Poemas neste tema
Vida e Existência
Nuno Júdice
Lume
Acordei com um anjo na cabeça. Batia
as asas para sair de dentro de mim; e
ia deixando cair as suas penas,
enquanto procurava uma saída.
Quando se cansou, e se encostou à
minha alma, falei-lhe: «Por que não
ficas comigo?» E não me respondeu,
como se não me tivesse ouvido.
Depois, começou a arder; e
fiquei com o fogo dos seus cabelos
na minha memória, como se fossem
a resposta à pergunta que lhe fiz.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 104 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
as asas para sair de dentro de mim; e
ia deixando cair as suas penas,
enquanto procurava uma saída.
Quando se cansou, e se encostou à
minha alma, falei-lhe: «Por que não
ficas comigo?» E não me respondeu,
como se não me tivesse ouvido.
Depois, começou a arder; e
fiquei com o fogo dos seus cabelos
na minha memória, como se fossem
a resposta à pergunta que lhe fiz.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 104 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 241
Nuno Júdice
Odalisca
Contam que se entrega aos ventos favoráveis
do amor. Estátua de mármores nocturnos,
assistiu a uma debandada de desejos
na pele dos amantes. No olhar calcinado
pela espera, derrama-se o fogo já frio
das vésperas inúteis. Para que lhe servem os braços,
agora que todos partiram, e só uma corrente
de silêncio a prende ao leito?
No entanto, deito-me com ela. Um degelo
de pálpebras limpa-nos de uma cinza
de solidão. E diz-me: «Quero perder-me
numa encruzilhada de abraços; afogar-me
num poço de gemidos; esquecer-me de mim
no fundo da tua memória.» Deixo-a
entregue a si própria; e pergunto o que fazer
do calor dos seus lábios, da ânsia
que os seus dedos soltam, do tempo
que estremece no seu corpo?
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 97 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
do amor. Estátua de mármores nocturnos,
assistiu a uma debandada de desejos
na pele dos amantes. No olhar calcinado
pela espera, derrama-se o fogo já frio
das vésperas inúteis. Para que lhe servem os braços,
agora que todos partiram, e só uma corrente
de silêncio a prende ao leito?
No entanto, deito-me com ela. Um degelo
de pálpebras limpa-nos de uma cinza
de solidão. E diz-me: «Quero perder-me
numa encruzilhada de abraços; afogar-me
num poço de gemidos; esquecer-me de mim
no fundo da tua memória.» Deixo-a
entregue a si própria; e pergunto o que fazer
do calor dos seus lábios, da ânsia
que os seus dedos soltam, do tempo
que estremece no seu corpo?
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 97 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 269
Ruy Belo
A charneca e a praia
Num dia vagamente de Natal fechado pelo frio
um positivo pássaro assegura a vida
na pedra a ocidente mais perdida
e sobranceira à água que passa no rio
Mas onde, anima naturaliter christiana,
encontrará qualquer contentamento
aquele que semana após semana
sobrecarrega o próprio pensamento?
Dizes que um verão completamente abandonado jaz
junto da placa enferrujada onde já mão nenhuma faz
parar a camioneta para a praia
Que a tarde aí é tão horizontal como uma estrada
tão ampla e tão possível como antigamente
Trémula passa mente muita gente: olhai-a
todo o seu ser é ser assim olhada
E o mar vindo da primeira solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão
Alheia a estes dias perguntas-me que faço
Deito-me levanto-me estendo as mãos e esqueço
que entre tantas pequeninas coisas uma árvore de pé
transmite as estações reúne para mim teu verde rosto esparso
aonde com desgosto às vezes sem esperar tropeço
E então sou quem fui na areia mais deserta
onde houve passos risos e regressos
antes de tudo quanto o tempo depois disso trouxe
Escrevo corro e era outro o autocarro
cerrou-se apenas sobre si o mais original abraço
Perguntas-me que faço: sei apenas que esqueço
estendo braços e conheço casos tristes
tenho voltas a dar e vou à minha vida
e tudo onde passo lembra outra coisa
Ou volto a esses campos onde Deus é necessário,
à vida regulada pelo vento pelo sol e pelo sino,
aos nomes crus na cal das cruzes dos caminhos
onde às vezes na noite crescem passos enxertados primitivos
que põem frente os olhos de dois homens
Volto como quem volta ao local do seu crime
e nem a morte me afastará disto
Eu faço e aconteço eu esqueço
Tenho um nome e sorrio e sou vist…
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 139 e 140 | Círculo de Leitores, Dez 2000
um positivo pássaro assegura a vida
na pedra a ocidente mais perdida
e sobranceira à água que passa no rio
Mas onde, anima naturaliter christiana,
encontrará qualquer contentamento
aquele que semana após semana
sobrecarrega o próprio pensamento?
Dizes que um verão completamente abandonado jaz
junto da placa enferrujada onde já mão nenhuma faz
parar a camioneta para a praia
Que a tarde aí é tão horizontal como uma estrada
tão ampla e tão possível como antigamente
Trémula passa mente muita gente: olhai-a
todo o seu ser é ser assim olhada
E o mar vindo da primeira solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão
Alheia a estes dias perguntas-me que faço
Deito-me levanto-me estendo as mãos e esqueço
que entre tantas pequeninas coisas uma árvore de pé
transmite as estações reúne para mim teu verde rosto esparso
aonde com desgosto às vezes sem esperar tropeço
E então sou quem fui na areia mais deserta
onde houve passos risos e regressos
antes de tudo quanto o tempo depois disso trouxe
Escrevo corro e era outro o autocarro
cerrou-se apenas sobre si o mais original abraço
Perguntas-me que faço: sei apenas que esqueço
estendo braços e conheço casos tristes
tenho voltas a dar e vou à minha vida
e tudo onde passo lembra outra coisa
Ou volto a esses campos onde Deus é necessário,
à vida regulada pelo vento pelo sol e pelo sino,
aos nomes crus na cal das cruzes dos caminhos
onde às vezes na noite crescem passos enxertados primitivos
que põem frente os olhos de dois homens
Volto como quem volta ao local do seu crime
e nem a morte me afastará disto
Eu faço e aconteço eu esqueço
Tenho um nome e sorrio e sou vist…
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 139 e 140 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 284
Ruy Belo
A charneca e a praia
Num dia vagamente de Natal fechado pelo frio
um positivo pássaro assegura a vida
na pedra a ocidente mais perdida
e sobranceira à água que passa no rio
Mas onde, anima naturaliter christiana,
encontrará qualquer contentamento
aquele que semana após semana
sobrecarrega o próprio pensamento?
Dizes que um verão completamente abandonado jaz
junto da placa enferrujada onde já mão nenhuma faz
parar a camioneta para a praia
Que a tarde aí é tão horizontal como uma estrada
tão ampla e tão possível como antigamente
Trémula passa mente muita gente: olhai-a
todo o seu ser é ser assim olhada
E o mar vindo da primeira solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão
Alheia a estes dias perguntas-me que faço
Deito-me levanto-me estendo as mãos e esqueço
que entre tantas pequeninas coisas uma árvore de pé
transmite as estações reúne para mim teu verde rosto esparso
aonde com desgosto às vezes sem esperar tropeço
E então sou quem fui na areia mais deserta
onde houve passos risos e regressos
antes de tudo quanto o tempo depois disso trouxe
Escrevo corro e era outro o autocarro
cerrou-se apenas sobre si o mais original abraço
Perguntas-me que faço: sei apenas que esqueço
estendo braços e conheço casos tristes
tenho voltas a dar e vou à minha vida
e tudo onde passo lembra outra coisa
Ou volto a esses campos onde Deus é necessário,
à vida regulada pelo vento pelo sol e pelo sino,
aos nomes crus na cal das cruzes dos caminhos
onde às vezes na noite crescem passos enxertados primitivos
que põem frente os olhos de dois homens
Volto como quem volta ao local do seu crime
e nem a morte me afastará disto
Eu faço e aconteço eu esqueço
Tenho um nome e sorrio e sou vist…
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 139 e 140 | Círculo de Leitores, Dez 2000
um positivo pássaro assegura a vida
na pedra a ocidente mais perdida
e sobranceira à água que passa no rio
Mas onde, anima naturaliter christiana,
encontrará qualquer contentamento
aquele que semana após semana
sobrecarrega o próprio pensamento?
Dizes que um verão completamente abandonado jaz
junto da placa enferrujada onde já mão nenhuma faz
parar a camioneta para a praia
Que a tarde aí é tão horizontal como uma estrada
tão ampla e tão possível como antigamente
Trémula passa mente muita gente: olhai-a
todo o seu ser é ser assim olhada
E o mar vindo da primeira solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão
Alheia a estes dias perguntas-me que faço
Deito-me levanto-me estendo as mãos e esqueço
que entre tantas pequeninas coisas uma árvore de pé
transmite as estações reúne para mim teu verde rosto esparso
aonde com desgosto às vezes sem esperar tropeço
E então sou quem fui na areia mais deserta
onde houve passos risos e regressos
antes de tudo quanto o tempo depois disso trouxe
Escrevo corro e era outro o autocarro
cerrou-se apenas sobre si o mais original abraço
Perguntas-me que faço: sei apenas que esqueço
estendo braços e conheço casos tristes
tenho voltas a dar e vou à minha vida
e tudo onde passo lembra outra coisa
Ou volto a esses campos onde Deus é necessário,
à vida regulada pelo vento pelo sol e pelo sino,
aos nomes crus na cal das cruzes dos caminhos
onde às vezes na noite crescem passos enxertados primitivos
que põem frente os olhos de dois homens
Volto como quem volta ao local do seu crime
e nem a morte me afastará disto
Eu faço e aconteço eu esqueço
Tenho um nome e sorrio e sou vist…
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 139 e 140 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 284
Nuno Júdice
Guia
Irei bater-lhe à porta; e se não me abrir,
repetirei o abecedário das suas mãos, deixando
em cada um dos dedos a cor das vogais que
os seus lábios me ensinaram.
Falar-lhe-ei ao ouvido; e se não me ouvir
farei com que este segredo lhe escorra pelos
ombros, como a lágrima obscura da lua
que ilumina o seu rosto.
Mostrar-lhe-ei o caminho; e se não o vir,
fá-lo-ei sozinho, ouvindo os seus passos atrás
de mim, como se me seguisse, guiando-se
pelas vogais que espalhámos pelo campo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 101 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
repetirei o abecedário das suas mãos, deixando
em cada um dos dedos a cor das vogais que
os seus lábios me ensinaram.
Falar-lhe-ei ao ouvido; e se não me ouvir
farei com que este segredo lhe escorra pelos
ombros, como a lágrima obscura da lua
que ilumina o seu rosto.
Mostrar-lhe-ei o caminho; e se não o vir,
fá-lo-ei sozinho, ouvindo os seus passos atrás
de mim, como se me seguisse, guiando-se
pelas vogais que espalhámos pelo campo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 101 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
691
Nuno Júdice
Pecado
Nas aldeias antigas, as mulheres do campo
esperavam o princípio da tarde para correrem
no meio das searas, em busca de uma clareira
onde se pudessem despir, para que o sol,
descendo à terra, as pudesse possuir. O fogo
que nascia dos seus lábios pegava-se à erva,
e durante um instante toda a seara ardia,
sem fogo nem fumo, apenas com o desejo
que se soltava da sua boca, e ia apagar o sol,
nas tardes em que a noite caía mais cedo.
Espreitei essas mulheres quando voltavam
das searas, e nos seus olhos traziam um cansaço
de amor. Acompanhei-as às suas casas, e vi-as
deitarem-se contra a parede, olhando os seus
rostos no espelho que as velhas seguravam.
Tinham no rosto um princípio de melancolia;
mas diziam-me que a noite resolveria tudo,
quando a sua cabeça se enchesse de sonhos.
«Que queres daqui?» perguntavam-me. E eu
pedia-lhes que me guardassem a imagem
do espelho, em que a eternidade se dissipa,
como o seu sorriso no rescaldo do prazer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 114 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
esperavam o princípio da tarde para correrem
no meio das searas, em busca de uma clareira
onde se pudessem despir, para que o sol,
descendo à terra, as pudesse possuir. O fogo
que nascia dos seus lábios pegava-se à erva,
e durante um instante toda a seara ardia,
sem fogo nem fumo, apenas com o desejo
que se soltava da sua boca, e ia apagar o sol,
nas tardes em que a noite caía mais cedo.
Espreitei essas mulheres quando voltavam
das searas, e nos seus olhos traziam um cansaço
de amor. Acompanhei-as às suas casas, e vi-as
deitarem-se contra a parede, olhando os seus
rostos no espelho que as velhas seguravam.
Tinham no rosto um princípio de melancolia;
mas diziam-me que a noite resolveria tudo,
quando a sua cabeça se enchesse de sonhos.
«Que queres daqui?» perguntavam-me. E eu
pedia-lhes que me guardassem a imagem
do espelho, em que a eternidade se dissipa,
como o seu sorriso no rescaldo do prazer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 114 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 287
Nuno Júdice
Pecado
Nas aldeias antigas, as mulheres do campo
esperavam o princípio da tarde para correrem
no meio das searas, em busca de uma clareira
onde se pudessem despir, para que o sol,
descendo à terra, as pudesse possuir. O fogo
que nascia dos seus lábios pegava-se à erva,
e durante um instante toda a seara ardia,
sem fogo nem fumo, apenas com o desejo
que se soltava da sua boca, e ia apagar o sol,
nas tardes em que a noite caía mais cedo.
Espreitei essas mulheres quando voltavam
das searas, e nos seus olhos traziam um cansaço
de amor. Acompanhei-as às suas casas, e vi-as
deitarem-se contra a parede, olhando os seus
rostos no espelho que as velhas seguravam.
Tinham no rosto um princípio de melancolia;
mas diziam-me que a noite resolveria tudo,
quando a sua cabeça se enchesse de sonhos.
«Que queres daqui?» perguntavam-me. E eu
pedia-lhes que me guardassem a imagem
do espelho, em que a eternidade se dissipa,
como o seu sorriso no rescaldo do prazer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 114 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
esperavam o princípio da tarde para correrem
no meio das searas, em busca de uma clareira
onde se pudessem despir, para que o sol,
descendo à terra, as pudesse possuir. O fogo
que nascia dos seus lábios pegava-se à erva,
e durante um instante toda a seara ardia,
sem fogo nem fumo, apenas com o desejo
que se soltava da sua boca, e ia apagar o sol,
nas tardes em que a noite caía mais cedo.
Espreitei essas mulheres quando voltavam
das searas, e nos seus olhos traziam um cansaço
de amor. Acompanhei-as às suas casas, e vi-as
deitarem-se contra a parede, olhando os seus
rostos no espelho que as velhas seguravam.
Tinham no rosto um princípio de melancolia;
mas diziam-me que a noite resolveria tudo,
quando a sua cabeça se enchesse de sonhos.
«Que queres daqui?» perguntavam-me. E eu
pedia-lhes que me guardassem a imagem
do espelho, em que a eternidade se dissipa,
como o seu sorriso no rescaldo do prazer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 114 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 287
Ruy Belo
Guide Bleu
Haverá vento ainda haverá vento?
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
1 301
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião (VII)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
Passa o proprietário e já não reconhece
talvez o operário inútil sob a messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 121 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
Passa o proprietário e já não reconhece
talvez o operário inútil sob a messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 121 | Editorial Presença Lda., 1984
1 138
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião (VII)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
Passa o proprietário e já não reconhece
talvez o operário inútil sob a messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 121 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
Passa o proprietário e já não reconhece
talvez o operário inútil sob a messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 121 | Editorial Presença Lda., 1984
1 138
Nuno Júdice
O movimento da mulher quando anda
"... uma jovem mulher com sua harpa de sombra..."
Herberto Helder
O movimento da mulher quando anda
desenha-se no próprio ar, deixando um sulco que
agita os ramos em que ainda sobram algumas
flores. Posso compará-lo com um rasto de onda
que rebentou, sobrando só essa espuma quase
transparente que o sol atravessa; mas a mulher
quando anda tem a densidade do mármore
de uma antiga estátua, embora o seu corpo se
molde à resistência do sol que, ao incidir na sua
pele, solta os brilhos que ela afasta com os
braços, em busca de sombra. É assim, digo, que
o movimento da mulher quando anda transforma
o seu corpo em aresta de luz, por entre as cores
e as formas que o prendem, e de que as suas
pernas se libertam quando saltam a vedação
e pousam na terra, do outro lado, como harpa
num instante de repouso.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 63 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
Herberto Helder
O movimento da mulher quando anda
desenha-se no próprio ar, deixando um sulco que
agita os ramos em que ainda sobram algumas
flores. Posso compará-lo com um rasto de onda
que rebentou, sobrando só essa espuma quase
transparente que o sol atravessa; mas a mulher
quando anda tem a densidade do mármore
de uma antiga estátua, embora o seu corpo se
molde à resistência do sol que, ao incidir na sua
pele, solta os brilhos que ela afasta com os
braços, em busca de sombra. É assim, digo, que
o movimento da mulher quando anda transforma
o seu corpo em aresta de luz, por entre as cores
e as formas que o prendem, e de que as suas
pernas se libertam quando saltam a vedação
e pousam na terra, do outro lado, como harpa
num instante de repouso.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 63 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 297
Nuno Júdice
O repouso do modelo
A tela prolonga-se para o lado em que ela olha,
seguindo as notas como se as visse ao mesmo
tempo que as ouve. Uma harmonia entre o traço que
envolve o seu corpo, nítido e forte como a tarde
que se faz na rua, e o olhar que o acompanha,
inscreve-se no intervalo entre as teclas, como
se os seus dedos a procurassem, daí nascendo
a música. Por vezes, uma indecisão prende-lhe
os ombros, como se uma renda de lágrimas
lhe descesse sobre as costas, ocultando-as (mas
logo as mãos substituem a fragilidade da alma,
obrigando-a a voltar ao ritmo inicial). E nada
a interrompe, para que não se volte, e o seu
rosto não venha apagar, com o brilho dos
olhos, a luz obscura que nasce deste lugar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 72 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
seguindo as notas como se as visse ao mesmo
tempo que as ouve. Uma harmonia entre o traço que
envolve o seu corpo, nítido e forte como a tarde
que se faz na rua, e o olhar que o acompanha,
inscreve-se no intervalo entre as teclas, como
se os seus dedos a procurassem, daí nascendo
a música. Por vezes, uma indecisão prende-lhe
os ombros, como se uma renda de lágrimas
lhe descesse sobre as costas, ocultando-as (mas
logo as mãos substituem a fragilidade da alma,
obrigando-a a voltar ao ritmo inicial). E nada
a interrompe, para que não se volte, e o seu
rosto não venha apagar, com o brilho dos
olhos, a luz obscura que nasce deste lugar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 72 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 066
Nuno Júdice
Fonte
Um fauno, à tarde, procura onde beber;
e se a fonte está cheia, límpida
como o corpo da mulher, sacia a sede,
pensando que não é tarde nem cedo
para ver a água correr.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 85 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
e se a fonte está cheia, límpida
como o corpo da mulher, sacia a sede,
pensando que não é tarde nem cedo
para ver a água correr.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 85 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 172
Nuno Júdice
Sinfonia em branco
Desenham uma curva de abóbada sob o
impulso do branco. Os braços bordejam
o cais de um beijo esquecido, e
o olhar fixa-se numa erupção de azul
que se solta do sexo flamejante
do sol. Aquietam-se num mistério
de nimbo matinal, enquanto um piano
ressoa no fundo dos seus ouvidos,
de onde sobe o canto que lhes
estremece os corpos. Uma ressaca de
constelações seca-lhes a boca; e
não falam, murmurando apenas
uma queixa de outono. Mas logo
a luz verde da manhã entra pela
janela, empurrando um pássaro
desorientado para dentro de casa. Ao
persegui-lo com a vista, a melancolia
desaparece dos seus rostos. Despertam
para o dia. Pouco a pouco, a névoa
dos seus vestidos dissipa-se;
e veste-as apenas uma ondulação
de luz transparente.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 81 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
impulso do branco. Os braços bordejam
o cais de um beijo esquecido, e
o olhar fixa-se numa erupção de azul
que se solta do sexo flamejante
do sol. Aquietam-se num mistério
de nimbo matinal, enquanto um piano
ressoa no fundo dos seus ouvidos,
de onde sobe o canto que lhes
estremece os corpos. Uma ressaca de
constelações seca-lhes a boca; e
não falam, murmurando apenas
uma queixa de outono. Mas logo
a luz verde da manhã entra pela
janela, empurrando um pássaro
desorientado para dentro de casa. Ao
persegui-lo com a vista, a melancolia
desaparece dos seus rostos. Despertam
para o dia. Pouco a pouco, a névoa
dos seus vestidos dissipa-se;
e veste-as apenas uma ondulação
de luz transparente.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 81 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
913
Ruy Belo
Andamento final de poema
o civil e redondo sacrifício de quem raivosamente tem
morte bastante em viajar de rosto em rosto
incorrigivelmente demandando o redentor instante
sem descontos reforma ou previdência alienante
país distante rente alucinante quente
verão na Inglaterra cerração última guerra
corporações risonhos fundações ministérios e medos
frontes caídas costas curvas súplicas e selos
e tudo ruminado e submetido a rigorosos planos de turismo
católicos de quem com quem por quem
ó lisa face livre imensamente livre
e corpo cravejado e mordido e repartido
por bocas sucessivas simultâneos bafos dentes cariados
e à volta as plácidas paragens da traição
e os olhos ah os olhos se pudessem fechariam
por novas servidões a implacável salvação
da tua face lisa e livre, e porque livre lisa
Por último dizei-me, meu Senhor sacrificado:
porventura nalgum remodelado ministério
terei de requerer mendigar submeter a despacho
a minha prometida promissora posição jacente
e povos de outros grupos linguísticos fricativas diversas hipotaxes
campos semânticos talvez devidos a outra forma mentis
algum anacoluto por insónia distracção gaguez
mas vamos revenons à nos moutons
decíamos ayer terei de requerer
a minha contraída posição em meia folha de papel selado?
Ou não estendeste os braços que tiveste
sobre um país de heróis primeiro a ser banhado
pelo sangue que perdeste pela chaga que ficava deste lado
- a tese embora controversa é perfilhada
numa quase filosofia doméstica e privada -
Nem nos seria lícito dignos e de frente
olharmos finalmente
quem para dominar serviu segundo um plano
sem deferir a sua aprovação
de uma condição a todos nós devida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 122 | Editorial Presença Lda., 1984
morte bastante em viajar de rosto em rosto
incorrigivelmente demandando o redentor instante
sem descontos reforma ou previdência alienante
país distante rente alucinante quente
verão na Inglaterra cerração última guerra
corporações risonhos fundações ministérios e medos
frontes caídas costas curvas súplicas e selos
e tudo ruminado e submetido a rigorosos planos de turismo
católicos de quem com quem por quem
ó lisa face livre imensamente livre
e corpo cravejado e mordido e repartido
por bocas sucessivas simultâneos bafos dentes cariados
e à volta as plácidas paragens da traição
e os olhos ah os olhos se pudessem fechariam
por novas servidões a implacável salvação
da tua face lisa e livre, e porque livre lisa
Por último dizei-me, meu Senhor sacrificado:
porventura nalgum remodelado ministério
terei de requerer mendigar submeter a despacho
a minha prometida promissora posição jacente
e povos de outros grupos linguísticos fricativas diversas hipotaxes
campos semânticos talvez devidos a outra forma mentis
algum anacoluto por insónia distracção gaguez
mas vamos revenons à nos moutons
decíamos ayer terei de requerer
a minha contraída posição em meia folha de papel selado?
Ou não estendeste os braços que tiveste
sobre um país de heróis primeiro a ser banhado
pelo sangue que perdeste pela chaga que ficava deste lado
- a tese embora controversa é perfilhada
numa quase filosofia doméstica e privada -
Nem nos seria lícito dignos e de frente
olharmos finalmente
quem para dominar serviu segundo um plano
sem deferir a sua aprovação
de uma condição a todos nós devida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 122 | Editorial Presença Lda., 1984
829
Nuno Júdice
Estrelas
Desfaço nas mãos os figos, os fios
fugazes de setembro, enquanto o seu leite
escorre pelas folhas verdes que
os envolvem. Esses figos, que me traziam
em cestos de vime, eram mel na boca
que os saboreava. Secos, iam parar
aos frascos fechados para o inverno, de onde
os tirava para os meter no bolso,
antes de sair. "O que tens aí?", perguntavas-me. E
eu passava-te para a mão um desses figos, e via
como o abrias, chupando os seus grânulos,
e passeando na boca a amêndoa que
o recheava. Onde estarás?, pergunto. Poderia
ainda hoje partilhar, contigo, um
desses figos do inverno? Ou o seu leite secou,
nos cantos dos lábios, roubando-te
as palavras e o húmido murmúrio
do amor?
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 24 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
fugazes de setembro, enquanto o seu leite
escorre pelas folhas verdes que
os envolvem. Esses figos, que me traziam
em cestos de vime, eram mel na boca
que os saboreava. Secos, iam parar
aos frascos fechados para o inverno, de onde
os tirava para os meter no bolso,
antes de sair. "O que tens aí?", perguntavas-me. E
eu passava-te para a mão um desses figos, e via
como o abrias, chupando os seus grânulos,
e passeando na boca a amêndoa que
o recheava. Onde estarás?, pergunto. Poderia
ainda hoje partilhar, contigo, um
desses figos do inverno? Ou o seu leite secou,
nos cantos dos lábios, roubando-te
as palavras e o húmido murmúrio
do amor?
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 24 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 192
Nuno Júdice
Ao cair da noite
No banco do jardim, como numa sala de espera,
pergunta se alguém virá para a buscar, antes
que a noite chegue. E eu, do outro lado do tempo,
abro o caderno para lhe escrever: «Um dia
saberás o que disseram todas as cartas
que não abriste; e perante o vazio a que
a tua vida se resume, responderás que
pouco importa o tempo, quando a eternidade
te cobriu com a sua noite, há muito.»
Depois, vou ao correio. «Esqueceu-se
de pôr a morada», diz-me o empregado.
«Não sei para quem escrevo», digo-lhe.
E meto na caixa o envelope em branco
para que alguém, um dia, o descubra num
fundo de posta restante. E ao ler o que
lhe escrevi, talvez se sente num banco
de jardim, pouco antes da noite, pensando
no que é a vida em que todo o futuro se
fixa nesse instante que não chegou a ser.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 87 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
pergunta se alguém virá para a buscar, antes
que a noite chegue. E eu, do outro lado do tempo,
abro o caderno para lhe escrever: «Um dia
saberás o que disseram todas as cartas
que não abriste; e perante o vazio a que
a tua vida se resume, responderás que
pouco importa o tempo, quando a eternidade
te cobriu com a sua noite, há muito.»
Depois, vou ao correio. «Esqueceu-se
de pôr a morada», diz-me o empregado.
«Não sei para quem escrevo», digo-lhe.
E meto na caixa o envelope em branco
para que alguém, um dia, o descubra num
fundo de posta restante. E ao ler o que
lhe escrevi, talvez se sente num banco
de jardim, pouco antes da noite, pensando
no que é a vida em que todo o futuro se
fixa nesse instante que não chegou a ser.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 87 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 673
Nuno Júdice
Ao cair da noite
No banco do jardim, como numa sala de espera,
pergunta se alguém virá para a buscar, antes
que a noite chegue. E eu, do outro lado do tempo,
abro o caderno para lhe escrever: «Um dia
saberás o que disseram todas as cartas
que não abriste; e perante o vazio a que
a tua vida se resume, responderás que
pouco importa o tempo, quando a eternidade
te cobriu com a sua noite, há muito.»
Depois, vou ao correio. «Esqueceu-se
de pôr a morada», diz-me o empregado.
«Não sei para quem escrevo», digo-lhe.
E meto na caixa o envelope em branco
para que alguém, um dia, o descubra num
fundo de posta restante. E ao ler o que
lhe escrevi, talvez se sente num banco
de jardim, pouco antes da noite, pensando
no que é a vida em que todo o futuro se
fixa nesse instante que não chegou a ser.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 87 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
pergunta se alguém virá para a buscar, antes
que a noite chegue. E eu, do outro lado do tempo,
abro o caderno para lhe escrever: «Um dia
saberás o que disseram todas as cartas
que não abriste; e perante o vazio a que
a tua vida se resume, responderás que
pouco importa o tempo, quando a eternidade
te cobriu com a sua noite, há muito.»
Depois, vou ao correio. «Esqueceu-se
de pôr a morada», diz-me o empregado.
«Não sei para quem escrevo», digo-lhe.
E meto na caixa o envelope em branco
para que alguém, um dia, o descubra num
fundo de posta restante. E ao ler o que
lhe escrevi, talvez se sente num banco
de jardim, pouco antes da noite, pensando
no que é a vida em que todo o futuro se
fixa nesse instante que não chegou a ser.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 87 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 673
Nuno Júdice
Um retrato de mulher com vestido branco
É o teu rosto que eu destaco sobre a pose
convencional e uma expressão de indiferença
ou cansaço, que as mãos presas uma na outra
sublinham. O cabelo cortado, de onde sobressai
a orelha; e os lábios cor de vida, que
bebem o brilho nascido dos teus olhos. Queria
tirar-te daí, e ver-te rir; ou ouvir o
teu desabafo, libertando-te da figura
de velho que te olha da tela pendurada
na parede. No fundo, já não estás aí;
e o teu pensamento viaja no sentido
oblíquo onde fica uma janela, uma porta,
qualquer saída para a perfeição do teu gesto.
Mas continuas imóvel, obedecendo
ao pintor; e é a tua ausência
que eu vejo, por dentro do vestido branco
onde secaram já todas as flores da primavera.
convencional e uma expressão de indiferença
ou cansaço, que as mãos presas uma na outra
sublinham. O cabelo cortado, de onde sobressai
a orelha; e os lábios cor de vida, que
bebem o brilho nascido dos teus olhos. Queria
tirar-te daí, e ver-te rir; ou ouvir o
teu desabafo, libertando-te da figura
de velho que te olha da tela pendurada
na parede. No fundo, já não estás aí;
e o teu pensamento viaja no sentido
oblíquo onde fica uma janela, uma porta,
qualquer saída para a perfeição do teu gesto.
Mas continuas imóvel, obedecendo
ao pintor; e é a tua ausência
que eu vejo, por dentro do vestido branco
onde secaram já todas as flores da primavera.
1 252
Nuno Júdice
Banhista de costas limpando-se com toalha
Adapta-se à paisagem como se fizesse parte dela,
pedaço de natureza, ou simples pormenor de
litoral. Também podia ser uma gaivota em busca
de repouso, esculpida pelas mãos de um deus
provisório. Ou uma sereia transformada em
mulher, num afloramento líquido por entre
rochedos invisíveis. À sua frente, o mar
oferece-lhe o abrigo do seu abismo; mas
ela hesita em avançar, esperando que
a maré se torne propícia, ou que o sol atinja
o zénite para que os seus cabelos fiquem
no ponto exacto de um prumo de luz. E
o seu corpo brilha quando ela o limpa
de sombras, oferecendo-se ao vento que
a empurra para o horizonte, como se fosse
um barco de velas desfraldadas, sem
outro destino para além do coração do dia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 79 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
pedaço de natureza, ou simples pormenor de
litoral. Também podia ser uma gaivota em busca
de repouso, esculpida pelas mãos de um deus
provisório. Ou uma sereia transformada em
mulher, num afloramento líquido por entre
rochedos invisíveis. À sua frente, o mar
oferece-lhe o abrigo do seu abismo; mas
ela hesita em avançar, esperando que
a maré se torne propícia, ou que o sol atinja
o zénite para que os seus cabelos fiquem
no ponto exacto de um prumo de luz. E
o seu corpo brilha quando ela o limpa
de sombras, oferecendo-se ao vento que
a empurra para o horizonte, como se fosse
um barco de velas desfraldadas, sem
outro destino para além do coração do dia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 79 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 038
Nuno Júdice
Arrufos
A rosa caída não respira, como um pássaro
morto; e o seu corpo, estendido na cama,
esgota o pranto da tarde, como se todas
as sombras do dia se juntassem à sua
volta. Poderia estender a mão, e apanhar
a flor; mas receia que outra mão se
interponha entre ela e a rosa, e a puxe
para o reino em que nenhum pássaro canta.
Por vezes, um soluço agita-lhe o ombro;
e é o seu único movimento, como
se não tivesse força para se erguer,
puxar os cabelos para trás da cabeça,
e olhar o vazio, onde se esconde
o destino que a assombra. «Pode ser
o destino da rosa», digo-lhe; e cito
Ronsard, para que ela me ouça, e siga
o rumo do pássaro, o que voou junto
à janela, e preferiu subir até ao azul
a entrar no mundo que não lhe pertence.
Mas permanece deitada, e fez desta
cama o seu ninho, como se pudesse nascer
daí para uma outra vida, ou uma outra rosa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 74 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
morto; e o seu corpo, estendido na cama,
esgota o pranto da tarde, como se todas
as sombras do dia se juntassem à sua
volta. Poderia estender a mão, e apanhar
a flor; mas receia que outra mão se
interponha entre ela e a rosa, e a puxe
para o reino em que nenhum pássaro canta.
Por vezes, um soluço agita-lhe o ombro;
e é o seu único movimento, como
se não tivesse força para se erguer,
puxar os cabelos para trás da cabeça,
e olhar o vazio, onde se esconde
o destino que a assombra. «Pode ser
o destino da rosa», digo-lhe; e cito
Ronsard, para que ela me ouça, e siga
o rumo do pássaro, o que voou junto
à janela, e preferiu subir até ao azul
a entrar no mundo que não lhe pertence.
Mas permanece deitada, e fez desta
cama o seu ninho, como se pudesse nascer
daí para uma outra vida, ou uma outra rosa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 74 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
991
Nuno Júdice
Arrufos
A rosa caída não respira, como um pássaro
morto; e o seu corpo, estendido na cama,
esgota o pranto da tarde, como se todas
as sombras do dia se juntassem à sua
volta. Poderia estender a mão, e apanhar
a flor; mas receia que outra mão se
interponha entre ela e a rosa, e a puxe
para o reino em que nenhum pássaro canta.
Por vezes, um soluço agita-lhe o ombro;
e é o seu único movimento, como
se não tivesse força para se erguer,
puxar os cabelos para trás da cabeça,
e olhar o vazio, onde se esconde
o destino que a assombra. «Pode ser
o destino da rosa», digo-lhe; e cito
Ronsard, para que ela me ouça, e siga
o rumo do pássaro, o que voou junto
à janela, e preferiu subir até ao azul
a entrar no mundo que não lhe pertence.
Mas permanece deitada, e fez desta
cama o seu ninho, como se pudesse nascer
daí para uma outra vida, ou uma outra rosa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 74 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
morto; e o seu corpo, estendido na cama,
esgota o pranto da tarde, como se todas
as sombras do dia se juntassem à sua
volta. Poderia estender a mão, e apanhar
a flor; mas receia que outra mão se
interponha entre ela e a rosa, e a puxe
para o reino em que nenhum pássaro canta.
Por vezes, um soluço agita-lhe o ombro;
e é o seu único movimento, como
se não tivesse força para se erguer,
puxar os cabelos para trás da cabeça,
e olhar o vazio, onde se esconde
o destino que a assombra. «Pode ser
o destino da rosa», digo-lhe; e cito
Ronsard, para que ela me ouça, e siga
o rumo do pássaro, o que voou junto
à janela, e preferiu subir até ao azul
a entrar no mundo que não lhe pertence.
Mas permanece deitada, e fez desta
cama o seu ninho, como se pudesse nascer
daí para uma outra vida, ou uma outra rosa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 74 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
991
Nuno Júdice
Filosofia
Construo o pensamento aos pedaços: cada
ideia que ponho em cima da mesa é uma parte do
que penso; e, ao ver como cada fragmento se
torna um todo, volto a parti-lo, para evitar
conclusões.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 42 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
ideia que ponho em cima da mesa é uma parte do
que penso; e, ao ver como cada fragmento se
torna um todo, volto a parti-lo, para evitar
conclusões.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 42 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 565
Nuno Júdice
Anatomia
Olho este rosto, com a surpresa
da sua imobilidade. Que suspiro suspendem
os seus lábios? Que imagem se esconde
sob as pálpebras fechadas? Digo-lhe:
«Amo-te». Como se a pudesse
despertar. São outras as palavras
que a poderiam trazer de volta,
dissipando-se em nuvem no céu
da sua cabeça. «Nenhuma vida passa
duas vezes
pelo mesmo lugar», digo-lhe. E ela
sorri, como se me tivesse
ouvido.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 89 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
da sua imobilidade. Que suspiro suspendem
os seus lábios? Que imagem se esconde
sob as pálpebras fechadas? Digo-lhe:
«Amo-te». Como se a pudesse
despertar. São outras as palavras
que a poderiam trazer de volta,
dissipando-se em nuvem no céu
da sua cabeça. «Nenhuma vida passa
duas vezes
pelo mesmo lugar», digo-lhe. E ela
sorri, como se me tivesse
ouvido.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 89 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 062