Poemas neste tema
Vida e Existência
Edmir Domingues
O espelho retrovisor
Vejo o presente de há pouco
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.
Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.
Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?
Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.
O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.
Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.
Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?
Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.
O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
844
Edmir Domingues
O espelho retrovisor
Vejo o presente de há pouco
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.
Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.
Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?
Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.
O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.
Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.
Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?
Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.
O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
844
Edmir Domingues
Do sal aos tabuleiros de xadrez
Percamo-nos no sal que o sal nos vest
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.
E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.
Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.
Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.
E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.
Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.
Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
685
Edmir Domingues
Do sal aos tabuleiros de xadrez
Percamo-nos no sal que o sal nos vest
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.
E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.
Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.
Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.
E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.
Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.
Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
685
Edmir Domingues
A bailarina dos sapatinhos de Andersen
De rua ou palco em sombras surge a imagem
que à festa das imagens comparece,
ao passo que por trás aranha tece
a teia complemento a essa paisagem
distante. Após, nos fumos, aparece
vestindo a prata e o cinza o estranho pajem
que a nós nos pareceu quase selvagem
se os sapatos vermelhos oferece.
E houve dança e houve morte, e morte e dança!
Enfim uma apatia suave e mansa
resposta a impulso de invisíveis molas.
E nós que fomos olhos, nunca passos,
desfizemos calores e cansaços
nos leques vegetais das castanholas.
que à festa das imagens comparece,
ao passo que por trás aranha tece
a teia complemento a essa paisagem
distante. Após, nos fumos, aparece
vestindo a prata e o cinza o estranho pajem
que a nós nos pareceu quase selvagem
se os sapatos vermelhos oferece.
E houve dança e houve morte, e morte e dança!
Enfim uma apatia suave e mansa
resposta a impulso de invisíveis molas.
E nós que fomos olhos, nunca passos,
desfizemos calores e cansaços
nos leques vegetais das castanholas.
630
Edmir Domingues
soneto II - Nunca mais
Nunca mais o ente amado em doce veste
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
653
Edmir Domingues
soneto II - Nunca mais
Nunca mais o ente amado em doce veste
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
653
Edmir Domingues
Memória de amor
Um grande amor resiste aos sofrimentos
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
711
Edmir Domingues
Memória de amor
Um grande amor resiste aos sofrimentos
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
711
Edmir Domingues
Fala às flores e aos ventos
Flor de cristal, nascida para o assombro
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.
Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.
Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.
Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.
Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.
Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.
Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.
Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.
Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.
Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.
Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.
Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.
Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.
Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.
Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.
Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.
Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
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Edmir Domingues
Fala às flores e aos ventos
Flor de cristal, nascida para o assombro
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.
Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.
Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.
Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.
Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.
Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.
Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.
Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.
Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.
Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.
Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.
Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.
Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.
Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.
Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.
Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.
Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
695
Edmir Domingues
soneto V - Os loucos e eu somente
Quero os loucos somente, que as crianças
já não são mais ternura e ingenuidade,
e em loucos, neles só, terão reflexos
meus desejos que vêm de infância antiga.
E seremos na sombra as borboletas
de uma sombra maior, de um mundo morto,
mundo em que ardem de febre e enfermidade
os que brincam de roda na calçada.
Comporemos, os loucos e eu somente,
castelos sobre céus abandonados
e um carnaval de lâmpadas mortiças.
E à noite, quando houver faltado o azeite,
cantaremos canções, canções tão lúcidas
que alguns nem saberão que somos loucos.
já não são mais ternura e ingenuidade,
e em loucos, neles só, terão reflexos
meus desejos que vêm de infância antiga.
E seremos na sombra as borboletas
de uma sombra maior, de um mundo morto,
mundo em que ardem de febre e enfermidade
os que brincam de roda na calçada.
Comporemos, os loucos e eu somente,
castelos sobre céus abandonados
e um carnaval de lâmpadas mortiças.
E à noite, quando houver faltado o azeite,
cantaremos canções, canções tão lúcidas
que alguns nem saberão que somos loucos.
653
Edmir Domingues
Pela paz de maio e junho
Posto que estava maio, e resolvido
que nos idos, em grupo, tornaríamos
às fáculas antigas, quando estavam
quanto mais velhas tanto mais acesas,
assim fomos e vimos. Era o tempo
doutra luz, essa que se tem mais forte,
presa na carne e no osso e resguardada
pelas fronteiras rígidas da sombra.
Nas citadas planícies nos perdemos
e era mais que do tato um só caminho
para este externo mundo que nos guarda.
Por elas compreendemos do sentido.
E soubemos que apenas tênues rosas
têm fundações mais fortes do que pedra,
que mais que pedras vale, compreendemos,
a força enclausurada nas raízes
Então fomos ficados neste campo
de teto e espaço e fumo que nos cobre,
porquanto que o soubemos mais seguro
e que os mundos alheios valem menos
visto que em muito grandes são fundados
em brancos alicerces de fumaça.
Considerado o mar, nós nos despimos
do marítimo traje com que estavam
corpos ao sol e à chuva resguardados.
Se era o mar fabricado em movimento
que lhe dá toda a essência e qualidade,
para restarmos todos sobre o verde
e o vermelho do chão que nos ampara.
Que a nossa inconsistência será sempre
o mais caro de nós, ficamos crendo.
Repousa um tédio imenso na certeza.
E então faz-se de bem que a não tenhamos
senão essa de pouca com que temos
que o vermelho do piso, mais o verde,
nos serão toda a paz ambicionada
Que as fáculas não faltem, de resina,
e os limites da sombra estejam longe,
para que seja a paz feita possível
longe das rosas flácidas de estanho,
que essas não têm raízes, e repousa
nas raízes a força do que vive,
ou se têm, ai, são brancas, ai, são tênues,
visto serem construídas de fumaça.
- Seremos vegetais em verde e rubro
nas calendas de junho que vem vindo.
que nos idos, em grupo, tornaríamos
às fáculas antigas, quando estavam
quanto mais velhas tanto mais acesas,
assim fomos e vimos. Era o tempo
doutra luz, essa que se tem mais forte,
presa na carne e no osso e resguardada
pelas fronteiras rígidas da sombra.
Nas citadas planícies nos perdemos
e era mais que do tato um só caminho
para este externo mundo que nos guarda.
Por elas compreendemos do sentido.
E soubemos que apenas tênues rosas
têm fundações mais fortes do que pedra,
que mais que pedras vale, compreendemos,
a força enclausurada nas raízes
Então fomos ficados neste campo
de teto e espaço e fumo que nos cobre,
porquanto que o soubemos mais seguro
e que os mundos alheios valem menos
visto que em muito grandes são fundados
em brancos alicerces de fumaça.
Considerado o mar, nós nos despimos
do marítimo traje com que estavam
corpos ao sol e à chuva resguardados.
Se era o mar fabricado em movimento
que lhe dá toda a essência e qualidade,
para restarmos todos sobre o verde
e o vermelho do chão que nos ampara.
Que a nossa inconsistência será sempre
o mais caro de nós, ficamos crendo.
Repousa um tédio imenso na certeza.
E então faz-se de bem que a não tenhamos
senão essa de pouca com que temos
que o vermelho do piso, mais o verde,
nos serão toda a paz ambicionada
Que as fáculas não faltem, de resina,
e os limites da sombra estejam longe,
para que seja a paz feita possível
longe das rosas flácidas de estanho,
que essas não têm raízes, e repousa
nas raízes a força do que vive,
ou se têm, ai, são brancas, ai, são tênues,
visto serem construídas de fumaça.
- Seremos vegetais em verde e rubro
nas calendas de junho que vem vindo.
602
Edmir Domingues
Mãos e telhados
Dos profundos azuis as mãos renascem
para a dança dos gestos costumeiros
(com pedaços de cinza atrás dos dedos)
para o reino esgotado das palavras
marcadas pela humana insuficiência.
Renascem, cada dia envelhecidas,
para os perfeitos cubos de silêncio
que repousam cobertos de vermelho,
quando, apesar de mãos, se desejassem
telhados feitos verdes liquescências,
do mar prolongamento muito nosso
como se verde e líquido os houvera.
Pouca verdade em nossas mãos repousa
e em tanto verde as nossas mãos tocaram,
que fica um sentimento de ternura
e a muda compreensão que se acalenta
de que somente o falso em que tocamos
vida nos fora em forma de alimento.
Daí, que as mãos em gesto se resumam
nada mais que do gesto se precise,
até que a chuva desça, e o tempo chegue,
enfim, de mergulhá-las se careça,
nos maduros trigais de quando os haja
para a carícia morna das espigas.
Porquanto, às vezes noite, se realiza
compreensão de telhados nunca verdes,
sentido de que são vermelho-vivos
para que não se integrem na paisagem.
para a dança dos gestos costumeiros
(com pedaços de cinza atrás dos dedos)
para o reino esgotado das palavras
marcadas pela humana insuficiência.
Renascem, cada dia envelhecidas,
para os perfeitos cubos de silêncio
que repousam cobertos de vermelho,
quando, apesar de mãos, se desejassem
telhados feitos verdes liquescências,
do mar prolongamento muito nosso
como se verde e líquido os houvera.
Pouca verdade em nossas mãos repousa
e em tanto verde as nossas mãos tocaram,
que fica um sentimento de ternura
e a muda compreensão que se acalenta
de que somente o falso em que tocamos
vida nos fora em forma de alimento.
Daí, que as mãos em gesto se resumam
nada mais que do gesto se precise,
até que a chuva desça, e o tempo chegue,
enfim, de mergulhá-las se careça,
nos maduros trigais de quando os haja
para a carícia morna das espigas.
Porquanto, às vezes noite, se realiza
compreensão de telhados nunca verdes,
sentido de que são vermelho-vivos
para que não se integrem na paisagem.
716
Edmir Domingues
Mãos e telhados
Dos profundos azuis as mãos renascem
para a dança dos gestos costumeiros
(com pedaços de cinza atrás dos dedos)
para o reino esgotado das palavras
marcadas pela humana insuficiência.
Renascem, cada dia envelhecidas,
para os perfeitos cubos de silêncio
que repousam cobertos de vermelho,
quando, apesar de mãos, se desejassem
telhados feitos verdes liquescências,
do mar prolongamento muito nosso
como se verde e líquido os houvera.
Pouca verdade em nossas mãos repousa
e em tanto verde as nossas mãos tocaram,
que fica um sentimento de ternura
e a muda compreensão que se acalenta
de que somente o falso em que tocamos
vida nos fora em forma de alimento.
Daí, que as mãos em gesto se resumam
nada mais que do gesto se precise,
até que a chuva desça, e o tempo chegue,
enfim, de mergulhá-las se careça,
nos maduros trigais de quando os haja
para a carícia morna das espigas.
Porquanto, às vezes noite, se realiza
compreensão de telhados nunca verdes,
sentido de que são vermelho-vivos
para que não se integrem na paisagem.
para a dança dos gestos costumeiros
(com pedaços de cinza atrás dos dedos)
para o reino esgotado das palavras
marcadas pela humana insuficiência.
Renascem, cada dia envelhecidas,
para os perfeitos cubos de silêncio
que repousam cobertos de vermelho,
quando, apesar de mãos, se desejassem
telhados feitos verdes liquescências,
do mar prolongamento muito nosso
como se verde e líquido os houvera.
Pouca verdade em nossas mãos repousa
e em tanto verde as nossas mãos tocaram,
que fica um sentimento de ternura
e a muda compreensão que se acalenta
de que somente o falso em que tocamos
vida nos fora em forma de alimento.
Daí, que as mãos em gesto se resumam
nada mais que do gesto se precise,
até que a chuva desça, e o tempo chegue,
enfim, de mergulhá-las se careça,
nos maduros trigais de quando os haja
para a carícia morna das espigas.
Porquanto, às vezes noite, se realiza
compreensão de telhados nunca verdes,
sentido de que são vermelho-vivos
para que não se integrem na paisagem.
716
Edmir Domingues
Que criança é esta?...
Que criança é esta criança
coberta de palha e luz,
dormindo tranquilamente
entre o barulho dos tiros,
entre o rugido das feras,
entre o pânico dos homens?
Que criança é esta criança
que dorme entre o burro e o boi
mas dorme tão docemente
(entre o pânico dos homens)
que não percebe que a estrela
dos magos da lenda antiga
se encontra agora mudada
no céu que cobre o presépio
por um satélite plástico?
Por que não vêm reis modernos,
reis do aço, reis do petróleo,
nos seus carros de mansinho
olhar de perto o menino?
Também como os reis do oriente
eis que seriam tocados
por essa paz que o menino
por sobre o mundo irradia.
Nós também, ah, se nós fôramos
repetição do menino,
mesmo no mundo da angústia,
no mundo do desamor,
entre o pânico dos homens
dormiríamos tranquilos
um sono como esse sono.
Ó vós que olhais o presépio
pelos olhos da ternura
e tendes amor e paz,
neste mundo amargo e frio
que tudo a nada reduz
olhai os filhos dos pobres.
Que foi um filho de pobres
nosso menino de luz.
coberta de palha e luz,
dormindo tranquilamente
entre o barulho dos tiros,
entre o rugido das feras,
entre o pânico dos homens?
Que criança é esta criança
que dorme entre o burro e o boi
mas dorme tão docemente
(entre o pânico dos homens)
que não percebe que a estrela
dos magos da lenda antiga
se encontra agora mudada
no céu que cobre o presépio
por um satélite plástico?
Por que não vêm reis modernos,
reis do aço, reis do petróleo,
nos seus carros de mansinho
olhar de perto o menino?
Também como os reis do oriente
eis que seriam tocados
por essa paz que o menino
por sobre o mundo irradia.
Nós também, ah, se nós fôramos
repetição do menino,
mesmo no mundo da angústia,
no mundo do desamor,
entre o pânico dos homens
dormiríamos tranquilos
um sono como esse sono.
Ó vós que olhais o presépio
pelos olhos da ternura
e tendes amor e paz,
neste mundo amargo e frio
que tudo a nada reduz
olhai os filhos dos pobres.
Que foi um filho de pobres
nosso menino de luz.
1 043
Edmir Domingues
Que criança é esta?...
Que criança é esta criança
coberta de palha e luz,
dormindo tranquilamente
entre o barulho dos tiros,
entre o rugido das feras,
entre o pânico dos homens?
Que criança é esta criança
que dorme entre o burro e o boi
mas dorme tão docemente
(entre o pânico dos homens)
que não percebe que a estrela
dos magos da lenda antiga
se encontra agora mudada
no céu que cobre o presépio
por um satélite plástico?
Por que não vêm reis modernos,
reis do aço, reis do petróleo,
nos seus carros de mansinho
olhar de perto o menino?
Também como os reis do oriente
eis que seriam tocados
por essa paz que o menino
por sobre o mundo irradia.
Nós também, ah, se nós fôramos
repetição do menino,
mesmo no mundo da angústia,
no mundo do desamor,
entre o pânico dos homens
dormiríamos tranquilos
um sono como esse sono.
Ó vós que olhais o presépio
pelos olhos da ternura
e tendes amor e paz,
neste mundo amargo e frio
que tudo a nada reduz
olhai os filhos dos pobres.
Que foi um filho de pobres
nosso menino de luz.
coberta de palha e luz,
dormindo tranquilamente
entre o barulho dos tiros,
entre o rugido das feras,
entre o pânico dos homens?
Que criança é esta criança
que dorme entre o burro e o boi
mas dorme tão docemente
(entre o pânico dos homens)
que não percebe que a estrela
dos magos da lenda antiga
se encontra agora mudada
no céu que cobre o presépio
por um satélite plástico?
Por que não vêm reis modernos,
reis do aço, reis do petróleo,
nos seus carros de mansinho
olhar de perto o menino?
Também como os reis do oriente
eis que seriam tocados
por essa paz que o menino
por sobre o mundo irradia.
Nós também, ah, se nós fôramos
repetição do menino,
mesmo no mundo da angústia,
no mundo do desamor,
entre o pânico dos homens
dormiríamos tranquilos
um sono como esse sono.
Ó vós que olhais o presépio
pelos olhos da ternura
e tendes amor e paz,
neste mundo amargo e frio
que tudo a nada reduz
olhai os filhos dos pobres.
Que foi um filho de pobres
nosso menino de luz.
1 043
Edmir Domingues
Elegia aos céus de Maralinga
Outrora em Maralinga as águas mansas
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.
Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.
Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,
bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.
Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.
Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,
bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
684
Edmir Domingues
Pela paz de maio e junho
Posto que estava maio, e resolvido
que nos idos, em grupo, tornaríamos
às fáculas antigas, quando estavam
quanto mais velhas tanto mais acesas,
assim fomos e vimos. Era o tempo
doutra luz, essa que se tem mais forte,
presa na carne e no osso e resguardada
pelas fronteiras rígidas da sombra.
Nas citadas planícies nos perdemos
e era mais que do tato um só caminho
para este externo mundo que nos guarda.
Por elas compreendemos do sentido.
E soubemos que apenas tênues rosas
têm fundações mais fortes do que pedra,
que mais que pedras vale, compreendemos,
a força enclausurada nas raízes
Então fomos ficados neste campo
de teto e espaço e fumo que nos cobre,
porquanto que o soubemos mais seguro
e que os mundos alheios valem menos
visto que em muito grandes são fundados
em brancos alicerces de fumaça.
Considerado o mar, nós nos despimos
do marítimo traje com que estavam
corpos ao sol e à chuva resguardados.
Se era o mar fabricado em movimento
que lhe dá toda a essência e qualidade,
para restarmos todos sobre o verde
e o vermelho do chão que nos ampara.
Que a nossa inconsistência será sempre
o mais caro de nós, ficamos crendo.
Repousa um tédio imenso na certeza.
E então faz-se de bem que a não tenhamos
senão essa de pouca com que temos
que o vermelho do piso, mais o verde,
nos serão toda a paz ambicionada
Que as fáculas não faltem, de resina,
e os limites da sombra estejam longe,
para que seja a paz feita possível
longe das rosas flácidas de estanho,
que essas não têm raízes, e repousa
nas raízes a força do que vive,
ou se têm, ai, são brancas, ai, são tênues,
visto serem construídas de fumaça.
- Seremos vegetais em verde e rubro
nas calendas de junho que vem vindo.
que nos idos, em grupo, tornaríamos
às fáculas antigas, quando estavam
quanto mais velhas tanto mais acesas,
assim fomos e vimos. Era o tempo
doutra luz, essa que se tem mais forte,
presa na carne e no osso e resguardada
pelas fronteiras rígidas da sombra.
Nas citadas planícies nos perdemos
e era mais que do tato um só caminho
para este externo mundo que nos guarda.
Por elas compreendemos do sentido.
E soubemos que apenas tênues rosas
têm fundações mais fortes do que pedra,
que mais que pedras vale, compreendemos,
a força enclausurada nas raízes
Então fomos ficados neste campo
de teto e espaço e fumo que nos cobre,
porquanto que o soubemos mais seguro
e que os mundos alheios valem menos
visto que em muito grandes são fundados
em brancos alicerces de fumaça.
Considerado o mar, nós nos despimos
do marítimo traje com que estavam
corpos ao sol e à chuva resguardados.
Se era o mar fabricado em movimento
que lhe dá toda a essência e qualidade,
para restarmos todos sobre o verde
e o vermelho do chão que nos ampara.
Que a nossa inconsistência será sempre
o mais caro de nós, ficamos crendo.
Repousa um tédio imenso na certeza.
E então faz-se de bem que a não tenhamos
senão essa de pouca com que temos
que o vermelho do piso, mais o verde,
nos serão toda a paz ambicionada
Que as fáculas não faltem, de resina,
e os limites da sombra estejam longe,
para que seja a paz feita possível
longe das rosas flácidas de estanho,
que essas não têm raízes, e repousa
nas raízes a força do que vive,
ou se têm, ai, são brancas, ai, são tênues,
visto serem construídas de fumaça.
- Seremos vegetais em verde e rubro
nas calendas de junho que vem vindo.
591
Edmir Domingues
O abandono do campo, horto e casa
Por fim sopraram forte os favoráveis
sem que houvera o holocausto e o sacrifício,
e dormiam no porto os mastros todos
entre palpitações tanto mais grandes
quanto o tempo era grande aos olhos nossos
em que de favoráveis não sopravam.
E havia, e era sabido, entre os anseios
o da busca do amor que era o mistério,
crido de repousado na distância
que abraço pelo mar faria em nada
porquanto destruiria o movimento
sentido e essência e forma e qualidade.
Donde parto à aventura nestes trajes
(levando o barco e a noite sobre os ombros)
quando ficar devera nesta areia
onde resido e morro a pouco e pouco,
que a morte vez por outra nos visita
e a qual de cinza cobre os meus cabelos.
Fomos nados aqui, nestas paragens
de muitas sugestões e muitas águas,
donde o sentido mítico que damos
aos fumos deste mar, que nos rodeiam,
que por trás das palavras sempre fomos
o espírito pairando sobre as águas.
Mas dorme qualquer coisa de repulsa
ao mundo das areias e dos gessos
nos meus olhos marinhos e atrevidos.
Faz-se mister que parta àquelas vivas
na superfície líquida das noites.
Tomo apenas do pouso os instrumentos
que inúteis se farão, que os outros deixo,
de bússolas não quero por que seja
a esperada aventura mais completa,
não havendo o sabor da residência
e outro serei, por novo e irrevelado.
Nos ventos que hão levar-me, eis-me nascido
nova flor para o espanto dos presentes,
entre nuvens gerada, leve e oculta,
cultivada na frieza dos asfaltos,
que ao mar se faz, de noite, em barco a vela,
se há liberado à luz da madrugada
os soturnos galés que eram nos remos
Parte-se e é tudo, e nada mais se diga
senão que é noite e os gêmeos peregrinam.
Pela poesia parte-se de noite
que é sabido que há séculos imensos
dormem na sombra as asas do mistério.
A noite ê cúmplice, em silêncio e sombra,
com as clandestinas idas sobre os buquês
das perdulárias mãos que vão deixando
o seu campo, horto e casa, e os bens que tinham.
sem que houvera o holocausto e o sacrifício,
e dormiam no porto os mastros todos
entre palpitações tanto mais grandes
quanto o tempo era grande aos olhos nossos
em que de favoráveis não sopravam.
E havia, e era sabido, entre os anseios
o da busca do amor que era o mistério,
crido de repousado na distância
que abraço pelo mar faria em nada
porquanto destruiria o movimento
sentido e essência e forma e qualidade.
Donde parto à aventura nestes trajes
(levando o barco e a noite sobre os ombros)
quando ficar devera nesta areia
onde resido e morro a pouco e pouco,
que a morte vez por outra nos visita
e a qual de cinza cobre os meus cabelos.
Fomos nados aqui, nestas paragens
de muitas sugestões e muitas águas,
donde o sentido mítico que damos
aos fumos deste mar, que nos rodeiam,
que por trás das palavras sempre fomos
o espírito pairando sobre as águas.
Mas dorme qualquer coisa de repulsa
ao mundo das areias e dos gessos
nos meus olhos marinhos e atrevidos.
Faz-se mister que parta àquelas vivas
na superfície líquida das noites.
Tomo apenas do pouso os instrumentos
que inúteis se farão, que os outros deixo,
de bússolas não quero por que seja
a esperada aventura mais completa,
não havendo o sabor da residência
e outro serei, por novo e irrevelado.
Nos ventos que hão levar-me, eis-me nascido
nova flor para o espanto dos presentes,
entre nuvens gerada, leve e oculta,
cultivada na frieza dos asfaltos,
que ao mar se faz, de noite, em barco a vela,
se há liberado à luz da madrugada
os soturnos galés que eram nos remos
Parte-se e é tudo, e nada mais se diga
senão que é noite e os gêmeos peregrinam.
Pela poesia parte-se de noite
que é sabido que há séculos imensos
dormem na sombra as asas do mistério.
A noite ê cúmplice, em silêncio e sombra,
com as clandestinas idas sobre os buquês
das perdulárias mãos que vão deixando
o seu campo, horto e casa, e os bens que tinham.
730
Edmir Domingues
O abandono do campo, horto e casa
Por fim sopraram forte os favoráveis
sem que houvera o holocausto e o sacrifício,
e dormiam no porto os mastros todos
entre palpitações tanto mais grandes
quanto o tempo era grande aos olhos nossos
em que de favoráveis não sopravam.
E havia, e era sabido, entre os anseios
o da busca do amor que era o mistério,
crido de repousado na distância
que abraço pelo mar faria em nada
porquanto destruiria o movimento
sentido e essência e forma e qualidade.
Donde parto à aventura nestes trajes
(levando o barco e a noite sobre os ombros)
quando ficar devera nesta areia
onde resido e morro a pouco e pouco,
que a morte vez por outra nos visita
e a qual de cinza cobre os meus cabelos.
Fomos nados aqui, nestas paragens
de muitas sugestões e muitas águas,
donde o sentido mítico que damos
aos fumos deste mar, que nos rodeiam,
que por trás das palavras sempre fomos
o espírito pairando sobre as águas.
Mas dorme qualquer coisa de repulsa
ao mundo das areias e dos gessos
nos meus olhos marinhos e atrevidos.
Faz-se mister que parta àquelas vivas
na superfície líquida das noites.
Tomo apenas do pouso os instrumentos
que inúteis se farão, que os outros deixo,
de bússolas não quero por que seja
a esperada aventura mais completa,
não havendo o sabor da residência
e outro serei, por novo e irrevelado.
Nos ventos que hão levar-me, eis-me nascido
nova flor para o espanto dos presentes,
entre nuvens gerada, leve e oculta,
cultivada na frieza dos asfaltos,
que ao mar se faz, de noite, em barco a vela,
se há liberado à luz da madrugada
os soturnos galés que eram nos remos
Parte-se e é tudo, e nada mais se diga
senão que é noite e os gêmeos peregrinam.
Pela poesia parte-se de noite
que é sabido que há séculos imensos
dormem na sombra as asas do mistério.
A noite ê cúmplice, em silêncio e sombra,
com as clandestinas idas sobre os buquês
das perdulárias mãos que vão deixando
o seu campo, horto e casa, e os bens que tinham.
sem que houvera o holocausto e o sacrifício,
e dormiam no porto os mastros todos
entre palpitações tanto mais grandes
quanto o tempo era grande aos olhos nossos
em que de favoráveis não sopravam.
E havia, e era sabido, entre os anseios
o da busca do amor que era o mistério,
crido de repousado na distância
que abraço pelo mar faria em nada
porquanto destruiria o movimento
sentido e essência e forma e qualidade.
Donde parto à aventura nestes trajes
(levando o barco e a noite sobre os ombros)
quando ficar devera nesta areia
onde resido e morro a pouco e pouco,
que a morte vez por outra nos visita
e a qual de cinza cobre os meus cabelos.
Fomos nados aqui, nestas paragens
de muitas sugestões e muitas águas,
donde o sentido mítico que damos
aos fumos deste mar, que nos rodeiam,
que por trás das palavras sempre fomos
o espírito pairando sobre as águas.
Mas dorme qualquer coisa de repulsa
ao mundo das areias e dos gessos
nos meus olhos marinhos e atrevidos.
Faz-se mister que parta àquelas vivas
na superfície líquida das noites.
Tomo apenas do pouso os instrumentos
que inúteis se farão, que os outros deixo,
de bússolas não quero por que seja
a esperada aventura mais completa,
não havendo o sabor da residência
e outro serei, por novo e irrevelado.
Nos ventos que hão levar-me, eis-me nascido
nova flor para o espanto dos presentes,
entre nuvens gerada, leve e oculta,
cultivada na frieza dos asfaltos,
que ao mar se faz, de noite, em barco a vela,
se há liberado à luz da madrugada
os soturnos galés que eram nos remos
Parte-se e é tudo, e nada mais se diga
senão que é noite e os gêmeos peregrinam.
Pela poesia parte-se de noite
que é sabido que há séculos imensos
dormem na sombra as asas do mistério.
A noite ê cúmplice, em silêncio e sombra,
com as clandestinas idas sobre os buquês
das perdulárias mãos que vão deixando
o seu campo, horto e casa, e os bens que tinham.
730
Edmir Domingues
O planetóide
Herdei um planetóide
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.
A mim um planetóide
como único legado.
Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.
Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.
Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.
Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.
A mim um planetóide
como único legado.
Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.
Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.
Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.
Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
296
Edmir Domingues
O planetóide
Herdei um planetóide
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.
A mim um planetóide
como único legado.
Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.
Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.
Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.
Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.
A mim um planetóide
como único legado.
Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.
Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.
Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.
Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
296
Edmir Domingues
Fabulosos
De fabulosos céus, e fabulosas
noites de fabulosos incidentes,
de mãos crispadas não, de asas doentes
repousando em jardins de antigas rosas.
Das outras mãos tornadas vaporosas,
quanto mais longe tanto mais presentes
às carícias dos braços abstinentes,
de nossas mãos também, por mais nervosas.
Mariposas sonâmbulas espargem
das asas cinza em risos de outra margem
negada a quem ficado em porto sujo.
Quem de gestos noturnos se consome
despido de passado e antigo nome
entre risos de concha e caramujo.
noites de fabulosos incidentes,
de mãos crispadas não, de asas doentes
repousando em jardins de antigas rosas.
Das outras mãos tornadas vaporosas,
quanto mais longe tanto mais presentes
às carícias dos braços abstinentes,
de nossas mãos também, por mais nervosas.
Mariposas sonâmbulas espargem
das asas cinza em risos de outra margem
negada a quem ficado em porto sujo.
Quem de gestos noturnos se consome
despido de passado e antigo nome
entre risos de concha e caramujo.
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