Poemas neste tema
Vida e Existência
Edmir Domingues
O Último poema
Tenho estado tão cansado
quero dormir para sempre.
Caminhos muitos andei
os pés feridos nas pedras.
Mas havia as cores vivas
das flores nas pradarias,
havia o canto dos pássaros
entre as folhas do arvoredo
havia o doce perfume
das rosas, pelos caminhos.
Mas agora estou cansado.
Os pés sem forças antigas,
os olhos já muito gastos
não vêem as cores de outrora,
os ouvidos insensíveis
da velhice contundente
não ouvem cantos de pássaros,
os sentidos corroídos
já não sentem, como dantes,
o perfume das roseiras.
Tanta vez estive à morte
e tanta vez desmorri.
Mas quero dormir agora.
O mundo não mudou nada,
o mundo eterno e contínuo,
mas eu mudei, não encontro
o menino do Passado.
Moriturus te salutat.
Se eu amo o sono das noites
por que, então, não amaria
o Grande Sono da Morte?
1987.
quero dormir para sempre.
Caminhos muitos andei
os pés feridos nas pedras.
Mas havia as cores vivas
das flores nas pradarias,
havia o canto dos pássaros
entre as folhas do arvoredo
havia o doce perfume
das rosas, pelos caminhos.
Mas agora estou cansado.
Os pés sem forças antigas,
os olhos já muito gastos
não vêem as cores de outrora,
os ouvidos insensíveis
da velhice contundente
não ouvem cantos de pássaros,
os sentidos corroídos
já não sentem, como dantes,
o perfume das roseiras.
Tanta vez estive à morte
e tanta vez desmorri.
Mas quero dormir agora.
O mundo não mudou nada,
o mundo eterno e contínuo,
mas eu mudei, não encontro
o menino do Passado.
Moriturus te salutat.
Se eu amo o sono das noites
por que, então, não amaria
o Grande Sono da Morte?
1987.
785
Edmir Domingues
De anjos bons e anjos maus
De tanto ter ficado nestas praias
sem riso da obtenção que nunca veio,
aqui nos encontramos, semi-mortos,
sem tamborins que cantem nossos cantos
nem outros instrumentos que sorriam.
A ave esperança aos poucos foi perdendo
a pouca nitidez que lhe restava,
a flor de asfalto e pedra, liquefeita,
na própria liquidez desfaz-se em gritos.
Os cavalos do tempo, em seu galope,
com suas asas tocam nossas faces,
e os anjos de granito, em pé na sombra,
passeiam sobre tudo os olhos mortos.
Os anjos nada sabem. A inocência
que os reveste os dissolve e os aniquila,
no barroco das faces de granito
só se reflete o espelho do vazio.
Por isso os anjos maus tanto apetecem.
Se as suas faces, quase sempre ascéticas,
mostram que sabem tudo e quase chegam
ao misterioso amor da divindade.
Que os deuses amam sempre a consciência
ainda que de pecado e rebeldia.
Mas resta a praia mágica e infinita
se bem seja a magia a do silêncio
que o rosto nos fustiga qual se fosse
o chicote terrível do abandono,
e as sovertidas águas que nos molham
os pés, sem novas cartas nem roteiros,
quando se sabe o barco de chegada
que as sovertidas águas não tragaram.
O barco noite abra o velame negro
e iremos para sempre destas praias.
Por trás da sombra, e branca, a luz reside
como um sopro de vida e consistência,
e a luz que existe em nós, profunda e viva,
por essa luz mais viva nos reclama.
sem riso da obtenção que nunca veio,
aqui nos encontramos, semi-mortos,
sem tamborins que cantem nossos cantos
nem outros instrumentos que sorriam.
A ave esperança aos poucos foi perdendo
a pouca nitidez que lhe restava,
a flor de asfalto e pedra, liquefeita,
na própria liquidez desfaz-se em gritos.
Os cavalos do tempo, em seu galope,
com suas asas tocam nossas faces,
e os anjos de granito, em pé na sombra,
passeiam sobre tudo os olhos mortos.
Os anjos nada sabem. A inocência
que os reveste os dissolve e os aniquila,
no barroco das faces de granito
só se reflete o espelho do vazio.
Por isso os anjos maus tanto apetecem.
Se as suas faces, quase sempre ascéticas,
mostram que sabem tudo e quase chegam
ao misterioso amor da divindade.
Que os deuses amam sempre a consciência
ainda que de pecado e rebeldia.
Mas resta a praia mágica e infinita
se bem seja a magia a do silêncio
que o rosto nos fustiga qual se fosse
o chicote terrível do abandono,
e as sovertidas águas que nos molham
os pés, sem novas cartas nem roteiros,
quando se sabe o barco de chegada
que as sovertidas águas não tragaram.
O barco noite abra o velame negro
e iremos para sempre destas praias.
Por trás da sombra, e branca, a luz reside
como um sopro de vida e consistência,
e a luz que existe em nós, profunda e viva,
por essa luz mais viva nos reclama.
630
Edmir Domingues
De anjos bons e anjos maus
De tanto ter ficado nestas praias
sem riso da obtenção que nunca veio,
aqui nos encontramos, semi-mortos,
sem tamborins que cantem nossos cantos
nem outros instrumentos que sorriam.
A ave esperança aos poucos foi perdendo
a pouca nitidez que lhe restava,
a flor de asfalto e pedra, liquefeita,
na própria liquidez desfaz-se em gritos.
Os cavalos do tempo, em seu galope,
com suas asas tocam nossas faces,
e os anjos de granito, em pé na sombra,
passeiam sobre tudo os olhos mortos.
Os anjos nada sabem. A inocência
que os reveste os dissolve e os aniquila,
no barroco das faces de granito
só se reflete o espelho do vazio.
Por isso os anjos maus tanto apetecem.
Se as suas faces, quase sempre ascéticas,
mostram que sabem tudo e quase chegam
ao misterioso amor da divindade.
Que os deuses amam sempre a consciência
ainda que de pecado e rebeldia.
Mas resta a praia mágica e infinita
se bem seja a magia a do silêncio
que o rosto nos fustiga qual se fosse
o chicote terrível do abandono,
e as sovertidas águas que nos molham
os pés, sem novas cartas nem roteiros,
quando se sabe o barco de chegada
que as sovertidas águas não tragaram.
O barco noite abra o velame negro
e iremos para sempre destas praias.
Por trás da sombra, e branca, a luz reside
como um sopro de vida e consistência,
e a luz que existe em nós, profunda e viva,
por essa luz mais viva nos reclama.
sem riso da obtenção que nunca veio,
aqui nos encontramos, semi-mortos,
sem tamborins que cantem nossos cantos
nem outros instrumentos que sorriam.
A ave esperança aos poucos foi perdendo
a pouca nitidez que lhe restava,
a flor de asfalto e pedra, liquefeita,
na própria liquidez desfaz-se em gritos.
Os cavalos do tempo, em seu galope,
com suas asas tocam nossas faces,
e os anjos de granito, em pé na sombra,
passeiam sobre tudo os olhos mortos.
Os anjos nada sabem. A inocência
que os reveste os dissolve e os aniquila,
no barroco das faces de granito
só se reflete o espelho do vazio.
Por isso os anjos maus tanto apetecem.
Se as suas faces, quase sempre ascéticas,
mostram que sabem tudo e quase chegam
ao misterioso amor da divindade.
Que os deuses amam sempre a consciência
ainda que de pecado e rebeldia.
Mas resta a praia mágica e infinita
se bem seja a magia a do silêncio
que o rosto nos fustiga qual se fosse
o chicote terrível do abandono,
e as sovertidas águas que nos molham
os pés, sem novas cartas nem roteiros,
quando se sabe o barco de chegada
que as sovertidas águas não tragaram.
O barco noite abra o velame negro
e iremos para sempre destas praias.
Por trás da sombra, e branca, a luz reside
como um sopro de vida e consistência,
e a luz que existe em nós, profunda e viva,
por essa luz mais viva nos reclama.
630
Edmir Domingues
Soneto de Arquiduques
Arquiduques de um reino soterrado
na planície de cal que nada altera,
bebamos essa luz de primavera
que desponta e que cresce a nosso lado.
Arquiduques sem fâmulos a espera,
sem a paz que respira o arquiducado,
residentes no sono prolongado
onde atua a mais lúcida atmosfera.
De um reino de glicínias arquiduques
não sorrimos às flores que são truques
de ébrios e maus prestidigitadores,
como as vossas, terrestres ou submersas,
nas terras e nas águas são diversas
das que estão sob a cal preciosas flores.
na planície de cal que nada altera,
bebamos essa luz de primavera
que desponta e que cresce a nosso lado.
Arquiduques sem fâmulos a espera,
sem a paz que respira o arquiducado,
residentes no sono prolongado
onde atua a mais lúcida atmosfera.
De um reino de glicínias arquiduques
não sorrimos às flores que são truques
de ébrios e maus prestidigitadores,
como as vossas, terrestres ou submersas,
nas terras e nas águas são diversas
das que estão sob a cal preciosas flores.
675
Edmir Domingues
Flautas e mar
Que noite pode ser, conquanto dia
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
535
Edmir Domingues
Flautas e mar
Que noite pode ser, conquanto dia
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
535
Edmir Domingues
É fortuna do mar o que nós somos
É fortuna do mar o que nós somos
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
698
Edmir Domingues
Coroa de sete sonetos
I
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
306
Edmir Domingues
Coroa de sete sonetos
I
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
306
Edmir Domingues
Coroa de sete sonetos
I
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
306
Edmir Domingues
Coroa de sete sonetos
I
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
306
Edmir Domingues
Soneto neste tempo
Debaixo deste sol, das armas vivas
(mais do que dantes vivas, é contado)
espraia-se o clamor, porque é do agrado
do Homem Novo de faces fugitivas.
Ora, as águas e as flores do passado
beberam do sabor das mais nocivas.
Conhecem como amargam negativas
na linguagem do amor descompensado.
Morreremos de enfarte, nestes dias
quando a paz desertou das noites frias
todas em sobressaltos perdulárias.
Como em versos antigos resta um passo.
Morrermos, pobre amor; num grande abraço,
quando morram no peito as coronárias.
(mais do que dantes vivas, é contado)
espraia-se o clamor, porque é do agrado
do Homem Novo de faces fugitivas.
Ora, as águas e as flores do passado
beberam do sabor das mais nocivas.
Conhecem como amargam negativas
na linguagem do amor descompensado.
Morreremos de enfarte, nestes dias
quando a paz desertou das noites frias
todas em sobressaltos perdulárias.
Como em versos antigos resta um passo.
Morrermos, pobre amor; num grande abraço,
quando morram no peito as coronárias.
747
Edmir Domingues
Soneto do amor imperfeito
Mas houve no outro dia o amor ardente
em país de outras flores. No outro dia.
Esquecido o desastre, a clava fria,
a noite do insucesso ainda recente.
Por que não houve nada quando havia
o clima da atração mais que presente?
Mistério da surpresa e da agonia
do vendaval descido sobre a gente.
Há sempre um outro dia sem tropeço,
que desvira o que estava pelo avesso,
que nos conduz, do vale, a outra subida.
A vitória do sempre sobre o instante,
o retorno da força adormecida,
o vir do duplo orgasmo deslumbrante.
em país de outras flores. No outro dia.
Esquecido o desastre, a clava fria,
a noite do insucesso ainda recente.
Por que não houve nada quando havia
o clima da atração mais que presente?
Mistério da surpresa e da agonia
do vendaval descido sobre a gente.
Há sempre um outro dia sem tropeço,
que desvira o que estava pelo avesso,
que nos conduz, do vale, a outra subida.
A vitória do sempre sobre o instante,
o retorno da força adormecida,
o vir do duplo orgasmo deslumbrante.
779
Edmir Domingues
Holograma
Contemplo-te de frente
e o faço firmemente.
E vejo a suavidade
da fronte - está defronte.
Contemplo os lagos vivos
de cor castanho escura
cercado como os lagos
por matas ciliares.
É a pequena colina
com duas cavidades
que trazem para o mundo
teu aroma interior
sabendo a juventude.
Sobre a boca de beijos.
Vejo também os montes
e o vale que os separa
cujos cumes exibem
como que rósea neve,
ao pé dessa planície
que conduz os meus olhos
para a floresta negra
de sombras insondáveis.
O todo monumento
é sustentado por
duas altas colunas
pousadas sobre o solo.
Onde as plantas semelham
como um quê de raízes.
Giro em torno de ti
como gira o Satélite
em volta do Planeta,
na direção contrária
ao rumo dos relógios.
Sigo vendo o milagre.
Bem mais da escura coma,
os braços dos abraços
caídos junto ao tronco,
exibindo no extremo
os dedos de carícias.
As colunas agora
observadas de lado,
têm a mesma beleza
já dantes constatada.
O giro continua
e uma nova paisagem
é então descortinada.
A coma desce em ondas
a base do pescoço.
Nova quase planície,
duas novas colinas,
outro vale, insondado.
O giro continua.
E agora é a paisagem
toda igual à segunda.
Resta o giro final,
confirmação da vista
antevista, no inicio.
O término da viagem
que se empreendeu à volta
da mulher desejada.
1991
e o faço firmemente.
E vejo a suavidade
da fronte - está defronte.
Contemplo os lagos vivos
de cor castanho escura
cercado como os lagos
por matas ciliares.
É a pequena colina
com duas cavidades
que trazem para o mundo
teu aroma interior
sabendo a juventude.
Sobre a boca de beijos.
Vejo também os montes
e o vale que os separa
cujos cumes exibem
como que rósea neve,
ao pé dessa planície
que conduz os meus olhos
para a floresta negra
de sombras insondáveis.
O todo monumento
é sustentado por
duas altas colunas
pousadas sobre o solo.
Onde as plantas semelham
como um quê de raízes.
Giro em torno de ti
como gira o Satélite
em volta do Planeta,
na direção contrária
ao rumo dos relógios.
Sigo vendo o milagre.
Bem mais da escura coma,
os braços dos abraços
caídos junto ao tronco,
exibindo no extremo
os dedos de carícias.
As colunas agora
observadas de lado,
têm a mesma beleza
já dantes constatada.
O giro continua
e uma nova paisagem
é então descortinada.
A coma desce em ondas
a base do pescoço.
Nova quase planície,
duas novas colinas,
outro vale, insondado.
O giro continua.
E agora é a paisagem
toda igual à segunda.
Resta o giro final,
confirmação da vista
antevista, no inicio.
O término da viagem
que se empreendeu à volta
da mulher desejada.
1991
410
Edmir Domingues
Sobre um tema de Li Tai Pó.
Na noite (se profunda) as nossas asas
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
783
Edmir Domingues
Sobre um tema de Li Tai Pó.
Na noite (se profunda) as nossas asas
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
783
Edmir Domingues
Sobre um tema de Li Tai Pó.
Na noite (se profunda) as nossas asas
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
783
Edmir Domingues
Soneto do amor imperfeito
Território de flores. Chão de plumas
o plano do lençol. A cachoeira
dos sedosos cabelos. Como a esteira
do barco do prazer. Penumbra. Algumas
murmurações, sussuros, numa feira
segunda. No país das grandes brumas.
O bom vinho de múltiplas espumas
e o amor do amor e a festa costumeira.
Não subimos o monte. Ao rés da terra
ficamos. Sob a paz. Não houve a guerra.
As legiões cansadas, fria a clava.
Mas houve Ela. E a carícia desmedida.
Cada instante mais bela. Colorida
na pintura dos beijos que eu lhe devo.
o plano do lençol. A cachoeira
dos sedosos cabelos. Como a esteira
do barco do prazer. Penumbra. Algumas
murmurações, sussuros, numa feira
segunda. No país das grandes brumas.
O bom vinho de múltiplas espumas
e o amor do amor e a festa costumeira.
Não subimos o monte. Ao rés da terra
ficamos. Sob a paz. Não houve a guerra.
As legiões cansadas, fria a clava.
Mas houve Ela. E a carícia desmedida.
Cada instante mais bela. Colorida
na pintura dos beijos que eu lhe devo.
744
Edmir Domingues
Canto fúnebre a Garcia Lorca
Quando os cavalos negros não chegaram
e os brancos foram feitos de fumaça,
teu rosto em plena sombra, Federico,
era uma suave luz como não resta.
Os ciganos dormiam, Santiago
de Cuba na distância repousava,
mar de papel, os plátanos medusas,
e em tudo o odor das flores de tabaco.
No entanto, Federico, nós não fomos,
num coche de água negra, a Santiago,
antes levou-te o coche às águas mortas
entre o sabor do sangue e da revolta.
E se não foi às cinco de uma tarde
sucedeu numa estranha madrugada
quando era o sol de sangue (e a lua sangue)
em um reino de bêbedos distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
E as faces alvas todas se voltaram
para o país das lágrimas noturnas.
Choramos os teus passos, Federico,
que os teus pés muito leves não pisaram.
Nós os de branco, os outros de cinzento,
os de azul, os de terra, os de amarelo,
fomos chorar-te junto aos que choravam
e que estavam vestidos de vermelho.
E eis que te digo então que os homens todos
são ratos e são deuses, nada importa
a cor das roupas várias com que cobrem
o corpo igual e nu e sem segredo.
Por trás das cores dorme a indisfarçada,
a humana condição que nos domina
que só nos dá ser grandes quando ouvimos,
canções como as que sempre nos cantavas.
Quando um poeta morre a vida morre
um pouco. E mais morreu quando morreste.
Mais triste o mundo resta, irmão tombado,
sem tua voz de estranha humanidade.
Há silêncio na terra e este meu canto
é teu, pois te reclama nessa ausência,
de ausentes que nós somos e distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
e os brancos foram feitos de fumaça,
teu rosto em plena sombra, Federico,
era uma suave luz como não resta.
Os ciganos dormiam, Santiago
de Cuba na distância repousava,
mar de papel, os plátanos medusas,
e em tudo o odor das flores de tabaco.
No entanto, Federico, nós não fomos,
num coche de água negra, a Santiago,
antes levou-te o coche às águas mortas
entre o sabor do sangue e da revolta.
E se não foi às cinco de uma tarde
sucedeu numa estranha madrugada
quando era o sol de sangue (e a lua sangue)
em um reino de bêbedos distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
E as faces alvas todas se voltaram
para o país das lágrimas noturnas.
Choramos os teus passos, Federico,
que os teus pés muito leves não pisaram.
Nós os de branco, os outros de cinzento,
os de azul, os de terra, os de amarelo,
fomos chorar-te junto aos que choravam
e que estavam vestidos de vermelho.
E eis que te digo então que os homens todos
são ratos e são deuses, nada importa
a cor das roupas várias com que cobrem
o corpo igual e nu e sem segredo.
Por trás das cores dorme a indisfarçada,
a humana condição que nos domina
que só nos dá ser grandes quando ouvimos,
canções como as que sempre nos cantavas.
Quando um poeta morre a vida morre
um pouco. E mais morreu quando morreste.
Mais triste o mundo resta, irmão tombado,
sem tua voz de estranha humanidade.
Há silêncio na terra e este meu canto
é teu, pois te reclama nessa ausência,
de ausentes que nós somos e distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
718
Edmir Domingues
Recado ao eleitor
A mão que lavra esta terra
de carinho e de perdão,
a mão que levanta as casas
do barro duro do chão,
a mão que pega do lápis
e que faz planos em vão,
a mão ferida da agulha,
a mão da repartição,
a mão suja do operário
(do operário em construção)
a mão que aprende na escola
a fugir da escravidão,
a mão que tece nos fusos
os fios que vêm e vão,
a mão que trabalha e sofre,
que é irmã de nossa mão,
a mão que se eleva à boca
que cospe aos pés do vilão,
a mão como a mão de Cristo
na sua crucifixão,
a mão que não vende o voto
(se o voto é revolução)
irá votar na certeza
contra as coisas como estão,
dizendo ao Povo que “sim”,
dizendo ao Dinheiro: “não”!
Para a alvorada dos dias
plenos de paz que virão.
de carinho e de perdão,
a mão que levanta as casas
do barro duro do chão,
a mão que pega do lápis
e que faz planos em vão,
a mão ferida da agulha,
a mão da repartição,
a mão suja do operário
(do operário em construção)
a mão que aprende na escola
a fugir da escravidão,
a mão que tece nos fusos
os fios que vêm e vão,
a mão que trabalha e sofre,
que é irmã de nossa mão,
a mão que se eleva à boca
que cospe aos pés do vilão,
a mão como a mão de Cristo
na sua crucifixão,
a mão que não vende o voto
(se o voto é revolução)
irá votar na certeza
contra as coisas como estão,
dizendo ao Povo que “sim”,
dizendo ao Dinheiro: “não”!
Para a alvorada dos dias
plenos de paz que virão.
765
Edmir Domingues
Schoteinós
(em grego: obscuro)
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
565
Edmir Domingues
Schoteinós
(em grego: obscuro)
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
565
Edmir Domingues
Schoteinós
(em grego: obscuro)
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
565
Edmir Domingues
Schoteinós
(em grego: obscuro)
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
565