Poemas neste tema
Vida e Existência
Cruz e Sousa
PRODÍGIO!
Últimos Sonetos
Como o Rei Lear não sentes a tormenta
que te desaba na fatal cabeça!
(Que o céu d'estrelas todo resplandeça.)
A tua alma, na Dor, mais nobre aumenta.
A Desventura mais sanguinolenta
sobre os teus ombros impiedosa desça,
seja a treva mais funda e mais espessa,
Todo o teu ser em músicas rebenta.
Em músicas e em flores infinitas
de aromas e de formas esquisitas
e de um mistério singular, nevoento...
Ah! só da Dor o alto farol supremo,
consegue iluminar, de extremo a extremo,
o estranho mar genial do Sentimento!
Como o Rei Lear não sentes a tormenta
que te desaba na fatal cabeça!
(Que o céu d'estrelas todo resplandeça.)
A tua alma, na Dor, mais nobre aumenta.
A Desventura mais sanguinolenta
sobre os teus ombros impiedosa desça,
seja a treva mais funda e mais espessa,
Todo o teu ser em músicas rebenta.
Em músicas e em flores infinitas
de aromas e de formas esquisitas
e de um mistério singular, nevoento...
Ah! só da Dor o alto farol supremo,
consegue iluminar, de extremo a extremo,
o estranho mar genial do Sentimento!
1 851
Cruz e Sousa
PRESA DO ÓDIO
Últimos Sonetos
Da tu'alma a funda galeria
descendo às vezes, eu às vezes sinto
que como o mais feroz lobo faminto
teu ódio baixo de alcatéia espia.
Do desespero a noite cava e fria,
de boêmias vis o pérfido absinto
pôs no teu ser um negro labirinto,
desencadeou sinistra ventania.
Desencadeou a ventania rouca,
surda, tremenda, desvairada, louca,
que a tu'alma abalou de lado a lado.
Que te inflamou de cóleras supremas
e deixou-te nas trágicas algemas
do teu ódio sangrento acorrentado!
Da tu'alma a funda galeria
descendo às vezes, eu às vezes sinto
que como o mais feroz lobo faminto
teu ódio baixo de alcatéia espia.
Do desespero a noite cava e fria,
de boêmias vis o pérfido absinto
pôs no teu ser um negro labirinto,
desencadeou sinistra ventania.
Desencadeou a ventania rouca,
surda, tremenda, desvairada, louca,
que a tu'alma abalou de lado a lado.
Que te inflamou de cóleras supremas
e deixou-te nas trágicas algemas
do teu ódio sangrento acorrentado!
2 437
Paulo Leminski
LÁPIDE 2
epitáfio para a alma
aqui jaz um artista
mestre em desastres
viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
deus tenha pena
dos seus disfarces
aqui jaz um artista
mestre em desastres
viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
deus tenha pena
dos seus disfarces
2 609
Paulo Leminski
LÁPIDE 2
epitáfio para a alma
aqui jaz um artista
mestre em desastres
viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
deus tenha pena
dos seus disfarces
aqui jaz um artista
mestre em desastres
viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
deus tenha pena
dos seus disfarces
2 609
Paulo Leminski
um bom poema
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
4 934
Cruz e Sousa
QUANDO SERÁ?!
Últimos Sonetos
Quando será que tantas almas duras
em tudo, já libertas, já lavadas
nas águas imortais, iluminadas
do sol do Amor, hão de ficar bem puras?
Quando será que as límpidas frescuras
dos claros raios de ondas estreladas
dos céus do Bem, hão de deixar clareadas
almas vis, almas vãs, almas escuras?
Quando será que toda a vasta Esfera,
toda esta constelada e azul Quimera,
todo este firmamento estranho e mudo,
tudo que nos abraças e nos esmaga,
quando será que uma resposta vaga,
mas tremenda, hão de dar de tudo, tudo?!
Quando será que tantas almas duras
em tudo, já libertas, já lavadas
nas águas imortais, iluminadas
do sol do Amor, hão de ficar bem puras?
Quando será que as límpidas frescuras
dos claros raios de ondas estreladas
dos céus do Bem, hão de deixar clareadas
almas vis, almas vãs, almas escuras?
Quando será que toda a vasta Esfera,
toda esta constelada e azul Quimera,
todo este firmamento estranho e mudo,
tudo que nos abraças e nos esmaga,
quando será que uma resposta vaga,
mas tremenda, hão de dar de tudo, tudo?!
2 177
Cruz e Sousa
QUANDO SERÁ?!
Últimos Sonetos
Quando será que tantas almas duras
em tudo, já libertas, já lavadas
nas águas imortais, iluminadas
do sol do Amor, hão de ficar bem puras?
Quando será que as límpidas frescuras
dos claros raios de ondas estreladas
dos céus do Bem, hão de deixar clareadas
almas vis, almas vãs, almas escuras?
Quando será que toda a vasta Esfera,
toda esta constelada e azul Quimera,
todo este firmamento estranho e mudo,
tudo que nos abraças e nos esmaga,
quando será que uma resposta vaga,
mas tremenda, hão de dar de tudo, tudo?!
Quando será que tantas almas duras
em tudo, já libertas, já lavadas
nas águas imortais, iluminadas
do sol do Amor, hão de ficar bem puras?
Quando será que as límpidas frescuras
dos claros raios de ondas estreladas
dos céus do Bem, hão de deixar clareadas
almas vis, almas vãs, almas escuras?
Quando será que toda a vasta Esfera,
toda esta constelada e azul Quimera,
todo este firmamento estranho e mudo,
tudo que nos abraças e nos esmaga,
quando será que uma resposta vaga,
mas tremenda, hão de dar de tudo, tudo?!
2 177
Paulo Leminski
Aço e Flor
Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.
4 290
Cruz e Sousa
SUPREMO VERBO
Últimos Sonetos
- Vai, Peregrino do caminho santo,
faz da tu'alma lâmpada do cego,
iluminando, pego sobre pego,
as invisíveis amplidões do Pranto.
Ei-lo, do Amor o cálix sacrossanto!
Bebe-o, feliz, nas tuas mãos o entrego...
És o filho leal, que eu não renego,
que defendo nas dobras do meu manto.
Assim ao Poeta a Natureza fala!
enquanto ele estremece ao escutá-la,
transfigurado de emoção, sorrindo...
Sorrindo a céus que vão se desvendando,
a mundos que se vão multiplicando,
a portas de ouro que se vão abrindo!
- Vai, Peregrino do caminho santo,
faz da tu'alma lâmpada do cego,
iluminando, pego sobre pego,
as invisíveis amplidões do Pranto.
Ei-lo, do Amor o cálix sacrossanto!
Bebe-o, feliz, nas tuas mãos o entrego...
És o filho leal, que eu não renego,
que defendo nas dobras do meu manto.
Assim ao Poeta a Natureza fala!
enquanto ele estremece ao escutá-la,
transfigurado de emoção, sorrindo...
Sorrindo a céus que vão se desvendando,
a mundos que se vão multiplicando,
a portas de ouro que se vão abrindo!
2 886
Cruz e Sousa
VOZ FUGITIVA
Últimos Sonetos
Às vezes na tu'alma, que adormece
tanto e tão fundo, alguma voz escuto
de timbre emocional, claro, impoluto
que uma voz bem amiga me parece.
E fico mudo a ouvi-la, como a prece
de um meigo coração que está de luto
e livre, já, de todo o mal corrupto,
mesmo as afrontas mais cruéis esquece.
Mas outras vezes, sempre em vão, procuro
dessa voz singular o timbre puro,
as essências do céu maravilhosas.
Procuro ansioso, inquieto, alvoroçado,
mas tudo na tu'alma está calado,
no silêncio fatal das nebulosas.
Às vezes na tu'alma, que adormece
tanto e tão fundo, alguma voz escuto
de timbre emocional, claro, impoluto
que uma voz bem amiga me parece.
E fico mudo a ouvi-la, como a prece
de um meigo coração que está de luto
e livre, já, de todo o mal corrupto,
mesmo as afrontas mais cruéis esquece.
Mas outras vezes, sempre em vão, procuro
dessa voz singular o timbre puro,
as essências do céu maravilhosas.
Procuro ansioso, inquieto, alvoroçado,
mas tudo na tu'alma está calado,
no silêncio fatal das nebulosas.
1 685
Paulo Leminski
DONNA MI PRIEGA 88
se amor é troca
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios
no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mas ainda não é ódio?
a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cindo mil sentidos
está livre de mal-entendidos?
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios
no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mas ainda não é ódio?
a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cindo mil sentidos
está livre de mal-entendidos?
2 369
Felipe Larson
SEM CONSEQÜÊNCIAS
Depois de tanto tempo, fui lembrar de você.
Que saudades do teu beijo, eu preciso te ver!
Eu te liguei esta noite, pra saber como você está?
Está tão diferente talvez já me esqueceu
Durante a chuva, me traz saudades.
E de cada pingo de chuva revelará um segredo
Nós aprendemos um com o outro o que é amar
E também descobrimos o que ninguém descobriu
Seja o que for
Vamos começar de novo
Seja o que for
Fomos feitos um pro outro
Houve um tempo que tudo era bom
E nada, mas nada nos machucava.
Mas ela veio assim, tão de repente.
E logo virou, e só deixou um adeus.
Seja o que for
Vamos começar de novo
Seja o que for
Fomos feitos um pro outro
Que saudades do teu beijo, eu preciso te ver!
Eu te liguei esta noite, pra saber como você está?
Está tão diferente talvez já me esqueceu
Durante a chuva, me traz saudades.
E de cada pingo de chuva revelará um segredo
Nós aprendemos um com o outro o que é amar
E também descobrimos o que ninguém descobriu
Seja o que for
Vamos começar de novo
Seja o que for
Fomos feitos um pro outro
Houve um tempo que tudo era bom
E nada, mas nada nos machucava.
Mas ela veio assim, tão de repente.
E logo virou, e só deixou um adeus.
Seja o que for
Vamos começar de novo
Seja o que for
Fomos feitos um pro outro
802
Álvares de Azevedo
CANTIGA DE VIOLA
Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte
O PASTOR MORIBUNDO
A existência dolorida
Cansa em meu peito: eu bem sei
Que morrerei...
Contudo da minha vida
Podia alentar-se a flor
No teu amor!
Do coração nos refolhos
Solta um ai! num teu suspiro
Eu respiro...
Mas fita ao menos teus olhos
Sobre os meus... eu quero-os ver
Para morrer!
Guarda contigo a viola
onde teus olhos cantei...
E suspirei!
Só a idéia me consola
Que morro como vivi...
Morro por ti!
Se um dia tu'alma pura
Tiver saudades de mim,
Meu serafim!
Talvez notas de ternura
Inspirem o doudo amor
Do trovador!
Primeira Parte
O PASTOR MORIBUNDO
A existência dolorida
Cansa em meu peito: eu bem sei
Que morrerei...
Contudo da minha vida
Podia alentar-se a flor
No teu amor!
Do coração nos refolhos
Solta um ai! num teu suspiro
Eu respiro...
Mas fita ao menos teus olhos
Sobre os meus... eu quero-os ver
Para morrer!
Guarda contigo a viola
onde teus olhos cantei...
E suspirei!
Só a idéia me consola
Que morro como vivi...
Morro por ti!
Se um dia tu'alma pura
Tiver saudades de mim,
Meu serafim!
Talvez notas de ternura
Inspirem o doudo amor
Do trovador!
2 312
Felipe Larson
HASSYN
Passo a passo, perco o passo
Pra ver se passo, em algum lugar
Sopra o vento, bem mais lento
Sinto o vento, a me beijar
Uma estrela, qual estrela?
É tão serena, a me guiar
Cai a noite, tão pequena
Nem tão ingênua, a me conquistar
Isso me faz quer ter mais
Do que o mundo pode oferecer
Isso me faz querer ter mais, e mais, e mais
Um pensamento, a qualquer momento
Pode até dar medo, mas sem me entregar
E o que vejo, é teu desejo
E sua falta, me faz calar
Passa o tempo, não tem jeito
Todo esse tempo, me fez mudar
Amanhã quando o sol voltar a brilhar
Isso me faz quer ter mais
Do que o mundo pode oferecer
Isso me faz querer ter mais, e mais, e mais
E essa força estranha
Que me comanda
Isso me faz quer ter mais
Do que o mundo pode oferecer
Isso me faz querer ter mais, e mais, e mais
Pra ver se passo, em algum lugar
Sopra o vento, bem mais lento
Sinto o vento, a me beijar
Uma estrela, qual estrela?
É tão serena, a me guiar
Cai a noite, tão pequena
Nem tão ingênua, a me conquistar
Isso me faz quer ter mais
Do que o mundo pode oferecer
Isso me faz querer ter mais, e mais, e mais
Um pensamento, a qualquer momento
Pode até dar medo, mas sem me entregar
E o que vejo, é teu desejo
E sua falta, me faz calar
Passa o tempo, não tem jeito
Todo esse tempo, me fez mudar
Amanhã quando o sol voltar a brilhar
Isso me faz quer ter mais
Do que o mundo pode oferecer
Isso me faz querer ter mais, e mais, e mais
E essa força estranha
Que me comanda
Isso me faz quer ter mais
Do que o mundo pode oferecer
Isso me faz querer ter mais, e mais, e mais
634
Álvares de Azevedo
EPITÁFIO
NO TÚMULO DO MEU AMIGO
JOÃO BAPTISTA DA SILVA PEREIRA JÚNIOR
Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte
Perdão, meu Deus, se a túnica da vida...
Insano profanei-a nos amores!
Se da c'roa dos sonhos perfumados
Eu próprio desfolhei as róseas flores!
No vaso impuro corrompeu-se o néctar,
A argila da existência desbotou-me...
O sol de tua gloria abriu-me as pálpebras,
Da nódoa das paixões purificou-me!
E quantos sonhos na ilusão da vida!
Quanta esperança no futuro ainda!
Tudo calou-se pela noite eterna...
E eu vago errante e só na treva infinda...
Alma em fogo, sedenta de infinito,
Num mundo de visões o vôo abrindo,
Como o vento do mar no céu noturno
Entre as nuvens de Deus passei dormindo!
A vida é noite! o sol tem véu de sangue...
Tateia a sombra a geração descrida!...
Acorda-te, mortal! é no sepulcro
Que a larva humana se desperta à vida!
Quando as harpas do peito a morte estala,
Um treno de pavor soluça e voa...
E a nota divinal que rompe as fibras
Nas dulias angélicas ecoa!
JOÃO BAPTISTA DA SILVA PEREIRA JÚNIOR
Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte
Perdão, meu Deus, se a túnica da vida...
Insano profanei-a nos amores!
Se da c'roa dos sonhos perfumados
Eu próprio desfolhei as róseas flores!
No vaso impuro corrompeu-se o néctar,
A argila da existência desbotou-me...
O sol de tua gloria abriu-me as pálpebras,
Da nódoa das paixões purificou-me!
E quantos sonhos na ilusão da vida!
Quanta esperança no futuro ainda!
Tudo calou-se pela noite eterna...
E eu vago errante e só na treva infinda...
Alma em fogo, sedenta de infinito,
Num mundo de visões o vôo abrindo,
Como o vento do mar no céu noturno
Entre as nuvens de Deus passei dormindo!
A vida é noite! o sol tem véu de sangue...
Tateia a sombra a geração descrida!...
Acorda-te, mortal! é no sepulcro
Que a larva humana se desperta à vida!
Quando as harpas do peito a morte estala,
Um treno de pavor soluça e voa...
E a nota divinal que rompe as fibras
Nas dulias angélicas ecoa!
2 552
Álvares de Azevedo
EPITÁFIO
NO TÚMULO DO MEU AMIGO
JOÃO BAPTISTA DA SILVA PEREIRA JÚNIOR
Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte
Perdão, meu Deus, se a túnica da vida...
Insano profanei-a nos amores!
Se da c'roa dos sonhos perfumados
Eu próprio desfolhei as róseas flores!
No vaso impuro corrompeu-se o néctar,
A argila da existência desbotou-me...
O sol de tua gloria abriu-me as pálpebras,
Da nódoa das paixões purificou-me!
E quantos sonhos na ilusão da vida!
Quanta esperança no futuro ainda!
Tudo calou-se pela noite eterna...
E eu vago errante e só na treva infinda...
Alma em fogo, sedenta de infinito,
Num mundo de visões o vôo abrindo,
Como o vento do mar no céu noturno
Entre as nuvens de Deus passei dormindo!
A vida é noite! o sol tem véu de sangue...
Tateia a sombra a geração descrida!...
Acorda-te, mortal! é no sepulcro
Que a larva humana se desperta à vida!
Quando as harpas do peito a morte estala,
Um treno de pavor soluça e voa...
E a nota divinal que rompe as fibras
Nas dulias angélicas ecoa!
JOÃO BAPTISTA DA SILVA PEREIRA JÚNIOR
Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte
Perdão, meu Deus, se a túnica da vida...
Insano profanei-a nos amores!
Se da c'roa dos sonhos perfumados
Eu próprio desfolhei as róseas flores!
No vaso impuro corrompeu-se o néctar,
A argila da existência desbotou-me...
O sol de tua gloria abriu-me as pálpebras,
Da nódoa das paixões purificou-me!
E quantos sonhos na ilusão da vida!
Quanta esperança no futuro ainda!
Tudo calou-se pela noite eterna...
E eu vago errante e só na treva infinda...
Alma em fogo, sedenta de infinito,
Num mundo de visões o vôo abrindo,
Como o vento do mar no céu noturno
Entre as nuvens de Deus passei dormindo!
A vida é noite! o sol tem véu de sangue...
Tateia a sombra a geração descrida!...
Acorda-te, mortal! é no sepulcro
Que a larva humana se desperta à vida!
Quando as harpas do peito a morte estala,
Um treno de pavor soluça e voa...
E a nota divinal que rompe as fibras
Nas dulias angélicas ecoa!
2 552
Arthur Rimbaud
CASTELOS, ESTAÇÕES
Castelos, estações,
Que almas é sem senões?
Castelos, estações.
Eu fiz o mágico estudo
Da Felicidade, eis tudo.
Que eu possa ouvir outra vez
Cantar seu galo gaulês.
Desejos? Dores? Olvida.
Ela é a luz da minha vida.
O Encanto entrou em minha alma.
Doravante tudo é calma.
O que esperar do meu verso?
Que voe pelo universo.
Castelos, estações!
E se me arrastar o mal,
Seu fel me será fatal.
Que a morte com seu desprezo
Me liberte desse peso!
- Castelos, estações!
Que almas é sem senões?
Castelos, estações.
Eu fiz o mágico estudo
Da Felicidade, eis tudo.
Que eu possa ouvir outra vez
Cantar seu galo gaulês.
Desejos? Dores? Olvida.
Ela é a luz da minha vida.
O Encanto entrou em minha alma.
Doravante tudo é calma.
O que esperar do meu verso?
Que voe pelo universo.
Castelos, estações!
E se me arrastar o mal,
Seu fel me será fatal.
Que a morte com seu desprezo
Me liberte desse peso!
- Castelos, estações!
3 760
Antero de Quental
Consolai
Se eu pudesse, diria eternamente
Aos flagelados e desiludidos,
Que sobre a Terra os grandes bens perdidos
São a posse da luz resplancente.
A dor mais rude, a mágoa mais pungente,
Os soluços, os prantos, os gemidos
Entre as almas são louros repartidos
Muito longe da Terra impenitente.
Oh! se eu pudesse, iria em altos brados
Libertar corações escravizados
Sob o guante de enigmas profundos!
Mas, dizei-lhes, ó vós que estais na Terra,
Que a luz espiritual da dor encerra
A ventura imortal de outros mundos!
Aos flagelados e desiludidos,
Que sobre a Terra os grandes bens perdidos
São a posse da luz resplancente.
A dor mais rude, a mágoa mais pungente,
Os soluços, os prantos, os gemidos
Entre as almas são louros repartidos
Muito longe da Terra impenitente.
Oh! se eu pudesse, iria em altos brados
Libertar corações escravizados
Sob o guante de enigmas profundos!
Mas, dizei-lhes, ó vós que estais na Terra,
Que a luz espiritual da dor encerra
A ventura imortal de outros mundos!
1 703
Charles Baudelaire
PERFUME EXÓTICO
Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Vejo abrirem-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.
Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.
Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastror e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,
Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que à beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Vejo abrirem-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.
Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.
Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastror e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,
Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que à beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.
5 277
Álvares de Azevedo
MINHA MUSA
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
Minha musa é a lembrança
Dos sonhos em que eu vivi,
É de uns lábios a esperança
E a saudade que eu nutri!
É a crença que alentei,
As luas belas que amei
E os olhos por quem morri!
Os meus cantos de saudade
São amores que eu chorei,
São lírios da mocidade
Que murcham porque te amei!
As minhas notas ardentes
São as lágrimas dementes
Que em teu seio derramei!
Do meu outono os desfolhos,
Os astros do teu verão,
A languidez de teus olhos
Inspiram minha canção...
Sou poeta porque és bela,
Tenho em teus olhos, donzela,
A musa do coração!
Se na lira voluptuosa
Entre as fibras que estalei
Um dia atei uma rosa
Cujo aroma respirei...
Foi nas noites de ventura,
Quando em tua formosura
Meus lábios embriaguei!
E se tu queres, donzela,
Sentir minh'alma vibrar,
Solta essa trança tão bela,
Quero nela suspirar!
E dá repousar-me teu seio...
Ouvirás no devaneio
A minha lira cantar!
Segunda Parte
Minha musa é a lembrança
Dos sonhos em que eu vivi,
É de uns lábios a esperança
E a saudade que eu nutri!
É a crença que alentei,
As luas belas que amei
E os olhos por quem morri!
Os meus cantos de saudade
São amores que eu chorei,
São lírios da mocidade
Que murcham porque te amei!
As minhas notas ardentes
São as lágrimas dementes
Que em teu seio derramei!
Do meu outono os desfolhos,
Os astros do teu verão,
A languidez de teus olhos
Inspiram minha canção...
Sou poeta porque és bela,
Tenho em teus olhos, donzela,
A musa do coração!
Se na lira voluptuosa
Entre as fibras que estalei
Um dia atei uma rosa
Cujo aroma respirei...
Foi nas noites de ventura,
Quando em tua formosura
Meus lábios embriaguei!
E se tu queres, donzela,
Sentir minh'alma vibrar,
Solta essa trança tão bela,
Quero nela suspirar!
E dá repousar-me teu seio...
Ouvirás no devaneio
A minha lira cantar!
3 000
Cruz e Sousa
GRANDEZA OCULTA
Últimos Sonetos
Estes vão para as guerras inclementes,
os absurdos heróis sanguinolentos,
alvoroçados, tontos e sedentos
do clamor e dos ecos estridentes.
Aqueles para os frívolos e ardentes
prazeres de acres inebriamentos:
vinhos, mulheres, arrebatamentos
de luxúrias carnais, impenitentes.
Mas Tu, que na alma a imensidade fechas,
que abriste com teu Gênio fundas brechas
no mundo vil onde a maldade exulta,
ó delicado espírito de Lendas!
fica nas tuas Graças estupendas,
no sentimento da grandeza oculta!
Estes vão para as guerras inclementes,
os absurdos heróis sanguinolentos,
alvoroçados, tontos e sedentos
do clamor e dos ecos estridentes.
Aqueles para os frívolos e ardentes
prazeres de acres inebriamentos:
vinhos, mulheres, arrebatamentos
de luxúrias carnais, impenitentes.
Mas Tu, que na alma a imensidade fechas,
que abriste com teu Gênio fundas brechas
no mundo vil onde a maldade exulta,
ó delicado espírito de Lendas!
fica nas tuas Graças estupendas,
no sentimento da grandeza oculta!
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