subterrânea.
Que idade recomeça no princípio da música?
Uma cálida cabeça ama as folhas de mercúrio
e sombra, a pausa harmoniosa, a linha de equilíbrio
e de repouso. Lentamente tudo se desloca
para uma luminosa boca de água e pedra.
Ó delicada pele, ó melodia nua do vazio!
1 104
António Ramos Rosa
Mediadora Branca
Inacessível próxima
sim do vagar e de um cimo
magia de sempre e nunca
água que nasce da água
Branco jardim na noite
um acorde entre ruínas
de novo a beleza branca
a transparência do corpo
Continuamente desnuda
azulada inalcançada
nada acumula ou retém
no seu redondo horizonte
Que mensageira tu és
que só o branco revelas
inundas como se nada
em teus relâmpagos brancos
Presença feita de ausência
do silêncio estrela branca
em ti permanece o idêntico
sem miragens nem figura
Solitária e povoada
glória imóvel vigília
branco palácio do ar
balança sobre o vazio
Quieta de sílabas altas
fonte do espaço presença
tudo se apaga e exalta
em tua branca morada
Uma água de distância
flui em tuas largas veias
Magia íntima música
pureza metal brancura
Na pausa de um grande círculo
transpareces repentina
centro de ser incêndio liso
viva palavra da vida
sim do vagar e de um cimo
magia de sempre e nunca
água que nasce da água
Branco jardim na noite
um acorde entre ruínas
de novo a beleza branca
a transparência do corpo
Continuamente desnuda
azulada inalcançada
nada acumula ou retém
no seu redondo horizonte
Que mensageira tu és
que só o branco revelas
inundas como se nada
em teus relâmpagos brancos
Presença feita de ausência
do silêncio estrela branca
em ti permanece o idêntico
sem miragens nem figura
Solitária e povoada
glória imóvel vigília
branco palácio do ar
balança sobre o vazio
Quieta de sílabas altas
fonte do espaço presença
tudo se apaga e exalta
em tua branca morada
Uma água de distância
flui em tuas largas veias
Magia íntima música
pureza metal brancura
Na pausa de um grande círculo
transpareces repentina
centro de ser incêndio liso
viva palavra da vida
980
António Ramos Rosa
Uma Mão Vazia
Uma mão vazia que poderia ser, um deslize
que multiplicasse os arcos e as figuras
transparentes. Um sopro da paisagem, um erro
dilacerante e puro, um perfume, um segredo.
A vida ampliou-se sonâmbula sob o vento.
Ninguém divide o rio: evidências, enigmas,
libertam-se na folhagem em animais do ar.
Ó antigas ervas, amadurecidas pedras, cores
nunca sonhadas tão simples, ó lisa confiança!
Tão suave, tão imensa a onda nupcial!
Alguém escreve? Alguém saberá dizer as adivinhas
cintilantes, os murmúrios, as móveis manchas
de um só corpo liberto em clara confluência?
Nenhuma palavra diz a alegria do vento.
Esta é a terra nua da nossa identidade.
que multiplicasse os arcos e as figuras
transparentes. Um sopro da paisagem, um erro
dilacerante e puro, um perfume, um segredo.
A vida ampliou-se sonâmbula sob o vento.
Ninguém divide o rio: evidências, enigmas,
libertam-se na folhagem em animais do ar.
Ó antigas ervas, amadurecidas pedras, cores
nunca sonhadas tão simples, ó lisa confiança!
Tão suave, tão imensa a onda nupcial!
Alguém escreve? Alguém saberá dizer as adivinhas
cintilantes, os murmúrios, as móveis manchas
de um só corpo liberto em clara confluência?
Nenhuma palavra diz a alegria do vento.
Esta é a terra nua da nossa identidade.
1 113
António Ramos Rosa
Entre Pequenos Tumultos Brancos
Entre pequenos tumultos brancos, entre os cabelos do ar,
dentro de uma membrana verde, contra um peito redondo,
entre lâmpadas veladas, entre murmúrios do mar,
acaricio um corpo, uma árvore de argila,
ou a serpente do verão ou uma chama de vento.
A pedra pulsa no fundo, há uma escada que desce
para uma varanda branca. A terra volta a amanhecer
com a cabeça incendiada. Os barcos do vento
seguem entre as árvores, os armários do mar
soltam os seus pássaros verdes. Desperto transparente
e nu. Onde o abrigo? O abrigo do vento
é uma folha de vento. Quem se perde entre a folhagem,
entre as dunas, entre as ondas? Vou transformando a pedra
em bosque, vou abrindo os sulcos
das palavras em carícias de água libertada.
dentro de uma membrana verde, contra um peito redondo,
entre lâmpadas veladas, entre murmúrios do mar,
acaricio um corpo, uma árvore de argila,
ou a serpente do verão ou uma chama de vento.
A pedra pulsa no fundo, há uma escada que desce
para uma varanda branca. A terra volta a amanhecer
com a cabeça incendiada. Os barcos do vento
seguem entre as árvores, os armários do mar
soltam os seus pássaros verdes. Desperto transparente
e nu. Onde o abrigo? O abrigo do vento
é uma folha de vento. Quem se perde entre a folhagem,
entre as dunas, entre as ondas? Vou transformando a pedra
em bosque, vou abrindo os sulcos
das palavras em carícias de água libertada.
548
António Ramos Rosa
Vejo o Fogo
Vejo o fogo (os dedos e a sombra), vejo os caminhos,
a matéria das árvores. Bebo um rumor de abelhas.
Estou cego talvez, deslumbro-me, no deserto
sobre uma boca pura. Aqui durmo, aqui desenho
a felicidade da chama, as ondas e as pedras.
Na folhagem ascendo àquele poder intenso
que se deslumbra em delícia que roda até ao cimo.
O tempo doura o silêncio e a penumbra dos caminhos.
Entro por um país de minúcias transparentes.
Que é a distância agora? A perspectiva do gérmen.
Encontro-me no mundo, sou o ar que desce
alegre, o ar, o sol, o sangue. O corpo é tão feliz
que reina na extensão em transparência verde.
É o amor que bebe o fogo branco das colinas,
e que deslumbra e se deslumbra e acaricia e arde.
a matéria das árvores. Bebo um rumor de abelhas.
Estou cego talvez, deslumbro-me, no deserto
sobre uma boca pura. Aqui durmo, aqui desenho
a felicidade da chama, as ondas e as pedras.
Na folhagem ascendo àquele poder intenso
que se deslumbra em delícia que roda até ao cimo.
O tempo doura o silêncio e a penumbra dos caminhos.
Entro por um país de minúcias transparentes.
Que é a distância agora? A perspectiva do gérmen.
Encontro-me no mundo, sou o ar que desce
alegre, o ar, o sol, o sangue. O corpo é tão feliz
que reina na extensão em transparência verde.
É o amor que bebe o fogo branco das colinas,
e que deslumbra e se deslumbra e acaricia e arde.
1 003
António Ramos Rosa
Vejo o Fogo
Vejo o fogo (os dedos e a sombra), vejo os caminhos,
a matéria das árvores. Bebo um rumor de abelhas.
Estou cego talvez, deslumbro-me, no deserto
sobre uma boca pura. Aqui durmo, aqui desenho
a felicidade da chama, as ondas e as pedras.
Na folhagem ascendo àquele poder intenso
que se deslumbra em delícia que roda até ao cimo.
O tempo doura o silêncio e a penumbra dos caminhos.
Entro por um país de minúcias transparentes.
Que é a distância agora? A perspectiva do gérmen.
Encontro-me no mundo, sou o ar que desce
alegre, o ar, o sol, o sangue. O corpo é tão feliz
que reina na extensão em transparência verde.
É o amor que bebe o fogo branco das colinas,
e que deslumbra e se deslumbra e acaricia e arde.
a matéria das árvores. Bebo um rumor de abelhas.
Estou cego talvez, deslumbro-me, no deserto
sobre uma boca pura. Aqui durmo, aqui desenho
a felicidade da chama, as ondas e as pedras.
Na folhagem ascendo àquele poder intenso
que se deslumbra em delícia que roda até ao cimo.
O tempo doura o silêncio e a penumbra dos caminhos.
Entro por um país de minúcias transparentes.
Que é a distância agora? A perspectiva do gérmen.
Encontro-me no mundo, sou o ar que desce
alegre, o ar, o sol, o sangue. O corpo é tão feliz
que reina na extensão em transparência verde.
É o amor que bebe o fogo branco das colinas,
e que deslumbra e se deslumbra e acaricia e arde.
1 003
António Ramos Rosa
A Coisa Sem Nome
Um disco de uma negra densidade,
a coisa sem nome, irradiante embriaguez.
Terei tocado a sombra, a sequiosa luz?
Vibro no vazio do vento, vivo com as pedras,
em ondas oscilantes, entre pequenas ilhas.
Uma coisa germina, volúvel, subtil,
da guerra silenciosa à silenciosa música.
Um tranquilo relâmpago, um gesto da paisagem.
Ainda não um nome. Uma dança. Um desenho.
Uma poeira de ferrugem na água transparente.
Este é o lugar do meu desejo, na leveza
de uma estrela. O obscuro liberta-se em miríades
fosforescentes. As linhas cantam ao primeiro álcool
da respiração. O corpo completa-se
no vermelho sono de uma vibrante folha.
Aniquilado, vagaroso rosto, que se forma no centro
da folha inicial. As pedras ouvem, o arbusto vê.
O mar, não uma lâmpada, acende a mão deserta.
Ninguém separa já a palavra dos meus dedos.
A presença é o esquecimento no seio do abandono.
a coisa sem nome, irradiante embriaguez.
Terei tocado a sombra, a sequiosa luz?
Vibro no vazio do vento, vivo com as pedras,
em ondas oscilantes, entre pequenas ilhas.
Uma coisa germina, volúvel, subtil,
da guerra silenciosa à silenciosa música.
Um tranquilo relâmpago, um gesto da paisagem.
Ainda não um nome. Uma dança. Um desenho.
Uma poeira de ferrugem na água transparente.
Este é o lugar do meu desejo, na leveza
de uma estrela. O obscuro liberta-se em miríades
fosforescentes. As linhas cantam ao primeiro álcool
da respiração. O corpo completa-se
no vermelho sono de uma vibrante folha.
Aniquilado, vagaroso rosto, que se forma no centro
da folha inicial. As pedras ouvem, o arbusto vê.
O mar, não uma lâmpada, acende a mão deserta.
Ninguém separa já a palavra dos meus dedos.
A presença é o esquecimento no seio do abandono.
1 159
António Ramos Rosa
Reconhecê-La É Feri-La Travejá-La
Reconhecê-la é feri-la Travejá-la
na pauta rígida transformá-la
em palavras e madeira em arvoredo à chuva
Aqui a violência lúcida penetra
no corpo fugidio que é já outro reflexo
e trabalha esse fragmento de vida errante
Não como um objecto tudo na água flui
e a rigidez articula-se em dicção metálica
Pedra é esse corpo o seu corpo marinho
mas também é água e vento nos meus dedos
Pedaço a pedaço desfibro um reflexo vivo
para construir um virtual fluxo ou linhas negras
Quem revolve a terra e nela acha um insecto
terá este prazer de inventar os cabelos
ao sol do muro alto na folhagem!
Maltrato-te Figura que foste imagem
corrente desabrida no frio de um outro mês
e dou-te as inflexões das sílabas do tempo
com a paciência dos dedos e dos dentes
para que neste exercício da paixão acordes nua
na pauta rígida transformá-la
em palavras e madeira em arvoredo à chuva
Aqui a violência lúcida penetra
no corpo fugidio que é já outro reflexo
e trabalha esse fragmento de vida errante
Não como um objecto tudo na água flui
e a rigidez articula-se em dicção metálica
Pedra é esse corpo o seu corpo marinho
mas também é água e vento nos meus dedos
Pedaço a pedaço desfibro um reflexo vivo
para construir um virtual fluxo ou linhas negras
Quem revolve a terra e nela acha um insecto
terá este prazer de inventar os cabelos
ao sol do muro alto na folhagem!
Maltrato-te Figura que foste imagem
corrente desabrida no frio de um outro mês
e dou-te as inflexões das sílabas do tempo
com a paciência dos dedos e dos dentes
para que neste exercício da paixão acordes nua
995
António Ramos Rosa
Fronteiras Não Fronteiras
As fronteiras são estas não fronteiras.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas
e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.
O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas
e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.
O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
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